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História

Olaria 88: barro, bocha e futebol

História de: Francisco Gianetti Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/08/2003

Sinopse

Senhor Francisco conta sobre a vida em Itaquera, desde a infância, quando nadava no Rio Jacu e podia ver milhares de estrelas no céu, até os dias atuais, quando o Rio já não é mais limpo e as luzes da cidade ofuscam a luz das estrelas. Algumas coisas, porém, foram preservadas, como o fogão à lenha que usam em algumas ocasiões especiais. A história do senhor Francisco traz a trajetória de uma família italiana, dona de uma olaria, e passa pela chegada da energia elétrica na região, pelo advento de diversos tipos de transportes e pelas mudanças pelas quais passaram o bairro e seus moradores. 

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História completa

P/1 - Então, seu Francisco, a gente queria que o senhor dissesse o seu nome completo, o local e data de nascimento.
R - O meu nome é Francisco Gianetti Neto, nascido em 05 de março de 1948, em Itaquera. Aqui mesmo em Itaquera.
P/1 - Então, seu Francisco, vamos tentar recuperar um pouco a sua história desde antes de o senhor nascer. O que seus avós faziam?
R - Os meus avós vieram da Itália, se instalaram aqui em Itaquera... Ah, não. Primeiramente, o meu avô veio sozinho, veio com o pessoal de Guaianazes, família Gianetti de Guaianazes, e se instalou em Guaianazes. Posteriormente, aqui em Itaquera, depois voltou para a Itália, casou com a minha avó e se instalaram em Itaquera, em 1912.
P/1 - O senhor lembra qual a atividade que ele tinha na Itália, antes de vir?
R - Eles eram... Quando saiu de lá? Eram colonos, né? E aqui optou pelo ramo da olaria. Iniciamos com olaria.
P/1 - Eles vieram para o Brasil...
R - Vieram para o Brasil, se instalaram aqui em Itaquera, fizeram a vidinha deles e tiveram mais seis filhos. Com o meu pai, sete. Três homens e quatro mulheres. Todos nascidos e criados aqui em Itaquera. Crescemos aqui... eles, né? E, depois, sempre exercendo o ramo de olaria. Então a nossa vida inteira foi como a dos meus pais. Depois, o meu pai casou, claro, com a minha mãe. As minhas tias casaram, os meus tios casaram, e formaram uma família unida sempre. Então o meu avô era o chefe, Francisco Gianetti chamava o meu avô, e ele era o chefão de todos. Ele tinha até o apelido de “Espacão” porque ele era granfino. Então os filhos trabalhavam e ele só negociava...
P/1 - Ah é. Da olaria?
R - Só fazia negócios. Então ele era chamado de... O nosso apelido aqui em Itaquera era de “Espacão”. Não de Gianetti. Muita gente nos conhece como “Espacão”, família “Espacão”. E foi assim dando sequência, com o ramo somente de olaria, venda de tijolos.
P/1 - Sempre foi a casa da Sabbado D’ ngelo?
R - Não, a primeira olaria que eles tiveram foi aqui na rua Jacu, antiga.Antigamente era rua Jacu. E posteriormente aqui, em 1948, quando eu nasci, já foi instalada a outra olaria, em cima, na Sabbado D’ ngelo. Foi onde eu nasci, na casa que eu nasci e estou até hoje.
P/1 - Como era a casa? Era grande?
R - É, era grande. Era uma casa de, assim... modesta, né? Porque antigamente não... Mas, então, tinha a nossa casa e as casas dos empregados que trabalhavam nas olarias. E os meus tio todos eram... moravam praticamente, assim, um “pegado” com o outro. 
P/1 - Ah sim, quer dizer que era a casa de vocês onde os empregados da olaria moravam?
R - Moravam em volta do trabalho. 
P/2 - Como era a sua infância? Com o que o senhor brincava, de que?
R - Então, a minha infância, eu... A nossa infância aqui praticamente era no rio Jacu, que a gente tomava banho, a minha mãe lavava roupa...
P/1 - No rio?
R - No rio. Tinha água, mas ela preferia lavar porque o rio passava no fundo do nosso terreno, aqui, onde nós estamos hoje. E a minha vida, dos seis anos, quando eu me conheço por gente, era brincar aqui no rio Jacu, pescar e jogar bola. Então aqui nós tínhamos a nossa olaria, a olaria aqui do Egídio, olaria do Cisto, olaria do Salvador, Novelli. Então era assim uma... Diversas olarias, né? Então a gente ia para a casa do outro, ia brincar, ia jogar bola. A minha infância foi... E a colônia japonesa, entendeu? A colônia japonesa onde eu, aos sete anos, entrei na escola, Colégio Estadual Colônia de Itaquera, que pertencia à colônia japonesa. Então a gente foi criado também com os japoneses que chegaram aqui, também, como minha família, em 1900, 1912. Se instalaram aqui na colônia, os japoneses, que tinham também a plantação de morango que era transportado aqui pela Central do Brasil, pegava o trem. E como os nossos tijolos também, eram embarcados aqui na Central do Brasil, eram carregados pelos vagões especiais. A minha mãe, toda a família, levava os tijolos até a estação de trem e depois eram transportados lá para o Brás, onde eram distribuídos para fazer... Ajudar a construir São Paulo. (risos)
P/2 - Levava como, seu Francisco?
R - Levava por intermédio de carroça. Por intermédio de carroça e, depois, era transportado nos vagões até o Brás. E depois de lá era distribuído para as construtoras; o nosso tijolo 88.
P/2 - Por que tijolo 88?
R - O tijolo... é a marca que o meu avô pôs, porque 88 sempre aparecia o tijolo de... Então a gente fazia, de qualquer jeito que o tijolo ficava, ele ficava 88. Era uma marca registrada. Então sempre 88, tanto fazia, de qualquer jeito que o tijolo ficava, ele aparecia 88. Então o meu avô deu esse nome, de Olaria 88, que hoje a gente não tem mais, não fabrica mais tijolo. Mas ainda ficou alguma coisa de lembrança, que é o nosso clube, Esporte Clube Olaria 88. 
P/2 - E por que é que tinha muita olaria aqui em Itaquera?
R - Eu acho que era devido a aqui ser uma vargem muito grande, nesse setor aqui nosso, que tinha muito barro. E eram poucas as indústria que tinha aqui. Então optava mais para olarias, cerâmicas, né? E essa vargem toda, até chegar na Vila Santana, então, eram todas olarias. E a colônia, que era a plantação do morango, posteriormente pêssego. Itaquera... A minha infância, eu acho que o que nós aproveitamos aqui seria, muito, foi a Festa do Pêssego, que era tradicional aqui em Itaquera. E quando a gente ia fazer o único passeio nosso, ou era ir de trem para Mogi, porque não existia carro, era raro a pessoa que tinha carro, ou era andar de charrete, cavalo, era a nossa infância. Então aqui em Itaquera o único divertimento que nós tínhamos era ir na matinê, no cinema do seu Evaristo, e jogos... Tinha clubes aqui, que nem o Elite Itaquera, tinha o nosso time, o nosso Clube Olaria 88, tinha a Nife, que é a primeira fábrica que veio aqui para Itaquera, uma das primeiras. Tinha uma fábrica de tecer tecidos aqui em cima... Eu não lembro agora o nome dos donos lá, mas é gente muito antiga, né? E que mais eu posso falar para vocês? 
P/1 - Me diga uma coisa, a sua mãe ela lavava roupa, ela preferia lavar no rio, mas vocês já tinham água encanada?
R - Não, não tinha. Era água de poço, mas como era mais fácil o pessoal lavar a roupa no rio, ela lavava no rio.
P/1 - E eram muitas mulheres?
R - Ah, sim. Todas as famílias que trabalhavam com a gente na olaria, cerca de 10 famílias. Então vinham lavar a roupa aqui no rio Jacu.
P/1 - Enquanto ela lavava roupa, o senhor pescava?
R - Pescava, nadava. Nós fazíamos... Represava o rio, né? E a nossa diversão era essa. Eu com os filhos dos empregados, porque a gente era tudo criança. E é por aí.
P/1 - O rio passava onde, que o senhor disse?
R - Ele passava aqui onde que nós estamos hoje. Hoje foi retificado com essa vinda maravilhosa, a volta que deu Itaquera. Então... E no passado sempre teve problema de enchente aqui. Sabe que Itaquera foi... Isso foi nos anos 1950, quando a gente era criança. E depois jamais a gente pensou que a partir da escola... Vamos falar primeiro aqui. Vamos falar primeiro aqui da colônia japonesa. A gente estudou aí, fizemos o primário e depois passamos para... Eu e a minha irmã, que é a mulher do Joaquim, Maria Aparecida, nós fizemos a admissão com a dona Anita, que era a principal. E depois entramos no ginásio em Itaquera, que era o Álvares de Azevedo. E daí, depois, parei de estudar. Depois já veio o Castelo, né? E a gente pensou que Itaquera, devido à colônia ter muita plantação de pêssego, a gente pensou que jamais ia sair disso. E de repente, nos anos 1980, veio a Cohab 2, que deu um grande impulso para Itaquera no setor comercial. Então onde a gente hoje estabeleceu o ramo de... Terminou com a olaria e continuou com o ramo de materiais de construção, assim como muitos que aproveitaram essa vinda aqui, da Cohab José Bonifácio.
P/1 - Como era o bairro quando o senhor era criança? Como é que o senhor descreveria, assim, o bairro? A paisagem que o senhor lembra?
R - Tudo campo, campo. A Vila Carmosina, hoje, há trinta anos atrás, era literalmente campo, onde que o pessoal criava vaca, tirava leite; a Vila Carmosina. A colônia, como eu já falei para vocês, era plantação antigamente, bem nos... Os primeiros japoneses que vieram com o morango e depois, plantação de pêssego. E já vou retornando a falar, que através do pêssego vieram muitos visitantes aqui, para comprar o pêssego, quando fazia a Festa do Pêssego, em novembro. Todo final do ano tinha a essa festa, onde tinha a Rainha, a Princesa do Pêssego. Era muito bonita a festa.
P/2 - A avó do senhor foi a Rainha do Pêssego? 
R - Foi.
P/2 - Conta para a gente, o senhor lembra?
R - É, eu era criança mas lembro, né? Inclusive, não só a minha irmã, como muitas famílias antigas daqui de Itaquera, disputaram a Rainha do Pêssego. É claro, os japoneses... Tinha muitas brasileiras de famílias italianas que participaram dessa festa, não só os japoneses. Tinha aqui na colônia a família Bassi, a família Bertoli e muitos fabricantes de vinho também. Inclusive, a gente já tentou também a fabricação de vinho, quando antigamente, né? Mas o mais era aqui da colônia. Muitos amigos, parentes nossos, que eram fabricantes de vinho aqui na colônia.
P/2 - E a Festa do Pêssego, o que tinha na festa?
R - A Festa do Pêssego? Era a exposição do pêssego e implementos agrícolas que eles expunham na própria festa, nas três semanas de festa. Dança folclórica japonesa, ofereciam... Que mais? Esses implementos agrícolas e muitas outras variedades, de exposição de animais às vezes. De animais... Então, juntamente com a Festa do Pêssego. 
P/1- Por que era em novembro?
R - Porque é a época que saía os pêssegos mais...
P/1 - A época da colheita?
R - É, a época da colheita do pêssego, que era final de novembro e começo de dezembro. Muito bem organizada pelos imigrantes japoneses, a colônia japonesa. E a gente passou a infância ai juntos, com os japoneses, os brasileiros, entendeu? Eram não todos japoneses que vieram do Japão, mas eram filhos dos japoneses mesmo, que estudavam junto com a gente aqui. Hoje são doutores, advogados, engenheiros...
P/1 - Era uma relação boa assim?
R - uma relação ótima. Não tinha preconceito, a gente, inclusive, até sabia cantar até um pouco em japonês, entendeu? Quando era criança era muito boa a convivência dos japoneses aqui na colônia com os outros moradores.
P/1 - Quem ganhava a Rainha do Pêssego? Era a beleza o critério?
R - Era a beleza, a beleza. Beleza e quem vendia mais, quem fazia mais votos. Claro, quem fazia melhor campanha ganhava. Mas era por beleza mesmo. No dia, eles escolhiam, a comissão julgadora, e sempre ganhava a mais bela.
P/1 - E como era a campanha?
R - Olha, não tenho bem certeza porque isso aí a gente era criança. Mas era por intermédio, é claro, de fotos apresentando a Rainha do Pêssego. E no dia mesmo ficavam todas elas. Vinha o Governador de São Paulo, que era muito, assim, uma pessoa muito bem-quista, bem  aceita por todos os moradores. Era uma pessoa muito bem respeitada por todo mundo, uma autoridade. O Governador, antigamente, era praticamente a autoridade máxima aqui no nosso Estado. Hoje está meio devagar...
P/1 - Em baixa. (risos)
R - Em baixa. Antigamente era muito importante a vinda de um Governador, de um Prefeito, no bairro. Era muito respeitado.
P/1 - Teve até que ano a Festa do Pêssego?
R - Agora você me pegou. (risos)
P/2 - Não tem problema.
R - Olha, a última Festa do Pêssego... Olha, eu vou ficar te devendo isso aí, porque já há vários anos que terminou, né? 
P/1 - Sei, já faz um tempo.
R - Hoje... Porque acabou. Hoje, a indústria ocupou os espaços das chácaras de pêssego. Então é um pólo, praticamente um pólo industrial hoje, a colônia japonesa.
P/1 - Aqui em Itaquera...
P/2 - A colônia?
R - Era para ser um pólo industrial, mas tem muitas indústrias. Então os japoneses mesmo, os mais antigos, se mudaram mais para o interior, tipo Poços de Caldas, entendeu? No ramo de pêssego, né? Aqueles que eram produtores mesmo de pêssego foram para outros... mais para o interior aí. 
P/1 - E aí o senhor ia para o cinema? E onde foi que o senhor conheceu a sua esposa? Como é que começou esse romance?
R - Foi no colégio Emiliano. A gente estudava junto e lá nos conhecemos. E a diversão nossa, como eu falei para vocês, era assistir os jogos domingo à tarde e a rivalidade que tinha entre os clubes aqui de Itaquera. Tinha o cinema e o nosso passeio aqui era pegar o trem, Central do Brasil, quando a gente era criança. Fazer compra no Brás, fazia compra na... Então depois que descia no Brás pegava o bonde... Quando era criança, eu lembro muito bem do bonde ainda, que levava a gente até a Praça da Sé e lá fazíamos as compras, depois voltávamos e vínhamos embora para Itaquera. 
P/2 - Comprava o que, na época?
R - Roupa... Mantimento não que aqui tinha. Mas, mais era roupa. Só era lá que tinha, na Penha, no Brás...
P/2 - E ia a família toda?
R - A família toda. Tirava foto com a família. (risos)
P/1 - Lá no Brás?
R - Ia. E aí a nossa infância foi isso. 
P/2 - O senhor trabalhou na olaria?
R - Cheguei a trabalhar.
P/2 - O que o senhor fazia?
R - Eu, na olaria mesmo, trabalhei pouco tempo. A gente fazia mais era entrega com os caminhões. Já aí, já modernizou, a olaria deixou de ser manual e vieram os maquinários. Então a gente tinha... Aí já vieram os caminhões, já veio o trator, então mecanizou. O material humano mesmo era... Daí foi reduzindo. Então foi modernizando e nós acompanhamos o que vinha. Já deixou de ser manual a fabricação de tijolo. E nós terminamos esse ramo de olaria em 1970, devido ao barro aqui, que já estava terminando. Compramos barro na colônia e também já... Então terminamos aí e começamos com outra atividade de material de construção.
P/1 - O senhor lembra quantos anos o senhor tinha quando começou a trabalhar?
R - Quando eu comecei a trabalhar? Olha, nós trabalhamos desde os doze anos de idade. Ia na escola e trabalhava também. Ajudava os meus pais...Toda vida, sempre trabalhamos.
P/1 - Seus pais eram muito severos?
R - Não.
P/1 - Como era a relação?
R - Muito... Nossa, o meu pai nunca me deu um tapa. A minha mãe sim. Eu apanhava da minha mãe. (risos)
P/2 - A sua mãe era brava?
R - A minha mãe era brava, o meu pai não. O meu pai sempre foi uma pessoa que... A gente também não dava muito motivo, porque sempre... Eu acho que a educação que eles deram para a gente, a gente conseguiu... Talvez, se consegue passar para os nossos filhos hoje. É difícil na época de hoje, mas estamos tentando fazer tudo de bom, que é aquilo que eles deixaram para a gente, entendeu? E voltando ao assunto, o meu avô, hoje, ele se fosse vivo... morreu muito cedo, então deixou assim, a nossa família meio assim... não desestruturada, deixou assim... Ele era o cabeça de tudo. Ele que fazia o negócio, comprava e vendia. Tudo que nós temos hoje, graças a Deus, o pouco que nós temos hoje, a gente deve ao meu avô, que foi passando de pai para filho, do meu pai passou para mim, eu estou passando hoje para os meus filhos, entendeu?
P/1 - E as suas irmãs? O senhor era o único homem?
R - O único homem.
P/1 - Como era a relação com as irmãs?
R - Boa, nossa! Sempre unidos, sem problema de família. Tudo bem, graças a Deus.
P/1 - Vocês passeavam juntos pelo bairro?
R - Ah, sim. Nossa, de charrete!
P/1 - Ah, é?
R - O nosso passeio aqui, domingo à tarde, ou era andar de cavalo ou de charrete que ia para Itaquera, deixava lá. Depois veio a bicicleta, a gente começou a ir para a escola de bicicleta, eu e as minhas irmãs.
P/1 - E o ônibus, quando chegou por aqui?
R - Ai veio... O primeiro ônibus aqui de Itaquera? O primeiro ônibus veio do senhor Gabriel. O primeiro ônibus que veio aqui, do senhor Gabriel, de Itaquera até a colônia japonesa. Itaquera com o primeiro ônibus. Depois vieram os que vinham de Guaianazes, Ferraz, que iam para a cidade, né? Depois... isso aí já foi para os anos 1960, que começou.
P/1 - O senhor lembra a primeira vez que o senhor pegou ônibus?
R - Aqui em Itaquera? Quando eu tinha seis anos de idade, o primeiro ônibus que eu peguei. Que eu lembro, né? Não tinha ônibus.
P/2 - Que passado, né? Tão diferente. (risos)
R - Poeirinha.
P/2 - Poeirinha?
R - Poeirinha.
P/2 - Por quê?
R - Porque era ônibus antigo. Aqui não existia asfalto, não existia. Então era o poeirinha. Então... 
P/1 - Ele levantava a poeira. (risos)
R - Levantava só o pó.
P/1 - Qual era o trajeto dele?
R - Esse poeirinha, que fazia... então fazia do centro de Itaquera à colônia japonesa.
P/1 - Mas e as pessoas que utilizavam mais o trem...
R - E pegava todo o pessoal daqui, descarregava na estação do trem, depois ia para a cidade trabalhar. Assim era feito com frutas, com todos os produtores daqui de Itaquera. Era só trem. O meio mais fácil de transporte para nós irmos para a cidade era o trem.
P/1 - E o poeirinha? Quando foi que o poeirinha deixou de levantar  poeira? Eu quero perguntar o seguinte, da estrada de barro já passou para o asfalto ou teve... 
R - Asfalto.
P/1 - Ou teve calçamento?
R - Não, nunca teve. A única... O primeiro asfalto que teve foi a avenida Itaquera, a estrada de Itaquera, e um pedaço aqui da rua Italina, hoje é Victorio Santim, que vinha para a colônia aqui. O único pedaço asfaltado. E a luz veio aqui para nós, para a colônia… Itaquera já tinha, mas veio em 1952. 1952, a luz aqui para a colônia, para Itaquera, servindo todo mundo aqui da colônia.
P/1 - Já tinha luz na sua casa?
R - Desde 1952.
P/2 - O senhor lembra, quando veio a luz o que aconteceu?
R - Maior festa.
P/2 - É?
R - Maior festa, maior festa. E aí marcou muito, muito, um acidente, que deixou a gente ao mesmo tempo contente e ao mesmo tempo triste. Houve um acidente quando foi inaugurada a luz, morreu um rapaz que estava terminando de ligar... Estava terminado, ficou preso no fio e veio a falecer.
P/1 - É mesmo?
R - Foi muito triste. Mas enfim, passou, e depois todo mundo agradeceu que veio a luz para Itaquera, em 1952.
P/2 - O que é que mudou nos hábitos? Assim, o que o senhor lembra que... 
R - O que mudou? Como assim?
P/2 - Do dia a dia da casa, assim, de aparelho doméstico... 
R - Aí, vieram, deixaram de usar... Veio o gás. Então, era o Ultragaz e o Liquigás, antigamente. Isso já quando a gente era pequeno. E já deixou de fazer fogão... Mas nunca deixou de ter o fogão a lenha, como nós temos até hoje. Isso é tradicional. Até hoje a gente permanece ainda... Mas não usa mais, usa pouco, mas temos ainda o fogão a lenha em casa. E o que mudou? A gente hoje não vê estrela. Antigamente, isso aqui era milhões e milhões... A nossa diversão era a noite, porque era tudo escuro, escuro, era um breu, mesmo com a luz porque ninguém podia... Então, a gente olhava milhões de estrelas. Hoje, a gente não vê meia dúzia.
P/1 - Em noite de lua, então?
R - Eu não sei.
P/1 - Mas, antes da chegada dava para saber.
R - Dava para ver, isso há trinta, quarenta anos atrás, quando a gente era criança. Então o único divertimento era ir para fora à noite, e não tinha nada, não tinha rádio, não tinha televisão, né? Depois que veio a televisão. Claro, quando veio a gente comprou também. Tínhamos condições, graças à Deus, sempre tivemos uma vidinha mais ou menos estável, que deu para ter essas mordomias.
P/1 - O senhor lembra o que vocês compraram primeiro, se foi uma TV ou uma geladeira?
R - Foi... Eu acho que foi os dois juntos, parece. Bom, geladeira já é mais antiga, né? A televisão também, mas não tivemos logo no início a televisão, não. Sempre tivemos rádio. Não tinha muita condição de ter tudo junto, né? 
P/1 - E aí guardava fruta...
R - É, isso.
P/1 - Conservava mais.
R - Certo. Bom, aí já facilitou bem para as donas de casa, principalmente a minha mãe, que comprava muito, porque não tinha muita coisa aqui. Então, sempre nós tivemos aqui uma espécie de uma chácara, praticamente. Sempre criamos galinha, porco, plantação de milho, de feijão. Sempre reservava um quintalzinho para que isso ajudasse também, na despesa. Então onde que fazia uma linguiça feita em casa e tudo aquilo ali. Até hoje a gente ainda faz.
P/2 - Mantém essa tradição?
R - Mantém.
P/2 - Ai que delícia! (risos)
P/1 - E aí, o senhor casou? 
R - Casamos.
P/1 - Como foi esse casamento?
R - É, casamos na Igreja Matriz de Itaquera, onde o meu pai casou com a minha mãe. Todas as minhas irmãs casaram nessa igreja. Então a Matriz de Itaquera, a Nossa Senhora do Carmo, foi onde também a gente passou a infância, onde a gente ia nas quermesses. Aqui, o unico divertimento que tinha era o parquinho e a quermesse do Carmo onde a gente também... Eu conheci a minha esposa ali também, e no colégio. Então era o unico meio de você se divertir. Aqui em Itaquera, a não ser o cinema, eram as quermesses. No carnaval... Também tinha o carnaval. A gente, desde... Então tinha os blocos que passavam no centro de Itaquera e tinha carnaval no Elite Itaquerense...
P/2 - No Clube Elite?
R - No Clube Elite tinha o... E também no cinema que eles davam baile de carnaval as três noites e a gente ia brincar lá na matinê.
P/2 - Ah, no cinema? No cinema tinha?
R - O cinema era ocupado por carnaval.
P/2 - Como é que chamava o cinema?
R - O cinema?
P/2 - O senhor falou o nome do dono, né?
R - Seu Evaristo.
P/2 - Seu Evaristo.
R - Evaristo que era o dono do cinema. O que mais?
P/2 - Tanta coisa! (risos)
P/1 - E tinha carnaval de rua?
R - uhh?
P/1 - Esse carnaval era... Tinha carnaval de rua também?
R - Tinha, tinha sim. Tinha os blocos que saíam, né? Todo mundo brincava, divertia, lança-perfume, na época do... Como é que chama? Da serpentina, confete. 
P/1 - Confete?
R - Confete. Era uma brincadeira total.
P/1 - As pessoas se fantasiavam?
R - É, usavam as máscaras, usavam as fantasias, cada um... Os homens se vestiam de mulher, era o maior barato. 
P/1 - Os blocos eram todos... Esse pessoal andava na rua ou tinha carro?
R - Alguns. Alguns tinham carro, mas muito poucos. Carro alegórico era difícil, era mais o pessoal mesmo, andando e cantando aquelas musicas de antigamente. Não era samba, assim, que nem hoje, aqueles batuques todos...
P/1 - Eram marchinhas?
R - Eram as marchas, exatamente. Era... Como é que se diz? uma banda de musica que ia na frente tocando e o pessoal...
P/2 - Acompanhava.
R - Acompanhava o ritmo das marchinhas de antigamente. Isso aí que era o carnaval de Itaquera.
P/1 - Você lembra de alguma marchinha?
R - A Jardineira. (risos)
P/1 - A Jardineira! (risos)
R - A Jardineira. Era bom, era muito bom.
P/2 - Ô seu Francisco, e esse Clube 88, o que é que era, falando de clube de carnaval? 
R - Ah?
P/2 - Falando de clube de carnaval, o que era esse Clube 88?
R - Quando existia as olarias, então existia também um divertimento. Como nós tínhamos espaço, terreno, fizemos um campo de futebol e demos esse nome de Olaria que... Isso existe desde de 1956, o nosso clube Olaria 88. Fundado em 1956.
P/2 - Tinha o time de futebol?
R - Time de futebol. 
P/2 - O senhor jogava?
R - Jogava. Bom, eu joguei, mas aí já foi mais... Os meus tios, os meus pais, os meus primos, toda a família jogava, todo mundo. E as mulheres iam assistir os jogos, né? Todas as famílias se reuniam no domingo à tarde, de sábado à tarde quando acabava o serviço. E a gente... Era o único divertimento que nós... Era o futebol, também, de domingo à tarde. 
P/2 - Contra quem vocês jogavam?
R - Contra os times do Tatuapé, Fox, time aqui da região. Então era a maior farra. E eu dei esse nome de... Então, quando acabou, o progresso foi vindo, nós tivemos que repartir... Terminar com o futebol, onde que eu passei o nosso clube hoje... Hoje nós temos uma quadra poliesportiva, né? Que seria a quadra de futebol de salão, , bocha. A bocha que é tradicional da nossa família, né? Isso é uma coisa que o meu pai sempre quis e eu dei sequência àquilo que ele mais queria, que era... Que ele me ajudou muito, e eu só dei sequência... E para que esse nome de Olaria não terminasse tão cedo, então, de Olaria 88, Então, a gente deu... E vamos... O meu pai passou para mim e eu estou passando para os filhos, até sei lá um dia. Agora eu estou tomando conta, eu sou presidente do clube, e na bocha a gente tem conseguido muito êxito, na zona leste, com a família, né, bochófilo, aqui em Itaquera e participando com outros clubes aqui da zona leste. A gente vai e joga, assim como a gente vai jogar contra eles, eles vêm jogar aos domingos de manhã aqui. Então a gente conseguiu não deixar cair esse nome de Olaria, Olaria 88. Até quando, eu não sei. Até o dia que Deus quiser.
P/2 - O senhor lembra assim de algum fato engraçado, pitoresco desses jogos? Como é que vocês iam para o Tatuapé? Conta isso.
R - Olha, Itaquera era muito assim... Quando... Não é pitoresco, sabe? Itaquera era considerada um bairro meio visado por... Assim, esquecido, né? Não é que nem o Carrão, então a gente era um pouco marginalizado pelo fato de aqui ser um pouco mais distante dos outros. Então eles ficavam receosos de vir aqui jogar. Quando via... Por causa dessas Cohabs que vieram aqui e trouxeram gentes boas e gentes também que... Mas era tudo ilusão, porque o pessoal que veio aqui foi maravilhoso. Alguns que eram perversos, alguns que eram bandidos, se afastaram daqui e só ficou gente boa. Então eles ficavam com medo de vir aqui por esse aspecto. Mas quando chegava aqui via um ambiente totalmente diferente, um ambiente agradável. E por isso que a gente sempre conseguiu manter esse nome e manter essa tradição de receber bem os... os que vieram de fora para jogar com a gente aqui na bocha. Só trouxe amizade, só fizemos amizades, o jogo de bocha, né? E os antigos de Itaquera permanecem aqui com a gente. As famílias, os jogadores antigos, né? Continuam jogando com a gente aqui. 
P/1 - Vocês organizam campeonatos?
R - Campeonato organizado pelo... Nós temos uma comissão, aqui no Tatuapé, que frequenta todos os clubes da zona leste. 40 clubes da zona leste e nós estamos incluídos entre os quarenta, quarenta e dois clubes. Agora, um fato pitoresco? Agora eu não sei.
P/2 - Não lembra? (risos)
R - É, tudo bem, vamos ver.
P/1 - Esses campeonatos começaram a ser organizados a partir de que ano, o senhor lembra?
R - Nós entramos em 1986. Esse campeonato já existe há trinta e cinco anos. Quase quarenta anos atrás, esses jogos. E nós... Eu acho que nós somos um dos clubes mais... Em 1986, um dos últimos clubes, o mais novo praticamente no ramo de bocha, que entrou na zona leste.
P/1 - Quando a sede do Corínthians veio para cá... tem muito corintiano? Como é?
R - Olha, para os palmeirenses, porque eu sou palmeirense nato, família italiana...
P/2 - Filho de italiano!
R - ...E a minha mulher corintiana roxa, é uma rivalidade tremenda, né? Mas não temos nada contra, não. Eu acho que devia ter feito mesmo um estádio aqui, para que Itaquera motivasse mais. E hoje Itaquera evoluiu muito, muito, muito. Itaquera hoje, a gente jamais, jamais quando quisesse comer uma pizza tinha que ir no Carrão para frente. Carrão, Tatuapé, Bexiga. Não existia isso aqui. Hoje nós temos inúmeras casas de massa, Mc Donald’s, Habib’s… veio tudo junto assim. Então Itaquera é hoje considerada já um bairro praticamente nobre porque... Eu, particularmente, nascido e criado aqui, por mim, dou por satisfeito de ter convivido todo esse tempo e vendo essa maravilha que é hoje Itaquera. Porque antes o pessoal saía daqui para ver lugares, para comer bem. Hoje não, hoje vem gente de fora para se comer bem aqui em Itaquera também, que temos diversas churrascarias ótimas, de primeira categoria, né, e essas lanchonetes, as coisas bonitas que a gente vê hoje em Itaquera. Esse Parque do Carmo... O Parque do Carmo, nós temos o Sesc que é uma das principais eventos de... eventos assim de graça, de shows de graça. Temos o Sesc, temos o Parque do Carmo, que a gente vê show ao vivo e muito bom. Nunca tivemos isso aqui, antigamente não se via isso. E hoje a Prefeitura, como outros organizadores, está de parabéns por trazer toda essa movimentação para Itaquera.
P/2 - E isso deve ter começado um pouco com a construção da Cohab, essas pessoas que vieram, tudo. O que o senhor lembra da construção, quando começou?
R - Olha, isso aqui era praticamente uma fazenda, isso aqui era campo e fazenda, todas, e a colônia como eu já falei para vocês. E a gente nunca imaginou que nós teríamos um vizinho por perto aqui. Porque o primeiro vizinho, mais perto, tinha um quilômetro, que seria as olarias. Que dividiam uma olaria... o terreno era grande, da olaria, outra olaria ali. Então o vizinho mais próximo era há um quilômetro. E aqui, o comerciozinho aqui em baixo, as três vendas consideradas de Itaquera, as pioneiras também. E a Cohab veio assim, de surpresa para todo mundo, então Itaquera ficou sem infra estrutura. Veio muita gente de repente, então Itaquera cresceu, meio assim, desordenada, sabe? Aí, quando veio o nosso prefeito Maluf, que fez essa estrada, aí então deu para trazer mais progresso para Itaquera. Com a passagem do… O rio Jacu Pêssego passando, para nós foi um alívio tremendo, porque não tínhamos o esgoto, que ia só para o rio pequeno, que era o rio Jacu, acabou com o peixe, acabou com tudo. O esgoto vieram assim, e as enchentes de Itaquera, que foi muito prejudicado, o centro de Itaquera. Hoje acabou. Com a vinda da Jacu Pêssego aqui para Itaquera, acabaram todos os problemas que a gente tinha de enchente.
P/2 - A enchente era mais no centro?
R - Era mais no centro porque o rio era muito baixo. Aqui não, onde nós estamos não. Nunca sofremos esse problema, mas Itaquera teve muito problema de enchente. E é isso aí. 
P/1 - E hoje, os seus filhos saem do bairro para se divertir ou eles ficam por aqui mesmo?
R - Olha, até que saíam, antes de vir esses eventos aqui para Itaquera. Hoje nós temos aqui o Jambo Mix que é um segundo... Muito famoso, aquela casa de shows aí em São Paulo.
P/2 - Olympia?
R - Olympia.
P/2 - Que tem show.
R - Hoje é o segundo Olympia que está aqui em Itaquera, entendeu? Toda semana vem cantores famosos, então a gente fica, não precisa mais sair de Itaquera para ver shows e nem, nem... Entendeu? Os filhos também continuam por aqui, não precisam ir muito longe. Mas barzinhos, isso aí, eles vão mesmo. 
P/1 - O seu filho é do time do Olaria? Ele já estava?
R - Ele jogou. Agora não, agora ele está afastado, né? Ele tem outros compromissos, então só joga futebol de salão, joga... Mas jogava bocha. A infância dele foi ir na bocha junto com a gente. Agora não quer saber mais não. (risos)
P/1 - Ele já casou?
R - Ainda não.
P/2 - Ô seu Francisco, e essa coisa de ter passado para material de construção? Quem são os clientes do senhor? O que o senhor mais vende, qual o produto?
R - Então, aqui em Itaquera, com essa vinda da Cohab, deu muito comércio nesse setor de construção, né? Mas como a gente vende muito para essas fábricas aqui da colônia, onde deixou de ser chácara, agora são indústrias, então a gente vende muito material para essas indústrias. E com o crescimento dessa pista, então o crescimento foi muito grande no setor de construção aqui em Itaquera. Está muito bom. E o que vende mais mesmo é também para a Cohab. Sempre tem um terreno para fechar. Então essa Cohab 2 veio, nesse sentido, muita gente teve... Fez proveito no material de construção.
P/2 - Aquele é a Cohab 2? 
R - Cohab 2.
P/2 - José Bonifácio?
R - José Bonifácio. E tem a Cohab 1 que é José de Anchieta.
P/2 - Para que lado que é?
R - Mais para o lado da divisa do Carrão com Itaquera. Artur Alvim... É a cidade Anchieta. Cohab Anchieta e aqui é a José Bonifácio, Cohab 2 e 3. E depois, tem a Cohab Tiradentes, que é mais para o lado de Guaianazes, no qual... Olha, é um mundo de gente aqui. Vocês nem sabem....
P/2 - E, seu Francisco, o senhor lembra da construção do metrô?
R - Nossa, desde o início. Aqui em Itaquera? Nossa. É coisa que a gente acompanhou passo a passo. O metrô e depois esse novo trecho aqui da Central do Brasil, que era para ser metrô, então foi usado, preferiram ser praticamente uma variante da Central do Brasil, que pega de Guaianazes até o Brás. É um símbolo do metrô, coisa de Primeiro Mundo mesmo esse trem aí. 
P/1 - Fiquei espantada quando eu entrei.
R - Viu lá?
P/1 - Coisa de primeiro mundo.
R - Entendeu? Então, é isso que eu te falo, deixou de ser da... o trem Maria Fumaça que a gente conheceu, e hoje vem esse modernismo todo. Então por isso que a gente, pela idade que eu tenho, cinquenta e dois anos, eu acho que pude contar um pouquinho para vocês da minha infância, até a data de hoje, que nós temos esses trens, esse trem maravilhoso, que hoje substitui o trem da Central.
P/1 - O senhor lembra do dia da inauguração do metrô?
R - Aqui em Itaquera?
P/1 - Sim.
R - Quando ele veio para Itaquera ou quando ele veio até o Tatuapé?
P/1 - Qual o dia que o senhor lembra? Qual a inauguração que mais marcou, que a comunidade ficou esperando, todo mundo queria saber como funcionava? 
R - Aqui foi... Esse trem, o novo trem. Foi marcante porque isso ficou paralisado por muitos anos, então ficou, “esse ano vai inaugurar”, aí não era, o outro ano, “então vai ser esse ano”, e não era. Então eu acho que ficou prolongando, uns dois, ou três anos por falta de recursos, sei lá, por falta do Governo. Aí a gente, quando veio mesmo a inauguração, foi com muita festa, com muita comemoração, e as famílias todas. E quando veio o metrô mesmo, até Itaquera aqui, aí então foi uma coisa assim... um passo muito grande para Itaquera, né? Que seria, mas o Corínthians também, eu acho que a estação Corínthians-Itaquera, que eu não passo... (risos). Eu, como palmeirense, eu desço na Artur Alvim, só para não ouvir o homem falar Corínthians-Itaquera. (risos) Estou brincando. (risos)
P/2 - Eu quase levei a sério. (risos)
P/1 - E o senhor lembra a primeira vez que o senhor andou de metrô?
R - Ah, quando inaugurou. Quando inaugurou... 
P/1 - No mesmo dia.
R - No mesmo dia não. Depois de uns quinze dias, a gente era curioso. E também, quando os meus filhos se deram conta do que era, assim de quatro a cinco anos, a gente deu... andamos de trem e depois viemos pelo metrô. Então, eles também tiveram oportunidade de andar na Central do Brasil, quando era antigo, né? E em seguida, nossa, a alegria era andar de metrô, quando foi inaugurada aqui em Itaquera. E a gente também pegava ônibus até o Tatuapé, do Tatuapé pegava o metrô até o Jabaquara para ir para Santos, para ir para qualquer lugar, né? Passear.
P/1 - O senhor achou muito diferente?
R - Nossa, nossa! Uma coisa fantástica, né? Rápida. Antes a gente levava para ir com ônibus, daqui para o Parque Dom Pedro, levava quase duas horas para ir.
P/1 - Nossa.
R - Duas horas. uma hora e meia, duas horas. Hoje, você vai em vinte minutos, vinte e cinco minutos.
P/1 - O que o senhor mais gosta aqui em Itaquera? Se você tivesse que eleger uma coisa assim “isso é o que eu mais gosto nesse bairro.”
R - O que eu mais gosto? 
P/1 - É.
R - Olha... Bom, o que a gente mais gosta aqui mesmo é do Parque do Carmo. Pelo verde, pelo o que o pessoal implantou ali dentro, né? A coisa que mais a gente admira de Itaquera é o Parque do Carmo, é o Parque do Carmo. E o Sesc, né? Mas o mais mesmo que a gente fica assim, pelo tratamento que eles deram, pelo pessoal que vai, é o Parque do Carmo. E, que mais? Uma segunda hipótese... não posso nem te falar! (risos)
P/1 - E as pessoas vão muito lá no Parque do Carmo?
R - Vão, demais, demais. Muito bem frequentado...
P/1 - O que, caminhada?
R - Caminhada. Eu com essa barriga, né? Então, eu preciso ir aos domingos, andar nas pistas lá, fazer amizades. Então, é muito bom. Mas a gente é meio preguiçoso, eu com o clube aqui, dentro de casa... E eu só jogo bocha, bola não dá mais. 
P/1 - Como é o bocha, heim?
R - O bocha é um jogo tradicional italiano onde que, hoje, joga até japonês, misturou, né? Então, é mais para pessoas idosas, geralmente é dos quarenta anos para cima, mas existe interesse já dos jovens, de estar participando da bocha.
P/1 - Por quê? Ele é mais rápido?
R - Ah?
P/1 - Ele é mais rápido?
R - O quê?
P/1 - Bocha.
R - Não. Rápido como? É um jogo de paciência. É um jogo que... a bocha é um jogo de inteligência, de quem tem a melhor pontaria para atirar a bola no outro. É um jogo que tem  que cortar o ponto do outro, então é um jogo de paciência. Não é que nem bola, correria, é um jogo que requer muita técnica também, não é loucura assim, não. Não é a olho que se joga bocha. E esse jogo amador, já deveria ter o governo olhado isso aí e ir para as Olimpíadas, viu? (risos) Porque a bocha, eu acho, que é mundialmente... ela é divulgada mundialmente. Principalmente na Espanha, Itália, alemão também joga bocha, né? Se não, não tinha ido para o Paraná, Santa Catarina... A maioria dos imigrantes italianos. Então, tem muito. 
P/2 - Jogam, né?
R - Jogam. Aqui em São Paulo mesmo, tem muito, muito clube de bocha.
P/1 - E tem muitos associados, o Olaria 88?
R - Não, eu... É um clube particular. A gente explora o ramo de esporte e a bocha tem, mais ou menos, umas oitenta pessoas que jogam bocha. Mas inscritos mesmo, para jogar, são só trinta pessoas. vinte e cinco coordenadores. São trinta pessoas que jogam, que disputam o campeonato da zona leste.
P/1 - Nesses cinquenta anos que o senhor contou para a gente, muita coisa mudou no bairro. Nossa, muitas! Mas, o que o senhor acha que mais mudou assim? O que ficou mais diferente?
R - Olha, o que mais mudou foi a vinda mesmo dessa avenida aqui... Como é que fala? Mudou o panorama de Itaquera. Mudou. E essa... os comércios que vai... que estão vindo para cá, a procura é tão grande, que o interesse do pessoal que está vindo de fora para investir aqui dentro de Itaquera, entendeu? Isso que a gente acha. O que está mudando, sabe? Pessoas de fora, de outros lugares querendo investir aqui em Itaquera pela evolução que está tendo no bairro.
P/1 - Qual o ramo que mais cresce aqui hoje?
R - O ramo de hoje... De automóveis, né? Que seria esse... E o ramo de construção também evoluiu muito. Então essas... Hoje nós temos muitas empresas, muitas de automóveis, muita revenda de automóveis. Temos muitas oficinas grandes que estão vindo aqui para Itaquera, tipo da Fiat e da Ford, que estão se instalando aqui na redondeza. Porque a Jacu Pêssego não é só Itaquera, ela atravessa Itaquera, São Miguel e vai até Guarulhos, né? Quase chegando em Guarulhos. Então nesse... o que cresceu por essa vinda dessa avenida, foi muito grande.
P/1 - Para calçar a avenida, muita gente saiu? Precisou deslocar muitas famílias para passar a avenida? Muita casa foi demolida?
R - Ah, teve. Nós mesmo fomos desapropriados, mas a Prefeitura foi... Todo mundo foi bem remunerado. Foi feito muito...  Alguns se sentem prejudicados, é claro, porque eu tinha também uma área muito grande no qual a gente... reduziu por uma terça parte o nosso terreno, entendeu? De quarenta e oito mil metros, nós ficamos com... Perdemos não, fomos desapropriados em vinte e dois mil metros, entendeu? Ficou com a metade da área, né? Mas, não sentimos prejudicados não. Pelo contrário, tivemos mais... Além de ter assim... a Prefeitura ter remunerado, ter indenizado bem, a gente ficou com uma propriedade que vale muito mais do que valia antes, entendeu? Mesmo perdendo.
P/2 - Valorizou.
R - Valorizou. Então a gente estava dando serviço para mais gente, porque a minha indústria, eu tinha indústria de blocos. E hoje a estrutura é menor, mas em compensação está mais... O comércio nosso está mais rentável.
P/1 - E outras famílias? Teve família que saiu?
R - Algumas, aqueles que foram... Outros preferiram ir para o interior. Alguns que perderam as suas casas puderam fazer casa muito melhor do que era. Muita gente, porque todo mundo entendeu que vindo era benfeitoria para todos. Mesmo tendo algum prejudicado, seria um benefício por essa característica de Itaquera, em não ter uma estrutura, não ter... Era totalmente descoordenado onde dava as enchentes. O rio era totalmente torto. As curvas, então... Hoje, é um canal onde que é depositado tudo ali dentro e tem escoamento tranquilo, para que nunca mais... Até hoje, não deu mais problema em Itaquera, entendeu? Onde a gente vê a benfeitoria que foi feita pela Prefeitura, para nós aqui. E o Estado aqui que está canalizando...
P/1 - O resto.
R - ...O resto para que o rio Tietê... Para que esse rio Jacu não descarregue toda essa sujeira no Tietê. Então já estão fazendo o tratamento, o saneamento básico. Hoje, é uma coisa que a gente também vai torcer, vai trabalhar para isso, para que o governo se imponha, agora, o novo governo que vai entrar, para que esse rio Jacu volte a ter os mesmos peixes que a gente pegava há quarenta anos atrás. Há quarenta, quarenta e cinco anos atrás, o mesmo peixe, né? Porque daqui, das Cohabs para frente, ainda existe o rio. O rio Jacu nasce há três quilômetros daqui e ainda é água limpa, né? Só depois que vieram as Cohabs, é claro, que os esgotos entraram todos para o rio Jacu. Aí acabou os peixes, né? Acabou. (risos)
P/2 - Tem mais uma pergunta para a gente ir acabando. Como é que o senhor imagina que o bairro vai estar daqui uns trinta anos para frente? O que o senhor gostaria que tivesse?
R - Olha, a gente... Como se fosse Tatuapé hoje. Gente mais ou menos de um nível assim... mais ou menos média para alta, mas eu acho que é difícil. A gente já está vendo uma melhoria aqui, porque aqueles que... Eu vejo assim, daqui uns trinta anos, né? Que nem Aricanduva é hoje, cheio... Eu acho que essa Itaquera, Itaquera talvez seja maior que a Aricanduva hoje, por causa dos . Eu não sei se vocês vêem os... Então, Itaquera também aqui, já está tendo... Está vindo aqui, nós temos aqui na frente, como é que fala? 
P/2 - O Carrefour?
R - O Carrefour. Nós estamos inaugurando agora no final do ano o Atacadão, que vai ser superior ao Carrefour talvez, pela estrutura que eles estão fazendo. Então falaram que também vem um para Itaquera, coisa que já tem em Aricanduva. Mas parece que vai ser instalado mais um  aqui, aqui perto de... Então, Itaquera, eu acho que eu vejo um segundo Tatuapé daqui a trinta anos. (risos) Pretendemos, né? 
P/2 - Está joia.
P/1 - Legal. Tem alguma coisa que a gente não perguntou que o senhor gostaria de registrar sobre o bairro, sobre a sua vida, para acrescentar?
R - Puxa vida e agora? (risos)
P/1 - Só se tiver, se não tiver não tem problema.
R - Eu não sei se isso aí vai, vai... Porque a gente falou, falou e de repente vocês não aproveitaram.
P/1 - Não, imagina.
R - Mas o que eu devia falar?
P/1 - Só se o senhor quiser acrescentar alguma coisa...
P/2 - O senhor acha que ficou faltando...
R - Não, eu acho que não tenho mais... Eu vou indicar vocês a uma pessoa aqui que possa falar mais alguma coisa. Mas de um grosso modo, seria isso daí. Tá bom?
P/1 e P/2 - Tá bom, seu Francisco. Muito obrigada, viu?
R - Eu é que agradeço porque...
P/1 - Sua contribuição foi maravilhosa.
R - A gente não... Como sendo nascido e criado aqui, o que a gente pode é contar um pouquinho da história de Itaquera, é isso aí. 
P/1 - Foi ótimo. 
P/2 - Obrigada.

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