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História

"Olha o mate!"

História de: Irany Domiciano Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2003

Sinopse

Carioca da gema e crescido na antiga Favela do Pinto, Irany Ferreira luta uma vida inteira por uma vida melhor. Entre as pescarias de siri e os bailinhos da juventude, um dos episódios marcantes que rondaram sua vida foi um incêndio mal investigado realizado na Favela do Pinto, no ano de 1969, que fez ele e sua família se mudarem para a Cruzada São Sebastião. De carregador a pescador, Irany acaba recorrendo ao trabalho como camelô na praia, onde vende o famoso Biscoito Globo e mate gelado aos banhistas. Em seu caminho diário pelas praias cariocas Irany encontra fregueses, um sol quente, o sal do mar e, sobretudo, uma trilha de luta marcada por cada passo na areia.

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História completa

Meu nome é Irany Domiciano Ferreira. Nascido aqui no Rio de Janeiro, na antiga Favela da Praia do Pinto. E dali me mudei para a Cruzada São Sebastião. Nasci em 17/10/1960. Meu pai é carioca. A minha mãe eu não lembro, mas acho que ela é, não estou lembrado. Eu não me ligo muito em ver essas coisas.

 

O meu avô se chamava Ieié. Foi o único que conheci. Mais ninguém. Ele era da parte do meu pai. Ele tinha um sítio, tinha plantações, tinha criações. Eu curtia essas criações que ele tinha. Essas plantação que ele tinha quando ele era vivo. Ficava em Jacarepaguá.

 

Eu tenho dois filhos. Uma chama Aline e tem o Alan Muniz. O meu filho tem dezesseis anos e ele já é encarregado de drogaria. Ele já está até na casa dele. Em Nova Iguaçu. A menina virou dona-de-casa.

 

Já sou avô. Sei que é uma menina, mas eu nem perguntei o nome. Não tive tempo ainda.

 

A Favela do Pinto era ali em frente a 14ª DP, hoje em dia se chama de Selva de Pedra, fizeram um conjunto residencial grande lá. Aqueles prédios monstruosos que estão lá. No Leblon. Ali, ao lado do Pinto, quando botaram fogo, aquilo não pegou fogo. Disseram que pegou fogo, mas botaram fogo. Não tenho muita lembrança porque eu era criança. Me lembro um pouco. Mas eu era criança, não posso falar muita coisa. Ali meu pai tinha comprado uma casa na Cruzada São Sebastião e fui morar lá. E lá eu estou até hoje.

 

Ali em si não podia brincar muito, porque era muito peralta, muita barulheira, muito tiro. Muita, muito bagulho. A minha infância ali foi mais bola de gude, peão. Entendeu? Bater na porta dos outros. Tocar campainha. Quebrar a escola. E rapa fora. Minha maior infância: peão, bola de gude, pipas. A gente fazia. Tanto fazia, como a gente comprava nas barraquinha vizinhas, que tinha. Dentro da própria favela, tinha um mercadinho, tipo uma birosca. A birosca tinha tudo. Tinha coca-cola, cerveja, pirulito, bala, doce. Tudo em geral, tudo misturado. Papel higiênico, arroz. Sempre que faltava uma coisinha a gente corria lá e apanhava. A gente comprava sempre um quilinho. Podia comprar meio quilo. Nessa época até o mercado vendia, hoje em dia só vende tudo ensacado.

 

Na época do meu pai – que Deus o ponha em um bom lugar – eu como criança nunca precisei de nada, porque meu pai era mestre-de-obras. Ele comprava saco fechado, comprava coisas na fartura. Às vezes a gente ia na barraquinha comprar uma coca-cola, um refrigerante. Comprava por lá, mas que faltasse, eu lembro que meu pai nunca deixou faltar nada dentro de casa. Ele trabalhava longe, aqui mesmo no centro da cidade. Voluntários da Pátria, Copacabana, estava tudo em obra.

 

E nessa coisa de brincadeira de criança, a gente pescava. Tanto é que até hoje de vez em quando eu pesco. Pesco siri, pesco tainha, às vezes dá camarão também. E camarão do bom. Siri do bom e tainhas boas. Dá robalo e corvina. Robalo é o peixe de qualidade mais caro que tem.

 

Tinha muito vizinho que pescava. Hoje em dia até um bocado deles são mortos. Mas tinha, meu irmão principalmente, eu me lembro até hoje. Tanto pescava como fazia tarrafa. O vizinho de cima, o do lado. Todo mundo sempre tinha um jogo de cintura para pegar um peixinho. Porque não podia viver só de mercado, né? O interessante é que isso é uma coisa típica de uma cidade como o Rio, que tem mar, tem canal. Faz parte quase da cultura do carioca. 

 

A educação da menina e do menino era bem diferente. Menina separado dos meninos, não tem negócio de misturar. Entre os irmãos os meninos misturavam. Mas se não fosse irmão não tem negócio de coleguinha, não. Menina com menina, menino com menino.

 

Aprendi a nadar e agora desaprendi a nadar de novo. Nado o suficiente só para não morrer afogado, mas não tem aquela resistência mais. Antigamente, eu era que nem peixe. Eu nadava, entrava ali e saia. Agora não está assim. A gente se mergulhar evita até de entrar naquela água lá agora. Porque inclusive muita gente fala que aquela água ali é poluída. Não é poluída, não é poluída porque o seguinte, aquilo é rede fluvial. Eles não sabem distinguir uma água poluída para aquilo ali. Aquilo lá tem várias saídas de redes fluviais. Inclusive, eu até admito que tenha, pode ter alguma boca de lobo, algum esgoto que possa jogar ali. Mas o esgoto em si não joga ali. Nós temos o esgoto separado que é da Sedai, porque o esgoto mesmo é ali no mangue, aqui na Leopoldina. Porque passa ali o cheiro, é insuportável, você vê. Do jeito que a Zona Sul está agora, tão chata, uma coisinha que fede ali ele liga logo para o presidente. O presidente vai lá. Quebrou um pedacinho de rua, eles ligam: “Ah, está quebrada a rua.” Eles vão lá e consertam. O pessoal de Zona Sul são muito comodistas. Eles não gostam de nada fedorento.

 

Minha escola, até hoje existe, é a Escola dos Santos Anjo. Fica lá mesmo, na Cruzada São Sebastião. E depois eu fiz o ginásio no George Pfisterer. E do lado do canal tem a escola do Henrique Dodsworth. As três escolas que eu já frequentei. E eu só parei o meu estudo nessa época porque eu tive que trabalhar para ajudar minha família.

 

Eu já tinha meus nove anos, lembro que eu era o boleiro de clube. Trabalhei no Clube Monte Líbano, no Caiçara. Boleiro é aquele que os tenistas jogam bola, aí gente vai lá, recolhe aquelas bolinha e devolve nas mãos deles.

 

Com o que eu ganhava dava só para ajudar uma coisinha de casa. Trabalhei na padaria Eldorado, fui entregador de pão de manhã. Aí de manhã, sete horas saía, entrava no clube. Do clube para a escola e assim uma coisa a outra, ligado uma coisa na outra. Só chegava em casa mesmo para descansar. Da padaria eu entrava no clube mais tarde. Eu ia da escola, chegava em casa, botava o macacão e ia para o clube. A gente botava um macacão azul (risos) que distinguia se a gente era um boleiro do clube. Eu cheguei a jogar, mas não sou tão bom nisso. Foram uns seis anos só nesse negócio de boleiro. De um clube passava para o outro. O ramo de trabalho antigamente era mais fácil. Quando eu saía do clube de boleiro a gente tentava vaga no outro clube. Através de um outro amigo, e do conhecimento dos próprios sócios do clube.

 

O boleiro bom tem que ter educação, rapidez. E não pode responder ao associado quando eles falam, porque tem muitos que são agressivos. É como o pessoal diz: “Não exija a minha educação. Mostre a sua.”

 

Geralmente a gente fazia um baile. Cada um tinha ali vitrola, tinha amplificadores. E a gente fazia nossa discoteca. Eu ia muito no Sport Club da Gávea, lá tem um clube maravilhoso. E na própria Escola Santos Anjo o final de semana a gente fazia baile lá.

 

Mudou muito, na época a gente ouvia muito charme. Hoje em dia eu não saio. Não sou muito de dançar. Só quando tem companhia. Eu prefiro escutar um som, um charme baixinho, tomando cervejinha, no sapatinho. Até dar a hora do sono. Quando dá sono, vai lá, desliga e já era.

 

Com quinze anos, dezesseis anos eu ainda era boleiro. Depois de boleiro já estava grande demais. A minha família sempre foi grande. Houve uma oportunidade do antigo supermercado Mar e Terra, entrei como repositor. Lá no mercado a gente ia sempre repor os produto que os fregueses apanham. Eu trabalhava na seção de perecíveis.

 

Fiquei lá por oito anos, de repositor eu fui para encarregado de seção, eu tomava conta da sessão de não-perecível, tomava conta também do hortifrutigranjeiro. Nesse caso teve várias mudanças de pagamento. Dali eu comecei a trabalhar aos poucos no balcão. Eu trabalhei no balcão de salgados, de peixaria e um pouquinho na padaria. Entrei na seção de peixaria e fiquei. Fui a chefe de setor de peixaria.

 

As pessoas que compram o peixe não entendem de peixe, minoria conhece um peixe, geralmente um freguês que compra peixe vai pelo que o outro fala. Se ele comprar dois quilos de filé aqui e o outro falar: ‘Não leva não que está ruim”, ele vai e deixa o filé. Uma freguesa chegou e falou: “Meu amigo, eu comprei um quilo de viola na feira, mas isso aqui não é viola.” Levou para eu conhecer. Era arraia. Comprou arraia como viola. 

 

Não, o que eu saí da Sendas foi uma divergência de preço errado. Eu coloquei um peixe errado, atendi um freguês. Aí nesse caso ele achava que eu estava roubando e me deram uma justa causa, da qual eu até botei na Justiça, e eu ganhei. Fiz um acordo. Mas para mim não foi bom. Foi divergência de preço errado, porque na época que eu fiz essa divergência de preço errado eu estava com uma mulher grávida em uma maternidade para ter neném. Estava para vir minha promoção para chefe-geral de peixaria, porque eu ia passar de sub-chefe para chefe, para a cabeça. Chefe número um. Quer dizer, eu estava mais que alegre. Aí houve essa pequena divergência. Na pressa, na correria eu devo ter botado o preço errado. Foi por isso que me mandaram embora. Caso contrário eu estava na Sendas até hoje.

 

Depois que eu saí da Sendas eu virei camelô de praia. O camelô de praia é uma pessoa que põe um produto para vender para pessoas que estão se deliciando naquele sol maravilhoso.

 

Primeiro de tudo foi quando eu trabalhei com bujão. Carregava no braço. Era um bujão mate e outro e de limão. Geralmente o pessoal pegava um pouquinho de cada um. Era do Mate Leão que a gente comprava.

 

Eu andava pela praia com uma camisa laranja do Mate Leão. Além disso a gente gritava: “Mate! Olha o mate! Mate limão!” Tinha mais de trinta quilos um bujão daqueles. Naquele calor tem que ter disposição. Vira e mexe a gente pára a mercadoria e dá um mergulho, senão não aguenta. Tem, agora tem ducha, tem umas torneiras. A gente tem que se molhar senão não tem condição.

 

Tinha um depósito. Na época eram dois em Copacabana, dois em Ipanema, e um no Leblon. O vendedor que saía em Ipanema não podia parar em Copacabana. É um depósito para cada um. Cada um tem o seu lugar de parar com a mercadoria.

 

O controle de quanto a gente vendia era pela contagem de copo. Eu já cheguei a vender até 250 copos na praia em um dia. De um modo geral, o pessoal gostava, sempre vendeu. Só que a quantidade do verão dobrava, vendia mais. Todo dia vendia, todo dia.

 

Eu saí desse ramo, porque agora eu mudei de mate de bujão para o mate de copo. Porque copo o Mate Leão mesmo trás já com data, tudo. Data de validade, tudo.

 

A gente trabalhava descalço mesmo, a areia quente dava até bolha no pé. De chinelo não dá para trabalhar, atrapalha. Tem gente que usa sapatilha, mas ela fica pesada, enche de areia.

Toda camisa do Mate Limão tem um tipo uma almofada. Todo uniforme que nós ganhamos tem tipo uma almofada da qual aguenta o peso. E a gente em si já bota uma toalha para melhorar. Aquela almofada fica mais aconchegante, senão machuca o ombro.

 

O pessoal mais antigo, que já tinham mais tempo, o Mate Leão dava o uniforme completo. Eu que entrei depois, não conheciam direito, ainda estava em experiência. Então não ganhei uniforme, só depois que ganhei o uniforme completo. Era o chapéu, a camiseta e a bermuda.

 

Tinha também as pessoas que vendiam coisas na praia em barraca parada, mas eu nunca pensei em fazer isso. O que eu queria era comprar um ponto para mim ou entrar em sociedade com alguém para poder trabalhar parado. Porque parado a gente serve os fregueses, alugando cadeira, fazendo uma caipirinha, servindo mate. Eles pedem a cerveja, a gente só vai lá e vai servindo eles. Eles ficam mais à vontade. Mas é melhor andando. Para mim é melhor andando. Se quiser, dá pra tomar um banho, eu tomo um banho, converso com os amigos. Eu faço mais amizade com as pessoas. Eu sou acostumado, mais a vontade. Não gosto de coisa muito parada, não.

 

Tenho freguesas que só compram comigo. Ela só compra com outro se caso eu não passar. Ela só toma mate, outra só toma água, guará plus.

 

O pedaço da praia mais movimentado é onde tem os barraqueiro. Tem gente que se cola a um barraqueiro. Fala assim: “Não, eu vou colar com o meu barraqueiro.” Porque ali ele bebe fiado, de repente tem sanduíches, eles comem sanduíche fiado. Por isso tem um lado que dá um certo tipo de clientela, outro já tem outras e tem os picadinhos. Onde a gente passa e vende também.

 

Tem lugar que tem mais turista. Em frente ao Caesar Park tem uma barraquinha, ali o rapaz faz sanduíche, caipirinha. Tem um segurança, porque tem muito turista de hotel, o pessoal prefere ficar ali, tem medo de algum ladrão até de praia.

Tem os surfistas. Esses só tomam água, mate, coca-cola. Mas isso tem a hora certa deles. Eles preferem o mar. Quando eles vão para a praia eles esquecem até que tem vendedor. Eles ficam lá no mar. Aí quando saem vão tomar um solzinho.

 

A tática não é bem tática, já é o costume. Já se torna um costume. A gente está tão acostumado que a gente pega aquilo e anda. E não sente mais nada.

 

Nos últimos anos não é que estão comprando menos, o ramo do comércio que aumentou, devido ao desemprego. É tanto que todo mundo cai na praia. O pessoal vende queijo, batata frita, biscoito. E muitas outras coisas: é bolsa, é pulseirinha, canga, óculos, tudo que você pensar, a praia virou um mercado ambulante.

 

E cada um tem que levar um pão para os seus filhos dentro de casa, tem que ter, arrumar um meio onde arranjar esse dinheiro. Porque seria triste você chegar em casa, o filho falar: “pai, eu estou com fome.” Você mete a mão no bolso e não tem um dinheiro para comprar um pão para o garoto. A venda não caiu, a venda dividiu. Antigamente como tinha pouco vendedor você podia sair com, por exemplo, cem mates. Aqueles cem mates não davam nem para começar a trabalhar. Parava rápido. Agora não, você entra na praia tem mais de cinquenta vendedores. O mercado em si não caiu, mas tem mais gente disputando. O mate em si é uma rede mundial de mercadoria. Vende muito mais. É número um. Só que a concorrência de venda aumentou.

 

Teve gente que já mentiu várias vezes para o jornal, já tiveram até entrevista de televisão, eu acho um absurdo uma pessoa dizer: “É, eu já comprei televisão, eu já comprei carro.” Isso aí é mentira. Praia não está isso, é ilusão quem largar o trabalho para entrar na praia.

 

Às vezes, a marginalidade vem daí. Porque você quer trabalhar, você não consegue chegar em casa, é gente cobrando, é filho pedindo as coisas. Você desespera. Mete a mão em uma arma: “Vou apanhar de quem tem.” Onde entra polícia, aí dá no que dá. Vocês conhecem o que acontece...

 

O nosso ramo de trabalho está muito fraco. Ninguém está dando trabalho para ninguém. Não tem condição. Eu tenho currículo espalhado. Ninguém chama. Tem advogado, tem polícia. Viu quantas pessoas foram fazer o curso da Comlurb? Milhares.

 

Quantas pessoas foram fazer esse concurso? Se inscrever ainda para tentar uma vaga. Você vê quantas pessoas estão sem poder trabalhar. Se põe no lugar dessas pessoas, se eu chegar em casa, tu chega quer comer e não tem. O garoto está doentinho e não tem o dinheiro para comprar um remédio. Não tem o que comer. Como é que tu vai fazer meu Deus do céu? Pedir pro vizinho? Pede em um bar o português não dá. Ele joga água.

 

Se uma criança me pedir em um bar: “Paga um negócio que eu estou com fome”, eu pago. Pago para comer. Mas dinheiro eu não dou. E até hoje eu não aconselho ninguém dar dinheiro. “Quer comer? Quero ver comer aqui.” Pago para ele comer ali. Para comprar não, nada de dar dinheiro. 

 

Eu só faço uma refeição por dia, só a janta. Se eu tomo café me faz mal, de manhã. Então eu saio de manhã, pego minha mercadoria, oito horas eu já estou trabalhando. Eu não paro. Só vou parar lá para às seis horas quando o tempo não muda. Porque tem o fator do tempo mudar. Às vezes o sol está uma maravilha, que nada, de repente aquela chuva começa a ventar sudoeste três dias, quatro dias. Fica uma semana. É aonde que a gente pega a nossa mercadoria e corremos para um sinal, corremos para um show. Nas calçadas não pode trabalhar, porque a Guarda Municipal atrapalha até o nosso trabalho. Cada um de nós que trabalha nesse ramo tenta defender um dinheiro para levar para casa.

 

O Biscoito Globo eu conheci através de amigo, que eu trabalhava. É um produto barato que todo mundo pode consumir. Existem duas qualidades de biscoito: sal e doce. O verde é salgado, o vermelho é doce. Geralmente uma mãe que vai para a praia e leva três reais. Aí engana a criança com biscoito Globo, entendeu? 

A gente tem um depósito que apanha, na Rua do Senado, acho que é 275, 277, não lembro muito bem. O biscoito Globo é um produto também mundial, que nem coca-cola. Vem todo mundo. É Campo Grande, Niterói. Qualquer lugar, tudo o que pensar vai lá comprar biscoito de lá.

 

Tem uma quantidade mínima para você comprar, no verão é um saco para cada um, você pode acordar duas horas da manhã que já tem gente dormindo naquela fila para adquirir o saco de biscoito. São cinquenta saquinhos que vem dentro de um sacão. Se a gente quiser só doce ele bota só doce. Se quiser só salgado ele bota só salgado.

 

A venda funciona de acordo com o tempo. Se o tempo não mudar, não ter nenhuma retorção, nenhuma chuva nem nada, é um dia normal. Vende uma base de dez biscoitos, quinze, vinte.

 

Teve uma vez que eu fui em um baile da terceira idade, aí eu saí, era uma e pouco, falei: “Ah, vou direto lá para apanhar um saco de biscoito senão vai ficar tarde.” Cheguei lá e ainda apanhei o número 196. Já tinha gente dormindo lá na porta. Mas é gente de todo lugar. O depósito abre às cinco horas e fecha onze e meia. E é tudo controlável. Aqueles que querem apanhar mais quantidade tem que entrar na fila de novo.



O perfil do meu cliente é o banhista que geralmente que vai para a praia para tomar um banho, tomar um sol, se corar um pouquinho mais e descansar. Tem gente que vai para a praia para ler um livro, descansar um pouquinho e tomar um banho para tomar um sol. Tem gente que como diz: “Ah, estou muito branco. Vou tomar um sol, tomar uma cachaça.” Já fala: “Vou tomar umas caipirinha.” É assim que eles dizem, já outros não. Já levam um livro assim: “Em casa é muito quente, quente por quente eu vou para a praia.” Sentou lá, pega uma cadeirinha, pega um guarda-sol, pega um caderninho e fica lendo. Estudando. Tem alguns que já estudam na praia.

 

Olha, para mim, geralmente, nada me atrapalha na praia a não ser o tempo quando muda. Alguns camelôs novos que entram, que não sabem dar os preços. Aí eles chegam, tira o exemplo, teve um rapaz que vendendo coca-cola de 600 ml a 1,50. A gente vende a latinha a dois reais. Como? Aí eu falei: “Com que ele consegue? Não dá.” Raciocina junto comigo: uma coca-cola de 600 ml deve estar quanto? Uma base.

 

É, tenho mais de vinte anos. Mas em questão de moda acho que não mudou nada. Quando fica muito tempo sem praia as meninas querem se queimar. Então umas usam fio dental, umas usam aqueles maiores, grandão. O que me impressiona são aquelas coroas. Sendo franco. Eu admiro uma coroa de biquíni com bumbunzão tremendo, é uma coisa linda.

 

Ah, o que mais tem é top less. Geralmente quem faz mais um top less são os gringo. Eu acho que o top less, hoje em dia, não é mais novidade. O que me chama a atenção é aquele negócio (risos) durinho. Uma vez eu parei perto de uma cliente, aquele top less, Deus me perdoe, ridículo. Mas não falo nada. Atendi ela, virei as costas e fui embora. Eu estou acostumado a ver isso.

 

Esses que ficam reparando muito, eu acho eles uns bobos, porque é uma pessoa que nunca viu um peito na vida. Hoje em dia tu vai em um ônibus tem uma mulher dando um peito a um garoto. Isso não é mais novidade.

 

Tem gente que você eu vejo todo dia na praia. Mas geralmente esses tipos de pessoas que ficam todo dia na praia são das classe melhorzinha.

 

A primeira coisa que eu falo de manhã é: “Vou trabalhar.” A primeira venda se benze, tem que dar certo o meu dia de hoje. Faço as minhas rezas para eu poder trabalhar, que tudo dê certo. Enquanto ao tempo, só Deus é que sabe. Quando dá tudo bem, a gente vende bem. Ganha vinte, 30 mil réis, dez mil réis, quinze mil réis. E assim a gente vai levando a vida.

 

Lazer. Não tenho mais tempo para isso, não. Às vezes eu só, ou no inverno, escuto um charmezinho baixinho. Dou uma namoradinha, umas bitoquinhas. Está tudo bem. Devido a idade também, não estou mais nessa idade de farra, dançando. Às vezes a gente curte um sonzinho da terceira idade, amassar uns esqueletozinho e tal. Fora disso é trabalho, casa, um sonzinho, uma alimentação social e tudo bem.

 

Primeiramente, eu acho que para recuperar o comércio brasileiro, tinha que haver mais condições de trabalho para todo mundo. Nós não temos condições de trabalho. Cada projeto que faz, cada projeto que vem da cabeça deles só vem para prejudicar a cada um de nós. Eles nunca fazem um projeto para melhorar ninguém. Ninguém. Só prejudica. Quer dizer, a classe pobre está sendo sempre massacrada. Resumo: só vai cair na praia, então não existe. Para fazer uma melhoria – e pode ver quantidade de produto, qualidade de mercadoria, preço – se não tiver preço não tem mercadoria para trabalho. Cada dia aumenta mais, cada dia aumenta mais, os fregueses vão correndo. E se fica sem opção de trabalho. Uma pessoa trabalha, sabe o que eu estava pensando já? Mudar meu ramo de trabalho. De vez de sair do mate. Eu estava pensando em botar, trabalhar com canga, trabalhar com biquíni no verão. Porque tem muito concorrente. Quer dizer, a venda não fica ruim. Quem diz: “Ah, a venda está ruim.” Mentira. A venda divide, dá para todo mundo. Divide. Se eu tiver de vender cinquenta, eu vendo vinte, ele vende vinte, outro vende vinte. Quer dizer, dá para todo mundo.

 

Meu filho, na farmácia que ele trabalha, ele é encarregado de depósito e aos poucos ele está pegando uma promoção. E ele está estudando. Primeiramente eu queria formar ele no estudo dele. Esse é o meu sonho para amanhã ou depois, ele ser alguém na vida. 

 

Não adianta hoje em dia uma pessoa ter profissão, como eu já falei e repito, nós não temos ramo de trabalho. O ramo de trabalho nosso está todo fraco. Advogado, eletricista, pedreiro e muitas outras pessoas que têm contabilidade, têm estudo, são formados. Eu conheço advogado, está tudo na areia, carregando caixa. Por que eles estão na areia carregando caixa? Porque não tem condição de trabalho. O mercado de trabalho está assim. Você precisa de um trabalho, tu senta na mesa, tu enche um currículo. Ele pergunta a você: “Você trabalha do quê?” “Eu sou agente vigilante.” Olha tua carteira está com oitocentos na carteira. “Você saiu por que?” “Eu saí, foi por contenção de despesa.” Pede a sua referência. “Está aqui.” Aí: “Depois eu te chamo.” Aí você fica. Não te chama nunca. Por que? Seu salário está alto. Não é porque não precisa de você. Seu salário está alto. Aí chega um outro mais novo, eu posso pagar. Chama ele: “Ó, eu te dou um salário de trezentos reais, mais uma comissãozinha.” Ele vai pegar. Não vai dar para o outro que é sempre mais... Serviço de pedreiro. Chega um, chega um aqui: “Quanto tu faz isso para mim?” “Duzentos reais.” Aí tu vai, pergunta, o outro pega e me faz por 150, faz por cem, você vai preferir do outro. Se cobrar um preço certo x, todo mundo vai fazer o seu preço e a turma, os cabeças em si vão pagar o preço de cada um, melhora. Você viu o ônibus agora? Eles estão fazendo o ônibus agora de uma porta. Por que? Para não pagar mais um trocador. Quer dizer, é mais um desempregado na vida. A nossa classe de trabalho está muito massacrada. E é isso, se vocês fossem fazer alguma coisa e botar na pauta, tem que botar bem grande aí: “O brasileiro, tá – em si os pobres – são massacrados devido as carestias.” Além das carestias dos produto e nosso ramo de trabalho que nós não temos, eles não valorizam o trabalho de ninguém. “Você quer trabalhar? Você quer ganhar quanto? Cem? Não posso pagar cem.” Ele bota uma pessoa para ensinar. Paga cinquenta pra essa pessoa, mas não te dá o valor do teu trabalho. É isso que acontece.

 

Esse biscoito está há mais de quatro anos assim. Sem aumentar o preço que a gente paga quanto o preço que se vende. Ele aumentou uma vez para 35, mas teve um tumulto lá que ele abaixou de novo para 33. Não deu.

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