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História

“Olhar para o futuro, firmar de pé e continuar na jornada”

História de: Bento Inacio dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

Infância na roça, na Paraíba. Trabalho na roça desde os dez anos. 15 irmãos. Brincadeiras de infância. Período da escola. Mudança para São Paulo. Zona Norte da cidade. Trabalhos. Comunidade Zaki Narchi. Mobilização coletiva. Criação da ONG Viva Bem Zaki. Atividades, projetos e parcerias. Filhos. Rotina. Sonhos.

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História completa

P/1 -  Bento, pra começar, queria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo.

 

R -  Me chamo Bento Inacio dos Santos, sou natural da Paraíba, de Sousa e minha idade hoje é 58 anos.

 

P/1 -  Qual é a data do nascimento?

 

R -  23 de julho de 1963.

 

P/1 -  Bento, queria que você tentasse resgatar na memória qual a sua primeira lembrança da infância, de sua vida?

 

R -  Olha, a minha lembrança de vida é muito sofrida, porque eu vim de uma família pobre, eu vim de uma descendência indígena e, de ver tanto sofrimento, de vir de uma região muito carente, então a minha história de vida é muito sofrida, que às vezes me faz, as minhas lembranças do passado, sofrer. Mas, porém, tenho coisas boas, onde eu aprendi, numa família pobre, ter um bom estudo, onde meus pais se preocupavam com isso, mas, porém, a minha infância foi trabalhando, desde pequeno já trabalhava. Então, meus pais já levavam a gente pra roça, de pequeno, chegava o horário da escola mandava que o ‘mais grande’ nos levasse pra escola e depois a gente voltava para a roça novamente. Então, é, quase infância eu não tive, foi trabalhando mesmo. E, nas poucas horas que tinha, uma infância que eu me lembro que a gente jogava muita bola. Meu sonho, sonho mesmo, era jogar bola, era ser jogador, é o sonho de quase todas as crianças. Hoje a minha visão já seria outra, mas eu me lembro que lá de criança a gente jogava e era um sofrimento, porque a gente não tinha recurso e a gente fazia aquelas bolas de capotão, onde nós mesmos confeccionávamos, porque nós não tínhamos condições de comprar. Então minha infância foi essa, da roça, escola e nos tempos quando a gente ia jogar, juntava ali, fazia aquela bola e a gente ia jogar, muita bola de meia também, que hoje nem se fala. Então, essa foi minha infância, são coisas que eu me lembro, lá do passado, da preocupação dos meus pais, porque a minha família era uma família grande, dezesseis filhos. Então, imagina, né? Mas eu agradeço muito pela educação que meus pais me deram, a preocupação, sempre se preocupando com os meus estudos, porém eu queria ser jogador, depois queria ser locutor, são aquelas coisas de criança que eu me lembro muito bem do sofrimento da minha mãe, mas isso me deu uma perspectiva de ver as coisas boas pra o futuro, para os meus filhos, para os meus netos, para os que estão na minha comunidade. Hoje, quando eu olho pra uma criança, o que eu posso fazer pra que elas tenham uma visão ampla lá do futuro, pra mim, me satisfaz. Essa é um pouco da minha infância.

 

P/1 -  E quais os nomes dos seus pais?

 

R -  Francisco Inácio dos Santos, já falecido, e Nair Costa dos Santos, são os meus pais. Ambos já faleceram.

 

P/1 -  E como você os descreveria?

 

R -  Guerreiros, trabalhadores. Como eu falei meu avô era indígena, meu bisavô, então, imagina, pra que meus pais aprendessem essa cultura, porque lá pro nordeste mesmo, no sertão, tem muitos ainda de descendência indígena. Então, eu descrevo meu pai como meu herói, minha mãe minha heroína. São as pessoas que me deram, pra que eu esteja aqui hoje, essa visão, que eu poderia ter tudo pra me revoltar, mas não, eu olhei de ver o esforço e o sofrimento deles e isso me deu mais vontade de agarrar as oportunidades, ver um projeto de futuro e abraçar lá na frente, sabendo que tudo o que a gente faz, que a gente quer, a gente pode conseguir. Então, esse é o retrato dos meus pais, me lembro muito bem, trabalhadores, esforçados, mas sempre ali, com garra, pra que todos os seus filhos fossem amparados e não faltasse nada.

 

P/1 -  Você sabe onde eles nasceram?

 

R -  Meus pais nasceram em Pombal. Por que Pombal? (risos) Porque é tipo uma localidade indígena, está lá, se você buscar no mapa, você vai buscar Pombal, na Paraíba, é uma localidade... por que Pombal? Uma localidade indígena. Então, meus pais vieram de lá, aí vieram pra Sousa, que é uma cidade maior, onde eles começaram ali, com muito esforço, morei em casas, casebres, que chama taperas, que são aquelas casinhas de barro, que era coberta com... como é que se fala? Com folhas, essas coisas. Então, eu vim dali, dessa origem, mas eles, com muito esforço, conseguiram fazer uma casa de tijolo e são essas coisas que me lembra muito, me dá uma volta lá no passado.

 

P/1 -  E você chegou a conhecer seus avós?

 

R -  Conheci, conheci pouco tempo também, porque eu era pequenininho, conheci pouco tempo, falava muito pouco o português, não dava quase pra entender. E outra: a origem deles também, meus pais eram, tinham origem africana também, porque eu me lembro... deixa eu me lembrar um pouco, como é de lembrança, eu me lembro que eles eram espíritas, e meu pai e minha mãe traziam muito aquelas origens da África, e isso está me vindo à memória agora, é como se estivesse lá voltando agora, revendo aquele chão de terra, revendo aquela poeira, revendo aqueles campos, aqueles casebres, aquelas águas que nós tomávamos da cacimba, talvez vocês não saibam o que é isso, é um buraco que é feito próximo ao rio, porque os rios ficavam escassez, faltava água, a gente fazia aquelas cacimbas, então a gente bebia dali, daqueles potes de barro, que tinha. Então, está me lembrando, eu tô voltando, parece que eu estou voltando lá, no passado (risos). 

 

P/1 -  É isso mesmo. E você lembra de alguns costumes familiares? Pode ser comida, sabor, cheiro, datas comemorativas. 

 

R -  As datas comemorativas, como os meus pais eram espíritas, geralmente eram as datas espíritas. E lá na minha cidade, lá no nordeste, tem os padroeiros, que são aquelas festas que se faz uma semana inteira, onde a gente ficava uma semana inteira ali, é uma festa uma semana inteira, pra você ter ideia. Então, eu me lembro muito daquelas procissões que se levavam lá pro nordeste, gente carregando aqueles santos, eu me lembro muito disso, minha mãe, aquelas pessoas vinham lá pra casa, tinha aquela festa que hoje pouco se fala, do Santo Reis, que é aquela festa lá em janeiro, onde se juntava às famílias no entorno, pra fazer aquela festa. Então, era uma coisa muito gostosa, um ambiente de família mesmo, uma coisa onde hoje dificilmente se vê essas tradições, mas lá pro nordeste, lá para os recantos mesmo, você ainda encontra. Então, isso me lembra, isso são as tradições. As comidas típicas, as comidas que a gente comia, aquele baião de dois, (risos) talvez ninguém saiba o que é isso hoje, a buchada, (risos) essas coisas que a gente, eu me lembro que a gente comia bastante. Como é que fala? O cuscuz, isso me traz também lembrança, nós tínhamos também um angu, que a gente comia, talvez muita gente não saiba, o angu é feito de milho, mas ele é salgado e a gente comia aquilo ali. Como meu pai tinha pouco recurso, eu me lembro que ele comprava um pedacinho de carne e a minha mãe fazia aquela panela com muito caldo, pra que aquele caldo fosse colocado sobre o cuscuz, pra que cada um comesse um pedacinho, então todos comiam. Se ele comprasse um quilo de carne, eu me lembro que todos comiam, mas era um pedacinho, mas tinha, ela já fazia aquela panela cheia de caldo. Então, são essas coisas. Do milho verde, das festas juninas, onde se compartilhava, onde as famílias se juntavam, onde nós ficávamos ali, à noite, à luz de lampião, que é muito bom, sofrendo ali as muriçocas. O que é muriçoca? Os mosquitos. Mas uma coisa muito boa, é uma coisa muito simples, muito família.

 

P/1 -  Você tem quinze irmãos?

 

R -  Dezesseis. Quinze, né, porque são dezesseis na família, quinze irmãos, comigo dezesseis.

 

P/1 -  E como é a relação com eles?

 

R -  É, já morreram praticamente seis, hoje nós somos em doze. A relação, estamos distantes, aqui em São Paulo eu tenho dois irmãos, tenho no Rio de Janeiro, tenho em Belo Horizonte e tenho alguns que ficaram no nordeste, mas a nossa relação é sempre estar se conversando, hoje o mundo está muito conectado, hoje a gente está lá, se fala via 'zap', hoje está tudo mais fácil, mas antigamente não, me lembro que a gente corria pra um orelhão, ficava naquela fila: "Ah, hoje eu vou falar com a minha mãe, vou falar com meus irmãos", ficava naquela fila, botando aquelas fichas. Vocês são novas, talvez não lembrem, mas tem aquelas fichas que a gente colocava lá e ia caindo uma ficha e caindo outra e quando você pensava que não, acabava tudo. E cartas, quando eu cheguei aqui em São Paulo a gente mandava muitas cartas, me lembro que aqui na Sé tinha aquelas pessoas que escreviam cartas: "Ah, vem cá, você vai mandar uma carta pra sua mãe?" aí eles escreviam os textos, as cartas e a gente mandava. Hoje está tudo modernizado, pra melhor. São coisas que vieram pra nos ajudar. Então, é isso.

 

P/1 -  Mas e na infância, como foi crescer com tudo isso?

 

R -  Crescendo é que nem eu te falei, crescendo no trabalho, também no estudo e o pouco tempo que tinha pra diversão. Então, essa minha infância foi regrada nisso aí, trabalho, ali do lado dos meus pais, escola e, no finzinho da tarde... ah, me lembro de uma coisa, quando você me trouxe infância, eu me lembro que lá no nordeste, meus avós, meus pais, colocavam aquela cadeira de balanço e também ainda tem até hoje, umas cadeiras chamadas preguiçosa, que é uma cadeiras de madeira, que têm uma lona, onde eles ficavam ali contando histórias e nós ficávamos entorno ali do nosso pai e ele contava aquelas histórias e a gente gostava. Aquilo, pra nós, era como se estivesse assistindo um filme, uma ação, uma coisa bonita, aquela experiência que nossos pais traziam, nossos avós e são tradições lá do nordeste, de muitos aqui em São Paulo mesmo, no interior, você vai ver que ainda tem essas tradições. Então, me traz, eu me lembro muito, essa foi a minha infância: ficava ali no entorno do meu pai, de noite, aquelas crianças e ficava ali ouvindo as suas histórias e isso era muito bom, porque isso trouxe pra nós uma boa experiência.

 

P/1 -  Você lembra de alguma história marcante?

 

R -  Olha, meu pai falava muito de mula sem cabeça, meu pai falava da... deixa eu ver outra coisa, meu Deus! Tinha um cachorro que tinha no mato, eu até esqueci, que eles viam, que desaparecia, essas coisas aí. Então, a gente ficava um pouco assombrado, assustado, mas hoje eu vejo que era história, era ficção, mas aquilo trazia pra nós um certo medo, talvez ele falava aquilo pra que a gente tivesse um certo medo, um certo temor, entendeu: "Ah, é isso mesmo? Então eu não vou sair à noite, então eu não vou lá pro rio à noite tomar banho, não, pode acontecer de eu ver uma mula sem cabeça, ou ver aquele homem na estrada lá, sem pescoço". Então, são essas coisas. Isso me trouxe a lembrança.

 

P/1 -  E quais atividades você fazia na roça, no trabalho?

 

R -  A nossa atividade, eu pequenininho, na verdade, era pra estar ali, pra levar o café de manhã. Na verdade, eu não pegava na enxada, nada disso. Era mais pra estar ali, presente, meus pais estavam lá na enxada, mas pra gente estar presente ali, sentado, muitas vezes ficava até brincando ali mesmo, mas era pra isso e levar o café pro mais velho, porque sempre tinha a missão do mais velho: levava os mais novos com o café de manhã, depois pegava, trazia pra escola, depois levava o almoço pros nossos pais, essa era a atividade dos mais velhos. E quando eu fui pegando uma certa idade, quando eu já estava com nove, dez anos, aí sim, eu já ajudava meu pai, aí eu já ia mesmo pra plantação, não no pesado, mas ele já nos ensinava: "Olha, eu vou fazendo aqui as covas," que era pra plantar o milho e o feijão e a gente vinha atrás e ele falava: "Coloca cinco sementes, seis sementes e vem seguindo". Então foi isso, nessa minha infância, de dez anos pra cima, a gente já fazia isso.

 

P/1 -  E aí, com dez anos, tinha alguma atividade que você gostava muito de fazer?

 

R -  É o que eu te falei: eu gostava muito de bola, eu gostava, no final da tarde a gente ia jogar bola e outra atividade também que eu gostava muito, eu ficava ali, pegava uma lata, botava um cordão, é como se fizesse um barulho, a amarrava aqui e como se estivesse num estúdio ali, querendo ser um locutor, porque eu ouvia que tinha poucas rádios e a gente ouvia e ali a gente pegava aquela corda, um cordão, amarrava a lata lá em cima e vinha com ela aqui e ficava aqui, parece que a gente estava falando pra uma multidão, não estava falando pra ninguém, estava falando pra nós mesmos, mas aquilo era como se estivesse aprendendo: "Não, eu vou ser um locutor". Então, eu ficava ali: "Atenção, aqui é a Rádio Sousa e tal, vai haver festa junina", essas coisas. Eu estava falando comigo mesmo, mas eu achava que aquilo ali era uma rádio, que eu estava dentro de um estúdio. Então, essas coisas eu fazia muito no final da tarde, não só eu, quanto outros meninos também. Tinha aquele... hoje chama correio elegante, onde a gente ficava, nós mesmos... outra coisa que nós brincávamos também muito, de vaquejada. Vaquejada pra quem sabe, lá no norte, foi até proibido, é aquele negócio que saem dois rapazes em cima de cavalo e sai o boi e aí derruba. Só que nós fazíamos essa vaquejada com os ossos de boi, quando os ossos que a nossa mãe comprava e fazia aquele escorredor de boi, sobrava aqueles ossos e a gente fazia como se fosse um gado, aí a gente pegava aquele gado e fazia como se fosse uma vaquejada. Então, essa foi a minha infância, foi esse o meu crescimento, e também estudando, a duras penas, com as professoras que tinham a liberdade do meu pai de nos corrigir. Eu me lembro que a gente ia até pro castigo, quando a gente errava, quando a gente, às vezes, respondia, ficava de joelho no milho, isso eu já fiquei muitas vezes e tomava à palmatória, tinha penitência: três palmatórias, dependendo do ato mais grave, seis palmatórias, até doze, e às vezes a mão ficava vermelha, mas isso me fez bem, porque eu tinha mais responsabilidade, eu falava: “Se eu errar, eu vou ser punido”. Então, eu corria menos risco de errar, porque eu tinha... meu pai dava toda a autoridade pra aquela pessoa fazer isso. Foi totalmente a minha infância, a minha infância.

 

P/1 -  Teve alguma professora marcante?

 

R -  Teve (risos). Sempre tem aquela memória de um aluno, que a professora é a atriz, é a mulher mais bonita do mundo. A criança começa: "Ai, minha professora é linda". Quando eu via Carrossel, nem sei se posso falar isso, eu me lembro que o espelho, o professor te espelha, você se espelha no professor: "Ah, o meu professor, a minha professora". A gente falava com gosto, com orgulho. Me lembro da professora Maria de Lurdes, de Português, que eu me lembro muito a dedicação dela e aquilo me espelhava; meu professor Gilberto, de Matemática, que nos cobrava da tabuada, naquele tempo tinha tabuada, onde a gente ia aprendendo ali como somar, como dividir, multiplicar. Então, isso me trouxe muita lembrança, eu me espelhava neles, olhava neles e me espelhava.

 

P/1 -  E os amigos da escola, você tinha?

 

R -  Tinha, isso a gente tem sempre, na juventude a gente tem muitos amigos, a gente fazia muitos amigos no horário de intervalo, a gente estava ali conversando, aqueles sonhos, fantasias: "Ah, eu vou ser um professor", aí começa a mudar e você já começa: "Eu vou ser um professor. Ah, vou ser um médico, vou ser um advogado". Aí você já começa a mudar, mas o que a gente pensava mesmo era ser professor, lá no começo eu pensava em ser jogador, aí, quando você entra na escola, você já começa mudando a visão. Mas tinha muitos amigos, onde a gente se reunia e ficava ali conversando, no intervalo da escola e lá, quando terminava a escola, a gente ia brincar lá no nosso jogo, no futebol.

 

P/1 -  E, Bento, como você descreveria a sua casa?

 

R -  Hoje?

 

P/1 -  Lá, na infância.

 

R -  A minha casa na infância é isso que eu te falei: uma casa pobre, humilde, simples. Eu me lembro que, quando eu nasci, nós dormíamos numa rede. Então, imagina, tinha aquelas dezesseis redes na casa (risos) e eu me lembro que só quem dormia na cama era meu pai com a minha mãe e todos nós dormíamos em rede. Aí era dividido, porque casa pequena, dormia quatro na sala, quatro no outro quarto e no corredor dormia mais quatro e aquilo ia dividindo, parecia um acampamento, agora eu me lembrando parecia um acampamento, porque nós dormíamos em rede, porque não dá e nem cabia cama pra todo mundo. Depois, com muito trabalho, aí meu pai fez aquela casa de tijolo, que são as casas que vai de uma rua à outra, mas lá no começo, não. Era aquela casa, coberta de palha e de sapé, tem até uma música, uma casa de sapé, que me lembra isso aí.

 

P/1 -  E vocês ajudaram a construir essa casa?

 

R -  É, praticamente nós. Nós íamos lá, meu pai fazia e nós fazíamos o barro, o tijolo. Nós... eu sei fazer tudo isso aí, preparava o barro, aprendi a preparar o barro, fazer tijolo, a fazer panela, fazer potes, todas essas coisas a gente aprendeu, que hoje são as tradições lá do nordeste. Então, aprendi muito essas coisas.

 

P/1 -  E você ficou na sua cidade até quantos anos?

 

R -  Eu fiquei na minha cidade até completar dezoito anos. Porque o sonho de quem está no nordeste era vir pra São Paulo ou Rio de Janeiro, então eu fiquei até completar dezoito anos. Eu me lembro que meu pai dizia assim: "Você engorda um porco aí, pra vender e comprar a passagem". Então a gente tinha, cada um tinha seu porco lá e ia engordando pra vender e guardar aquele dinheiro, pra pagar a passagem. Naquele tempo, quando meu irmão veio, meus primeiros irmãos, vieram de pau de arara, que era um caminhão coberto de lona e vinha ali, sentado naqueles bancos, eu já vim nos primeiros ônibus. Mas o meu sonho, quando eu completei dezoito anos, foi chegar nessa cidade. Saí de lá sem conhecer São Paulo, sofri muito aqui na chegada, porque imagina: lá um calor, que lá é um calor daquele mesmo e aqui frio. Imagina que eu cheguei aqui em 1979, eu já peguei muito frio. Então, quando eu completei dezoito anos, eu falei: "Quando eu completar dezoito anos, eu vou embora". Pra quê? Pra ajudar meus pais que estão lá, era essa a nossa visão e foi a nossa visão: vir pra cá, pra ajudá-los lá.

 

P/1 -  Mas quando você ainda estava lá, você tinha notícias dos seus irmãos chegando aqui?

 

R -  Tinha.

 

P/1 -  O que eles falavam?

 

R -  Eles falavam... porque o meu primeiro irmão chegou aqui em 1970, então, quando eles chegaram em São Paulo, uma cidade que, nossa, nos abraçou, nós somos gratos à São Paulo. Eu fico... você quer me deixar triste é quando eu vejo uma pessoa que veio pra uma cidade dessa, onde te oferece tudo, onde se oferece tudo aqui em São Paulo e sair falando mal. Não, São Paulo é uma casa acolhedora, é uma mãe, de braços abertos. E eu ouvia falar e eles falavam que estavam trabalhando, mandavam dinheiro para os meus pais. E eu falei: "Eu vou pra São Paulo, quando eu completar dezoito anos". E foi isso: quando eu completei dezoito anos, já estava juntando o meu dinheirinho, o meu irmão também mandou um pouquinho, comprei a passagem e vim embora. E outra: quando a gente vinha embora de lá pra cá, eu me lembro que minha mãe preparava aqueles torrados que a gente trazia, ou seja, uma galinha, ela matava, fritava, botava ali, junto com farinha, pra que a gente viesse comendo no caminho, (risos) pra não ter gasto, então a gente vinha comendo aquele frango com farinha, aquela farofa, até chegar em São Paulo.

 

P/1 -  Quanto tempo de viagem?

 

R -  Olha, deixa eu ver, naquele tempo eram três dias, hoje reduziu mais, porque era um ônibus só, às vezes o ônibus quebrava. Eram três dias, 72 horas. Hoje foi reduzido. Hoje, com 48 horas você está, de ônibus, lá. Mas eu me lembro que foram 72 horas que a gente gastou, três dias. 

 

P/1 -  E quando você chegou aqui, você foi morar onde?

 

R -  Eu fui morar com o meu irmão. Quando eu cheguei ainda me lembro, descrevo muito bem, tinha três rodoviárias aqui em São Paulo, eu desci naquela do Parque Dom Pedro, que chamava do Glicério, onde ali recebia, era a rodoviária dos nordestinos e eu desci ali no Glicério, na Baixada do Glicério, em 1979, eu me lembro muito bem, cheguei era umas oito horas da noite, eu estava com aquelas camisas volta ao mundo, talvez você nem saiba, é umas camisas furadinhas, hoje tem, os nossos pais compravam lá porque era barato. Eram umas camisas, umas camisetas, mais furadinhas, então chamava volta ao mundo. Por que volta ao mundo? (risos) Porque ela era furadinha e entrava aquele ar e você ficava no frescor. E quando eu cheguei em São Paulo, que eu entrei em São Paulo, já debati com aquele frio enorme, ainda bem que meu irmão levou uma blusa e eu me lembro que eu desci do ônibus, e eu fiquei perdido, porque eu nunca tinha visto aqueles prédios. Eu morava lá no sertão, não tem nenhum prédio, pra dizer, com dois andares. Quando eu desci ali na Baixada do Glicério, que eu olhei em volta, aquele movimento de carros, aqueles prédios, eu fiquei perdido e eu confesso pra vocês, eu fiquei com medo e comecei a chorar (risos), eu comecei a chorar, porque meu irmão ficou escondido, pra me fazer medo e eu não vi ninguém, eu comecei a chorar, eu digo: "Meu Deus, vou morrer nessa cidade" e nossa, tremendo de frio, porque era um frio daqueles. Me lembrei que esse ano, foi esse ano, fez uns dias aí que eu me lembrei daquele tempo. Então, foi isso: desci na Baixada do Glicério, onde tinha a rodoviária, que tinha ela e tinha outra na Luz, só que quem vinha do nordeste, ia lá pra Baixada do Glicério, me lembro muito bem disso aí, desci ali e fiquei que nem aquele matuto, que nem falava Geraldo Vandré, um matuto olhando pra cidade, assim, encantado (risos). Esse é o retrato do nordestino, aquilo que ele fala é tudo verdade.

 

P/1 -  E você foi morar em qual bairro?

 

R -  Eu fui morar no Jardim Brasil, Zona Norte de São Paulo. Meus irmãos... inclusive morei muito tempo ali e depois eu me lembro que eu migrei, pagando aluguel, eu falei: "Não, vou morar numa favela". Aí, onde eu mirei? Favela Boa Esperança, poucas pessoas sabem. Onde é a favela Boa Esperança? Na Zaki Narchi (risos). Essa favela Boa Esperança é na Zaki Narchi, que hoje é o projeto Cingapura, mas eu sou do tempo da favela, conheço as pessoas ali que foram os fundadores. A Gaúcha, o Porqueiro, pessoas que foram os fundadores ali, que vieram ali e construíram os primeiros barracos e eu achei uma oportunidade ali, fiz um barraco ali e fui morar ali. E vivi longos anos ali, onde falo muito bem daquele lugar. Mas morei, quando cheguei, fui direto para o Jardim Brasil, morar com os meus irmãos.

 

P/1 -  E você começou a trabalhar, logo em seguida?

 

R -  É, assim que eu cheguei, fui trabalhar de servente de pedreiro, que nem fala (risos) Genival Lacerda, (risos) que Deus o tenha. E eu fui trabalhar de servente. Não é demérito nenhum. Olha, trabalhei muito de servente e depois fui trabalhar de faxineiro e aí, depois, foi abrindo-se o mercado de trabalho, aí fui trabalhar em multinacionais, porque eu já tinha uma visão, digo: "Vou entrar numa multinacional" e trabalhei em excelentes multinacionais, aqui em São Paulo. Também trabalhei muito no ramo de tecelagem, que eu sou tecelão. Hoje não existe praticamente essa profissão de tecelão, mas eu me lembro que eu fui aprender, eu sou muito curioso, eu sempre tive vontade, eu sempre quero aprender. Não é porque hoje eu tô partindo pros sessenta, eu quero aprender, eu quero cada vez mais, eu ainda quero concluir a faculdade, pra você ter ideia. Eu não parei o meu sonho, eu acho que a gente nunca deve parar. Eu me lembro que cheguei ali, fui trabalhar de servente, aí depois arrumei de faxineiro, depois arrumei de ajudante, depois entrei numas multinacionais, depois trabalhei em prédio, muitos anos, tanto de porteiro como de zelador, motorista e é isso.

 

P/1 -  E essa mudança de bairro, você fez sozinho?

R -  Foi, foi assim: devido a eu morar com os meus irmãos, aí eu fui morar com outro, que era casado. Imagina que eu só comia na hora que a cunhada quisesse dar comida, tinha hora que ela fazia de birra, ela ia comer lá pra dez horas da noite, eu falei: "Não, uma hora eu vou ter as minhas condições e vou procurar um lugar. Aí eu passava muito - que eu pegava o ônibus - ali perto da rodoviária e via aqueles barraquinhos. Aí, um dia, eu perguntando pro rapaz, o Porqueiro, que nem existe mais, mas tem uma família enorme lá dentro ainda e ele falou: "Eu tenho um barraco aí pra vender, lhe interessa?" E eu me lembro que falavam que favela, naquele tempo, era coisa do outro mundo, favela é perigosa, favela é isso, mas a favela, eu digo: "É ali que eu vou começar, é dali que eu vou começar a dar o meu pontapé inicial". Aí eu fui e comprei esse barraco, paguei uma parte e fui pagando o resto, que eu não tinha todo o dinheiro, é como se fosse hoje três mil reais, eu dei mil e ele parcelou o resto, aí eu comprei esse barraquinho. Aí, dali começou uma nova vida, vendo uma visão de comunidade, uma visão de favela, uma visão de periferia, que até outrora eu não tinha, eu tinha uma visão de nordeste, uma visão que cheguei e fui morar em casa alugada, saía da casa para o trabalho e do trabalho voltava para casa, mas quando eu venho pra comunidade, quando eu venho para uma favela, aí a minha visão muda. Aí uma visão, porque favela parece uma coisa: são todos ali, mas são todos unidos, brigando por uma só causa, por uma moradia adequada, pra que saia daqueles barracos e tenha uma moradia adequada, essa é a visão das pessoas que ali estão, ninguém está ali porque quer, é porque não tem condições. A grande maioria é porque não tem condições e se sujeita a ir para um barraco. Não é bom, eu morei em barraco onde você via, meu Deus do céu, amanhecia e eu via ratos ali olhando pra mim, daí eu ficava com medo, ficava assustado. Foi aí que começou a mudar a minha visão, uma visão de periferia, uma visão de sofrimento, de sentir na pele o que aquelas pessoas passam, aqueles meninos descalços, aí eu me lembrei do meu nordeste.

(31:25) P/1 -  Você estava falando do período que você chegou na Zaki, como foi conhecer essa nova visão de mundo?

 

R -  Então, quando eu cheguei na Zaki, que eram barracos, que a Zaki tem uma história tremenda, a Zaki Narchi ela vem de uma história, que fica num lugar privilegiado, está num lugar nobre ali de Santana, Vila Guilherme, Jardim São Paulo, um lugar muito visado, porém foi um lugar muito perseguido. Hoje a visão mudou um pouco das pessoas no entorno, mas a Zaki sempre foi perseguida. Então, quando eu cheguei naquela favela, que foi favela anos e anos, hoje aqueles prédios têm, os mais velhos ali têm 22 anos, os primeiros prédios levantados ali, ainda me lembro, foi o bloco cinco, depois veio seis, sete, oito, depois que vieram pra avenida. E quando eu cheguei na favela Boa Esperança, que é onde eu comecei residir ali naquele território, em 1984, ali eram barracos, então era lotado de barracos, tanto da Zaki, até a [Rua] Antônio dos Santos Neto. No meio daqueles barracos passa um córrego, mas tinha barracos em cima dos córregos. E a Zaki Narchi, a favela Boa Esperança da época, eu me lembro dos primeiros presidentes que vieram ali, dos líderes comunitários, eu sempre fui engajado com eles, mas nunca quis participar efetivamente ali, da diretoria, sempre estava nos bastidores, mas uma hora eu me senti na obrigação, falei: "Eu tô sendo covarde, eu preciso fazer algo", aí foi onde eu me uni, na época, com Joaquim, com Wilson, que foi um dos presidentes, aí eu me uni e a gente começou a batalhar por aquele lugar: "Ah, vamos mudar a visão". Nós poderíamos brigar com os órgãos públicos, pra mudar essa história, pra sair desses barracos, aí foi onde a gente começou, seja na Câmara, seja na Prefeitura, a gente sempre estava lá perturbando: "A gente quer moradia". Tem uma história longa daquilo ali, lutando por moradia e eu me lembro que, pela região, era pra gente ter saído. A Zaki Narchi, eu me lembro que eles inventaram que eles queriam passar um rio ali próximo à Avenida, eles falaram: "Dez metros da avenida, vai passar um rio aqui", queria puxar o córrego, pra quê? Pra tirar aquelas pessoas dali e até, não vou falar o nome do prefeito na época, porque eu não quero ser processado, eles começaram a remover os barracos. Logo ali na frente, próximo ali ao bloco 35, eles fizeram tipo um piscinão, eles fizeram um buraco enorme, tiraram os barracos e fizeram e esse buraco encheu de água e essa água virou uma piscina pros meninos, pra nós tomarmos banho, que era um buraco enorme que a escavadeira fez, encheu de água e ali os meninos, nós íamos tomar banho ali, porque aquele buraco era onde eles estavam fazendo um leito de um rio, supostamente, pra tirar as pessoas. E foram tirando, até que outrora a gente começou a fazer aqueles movimentos na rua, onde a gente começou a interditar a avenida, aí chamou, despertou a imprensa, esse movimento já vem desde 1984, se puxar lá nos arquivos, desde 1984 nós já fazíamos movimento ali, pra não sair dali, foi uma guerra, mas conseguimos. Então, a Zaki Narchi é uma história muito bonita, a Zaki Narchi e nós temos um problema: a penitenciária, a Detenção atrás ali e nós ali no meio, mas eu me lembro que sempre a gente estava ali, lutando, já veio de muitos incêndios, ali já passou por vários incêndios, o sofrimento daquelas pessoas quando vinha um incêndio, não tendo pra onde morar, quantas vezes a gente ia pra abrigo, pra escolas, depois voltava para os mesmos barracos. Então, a Zaki Narchi, eu vim pra lá em 1984 e tem uma história de vida, a gente lutou, lutou. Os primeiros prédios, se não me engano, foi em 1985... em 1995, 1996, que começaram a ser construídos.

 

P/2 -  Bento, e como é ainda hoje, morar num ambiente que é totalmente assim, militarizado, em volta, o entorno é militarizado?

 

R -  Exatamente.

 

P/2 -  E como é?

 

R -  São dois mundos ali, né? É o mundo real, que a gente vive ali e o mundo virtual no entorno, então são dois mundos. Eles não olham a gente com boa imagem, porque nós somos o patinho feio que estamos ali no entorno, seja dos complexos que estão em volta, das zonas militares que estão ali, então nós somos o patinho feio ali. Mas hoje já tem mudado muito, porque a gente tem lutado pra isso. E o que é lutar pra isso? Mostrar pra aquelas pessoas da importância deles, de quem está lá dentro da comunidade, que eles são importantes, que eles podem, dali de dentro, mostrar pra fora que ali tem pessoas que são capacitadas, tem pessoas que têm sonhos, tem pessoas que têm projetos e é isso que nós queremos: focar na criança, pra que eles vejam um mundo melhor lá na frente, pra que eles não estejam só pensando naquilo: "Não, meu mundo é esse, eu não tenho jeito, eu sou favelado, o meu pai foi isso, minha mãe é faxineira" "Não, meu filho, você pode chegar lá na frente, olha o seu QI, você pode, lá na frente, chegar e entrar numa faculdade, amanhã tu pode realizar o teu sonho, amanhã tu pode ter tua casa". Essas crianças, até hoje nós fazemos um projeto com crianças, onde eu comecei a ver as crianças. Gente, o que eu trouxe pra dentro da comunidade? Uma coisa que nunca houve, houve no entorno: o sonho do balé. Eu comecei olhar, eu digo: “Toda criança, toda a menina, menino...”, quebramos um tabu, meninos que não gostavam de fazer balé, por causa de muitas pessoas de mente poluída e a gente começou a quebrar esse tabu: o balé pode ser pra um menino, pode ser pra menina, não tem nada a ver, isso aí é arte. Aí eu comecei a mostrar pra eles: por que não trazer arte aqui pra dentro? Por que não pegar nossas meninas e nossos meninos e mostrar pra eles que amanhã eles podem estar no Teatro Municipal? Que amanhã eles podem estar nos palcos. E isso a gente começou a trazer pra lá, não simplesmente olhar pras nossas crianças: "Ah, coitadinho, nossas crianças não têm nada". Isso vai na mente da criança e o que vem? A corrente contrária, porque se a criança não tem o espaço, se ela não tem a oportunidade, ela começa a ver a outra corrente, que vai ao contrário, que vocês sabem, ela começa a ver aquela visão: "Ah, mas se eu fizer isso aqui, eu vou ter isso aqui fácil". Mas quando você mostra pra ela o que tu vai ganhar, o que você vai mostrar pra tua família, que você saiu do nada, mas que amanhã você pode estar lá num lugar de destaque, numa empresa, amanhã você pode ser diretor de uma empresa, amanhã você pode ser um grande bailarino, amanhã você pode ser um grande esportista, entendeu? Não só aquela visão: tem que ser jogador. Tem, saiu um jogador lá de dentro, nosso amigo, Ricardo Oliveira, foi lá de dentro, mas aquele rapaz a história dele foi muito sofrida, aquele rapaz sofreu demais, recebeu muitos nãos na vida e quando a gente recebe um não, é motivo pra olhar pra cima e dizer: "Não, vou buscar o sim", não parar, não estacionar, mas sempre dizer: "Eu recebi um não, mas eu vou procurar melhorar, que lá na frente eu vou receber um sim". Não é ficar nocauteado, pode até te nocautear, mas das cinzas você vai se levantando e diz: "Eu vou me colocar em pé, porque eu tenho objetivo, eu tenho um sonho e eu vou alcançar o meu sonho". E é essa visão que eu penso passar pra comunidade. É um trabalho de formiga, formiguinha? É, porque é muito: "Ah, que é isso, isso não acontece, isso não vai dar certo". Não, você tem que mostrar que vai dar certo e aí, quando você olha no olhar de uma mãe, que você a vê chorando, a mãe está vendo a sua filha lá no palco lá, quantas mães eu vi, nós tínhamos quase quatrocentas mães lá no CEU Jaçanã e as mães chorando, de ver suas filhas fazendo espetáculos lindos, maravilhosos. Aí, quando você leva a sua criança na Fábrica de Cultura, é quando nós já vamos e vamos chegar no Teatro Municipal sim, vamos, porque eu não paro, eu tenho meta, eu tenho sonho e quando eu quero pros meus filhos, eu quero pra aquele que está no entorno.

 

P/1 -  Como vocês começaram a se organizar, pra oferecer tudo isso?

R -  Tudo vem da luta, na luta é onde tudo se reúne. Sabe onde começou isso aí? 2011, quando começou aquela: "Ah, vai desativar, a Zaki Narchi vai acabar, foi encontrado gás metano", aí todo mundo... por quê? Enquanto está na casa do vizinho, está todo mundo ok, mas quando chega na sua casa, você se preocupa. Aí nós começamos a se preocupar, se organizar, aí todo mundo se mobilizou. Vamos se mobilizar, senão nós vamos perder nosso espaço. Quando nós nos mobilizamos, começamos a plantar uma ideia: por que não formar uma associação forte? Por que não buscar aqui algo que vai a favor dos moradores, nós nos organizarmos? Daí começamos a se organizar com os síndicos, são 35 blocos ali, reunimos os 35 síndicos e começamos a se organizar: "Olha, deram tanto de tempo pra nós, o que nos resta agora? Se organizar, fazer abaixo assinado e vamos, vamos no Ministério Público, vamos no Juizado, vamos na imprensa, vamos se mobilizar". Porque, se nós ficássemos de braços cruzados, já não existiria mais aqueles prédios, mas quando a comunidade se uniu, até mesmo os atos que foram feitos, não houve baderna, não houve quebra-quebra, porque ali nós estávamos fazendo pra chamar a atenção. Quando nós chamamos a atenção, que eles olharam lá pra dentro e disseram: "Opa, vamos olhar esse povo". O que é isso? São quase quatro mil pessoas aqui dentro, naquele pedaço ali que você está vendo, são quase quatro mil pessoas dentro daqueles prédios, não tô falando nem em volta. Aí começaram a ver com outros olhos, daí foi onde a gente fez abaixo-assinado, a gente constituiu um corpo jurídico, a gente foi atrás de advogados, a gente foi no Ministério Público, aí nós começamos a se unir, pra ganhar essa causa, que não foi fácil, mas ganhamos. Quando nós ganhamos essa causa, daí agora começamos a nos reunir: por que não formar-se uma associação forte aqui dentro, pra representar essa comunidade, não somente aqui dentro, mas lá fora? Aí foi onde nós nos reunimos e aí nos reunimos, fizemos reuniões, aí aclamaram, tem até gravado lá, aclamaram: "Não, nós queremos o Bento como nosso líder". Eu não queria ser isso, porque o meu trabalho... eu trabalho muito, mas aceitei esse desafio, fiquei ali uns dois anos, aí eu digo: "Olha, a minha visão não é só essa". Começou porque eles queriam uma visão interna e eu queria uma visão externa, aí eu digo: "Eu vou formar uma ONG", que hoje é a Viva Bem Zaki, porque uma ONG é uma organização não governamental e ela tem visão mais ampla, que uma associação de moradores se resume a tudo que há ali em torno dos moradores, só naquele pedaço, mas quando nós formamos uma ONG, a visão já é mais ampla. Aí eu formei essa ONG, sou sócio fundador, onde ajudei, arrumei uns guerreiros, que disseram: "Vamos mudar o pensamento das pessoas, vamos mudar o pensamento aqui da convivência". Porque depois tiveram vários desafios. Você sabe que abriu uma cratera, depois disso aí, uma cratera enorme, onde começou até a engolir carros ali, passou aí na televisão, vocês viram e a gente falou: "E agora? Agora, é hora de estar mobilizado". É onde a gente já estava estruturado, já tinha mais uma noção das coisas, batalhamos, não cruzamos os braços, Poder Público não queria nem ir lá: "Não, é um buraco" "Não, a gente quer que vocês vão lá", começa a chamar a imprensa, começa a mostrar que aquelas pessoas precisam ser assistidas. Aí foi daí, aí trouxe essa ONG e a minha visão sempre foi a de mostrar dali de dentro a capacidade que nós temos lá fora. É isso. Eu falo bastante, gente (risos).

 

P/1 -  É isso. Quais foram os grandes acontecimentos, desde o surgimento da ONG, até hoje?

 

R -  A ONG, hoje, nós assistimos, ao todo, mais de duas mil pessoas, mais de duas mil, nós temos isso relatado. A nossa ONG assistiu desde do assistencialismo, na hora da precisão, que até hoje faz, que não é minha meta, mas fazemos, que hoje nós distribuímos leite pra cem famílias, num programa aí do governo do Estado; nós temos um convênio com o Banco de Alimentos, que é o que as empresas mandam pro Banco de Alimentos, elas distribuem e nós pegamos esses alimentos e distribui para os cadastrados, as pessoas mais necessitadas. Qual é a nossa visão? São os mais necessitados. Não adianta simplesmente, às vezes você está desassistindo o que está precisando e está favorecendo aquele que não precisa, então nós nos voltamos mais aos necessitados. Nossa visão hoje e sempre foi da ONG, de pegar criança, porque quando for pro balé, a professora falou: "Bento, balé tem que ser pelo menos de cinco anos pra cima", aí eu falei: "Tem outra ideia?" "Tem, o baby class", que às vezes a filhinha maiorzinha ia, mas a criancinha ficava olhando aquilo ali e aí eu falei: "Não, por quê? Vamos montar o baby class, sim". Já chegamos a ter, na nossa grade, cem crianças fazendo balé e baby, que hoje é uma arte que é no mundo inteiro e trouxemos o balé de qualidade, professoras qualificadas. Aí depois entramos pra área esportiva, que é o jiu-jitsu, muay thai, o futebol. Aí houve esse período agora da pandemia, os dois anos, onde nós demos uma paralisada. Por quê? Visando pra não atingir uma criança, a mãe de uma criança, seguindo regularmente o que recomenda [o Ministério da] Saúde. Aí nós paramos as atividades, agora estamos retornando, mas a nossa visão da ONG, da Viva Bem, é essa: a de instruir a criança, dar entendimento à criança, dirigir à criança. E outra: essa ONG já inseriu no mercado de trabalho mais de umas cinquenta pessoas, porque a gente foi lá bater, a gente foi lá dizer: "Nós temos, o que é que vocês estão precisando?" No entorno nós estamos em volta de comércios ali, nós temos shoppings, nós temos ali hotéis, nós fomos bater na porta, por que não abrir? Olha, nunca vi, eu me lembro que havia um tabu, a comunidade e o empreendimento: "Não, eles não olham pra gente" "Olha" "Não, eles nunca deram" "Vão dar". Não é com agressão, é conversando, eu me lembro que eu pedi reuniões, foi conversando, não é simplesmente você julgar uma pessoa e sem saber se aquela pessoa quer estender as mãos. E qual foi a minha surpresa? Quando nós fomos, todo mundo sabe, o instituto abriu as mãos para nós, eles tinham uma visão de nos ajudar há anos e fizemos essa parceria saudável, que abriu esse leque, essa barreira, esse muro que estava colocado, que nem o muro de Berlim, aquele muro: “Não, aqui desse lado”. Não, esse muro não existe mais, esse muro foi derrubado, porque muitas pessoas que estão ali trabalham lá, eles abriram as portas e sempre quiseram e não vou dizer que não quiseram, não, mas devido a muitas pessoas que achavam que era isso... uma coisa é achar, outra coisa é eu ir lá e falar. Depois que eu fui, outros foram, as portas se abriram e essa barreira caiu e eles têm uma visão boa para conosco, como os que estão lá têm outra visão desse outro mundo. Então, essa é a visão da Viva Bem Zaki.

 

P/1 -  E Viva Bem Zaki… quais foram os maiores desafios?

 

R -  Os desafios foram recursos. Hoje, pra se começar qualquer trabalho, as pessoas falam voluntários, têm voluntários no mercado de trabalho. É muito difícil, porque a pessoa trabalha, às vezes vai disponibilizar uma hora por semana, não é que a pessoa não queira, é porque São Paulo é uma cidade de muitas atividades, a pessoa trabalha, tem família, tem faculdade, tem estudo, a pessoa voluntária vai dizer: "Olha, eu posso uma hora", mas vai ter semana que aquela pessoa não vai poder ir àquela hora. E qual foi a nossa visão? Não, nós vamos trazer profissionais, mas como, sem recursos? Aí começamos a pensar: “Por que não bater nas portas? Não pedir pra nós, mas pedir para que pague esses profissionais, para que remunere esses profissionais”, não para a ONG, nunca quis nada pra ONG. Aí a gente começou: "Vamos implantar o projeto balé?" Não pedindo pras mães também, porque uma roupa de balé é cara, uma sapatilha, eu sei todos esses custos, eu digo: "Eu vou pedir, eu vou bater, o não eu já tenho, mas eu vou bater, uma hora vai se abrir". Aí foi onde se abriu uma grande porta, foi quando nós, realmente... fui lá no Novotel, me lembro ainda do gerente da época, Daniel, ele disse: "Bento, a gente vai te ajudar, eu vou levar ao conhecimento da diretoria aqui do shopping". E um dia nós tivemos a reunião, levei os projetos, apresentei, falei qual era a nossa visão, eles gostaram e marcaram sim uma parceria conosco e daí começou o nosso projeto, em 2012, projeto de balé. No começo foi um piloto, nós fizemos um piloto, pegamos algumas professoras voluntárias, mas era aquele negócio: a professora, às vezes, atrasava, a mãe falava: "Ah, a professora está atrasada". Eu falei: "Ela está vindo num voluntariado, ela está pagando condução pra vir, não é justo eu querer cobrar de uma pessoa, quando eu não estou remunerando". Aí foi onde a gente começou focar, as mães: "Por que vocês não cobram?". Eu digo: "Eu não vou cobrar, porque vocês não têm condições, mas eu vou buscar lá fora". Foi onde abriu-se essa parceria, que ficamos anos e anos, uma parceria sólida, onde deu um grande crescimento, desenvolvimento e oportunidade.

 

P/1 -  E, Bento, quais foram os maiores aprendizados?

 

R -  Os aprendizados, seja pros nossos alunos... hoje eu vejo meninas que estão seguindo a sua carreira solo, muitas que já estão, eu não vou falar o nome de algumas, que hoje já são professoras, umas já estão pra modelos, isso é um grande aprendizado. É você saber que, num sonho pequenininho, você vê pessoas e aquilo influencia a outra: "Olha, se fulano chegou ali, eu posso chegar". Uma vez eu vi uma mãe de uma aluna, que falou: "Bento, eu não tenho como te agradecer, minha filha hoje é professora". Nós fizemos parceria com nomes renomados. Você pega Carlinhos de Jesus, ele abriu pra nós a sua academia, ali na Avenida Nova: "Está aí, pra vocês virem ensaiar com as suas crianças". Por quê? Porque viu no nosso trabalho, sério, sem interesse, mas visando o quê? A melhoria e a visão das nossas crianças. Esse aprendizado, pra mim, não tem palavras, esse é o melhor aprendizado: é ver que hoje muitas estão seguindo a sua carreira solo.

 

P/2 -  E tem alguma história marcante?

 

R -  A história marcante, veja bem (risos), o que vem numa história marcante? Quando as crianças vinham e que não tinham as roupas e uniformes, aí eu via que aquelas crianças vinham, meu Deus do céu, muitas vezes com aquela meia calça rasgada, meia calça de uma cor, de outra e muitas vezes sem sapatilha. Isso é uma história muito marcante, eu fico me lembrando e elas vinham e aquele interesse que elas chegavam, meu Deus, aí olhava ali, aquelas meia calças ali, que elas usavam meia calça e às vezes estavam furada e às vezes uma ficava rindo da outra e a gente falava: "Não ri, não, a gente vai conseguir, a gente vai comprar". Algumas mães que tinham, iam lá e compravam, mas eu não achava certo, porque isso a outra vai ficar com ciúmes, aí eu não aceitava, eu falei: "Espera aí, a gente vai correr atrás, vamos atender a todas. Da maneira que uma se vestir, a outra vai se vestir". E às vezes as criancinhas chegavam ali descabeladas (risos), mal saíam, às vezes não tomavam nem um café, mas não perdiam a aula de balé, você via que ali elas ficavam ansiosas pra começar a aula de balé. Então, isso ai é uma coisa que ficou marcante na minha vida, até hoje eu começo a me lembrar e é uma coisa que eu fico rindo, assim, eu digo: "Meu Deus, quanto interesse dessas crianças!" Porque a criança só quer uma oportunidade, o adolescente só quer uma oportunidade e diante disso também, muitos desafios, muitas palestras que nós levamos, de jovens, de pessoas aí, pra dar palestra lá pras nossas crianças, nossos adolescentes. Nós tivemos pessoas que foram lá, do Instituto [Center Norte], levar educação familiar pra aquelas pessoas também, porque a gente não visa só as crianças, mas visando também a família, não adianta só a criança querer, se os pais não se interessarem. Então, tem que ter aquela conexão: pais e mães na mesma visão, e uma ONG voltada à mesma visão dos dois.

 

P/1 -  Estamos caminhando pro fim, mas queria saber como é o seu dia a dia. 

 

R -  O meu dia a dia?

 

P/1 -  Isso.

 

R -  É muito corrido, eu me levanto às cinco da manhã. O meu dia a dia é corrido, porque hoje eu trabalho, sou autônomo e quem trabalha com aplicativo não é um funcionário, é um parceiro, ele não é tratado como funcionário. Então, hoje eu me levanto cinco da manhã e quando eu estava na ONG também eu sempre trabalhei, só que eu tirava um período para estar ali na ONG, eu sempre trabalhei, agora tinha as pessoas que viviam diretamente lá, meu negócio era sair pra ir pras reuniões, mas sempre tive as pessoas lá que me ajudaram. Se eu disser que foi eu só, não, tudo é uma cadeia em volta. [Havia] muitas pessoas que se dobraram, que realmente deram horas e horas de suor, ali. Eu me lembro que a Ligia, essa menina deu a vida dela por essa ONG, é o sonho dela, as filhas dela, tudo fizeram balé. O meu dia a dia hoje é muito trabalho, me levanto cinco da manhã e às vezes vou dormir meia-noite, pra quê? Trabalhando e agora tirando um espaço, porque estão voltando às atividades, pra que a ONG recomece novamente com seus projetos, onde vai levar muito mais tempo meu, mas é gratificante, é saber que você está fazendo algo. Muitos podem dizer: "Ah, é pequeno o que você está fazendo", mas lá na frente, tudo se começa de uma construçãozinha. Eu me lembro que eu fazia as reuniões e eu dizia: "Ah, isso daí eu não vou pôr minha filha no projeto, não. Ah, o que é isso?" Hoje, aquelas que falavam, que começaram a ver que deu certo, começaram a colocar seus filhos, que viu que o trabalho era sério. Meu dia a dia é esse. Agora tô empenhado num trabalho com as crianças, agora dia doze. Está em cima? Está, mas vou fazer, nós fazemos parcerias com Rotary. Eu vou atrás de tudo, gente. O que é pra ajudar, eu vou atrás. Nós já levamos nossas crianças no Acre Clube. Nós fomos lá, batemos, pedimos, abriram as portas, fizeram uma grande festa, está lá, vocês vão entrar na página lá, vocês vão ver, porque quando eu vi aquelas crianças brincando, quando eu vi aqueles personagens lá que o clube, juntamente com a Valquíria... gente, eu fiquei assim, eu digo: "Meu Deus". As mães ficaram... nunca os filhos tinham entrado num espaço nobre, porque quem conhece o Acre Clube, é lá no Jardim São Paulo, mas sempre, três vezes nós fomos lá e esse ano cem crianças nós vamos levar. Então, o meu trabalho é esse: levantar cedo, trabalhar, estudar, e ONG, que está no DNA, quem nasceu pra isso, quem nasceu, tem a vocação pra isso... esse é o meu dia a dia, por isso que as minhas horas são contadas e como eu não tenho, hoje, patrão, eu sou o patrão, tenho que andar corretamente, que nem eles falam mesmo: "Você é nosso parceiro". Mas graças ao meu bom Deus, eu sempre ali, trabalhando, me esforçando e muitas pessoas boas em volta, porque eu não olho pro negativo, eu não olho pras coisas ruins, você tem que mirar nas coisas boas porque, se você olhar pras coisas ruins, vai te atrair coisas péssimas. Aqueles que falam não, aqueles que falam negativamente, você olha e sempre vai ter aquele que diz: “Não vai dar certo”. E é isso. É o meu sonho ver aquela Zaki Narchi, não só a minha ONG, lá tem três ONGs, tem a nossa, que já tem há oito anos; tem a Sempre Zaki, que é do rapaz lá, que é boa também; e tem a outra, a Vida Melhor, da Nicinha. São três ONGs ali, espaço pra todos, não é uma coisa... todos, desde que queira engajar pra um crescimento, melhoramento daquilo ali, um bom aproveitamento, há espaço pra todos. Então, esse é o meu dia a dia: levantar às cinco da manhã, trabalhar, correr atrás, me preocupar e estudar.

 

P/1 -  E, Bento, todos esses anos na Zaki, promovendo tudo isso, o que ela representa na sua vida?

 

R -  A Zaki representa uma parte imensa da minha vida, que nem eu te falei: 34 anos dentro de uma comunidade. Tanto é que muitos, hoje, meninos que eu olho assim, eu falo: "Menino, eu te vi nas fraldas, menino" "Ô, tio, foi mal". Porque às vezes querem te atropelar e aí você fala: "Menino, espera aí, teu pai, teu avô, eu vi você crescendo, agora vocês acham que cresceu, acham que está o... calma, vai devagar". A gente começa a falar: "Olha lá, não foi boa a experiência com aquele teu tio, não foi boa a experiência". "Menino, muda o foco, muda a visão". "Ei, menino, acorda". Então, a gente, hoje, se torna um referencial, as pessoas olham: "Nossa", mas nunca você vai lá agredir, porque quando você vai com uma agressão, a coisa se torna... não tem solução, você sempre vai com uma palavra branda, olha, que aquilo vai no inconsciente do menino: "Senta aqui, você já viu a visão? Você já viu que você pode se..." "Ai, é, tio, é verdade, é isso mesmo, tio". Quando a gente dá café lá pras crianças, no domingo de manhã, a gente senta: “Olha, não é só por isso, não, pega o microfone aí, vê o que tu pode fazer aí”, que era o meu sonho botar a rádio lá, a rádio web, foi aprovado esse projeto, pela prefeitura, de colocar uma rádio web, aí eu falei: "Por que não expandir pras escolas, aqui no entorno?" Porque toda a criança quer ser DJ. Aí a gente bota uma caixa lá, vê lá: "Ah, tio, estamos aí". Aí, daqui a pouco eles pegam e se empolgam, aí você fala: "Você viu, você viu o seu potencial? Você viu como você pode ser isso?" Aí eles começam a criar o quê? Um respeito. Começam a olhar a visão, não a visão distorcida, não a visão: "Ah, ele subiu, ele está metido", isso não, ele começa a mudar a visão: "Olha, o tio me deu um bom conselho, eu posso ser isso". Abraço o menino, às vezes que ele está de shortzinho ali: "Vem cá, moleque" "O que foi, tio?" "Vem cá, moleque, chega, rapaz. E aí, rapaz, tu está bem? Olha, você é inteligente, hein, meu". "Ei, menina, veja aí, você tem um futurão pela frente". Aí, os olhos brilham, porque aquilo vai aqui ó, ele começa a pensar: "O tio falou que eu sou experiente, o tio falou que eu sou", entendeu? Isso não tem palavras, isso é a minha vida, o meu aprendizado dentro de uma comunidade, onde hoje eu me alegro, quando eu entro ali eu me alegro, eu falo bem. É o que eu te falei: é uma casa que me acolheu muito bem e eu amo, a maioria dos meus diretores são de lá. Eu ainda tenho o apartamento lá, hoje eu só saí um pouco por causa de um pouco de sossego, que eu trabalho muito e às vezes quero dormir, mas a minha vida é ali, o meu pessoal é ali e minha visão é dali pra fora (risos).

 

P/2 -  E você é casado?

 

R -  Sou casado há 21 anos, já tenho filhos, meu filho está fazendo faculdade de Publicidade, menino muito esforçado, fala três idiomas e hoje está trabalhando numa multinacional e ainda está fazendo Publicidade. Tenho uma filha também que faz faculdade e tenho um menorzinho que tem dez anos. Meus filhos são um orgulho pra mim.

 

P/2 -  E como é o nome deles?

 

R -  É o Richard, o menor. O Robert, não sei por que a mãe soltou Richard, Robert e Késsia (risos). A Késsia tem 22 anos. O Robert, que faz Publicidade, tem dezenove, está na faculdade e já está trabalhando também e, cá entre nós, o moleque já está lá e fala três idiomas, muito esforçado também, como tem muitas pessoas lá dentro da comunidade que estão na faculdade, muitas pessoas que já estão formadas, dali já saíram médicos, dali já saíram publicitários, dali de dentro, ali. Então, é um foco… na verdade o ser humano é uma pessoa boa, ele precisa só de oportunidade, ou aliás, ele precisa muitas vezes ser ouvido, muito do que a pessoa quer é ser ouvido e muitas pessoas não têm tempo pra ouvir e quando a pessoa é ouvida, deixa ele falar: “Fala, meu filho”, aí você vê a mudança. Ah, isso não tem preço.

 

P/2 -  E como é que é o nome da sua esposa?

 

R -  Cátia Carina Oliveira dos Santos, paulista lá de Marília (risos). 

 

P/1 -  E, Bento, quais são os seus maiores sonhos, hoje?

 

R -  Os meus sonhos hoje é: amanhã, quando eu passar o bastão, que a gente nunca pare. Na verdade, é igual ao Silvio Santos, o homem gosta daquilo, não é que ele precisa (risos). É igual nós: quando nós entramos numa ONG, a gente gosta, a gente ama, a gente começa a amar, a gente faz com prazer. Meu maior sonho é o crescimento maior dessa ONG, é angariar mais pessoas pra se unir com a gente e trazer mais projetos ali pra dentro, mais projetos, uma visão ampla, que nem a gente vai voltar agora nosso projeto, mas o nosso maior sonho mesmo é isso, é de ver o crescimento maior dessa ONG, mais projetos consolidados ali dentro e mais pessoas, mais parceiros pra se unir com a gente, esse é o meu sonho.

 

P/1 -  Bento, estamos encerrando, tenho as duas últimas perguntas: queria saber se você tem alguma história, alguma passagem marcante que você queira contar pra gente, que a gente não tenha perguntado, ou deixar alguma mensagem.

 

R -  É, história marcante é isso: esse aprendizado, essa vontade, essa vocação pelo lado social, pelo lado humano, que é o que precisamos nos dias de hoje, mais humanidade, é esse lado, essa é a minha vocação. E o que eu queria dizer é que eu nunca vou parar, só quando realmente for tombado mesmo, mas sempre vou continuar nessa luta, uma luta que não se finda, com os bons projetos, com sonhos, que quando a gente sonha, ele vai se tornar realidade. E dizer que não desista, nunca desista, na vida é caindo e levantando e uma hora você vai estar em pé e ninguém vai poder mais te derrubar, porque você está firme, você olhou, aprendeu com tuas quedas a olhar pro futuro, firmar em pé e continuar na jornada.

 

P/1 -  Como foi, pra você, ter relembrado alguns momentos da infância, ter contado um pouquinho da sua história pra gente?

 

R -  Foi marcante, me lembrou o passado, eu voltei aí há cinquenta anos, voltei, me lembrei lá de andar descalço, me lembrei lá daquela terra, roupas lá que eu usava, as camisas volta ao mundo, então eu me lembrei, eu vivi lá no meu passado. Isso foi muito gratificante. Hoje eu vivi uma história fantástica, saber que voltei ao meu passado, que ele vive aqui na minha mente, mas que eu tenho visão de futuro.

 

P/1 -  Obrigada.

 

R -  Obrigado.

 

P/2 -  Obrigada.

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