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História

Olga Giongo

História de: Olga Giongo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Olga Giongo Ribeiro dos Santos relatou sua infância em Rio Claro, como filha de pais estrangeiros. Na sua opinião, esse diferencial marcou toda a sua vida. Refletiu sobre como o grande interesse pela pintura definiu sua opção pelo estudo em um convento em Rio Claro. Quase se tornou freira, mas acabou se casando e mudando para São Paulo. Ponderou que para conciliar a vida de mãe com o amor pela arte, durante toda a vida deu aulas de pintura em casa.

História completa

Meu nome é Olga Giongo Ribeiro dos Santos, nasci em Rio Claro, São Paulo, no ano de 1937. Meu pai era austríaco, mais para o lado da Itália, Trento. A minha mãe era descendente de italianos, nascida em Campinas. Eles tiveram oito filhos, um morreu. A minha infância foi gostosa, pular corda, brincar na rua lá em Rio Claro. Nós éramos crianças diferentes das outras porque nós falávamos só italiano em casa, a dificuldade de conversar atrapalhava um pouco. Meus pais eram estrangeiros, a maneira de educar era diferente. As outras crianças achavam que nós não éramos brasileiros. Nós falávamos português, mas a maneira de ser era diferente. Rio Claro era uma cidade formada por italianos e alemães, praticamente.  Depois da Segunda Guerra, Rio Claro mudou totalmente porque vieram franceses, brasileiros, muitos de São Paulo. A cidade cresceu, se modificou.


Desde muito pequena eu gostava de desenhar, o carvão era o giz. Pra mim, desenhar era a vida, a brincadeira. Acho que nasci desenhando. Minha mãe disse que a primeira vez que me deram um lápis na mão, ao invés de rabiscar, eu falei: “Senta.” Eu fiz um retratinho dela. Eu fui ao grupo escolar primeiro e depois fui pro convento Coração de Maria. Eu garanti o meu estudo, diferente dos meus irmãos: eu cuidava das crianças, ajudava e na minha hora de escola, era escola. Não fui ao convento porque decidi ser freira, fui ao convento porque tinha possibilidades maiores de aprender. Gostei do tratamento das freiras, gostei de muita coisa, quase que eu virei freira.

 

Quando eu conheci o meu namorado, vi que não ia ser freira. Era amigo do meu irmão. Eu me apaixonei, já tinha 23 anos. Só namorei com ele, casei e vivi com ele até ele morrer. Judiação. Poderia eu ter ido e ele ter ficado. Eu casei em 1962, vim pra São Paulo – não tinha filhos ainda – fui dar aula na Associação da Criança Defeituosa. Naquela época, meu marido não queria que eu trabalhasse, mas eu briguei e fui. Fiquei lá até ficar grávida do meu primeiro filho. Aí que realmente começou a minha vida, quando as crianças nasceram, a vida de mãe, de dona de casa. A coisa mais linda que pode existir na vida de um ser humano, especialmente pra mulher, é ter um filho. Muda a sua vida. De repente, você quase não existe mais, aquela doçura, aquela meiguice das crianças. Eu tive um logo atrás do outro, a diferença do menino pra menina é de um ano e três meses. A vida fica preenchida. Depois dos filhos, sempre dei aula de pintura em casa. Dei aula muitos anos, tive muitos alunos.

 

Eu tenho saudades da minha infância, da minha juventude, do meu casamento. Quando morre o marido é uma tristeza que você não faz ideia. Eu faço pintura pra poder ir longe, você coloca na tela o que você gostaria de ver, de viver, você sonha. Se o ser humano perder a vontade de sonhar, ele tem que arrumar outro processo. Eu arrumei a minha pintura, desde pequena eu fazia isso. É o que dá, como dizia o meu pai que era italiano, sustancia la vita. Você cria os filhos, eles crescem, você fica… São Paulo é uma cidade onde você não tem muitas amizades, essa é uma realidade. Para ver qualquer pessoa que é minha amiga, eu tenho que sair de ônibus, metrô, não sei o que… Às vezes, na idade que eu estou, não dá pra ficar saindo sozinha.


É bom viver, é triste ficar velhinho, mas as lembranças sustentam. Essas coisas boas da vida sustentam até a velhice. Nunca um ser humano deve chegar nos 70, 80, e falar: “Tô velho.” Não. Inventa coisas pra fazer. Muda o jeito de pintar, se é uma pintora, como no meu caso, muda o esquema de vida, muda a maneira de fazer a comida, renova. A cada dez anos a gente deve ter uma renovada na vida. Seu emprego é ruim? Tchau. Se a vida tá ruim, melhore. Como melhorar? Você vai ter que estudar o que você gosta de fazer, porque quem faz o que não gosta não chega a lugar nenhum. Isso é uma velhinha falando uma história de vida, não sei se é boa, se é ruim, mas é a que eu vivi.


Meus sonhos, com 80 anos? Ter saúde. Física, até a gente releva, mas mental é necessário que a gente tenha sempre equilibrada. Pra isso, existe só uma receita: comer bem, não exagerado. Comida é essencial, passear, eu não posso dizer que eu passeie muito nessa vida, muita diversão eu não tive, eu criei crianças minhas, criei família, meu marido, corri, andei, sou uma pessoa normal. Completamente normal. Nem sei porque eu estou fazendo essa entrevista. Falei mais do que a minha boca.

 

Editado por Raquel de Lima


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