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História

Odontologia e saúde pública

História de: Itamara Lúcia Itagiba Neves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/08/2018

Sinopse

Itamara Lúcia Itagiba Neves é graduada em Odontologia pela UNESP. Nesta entrevista ela nos conta sobre suas experiências universitárias e de como conheceu lá o seu futuro marido, também dentista. Itamara trabalhou anos no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas e relata, especialmente, como é o trabalho odontológico com pacientes cardiopatas. Ademais, Itamara defende o uso do anestésico sem vasoconstritor e explica o porquê; também discute a importância da implantação do atendimento odontológico nas escolas.

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História completa

P/1 – Bom, eu queria começar a entrevista pedindo para a senhora falar para a gente o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Senhora não é necessário. Meu nome completo é Itamara Lúcia Itagiba Neves, nasci no dia 22 de junho, precisa o resto também?

 

P/1 – Precisa.

 

R – Em 1957, pior que isso vai para a história. O que mais você pediu?

 

P/1 – O local.

 

R – Em São Paulo.

 

P/1 – São Paulo mesmo. O nome dos seus pais?

 

R – Paulo Itagiba e Tereza de Souza Itagiba.

 

P/1 – Eu queria que contasse essa história dos seus pais mais detalhada...

 

R – Documentalmente o meu pai é Paulo Itagiba, mas biologicamente o meu pai é João Batista Itagiba, irmão do Paulo Itagiba. Aí já rola uma história de amor vivida pela minha mãe, que a minha mãe se casou com Paulo Itagiba, a minha mãe era amiga da irmã dele, conheceu... Ela foi à casa dele para conhecer o irmão solteiro dessa amiga, nisso entra o meu pai mesmo e ela cutuca a amiga e pergunta: “Esse é o solteiro?”. Aí a amiga dela: “Não, não, esse é o meu irmão casado, o Paulo vai chegar daqui a pouco”. Bom, aí chegou o Paulo e não sei o quê, rolou, casaram, tiveram uma filha e nesse meio tempo, porque o meu pai é bem mais velho que a minha mãe. A minha mãe tinha na época, quando casou com o Paulo, dezoito anos; meu pai tem dezesseis anos a mais que ela, tinha 44 anos, 34 anos, é isso? Eu nunca calculei isso aí. E ela acabou casando e tal, então como ela convivia com a família estava ali sempre próxima. E o meu pai, João Batista, meu pai mesmo, tinha sempre um carinho especial, tinha dó porque ela era novinha, menina ainda se casou e esse que é meu tio na verdade, ele era complicado, tinha alguns problemas relacionados com jogo. Então o meu pai acabava sempre protegendo um pouco a minha mãe por dó, até que um dia essa que era amiga dela, cunhada agora, numa discussão com ela que eu não sei o que aconteceu, disse: “Você pensa que nós não percebemos que rola aí alguma coisa entre você e o João, não sei o quê”. E na verdade nunca tinha rolado nada, a minha mãe ficava embaraçada, a minha mãe falava que ficava embaraçada quando via, mas não entendia isso, o que era. Aí acabou despertando nos dois, porque nunca tinha sido falado, a coisa nunca tinha sido tão clara. Aí a minha irmã já tinha uns oito anos mais ou menos e a minha mãe se separou do marido. Mas o meu pai era casado, muito preso às tradições, ficava muito embaraçado em separar e a minha mãe ficou aguardando o dia que ela ia conseguir realizar o sonho dela. Aí 25 anos depois mais ou menos, 22 anos depois, ele ficou viúvo e eles se casaram alguns meses depois. Na verdade, quando eles se casaram já estavam quase fazendo bodas de prata, porque ele não abandonou a outra família por consideração com a outra filha que ele tinha lá, e a minha mãe ficou esperando, então namoraram durante vinte e poucos anos e se casaram; estão até hoje juntos.

 

P/1 – E por que você foi registrada como filha do Paulo?

 

R – Porque ela se separou e logo engravidou de mim, e como o meu pai era casado não podia me registrar – na época, agora houve algumas mudanças na legislação e pode, mas não podia. E um pouco antes de eu nascer o Paulo veio a falecer, acho que na época ele teve tuberculose, ele estava com tuberculose, então ele faleceu alguns meses antes de eu nascer. Para simplificar: como o meu pai não podia registrar e a minha mãe não queria deixar a certidão sem nome, para não complicar, ela falou: “Fica assim mesmo”. A minha família na verdade ninguém sabia, foram saber anos depois que eu não era filha do Paulo, que eu era filha do João Batista. Depois rolou tudo normal.

 

P/1 – E você conviveu com as suas irmãs? São duas irmãs, não é?

 

R – Convivi com essa, mas da minha mãe, a Sandra. A Isabel que era filha dele eu vim conviver acho que foi um ano antes de eu me casar mais ou menos, quando eu tinha vinte anos. Meu pai até então não tinha falado com a minha irmã que eu existia, que eu era irmã, porque a minha mãe se isolou da família, com todo esse rolo ela não teve mais contato com a família. Quando eu estava quase me formando e ia me casar, eu apertei o meu pai para resolver: “Escuta, como que é?”. Como ele não resolvia eu mesma resolvi, fui lá na casa dela, bati na porta, fui com o Ricardo, que aliás a gente já namorava. Aí eu falei: “Olha, não sei se o João Batista entrou em detalhes com você algum dia, mas...”. Aí ela falou: “Ah, eu já desconfiava”. Eu tinha vinte, ela devia ter trinta e alguma coisa, tinha filhos pequenos. Aí ela demorou um pouco assim, eu falei: “Eu vou dar o primeiro passo”. Fui lá e falei tudo como eram as coisas e esperei que ela desse o segundo, ela demorou um pouco, nesse meio tempo eu fiquei até meio sentida, achei que não... Aí deixei de lado. Quando o meu primeiro filho nasceu ela se aproximou, então hoje ganhei sobrinhos, ganhei tudo. Só que era viúva já também, ela ficou viúva moça.

 

P/1 – Você passou a tua infância em que bairro aqui em São Paulo?

 

R – Morei no Ipiranga, infância mesmo foi no bairro do Ipiranga.

 

P/1 – O que você lembra do bairro Ipiranga? Como que ele era?

 

R – O que eu lembro? Para mim as ruas eram imensas, aí uns [anos] atrás eu voltei lá – nunca mais eu passei lá –, fui ver e a ruas eram tão estreitinhas. Como que o mundo parecia grande! Mas era uma rua estreitinha mesmo, a segunda casa que eu morei que eu me lembro para mim era uma rua imensa e era uma ruazinha curta e estreitinha assim, passava um carro de cada vez. Eu me lembro de amigas minhas que tenho até hoje. Tem uma amiga minha do primário, aliás, talvez você ajude até a localizar, que eu queria muito localizar uma amiga que estudou comigo no Roldão, Instituto de Educação Estadual Professor Roldão Lopes de Barros, eu fiz o primário lá. Eu lembro muito dessa amiga minha, mas não consigo lembrar o sobrenome dela, não consigo referencial para achar ela.

 

P/1 – Como que ela era?

 

R – Ela era muito divertida, moreninha, cabelo comprido, lembro só do nome que era Agnes, só lembro que o sobrenome começava com “Ag” também, porque a gente brincava que o meu era Itamara Itagiba e o dela era Agnes, acho que era Gnotti, alguma coisa assim, não consigo lembrar. Dá uma saudade dela, gostaria de encontrar.

 

P/1 – Vocês brincavam de quê?

 

R – Quando os pais deixavam a gente ir para a rua, de amarelinha, adorava brincar de amarelinha, a gente guardava as cascas de banana para brincar de amarelinha.

 

P/1 – Com casca de banana?

 

R – A gente dobrava a casca de banana para fazer o peso para jogar amarelinha. O que mais? Esconde-esconde, saquinhos, lembram aquelas pedrinhas que a gente fazia saquinhos de arroz? Aquilo era um vício de infância, dá uma saudade danada, até hoje eu tenho guardado os saquinhos que a minha irmã fez para mim, vermelhinhos assim, uma “lãzinha”.

 

P/1 – Me fala uma coisa: você estudou primeiro nesse Instituto Roldão?

 

R – É, no Instituto de Educação Estadual Professor Roldão Lopes de Barros, era na Vergueiro. Era não, é ainda.

 

P/1 – Que tipo de educação você recebeu lá? Tinha educação política, religiosa?

 

R – Era um colégio estadual, não se falava em política na época, era proibitivo; até na faculdade era um assunto proibido. Religião era dada tanto que eu me lembro que fiz primeira comunhão, foi dado o curso pelas normalistas do colégio, davam para o primário, preparavam para a primeira comunhão. Aulas de canto, eu me lembro muito das aulas de canto, não sei porque mas é uma coisa que me marcou tanto no primário quanto no ginásio.

 

P/1 – Como que eram essas aulas de canto?

 

R – No ginásio eu me lembro bem da professora, Professora Tarsila, que dava a aula de canto. Inclusive ela usava uma prótese total, a prótese de vez em quando se soltava quando ela cantava, acho que por isso é que marcou muito, era muito divertido. (risos) Tanto que eu sei hinos até hoje que aprendi na escola e que hoje as crianças não aprendem, mas não aprendem nada, não sabem um hino, mal sabem o hino do Brasil, não sabem o hino da bandeira, proclamação da República, da Independência, do marinheiro. Eu sabia todos os hinos de cor e salteado.

 

P/1 – Tinha cerimônia de datas comemorativas? Como eram essas semanas?

 

R – Tinha, iam todos para o pátio, todos os alunos iam para o pátio, hasteavam a bandeira. Eu acho que é uma coisa que hoje faz falta, eu acho que já não me considero muito patriota, mas ainda fui criada um pouco com essa coisa, as crianças hoje só tem mau exemplo, então a visão que elas têm é pior do que a gente tem hoje; quando elas chegarem na nossa faixa etária eu acho que vai ser “Lei de Gérson” mesmo.

 

P/1 – Itamara, vocês usavam uniforme?

 

R – Usávamos, no primário era aquela sainha de preguinha azul marinha, tradicional. Quando eu fui para o ginásio pegamos aquela época da sainha já justa com uma preguinha na frente cinza. Porque eu fiz o primário no Roldão e o ginásio e o colégio eu fui para outro colégio, Instituto de Educação Estadual Albino César, não tinha nenhum nome no meio, Albino César, aí eu fiz desde a primeira série até o terceiro colegial. Bons tempos em que o colégio estadual era difícil de se entrar, os professores davam aula de paletó e gravata, era um outro tempo.

 

P/1 – Tinha alguma matéria que te atraía mais?

 

R – No ginásio não sei, quando eu passei para o colegial passou muita coisa pela minha cabeça, eu gostava de química, gostava de biologia, sempre achei que iria para a área biológica. A minha mãe era auxiliar de Enfermagem, ela só não queria que eu fizesse Enfermagem.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Ela tinha horror, ela dizia assim: “Você não fazendo Enfermagem pode fazer qualquer coisa que você quiser”. Ela pedia para mim: “Por favor, não faça Enfermagem”. Mas matéria específica que me atraía não, não era uma aluna gênio, mas era uma aluna estudiosa, daquelas que tirava notas altas, mas porque rachava não era nenhuma dádiva de Deus. (risos)

 

P/1 – Itamara, a tua mãe trabalhava?

 

R – A minha mãe trabalhava de auxiliar de Enfermagem no Hospital das Clínicas, primeiro e único emprego dela. Ela começou a trabalhar quando a minha irmã era pequena justamente devido às dificuldades que ela tinha no casamento, então ela resolveu procurar, começou como atendente de Enfermagem, fez o cursinho e foi auxiliar de Enfermagem. Ela só teve que aposentar uns dois ou três anos antes do que seria o período de aposentadoria porque ela teve um problema cardíaco, você vê como tudo vai se relacionando a vida da gente. Ela teve um problema cardíaco, foi operada e acabou tendo licenças até chegar a aposentadoria.

 

P/1 – Como que era a convivência na tua casa quando você era pequena, o cotidiano, o seu pai te visitava? Como que era isso?

 

R – Ele vinha sempre, aliás, até demorei para entender um pouquinho porque ele ia embora e eu não (sacava?) bem. Mas era normal, a minha mãe trabalhava fora desde que eu nasci, eu nasci dentro do Hospital das Clínicas quase porque eu fiquei na creche um bom tempo, fiquei até uns oito meses. Depois a minha mãe desistiu de me levar para a creche porque eu passava mal na viagem todos os dias no ônibus; e a minha irmã que tem nove anos a mais do que eu, coitadinha, a vizinha dava uma mãozinha e a minha irmã que tomava conta de mim. Então quando eu tinha dois, três anos eu chamava a minha irmã de mãe. Então saía eu com três anos e a minha irmã com doze, treze anos na rua, e eu chamava ela de mãe e todo mundo olhava assustado porque ela ficava muito comigo. A minha mãe trabalhava fora e no hospital você já viu, não tem sábado, não tem domingo, então quando ela tinha folga era para cuidar das coisas ou da casa ou das coisas pessoais. Mas assim, a qualidade do relacionamento supria a quantidade, não vejo gente que fala que tem problemas porque os pais trabalham. Eu nunca tinha problemas, eu ficava sozinha, sempre gostei muito de ficar sozinha. Na época que eu estava no primário a minha irmã já estava no normal. Depois ela foi para a faculdade, então ela fazia faculdade e trabalhava. Então eu sempre fui de ficar sozinha, até hoje; o Ricardo até reclama porque eu adoro me enclausurar em casa. Adoro um “diazinho” frio, ontem foi um dia em que eu não olhei na varanda, ontem foi um dia em que eu fiquei mexendo lá, arrumando computador, tirei tudo, limpei o computador, adoro casa. Mas o relacionamento é normal, de família, normal.

 

P/1 – Como é que chama essa sua irmã?

 

R – Sandra.

 

P/1 – A Sandra te levava para passear, vocês brincavam juntas?

 

R – A minha irmã tem, vamos dizer assim, foi uma presença muito forte, porque ela era sempre uma companhia, eu até me emociono.

 

P/1 – Quer dar uma parada?

 

(PAUSA)

 

P/1 – E o que te levou a fazer Odontologia?

 

R – Odontologia, deixa eu pensar... Bom, sempre pensei em Veterinária, mas sempre cheguei à conclusão que eu não servia para Veterinária porque o dono ia chegar com o cachorro chorando e eu ia chorar junto, porque eu adoro tudo quanto é bicho, morro de pena. Por mim se eu morasse em casa eu acho que eu ia ser dessas que catavam todos os cachorros e gatos abandonados para levar para casa. Inclusive tenho um cachorro, em apartamento eu tenho um husky siberiano, está com nove anos, mas é o xodozinho de casa. Então Veterinária eu cheguei a conclusão, Veterinária não vai dar certo porque vai ser um envolvimento emocional e o animal não sabe descrever o que está sentindo, muito complicado. Medicina não me animava muito porque pelo que a gente via de vida de médico, ainda mais mulher sem horário, com plantão, eu falei: “Isso não vai dar muito certo”, porque eu sempre fui do tipo de pensar em casar, ter os meus filhos, eu falei não. Aí Odontologia, quando começou o período de cursinho algum colega que ia fazer Odontologia, que tinha parente dentista. Aí eu comecei a pensar em Odontologia, é uma coisa interessante. Comecei a conversar mais com o dentista que eu ia e falei: “Vamos ver o que dá”. E deu. (risos)

 

P/1 – Alguém te incentivou?

 

R – Ninguém especificamente, minha mãe sempre me deixou essa abertura, ela só falava para não fazer Enfermagem, porque ela tinha trauma, o resto qualquer coisa que eu fizesse era válido, não teve nenhum incentivo assim, foi eu mais que... Aí comecei a fazer cursinho. Depois no cursinho tem sempre algum folheto, alguma coisa, falando sobre as profissões e eu achei que era essa mesma, achei interessante você construir alguma coisa, na verdade você pega uma pessoa com problema de estética, problema com dor e resolver isso é um desafio e eu não achei que era uma coisa assim interessante. E requer um pouco de habilidade manual, um trabalho manual.

 

P/1 – Me fala uma coisa, quantos anos você tinha quando você fez o vestibular?

 

R – Dezessete para dezoito.

 

P/1 – E como que foi o vestibular? Você prestou em vários lugares?

 

R – Quando eu terminei o colegial eu prestei para desencargo de consciência, porque o meu finzinho do colegial foi uma época que o colégio estadual já começou a ficar deficiente em algumas coisas; e como naquela época se escolhia a área, biológicas ou humanas, algumas matérias, por exemplo, como história e geografia não tinha quase nada, física tinha muito pouco. Então eu disse: “Vou prestar para ver como que é”. Na época era (Secen?), São Paulo era (Secen?), Odontologia era (Secen?), aí foi uma bela experiência, não passei e fui fazer cursinho.

 

P/1 – Era prova escrita com questões discursivas?

 

R – Era teste, eram testes.

 

P/1 – Além do (Secen?), quais outras?

 

R – Fim do terceiro colegial só, aí quando eu fiz cursinho, aí no meio do ano do cursinho eu prestei Odontologia em São José que tinha, aí fui conhecer a cidade e me apaixonei pela faculdade, pela cidade, falei com a minha mãe: “Olha, no fim do ano eu não vou prestar em São Paulo, vou prestar São José se eu não passar neste, porque eu gostei de São José”. Aí no meio do ano eu não passei ainda e no fim do ano eu prestei, não para prestei para São Paulo e fiz inscrição para São José dos Campos. Porque aí era (Secer?) em São José dos Campos e prestei uma faculdade particular em Bragança, era nova odonto na época. Aí saiu o resultado primeiro de Bragança, porque eles são espertos, eles soltam primeiro o resultado. Aí falei com a minha mãe: “É melhor fazer a matrícula porque eu não sei o que vai dar lá”. Aí fiz a matrícula em Bragança, cheguei a ver república para ir morar. Eu tinha resolvido prestar Mogi também, eu falei: “Se não sair o outro vou prestar Mogi, porque Mogi é mais perto”. Aí quando eu estava saindo para fazer a inscrição para fazer vestibular Mogi saiu o resultado lá de São José dos Campos, abri o jornal assim e só vi o Itagiba. Sabe quando você olha, eu fechei e falei: “Não, aqui não sou eu”. Aí fui abrindo devagarinho, graças a Deus era. Aí liguei para a minha mãe do ponto de ônibus: “Mãe eu estou voltando para a casa, não vou mais”. Ela falou: “Por quê?”; “Passei em São José”. E ela ficou contente porque é uma faculdade estadual e facilitava algumas coisas que na época eram bastante complicadas. Uma faculdade particular de Odontologia não é mole.

 

P/1 – E como que foi sair de casa e ir para São José, o que mudou na sua vida?

 

R – Foi um impacto, foi terrível. O primeiro semestre da faculdade para mim foi terrível porque eu nunca tinha saído de casa, apesar de ficar sozinha como eu ficava não era independente, não fazia nada assim, pelo contrário, era mimada pela minha mãe, mimada pelo meu pai, mimada pela minha irmã. Então foi barra! Eu tinha uma tia que tinha uma pousada lá em São José, fiquei o primeiro mês lá, mas sentia uma saudade de casa terrível; ao invés de ir embora sexta-feira, às vezes segunda feira eu vinha embora e voltava terça de manhã, porque é uma viagem que dá para ir, mas todo dia cansa. E aquele impacto com o professor, a mudança de didática, porque a mudança de colegial para a faculdade é um choque para a gente que é totalmente jovem e imatura, é um choque. Então começaram as provas e eu que sempre tirava notas altas comecei mal na faculdade, tirava nota baixa e a minha mãe: “O que está acontecendo?”. Eu falei: “Eu não sei, eu não consigo estudar”, sabe aquela coisa? Tanto que na época quando eu entrei em São José a faculdade era semestral, o curso era semestral, eu não consegui me recuperar em maio quando eu comecei a me adaptar. Aí fui para a república, fui morar em república, melhorou um pouquinho, porque aí você já tem o seu espaço, mas eu tinha uma saudade de casa e das coisas. Mas eu não consegui me recuperar e repeti o primeiro semestre da faculdade. Ninguém entendia: “Como? Itamara, como?”. Aí embalou depois de me adaptar; eu conheci o Ricardo no finzinho. Acho que por isso é que eu comecei a me adaptar, agora pensando bem acho que é por isso que eu me adaptei. Foi assim: o Ricardo ia formar no meio do ano e eu entrei em março; a faculdade é pequena, mas como “bicho” é burro a gente não tem muito contato com o pessoal do último ano, eu fui conhecer o Ricardo mais no final, em maio ou menos que eu fui conhecer ele. Inclusive a história foi interessantíssima, porque me apresentaram e achei bonitinho, almofadinha, ele era todo perfumadinho, sapato brilhando engraxado. Eu me lembro até hoje, ele usava as malhas, as malhas de lã dele tinham um vinco de tão almofada que era, e ele com aquela cara de bravo. “Esse cara deve ser bravo”, eu pensei comigo, mas passou. Aí ele foi na minha república por causa de uma outra menina que estava lá, mas como eu sabia que a menina era noiva então eu achei que ele foi lá porque era amigo dela, inocentona, dezoito anos, desligada. Ele chegou lá, estava na cozinha conversando com ela, eu cheguei me intrometendo na conversa. Eu me lembro que ele pediu para ela fazer um café e ela não estava querendo, eu falei: “Ah não! Deixa que eu faço”. Fiz um cafezinho e fiquei lá conversando. O que me chamou um pouco a atenção era porque ele chamava Ricardo e eu tinha um sobrinho, filho dessa minha irmã, que estava com uns seis meses mais ou menos, que chamava Ricardo. Então eu falei: “Ah, eu tenho um sobrinho”. Xodó, você imagina: “Que chama Ricardo”. E começou aquela conversa e eu comecei a prestar atenção nele. A outra dançou, claro! Um mês depois eu comecei a namorar com ele; acho que também isso ajudou a minha adaptação depois, porque embora eu sentisse saudade dele estava aqui porque ele era de São Paulo e estava aqui, mas tinha alguém para passar experiência e as coisas. Aí foi bem o resto da faculdade, sem problemas.

 

P/1 – Ele se formou e veio para São Paulo?

 

R – Porque ele é de São Paulo, então formou-se e voltou para cá, montou o consultório e tudo. Ele ia de sexta-feira me buscar, eu vinha às vezes no meio de semana um dia, namorava um pouquinho.

 

P/1 – E como é a vida em república? O que mudou?

 

R – Olha, é uma experiência, como eu falei, é difícil no começo, mas eu acho que a gente aprende, eu recomendo para todo mundo menos para os meus filhos, mas o resto eu recomendo. (risos) O que tem de maravilhoso, uma amiga minha fala: “Quando o meu filho for fazer faculdade é melhor ele fazer fora mesmo de São Paulo, numa república, porque pelo menos o que os olhos não veem o coração não sente”, porque faculdade, eu não sei qual era o curso de vocês, mas faculdade no interior, de Odontologia, o programa de fim de tarde é tomar cerveja. Então se não tem prova no dia seguinte o happy hour é no boteco lá. No boteco mesmo, porque universitário não gosta de requintes, tem que ser boteco mesmo. Então já pensou ver o meu filho chegando de fogo, é melhor fazer longe porque o que os olhos não veem o coração não sente, porque a gente tomava uns belos de uns porres de vem em quando. Vinho quente porque São José era frio quando chegava essa época, tinha as festas nas repúblicas, fazia aquele vinho quente com aquele vinho da pior qualidade possível, então era um tal de no dia seguinte todo mundo amarelo, pálido. Eu acho que a experiência de faculdade é muito boa, de viver fora, eu acho que a gente aprende muito, você aprende a conviver com pessoas diferentes, passa a ter as suas obrigações, que nem para mim que tudo vinha prontinho, na mão. Eu acho muito gostoso.

 

P/1 – Você se lembra de alguma história engraçada de república?

 

R – De república? Não, tinha as brincadeiras que a gente fazia de vez em quando. Nós morávamos num apartamento de três dormitórios, num quarto tinha três meninas que eram do segundo ano, no outro tinha duas e eu e a minha amiga, que é amiga minha até hoje, no outro quarto. Então quem chegava cedo às vezes preparava o trote para quem chegava depois; quem chegava por último sempre se ferrava porque já encontrava as roupas amarradas na gaveta, escondia, pegava a gaveta de calcinhas e sumia com as coisas de todo mundo, quando chegava ninguém achava as calcinhas. (risos) Mas assim, alguma coisa engraçada mesmo não ficou nada marcada. Vida de república, você diz?

 

P/1 – É.

 

R – Não, tirando os porres (honoméricos?) que cada dia era uma que socorria a outra, não. (risos) A gente combinava, não podia ser todo mundo ao mesmo tempo porque uma tinha que estar pronta para ajudar a outra. (risos)

 

P/1 – E dentro da faculdade, qual que era do cotidiano da faculdade a matéria que te atraía mais?

 

R – Tinha aquelas que a gente odiava.

 

P/1 – Quais?

 

R – Acho que muito relacionada com a maneira como era conduzida, isso era uma coisa, por exemplo, histologia era um professor bravo. Seria a última pessoa adequada a estar recebendo um adolescente, vamos dizer assim, na faculdade. Eu sempre falo isso, se eu fosse dar aula em faculdade eu gostaria de fazer parte da orientação profissional para estar recebendo o pessoal que chega, porque eu acho que é o mais importante. Eu acho que ainda eu comecei a aproveitar um pouco mais a faculdade justamente por causa do Ricardo que estava se formando e começando a ver as dificuldades, então eu aprendi no terceiro e quarto ano a aproveitar um pouquinho mais o curso. Mas assim mesmo, a gente não é orientado para aproveitar o curso realmente como deve ser. A gente fica muito preocupada com nota e frequência, você não pode faltar e tem que tirar nota, você não tem a consciência do que você está fazendo ali. Seria função do professor dar esse amadurecimento, eu acho, de mostrar: “Olha, a profissão de vocês, o que vocês vão encontrar pela frente é isso”. O porquê, a gente não entendia o porquê: “Por que eu preciso estudar histologia?”. Entendeu? Era uma imaturidade grande que a preocupação era tirar nota, tirou nota e passou o resto não vem ao caso. E quando chega no terceiro ano que começam as cadeiras clínicas mesmo, acho que a gente cresce um pouquinho, amadurece um pouquinho, então a gente começa a aproveitar mais o curso, a tirar dos professores mais do que a gente poderia ter. Eu falo para todo mundo que na faculdade o ideal é você terminar a faculdade e voltar dois anos e fazer, aí você faria uma faculdade excelente, porque a gente é imaturo.

 

P/1 – A parte clínica que você fala é a parte do atendimento?

 

R – Isso, quando entra a parte de atendimento com o paciente. Primeiro a gente trabalha muito com manequim, segundo ano, segundo ano e meio assim, começo do terceiro ano. Depois entra com o atendimento do paciente mesmo. Aí o paciente da faculdade é um caso à parte porque eles estão tão acostumados que o paciente até ensina as coisas para os alunos: “Olha, usa aquele ali que é bom”. É um barato! Paciente de faculdade merece toda a gratidão da gente porque eles são excelentes.

 

P/1 – Você lembra do dia em que você começou a atender?

 

R – Oh! Eu me lembro da minha primeira anestesia. A primeira anestesia foi terrível, eu não sei se era a região anterior ou superior que eu tive que anestesiar e eu sou destra, mas eu tive que segurar o braço, porque a minha mão tremia tanto. Ainda bem que o paciente já está acostumado, isso ele sabe muito. (risos) Isso é uma cena que eu não esqueço jamais, depois você vai acalmando, mas a primeira sensação de você anestesiar o paciente é fogo, marcou bastante.

 

P/1 – E o resto do trabalho do que tem que fazer?

 

R – A nossa faculdade era muito boa, nós pegamos uma época em que os recursos, o material, por exemplo, a gente não comprava nada, a faculdade dava tudo, a gente só levava a caixinha com o instrumental. Tudo funcionava bem, a gente tinha professores, algumas cadeiras com melhores professores, mas no frigir dos ovos acho que foi uma fase muito gostosa, aprendi bastante, não posso reclamar. Podia ter aprendido mais, como eu falei, sem dúvida! Algumas coisas eu poderia ter feito com muito mais maturidade, talvez não tenha aproveitado tanto.

 

P/1 – Me explica uma coisa, como é que funciona essa parte de atendimento? O professor te acompanha na hora, como que é essa dinâmica?

 

R – Tem os professores, os estagiários que já são dentistas formados, tem monitores que às vezes são alunos de um ano à frente. Os pacientes na verdade já vêm triados porque você atende por disciplina. Então, por exemplo, tem dias que tem clínica de dentística, então é só restauração; tem a clínica de endodontia, então é só canal; clínica de prótese que se divide em prótese total, prótese removível, prótese fixa. Então o paciente já vem triado para a gente para fazer aqueles casos. Mas o que você queria saber?

 

P/1 – O professor te acompanha na hora do atendimento?

 

R – Não 100% do tempo, você vai preparada, porque quando você pega o paciente você já fez isso em dentes de resina, já fez em dente humano tudo em manequim. Então na verdade você sabe, mas não sabe as dificuldades. Uma coisa que acontecia frequentemente, porque na minha época os manequins que você trabalhava em laboratório, hoje já resolveram o problema, sabe aquela seringa tríplice que solta água e ar? No laboratório não tinha na época, hoje eles já colocaram. Então a gente fazia preparo em dente de resina, fazia pó quando você desgastava o dente, fazia pó, então a gente soprava e uma coisa assim dificílima de você desacostumar quando você ia pra clínica e a tendência era de dar uma soprada no dente do paciente. Isso era uma coisa que você vira e mexe passava e pegava algum aprontando. E a gente tinha que se policiar, eu não sei porque, as turmas hoje em dia já resolveram o problema, que é o certo, é difícil você desacostumar com uma coisa que você aprendeu daquele jeito. Então hoje em dia os manequins de laboratório tem lá seringa tríplice que você lava e seca com o mesmo jeito que você vai fazer com o paciente. Então isso era um barato de se ver, vira e mexe tinha alguém soprando a boca do paciente. (risos)

 

P/1 – Itamara, você estava falando de que vocês estavam fazendo tricô lá na república.

 

R – Isso aí eu me lembro bem. Eu não entendia nada de tricô, aliás, dessa coisa assim de bordado, dessas coisas, eu nunca fui muito prendada pra isso, cozinha também, eu não sei cozinhar nada até hoje, não aprendi e já desisti. Das meninas que moravam com a gente tinham duas que tricotavam muito bem. Então a gente sentava lá de noite, nessa época de inverno, chegava maio, junho assim, era tudo tricô. Então uma ensinava à outra. O meu normalmente tinha que ser desfeito para elas refazerem porque eu fazia errado, mas eu aprendi alguma coisa. Eu cheguei a fazer uma malha pra ele, que ele muito educadamente, o Ricardo, usou durante um tempo, não ficou assim uma coisa, mas ele até que usou a malha. (risos) Mas era gostoso, esse momento era gostoso, a gente fazia um cházinho, alguma coisa e ficava lá. Às vezes nem sempre as sete meninas, porque não podia se reunir as sete de uma vez, mas ficava sempre aquele grupinho sentado no chão da sala tricotando. Era gostoso!

 

P/1 – E você acabou a faculdade quando?

 

R – Eu me formei em junho de 1980.

 

P/1 – E aí você decidiu fazer o quê?

 

R – Eu gostava muito de pediatria na faculdade. Mas eu tive um diretor que foi diretor na época do Ricardo também, e o Ricardo me falou uma frase que uma vez ele falou pra turma dele que isso marcou muito, aliás, encontrei com esse diretor no InCor [Instituto do Coração] acho que menos de um ano atrás e falei pra ele que o que ele falou foi marcante pra nós. Ele falou assim: “Olha, saiam daqui e façam de tudo durante pelo menos uns quatro, cinco anos. Não vão se especializar em nada porque não é o momento. Vocês têm que trabalhar, dar uma amadurecida em tudo, pra depois pensar o que vocês querem fazer”. Então eu saí com essa ideia mesmo de fazer... Ele falou: “Inclusive façam aquilo que vocês não gostam porque às vezes vocês saem com uma imagem e acabam mudando”. E realmente isso acontece, por exemplo, pediatria não é a minha paixão hoje porque fazer pediatria em consultório particular é totalmente diferente de uma odontopediatria em faculdade. Como eu falei dos pacientes, até as crianças da pediatria são diferentes.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque as clínicas de faculdade normalmente não têm nem biombos, ficam as cadeiras lado a lado, então as crianças têm outra receptividade. Eu achava pediatria fácil. Agora você fazer pediatria no consultório particular com a mãezona do lado, filhinho, filhinho é outra coisa totalmente diferente. E criança você nunca pode fazer uma sessão muito longa porque criança não aguenta; Odontologia são detalhes. Então o trabalho final na maioria das vezes você nunca consegue fazer como você gostaria que fosse. Você vai fazer uma restauração não dá pra você ficar inventando muita coisa porque você tem um limite de tempo ali pra trabalhar que a criança não colabora mais mesmo, alguns adultos também não colaboram, mas no geral a maioria tem paciência. Então, por exemplo, pediatria eu achava que ia gostar, ia ganhar experiência mas não foi o meu forte. E endodontia, por exemplo, que eu achava dificílimo, que eu tive muitas dificuldades, eu acho que os professores deixaram um pouco a desejar na endodontia. Quando eu saí justamente pela minha deficiência, procurei começar a fazer cursos pra suprir isso e comecei a gostar e é até uma coisa que eu faço.

 

P/1 – Endodontia é tratamento de canal?

 

R – Isso. A única coisa que eu saí não gostando e continuo não pensando em fazer de longe é ortodontia, eu gosto mais de mexer mesmo, acho a ortodontia uma coisa muito estática, você praticamente não está intervindo no paciente, é uma coisa assim que não me chama muito a atenção. Mas hoje eu faço clínica geral, eu gosto de pegar o paciente e terminar o tratamento. Então faço a parte periodontal, gengiva, trato a gengiva direitinho, trabalho muito em cima de prevenção porque eu acho que é importante o dentista estar ali martelando, ensinando porque é que nem eu falo, tratar, você evitar a doença, problemas odontológicos, depende do dentista e depende do paciente, depende muito do paciente seguir o que o dentista fala, mas se o dentista não insistir no assunto é que nem treinamento, todo treinamento que você dá pra qualquer serviço você tem que fazer reciclagem, você não pode ensinar uma coisa a alguém uma vez e achar que ela vai fazer o resto da vida bem feito. Então eu gosto de trabalhar muito assim, pego no pé dos pacientes mesmo em prevenção, sabe? Como está escovando, está usando a escova certinha, está trocando a escova, quantas vezes está escovando, olha a alimentação, não come nos intervalos. Então eu gosto de pegar e ir até o fim. Eu faço a parte de periodontia, depois parte de dentística, cirurgia não faço, segundo é errado, antigamente cirurgia era dividida em oral menor, oral maior, hoje não existe mais essa designação, mas eu faço cirurgia do dia-a-dia de consultório que são as extrações, exodontia, dente incluso que já faz junto com o Ricardo, de prótese também apesar de judiar muito da gente porque a gente adota o paciente para o resto da vida, mas eu gosto de prótese também.

 

P/1 – Por que é que adota o paciente?

 

R – Porque o paciente sempre tem uma expectativa de uma prótese quando você coloca, a expectativa do paciente é uma coisa e o possível é outra. Então explicar para o paciente que aquilo tem uma durabilidade, tem uma limitação, tanto de tempo quanto de uso, de estética, é complicado. O paciente sempre espera que vai sair de lá podendo comer costeleta de porco adoidado e que esteticamente ele vai ficar perfeito e não é bem assim. É uma prótese e por mais que aquilo seja bem planejado e bem feito sempre, não foi o Todo Poderoso que fez, apenas as mãos humanas que fizeram, então não tem jeito. Lidar com essa expectativa é meio frustrante pra gente, é uma coisa meio... A profissão frustra a gente dentro desses problemas, a limitação, porque você trabalha com a limitação de equipamentos, você trabalha com limitação de instrumental que você usa, você trabalha com a sua limitação, com a limitação do paciente. Então cada caso é um caso, não é porque você teve sucesso num determinado trabalho que você vai ter sucesso para o resto da vida, porque cada caso que você pega tem as suas peculiaridades. Então isso deixa a gente meio frustrada, em alguns períodos da vida o dentista oscila muito, quando você é recém-formado você vai passando tudo o que você vai aprendendo: “Não estou aprendendo”. Quando chegam quatro anos de formado: “Agora eu já sei tudo”. Aí começam os insucessos, a tua moral vai lá embaixo. Começa uma fase boa, aí você fala: “Agora vai”. Oscila muito, o astral do dentista acho que oscila muito porque às vezes você tem períodos com ótimos resultados, tudo corre bem, tudo maravilhoso e outros períodos junta alguns casos assim que deixam a gente meio down.

 

P/1 – Itamara, você trabalha junto ao InCor?

 

R – Isso, eu estou no InCor há catorze anos, agora em agosto faço catorze anos de InCor já.

 

P/1 – É um departamento, não é? Eu queria que você explicasse um pouco do trabalho desse departamento que foi até o Ricardo que montou.

 

R – Isso.

 

P/1 – Ele é o chefe do departamento?

 

R – Isso. O Ricardo, como eu te falei, ele se formou quatro anos antes de mim, quando eu estava entrando ele estava saindo. E a minha mãe como trabalhava no Hospital das Clínicas e tinha contato com o pessoal, o pessoal sabia quando abria exame, não é exame, concurso para dentista. E numa dessa o Ricardo foi fazer a entrevista, ele nem sabia da vaga para que instituto que era. Ele foi fazer, e na entrevista lá com um dentista – até nos encontramos com ele um tempo atrás – ele falou que a vaga seria para o InCor e que já tinha sido oferecido para outras pessoas, inclusive dentistas do complexo e ninguém queria.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Pelo receio de trabalhar com paciente cardiopata. E o Ricardo na época tinha acho que uns dois anos de formado, mas ele tinha maturidade, ele entrou mais tarde na faculdade, porque fez exército, fez admissão, na época dele tinha admissão então ele entrou na faculdade muito mais amadurecido. O Ricardo com dois anos de formado parecia muito mais seguro do que eu com dois anos de formada, com certeza. Aí ele falou: “Não, tudo bem, vamos lá, vamos aprender”. Então ele praticamente começou esse serviço, só tinha a sala com o equipamento que alguém comprou e botou lá dentro. Desde a escolha de compra de instrumental, a primeira compra tudo foi dele. E ele aprendeu tudo lá dentro junto com os médicos atendendo os pacientes. Aí eu me formei quatro anos depois, eu me casei no terceiro ano e quando eu estava me formando eu já estava grávida. Quando surgiu uma vaga para entrar lá eu estava no final da gravidez do primeiro filho, então complicou porque se não já iria prestar o concurso e já iria entrar lá. Aliás, era uma vaga, Fundação Zerbini, dentro do Hospital tem as vagas para o concurso do HC [Hospital das Clínicas] que é funcionário público e tem as contratações pela Fundação que é um concurso, agora é mais cheio de coisa, mas na época era um concurso mais restrito a indicação mesmo, era entrevistado pelo diretor, apresentava currículo e era contratado. Então eu não pude entrar dessa vez, entrou uma outra colega nossa. O Ricardo foi para lá em dezembro de 1977, ele começou e eu fui para lá em agosto de 1983 só. Quando eu cheguei o caminho já estava aberto, todas as dificuldades iniciais ele já tinha resolvido, foi muito mais fácil. Eu não sei, se eu tivesse entrado, se fosse eu, talvez o caminho seria outro.

 

P/1 – Agora vamos conversar especificamente desse departamento, o trabalho que vocês desenvolvem lá. Por que esse atendimento especial para o cardiopata, esse atendimento odontológico para cardiopata?

 

R – Infelizmente são poucos os hospitais que têm ainda o serviço de odontologia especializado. Inclusive nós recebemos hoje um paciente que teve que ser transferido da Beneficência Portuguesa pelo o InCor porque ele tinha tido um infarto, internou, ia para a cirurgia mas começou com dores, dor de dente e não tem o dentista lá na Beneficência, não tinha quem resolvesse o problema dele. Então ele teve que ser transferido da Beneficência para o InCor por causa de problema odontológico. Você vê, pois é, é a coisa que existe. E o fato de ter a necessidade de uma equipe de odontologia é que em determinadas cardiopatias, não são todas as cardiopatias, por exemplo, se a pessoa tiver só um problema de coronária até que se prove o contrário não existe nenhuma ligação entre foco de origem odontológico com problema cardíaco. Agora, se a pessoa que tiver o problema for de válvula, se for um valvopata ou for portador de uma cardiopatia congênita, se ele tiver foco de origem odontológica ele pode ter uma infecção nessa válvula, nessa parte interna do coração por causa de um foco odontológico. Então como é que a gente vai prevenir essa infecção? É prevenindo focos de origem odontológicos.

 

P/1 – Já no tratamento dentário.

 

R – É. Então, por exemplo, todo paciente que vai para a cirurgia de válvula ou de cardiopatia congênita ele passa pelo nosso serviço, onde a gente faz todo o tratamento, tudo que tiver de foco, periodontal, extrações que tiver que ser feitas, é tudo tratado. E aí ele vai para a cirurgia. Porque acontece assim, o paciente tem um valvopatia ou uma cardiopatia congênita, ou seja, ele tem algum defeito naquela parte interna do coração, nas válvulas, no endocárdio, se ele tiver bactéria na circulação sanguínea dele, pode haver, não é que vai haver, mas pode haver possibilidade dessas bactérias colonizarem nesses lugares que tem defeitos nessas válvulas. Então as bactérias se instalam ali, colonizam, se multiplicam, formam uma vegetação e isso é endocardite bacteriana, que é uma doença bastante grave, uma doença com índice de mortalidade bastante grande, de 30%, morbidade alta também, vai ter que fazer uma cirurgia para trocar essa válvula cardíaca, vai ter que ser essa válvula doente retirada e substituída por uma prótese valvar que vai acarretar em outras dificuldades para o paciente, mas que restabelece a saúde do paciente, então é uma doença bastante grave. Então uma das portas de entradas para ter bactéria na corrente sanguínea e a principal é a boca. Por quê? Como é que eles sabem que a boca é a principal causa? Se você pegar a maioria dos casos de endocardite a maioria é em função de infeção por Streptococcus viridans, que é uma bactéria comum da boca da orofaringe. E se você vai examinar esses pacientes ou eles estão com a saúde bucal péssima, quer dizer, eles têm essa bacteremia, essa entrada de bactérias pela corrente sanguínea 24 horas por dia porque tem gengiva que sangra, tem dentes em péssimo estado. Então eles têm bacteremia 24 horas por dia, ou eles tem a boca em péssimo estado ou eles foram submetidos a manipulações odontológicas, porque quando você manipula você também cria porta de entrada. Se eu faço uma raspagem e ocorre sangramento eu estou criando porta de entrada das bactérias da boca para a corrente sanguínea. Então sempre quando eles pegam esses pacientes com endocardite ou a saúde bucal, via de regra a saúde bucal é péssima ou foram manipulados por dentistas.

 

P/1 – E como é o caso da raspagem? Quando você faz a raspagem como que você faz depois o bloqueio, tem uma maneira de fazer o bloqueio da entrada dessas bactérias?

 

R – A maioria que a gente faz para evitar antes da intervenção a gente administra profilaxia antibiótica, mas isso também tem sido uma coisa bastante discutida porque o risco de se adquirir endocardite é baixo, mas existe os pacientes que adquirem endocardite que é uma doença grave. Então o que se faz hoje pensando na prevenção dessa bacteremia é: uma hora antes da sessão entrar com uma dose alta e única de antibiótico, é o que a gente chama de antibiótico profilaxia, que na verdade você não está dando antibiótico para tratar uma infeção, você está dando uma dose de antibiótico para no momento em que houver a bacteremia ter um pico, ter um nível sérico bem alto para você conseguir debelar essa bacteremia. Então é diferente de terapia antibiótica. Então a profilaxia é dada uma hora antes numa dose alta e o antibiótico de eleição é sempre a penicilina ou derivada. Então ou três gramas de amoxicilina e seis horas depois dar o reforço, metade da dose ou penicilina sintética que é o Pen-ve-oral, aí você dá duas gramas uma hora antes da intervenção e seis horas depois metade da dose. Se o paciente for alérgico ele não pode usar nem a amoxicilina nem a penicilina sintética, então a gente dá eritromicina que não é o antibiótico ideal, mas em presença do risco de um choque anafilático então dá-se a eritromicina. São todos nomes preconizados pela American Hoechst, a American Hoechst preconiza. Inclusive, deve mudar agora novamente, a dose reforço já foi abolida.

 

P/1 – Estavam comentando.

 

R – Parece que vai sair publicada agora no próximo jornal, American Journal of Medicine. Mas parece que já foi modificado mesmo, que era uma coisa que estava para acontecer.

 

P/1 – Mas por quê?

 

R – Porque justamente eles acham que até a dose parece que vai ser diminuída um pouco, porque eles acham é o seguinte, você não precisa dar uma dose tão alta para acabar com a bacteremia, o grande problema é o seguinte: na hora que tem a bacteremia o que faz a bactéria aderir é o ninho, aquela válvula com alguma lesão e a capacidade de aderência da bactéria. Então o que se chega a conclusão é o seguinte: talvez uma dose mais baixa, se você conseguisse apenas diminuir a capacidade de adesão dessas bactérias já seja suficiente para você impedir que elas colonizem aquela válvula, entendeu? Talvez não precise acabar com a bacteremia, é só elas perderem esse poder de aderência você já impede que elas colonizem a válvula. Então é uma coisa que está sendo bem discutida.

 

P/1 – Qual é o ganho para o paciente de tomar uma dose menor?

 

R – Até que se prove o contrário é evitar a endocardite, pelo menos nessa experiência que a gente tem nossos pacientes que tem uma saúde bucal péssima, que é a realidade brasileira, infelizmente ainda é essa realidade. Então são pacientes que são manipulados por nós, dez, quinze sessões e sempre a gente usa essa profilaxia e nenhum retorna com endocardite. Então ou a profilaxia realmente está sendo eficiente ou às vezes pode-se chegar a uma conclusão de que os cuidados pré-operatórios que você tem de fazer antisséptica direitinho talvez seja suficiente justamente para isso que eu falei, você diminui a quantidade de bactérias e diminui a aderência delas.

 

P/1 – Itamara, você tinha comentado também o caso dos anticoagulantes que vocês usam.

 

R – Paciente que é submetido à cirurgia de válvula, teve endocardite e a válvula ficou lesada ao máximo, então essa válvula tem que ser substituída por uma prótese. A presença dessa prótese valvar, dependendo do tipo de prótese que é colocada, por exemplo, existem próteses valvares metálicas e próteses valvares biológicas. As biológicas segundo consta o risco de se formar coágulo dentro dessa válvula é pequeno, agora a válvula metálica forma coágulo sanguíneo mesmo. O que é que pode acontecer? Se houver formação de coágulo na intimidade dessa válvula esse coágulo pode se soltar, cair na corrente sanguínea e provocar uma embolia, uma trombose à distância. Então pode ser numa perna, num braço ou num órgão vital ou um cérebro como normalmente acontece. E no cérebro deixa aquelas sequelas maravilhosas, se você tem uma embolia do lado direito ou do lado esquerdo você vai ter uma hemiplegia do braço ou braço e perna ou problema de fala por lesão do lado direito, porque tem aquele cruzamento. Então para evitar que esses coágulos se formem e que caiam na corrente sanguínea causando todo esse transtorno, o paciente tem que ser anticoagulado, então ele toma uma medicação anticoagulante que vai impedir a formação desses coágulos. Então vamos ver, de um lado é ótimo porque o paciente está protegido e não tem risco de nenhum tipo de acidente vascular, nenhuma embolia, nada; mas ele tem risco de hemorragia porque apesar dele não ficar totalmente anticoagulado, mas ele fica parcialmente coagulado, aumenta o risco. Então esse já é um grande problema, um grande receio que os dentistas têm de trabalhar, o paciente fala que faz anticoagulante, fala que é cardíaco ninguém vai querer saber, fala que toma anticoagulante muito menos ainda. Mas na verdade, sempre quando a gente vai dar aula, inclusive o meu assunto específico, sempre que eu vou dar aula é dessa parte de anticoagulante. Eu sempre desmitifico um pouco isso porque as pessoas acham que o paciente tem um risco de hemorragia enorme, e não é assim. Para começar as cirurgias normais que a gente faz que são de extração, é lógico que você não vai pegar, extrair dez dentes de um paciente anticoagulado uma vez, vai procurar fazer em várias sessões para diminuir o risco de sangramento. Mas o paciente que faz uso do anticoagulante oral não é um paciente que sangra como um paciente, por exemplo, que tem uma plaquetopenia, quer dizer, ele tem uma discrasia sanguínea. Paciente que toma medicamento, teoricamente ele era normal, tinha lá o seu sangue normalzinho, ele toma medicamento para diminuir essa, vamos ver, desacelerar essa coagulação. Então quando você faz uma extração num paciente desse, por exemplo, ele não vai, ele não sangra, na hora que você termina a extração que você faz a compressão vai parar o sangramento. Por quê? Porque primeiro o que forma de tampão são as plaquetas, quem chega primeiro na hora da coagulação para formar o tampão, formar o coágulo são as plaquetas. No caso do anticoagulante oral ele não atua sobre plaquetas, então o sangramento vai parar por causa das plaquetas. O que eu vou ter? Vou ter, porque aí continua, você tem primeiro as plaquetas, depois os fatores da coagulação que são ativados que vão dando origem ao coágulo definitivo. Então são nesses fatores de coagulação que o anticoagulante oral atua sobre alguns, então ele diminui um pouquinho a quantidade de alguns fatores de coagulação e a ação desses fatores de coagulação. Então, esse paciente que faz anticoagulante oral não é o paciente que vai sangrar horrores na hora do procedimento, ele tem o risco de sangramento no pós-operatório porque a quantidade de fibrina que vai formar ali é mais lenta e um pouco menor. Então os cuidados na verdade tem que ser em proteger aquele coágulo para que ele não dissolva antes da hora. Então a gente usa alguns recursos para evitar esse sangramento, que nem na hora da compressão a gente usa antifibrinolítico. Porque é assim, você tem o tampão de plaquetas, aí começa a formação do coágulo secundário até chegar na fibrina e ao mesmo tempo já começa um processo de destruição dessa fibrina para haver a formação do tecido. Então se eu uso um antifibrinolítico eu vou retardar essa fibrinólise, entendeu? Então eu tenho mais tempo daquele quadro permanente se formar. A gente faz compressão com a gaze com antifibrinolítico no local, deixa ali durante uns cinco minutos, isso vai retardar um pouquinho, vai absorver, vai retardar um pouquinho a fibrinólise. E para proteger esse coágulo a gente usa uma cola biológica, que é que nem uma cola mesmo, parece assim um “superbonderzinho”, que você vai colocar em cima e vai proteger o coágulo ali no lugar. Então protege de estímulo externo e da própria, o paciente quando deglute, o paciente tem mania às vezes de colocar a língua no lugar para ver se está sangrando ainda, isso faz com que às vezes destaca o coágulo, então você protege o coágulo ali durante uns quatro, cinco dias, é o tempo de evitar os riscos. Além disso, a gente tem que fazer controle dessa anticoagulação porque o paciente que faz uso de anticoagulante oral, mesmo que ele tome a sua dose certinha, todo dia na mesma hora, tudo certinho, ele... O importante quando a gente vai atender esses pacientes é ter o controle sobre essa anticoagulação que a gente faz através do exame coagulograma. Como eu estava falando, mesmo que ele tome a mesma dosagem todos os dias esse anticoagulante sofre alterações por causa de estresse do paciente, por causa do tipo de alimentação que o paciente tem, por exemplo, se o paciente ingere uma alimentação, um paciente desnutrido, oscila demais essa anticoagulação. Então mesmo a dosagem de anticoagulante oral pode estar anticoagulado demais ou anticoagulado de menos. Então ele tem que fazer esse exame a cada trinta dias para o médico ver se mantêm a mesma dose, se aumenta a dose, se diminui a dose da medicação. Quando o paciente vem para a gente, nós pedimos o coagulograma e a gente faz o controle dessa anticoagulação, porque ele pode estar, por exemplo, anticoagulado demais até para a cardiopatia dele, então o risco de sangramento, é lógico aí, se ele estiver totalmente anticoagulado é grande. E também para a gente, por exemplo, o que acontece, às vezes ele vem com anticoagulação menor do que ele deveria estar, que para a gente atuar perfeito sem risco nenhum, só que para a cardiopatia que ele tem ele tem um risco de acidente vascular. Então às vezes nós mesmos com o exame a gente manda o paciente ir para o médico, para o médico dar uma mudada na dosagem da medicação pela cardiopatia dele, entendeu? Para a gente está perfeito.

 

P/1 – Itamara, você tinha falado da cola biológica. De que é feito essa cola?

 

R – De colágeno mesmo. Colágeno bovino e inclusive é uma das poucas que tem no mercado. Eu vi há pouco tempo que está se fazendo uma pesquisa agora com veneno de cobra também, uma proteína do veneno da cobra que funciona como uma cola biológica. Isto talvez seja uma coisa interessante, vai baratear o custo, porque essa cola, ela é assim, vamos dizer, para ser usada em rotina ela é meio cara. Então tudo que se cria para baratear é interesse, porque a gente trabalha em hospital público, apesar de ter a Fundação que dá o apoio financeiro, mas é sempre interessante.

 

P/1 – Então você já conhecia essa cola na faculdade?

 

R – Não, não, só fui conhecer no hospital, porque essa cola foi idealizada para cirurgia cardíaca. E é aí que a gente: “Ah, para cirurgia? Como é que funciona? É uma cola? Vamos experimentar”. Então nós começamos a usar.

 

P/1 – Você lembra qual foi o resultado quando começaram a experimentar nos pacientes?

 

R – Isso deve ter sido acho que em 1990 mais ou menos, que nós começamos a usar isso aí. Talvez um pouquinho antes, 1988, não lembro exatamente. Mas faz parte já do protocolo de atendimento, do paciente anticoagulado, paciente que tem às vezes alguma alteraçãozinha hematológica, já faz parte do protocolo, a compressão com antifibrinolítico e o uso da colinha.

 

P/1 – E qual é o procedimento com o paciente diabético?

 

R – O paciente diabético a gente faz profilaxia antibiótica mesmo que a cardiopatia dele, no caso do nosso paciente lá, ele é cardiopata e é diabético. Então mesmo que a cardiopatia dele não seja suscetível, o paciente tem endocardite, quer dizer, ele não tem problema em válvula e nem cardiopatia congênita, vamos dizer um paciente que tem problema coronário. Mas se ele for um diabético, como a gente diz assim, descompensado, aquele paciente que embora toma medicamento está sempre com aquelas taxas altas na glicemia dele, então a gente faz profilaxia por causa do problema da diabete dele, porque ele age mais ou menos, por exemplo, o paciente diabético como se fosse um paciente imunossuprimido assim como os transplantados cardíacos também. O transplantado cardíaco teoricamente não tem nenhum risco de endocardite porque ele está lá com o coraçãozinho dele novinho, só que como ele está imunossuprimido, como ele faz uso de imunossupressores como a ciclosporina, então ele pode ter diante de um abscesso dentário, por exemplo, ele pode caminhar para uma septicemia, vamos dizer assim, entendeu? Por ele estar imunossuprimido. E o paciente diabético fica parcialmente, meio imunossuprimido também. Então quando a gente vai manipular a gente faz a profilaxia também, dependendo da intervenção a gente continua com o antibiótico, faz terapia antibiótica mesmo para evitar quadros pós-operatórios que não eram de se esperar, entendeu? Pela falta, porque ele não tem defesa normal como da gente. Então a gente faz também.

 

P/1 – Você tem pacientes que são constantes, que fazem tratamento todo ano com vocês?

 

R – Tem. Infelizmente eles retornam. O ideal era aprender tudo que a gente ensina lá e não voltar mais, não precisar mais dos nossos serviços, mas normalmente eles precisam sim. É que a gente não tem esse contato tão assim com o paciente depois, a não ser que ele volte, que ele vai ser operado novamente do coração, porque a gente só acompanha os pacientes em fase pré-operatória com exceção dos que tomam anticoagulante oral que continuam com a gente mesmo, eles são operados e tal, mas pela dificuldade de manipulação desses pacientes a gente fica com esse grupo de pacientes e os pacientes transplantados. Então os únicos que já operaram e continuam sendo acompanhados por nós são esses. Os outros a gente só vê na fase pré-operatória, então a gente só vai ver ele de novo se ele tiver que reoperar o coração.

 

P/1 – E é diferente o relacionamento seu como dentista com esses dois tipos de pacientes? Como que é a relação?

 

R – Olha, eu acho muito gostoso trabalhar com paciente cardiopata e talvez assim, digamos, de baixo poder aquisitivo, porque eles são tão agradecidos, não sei explicar, é uma coisa gostosa; como não existe aquela coisa de dinheiro no meio, vamos dizer assim, eles não pagam para gente, você atender paciente dentro do hospital é muito gostoso, porque eles valorizam o teu trabalho, eles tem segurança na gente porque sabem que a gente está lá dentro do hospital então o risco deles é mínimo. Eles sabem que estão sendo atendidos por um pessoal que está acostumado a atender esse paciente, então é muito gostoso, principalmente pessoas, os mais idosos, os velhinhos são umas gracinhas.

 

P/1 – Você tem algum caso de trabalho difícil que você executou que foi marcante na carreira?

 

R – De atendimento? Você diz de clínica?

 

P/1 – É.

 

R – Agora de imediato eu não lembro de nada que tenha.

 

P/1 – Pela dificuldade.

 

R – Não. Se eu lembrar depois a gente volta aí. Eu não estou lembrando de nada de imediato que tenha dificultado o trabalho da gente.

 

P/1 – Esses pacientes que estão para fazer a cirurgia, qual é a expectativa deles? Como que eles são?

 

R – O paciente cardiopata é um paciente medroso, todo mundo já tem medo de dentista, já é coisa normal, já vai para o dentista já tem medo. Esses são pacientes bastante medrosos. Mas é o que eu te falei, por eles saberem que estão sendo atendidos lá, por uma equipe que tem experiência, sabe o que fazer, quando fazer, eles colaboram bastante, é um outro caso com paciente mais trabalhoso que não confia na gente, vamos dizer assim, não deixa você trabalhar. Normalmente eles sentam na cadeira e tem confiança na gente, tirando o medo normal das intervenções que aí entra toda a parte, você tem que passar a confiabilidade para o paciente para ele sentir que você sabe o que está fazendo e como está fazendo.

 

P/1 – E eles trazem expectativas da operação que eles vão fazer?

 

R – Trazem.

 

P/1 – Como que é isso?

 

R – Muitos transplantados são os mais difíceis de você levantar o astral deles, vamos dizer assim, são os que têm mais medo da morte. Os outros pelo fato de não saber exatamente o que vai ser feito e o que não vai ser feito eles são mais calmos. Acho que quanto mais você sabe sobre o assunto, mais você sabe os riscos, mais você fica preocupado. Por eles não saberem eu acho que isso já colabora bem. (risos) Eles são assim, eles são carentes, então quando eles sentem essa dedicação, esse carinho que a gente procura sempre passar também, eles são bastante receptivos com a gente, pacientes bastante tranquilos.

 

P/1 – A gente estava conversando quando não estava gravando sobre prevenção. O que você acha que tem que ser feito em termos de prevenção, de alimentação, essas coisas?

 

R – Eu acho que primeiramente seria a conscientização dos nossos, não vou nem usar a palavra líderes porque líderes a gente não tem, dos nossos governantes de colocar atendimento odontológico em toda e qualquer escola que tenha por aí. Então isso já pegaria uma grande parte das crianças, embora tenha crianças que não vão à escola, infelizmente, mas eu acho que já é uma coisa que deve ser sanada nas próximas décadas, espero. Então eu acho que basicamente seria trabalhar com prevenção com crianças, então seria aquele dentista realmente, como eu falo, não é aquele dentista que passa primeiramente no concurso público que é o mais indicado para trabalhar lá dentro, porque o fato dele ser o melhor, de passar em primeiro lugar numa prova não significa que ele seja o melhor para fazer esse tipo de trabalho. Eu acho que precisa valorizar muito a parte da entrevista, do exame oral que realmente escolhesse o profissional que trabalhasse com criança, porque trabalhar com criança além de ser mais difícil para você atender tem que ser pessoas, por exemplo, o dentista não precisa estar, se ele é dentista de uma escola todo dia só no consultório trabalhando com as crianças, mas ele vai para a sala de aula, ele leva cartazes, ele leva, sei lá, filminho, ele leva modelos para fazer explicação, passa para a criançada. Então eu acho que essa parte de prevenção tinha que ser trabalhada principalmente com criança. E com o adulto tem que ser sempre retomada, o que eu estava falando não adianta ensinar uma vez e achar que... Por isso é que acho esse trabalho na escola importante. Hoje se defende muito a presença de higienistas na escola, THD, técnico de higiene dental. Eu acho importante, mas se você tiver um dentista numa escola trabalhando com prevenção direto ele vai ter tempo para atender no consultório e estar fazendo essa parte, estar acompanhando as crianças na hora, por exemplo, depois do recreio todo mundo leva a escova de dente e o dentista fica lá e acompanha a escovação, isso é importante. E alimentação que seria também orientada pelo dentista. O tipo de alimentação que a criança ingere tem tudo a ver também com a incidência de cárie, se a alimentação é super rica em açúcar, se a criança não tiver, se não houver uma vigilância severa da escovação com certeza vai ter muito mais cárie do que a outra que não ingere tanto açúcar. Então higiene e alimentação são as coisas principais. É o que eu falo, às vezes cárie dentária é doença que acomete mais de 90% da população brasileira, e é a doença mais fácil de ser prevenida que não depende nem de vacina nem nada, você que cuida e você que tem consciência que pode evitar. Mas não tem esse investimento, eles não investem nisso para passar isso para a população. E as escolas não tem dentista; muitas vezes, como eu falei, não é o dentista que dá uma passadinha pela escola, de vez em quando. Então esse é o grande problema nosso.

 

P/1 – Você tinha uma pergunta dos serviços?

 

P/2 – Eu queria saber como foi a sua formação trabalhando com os cardiopatas, se o curso preparou para isso ou se teve que fazer alguma coisa assim...

 

R – Não. Na época quando eu entrei no hospital não existia, hoje nós temos um curso de aprimoramento que é dado lá, um programa de ensino dentro do serviço. Quando eu entrei ainda não existia o aprimoramento, então o que eu aprendi eu aprendi dentro do serviço mesmo, aprendi com o Ricardo e com os médicos do hospital e estudando, porque esse preparo em faculdade, agora hoje ainda está havendo um cuidado maior com isso, de formar o aluno, mas ainda deixa muito a desejar, infelizmente. Eu acho que precisava haver uma mudança mesmo no currículo da faculdade da Odontologia. O que está acontecendo é o seguinte: a gente sai da faculdade excelentes técnicos, tecnicamente a gente aprende tudo, mas ainda há uma deficiência no sentido de carga horária de matérias básicas, porque o paciente nosso hoje é diferente do paciente de vinte anos atrás. O paciente grave de vinte anos atrás, por exemplo, provavelmente não chegava ao consultório porque ele morria no meio do caminho, morria antes. Hoje não, hoje você tem, por exemplo, esses pacientes que tem prótese valvar, que toma anticoagulantes, que tomam mil medicações para controlar, quer dizer, eles são pacientes, estão bem, muitos conseguem retomar a vida profissional, trabalham, mas são pacientes que exigem determinados cuidados especiais. Então não é o mesmo paciente. O paciente transplantado, por exemplo, antigamente não existia, então o dentista não precisava ter tantas informações. O paciente tem uma doença, um paciente hemofílico, por exemplo, o paciente hemofílico também era um paciente que na primeira intercorrência ia a óbito. Hoje não, alguns pacientes, a gente atende pacientes assim. Então hoje se exige maior conhecimento do dentista nessa área completa do paciente e ainda é um pouco... A tendência é o curso aumentar de tempo e isso ser uma área realmente da Medicina como é na Europa. Na Europa é assim, sempre foi. Nos Estados Unidos funciona mais ou menos como o nosso, mas é um curso que pega mais essa parte, o nosso ainda está muito voltado para a parte técnica, por isso a nossa Odontologia é muito melhor que muitos países. Se você comparar, por exemplo, a Odontologia daqui com a Odontologia da Inglaterra, a nossa é melhor, a parte técnica, na hora de executar o dentista brasileiro dá de dez em muitos dentistas aí, mas na parte do conhecimento mesmo, da bagagem do conhecimento ainda eu acho que tem que fazer algumas...

 

P/2 – Porque eles fazem Medicina e especializam...

 

R – Eu não sei bem como funciona, mas parece que escolhe no quinto ano, parece que você vai para a área de Odontologia. O curso que o médico tem é o mesmo curso que o dentista tem até o quinto ano. Aí ele vai para a área específica de Odontologia e vai ter a parte técnica. O ideal seria juntar tudo isso e fazer, vai ter que aumentar o período do curso, não tem outro jeito, porque os quatro anos que a gente fica lá são quatro anos bem investidos, falta, não é que dá para tirar de algum lugar, que nem São José, São José é integral, a gente ficava o dia inteiro na faculdade e depois tinha clínica, bastante clínica, muitas horas de clínica, a gente tinha essa oportunidade, era uma faculdade pequena, na minha época eram quarenta alunos por turma. Então a gente tinha oportunidade de trabalhar bastante, sair com um desenvolvimento da habilidade manual bom. Então o que eu aprendi foi com o Ricardo, como eu falei, ele abriu o caminho para a gente e depois a gente vai aprendendo. E com esse programa de aprimoramento que existe lá para dentistas formados é como se fosse uma “residência”, é um programa de dois anos de duração em período integral. No primeiro ano passam em todos os institutos, ficam dois meses mais ou menos em cada instituto, ficam na ortopedia, na plástica, na psiquiatria, no instituto central e no InCor. No segundo ano se ele escolheu o InCor quando ele fez a inscrição dele, ele passa o ano inteiro no InCor. Então a gente sente nitidamente, porque o nosso público de aprimorandos a maioria é tudo recém-formados que tem essa disponibilidade, vamos dizer assim, de viver com uma bolsa de estudos, que eles recebem uma bolsa da FUNDAP [Fundação de Desenvolvimento Administrativo], que nem é uma bolsa, é uma pochete. (risos) Mas pelo menos recebem, então quem é uma pessoa que pode dois anos sem precisar se formar e trabalhar, normalmente é o recém formado, mas a gente nota o amadurecimento neles muito grande. Depois de seis, sete meses que eles estão lá eles já mudam porque adquirem mais confiança. No InCor o pessoal tem condições de praticar a Odontologia porque a gente faz as coisas básicas, que a gente faz clínica geral, faz perio [periodontia], faz dentística, faz endo [endodontia], faz cirurgia, a gente só não faz prótese porque não é objetivo central do serviço que é eliminar foco do paciente e você nem teria condições de dar acompanhamento a esse paciente. Então ele não faz prótese nem faz orto [ortodontia], mas a gente faz toda essa parte, faz a odontologia do dia-a-dia do consultório. Eles têm essa oportunidade de estar desenvolvendo habilidade manual e estar aprendendo a trabalhar com paciente cardiopata. A mesma coisa a psiquiatria, por exemplo, também lá eles têm a oportunidade de fazer odontologia e trabalhando com pacientes com problemas psiquiátricos, então o que eles aprendem lá é imenso.

 

P/1 – Bom, para a gente terminar a entrevista, Itamara, o que você gostaria de realizar ainda? Qual é o teu sonho?

 

R – O meu sonho! Bom, o meu sonho era primeiro ver dentista em todas as escolas, juro por Deus, não é frescura não. Eu adoraria ver as crianças terem acesso à Odontologia, que é uma coisa tão distante hoje da população, pelo preço mesmo que se torna uma coisa distante. Isso seria uma coisa que eu iria gostar muito. Agora, dentro da minha profissão, eu acho que eu já alcancei bastante coisa. Eu não sou muito ambiciosa assim de grandes pretensões não, mas eu acho que pelo menos o que a gente faz dentro do InCor, o que eu aprendi lá dentro, o que a gente faz, o que a gente ensina, eu acho que nós já conseguimos, vamos dizer assim, o reconhecimento tanto da Odontologia, profissionais da Odontologia quanto da área médica. Então isso para mim já é um grande sonho realizado, pelo menos você não está fazendo aquela coisa por fazer, você está produzindo alguma coisa e deixando alguma coisa. Quer dizer, eu tenho mais uns quinze anos de InCor, eu vou sair e vão ficar outras pessoas, eu sei que eu vou deixar uma coisa que eu tive participação nisso, entendeu? Eu deixei alguma coisa plantada lá dentro. Então acho que o meu sonho já está realizado, já tive os meus filhos, saudáveis, bonitos, inteligentes. Eu não tenho grandes sonhos não, para frente não, eu não penso muito assim não, eu vou vivendo devagarinho. Não tenho grandes ambições lá para frente não.

 

P/1 – Está ok, Itamara, obrigada pela entrevista.

 

(PAUSA)

 

P/1 – Bom, para complementar a entrevista ficou faltando a gente falar dos anestésicos. Você lembrou bem.

 

R – Os pacientes que nem você falou: “Como é a receptividade dos pacientes, e pá, pá, pá”. Então a grande preocupação que existe dos pacientes cardiopatas é na hora de tomar anestesia, eu acho que essa é a preocupação deles porque se coloca tanto folclore ao redor disso e, às vezes, na maioria das vezes, os profissionais se preocupam mais com a anestesia do que com todo o resto, que nem profilaxia antibiótica, uso do anticoagulante ou não, que são coisas que até exigem mais conhecimento do dentista que o próprio anestésico. Então existe muita discussão até hoje: qual é o anestésico mais indicado para o paciente portador de uma cardiopatia? Por que é que existe essa discussão? Porque na verdade, para você provar qual o melhor anestésico ou se foi aquele anestésico que causou algum dano no paciente, alguma crise hipertensiva e tal, é difícil você monitorar isso porque você vai fazer, as intervenções são diferentes, o paciente é diferente, a cardiopatia é diferente. Então você não sabe exatamente, por exemplo, mesmo que você esteja monitorando o paciente, por que é que houve aquela alteração com determinado anestésico, entendeu? Pode ser que o paciente é mais estressado ou por causa do anestésico. Então tem muita discussão a respeito disso. Agora o que é que nós no InCor fazemos: a gente acha o seguinte, o que se fala que pode expor um paciente a risco é a presença do vasoconstritor no anestésico que é muito difundido no meio odontológico, associar o vasoconstritor ao anestésico. Por quê? Porque a associação do vasoconstritor no anestésico faz com que a anestesia se mantenha por um maior tempo, impede essa rápida metabolização do anestésico. Só que é como eu digo: o que faz o vasoconstritor? Vasoconstrição, a função dele é vasoconstrição. O que faz o anestésico? Anestesia. Então se eu sei que essa droga associada pode promover vasoconstrição embora no uso odontológico a gente use pouca quantidade e teoricamente não deve estar injetando diretamente no vaso, mas eu estou usando um vasoconstritor. E cada paciente tem uma reação diferente às drogas, um mesmo medicamento não funciona igual na população inteira, infelizmente, se fosse seria facílimo, o problema estaria resolvido para todos os farmacêuticos do mundo, mas não é bem assim. Cada paciente tem a sua receptividade àquela droga. O vasoconstritor é uma droga que se sabe que tem essa variação de reação em cada um. Então se eu usar um anestésico sem vasoconstritor eu estou diminuindo os riscos, então partindo disso, embora seja muito discutido, se vocês pegaram literatura odontológica tem uma discussão enorme disso. O que eles falam é o seguinte: se você usa anestésico sem vasoconstritor o que acontece? Passa, o efeito é muito rápido porque é metabolizado muito rápido o anestésico então o paciente tem que ser novamente submetido à nova anestesia e que isso seria um transtorno. Não vejo isso um transtorno, ao invés de você trabalhar, dar uma anestesia e ter duas, três horas pela frente, você tem que a cada trinta, quarenta minutos repetir a anestesia. Só que os procedimentos de rotina em Odontologia, o tempo que você precisa para o paciente estar realmente anestesiado, você estar manipulando são trinta, quarenta minutos. Mas se houver uma necessidade de uma pequena anestesia eu não vejo nisso um grande problema, porque você explica para o paciente que você vai usar um determinado tipo de anestésico que é mais seguro para ele, a única coisa é que o efeito é mais rápido e a gente vai ter que repetir. E a segunda picadinha não é tão sensível quanto a primeira, se for aplicada com a técnica correta vai ser menos dolorosa ainda. Então não vejo o fato de ter que repetir o anestésico ser o problema. A quantidade também não muda muito, a dose máxima, o fato de ter vasoconstritor não tem uma grande variação assim para se tornar tóxico, então eu posso usar mais tubetes de anestésico sem vasos do que o outro. No caso a lidocaína, que é a que a gente usa sempre, ela é, inclusive ela é antiarrítmica, droga que eles usam quando o paciente chega ao pronto-socorro lá com arritmia ou caminhando para o enfarto, com isquemia. O que eles usam? Eles usam lidocaína na veia direto porque é um antiarrítmico, quer dizer, dos anestésicos é o mais seguro para a gente estar trabalhando. O que eles fazem? Não, se o paciente tiver uma cardiopatia grave então não usa vasoconstritor, se for um cardiopata com uma cardiopatia mesmo importante usa vasoconstritor. Para que correr, ter esse limite exatamente, se o paciente já tem problema por que você já não usa medicamento que vai expô-lo a menos risco e trabalhar com mais segurança? Então é isso que a gente usa como argumento e aí a gente usa anestésico sem vasoconstritor que, aliás, eu sempre acho muito bom, no meu consultório eu passei a usar anestésico sem vasoconstritor para todo mundo. Por quê? Porque o paciente vai embora e não está mais anestesiado, que é uma coisa que o paciente, eu percebi que os pacientes gostam, porque é horrível. Você toma uma anestesia cinco horas da tarde, vai no jantar às dez da noite e está assim. (risos) Por quê? Porque com o vasoconstritor o anestésico dependendo da pessoa fica duas horas, dependendo da pessoa fica quatro horas, fica seis horas. Por isso é que você vê, a mesma anestesia em algumas pessoas dura duas horas, quer dizer, o vasoconstritor atua diferente. Então, os meus pacientes adoram, um paciente meu fala: “Eu estou adorando o seu tratamento, o que é isso que você usa na anestesia que eu vou embora e não estou mais anestesiado?”. Quer dizer, durante o tratamento que é necessário, ele está anestesiado. Então o nosso protocolo de atendimento para qualquer paciente lá é não usar vasoconstritor, inclusive pelo lado legal, porque se eu tiver um problema com o paciente, o que vai acontecer? Não sou eu que tenho que provar, não foi no vasoconstritor que eu usei. O paciente, ele afirma que foi o vasoconstritor e você tem que provar que não foi, entendeu? Não é bem assim, como é que eu vou provar que não foi? Bom, se eu já tiver usando anestésico sem vasoconstritor, está certo? Eu estou protegida até legalmente se ele desencadear uma crise hipertensiva na minha cadeira, eu usei o anestésico sem vasoconstritor, pode ser por outros motivos: ele chegou muito ansioso, ele já não estava bem, não tomou medicação, entendeu? Então eu continuo sendo a favor do anestésico sem vasoconstritor, embora haja correntes contrárias que são fãs da lidocaína sem vaso.

 

P/1 – Por que as pessoas ainda tem o maior medo da anestesia? Você tem ideia?

 

R – Bom, a dor do desconhecido é sempre a pior. Se você tiver cortando uma cebola e cortar o seu dedo sem querer não dói, agora se você pegar o dedo e pegar a faca e falar: “Vou cortar o meu dedo”. Está certo? Dói muito mais, imagine passando a faca. (risos) Então a dor esperada é a pior dor que tem, e é sempre aquela coisa da injeção, é sempre aquela coisa voltada para a injeção que na verdade não é uma coisa tão dolorida, uma técnica bem aplicadinha, direitinho diminui bem, se usa um anestésico tópico antes então a picada diminui, na hora de injetar você injeta bem devagarinho. Então, mas medo existe, quase todos os procedimentos odontológicos são meio agressivos, aquele motorzinho com aquele barulhinho terrível que se Deus quiser nos próximos anos também vai ser substituído pelo laser. (risos) E vai melhorar um pouquinho, já melhorou bem.

 

P/1 – Está ok, Itamara, obrigada.

 

R – De nada.

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