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História

"Olhar de Edite"

História de: Dona Edite
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/12/2020

Sinopse

Origem dos pais e avós. Casa na cidade de Pirapora. Perda do irmão e do pai na infância. Lembranças de amizades e de como era a cidade mineira. Memórias da vida escolar. Morte da irmã mais velha e migração para a cidade de São Paulo. Vida na cidade nova: trabalho, estudo e moradia. Movimento sindicalista e ditadura. Bairro do Jardim Miriam. Processo da perda de visão. Carreira como intérprete de poesia e seu envolvimento com o Sarau da Cooperifa. Lançamento de CD e documentário sobre sua vida.

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História completa

Eu nasci em 16 de setembro de 1942, Pirapora, cidade do norte de Minas Gerais. 

Até onze anos a minha vida era de uma maneira e depois de onze anos mudou tudo, porque memórias, assim, eu lembro quando eu tinha seis anos, que eu morava na Rua Sete, que era uma rua muito perto do São Francisco e depois eu mudei pra uma casa que era própria, porque a gente pagava aluguel, mas logo que nós mudamos eu perdi um irmão meu, afogado no Rio São Francisco. E, quando passou dois anos, eu perdi meu pai e aí eu tinha onze anos. Aí a vida, pra mim, mudou completamente, assim, sabe? 

Ah, foi muito triste, porque, assim, ele era mais velho que eu quatro anos e então eu, Zazá e Isaías enchia a paciência dele e nós acostumamos brincar com ele e foi muito triste. Ele desceu pra buscar mais manga e, quando minha mãe recebeu a notícia que ele tinha afogado, aí minha mãe foi e já o achou morto, assim. Aí, depois, quando passou dois anos, assim, que ele morreu, morreu meu pai. 

Meu pai era carpinteiro, mas ele tinha seis pessoas que trabalhavam pra ele. Ele tinha montado lá no centro da cidade, assim. Ele trabalhava de carpinteiro, mas ele tinha muito serviço e a gente tinha uma vida confortável, assim. Não uma vida rica, mas a gente tinha as coisas bem fartas dentro de casa. E aí, com a morte do meu pai, aí as coisas ficaram muito ruins pra nós, né? Minha mãe era uma pessoa que nunca tinha trabalhado pra fora, assim, né? 

Eu tenho uma relação muito forte com o São Francisco, com o rio, com os córregos, com buscar fruta no mato, a gente buscava lenha no mato, porque não tinha fogão a gás, não tinha nem luz, né? Não tinha luz. Depois chegou luz, mas era pra uma meia dúzia de casas, assim. Na minha casa não tinha luz. E eu tenho uma ligação muito forte com o rio, eu tinha, eu amo aquele rio. Ele é fonte de inspiração. Foi e é.

Porque eu lavava roupa nele, pulava pedra, brincava, pegava pedrinha. Tinha um monte, quando a gente entrava na água, de piabinha, que ficava beliscando a perna da gente. E depois tinha muitas flores num córrego que tinha. Tinha, não, está lá, assim, como figurante. Já não tem mais nem água, só sujeira. Mas aquele córrego, a água era limpinha e nele, assim, tinha muita planta, muita flor, assim, de diversas cores. Depois, quando tinha vento, eu achava lindo, o bailar das flores, assim, sabe? E de algumas amizades que foram muito marcantes na minha existência, lá.  

Então, eu saí de Pirapora, eu tinha dezessete anos, ia fazer dezoito. Com a morte da minha irmã, a gente não tinha mais nem por que ficar lá. Não tinha como sustentar a vida lá e eu fui açoitada pra cá, né? Aí cheguei aqui, arrumei trabalho, comecei a trabalhar, meu primeiro pagamento, meu, da Zazá e do tio Noel, nós mandamos pra Pirapora, pra mãe vir com Isaías, Adalgiza e Cleonice, né, que ficaram lá, assim. Aí, meus familiares vieram todos pra cá, né?

Eu morei em Indianópolis, depois morei no Ipiranga, depois vim pro Jardim Miriam. 

Eu trabalhei até em 1982. Eu operei em 1981, ainda voltei, mas eu voltei, só, mesmo, pra entrar com o papel, pra me aposentar, né? Por motivo de doença, porque eu deixei de enxergar, né? Ali eu comecei a enxergar muito pouquinho, que não dava mais pra trabalhar. Em 1981. 

Então, menino, aí foi um momento muito triste da minha vida, né? Isso que eu te falo: igual minha família é muito boa comigo, assim, mas assim, eu, toda a vida, fui uma pessoa que gosto de ter amizade. Sabe, é um lado muito bom da vida você poder... eu gosto desse lado da vida. Eu amo esse lado da vida. Assim, falar com as pessoas, lidar com as pessoas, sabe? Questionar e ser questionada. Eu acho muito bom esse lado da vida. De repente, com essa dificuldade de visão - eu ainda enxergava um pouco, assim – se eu tivesse que ir ao médico, meu irmão me levava. Se eu tivesse que voltar, ele ia lá depois, eu esperava, ele me pegava. É bom? É, sim, é ótimo. Mas depois, aqui em casa, assim, eu não conseguia fazer comida, porque eu enxergava pouco, aí arrumou uma menina pra trabalhar aqui em casa e ela trabalhava até meio dia aqui em casa e depois ia embora. Aí Zazá trabalhava, eu ficava aqui em casa sozinha. Nossa Senhora! Pior do que a perda da visão era essa ausência de ir e vir, de falar com as pessoas. Foi indo, menino, eu fui ficando, parece, mais do que a doença, isso foi ficando grave na minha cabeça. Eu passei por momentos bem difíceis. 

O tanto que não enxergar me afundou! Eu me sentia dentro de um quarto escuro, sem luz pra nenhum lugar e aí, com a poesia, eu encontrei, gente, eu nunca nem podia imaginar que eu chegasse até esse ponto, porque todas as vezes que eu declamo, que eu tenho oportunidade e que me dão e eu fui encontrando as pessoas no meu caminho e cada vez que eu encontro uma pessoa nova, igual eu estou encontrando aqui, pra mim não existe presente melhor pra minha pessoa, nesse momento de vida, a presença das pessoas em mim, né? 

No sarau eu cheguei através da Edna Maria, que é coordenadora da Flor de Lis, da Casa de Cultura e, quando eu comecei a declamar Estas Mãos, aí ela falou: “Nossa, um dia eu vou levar você num lugar, que você vai ver o tanto de poemas que você vai ouvir”. Mas eu cheguei lá, pra eu ouvir, né? Mas aí o Sérgio me descobriu lá e falou: “Dona Edite, quem chega aqui vai ter que declamar”. Eu falei: “Sérgio, Sérgio, eu não sei declamar, não, mas quem não sabe, aprende”. (risos) Pois não é que ele chamou meu nome? Mas eu tremi tanto, chorei tanto, mas depois eu ia no sarau e faltava também, porque Isaías que me levava e ele, como levantava cinco horas da manhã, terminava tarde, aí às vezes ele me levava, às vezes não, né? Aí a Edna falou que tinha ‘seu’ Zé, que é motorista, que às vezes a leva, que é uma pessoa de confiança, então, a partir disso, foi difícil - teve um ano que eu faltei uma vez no sarau – eu faltar. 

É porque o sarau me fez caminhar. Aí eu devo a Cooperifa, todas as pessoas que declamam lá, né? Que você vai ouvindo. Eu acho que a Cooperifa, eu sempre falo, é aquele livro que eu não lia e que ficava lá na estante, porque eu não enxergava e toda terça-feira, quando eu chego no sarau, as pessoas leem pra mim. 

É porque eu sempre falo, na Cooperifa, que eu enxergo com as minhas mãos. Eu enxergo, faço gestos. É como se, na minha frente, eu enxergasse as pessoas que ali estão e eu vejo os olhos das pessoas nos meus próprios olhos, que não enxergam. Não sei se eu expliquei direito isso, meu Deus! É tão grande, que não dá pra conduzir com palavras, mesmo, né? 

Na Cooperifa, tudo. Tudo que eu posso, que eu... a Cooperifa é tão grande que, às vezes, não dá pra você falar com palavras, porque tem uma coisa que eu observo na Cooperifa, que faz com que as pessoas estejam mais próximas, uma das outras, sabe? Tem a literatura, tem a verdade dos livros, verdade dos CDs, porque eu consegui fazer, assim, CD. E tem pra mim esse lado que eu gosto muito da vida, de sentir as pessoas, de conhecer, todo dia e, através da Cooperifa e desses poemas, nossa, eu vou no colégio... eu acho que não tem um lugar em São Paulo que os meus pezinhos não já pisaram. 

Ah, acho que a minha essência, agora, são meus poemas. E aí, não tem fim. (risos) Aí, não vai ter fim, mesmo.


 

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