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Operação feminina

História de: Maria Elisabete Torres de Oliveira
Autor: MetroSP
Publicado em: 21/06/2018

Sinopse

Maria Elizabete Torres de Oliveira nasceu na cidade de Piratininga, interior de São Paulo, no dia 12 de julho de 1956. Primogênita de cinco irmãos. Casou-se aos 18 anos com Paulo com quem teve 2 filhos, a primeira aos 18 e o segundo nove anos depois. Por conta do comportamento opressor do pai, começou a trabalhar desde cedo e assegurar o lugar de sua independência financeira. Começou a trabalhar com 12 anos como babá, foi soldadora de radiador na Ibrape e vendedora na Jumbo Eletro. Em 1984 ingressou na Companhia do Metropolitano de São Paulo como funcionária de estação. Um ano e meio mais tarde, aplicou para a primeira seleção ao cargo de operadora de trem da empresa, função que exerce até 2018. Elisabete relata sobre as atribuições da função de operadora de trem, como a família, os colegas de trabalho e a população convivem sua rotina em uma atividade técnica e como vê o crescimento da cidade e desenvolvimento da empresa da perspectiva da função dianteira do serviço prestado pela empresa.

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História completa

Maria Elizabete Torres de Oliveira nasceu na cidade de Piratininga, interior de São Paulo, no dia 12 de julho de 1956, primogênita de cinco irmãos. Aos 8 anos mudou-se com sua família, para a capital e até firmarem residência em Guarulhos, moraram nos bairros Tucuruvi e Vila Gustavo. Mesmo com um pai bastante enérgico, Elisabete brincou bastante na infância, brincadeiras de rua, aquelas que juntavam um monte de crianças em roda. Na escola, tirava excelentes notas e tinha muitos amigos, hábito que ela cultiva até a vida adulta. Na juventude, seu pai permitia saídas a passeio, seus amigos eram os colegas de escola e quando os irmãos saíam, ela podia acompanha-los, também fazia artes marciais. À essa época já declarava seu desejo de independência, queria casar, ter dois filhos, dirigir... ter tudo o que não teve em casa.

 

Começou a trabalhar aos 12 anos, como babá, para ter seu sustento e ajudar a mãe. Aos 14 para a Ibrape, empresa da Philips, soldar radiador na linha de produção de válvulas PL 36 para televisão. Com o salário da Ibrape, ajudou a mãe a sustentar os irmãos e não parou mais de trabalhar. Trocou o emprego na Ibrape pela Jumbo Eletro. Após uma briga violenta com o pai, “entregou-se” ao namorado porque queria sair de casa, e engravidou. Mesmo com a pressão da vizinhança, Elisabete não casou, porque sustentava seus irmãos e se via capaz de sustentar o filho. Ainda assim, o namorado não desistiu da relação e a visitava todos os dias. Por conta da paternidade, o namorado foi, então, dispensado do exército e por fim, após o nascimento da filha, casaram. Ela tinha 18 anos, e encontrou na família do marido a amorosidade que não teve em casa. Seu sogro, foi seu segundo pai. E seu pai, foi um bom avô. Um ano e meio depois do nascimento da primeira filha, Elisabete engravidou novamente, mas o bebê faleceu com 23 dias de vida o que a trouxe muita tristeza, a ponto de não querer mais ter filhos. Entretanto, oito anos depois, ela engravidou novamente e concretizou seu sonho de ter dois filhos. Um ano depois do nascimento do segundo filho, Elisabete deixou o trabalho no Jumbo Eletro para ingressar no Metrô.

 

A aplicação para seleção de trabalho no Metrô veio da indicação de um irmão, que já trabalhava na empresa a informou que sua vaga estaria disponível porque ele se desligaria para ingressar na polícia militar. Então, ela foi participar do processo, que tinha muitos concorrentes e era bastante lento e rigoroso.

 

Depois de admitida, foi trabalhar como funcionária de estação na linha Norte/Sul, estação Carandiru e outras duas. Um ano e um mês depois ela começou o treinamento para operadora de trens, na primeira turma oferecida para mulheres exercerem este cargo dentro da empresa. Esta conquista foi fruto da coragem de colegas metroviárias que brigaram pelo espaço e abriram caminho para as mulheres que vieram depois. Elisabete lamenta, entretanto, que em 2018, apena 17% do quadro de operadores de trem é composto por mulheres; seu desejo é que fosse 50%, pelo menos, ainda que esteja a 32 anos na função, e ainda suspira, “quem sabe daqui há 30 anos”. Ela acredita que os direitos e oportunidades devem ser iguais, para todas as pessoas, independente de gênero ou orientação sexual.

 

Quando assumiu o cargo para ser operadora, Elisabete relata que a empresa não tinha vestiário para mulheres nas estações ou pátios. Havia somente um banheiro na estação Penha com vestiário para todos que trabalhavam na Linha Leste/Oeste, e os colegas homens faziam plantão na porta para que ninguém utilizasse o banheiro enquanto as mulheres lá estivessem. No dia-a-dia com colegas homens, até já ouviu piadinhas machistas, mas se fez de surda e seguiu em frente.

 

A rotina como operadora de trem no Metrô é organizada em escalas e a família de Elisabete se acostumou com suas ausências em comemorações e datas festivas. Certa vez, seu filho, com oito anos de idade, ligou para o chefe dela e pediu para que ele dispensasse sua mãe para passar o Natal em casa aquele ano. O pedido foi atendido e naquele ano o supervisor dispensou todos os casados com filhos para passarem a meia noite com suas famílias. Já o ano novo, do mesmo ano, a família foi para praia, e ela, foi trabalhar. É no ambiente de trabalho, que por 33 anos Elisabete tem compartilhado com colegas momentos especiais, nascimento de filhos e netos, comemorações de datas festivas e aniversários, e a essas pessoas, Elizabete considera sua segunda família.

 

Desde o começo das atividades como operadora de trem, Elisabete fez questão de participar de testes com novos trens ou operação assistida a novas linhas. A atividade de operadora compreende não só a direção do trem, os avisos para os passageiros, mas também a intervenção na manutenção do trem durante a viagem, quando necessário, seja correção de portas travadas, deslocamento de sancas de luminárias dentro dos trens, averiguação de acionamento do botão de emergência, reboque de trem, etc. Nesses anos todos, ela afirma que já pegou as “malícias” do trem, identifica os sons, os movimentos, e consegue atuar com segurança e eficiência na rotina da direção do trem, a ponto se candidatar a participar de reuniões de avaliação de trens novos e se posicionar sobre as características positivas ou não do “novo” instrumento de trabalho.

 

Elisabete diz se sentir muito agraciada por trabalhar na empresa e ter e ter tido as oportunidades que lhe foram apresentadas. Reconhece que esta atividade permitiu que ela testemunhasse o crescimento da cidade, especialmente das zonas Leste e Oeste, mas ela também participou dos testes e inaugurações dos trens da Linha 2-Verde. Comenta ainda que até hoje tem pessoas que se surpreendem, muitas vezes positivamente, ao verem uma mulher operando o trem. Já ganhou presentes, cartaz de felicitações, ainda que no começo houveram muitas críticas.

 

Ao longo dos seus 33 anos de carreira, Elisabete participou de algumas greves, também porque acredita que as coisas que se quer na vida não vêm de mão beijada, então tem que se brigar por elas. Reconhece as diferenças de políticas de trabalho em relação às obras e operação terceirizadas e como essas políticas impactam na rotina e segurança do trabalhador e do usuário do sistema metroviário.

 

Nas comemorações de 50 do Metrô de São Paulo, Elisabete reconhece a evolução e importância da empresa mesmo com todas as dificuldades enfrentadas. Destaca que é necessário manter o foco na qualidade, que no começo era muito mais declarado, até pela rigidez das cobranças do trabalho. Ela ainda veste a camisa da empresa e se diz feliz em fazer parte desta história e diz que gostaria que tivesse mais metrô, mais linhas, para servir a população que já é tão castigada pela lotação do transporte coletivo, por ser o melhor meio de transporte que existe.

 

Profissionalmente, ela pretende trabalhar na empresa até 2024, e depois se aposentar. Reconhece-se como uma mulher batalhadora e que o trabalho no Metrô lhe deu condições para lutar pelas conquistas de sua vida. Em 2018, Elisabete continua casada com o marido, pai de seus filhos, em uma relação baseada na parceria, confiança e no apoio mútuo, está realizada com suas conquistas da casa própria, casa na praia, a felicidade dos seus filhos e a saúde dos netos.

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