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História

Ontem e hoje, sempre Carnaval

História de: Maria Apparecida Urbano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/10/2012

Sinopse

Quando era criança, Maria Apparecida Urbano não se aguentava de ansiedade à espera do Carnaval, que tomava conta das ruas e dos clubes da região do Brás, em São Paulo, onde morava. A expectativa por vestir a fantasia feita semanas antes pela mãe e sair pulando junto aos blocos e bailes – como o do famoso Cine Oberdan – era tanta que ela fez da festa a profissão com que ficaria conhecida. Mãe de três filhos e atuando como decoradora, Maria Apparecida acabou se tornando carnavalesca de escolas de samba. Hoje, se dedica a escrever livros e a dar palestras sobre a história da folia na cidade. Em seu depoimento, ela fala em detalhes das diferenças entre as festas atuais e as de seu tempo de menina.

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História completa

Nasci na cidade de Araraquara, interior de São Paulo, em 1934. Nós viemos para São Paulo eu devia ter cinco anos de idade. Fomos morar no Alto do Pari, entre Canindé e Alto do Pari. O Brás era um bairro maravilhoso, era uma coisa fora de série, todo mundo era muito amigo, as ruas todas cheias de árvores. Nós voltávamos da escola, quem trabalhava também, geralmente sempre a essa hora, cinco, seis horas, jantávamos muito cedo e ficávamos sentados na rua, nas calçadas. 

 

Todas as casas costumavam, durante o ano, guardar madeiras, aquelas caixas de madeira de feira, todo mundo juntava e, quando chegava nessa festa junina, nós colocávamos na rua. Cada casa fazia a sua fogueira, juntava duas, três casas para ter uma fogueira maior. E ali nós nos divertíamos muito, a criançada aproveitava, pulava amarelinha, pulava corda, e fazíamos pipoca. São coisas muito simples porque, naquela época, não se tinha muito luxo, as famílias eram mesmo de classe média para pobre.

 

E o Brás era muito animado. Tirando essa época, era época de Carnaval também, alegria geral, porque o Brás, ali entre Alto do Pari e o Brás, eram bairros de imigrantes, imigrantes italianos, portugueses, espanhóis, gente muito alegre, e gostavam de cantar, de brincar. Época de Carnaval, meses antes do Carnaval, todo mundo se preparava para a fantasia, principalmente para a garotada. Toda a garotada tinha a sua fantasia feita em casa por mãe, pela avó, e não tinha aquela inibição de sair fantasiado na rua, a gente não via a hora que chegasse aquela semana para botar a fantasia. Todos os dias, a gente ia e ficava na rua, ia para a casa dos vizinhos e exibia a sua fantasia para o amigo que morava mais longe. E o Carnaval era na Avenida Rangel Pestana, Celso Garcia, Largo da Concórdia e as ruas ali por perto.

 

Eu me lembro dos 14 anos meus, trabalhando na Casa Ibéria, nós reunimos um grupinho, fizemos uma roupa toda igual, formamos um bloco para ir ao baile no Cine Oberdan, ali perto do Largo da Concórdia, e foi o grupo todo. A gente dançava tudo junto, aquele bloco, não podia se desgrudar, nós éramos um bloco. E esses clubes também faziam assim: quem montava um bloco concorria a prêmio, o melhor bloco, com mais animação, que cantava mais, era mais alegre, ganhavam um prêmio também.

 

Carnaval antigo foi maravilhoso, todo mundo que morava em São Paulo participava do Carnaval. Hoje, a minoria. São Paulo cresceu muito, muita gente, a maioria prefere passear no Carnaval, fazer seu descanso e não participar mais do Carnaval. Hoje, você não vê mais uma fantasia na rua. O que nós nos orgulhávamos de fazer, uma fantasia de pierrô, colombina, e sair pela rua mostrando que estava fantasiada. Hoje, parece até uma vergonha você botar uma fantasia e pegar o metrô para ir para o sambódromo. Você vai até meio escondidinha. É uma diferença muito grande. Sobre a cultura do Carnaval, hoje não temos mais, acabou completamente a cultura do Carnaval, eu digo sobre os grandes bailes, os corsos, os corsos na Paulista, onde a sociedade participava, os corsos em todos esses bairros que tinham grandes Carnavais, que todo mundo participava. Não era uma ou outra pessoa, todo mundo estava junto, não existe mais nada, nada, nada. Alguns clubes dão os bailes, muitos não respeitados. Sumiu. O que ficou, as escolas de samba, que hoje agregam um bom número do pessoal que gosta de Carnaval e quer sair, não tem onde, vão numa escola de samba, colocam uma fantasia e vão para a avenida.

 

Até eu faço um convite para todos vocês: vão visitar uma escola de samba durante o ano, vão participar de uma entrega de troféu ou mesmo das eliminatórias, que logo começam, do samba-enredo. É muito bonito, vocês vão se sentir à vontade e podem ter certeza: nada de mal acontece para vocês dentro de uma escola, é o lugar onde mais se dá respeito à pessoa humana.

 

Então, é uma coisa, os velhos sempre falam: “Ah, as nossas escolas de samba já acabaram há muito tempo, ai, que saudade que eu tenho daquele tempo em que havia respeito.” Ainda existe, embora hoje as escolas de samba sejam mais industrializadas, é um comércio, um ponto de se ganhar dinheiro, mas dentro daquele núcleo ainda encontramos as raízes. Acho que, enquanto as escolas de samba tiverem as velhas guardas, as raízes ainda tão preservadas.

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