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História

Olhos atentos e mãos à obra, bem vindos à Rocinha

História de: Maria Edileusa Braga Freire
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/07/2010

Sinopse

Em um depoimento que entrelaça parte da história da favela da Rocinha com as suas experiências, a cearense Maria Edileusa Braga Freire, moradora da comunidade a partir da década de 1970. Com uma narrativa aguerrida e afetuosa passeamos pela chegada de Maria Edileusa à Rocinha, chegando a sua participação ativa na transformação da comunidade. Como pontos deste percurso acompanhamos relatos sobre a família, a nova casa, os amigos e o acolhimento de pautas internas que navegam da precariedade de infraestrutura ao fortalecimento do empreendedorismo local.

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História completa

P/1 – Edileusa, pra começar, a gente pergunta o nome completo, o local e a data de nascimento.

R – Maria Edileusa Braga Freire, nasci em 27 de janeiro de 1956, em Guaraciaba do Norte, Ceará.

P/1 – Edileusa, em qual ano você veio pra Rocinha?

R – Foi em 1976 que vim aqui pra Rocinha. Em 1977, 1978, fui pra São Paulo e retornei em 1979 pro Rio novamente porque não me adaptei à São Paulo, não. O clima é muito frio.

P/1 – E como era a Rocinha nessa época que você veio morar aqui?

R – Quando eu vim pro Rio, eu não vim pra Rocinha. Eu morava em Botafogo, ali na Marquês de Abrantes, de Botafogo eu fui morar em Ramos, de Ramos foi que eu fui pra São Paulo. De São Paulo eu vim pra Rocinha. Fui passar as férias no Ceará na casa dos meus pais, retornei porque a minha tia morava aqui na Via Ápia, aqui do lado. Aí, eu vim morar com a minha tia aqui na Rocinha, foi aí que eu conheci a Rocinha. Só que daqui ela mudou pra Niterói. Eu morei dois anos e meio em Niterói, no Alcântara, lá casei e vim morar no Rio Comprido. Quando cheguei no Rio Comprido meu marido veio trabalhar nessa empresa de ônibus e era muito longe. Não é longe do Rio Comprido para cá, é contramão, ele levantava muito cedo pra vir trabalhar na Taú, Transporte Amigos Unidos aqui dentro da Rocinha. Aí, ele resolveu comprar uma casa aqui na Rocinha, um barraco, naquele tempo eram uns barraquinhos de madeira muito precários. Nesse tempo não tinha essas casas de alvenaria que tem na Rocinha, a maioria era barraco. Isso foi em 1981. Em 1981 fui pro Rio Comprido e em 1982 mudei pra Rocinha. Julho de 1982 vim morar no barraquinho na Rocinha. Lá a casa era alugada e a gente aqui conseguiu, ele conseguiu um dinheirinho na empresa, as férias, décimo terceiro e a gente comprou esse barraco aqui na Rocinha. E estou na Rocinha desde essa época, 1982.

P/1 – Você falou que era um barraco, tal. Como que era a comunidade?

R – Aqui não tinha água, só tinha poços artesianos. Até hoje essa casa que eu comprei tem um poço, tem uma nascente d´água, porque é bem lá em cima, perto do pé da pedra. Mas nessa época era poço artesiano, não tinha água da Cedae. E eu até falei com ele assim: “Eu não vou morar na Rocinha se você comprar um barraco sem água, porque lá o povo carrega a água na cabeça”. “Eu não quero carregar a água na cabeça, eu carregava água na cabeça no Ceará, aqui no Rio de Janeiro eu não quero, não [risos]”. Falei assim mesmo porque aqui o pessoal ficava de madrugada na fila do poço, pegando água, com a maior dificuldade pra levar pra casa, encher os barris, o reservatório que tinha em casa. Ele falou: “Não, um amigo meu, o João Lúcio, vai botar água lá em casa”. João Lúcio é um líder na comunidade também, o Hebinho, que hoje é Conselheiro Tutelar, trabalha na comunidade com a gente. A gente comprou a casa deles e ele disse: “Não, a gente vai botar água na casa de vocês”. Na época o Governo do Estado colocou uns chafarizes, umas torneiras, a gente pegava água, já não pegava no poço, pegava naquelas torneiras e levava pra casa. E o que os moradores fizeram? Em cada localidade como na Rua Dois, os moradores se reuniram, puxaram, compraram vara de cano, foram eles mesmo que encanaram a água, não foi a Cedae. O Cedae botou lá o reservatório, chafariz como chamam. E de lá eles puxaram pra casa da gente, botaram os canos e a gente botou o chuveiro, a torneira e a gente tinha água, e eu vim morar nessa época, com a água desse jeito. Depois veio muita dificuldade, a água era precária, era muito pouco e a gente lutou, fez um grupo aqui e lutou pela melhoria da água. Hoje a gente tem água em tudo quanto é canto da Rocinha. Antigamente não tinha, até uns oito anos atrás nem todo local da Rocinha tinha água.

P/1 – E a sua também foi mudando...

R – E a minha casa continuou aquele barraco. Ele fez uma reforma, comprou tábua, continuou aquele barraquinho de madeira, até hoje eu tenho saudades dele. Era muito bonitinho, de madeira, com telhado, dois andares. Embaixo era alvenaria e em cima era madeira, mas muito bem arrumadinho, entendeu? Duas varandas, muito espaçoso. Aí, pra construir a gente ia gastar muito porque ia ter que fazer uma fundação muito grande. Nós resolvemos vender esse barraco e compramos uma casa maior, que é onde eu moro hoje. Eu já moro lá tem 18, 19 anos vai fazer agora.

P/1 – E mora você, seu marido...

R – Moro eu, meu marido. Ali a gente construiu, fizemos mais duas casas, uma casa pra minha filha, são três casas: Tem a minha casa, a casa que a gente deu pra minha filha, ela casou e tem a casa dela, e tem uma outra casa que é do meu filho, mas ele mora comigo e é alugada. Ali a gente construiu uma vida nessa realidade. Ele trabalhando aqui na empresa e quando foi em 2002 ele se aposentou. Trabalhou 23 anos só nessa empresa, a Transporte Amigos Unidos, essa que roda aqui dentro ainda, precariamente, mas está rodando. Hoje ele é aposentado, mas ainda faz um trabalho particular aqui em São Conrado, trabalha como motorista particular de um senhor aposentado também que é médico.

P/1 – Quando os barracos começaram a mudar pra alvenaria na Rocinha?

R – Olha, começou... Eu tenho mais ou menos lembrança que isso começou assim: Começou com o pessoal se unindo, fazendo mutirão e construindo. Comprava material parcelado na casa de materiais. Nós fizemos isso. E o pessoal foi fazendo mutirão, pelo menos no meu beco foi fazendo assim, porque nem todo mundo tinha dinheiro pra pagar pedreiro. Pedreiro aqui é muito cara a mão de obra. Foi fazendo assim, tipo mutirão. A minha primeira casa foi construída assim, eu comprei ela mais ou menos construída, só que ela não tinha fundação, eu tive que fazer fundação pra poder erguer outra. Aí, a gente fazia em mutirão, no final de semana juntava uma turma de amigos, fazia almoço, uma feijoada, alguma coisa assim, mocotó, todo mundo na cervejinha e o pessoal ia fazendo. Fazia a minha, a do outro e assim o João Lúcio, o Hebinho, todo mundo se uniu e foi fazendo junto. Foi começando essa ideia e o pessoal foi começando a construir, entendeu? A Rocinha não era assim, hoje o bairro é imenso. Naquele tempo era muito precário, a luz a gente tinha precariamente, depois que a Light [Empresa fornecedora de energia da cidade do Rio de Janeiro], tinha uma luz no Batista que era uma luz bem fraquinha. Depois a Light veio, botou uns relógios e foi melhorando, entendeu? E naquele tempo a pessoa construía uma casinha, batia uma laje, tava pronta. Depois de mais ou menos, eu acho que mais ou menos de 1996 pra cá, que a Rocinha começou a crescer assustadoramente. Porque cada vez mais está vindo gente do Nordeste, do Norte migrando pra cá, entendeu? Aí, foi começando a desmatar essas matas porque antigamente a Cachopa e a Vila Verde, isso aqui não tinha casa não, gente, isso aqui era tudo mato. Era um Hotel Tripolini aqui, uma mata, sei que o pessoal foi vindo, só tinha aqui o Boiadeiro, esses barraquinhos muito precários, foram fazendo esses prédios e foi crescendo, foi se expandindo, a ponto de ter Cachopa um, Cachopa dois, Vila Verde. Foram invadindo, desmatando e fazendo casa. Ainda conheci isso aqui com muita mata em volta da minha casa era mata, cheio de nascente de água, impressionante. Hoje está tudo com casa de alvenaria. Como ainda tem mais em cima do pé da pedra, naquela pedra que vocês viram aqui de frente? Na Macega, onde fica a Macega, Roupa Suja, Rua Um. Lá em baixo, no 99, na beira da mata ainda tem muito barraco precário. Mas as casas hoje são boas, viu?

P/1 – Pelo que me parece à relação da comunidade, dos vizinhos entre si é muito boa. Ou isso tem um conflito?

R – Não, tem não. Nós temos um relacionamento muito bom. O meu marido já conhecia essa Rocinha porque quando ele veio pra cá em 1970, ele veio morar aqui. Ele já conhecia. Ele que me trouxe pra cá. E a gente sempre teve um relacionamento muito bom com as pessoas, se precisam de alguma coisa a gente está para ajudar, se a gente precisa, também os vizinhos estão do nosso lado. A gente tem o pessoal da comunidade da igreja, a maioria aqui participa da Igreja Católica, a nossa Paróquia Boa Viagem que hoje os franciscanos da comunidade, até lá de São Paulo, do Frei Galvão, estão aqui dentro da Rocinha. Então, até hoje todas as obras da igreja, qualquer coisa que a gente convida, almoço comunitário, pessoal chega junto, é uma relação muito boa, entendeu? Eu trabalho também na Catequese, dentro da comunidade, tanto na paróquia como nas capelinhas.

P/1 – E como é a relação da comunidade com os bairros próximos, com o entorno?

R – É muito boa, tanto aqui com São Conrado, da Associação de Moradores do São Conrado, como a Associação da Gávea também. Eles estão sempre unidos, qualquer coisa que venha a acontecer eles estão sempre unidos a gente. Tanto como representantes no Estado como aqui.

P/1 – Você falou que as moradias agora são boas. Mas quais são os problemas que ainda existem?

R – Eu acho que aqui é o esgoto. Há anos a gente luta por uma rede de esgoto aqui dentro, a gente sabe que o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] está aqui dentro dando esse suporte. Já melhorou muito, agora com a obra do PAC, isso tem três anos, esse projeto do Centro Esportivo era muito antigo. Eu lembro, há 27 anos a gente já lutava por esse centro esportivo, mas nunca tinha despertado do coração de um governo a fazer o que o Governo Federal está fazendo hoje aqui dentro em parceria com os Governos Estadual e Municipal. Porque mesmo a gente lutando, porque a gente foi de um grupo de mulheres, quando eu falei no início, lá na Rua Dois, a gente não tinha onde deixar as crianças quando eram pequenas, meus filhos, eu tenho dois filhos, Soraia e Felipe, não tinha onde deixar as crianças. A gente queria trabalhar e não sabia onde deixar essas crianças. O que a gente fez? A gente lotava esse ônibus da TAU, o meu marido cansou de ir dirigindo. A gente ia lá pro Palácio da Guanabara na época do Moreira Franco lutar pelas creches, pelos centros comunitários, pelas creches que tem hoje. Todas as creches que tem hoje na Rocinha foram da luta de um grupo de mulheres que lutou junto. São várias, eu não vou citar nome, mas eu estava inserida junto a elas, junto a Irmã Dominga, era uma coreana, uma religiosa que fez um trabalho bonito aqui dentro da Pastoral da Criança. A água, nós lutamos pela água, pelas creches, ela interagindo com a gente junto aos governos. E esse Centro Esportivo tem anos, agora que despertou no coração de alguém solidário que tirou isso do fundo do baú, porque nunca o governo se interessou por isso. Não sei se eu devo falar isso, eu vou falar, mas acho que é a verdade, todo mundo tem que saber disso. Porque isso não é um projeto de hoje, nem de ontem, vem de anos a gente lutando e graças a Deus a gente tá vendo isso aí construído. E muito mais. E o que nós queremos agora, hoje nós temos aqui um grupo forte, não é que nos outros anos não teve, alguém plantou a semente lá atrás, pra hoje ela ser bem amadurecida e estar surgindo os frutos. Hoje os frutos são esses, os centros, uma UPA [Unidade de Pronto Atendimento] aqui dentro, uma necessidade muito grande. A gente tem uma epidemia de tuberculose muito grande aqui dentro, temos hospital, um outro posto de saúde, vamos ter um outro ampliado na Rua Um, mas tudo em parceria, tudo em unidade. Eu acho que alguém se uniu lá atrás, pessoas que já morreram, não estão conosco, outros estão, mas a gente continua na luta. As coisas estão acontecendo e a Rocinha hoje é um bairro imenso. Se você estiver aqui às três horas da manhã e disser: “Eu quero comer uma pizza”, o que você quiser comer, um estrogonofe, vem deixar aqui na sua porta. Antigamente não tinha isso, hoje é 24 horas. É um bairro que eu comparo com Copacabana porque não fecha. Então, desenvolveu muito, né? Eu acho.

P/1 – Claro. Pelo que você falou antes da entrevista e mais ou menos agora, deu pra entender que você sempre, sempre lutou, foi uma ativista nas causas da Rocinha, né? Conta um pouco desse trabalho seu então, de todas as frentes que você fez, inclusive o que você faz agora.

R – Com essa eu já fiz três entrevistas, fiz com a televisão, com duas rádios, Rádio Catedral e uma outra rádio. E pra TV, TV Rio que fica em Petrópolis e fiz pra TVE. Quando eu falo porque eu entrei nessa causa, assim, de entrar de cara na comunidade, do jeito que eu estou atualmente, foi quando a minha filha teve um problema muito sério. Ela teve uma gravidez complicada, era uma criança acéfala, não tinha cérebro, anencefalia. Eles diziam que era anencefalia e os médicos queriam que ela fizesse um aborto, ela não fez, ela disse: “Sou católica, minha mãe vai aceitar, muito menos eu”. E a gente sofreu muito, de ficar em hospital pra cá, pra lá. A criança veio a nascer com hidrocefalia, que eles têm a cabecinha grande. Eles diziam que dariam duas horas de vida, a criança nasceu, sobreviveu, eu lutei muito dentro de hospital pra conseguir uma válvula pra essa criança, eu fui à rádio, à televisão, eu sempre lutei por uma causa, sempre gostei de estar interagindo à frente, principalmente quando se trata de eu saber que a gente tem um direito e é negado, aí, eu brigo legal, entendeu? Eu entrei na Justiça, conseguimos, e ele saiu de todo o quadro de via crucis que ele passou, o Cauãzinho, passou por todo esse sofrimento, ele veio de alta. Eles diziam que ele não tinha chances, que uma válvula seria inútil pra ele. Foi aí que eu briguei junto, conseguimos, ele veio pra casa e ele morreu dignamente, dormindo em casa, com três anos e seis meses. E foi aí que eu mergulhei de cara, porque aquilo que eu sofri, eu vejo muitos outros sofrerem e não tem a coragem que eu tenho de lutar e conseguir o que eu consegui, entendeu? Eu sei que eu consegui. Embora eu diga: “Ah, é uma criança que é especial, que tem problema, não tem qualidade de vida”. Mais um problema. Eu digo, é um problema, mas é um problema meu, é nosso, nós vamos lutar, enquanto ele estiver vivo nós vamos lutar com ele”. Quando eu visitei ele dentro do hospital disseram: “Ah, ele está ali, mas está vegetando”. Eu digo: “Eu não acredito”. Eu segurei na mãozinha dele, ele apertou a minha mão, eu falei: “Ele não vegeta”. “Se ele vegetasse, ele não faria o que ele fez”. E era uma criança que sorria, falava na linguagem dele, mas falava. E aí, eu vi a Graça de Deus acontecer na vida daquela criança e dele dizer pra mim também: “Vó, lute por alguém que talvez não tenha a sorte que eu tive”. Às vezes eu me emociono ao falar nisso porque, às vezes, eu vejo as pessoas que são mais pobres, “Ah, mora na favela, mora na Rocinha?”, é assim que dizem, mesmo. Vem a gente com o olhar atravessado, não tem direito a nada: “Deixa pra lá, vai morrer mesmo, deixa pra lá”. Isso que eu vi e é o que eu vejo até hoje. E hoje a gente sabe que o PAC está aí, eu estou nessa causa desde o início das reuniões com o Estado junto com o Claudino do PAC e uma das falas que eu tive lá foi pedindo a creche modelo que vai ter ali em frente à igreja católica e um centro de reabilitação para os portadores de deficiências, que nunca na Rocinha ninguém pensou nisso. Pensavam, mas deixavam pra lá. E eu falei com o Governo do Estado, falei na frente do Governador. Isso vai ser feito na creche modelo. E a gente vê, se a gente não correr atrás, não lutar junto por uma causa, a gente nunca vai conseguir. Comigo é diferente, não é por aí. Você está entendendo? Esse é o meu objetivo, não sei se você queria ouvir isso.

P/1 – Claro, nossa, foi bonito. E você falou uma coisa que é importante, que eu ia te perguntar, inclusive. Você falou: “As pessoas olham e falam: ‘Ah, é da Rocinha’”. Tem alguma história...

R – O preconceito é muito grande. É isso que você quer saber? É só o que tem amigo. Sabe por que eu te digo isso? A minha filha botou vários currículos, meu filho também, e quando ele chegava lá no trabalho, ele tinha todo o perfil da loja. Ele é um menino da tua altura, louro, assim, do teu estilo. E eles diziam assim: “Você tem todo o perfil da loja, mas, que pena, você mora na Rocinha”. Então, o emprego já não era pra ele. A minha filha sofreu isso também, mora na Rocinha. Por que acham que a gente que mora na Rocinha é o quê? Só tem o outro lado? Tem, mas as pessoas que vivem do outro lado talvez não tiveram oportunidade. O meu filho teve, porque eu criei os meus filhos aqui dentro. A minha filha nasceu no Rio Comprido, mas meu Felipe nasceu aqui dentro, criei aqui dentro, nunca se envolveram com o que não presta, entendeu? Tem famílias dignas aqui, tem famílias boas, tem. Mas ainda tem o preconceito. Se você disser que tem certos lugares que a gente vai. “Onde você mora?” “Na Rocinha”. Você já nota o astral, que vão te tratar diferente, entendeu? Infelizmente, a gente ainda sofre esse preconceito. Eu te digo porque eu sinto isso, mas eu não tenho vergonha de dizer que moro na Rocinha, qualquer lugar você vê, eu sou uma pessoa pública, vou em qualquer lugar, qualquer reunião, recepção, festa. “Onde você mora?” “Na Rocinha”. Faço curso, fiz Formação Política na UFRJ. A maioria lá mora em tudo quanto é bairro, só eu moro na Rocinha. Não que aconteceu isso com o pessoal de lá, mas que acontece, acontece. Até hoje.

P/1 – Você é um caso vivo disso, você acha que uma pessoa sozinha, com boa vontade, pode mudar a realidade de um lugar assim? Você é um exemplo bom porque você muda, né?

R – Pode. Querer é poder, não é? Tem esse ditado bem sábio. Se você quer, você pode mudar a realidade. Eu digo pelos moradores daqui, porque todos aqui se uniram e mudaram. A Rocinha hoje é um bairro invejado. Antigamente nem um posto dos correios tinha aqui dentro. As primeiras conquistas foram o posto de saúde, os correios, agora tem Banco Itaú, tem Caixa Econômica, tem Bradesco, tem tudo. E os grandes restaurantes que tem aí, a maioria é tudo cearense. Esse trapinho aí é tudo pessoal do Ceará que vem aqui e monta esses restaurantes, pode ver, pizzaria, restaurante, tudo é nordestino. Pará, Paraíba. E por quê? Eles não cresceram aqui dentro? E tem grandes empresários aqui dentro, cara, aqui tem. Pessoas aqui com um padrão de vida invejável, equivalente a São Conrado, quem tem restaurante lá embaixo. Você está entendendo?

P/1 – Edileusa, a gente entrevistou uma pessoa aqui hoje, que falou que tem uma dificuldade às vezes de participar de movimentos sociais, pra moradia, pela falta de locomoção, é cara a condução pra ir até o local onde está acontecendo o movimento. Você participa de muitos movimentos, você acha que existe uma dificuldade de quem mora na Rocinha, ou em outro lugar, que seria mais difícil o acesso pra conseguir participar de movimentos sociais que acontecem no Governo? Falta esse acesso ou você acha que não?

R – Aqui acho que não, eu acho que se a pessoa quiser ela consegue. Ela não tem é o pique de ir à luta, de buscar os seus ideais porque pra mim não foi difícil participar desse movimento. Eu participo desde que eu vim morar na Rocinha, essa luta do tempo da água e tudo. Porque a pessoa não se enquadra, não se entrega. E quanto ao transporte, ultimamente tá sendo muito precário. Mas a gente sabe que vai melhorar, devido à empresa que saiu daqui de dentro pra fazer as obras, apartamentos e tal. É porque ela não quer mesmo, acho que é falta de interesse. Porque quando eu quero eu vou, não vou ficar esperando você me convidar, vou me oferecer. “O que precisa para eu fazer aqui hoje?”. Estamos aí entupidos de trabalhos sociais pra fazer, por que ela não procura a gente? Procura a gente, vem conversar, diz: “Olha, eu quero fazer um trabalho social”, e começa a entrar no nosso ritmo de se enquadrar, porque tem espaço pra tudo. Aqui é grande, a gente não dá conta, quem dera tivesse mais gente pra trabalhar no grupo com a gente no trabalho social. Acho que é falta de interesse, mesmo.

P/1 – Hoje em dia, qual é o seu sonho pra Rocinha?

R – Há anos a gente luta por isso, o meu sonho é ver a Rocinha com esgoto, saneamento, melhor qualidade de vida. Porque acho que se fizesse realmente o que está aí, essas valas negras. Vocês só conhecem aqui embaixo, se vocês chegarem a entrar no morro, vocês vão ver o lugar que as pessoas moram. Gente, eu moro aqui, eu saio dali é arrepiante, ficar cheirando aquilo ali dia e noite, à beira da vala. Meu sonho é um dia ver isso tudo urbanizado, que nem o bairro de São Conrado, a gente já está vendo com as obras aí. Antigamente eu tinha vontade de sair da Rocinha, hoje eu não tenho. Juro por Deus, não tenho vontade de sair de dentro porque aqui a qualidade de vida, o que precisa é o saneamento, só isso. Fazendo isso aí, acho que a Rocinha fica dez. E fazendo o que o Governo está fazendo, abrindo ruas. Porque o povo foi fazendo as casas e foi apertando uma na outra, não deixaram espaço nem pra passar uma cadeira dessa. Tem beco aí que uma cadeira dessa não passa. E as casinhas tudo assim, olha, quatro, cinco, oito famílias morando num buraquinho apertado. E a vala passando na porta, você está entendendo? Isso que estão fazendo, essa parceria do Governo Federal junto ao Estadual tá muito boa. Porque aqui vai alargar, só essa Rua Quatro aqui que vai abrir e a Rua Dois subindo onde eu moro, vai facilitar o movimento do fluxo de carros da Estrada da Gávea. Mas isso com esgoto decente, tudo canalizado, vai ficar outra coisa. O que eu espero melhorar é isso aí. E o hospital aqui dentro funcionando dignamente. Eu sei que está ali, mas ainda não está como a gente queria. O que eu espero é isso.

P/1 – Obrigado Edileusa por falar com a gente.

R – Obrigada vocês também.

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