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"Olhar para trás me dá força"

História de: Nilza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Desde pequena, Nilza foi orientada a não conversar com ninguém e não fazer amigos. Ela e a irmã sofreram caladas durante anos a violência sexual cometida pelo pai desde que eram crianças. Quando, enfim, conseguiram denunciá-lo para a mãe, sofreram com preconceito da vizinhança e da mídia. A participação em projetos sociais, entre eles o ViraVida, lhe ajudou a lidar com os traumas do passado e hoje tem muitos sonhos para concretizar.

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História completa

Minha mãe é dona de casa, mas sempre trabalhou em restaurantes, pois cozinha muito bem. Meu pai, no momento, eu não sei o que ele está fazendo. Tenho três irmãos, sou a mais velha. 

 

A casa onde eu morava era bem espaçosa, grande, murada. E o terreno também: o quintal era enorme, eu lembro que tinha muitas árvores. Do que eu gostava de fazer com meus irmãos era brincar, subir no pé-de-manga. Tinha um pé-de-manga muito grande e também tinha uma casinha feita debaixo do pé-de-maracujá, que meu pai tinha feito. Era cheia de maracujás; a gente gostava de ficar brincando embaixo, vendo as borboletas que pousavam ali. 

 

A norma de casa era pra gente não brincar, a norma era pra estudar, até no recreio da escola. No recreio, era pra gente pegar um livro, pra gente ler, se não tinha livro, era pra ler o que estava escrito nas paredes da escola. A norma sempre foi essa, aí eu sempre seguia. Tinha que estar lendo alguma coisa ou fazendo alguma tarefa.

 

Sempre recebia elogios. Admiravam o jeito como eu prestava atenção. Lembro que eu sempre ficava nas primeiras cadeiras.  Eu ficava quietinha, não conversava com ninguém, fazia a tarefa. Minha mãe e meu pai saíam das reuniões da escola satisfeitos, porque eles recebiam elogios. 

 

Fui estudar num colégio bem pertinho de casa também. Estudei lá da primeira até a quarta série. Foi muito bom também. Sempre seguindo a mesma norma, de não conversar com ninguém nem fazer amizade, ficava quietinha no meu lado, só estudava ali, adorava ler e escrever, isso era o meu hobby. 

 

Eu me recordo que uma vez eu não fui pra escola; estava em casa, doente. Só foi a minha irmã mais nova. Sei que ela, na hora do recreio, estava brincando com os colegas, passando de sala em sala, brincando de esconde-esconde. Meu pai tinha mania de observar a gente de cima do muro da escola. Nesse dia, ele olhou e a viu brincando, entrando de sala em sala. Ele chegou no portão do colégio, entrou, disse que queria que ela fosse pra casa naquele momento. Lá em casa, a cena foi horrível. Ele começou a brigar com ela, bateu nela, bateu com cipó de tamarindo, deixou-a despida, ficaram muitas marcas no corpo dela. A gente ficava chorando, olhando pra ela apanhando, sem poder fazer nada, a mãe não estava em casa, ela trabalhava num bar. Eu chorava pela minha irmã, porque eu via que aquelas marcas no corpo dela não iam sarar nunca.  Sararam, mas ficaram as cicatrizes no corpo dela.

 

A gente não sofria só de agressão física do meu pai. A verdade é que ele também abusava sexualmente de mim e de minha irmã. Comigo começou aos quatro anos. Ele dava banho, pegava nas nossas partes, acariciava a gente. Nessa idade ainda não violentava a gente. Mas com uns dez anos, por aí, ele já queria penetrar. Quando a mãe não estava em casa, ele sempre queria que eu e minha irmã, ou uma das duas, dormíssemos junto com ele; ele dava a desculpa dizendo que não conseguia dormir só, aí tinha que estar uma de nós ou as duas perto dele. Ele procurava motivo dela sair de casa, aí deixava só eu e ela com ele.

 

Sentia muito ódio naquela época. Ódio, tristeza e vontade de contar para alguém. Mas ele sempre dizia que a gente não podia falar pra ninguém.  Na hora em que ele abusava, ele machucava. Eu não queria, eu nem sabia o que era aquilo. No começo, a gente começou a desconfiar que estava acontecendo com nós duas, aí resolvemos contar uma pra outra. Nós sempre mantínhamos um plano, quando ele tentasse fazer com uma, a outra tentava atrapalhar, porque pra ele, uma não sabia o que estava acontecendo com a outra. Mas com o tempo ele descobriu e passou a abusar da gente uma na frente da outra mesmo.

 

Meu irmão não sabia no começo. Ele pegou a gente conversando, eu e minha irmã, aí nós tivemos que falar pra ele. Só que pra ele, que também não sabia o que era, então ele achava normal. Ele que queria mais atenção, já ele (o pai) não dava atenção pro meu irmão, dava atenção mais pra gente, dizia que era um pai mais cuidadoso com as filhas, que queria estar ali perto da gente todo o tempo. Ele proibia a gente de ter amizade, proibia a gente de sair, proibia a gente de ir pra casa de família, de parente, proibia até a gente brincar com as nossas próprias primas, proibia tudo. O nosso quarto não tinha porta exatamente por causa disso, ele queria que tudo que acontecesse com a gente, a gente falasse pra ele. Não queria que a gente não tivesse nada de segredo entre nós, e nem que o que tivesse acontecendo era pra gente falar pra outras pessoas, tanto que ele mantinha a gente mais dentro de casa pra gente não manter contato com ninguém, exatamente pra gente não poder falar, não falar isso pra ninguém, principalmente pra mãe também.



Minha avó começou a perceber, ela falava que era muito diferente esse cuidado que ele tinha com a gente, não parecia cuidado de pai, de dar banho, de querer que a gente desse beijo nele quando ele estava bêbado na frente de todo mundo, de querer abraçar. Também ela sempre dizia que não era pra gente... Principalmente pra mãe, ela falava pra mãe que por mais que fosse pai, não era pra confiar porque era pai. Mas a mãe era cega, ela não enxergava, ela achava isso normal, apesar de ela não ter pai, não ter recebido carinho de pai, ela achava que aquilo era normal a gente receber aquele carinho de pai.

 

E meu pai sempre se colocava como uma pessoa mais experiente do que a mãe, que deveria falar as coisas pra gente. Quando veio a primeira menstruação, com onze anos e meio, meu pai começou a explicar. Ele começou a dizer que aquilo era normal, que nós estávamos ficando moça, não sei o quê e brincava: “Ah, minhas filhas estão moças agora, vão se tornar mulher em alguns dias”. Mas era ruim. Ruim, porque com o tempo ele dizia que a gente era mulher. Começou a explicar pra gente o que era “aquilo”, passava filme pornô pra gente, eu odiava.

 

Quando a mãe saía. Toda semana tinha que ter. Toda semana. Até quando ela ia ao comércio, que ele soubesse que ela ia demorar, ele aproveitava. A gente tentava fugir, falava pra ela que a gente não queria ficar em casa, mas não... Minha mãe seguia a norma, se ele dissesse que era pra gente ficar, a gente tinha que ficar, por mais que a gente não quisesse.

 

Por mais que tivesse acontecido aquilo ali, nós chorávamos, chorávamos, a minha mãe perguntava: “O que foi?”. A gente dizia: “Nada”. E pra ela ali tudo bem. Às vezes a gente dizia: “Não, é que o pai falou alguma coisa pra gente da escola e que a gente não gostou”. Mas pra ela era normal. A gente só chorava. Só compartilhava com a outra. Depois nós descobrimos que ele fazia com a nossa prima também, só que ela nunca tinha falado pra gente. 

 

Na infância, a única pessoa que eu tinha medo era dele.

 

Mas teve a hora de dizer “chega”!  Quando eu tinha quinze anos e a minha irmã catorze. Ela resolveu contar pra mãe mesmo. A gente tinha medo de contar. Meu irmão sempre dizia que não era pra gente contar porque ia vir televisão filmar, a gente ia ser mal falada na rua, as pessoas iam apontar, a gente ia deixar de estudar por causa de vergonha, a mãe ia se separar dele. Por mais que ele fosse ruim a única coisa que a gente não queria era que os dois se separassem. E ele reclamava, dizia que se a gente falasse – como naquela época a mãe não trabalhava, depois, ele não trabalhou mais, ela só era dona de casa – ele dizia que ela ia vender o próprio corpo pra poder nos sustentar. Ou ela vendia o próprio corpo ou a gente morria de fome, porque ele ia estar preso. E a gente vivia em pressão psicológica. Foi quando a minha irmã resolveu contar. Ela estava na sala e nessa época a gente assistia muito jornal e passava abuso, exploração de pai abusando de filha. Quando passava essas reportagens, a gente via no olho dele que ele ficava nervoso.E uma vontade de falar pra mãe, só que a gente não falava. Aí nesse dia a minha irmã chegou pra ela dizendo que o pai fazia aquelas coisas que a gente assistia na televisão, no jornal. A mãe ficou até sem saber o que era, aí a minha irmã foi e falou que ele abusava da gente. A mãe começou a brigar, dizia que a gente estava inventando, que aquilo era uma coisa muito séria. Ela ficou perguntando pra gente se era verdade mesmo, que não tava acreditando, a gente dizia que era, a gente começou a chorar na hora. Até que a mãe acreditou. 

 

A mãe ficou louca, começou a chorar, se desesperar, começou a brigar com a gente, porque a gente não tinha falado isso, por quanto tempo isso acontecia. Foi lá pra cozinha, começou a amolar a faca, disse que ia matá-lo, na hora em que ele chegasse do trabalho. Quando vimos a mãe afiando faca, fomos acudi-la, tirar a faca dela pra esconder. Nós dizíamos pra mãe pra não falar nada pra ele, pois ele já tinha dito que, se a gente contasse, ia nos matar. 

 

Depois de um tempo, ela foi se acalmando e nessa hora, ele chegou. Assim que chegou, percebeu que tinha alguma coisa estranha. Nós ficamos na frente de casa, esperando e ela lá dentro, conversando com ele. Ele confessou, só que botou a culpa em nós duas. Disse que a gente é que ia atrás dele, que o procurava. Nesse mesmo dia, ela telefonou pra família dele, reuniu todos na casa de uma das irmãs dele e contou. Eles disseram que ele deveria sair de casa imediatamente e que abafassem o caso. A mãe perguntou se ele queria sair logo de casa, ele disse que não, mas que ia pagar as contas deles primeiro e ia cair no mundo. Lembro do olhar dele nessa hora; foi como se falasse: “Eu vou me vingar, vocês não deveriam ter contado”. 

 

Minha mãe ficou tão nervosa que saiu, foi beber num bar. Minha madrinha passou na hora, a mãe conversou com ela, desabafou, disse o que estava acontecendo. Ela ficou horrorizada e brigou com ela: “Por que ela não tinha denunciado?” A minha madrinha foi e contou pra minha avó, mãe da minha mãe. Quando a minha avó ficou sabendo, imediatamente denunciou para o Conselho Tutelar. Eu lembro que foi um dia de sexta-feira, chegou uma carta lá em casa dizendo que era pra gente ir lá na segunda-feira, porque tinham recebido uma ligação anônima dizendo que duas meninas eram abusadas sexualmente e queriam realmente saber se isso era verdade. 

 

A mãe chorou porque não queria que ninguém ficasse sabendo. Naquele dia, quando ele chegou de noite do trabalho e ela mostrou a intimação, ele começou a ficar desesperado. Ligaram para minhas tias, irmãs dele. Elas foram em casa, levaram a gente pra dormir na casa delas e uma das tias conseguiu um advogado pra ele.

 

Ele sempre botava a culpa na minha mãe, que a culpa também era dela.  Quando foi na segunda-feira de manhã, ligaram pra minha mãe dizendo que tinham denunciado ele à polícia lá do bairro e que ele já estava preso. Foi levado para a DPCA e nós duas tínhamos de dar depoimento. Pegaram a gente, colocaram dentro dessa viatura, numa mesma viatura que ele tava, ele tava atrás. Os delegados, os policiais, diziam que era pra ter calma, que ele ia ser preso, que ele não ia fazer mais nada com a gente. Nós tínhamos de dar depoimento, mas a gente não queria falar nada. Mas, se não falássemos, não ia ter prova contra ele. Depois que nós fizemos esse depoimento, fomos embora. Minutos depois, ligaram pra mãe dizendo que o advogado tinha ido à delegacia e o soltou, porque não tinham provas, que ele não foi pego em flagrante.  

 

Quando ele foi solto, a mãe começou a se desesperar: “Agora ele virá atrás de nós!” E a vergonha que foi voltar para o bairro? Todo mundo batia na porta, queria conversar, e a mãe brigava, gritava com todo mundo, dizia que não queria conversar com ninguém, que era pra deixar a gente em paz. 

 

Depois daquilo, nossa vida não ficou mais normal. Sempre recebíamos ligações: “As meninas têm que ir pra tal lugar dar depoimento.” Sempre a mesma coisa, sempre falando a mesma coisa. Nós passamos pelo Programa Sentinela, que oferece assistência a jovens vítimas de violência, abuso e exploração sexual. E a gente tinha que ir pra DPCA toda semana, umas três vezes por semana, nós tínhamos que ir lá dar depoimento. E nada dele, continuava foragido. Nesse tempo, a mãe vendeu a casa onde a gente morava, fomos morar num bairro ao lado, onde nem todo mundo sabia, mas eu e minha irmã tínhamos vergonha de sair na rua, porque todo mundo olhava pra gente com desprezo. Apontavam e criticavam a gente. Passou na televisão, dizendo que era para as pessoas ligarem pra lá para dizer o que achavam desse caso, se a mãe tinha culpa. E todo mundo criticava a mãe, diziam que a mãe tinha culpa. A gente não achava que a mãe tinha culpa. Teve uma vez que até que a mãe ligou pra lá reclamando, que ela não tinha culpa nenhuma. Aí fomos morar nessa casa, numa outra casa.

 

Foi quando eu comecei a desviar dos meus estudos, porque eu sempre fui uma menina exemplar, sempre fui daquela que tirava nota boa. E, naquela época, eu comecei a sair do meu caminho. Comecei a me envolver com pessoas erradas, comecei a fazer amizade com pessoas usuárias de drogas, com pessoas que roubavam. Eu passava noites e noites na rua, altas horas da madrugada sem fazer nada, brincando, ficava com todo mundo. Comecei a usar corrente, usar caveira, maquiagem preta, usar tudo preto.Eu saía na rua com os roqueiros, bagunçava, quebrava, participava de vandalismo, entrava em igreja, xingava, gritava, batia, empurrava as pessoas dentro da igreja, passava na frente falando coisas de satanismo, comecei a me envolver com rituais satânicos. 

 

Naquela época a mãe chorava, bebia, se lamentava. Ela, às vezes, quando estava bêbada dizia que a culpa era nossa, porque ela o amava demais e o motivo de eles terem se separado era a gente. Magoava a gente. Naquela época eu sentia ódio dele e comecei a sentir ódio dela também, porque por mais que ela estivesse do nosso lado, ela era a primeira pessoa a nos criticar naquela época. 

 

Aí encaminharam a gente pra Casa de Zabelê, que é um projeto social. Todos os dias eu ia à tarde e minha irmã pela manhã. No começo, eu não me sentia muito bem, porque lá também tinha uma psicóloga e nessa época, eu odiava psicólogo. Não queria conversar com eles, mexer nessas feridas. Eles sempre falavam de família e eu odiava quando falavam de família, porque eu não considero que tive um pai. Pai pra mim pai é uma palavra muito forte pra dizer: “Não, eu tive um pai. Ele é meu pai”. É uma palavra muito forte pra mim, sem sentido também. E mãe também, naquela época eu dizia que não tinha mãe. Eu era uma pessoa só, sozinha, que só éramos eu e minha irmã.

 

Naquela época, eu acho que não existia bondade em mim, não, eu queria mais era ver todo mundo na amargura. Tudo que eu sentisse ali, eu queria que todo mundo sentisse. Só que, com o tempo, mudou lá dentro, eles começaram a me mostrar a vida de outro jeito, eu comecei a mudar, fiz amizades que me ajudaram bastante.

 

Eu saí de casa, fui morar com a minha tia. Comecei a me envolver com um rapaz, foi a mãe que me ajeitou pra ele, um bom rapaz, trabalhador, nessa época minha irmã também namorava. Foi ele que começou a me mudar. Ele sabia o que aconteceu comigo e não gostava de comentar, odiava qualquer pessoa que tivesse falando de mim, mal, ele me defendia. Eu agradeço muito por ele, por ele ter me mudado. Era meu namorado, depois com o tempo eu me juntei com ele, me casei, só que eu fui abusada de novo. 

 

Um dia estava só em casa, alguém me apreendeu por trás, com uma faca, disse que não era pra eu me mover, que era pra eu destrancar a porta e entrar. Aí ele me levou pra dentro do quarto e abusou de mim. Depois de tudo ele pegou o cadarço da bota do meu marido, tirou e me amarrou. Consegui me soltar e buscar ajuda. Fui de novo à delegacia, começar tudo de novo. Eu disse que tinha sido abusada por uma pessoa que não conhecia. Depois consegui identificar o homem e ele foi detido. Só que isso não deu em nada, acabei não indo atrás. Já o caso do meu pai foi em frente. A advogada da Zabelê, do projeto de onde eu era, foi em frente, esteve todo tempo do nosso lado.

 

Um tempo depois, me avisaram que pegaram o meu pai. Ele estava com outra mulher, estava com outra família. Prenderam ele, só que eu não sei qual o lugar em que ele está preso agora. Eu lembro da última audiência. Ele passou, olhou cada uma de nós com um olhar tão vazio. Eu acho que ele pegou uns trinta e cinco anos de pena. Depois disso, eu não tive mais notícia. 

 

Hoje, aprendi a conviver com minha história, a me acostumar com ela. Não sinto mais mágoa dele, não sinto mais aquele rancor, aquele ódio que eu sentia. Eu só quero que ele pague o que fez. Que fique lá esse tempo para pensar no que fez. Depois que ele pagar eu quero que ele tenha vida digna. Dizer: “Não, eu quero ele morra, eu quero que lá os presidiários façam o que ele fez com a gente”. Não. Pra mim eu não quero isso.

 

Depois da Zabelê surgiu o ViraVida. Chamaram minha mãe, disseram que uma de nós duas poderia se inscrever no projeto Vira Vida. Aí eles escolheram minha irmã. Eu acho que um ano depois, me chamaram e eu entrei no Projeto. No começo, eu não gostava. Sempre falava de família, e eu não gostava, porque eu não considerava que eu tinha uma família. Mas eles diziam que, se eu não me desse liberdade de querer conversar, de dizer o que eu estou sentindo com a minha mãe, eu nunca daria liberdade pra ela voltar a ter aquela amizade de novo, que eu gostaria de ter, mãe com filha. E eu acabei colocando isso em prática. Tentava falar pra minha mãe o que acontecia comigo. Ela dizia pra mim que ela era daquela maneira, ignorante, era briguenta, xingava demais, mas ela amava, por mais que ela não mostrasse pra gente, ela amava da maneira dela. E aí ela viu que eu estava mudando, eu comecei a pegar amizade com ela, novamente comecei a dizer: “Agora eu tenho uma mãe, uma mãe que possa me ouvir, uma mãe que eu digo ‘eu quero fazer isso’ e ela conversava comigo.” E não era mais a primeira a me criticar, a primeira a jogar pedra. Agora ela é a primeira a me dar apoio, a primeira a dizer: “Não, se tu quer fazer, tu faz, mas não venha dizer que eu não avisei.” Hoje em dia tenho uma relação muito boa com a minha mãe. 

 

O curso no ViraVida está encerrando. Eu já concluí meu ensino médio, vou fazer vestibular esse ano, meu sonho é me formar em Medicina, na área de cirurgia, e conseguir um emprego, ter minha casa própria, construir minha própria família, dar uma vida digna pra minha mãe, ajudá-la. Eu não quero sair das asas da minha mãe de jeito nenhum, quero ficar do lado dela todo o tempo.

 

Hoje eu me vejo uma pessoa muito diferente. Uma pessoa vitoriosa, guerreira. Eu me espelho muito na minha mãe, porque ela sofreu, ela não foi pro lado do meu pai, ficou do nosso lado. Não vou dizer que estou curada cem por cento. É um trauma que eu tenho, mas que eu olho pra trás e digo pra me dar mais força, pra seguir em frente: “Não, isso não deveria ter acontecido”. Mas aconteceu, eu não vou voltar mais atrás e me culpar por causa disso. Eu tenho mais é que ter mais sucesso na minha vida e crescer como profissional também. E, um dia, conseguir realizar todos os meus sonhos.

 

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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