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História

Olhos de fotógrafa

História de: Rita de Cassia Barros Wanderlei
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/01/2021

Sinopse

Sonho de fotografar desde a infância. Dificuldades ao enfrentar o machismo do pai. Determinação. Trabalho no Bradesco. Investimento em seu sonho de ser fotógrafa.

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História completa

Meu primeiro trabalho foi no Bradesco. Eu estava descendo a rua da igreja, e na época para usar orelhão, tinha que colocar ficha. Eu queria ligar para a minha avó no Nordeste, e eu ligava a cobrar. A menina estava com um monte de ficha, "Não acredito que vai ficar aí uma hora", e eu tinha horário para ligar para a minha avó, porque na cidade também só tinha um orelhão. Com essa avó, eu tinha uma afinidade mesmo estando longe. Tinha dia e horário certo para ir e atender a cobrar, e a menina lá com um montão de fichas. Ao invés de me irritar, comecei a prestar atenção na conversa da menina. Ela estava marcando uma entrevista no Bradesco, e quando eu me interesso no assunto, eu presto atenção.

Eu fiz um curso quando tinha acabado de fazer 18 anos, não tinha documento, só tinha carteira de trabalho. Não tinha RG, não tinha nada, só carteira de trabalho. Minha mãe tinha tirado a carteira de trabalho comigo, mas ele já tinha deixado claro que filha dele não trabalhava fora, iria fazer magistério, casar, trabalhar meio período dando aula e meio período dentro de casa. E eu escutando a conversa da menina. Nem liguei para minha avó, fui para casa pensando no que a menina tinha falado, e falei: "Mãe, eu preciso de dinheiro, porque tenho que estar na biblioteca para fazer um trabalho e tirar um monte de cópia", e ela me deu o dinheiro, um dinheiro pouco. Então, eu saí de casa falando que iria para a biblioteca às oito horas da manhã. Eu nunca tinha saído de Itaquera, nunca tinha pego condução, não sabia o que iria fazer da vida.

Hoje a gente leva meia hora, mas era uma coisa assim, interminável, não chegava nunca. Comecei a passar mal, mas já sabia que passava mal quando viajava para lugares distantes. Fui de condução em condução. O dinheiro que eu tinha era só para ir, voltar e sobravam uns centavos que não davam nem para um pãozinho. Fiz o teste, tinha um monte de gente e íamos passando de sala em sala. Eu fui passando de sala em sala e fiquei com mais umas cinco pessoas. Só que isso já era quase cinco horas da tarde. Eu não tinha comido, tinha bebido água, porque lá tinha água, mas não tinha o resto. Eu não tinha como falar com eles. Na realidade, eu nem lembrei disso.

Foi um saindo, outro saindo… Eram duas vagas. Saíram e ficamos em três, eu e mais duas, e então, eu e mais uma. Eu olhei para o lado e falei: "Eu fui contratada. Se têm duas vagas, só tem eu e você, e todo mundo já foi embora, então fui contratada", e ela disse, "É, foi contratada",

Quando cheguei em casa, tinha polícia, bombeiro, tinha guarda, tinha tudo e eu com a maior felicidade com a carteira na minha mão que eu já estava contratada pelo Bradesco. A felicidade durou até eu descer do ônibus, eu correr para um lado e meu pai para o outro, porque ele queria me estrangular. Cheguei em casa e falei: "Mas pai, vou trabalhar no Bradesco". E ele: "Eu não quero saber. Você pode ser a dona do Bradesco que você não vai trabalhar".

Eu tinha um prazo para ir lá e ele falou que eu não iria, que poderia desistir, que eu não iria e não tinha conversa. Eu falei: "Mãe, a gente pode mudar de vida, eu posso ajudar dentro de casa", e ele falou: "Você quer ser dona da casa, aqui quem manda sou eu. Mulher não manda aqui em casa".

Foi aquela briga toda. Eu falei para minha mãe que eu iria roubar o CPF dele. Ela falou, "Você é louca". Eu falei, "Amanhã ele vai trabalhar", fui até lá e ele falando que não, que não, e eu voltei lá, porque já era para fazer a admissão para fazer os exames e começar na outra semana.

A minha tia conversou, os amigos dele que hoje são padrinhos do meu irmão mais novo conversaram e tudo, o bairro inteiro conversando, e ele irredutível. Ele decidiu que se fosse em um horário de dia, ele iria deixar, ele iria até lá ver como era isso e iria deixar, ou alguém me traria para o Bradesco de Itaquera, que não tinha vaga.
Entrei na agência, eles me deram comida e eu fiz os exames. Fiz os exames, fiz minha admissão que era na própria agência, abri minha conta com o CPF dele e voltei para casa empregada. Esse homem falou de tudo, que eu estava passando por cima dele. Como ele falava para mim?! Ai, esses dias a gente estava morrendo de rir aqui… Nos finais dos dias dele, a minha irmã até gravou um áudio de pérolas dele: "Formiga quando se perde cria asas, essa não vai muito longe". Falou para minha mãe: "Eu não quero nem ver no que ela vai dar, porque isso vai ser uma mulher perdida".

A psicóloga veio falar comigo: "Se você fosse um filho homem, seria o filho que ele pediu a Deus, mas é uma filha mulher. Ele queria tudo que você tem em um homem, a atitude, o fazer". Então, isso incomodava demais ele, mas não por ele não me aceitar, mas por eu ser mulher.

Com o machismo absurdo do século passado, para ele aquilo era um absurdo, ele morreu achando que isso era um absurdo.

[Quando quis mudar de carreira] foi outro choque, porque ele já tinha acostumado comigo no Bradesco, já tinha acostumado com o padrão de vida, depois de todo aquele "auê". Mais uma vez eu escutei alguém falando que a Fotótica estava contratando fotógrafo, isso foi na condução, não foi no orelhão. Eu cheguei e falei: "Vou trabalhar lá".

Eu fiquei na Fotótica lá por mais uns três anos, cheguei no Bradesco e pedi para ser mandada embora, porque não podia pedir uma demissão de 10 anos e um pouquinho, eu não podia pedir demissão. 

Eu já saía do Bradesco e ia direto para lá. Ao invés deles me mandarem embora, eles me mandaram para uma agência duas ruas depois. Nessa outra agência, aproveitei que eu não tinha amizade, não tinha vínculo, cheguei para o gerente e falei para ele me mandar embora. Ele falou: "Mas por que vou te mandar embora?", e eu falei: "Porque se não, vou vir vestida como punk". Ele ficou me olhando… Eu estava no tapete verde, que é a gerência de poupança. Falei para ele: "Estou falando a verdade, porque preciso ser mandada embora", ele começou a dar risada e me levou para almoçar. Ele falou assim: "De verdade, por que você quer ser mandada embora?", "Meu sonho é ser fotógrafa, sempre foi, e só fiquei no Bradesco todo esse tempo porque eu precisava custear meus estudos e precisava tirar a minha família de uma situação economicamente muito complicada, mas agora surgiu a oportunidade". Ele super entendeu, subiu no segundo andar onde era o RH, e falou: "Pode fazer a dispensa dela". E ainda fui na outra agência, voltei lá para afrontar, porque é lógico que a pessoa não pode ficar quieta, né?! Fui lá falar com o gerente geral. Bati em cima da mesa e joguei minha carta. Ele falou, "O que é isso?", e eu falei: "Minha carta de alforria", "Ah, você não tem jeito mesmo". Lógico que foi muito importante e eu sou muito grata à vida. Muita coisa aconteceu na minha vida pela passagem no Bradesco que me deu estabilidade, que me deu recursos para construir o meu sonho, mas a minha vida não era ali, a minha vida se resume à fotografia.

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