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História

O voluntariado que nasceu de um movimento social e virou sinônimo de empreendimento educacional nacional

História de: Eurico Marchon Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2020

Sinopse

Nesta entrevista Eurico nos conta sobre suas origens, pais descentes de imigrantes que aqui se estabeleceram e prosperaram através do comércio em família, e como essa criação o impulsionou a estudar em nível universitário uma área ainda não bem delineada, mas em ascensão, a Economia. Formou-se pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em meio ao regime militar da década de 60 e outras dificuldades sociais. Fez da sua profissão um meio de educação para os que vivem em situação de vulnerabilidade social, mais especificamente na região da favela do Rio de Janeiro, questão importante em sua concepção, mostrando que todos podemos nos ajudar de alguma forma. Através do ensino de informática em comunhão com a associação de moradores da favela, a CDI levou uma oportunidade de crescimento para os que ali viviam.

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História completa

P1 - Boa tarde, Eurico.

 

R - Sim, boa tarde.

 

P1 – A gente pode começar com você falando seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R - Eurico Marchon Neto, eu nasci em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, dia seis de maio de 1950.

 

P1 - Você poderia falar o nome dos seus pais e a atividade deles?

 

R - Meu pai é Angenor Marchon. Ele era comerciante junto com o meu avô. Vieram do interior de Minas para Cachoeiro, por volta de 1940. Logo em seguida conheceu minha mãe, que foi a vida inteira dona de casa, uma mãe que acompanhou a gente. Nós somos cinco irmãos. E conseqüentemente não teve mais tempo para nada a não ser cuidar de filho, de marido. Essas coisas que as mães do seu tempo já conhecem.

 

P1 - E a sua família? Pelo que você disse eles são de origem suíça, né? Você poderia contar para nós rapidamente a história da sua família?

 

R - São. Particularmente meu pai é descendente de suíços que vieram para cá, no Brasil, em um grande movimento que foi coordenado pelo próprio governo brasileiro e tendo também como anteparo o próprio governo suíço da região de Freiburg. E aí vieram para cá em 1820 e pouco, se estabeleceram aqui na Serra de Lumiar. Minha mãe é descendente de imigrantes alemães também, e logo em seguida, quando chegaram aqui nessa região da Serra do Rio de Janeiro. E ela fez parte também do movimento imigratório que veio para cá, que foi muito predominante na primeira metade de século XIX. E essa é a vida da gente. Começa aqui em cima, em Friburgo, na região especificamente de Lumiar. São milhares de histórias que cercam essa imigração. Até porque hoje a gente tem uma literatura farta sobre esse movimento, registrando minúcias do tipo: inventário das coisas que esses suíços trouxeram quando entraram em uma embarcação. Então eles não podiam trazer o que queriam e tudo o que pudessem. Teriam que trazer, naturalmente, o que fosse permitido dentro de um ambiente pequeno de uma embarcação da época. E são milhares de histórias. Tem dois livros muito bem registrados. E o meu tio, que é um adepto – ele é até presidente da associação, da qual eu sou diretor social - ele escreveu um livro contando um pouquinho do que foi o ponto de partida da família Marchon em particular. Mas existe literatura hoje que conta a história desse processo migratório dos suíços dando os nomes das embarcações, o dia que saíram da Suíça, de que forma chegaram ao porto próximo à Suíça, de que forma também viajaram aqui. Muita gente morreu. Eram doenças que às vezes aconteciam e acometiam a pessoa durante o caminho e algumas delas não podiam sequer ser enterradas. Eram atiradas ao mar. E a dificuldade sobre ter alimentos, né? Enfim, é tudo muito planejado, dentro dessas circunstâncias da época, e também tudo muito comedido, né? A quantidade das coisas que cada um podia transportar. E quando chegavam aqui havia uma acolhida do governo. Então, para ilustrar um detalhe - que talvez muito pouca gente conheça e talvez caiba - alguns desses que chegaram aqui, imigrantes suíços com família, eles recebiam lá na Suíça orientação de que eles receberiam uma gleba de terra aqui. Só que, ao chegar aqui, essa gleba de terra era na verdade um penhasco de pedra no desenho deles e que nada poderia ser produzido ali. Era renegociada uma transferência, uma mudança de gleba para eles, para eles terem terra para cultivar. Interessante esse negócio: chegar aqui e ganhar uma pedreira, como é comum na região, uma topografia muito irregular. E certas áreas são difíceis de você torná-las próprias para a agricultura. Mas é interessante registrar que até hoje você encontra famílias, pouquíssimas delas nessa região de Lumiar, ainda descendentes daqueles primeiros imigrantes suíços, e mantendo lá a sua vida inteiramente ligada ao campo e vivendo uma vida campesina como se estivesse na Suíça, no interior. É curioso esse fato. Até hoje a gente constata isso. Ainda há pouco tempo a televisão mostrou, fez uma reportagem dentro desse ambiente deles. E eles vivem naturalmente bem, porque tiveram, quem sabe, uma terra abençoada e puderam se perpetuar nela. A grande maioria teve que sair dali, foram para as cidades, desceram aí ao longo dessa costa nossa do Rio de Janeiro: Niterói, alguns Rio de Janeiro, Casimiro de Abreu. E aí, foi a forma que encontraram, quer dizer, já não tendo mais espaço nem para a quantidade de pessoas que ali povoavam e não havendo produtividade o bastante, tiveram que arranjar outra maneira de buscar a vida deles, né?

 

P2 - E seus pais foram pra Cachoeiro do Itapemirim procurando um lugar melhor para viver?

 

R - Olha bem, o meu avô, pai do meu pai, ele é um sujeito muito aguerrido e ele a princípio foi trabalhador vinculado a fazendas da região. Ele era um profundo conhecedor de café. Quando depois nasceu o terceiro filho dele, ele viu que não tinha condição de ser empregado e começou a procurar alternativas de vida para ele. Foi quando ele foi pra essa região, que a gente chama de Zona da Mata de Minas, em uma cidade chamada Reduto. E nessa época, era muito viçoso o transporte ferroviário. Então ele passou a fazer o transporte de café, que era uma das principais riquezas da época. E ele também foi uma das vítimas daquele grande boom do café, que ocorreu no governo de Getúlio Vargas, e que levou muita gente à bancarrota. E ele quebrou com o café porque ele era intermediário, negociante e transportador. E o café foi a zero, aí ele foi junto. E foi quando ele restabeleceu um negócio. E foi para Cachoeiro do Itapemirim estabelecer esse negócio, que é um comércio de secos e molhados, como hoje é um supermercado, guardadas as proporções da época. E viveu disso a vida inteira: ele, a família dele. O meu pai sempre o acompanhando, porque era um braço direito dele. Papai viveu com o vovô até quando ele veio a falecer em 75. Continuou um pouquinho mais com o comércio, mas acho que um pouquinho mais ali ele zerou completamente o negócio. Se aposentou, fechou o comércio e veio morar conosco no Rio de Janeiro. Acho que por volta de 75. Então a vida dele foi sempre uma vida de luta ligada ao comércio. Depois que ele teve os filhos dele, que fomos nós, a gente teve que achar alternativa de estudo fora de Cachoeiro. Daí a minha vinda primeiro pro Rio de Janeiro, em 68, para vir estudar, porque, como diz a poesia do Raul Sampaio cantada pelo Roberto Carlos: "Vim para o Rio de Janeiro para voltar e não voltei". Porque o ambiente de estudo aqui me foi abrindo oportunidades, trabalho que eu não teria lá em Cachoeiro. E por aqui fui ficando.

 

P1 - E voltando um pouco. Como era Cachoeiro? Você poderia descrever a cidade na sua infância? A casa que você morava, a vizinhança.

 

R - A cidade de Cachoeiro... Eu me lembro bem de tudo. O papai tinha armazém bom junto com o vovô. A gente tinha em cima três casas, numa delas a gente morava.

 

P2 - Em cima do comércio?

 

R - Em cima do comércio. Era o tipo de um sobrado. Embaixo era todo o comércio, o armazém. Em cima tinha três casas. Uma delas o papai alugava, na outra morava meu avô e minha avó e na outra morávamos nós. Já naquela altura, nós éramos, acredito, quatro filhos. O quinto veio a nascer na casa seguinte. Nós moramos um pouquinho mais abaixo, até para buscar uma acomodação melhor. Mas na cidade nós conhecíamos todo mundo. É gostoso falar de Cachoeiro nessa perspectiva. Era uma cidade que, na época, não havia miséria, não havia violência, não havia nada que pudesse se aproximar do que a gente concebe de uma cidade hoje. Cidade com problemas, se for de porte médio para cima. E a gente conhecia todo mundo. A gente tinha relação direta com as pessoas, estudamos em colégio público, tanto o que era na época o primário, quanto o Estadual. Quer dizer, essas facilidades todas que uma cidade pode propiciar ao seu cidadão eu tive isso, eu vi de perto naquilo que foi a minha experiência de vida até os 18 anos. Aí quando eu vim para o Rio de Janeiro estudar, a coisa modificou um pouco. Enfrentei uma megalópole e começava a buscar a minha independência através de uma escolha profissional. Mas Cachoeiro era uma cidade super agradável como é até hoje. Ela cresceu um pouco mais. Hoje, como vocês sabem, é um dos principais pólos de mármore e granito. É um dos principais do mundo, sendo o principal do país. E isso gerou uma nova dinâmica econômica na cidade, que durante muito tempo não tinha como crescer porque não tinha vitalidade econômica. Hoje a gente sabe a importância que tem uma riqueza de subsolo, como o granito e o mármore, para uma cidade como Cachoeiro. Então, hoje, ela tem uma investidura um pouco mais estruturada. E, esperando que as gestões municipais aplaquem aquilo que seja hoje a miséria, e dê melhor escola para essa geração de filhos de pais, naturalmente, mais humildes. E a gente espera que a gestão municipal seja hoje, com essa riqueza, como deve estar acontecendo com as cidades que são beneficiadas pelo royalty do petróleo aqui na costa fluminense, em benefício da sociedade, plantando raízes, estruturando para um futuro onde, pelo menos ali, não se veja miséria ao nível que a gente infelizmente vê nos grandes centros, porque já esgotaram também as formas econômicas de gerar riqueza. E gerar riqueza hoje, acredito que seja a principal missão desse governo, no sentido de que ele possa propiciar aí para quem já está com déficit social, um déficit de emprego, um déficit de profissional, pelo menos para essas crianças que vêm aí, para eles terem um melhor alento. Uma verdadeira esperança de um futuro melhor. Mas é isso. Eu acabei extrapolando, transpondo Cachoeiro para cá, mas é porque eu trago um pouco dessa minha visão social da economia. Nunca foi economista para cuidar de números e só ver riqueza pela riqueza e prosperar na riqueza. Não. Eu acho que se a gente tirar o foco da economia de ser como Amartya Sem apregoou, que foi o prêmio Nobel de economia, me parece em 98 . Ele foi o sintetizador do IDH(índice de desenvolvimento humano), que hoje é um índice de medição de qualidade de vida, mundialmente consagrado. O Amartya Sen tinha essa perspectiva: a economia tem que estar centrada naquilo que é a carência fundamental da sociedade. Ela não pode estar somente visualizando a grandeza econômica, o que você usufrui economicamente, como você explora economicamente um determinado filão de negócios. Acho que a economia, se ela se despender da sua base, da população carente, se ela não for cristã efetivamente, ela deixa de ser economia e passa a ser uma ciência voltada a beneficiar os apaniguados, e aqueles que, com certeza, já tem uma melhor estruturação de vida, nasceram em berço um pouco mais abastado e por aí afora. 

 

P2 - Você é uma pessoa assim, muito preocupada com a questão social, né? Quer dizer, a sua infância, adolescência, você já percebia isso, você já se defrontava com isso? Já era uma preocupação sua ou algum fato marcou a sua infância, adolescência, lhe chamou a atenção para isso?

 

R - Não, você sabe que é um negócio interessante. Eu já fiz esse exercício de memória. Eu, graças a Deus, na minha cidade eu não vi miséria. E nem tampouco fui produto de miséria, quer dizer, eu não senti miséria na sua latência, como a gente vê hoje. Mas uma coisa me chama a atenção, na minha infância, em particular. Havia um senhor lá, curiosamente o nome dele era Eurico também, e eu lhe chamava de xará. Já era um senhor, já deveria ter uns 75 anos, cabecinha branca, lembra muito aquelas figuras daqueles velhinhos assim... de barba falhada, preto e branca, aquele cachimbozinho. Mas ele era muito pobre mesmo. Tanto pobre que ele era, que ele morava no porão de uma casa que dava para o rio assim, né? E eu não sei, volta e meia eu me metia a besta - eu devia ter meus 12, 13, 14 anos - e eu ia sozinho para lá ficar conversando com esse cara. Primeiro que eu me identifique com ele por ele ser o meu xará. E sem que ninguém dissesse o que eu tinha que fazer, o que eu não tinha que fazer, eu estava lá volta e meia. Talvez, naquela época, eu fosse tão inocente que presenciasse aquilo com uma certa poesia e nem tão, assim, ligado àquele estado de completa miséria que vivia aquele senhor. Sozinho. Às vezes o filho dele, que trabalhava em uma madeireira, ia lá dar uma assistência para ele. Mas ele morava em um porão. Então, essa sensibilidade à questão social talvez me chame a atenção porque eu tinha essa intuição ali dentro de mim. Outro fato que me chama a atenção também era a minha constante visita a um casal de senhores que moravam próximo à casa da gente. E eles moravam, digamos assim, eles eram muito pobres, e eu tinha uma ligação muito forte com eles porque a senhora, a Dona Bebeta, gostava de pássaros como eu gostava de pássaros. E o marido dela, o senhor Jorge, já devia estar na faixa de uns 80 anos também, nessa idade. Eu ia lá visitar para conversar com eles. E não sei como é que eles me viam não, mas a verdade é que eles me recebiam, aquele molecote, recebiam bem para uma conversa. E eu ficava sensibilizado com o estado de pobreza deles. Eles mudaram depois dessa casa, foram lá para um alto de morro, lá onde a situação começou a ficar mais apertada. E eu ainda fui visitá-los. Visitei algumas vezes até depois quando vim ao Rio. Já quando soube da morte deles visitei a viúva, a princípio, e aí depois perdi o contato. Mas aí você remeteu a uma coisa que me mexe até hoje. É em ver o seguinte: como é que... É claro que eu sempre fui criado em igreja, a minha vida é de igreja, e todo aquele princípio cristão. Não do comunismo, eu detesto a associação de Jesus Cristo ao comunismo. Eu gosto é da ideia do social, da partilha e da solidariedade. E, honestamente, nem muito preocupado com a questão financeira ou patrimonial ou material, não. Simplesmente olhando o foco no seguinte: quando eu me solidarizo com alguém, ou eu tenho alguma palavra a emprestar para poder, em uma hora de dificuldade, ser um conforto ali, ou então se estiver em uma estrutura que possa compartilhar, como o CDI faz, compartilha uma espécie de uma possibilidade para todos e generaliza essa socialização de bens, ou de bem-estar ou de oportunidades que são geradas em função de um ensino, de uma ferramenta, de uma prática de trabalho. Então eu não sou muito, assim, Robin Woodiano, eu confesso para você assim. Ter que tirar de um para botar para outro, isso não faz muito a minha prática não. Mas a sensibilização, o estar ligado às questões que são, assim, ao meu ver, importantes para todos. O ideal seria que não houvesse miséria, que não houvesse nenhuma criança fora da escola, porque a gente sabe que isso pode remeter a ser um cidadão mais bem informado e, consequentemente, feliz na pobreza. Porque eu acho que não é só a riqueza que leva à felicidade, eu tenho essa visão bastante clara disso. Eu vejo muita gente em morros vivendo felizes, naquela situação de morro, onde tudo é compartilhado, onde tudo é difícil, às vezes a própria água... às vezes nem sempre tendo a água encanada, ou tendo o esgoto devidamente canalizado. Pessoas que vivem felizes, mesmo não tendo aquela opulência que a gente vê - nessa visão do Zuenir - lá em baixo no asfalto. Não, eu acho que a felicidade começa a nascer na pessoa na medida em que ela começa a entender a dinâmica da vida e o meio em que ela está inserida. Se a pessoa tiver nascido bem consigo mesma e tiver esse sentido solidário, esse sentido de compartilhar... Porque eu conheci muitas lideranças comunitárias com essa visão de compartilhar tudo. E eu acho isso ótimo quando você está lidando com pessoas nesse meio altamente carente. Eu acho que alguma coisa, isso veio junto comigo. Até que eu cheguei aqui e comecei a me deparar com uma sociedade muito mais complexa, muito mais difícil de você lidar, com muito mais problemas. Então, eu fui começando a vivenciar esse outro horizonte da minha vida nessa relação com o Rio de Janeiro. Eu tenho hoje, acho, que uma visão bastante realista do que é a nossa realidade social, a nossa atividade econômica e até política, se a gente olhar a política com um "pê" maiúsculo aí. E todos aqueles anseios que temos como cidadãos e eleitores que gostaríamos de ver nascer nos políticos e em todos aqueles que têm um cargo público, mesmo não sendo políticos eleitos, mas um político que ocupa uma função pública em benefício daquele cargo que, com certeza, ele tem que exercer e isso ser uma grande sinergia. Isso é uma utopia que eu tenho na minha cabeça. Um dia, quem sabe, a gente chegue lá. Mas nasceu aí, eu não vi miséria tão grande. Eu via esses casos e me sensibilizava com eles. Mas isso tem talvez, nesse sentido assim, me dado um pouquinho da história, do viruzinho e, à medida que fosse possível, a gente pudesse contribuir para pelo menos equilibrar essas discrepâncias, essas divergências sociais que a gente a cada dia vê mais acentuada, infelizmente. Mas é isso.

 

P1 - E sobre o seu período de escola, ainda em Cachoeiro. Você se lembra de algum professor, ou algo que lhe marcou nessa época?

 

R - Olha bem, eu tenho de imagem muitos professores que de alguma maneira influenciaram a gente até para definir o que é que seria um futuro. Agora, eu não tinha, engraçado, quando eu estive na faculdade, assim, proximidade com eles. Era sempre uma distância muito grande. Você fazia dos professores verdadeiros mitos. E essa foi um pouquinho da minha relação com eles. Não havia, assim, uma proximidade grande. Ainda porque não tivesse professor na família, né? Que pudesse dar uma intimidade maior. Mas eu me lembro assim de memória deles. Mas nada que pudesse, assim, ter sido de maneira tão marcante, que pudesse ter interferido na minha trajetória, entendeu? Com toda a franqueza. Foram importantes para a missão que estabeleceram. Teve um outro Eurico, por acaso, na minha infância, que era o professor de ginástica. O professor Eurico. Aí tem dois, mais o meu avô, três. Três Euricos na minha infância. Esse professor dava ginástica para a gente - era obrigatória a ginástica - tinha que chegar cedo, seis horas, na escola, lá no chamado Liceu. E era uma matéria que a gente praticava. O esporte sempre foi uma puxada na vida da gente para tudo. Tanto jogar nessas peladas, quanto praticar as diversas formas de esporte que ele se propunha a nos ensinar: arremessar peso, saltar em altura, subir em corda, arremessar dardo, enfim, aquelas coisas próprias. E eu assisti na minha infância a uma coisa que eu senti falta que não tivesse continuidade. Eu assisti na minha infância às chamadas Olimpíadas Estaduais, realizadas uma vez por ano, onde nós víamos com muito orgulho nossos colegas e amigos sendo, na verdade, os competidores naquelas modalidades de esporte. Por que eu acho isso importante? Porque o esporte é visto hoje como uma grande alavanca de socialização ou, sobretudo, de trazer da marginalidade pessoas. Ou até não permitir que elas cheguem à marginalidade. Acho que uma das missões do esporte é a socialização do indivíduo, é fazer com que as crianças cresçam sadias, estabeleçam parâmetros sadios para a sua vida. E, naquela época, eu via com marcância isso, porque os governos estaduais eram coordenados - como são até hoje, né, no chamando ensino médio - pelo Estado. Mas era tão forte a escola pública naquela época - talvez porque o Estado fosse forte - que você tinha as olimpíadas estaduais, que eram movimentos extremamente participativos. Nas paradas de Sete de Setembro - como acontecia também no dia 29 de junho, que era aniversário da cidade - os colégios colocavam os seus alunos uniformizados, para uma espécie de uma parada, um desfile. Que era o que? Era uma forma de civismo, uma forma de trazer orgulho e reconhecimento para aqueles alunos e os pais verem aquele desfile dos alunos estudando. Isso é um negócio muito marcante na vida da gente. E a gente perdeu essa dimensão. Talvez porque em cidades maiores fosse mais difícil você organizar um evento desses. Mas em Cachoeiro.... por exemplo, volta e meia eu vi lá um evento estadual, que congregava todas as escolas estaduais dos municípios do Rio de Janeiro, serem realizados uma Olimpíada em Cachoeiro. É uma festa a cidade naqueles dias. É como se acontecesse hoje uma mini-olimpíada em Cachoeiro. Você pode imaginar? Atenas fica a atração do mundo e, naquela época, uma Olimpíada em Cachoeiro era a atração da cidade. Todo mundo participava. E aí era interessante a gente ver nossos amigos, colegas, as pessoas que a gente começava a idolatrar. Porque eram os atletas do nosso contato do dia-a-dia, alguns deles amigos nossos. E a gente vibrava por eles, torcia por eles quando vinham os competidores dos outros estados, naturalmente representando seus colégios, representando seus municípios. Isso foi um negócio muito marcante da minha vida, naquele tempo. E o professor Eurico era um desses educadores do esporte. Já era um senhor, naquela época, devia, pelo cabelo branco, ter uns 60 anos pelo menos, mas um vibrador e um estimulante aí das práticas esportivas mais genéricas possíveis. Não tinha negócio de softbol e só isso aí. Ele fazia todo o espectro dos esportes. Havia apetrecho para você praticar todos os esportes. Era muito educativo aquilo, porque se pretende hoje colocar a pessoa no filão da luz e da saúde física e mental e não deixar desviar, em nenhum momento sequer, nem se deixar tentar levar para o caminho das drogas ou dos vícios que, com certeza, solapam da pessoa a sua inteireza física e mental.

 

P2 - E o período da Universidade, Eurico? Como foi essa escolha pela economia, a chegada no Rio?

 

R - Pois é. Quando eu vim para cá eu tinha o meu tio já estabelecido aqui, médico, morando em Copacabana. E ele foi o primeiro a convidar, assim que eu comecei a chegar naquela idade de definir, pra vir aqui estudar e morar com ele. E assim eu fiz. Claro que com um pouquinho de resistência do meu pai e da minha mãe, que me viam aí, um moleque de 17 anos, querendo enfrentar o Rio de Janeiro. Com certeza havia, da parte deles, um certo receio em me ver guindado ao Rio de Janeiro e estudando aqui. Mas eu acho que valeu um  pouquinho o meu desejo de vir, e que valeu também a acolhida do meu tio, irmão do meu pai, que estudou aqui todo tempo amparado por esse comércio do meu pai e do meu avô. É interessante, né? Porque eles foram ultra gratos a isso. Primeiro o Paulo: “não, porque você vem estudar comigo aqui, porque quando eu precisei o seu pai segurou a barra aí em Cachoeiro junto com o comércio”. Estudante de medicina no Rio de Janeiro não podia trabalhar, né? Então, foi a acolhida que ele deu, a reciprocidade, mas, com certeza, uma amizade que eu mantenho até hoje com ele. Apesar de ser tio eu chamo de Paulo, por ser amigo muito íntimo. Aí vim morar com ele, entendeu? E foi o quê? Uma passagem que eu vim saído de uma escola de..., naquela época era o chamado colégio ginasial, não, perdão, já é o Científico, que hoje é o Ensino Médio. Eu já vim estudar no Rio e na casa dele me preparando para o vestibular. E aí eu tive que fazer uma opção. Eu estava na dúvida se eu faria agronomia, para voltar e atuar no campo, ou se eu faria uma atividade que eu conheci no Rio chamada economia. E aí eu comecei a ficar seduzido pela economia, na medida em que ela me daria perspectiva em qualquer carreira profissional que depois eu viesse a buscar especialização, como eu sei disso hoje, né? Na época, estava começando a economia ainda. Houve, na verdade, um boom, uma grande demanda para o curso de economia. E aí, a primeira barreira que eu tive que enfrentar era um vestibular, porque eu já vinha de um colégio que não tivesse me dado uma base tão forte. Ou preparar-me aqui e poder ter tido a acolhida do meu tio para estudar. E assim aconteceu. Eu vim e me preparei dentro daquele padrão: estudar quase que 24 horas por dia. E assim fiz, desde janeiro até dezembro. E qual não foi a minha surpresa de ter tido vitória no vestibular no primeiro ano, em uma universidade altamente procurada, que era a Federal do Rio de Janeiro. Vindo naquela oportunidade de um processo de esvaziamento do regime militar, tirando o poder dos centros de diretórios acadêmicos que havia nas Universidades Federais. Entrei em 68, assim, bastante cabreiro com aquele montão de camburões, de PMs para vigiar estudantes, para que não pudessem fazer manifestação, ou pró-comunista ou que viessem fazer a bandeira comunista. Que era uma grande piada na época. Mas hoje a gente sabe que é uma piada maior ainda ter tido, infelizmente, uma geração de militares que achassem que havia a ameaça do país se tornar comunista. Se é que fosse essa a essência daquela grande ocupação de 31 de março de 1964. Mas entrei em 1968, quer dizer, aqui em 1968 eu fiquei muito voltado para o cursinho e vi poucos cenários externos do que foi aquela grande barbárie do movimento estudantil que hoje a gente conhece muito bem. Mas em 199 entramos muito cabreiro na Universidade. Mas posso dizer para você que, em função de uma grande revolução do ensino, eu tive ótimos professores. Eles entraram e tiveram que levar a sério o ensino. Não tinha greve, não tinha nada, porque era tudo em cima de um regime de força. E eu acho que - o que era intenção nossa - de fazer uma boa formação acadêmica, eu acho que eu atingi esse objetivo nos quatro anos que passei na Universidade Federal do Rio de Janeiro. E aí, foi um período muito bom, porque o período de estudante é um período assim, muito duro para nós: é pouca grana para tudo, não tem muito o que fazer socialmente. Mas aí você acaba tendo que estudar mais, você tem uma interação boa com os colegas, a gente tinha uma turminha boa de estudo. Era um regime... estava na época muito difícil de você ter algumas incursões externas, você era muito vigiado. Mas eu acho que nada aconteceu que pudesse tirar de mim o desejo de fazer o curso se tornar depois um curso produtivo para mim, naturalmente nos ambientes que eu viesse a conviver. Então foi um período bom. Com todos os percalços que houve ali naqueles anos de exacerbação do regime da ditadura. Mas foi uma coisa boa. Não teve nada que a gente se queixasse.

 

P1 - Quando você saiu de Cachoeiro, qual foi a perspectiva que você tinha da vida no Rio de Janeiro? E o que você encontrou aqui? Qual foi o Rio de Janeiro que você encontrou? Como foi essa chegada no Rio?

 

R - Na verdade, eu vim para o Rio já sabendo o que eu ia encontrar, porque algumas férias eu passava no Rio. Passava aqui uma temporada pequena de 15 dias com o tio, com o outro que já morava aqui. E vamos fazer hoje um balanço real. Rio de Janeiro em 1965, 66, 67, 68 era um paraíso. Uma cidade que não tinha a exposição, que a gente vê hoje, dos mendigos, dos chamados moradores de rua, dos meninos de rua. Era uma outra cidade. Não se via nada assim, pelo menos flagrantes que dessem... Até as favelas, muito menos povoadas do que são. Falar em favela naquela época é a gente remeter à origem, aqui, do que foi o Morro do Santo Cristo, quando vieram os combatentes de Canudos. E a favela porque a vegetação, daí o nome favela, era a vegetação que tinha em Canudos. Aí o Morro da favela era a referência deles, porque eles começaram a ocupar as encostas dos morros. Como isso faz muito tempo, aos pouquinhos essa palavra “favela” foi ganhando o nome, como se fosse a moradia popular. Mas era muito devagar.

 

[pausa]

 

R - O Rio de Janeiro era um Rio de Janeiro muito poético, muito diferente do Rio de Janeiro de hoje. Tenho certeza de que houve um descaso grande das autoridades em investimentos em atividades geradoras de renda; investir um pouco no interior, para que não houvesse tanta sedução de se ocupar áreas urbanas e vir para a cidade grande. E hoje, o que a gente vê é que o descaso nesse planejamento gerou aí esse balanço que a gente faz hoje, de gente morando mal e em péssimas condições. Porque houve, lá atrás, um descaso em relação a organizar a sociedade de uma maneira um pouco mais humana. Acho que o político, de uma maneira geral, ele pensa muito imediatistamente. Ele não faz um trabalho de forma que todos possam ser beneficiados sistemicamente. Ou seja, o governo Juscelino se ocupou em levar uma capital para Brasília. E aquilo foi a bandeira dele. E a partir dali pareciam que as coisas estavam solucionadas, só pelo fato de se construir um capital central, que não estivesse congestionando o Rio de Janeiro, como já estava um pouco. Mas e o restante, né? É só botar uma capital no centro geográfico do país? E como é que você faria? E quantos vieram para cá atrás de trabalho, atrás de mudar de vida. Hoje você tem uma região satélite, na própria capital Brasília, como uma dimensão populacional completamente fora de controle, fora do que foi a previsão de como foi feita a cidade. Por quê? Porque não há um planejamento de forma a fixar o homem do campo. Que você faça com que o verdadeiro cidadão possa amar a sua origem, gostar de ficar nela e alí fazer a sua vida. E eu cito aqui o exemplo, só para ilustrar assim muito rapidamente, da cidade de Petrolina no sertão de Pernambuco, a 700 quilômetros da capital. Petrolina é um trabalho de mais de 30 anos de catequese da população. E sobretudo de investimento para que o povo ficasse lá. E hoje é um pólo de excelência na região nordestina. Por quê? Porque fizeram da irrigação o principal veículo de bem-estar daquela cidade. E se você for a Petrolina, você vai estranhar como é que uma cidade em pleno sertão - claro que uma cidade ribeirinha - pôde ter uma tecnologia tão avançada em matéria de produção de frutas. Hoje é um pólo de excelência. Exporta quase que 85% do que produz. Aí você pergunta: será que não havia outros ideólogos na época, que pudessem pensar como pensaram os ideólogos de Petrolina, de forma que o grande sertão do Brasil fosse hoje todo ele assemelhado a Petrolina? E quiçá todas as cidades do interior do Brasil tivessem pessoas com aquela vocação idealística que fizessem um trabalho voltado para a potencialidade econômica local, ou então gerasse atividades ali... Eu acho que houve um descaso grande aí. E por isso São Paulo está como está, Rio de Janeiro está como está. E as cidades de porte médio-grande estão com dificuldades sociais porque não houve essa visão sistêmica, e pessoas pensando um pouco mais nas suas coletividades do que nos seus interesses pessoas. Enfim, é só um registrozinho que eu quero fazer.

 

P2- A sua vida profissional foi passada no segundo setor, no primeiro setor, em empresas, no governo?

 

R - Ela começou no primeiro setor. Bem, ela começou no segundo setor se você achar que o segundo setor é o setor privado, não é isso? Depois, eu comecei no primeiro setor, tive trabalho no Rio de Janeiro na Ishikawajima, na época que o maior negócio do Rio de Janeiro era o ambiente de construção naval.

 

P2 - Estaleiros

 

R - Estaleiro, né? A essência. Depois eu fui para uma atividade que eu chamaria... Bom, eu estive primeiro mesmo na General Elétric, que foi uma empresa que teve um auge de produtividade na área da linha branca: geladeiras e ferros. Aqui no Rio de Janeiro, era a área de transformadores e a área de lâmpadas. Então, nesse momento, eu estava ali, saí para a Ishikawajima. E em seguida fui para um setor agropastoril, que é o setor da Ipanema Agro Indústria, que é uma empresa do Grupo Gomes de Almeida, que cuidava de cafés aqui na região de Alfenas, onde hoje é o maior pólo de café de boa qualidade do país que é o café Arábica. E hoje onde está o café de excelência, que já foi para o Paraná, depois foi para São Paulo e agora está em Minas, porque as geadas foram destruindo os cafés. E aí está um exemplo claro das mudanças de clima nos últimos 50 anos. O café era no Paraná, depois foi para São Paulo e depois se estabeleceu no Sul de Minas, transformando aquele solo de cerrado, em um solo produtivo para o café. Mas aí, o que aconteceu? Um tio chamou para eu... esse tio, que era o Paulo, meu amigo, mais um outro que era dentista e tinha uma editora de livros odontológicos, me chamaram para São Paulo. Quer dizer, então até aí... quer dizer, eu conto a minha vida até 77, por aí... Então de..., quando me formei de 72 até 77: 5 anos foi literalmente o segundo setor. Aí eu entrei na Dataprev, uma empresa Federal de processamento de dados da previdência, primeiro setor, onde eu fiquei até 98. Então foram 20 anos. Nesse tempo é que eu tive a oportunidade de ter contato com as atividades sociais. Até porque eu era um agente social lá dentro da Dataprev. Foi onde eu conheci o Rodrigo, em 94, quando foi idealizada a primeira linha de atividade, que seria o Comitê para a Democratização da Informática. De que forma a gente conceberia esse modelo, digamos assim, de repassar para comunidades carentes o ensino da informática para comunidades carente? E com que equipamentos? Aí tínhamos que pegar as doações. E houve toda uma convergência naquela época. As empresas doavam seus equipamentos, seus XTs famosos, que era difícil ter gente técnica para fazer a manutenção daquelas máquinas. Aí vieram os primeiros voluntários para fazer manutenção técnica. Tinha um centro de manutenção. E a gente recebia doação de quase tudo. A Dataprev uma vez doou um caminhão de coisas para a gente e a gente, infelizmente, não teve outra saída senão... grande parte já estava tudo depreciado e obsoleto, que não tinha serventia para nós, é vender aquilo a preço de ferro velho. Esse negócio me custou uma ação na empresa que eu fui criticado e fui acusado de estar vendendo bens da empresa e botando no bolso. Aí eu mostrei a nota fiscal dizendo que eu vendi e entreguei o dinheiro lá na mão do Rodrigo, no nosso CDI, onde funcionava lá na Rua Paulo Barreiro, nas instalações de uma ONG(organização não governamental) que dava um suporte para nós. Quer dizer, aí veio: como é que a gente construiria esse grande trabalho de democratização da informática? Como é que a gente daria acesso às comunidades carentes? Daí a importância de um envolvimento dos próprios líderes comunitários. Que eles tendo suas bases, suas instalações, eles pudessem ter as escolas com equipamentos instalados, dentro daquilo que fosse possível instalar. Impressoras, uma impressora associada a cada cinco conjuntos de micros. E ali treinar os multiplicadores daquela própria comunidade para que eles pudessem fazer o trabalho de educação dos primeiros alunos. E ver a concepção disso. A gente se reunia no morrozinho do Viva Rio, aqui debaixo da mangueira, ao ar livre com os voluntários porque não tinha instalação física. Quando tinha uma sala vazia, a gente ia lá para a sala física. Mas não tinha nenhum tipo de impedimento de fazer reunião ao ar livre para traçar essas idéias e ter as pessoas envolvidas, e cada qual sair com a missão. Aí surgiu a missão, a empresa que fosse doar... Me lembro que uma delas, e faço um destaque, que foi uma das primeiras a acreditar, que foi a Ipiranga. Ela doava os equipamentos que ela possuía nos seus upgrades. Doava para nós, tanto os equipamentos quanto componentes. E agente, a partir dali, tinha equipamentos quase bons para jogar nas escolas. Aí tinha que ter lugar para colocar esses equipamentos que eram doados. E aí onde colocar? Aí vieram as parcerias com estabelecimentos que pudessem permitir a gente instalar nesses ambientes físicos. E tivemos aí muitas... A prefeitura ajudou muito, o governo do estado com as suas instalações ajudou muito. Quer dizer, as parcerias foram vindo, em grande parte até em cima do nosso trabalho de catequese dessas parcerias.

 

P2 - só para voltar um pouquinho, você disse que você conheceu o Rodrigo dentro da Dataprev porque você também era um agente social. quer dizer, como foi isso?

 

R - Não. Eu conheci o Rodrigo fora da Dataprev. Eu estando na Dataprev e ele já querendo desenhar o movimento, procurando parcerias. E a Dataprev, que era a empresa que eu representava, era uma parceria forte para o CDI na época, na medida que representava uma força a mais no que fosse, por exemplo, meu tempo. Eu podia dar meu tempo. Eu conseguiria carro para poder transportar esses bens. Quer dizer, era um suporte para o CDI. Não financeiro, mas dava um suporte naquilo que era... Os bens de serviços que a gente conseguisse eram doados para o CDI, que naquela altura já tinha um CNPJ(cadastro nacional de pessoa jurídica), um CGC que era na época chamado. Então, a empresa só doava seus bens para quem estivesse legalmente formante constituído.

 

P2 - Que ano foi isso?

 

R - Isso deve ter sido 1974, 1975.

 

P2 - 1970?

 

P1 - Não, 1990.

 

R -Não, 1974, 1975. Não foi antes disso, não. 

 

P2 - Não, 1994, né?

 

R - Ai meu Deus, 1994. Eu estacionei. 1994, desculpa a minha cabeça falhou aqui. 1994.

 

P2 - Quer dizer, vocês foram procurados por ele?

 

R - Olha bem, o que é que aconteceu? O CDI, às vezes, essa sinergia a gente nem sabe exatamente como. O que é que aconteceu? Houve uma reunião convocada pelo Rodrigo, de pessoas que pudessem estar ajudando nisso. E essa convocação pode ter sido até por um jornal. Me lembro que o caderno de informática do Globo deu um apoio substancialmente forte desde o início. Nós tínhamos uma jornalista, Eliane, me lembro dela, desde o comecinho conosco querendo sempre dar notícias do CDI. Então, talvez tenha sido o primeiro órgão de imprensa que acreditou no movimento e que, para essa ação de cidadania, o caderno de informática do Globo era o nosso principal veículo. Porque ali a gente se fazia presente a técnicos que, naturalmente, se candidatavam como voluntários. E em uma dessas chamadas, quem sabe, tenha ido eu ou um colega meu e a gene acreditava e dizíamos: "Vamos participar disso". E a gente viu que nós tínhamos retaguarda na empresa para dar esse tipo de suporte. Como eu estou falando: concedendo o meio de transporte para fazer os translados, esse tipo de bem que era doado... Quer dizer, aquilo que fosse possível no nosso alcance: a minha dedicação do tempo, com certeza de mais um amigo, não me lembro, na época. Mas a gente estava sempre querendo que o movimento não perecesse, não tivesse morrendo ali no nascedouro. E esse foi o nosso estímulo no início.

 

[pausa]

 

P1 - Eurico, você disse que houve uma reunião e o Rodrigo convocou uma série de pessoas, né? Quem eram essas pessoas do início? Quem eram esses voluntários que estavam lá presentes?

 

R - Olha só. Eram pessoas, me lembro de um deles ligado ao IBGE, não me lembro do nome, mas lembro da imagem, acho que era o Carlos. Tinham pessoas autônomas que tinham interesse em colaborar com o trabalho. Enfim, é difícil saber o perfil assim, não estou me lembrando do perfil exato. Mas são pessoas que tivessem o desejo de ver prosperar aquela ideia. E deve ter dado do seu tempo, do seu talento o que foi a sua intuição devidamente amparada por uma organização. Mas na verdade a gente estava em um grupo grande. E deve haver registro dessas pessoas. É que a gente não era o mesmo grupo sempre. Era o Rodrigo sempre, eu quase sempre, um outro sempre. E no mais, alguns rodízios. Enfim, o trabalho era construído de baixo daquele improviso, né? As missões eram feitas até que começamos ali a ter condições de assentamento primeiramente em uma ONG ali na Glória, cujo nome eu não me lembro. Depois foi para uma outra ONG, ali na Paulo Barreto. A gente sempre ocupando um pedaço daquelas instalações, e recebendo a acolhida desse povo todo. Até quando veio o grande salto para a aquisição do prédio da rua Alice, que já foi ali uma verba pública, ou da Microsoft, que permitiu ter uma sede própria. Mas a gente vivia meio como cigano. Mas as ONGs nos acolheram bem. Tivemos a acolhida do Betinho. O Betinho teve uma força preponderante no começo do trabalho do CDI. Porque ele era divulgador. Ele acreditava naquele movimento. Ele tinha a atividade dele no IBASE, mas ele acreditava que nós pudéssemos fazer o movimento de inclusão digital. O movimento vinha com o CDI. E o Betinho, em diversos depoimentos estava conosco. Tivemos juntos algumas vezes, o Rodrigo, com certeza tinha um trânsito muito grande com ele ali quando era em Botafogo perto do Shopping Praia. Tivemos a oportunidade de ter uma reunião juntos. E ele sempre deu uma força ao CDI. Ele via nisso, de fato, uma grande ferramenta de inclusão social. E essas ONGs eram nossas "cabanas" vamos dizer assim, itinerantes. Até quando veio a sede própria. Mas confesso que eu não me lembro de todas as pessoas, não. Me lembro de algumas pessoas sim, algumas delas de memória. Não me lembro de todas porque talvez não fosse assim, um grupo permanente. Lembro do Ariel, que até chegou a ser vice-presidente do CDI, e ele era um colaborador muito grande que tinha uma loja de venda de artigos de informática no Catete. Enfim, alguns nomes me saltam assim. Mas não me lembro de todos infelizmente. É mais um pouco a imagem de uns ou outros que vieram mais pregados aí. Até quando eu estive envolvido com o movimento. 

 

P1 - Você se lembra quais eram as grandes questões que vocês tinham na época? Quais eram os desafios que vocês tinham, alguns mais recorrentes?

 

R -É. Alguns deles fundamentais. Primeiramente, a campanha de doações, ela tinha que ganhar corpo porque é através das doações que nós conseguimos construir as escolas. Segundo, persuadir as lideranças comunitárias. E elas sempre foram receptivas e desejosas que a gente tivesse esse tipo de proximidade com eles. Porque eles é que, na verdade, queriam que seus meninos, seus garotos, seus estudantes lá no morro da favela estudando informática ao menor custo possível e com o apoio das escolas e dos instrutores que a gente formava. O terceiro ponto era como a gente estabeleceria uma sede para ter os equipamentos e, naturalmente, fazer a manutenção desses equipamentos, fazer permanentes trocas de peças que estavam com defeito por peças boas. E isso era um trabalho que tinha que ser feito por uma equipe de voluntários, né? Até quando houve possibilidade de se fazer contrato com pessoas profissionais para fazer esse tipo de serviço de uma maneira mais permanente. Mas havia três grandes preocupações. Primeiro a campanha de doação. Como ela é até hoje, ela não pode parar. O oxigênio do CDI hoje são as doações. Você pode até conseguir verba e doações para compra equipamentos, mas não creio que seja esse o grande mote não. O mote é doação, porque tem empresas permanentemente fazendo upgrades, fazendo trocas e substituições. E a gente, então, usa esses equipamentos e manda para a área de manutenção, que naturalmente coloca em condições, na configuração necessária para ir para as escolas. E a permanente ligação com as lideranças comunitárias. Porque é onde as escolas acontecem. Então, acho que o CDI adquiriu um ponto tal hoje - pelo que eu tenho acompanhado pelas notícias que eu recebo, e pelos informes permanentes que eu recebo no meu e-mail - um status aí de ONG que já tem uma respeitabilidade muito grande. E já faz praticamente a manutenção. Ela tem o seu corpo de mantenedores e de patrocinadores. E eu acho que isso já trouxe uma maturidade como ONG, como OSCIP, que dá a ela tranquilidade para tocar as suas rotinas, estabelecer planejamento, colocar de uma maneira o mais transparente possível para a sociedade - através das auditorias externas, dando a contrapartida a quem coloca recursos, da maneira mais clara possível - onde é que está esse recurso, onde é que ele foi aplicado. Enfim, eu tenho certeza de que isso já faz parte de uma rotina grande, e que não foi o nosso suador de começo, de tentar botar essa bicicleta em pé com todas as dificuldades. Mas eu acho que não faltaram aí parceiros que nos dessem a acolhida nos seus espaços físicos, pessoas que acreditassem naquele trabalho, acreditassem no movimento e nos resultados que hoje estão aí mais do que consagrados. Enfim, eu acho que tudo convergiu ali. E não descarto de jeito nenhum que Deus tenha estado presente, né, em todo momento para, naturalmente, mostrar qual era a solução, qual era o caminho a seguir quando as coisas pareciam que estavam mais ou menos truncadas, fechadas. As coisas foram acontecendo.

 

P1 - Qual era a sua atuação específica, Eurico? Tinha algo específico ou...

 

R - Não. Eu era voluntário. E voluntário fazia de tudo. O voluntário ia receber a doação, o voluntário levava o transporte para colher a doação, levava para onde tivesse que ser levada. Às vezes o transporte levava os equipamentos para a escola. E eu fazia tudo o que fosse possível, dentro daquelas múltiplas atividades que não tinham definição, que não tinham nenhuma característica peculiar. Era pra fazer tudo. O que era pra fazer a gente fazia. Porque a gente tinha que fazer tudo. Não tinham departamentos, não tinham pessoas com perfis nem competência exclusiva. A gente fazia de tudo o que fosse necessário. Às vezes até acompanhava o jornalista em uma missão para mostrar alguma atividade. Interagia com os próprios representantes das comunidades, com os instrutores, com os mantenedores. Enfim, era um trabalho que eu nem poderia definir e dizer para você exatamente o quê. Mas a gente fazia tudo o que era preciso fazer. E eu acho que o perfil do profissional na empresa hoje é esse: eu vou fazer aquilo que tem que ser feito. Porque não tem que ficar nem qualificando qual a atividade que eu vou exercer ou não, nem começar discriminando uma ou outra porque uma hora qualquer vai estar na minha frente aquele que não discrimina. E eu tenho que estar então com o perfil de fazer o que tiver que ser feito. E acho que esse é hoje o perfil do profissional de qualquer empresa. E o nosso perfil, na época, no CDI, tinha essa característica. Fazer o que tiver que ser feito e não medir consequências. 

 

P2 - Quais eram os tipos de entidades que faziam parceria com o CDI nesse tempo? Quer dizer, de organizações, eram mais de favela ou não, concentradas em alguma região do Rio? quer dizer, tinha alguma característica dessas entidades?

 

R - Não, não tinham. A coisa era extremamente solta, aberta, e o movimento era feito pela imprensa. E você pode imaginar. Vinha de gente de todas as formas, perfis, de empresas com alto grau de tecnologia, de empresas simples, de empresas pequenas. Como aconteceu com a que nós conhecemos no Méier, que no início começou a dar gratuitamente as manutenções dos equipamentos para nós, até onde foi possível ela poder ajudar. Mas ela deu um impulso forte. Pena que eu não me lembro nem da pessoa e nem da empresa para eu poder fazer um grande marketing porque eles acreditaram também no movimento. Então não havia esse perfil. Todos podiam ajudar. Sejam pessoas físicas ou jurídicas. E eu acho que a grande alavancagem do CDI estava em cima das lideranças comunitárias que nós cooptamos e que queríamos que eles montassem as salas de aula nas suas associações de moradores dentro das favelas. Sem essas salas nada aconteceria. E elas eram também importantes para que o movimento acontecesse.

 

P2 - E como foi essa relação? Para estabelecer essa relação foi difícil, não foi?

 

R - Olha só, acredito que até pelo desejo de eles conhecerem o trabalho e quererem ter o trabalho dentro das suas comunidades, dentro das chamadas associações de moradores, a coisa já começava a ser mais fácil. Porque as lideranças quase que nos procuravam e ao mesmo tempo mostravam as facilidades que eram necessárias para que essas salas acontecessem. Então é como se fosse o seguinte: nós estávamos oferecendo um produto, que era a capacitação dos jovens, inclusão social e profissional deles. Quer dizer, então isso já bate em cheio com as lideranças sérias comunitárias. Eles, por sua vez, nos procuravam querendo acoplar os dois interesses. Nós oferecemos equipamentos, oferecemos a capacitação dos instrutores, e eles terem espaço para colocar os alunos, que seriam as próprias pessoas das favelas, os desempregados, aqueles que estavam em uma situação difícil e que queriam fazer da informática um meio também de inserção social, né, de inclusão social. Então, essas facilidades, é difícil a gente estabelecer assim como é que elas se estabelecem, né? Então, você faz a divulgação, o meio de imprensa é próprio para isso. E eles, entre si, também têm os seus elos de comunicação. Existem centros comunitários que congregam esse pessoal. As lideranças de favelas.... alguns nomes que saltam: tem o Itamar aqui do Santa Marta, uma pessoa até hoje envolvida. Eu encontrei com ele outro dia, falei com ele. É uma pessoa que está envolvida. Por quê? Porque o trabalho deles é um trabalho que envolve crianças pequenas da própria comunidade lá na associação dos moradores deles. E todas as favelas tem as suas associações de moradores, tem seus movimentos sociais. E nós estávamos oferecendo o quê? A oportunidade que eles tivessem uma sala onde nós pudéssemos instalar cinco equipamentos e capacitar os instrutores deles. Esse movimento começou a ter entre eles próprios a forma de comunicação que eles possuem, de um conhecer o outro e se integrarem. E, naturalmente, o dar a conhecer é um processo de divulgação que vai para o rádio. Tivemos uma rádio comunitária aqui dentro do complexo da Maré onde foi divulgado o trabalho e, ali, naturalmente foi feito uma escolinha. E ali, as coisas também são desse mesmo perfil. A associação concede uma sala para a gente instalar os equipamentos, vêm o processo de multiplicação dos instrutores, gente da própria comunidade, que por sua vez puxa os alunos. E aí o ciclo começa a ter uma vida própria. E é essa a característica. As escolas serem autosustentáveis, ou seja, da gente não criar ali um vínculo de permanente dependência. Pelo contrário, acredito que o CDI não tenha perdido essa característica de escolas autosustentáveis. A própria comunidade arranja um jeito das escolas serem autosustentáveis. Quando muita gente tinha que manter o permanente trabalho de manutenção dos equipamentos, né? Que é um trabalho que eles não tinham nenhuma obrigação de fazer. Nós é que fazíamos esta retaguarda. E é um trabalho, que você pode imaginar, que para articular isso você precisa de muito voluntário ou então muito dinheiro. Que é gente permanentemente trocando informações, estando presente com o transporte para levar um equipamento, para puxar outro, leva um para conserta, repor outro. Olha só que logística, como a gente pode dizer, que é necessário, e naquele momento com tudo empírico, tudo assim muito improvisado. Então a gente tinha que fazer das tripas coração. Hoje a estrutura eu acho que deve estar super bem montada de forma a garantir tranquilidade em todo esse trabalho e é o que a gente esperava mesmo que algum dia acontecesse. Maturidade empresarial no bom sentido do CDI, né?

 

P1 - Eurico, a dúvida é a seguinte: você poderia desenvolver a relação com essas ONGs que existiam na época. Você disse que elas acolhiam... assim, como que, deu isso daí? Você citou o Betinho, porque é uma época que eu acho, de forte mobilização no Rio de Janeiro nesse sentido, né? Como foi? 

 

R - Isso. Lembrei de uma federação de ONG que ficava em Botafogo, através da qual nós conhecemos o Serenito, que é um nome que salta aqui também porque foi um grande apoiador no começo. E o que é que acontecia? Esses envolvimentos de outras ONGs, talvez fosse até para apoiar de fato. E aí nesse apoio vinha um apoio sempre desinteressado, até onde nós conseguimos entender. E que nos desse um pedacinho da sala deles, um lugarzinho para colocar um escritório. Fizemos a campanha que nos deu o primeiro logotipo, que é aquele que está ali, ó. E esse logotipo foi doação de um voluntário que na campanha do Globo. Queríamos um logotipo do CDI e não tínhamos, né? Hoje eu sei que está mudado. Aquele ali foi uma doação gratuita de um designer que atendeu um chamado desse de convocação pública. Então, o que é que acontecia? Essas pessoas acabaram envolvendo suas ONGs. E é o seguinte, é um movimento que, com certeza quando você fala em movimento social no Rio de Janeiro, você não pode dissociar igrejas, você não pode dissociar ONGs, você não pode dissociar órgãos públicos que atuam diretamente. Então, acaba tendo o seguinte: é uma interligação quase que telepática, quase que automática. É um sistema de comunicação assim, muito pleno, muito em benefício - quando são bem intencionados os movimentos - muito bem direcionados para o objetivo que é o resgate social. Esse troço não tem explicação, não. Eu acho que isso é muito da ação de Deus ou da sensibilidade das pessoas em buscar esse tipo de ajuda. Então, há um apoiamento assim muito concreto em benefício do que é a razão de ser daquelas ONGs. Então, cada qual hoje, acredito, tem um perfil, mas quando trata de atender pessoas carentes todo mundo acaba convergindo: "ah, bota aqui um pedacinho". Usamos durante muito tempo espaço de salas dessas ONGs, por quê? Porque havia interesse de que eles nos apoiassem, parece que um sindicato dos trabalhadores na área de construção civil aqui no Estácio, deu guarida para a gente durante muito tempo, oferecendo o quê? Espaço para a gente funcionar, com ar condicionado direitinho, ter o nosso escritório. E ao mesmo tempo espaço para a manutenção dos equipamentos. Você tem uma gratidão eterna por essa gente. Porque é gente que, de alguma maneira, vestiu a camisa e viu o interesse, viu que tinham pessoas ali imbuídas de boa vontade em relação a resgate social. Esse troço não tem muita explicação, não tem muita palavra não, isso vem junto. Então, quando você se propõe a fazer um trabalho social, vai ter gente ali querendo ajudar, querendo. E a gente vai saber filtrar e, durante o tempo você vai perceber quem é que está a fim de participar construtivamente daquele movimento. Então as coisas vieram assim, né? Você teve pessoas de projeção, pessoas importantes envolvidas aí. ONGs que estão aí até hoje. E o CDI que veio, a princípio, buscando um apoiozinho aqui e ali e na verdade conseguindo maturidade e crescimento, e hoje, uma estrutura suficiente para a sua autocondução aí nos propósitos que o moveram inicialmente. Não sei se eu fui muito evasivo na resposta. Mas a ideia foi tentar deixar para vocês claramente que, esse é um movimento que quando ele nasce, ele pega energia de todas as pontas. E ele vem. E ele vem e hoje atinge esse caráter mundial, internacional, como a gente está vendo que o CDI assumiu. Porque são as forças que estão somando, de pequenos, de médios e grandes, e que dão a expressão que tem hoje, que dão hoje ao CDI. 

 

P2 - Você lembra como era o ensino da informática nesse período? Quer dizer, como era uma aula?

 

R - Olha nossa grande batalha inicial, Lídia, até onde eu acompanhei que é esse lado aí, que é o lado pedagógico, foi conceber uma apostila e conceber uma metodologia de transmissão de informação, principalmente para quem nunca tivesse tido o contato com informática e com o computador. E principalmente crianças, ou adolescentes, vamos colocar assim. Olha bem, isso foi trabalho para gente que veio voluntário com essa finalidade. Como é que pedagogicamente você constrói uma metodologia de transmissão de informação, de contato com o mundo da informática. Acredito que naquela época fosse mais difícil do que hoje. Hoje você tem inúmeros apelos de como fazer uma pessoa a se aproximar de um computador. Eu estou tentando meio catequizar a minha sogra e até hoje eu não consegui. Ela continua ainda com medo disso. Mas um dia ela vai entender que isso é tão simples como datilografar em uma máquina ou, quem sabe fazer uma outra operação que ela sabe fazer tão bem no videocassete dela, no DVD. Então, a informática, ela tende a ter também uma espécie de um progresso pedagógico em virtude de ser uma cultura que está todo mundo assimilando de uma maneira muito mais fácil. A geração dos meus filhos, a minha filha tem 14 anos e hoje entra na frente desse bicho aí e já faz coisas que eu fico até surpreso. Meu filho tem computador em casa, como eu te falei, e também já é o mundo da pesquisa, o mundo do contato com a informática. Aliás, ele optou por uma carreira que associa informática à pesquisa, quando ele passou no curso de microbiologia e imunologia aqui da Federal. É um curso hoje, que laboratório significa ter acesso à informática. Não tem mais laboratório que usa lupazinha e microscópio. Isso já passou. Tudo hoje o ambiente é informatizado. E eu acredito que a pedagogia hoje é uma outra forma de você aprender. Mas existia a equipe de voluntários que concebia o modelo. E aí é aquilo que a gente estruturou. O modelo primeiramente, ele capacita multiplicadores. Que são os instrutores daqueles alunos que vão para as comunidades. E aí começou pelo ambiente Windows, que vocês conhecem muito bem, que é o ambiente que eu acredito que prevaleça no CDI até hoje. E que é hoje, com certeza, o mais usado em ambiente de escritórios da vida e para o dia-a-dia da gente em casa também. Para quem tem computador. Respondeu? Ainda que tangentemente mas a gente conseguiu.

 

P1 - É, talvez continuando essa questão, vocês aplicavam em várias EICs que foram surgindo ao longo do tempo com essa proposta. Tinha alguma preocupação com manter uma fidelidade da doação em relação à proposta do CDI, ou cada EICs aplicava de uma forma diferente? Vocês discutiam esse problema?

 

R – Havia duas ideias juntas aí, até onde eu acompanhei também, Danilo. Primeiro, você tinha um padrão de transmissão de informação e deformação desses multiplicadores. O padrão era único, até pra você manter homogeneidade nas EICs. O que era ação da EIC era manter esse padrão de autosustentabilidade em cima do multiplicador. Quer dizer, isso era o padrão que se passava. Consegue entender assim? Quer dizer, isso era o padrão que se passava. Quer dizer então você não tinha, você respeitava as individualidades dessas comunidades, dessas escolas. Mas o padrão era estabelecido como acredito que seja até hoje. Você tem um padrão para você não perder controle e medir resultados em cima de uma política de permanente e até aumento dessa quantidade de EICs, né? Mas existe um padrão de capacitação de instrutor, como existe também um padrão desse instrutor em relação aos alunos que passavam, vamos dizer assim, pelo padrão CDI de capacitação. Respondeu a sua pergunta? 

 

P2 - As primeiras EICs eram em favela ou não?

 

R - Literalmente em favelas. Em centros comunitários, em associações de moradores, de acordo com o nome. Mas eram lá, nesses movimentos, literalmente onde havia a maior demanda e uma carência de você capacitar pessoas que pudessem já ter condições de estar absorvendo essa cultura. 

 

P1 -E como você sentia, para outras pessoas, para pessoas dessas sociedades, da ideias de levar computador na favela? Como era a receptividade dessas pessoas a essa ideia? Pessoas ligadas ou não ao movimento, ao CDI.

 

R - Olha bem, nós talvez não tenhamos feito uma pesquisa objetiva para isso não. Talvez o feeling, ou a intuição nos levasse a crer que a gente estava.... Ou talvez tenha sido visto com esse propósito. De seriedade naquela missão de fazer com que aquelas pessoas tivessem acesso ao computador. Que era uma coisa muito cara, como naturalmente é caro até hoje, não tanto quanto na época. Que naturalmente, você propiciando àquela comunidade... Olha, eu poucas vezes estive na comunidade levando equipamento, portanto eu não pude perceber. Eu estive lá vendo escolas operando. Aí você vê o brilho nos olhos de quem está diante de uma tecnologia, começando a ter os primeiros passos. E os jornais exploraram muito essas imagens, ou seja, qual é a visão de quem está dentro de uma escolinha pela primeira vez tendo contato com um computador ou aprendendo esse mundo. Para muita gente é mistério. Para muita gente é uma ambição. E a gente estava disponibilizando esse sonho dessa missão daqueles que tivessem desejo de passar pela escola. Muitos, com certeza, talvez não tivessem estrutura para avançar muito, porque requer pelo menos um pouquinho de escolaridade, um nível mínimo. Outros tiveram, com certeza, por talento próprio, condições de avançar mais do que outros. Daí realmente você estabelecer esse paralelo. Para muitos a expectativa foi satisfeita. Para muitos foi um sonhozinho, mas que acabou não indo adiante. Até por que muitas outras atividades levam o sujeito a não ter tempo de ficar em frente ao computador: é trabalhar no dia-a-dia, são as donas de casa, são os trabalhadores da condição pesada, os trabalhadores do comércio que ficam, infelizmente, com o universo restringido em relação ao avanço na informática. Mas, com certeza, todos recebiam muito bem essa missão de ter ali na comunidade uma escolinha para poder possibilitar aos seus filhos, aos membros da comunidade o acesso à informática, o acesso à essa ferramenta altamente hoje propícia à abertura de novos horizontes profissionais. A gente não tem a menor dúvida disso. 

 

P2 - Você é sócio, né? 

 

R - Eu sou um sócio fundador. Eu fui diretor, fui vice-presidente, atuei muito tempo com um cargo no CDI. Mas talvez até devido à minha não possibilidade de dedicação por mais tempo e até a estrutura profissional do CDI já não cabia mais nem muitos voluntários. Aí acabando, eu fui, eu não fui abandonando. Eu fui deixando que as pessoas que tivessem mais tempo, que pudessem fazer uma carreira profissional no CDI, fossem ocupando os cargos e as inúmeras possibilidades de trabalho dentro do CDI. E eu fui só fazendo o meu licenciamento, mas torcendo à distância que o movimento jamais retrocedesse. Então, mais ou menos foi esse o panorama que eu vejo de desligamento ou não desligamento, mas o meu distanciamento das atividades formais e intrínsecas do CDI.

 

P2 - Você participa das assembléias anuais? Tem alguma forma de participação?

 

R - Quando sou convidado, participo, mas não é uma coisa também que eu faça hoje no meu dia-a-dia e nem vejo mais necessidade disso. Acho que a estrutura montada do CDI, de uma estrutura inteiramente profissionalizada, ela é o bastante para ser uma OSCIP em condições de ter atendidas todas as suas necessidades. E mediante projetos ela vai abrir horizonte, mediante parcerias e patrocínio ela vai conseguir estabelecer seus novos patamares e suas novas metas, sem contar com voluntariado. Mas contando com a minha torcida, com a minha presença ou com a minha energia telepática. Mas não tem mais necessidade de estar no CDI, porque até eu vejo que ele está completamente profissionalizado. É o que esperávamos um dia. Quem sabe até a minha missão inicial de dar uma força para o CDI se tornar hoje o que é, tenha sido inteiramente cumprida. Eu fico muito tranqüilo, gosto de ver o Rodrigo nas participações públicas dele. Tenho certeza de que ele está fazendo o melhor para o CDI. Dentro do que foi a sua grande ideologia inicial: de ser, realmente, um fomentador de fontes geradoras de renda através da informática, incluindo socialmente aqueles que não tiveram a possibilidade. Que eu tenho certeza de que isso faz parte hoje de uma política do CDI. E tudo isso para mim é muito tranqüilo e sereno, ou seja, eu tenho certeza de que tudo hoje está correndo muito bem e que não há mais necessidade da minha participação como foi no princípio. Missão comprida literalmente.

 

P1 - Como é que começou a discussão interna sobre profissionalização do CDI? Você participou disso?

 

R - Foi justamente a partir desses movimentos, da gente estar hoje aqui em uma ONG que amanhã cresceu um pouquinho mais, que não dá pra ficar aqui, vamos ter que arranjar outro lugar e vamos para outra. E a gente estava meio como cigano nessa mudança. Saímos debaixo da árvore, fomos lá para um cantinho na Glória, depois fomos para outro cantinho lá em Botafogo, um outro catão ali no Sindicato dos Trabalhadores de Construção Civil. Aí chegou uma hora que gente ganhou vulto, ganhamos expressão, ganhamos credibilidade, ganhamos dinheiro para poder estabelecer uma sede própria. É próprio de quem está acreditando no movimento, persistiu e não deixou ele morrer. Eu acho que o Rodrigo é o grande mentor dessa filosofia de trabalho que naturalmente, por ter sido bem sucedida, para ele deve-se dar todos os louros. E, consequentemente, o trabalho que foi feito de parcerias - a princípio aqui e ali, meio de cigano - resultou um dia na credibilidade de órgãos públicos ou empresas de reputação nacional ou mundial que acreditassem no CDI e dissessem: "toma recursos para você adquirir uma sede própria para você passar a fazer esse trabalho muito melhor estruturado do que você está fazendo de maneira meio cigana". Acho que foi por aí que aconteceu o grande salto do CDI ter se tornado... E eu não acredito que haja, tenha havido, pretensão inicial de ser um órgão internacional, pelo contrário. De ser um órgão que assistisse - e não pode ser perdida essa perspectiva - os carentes, os necessitados que estão aí. Com certeza todo dia. E a cada dia, infelizmente, surgindo mais ainda, porque não vemos o equilíbrio dessas duas pontas. A cada dia que passa aumenta a miséria, os indicadores sociais não dão sossego para a gente. Então, o CDI tem, acho, que um horizonte infinito aí para continuar crescendo e exercendo a sua missão de assistir as pessoas carentes e que necessitam de inclusão social e/ou inclusão digital. E aprendam, com a ferramenta da informática, uma forma de conseguir um trabalho, um emprego. Uma fonte de renda que seja.

 

P1 - E no início, vocês tinham dimensão, ou pelo menos tinham ideia de expandir para outros estados? Como foi essa expansão externa? Como vocês receberam essa demanda dos outros estados?

 

R - Pois é. É fruto da comunicação e poder da imprensa. O caderno de informática do Globo, ele tem penetração nacional. Na medida em que esse trabalho começou a ter, com certeza uma divulgação sólida, uma receptividade grande de empresas, nós noticiávamos o que nós tínhamos conseguido: "Olha, a empresa tal doou tantos equipamentos". O nosso crédito, para as empresas que tinham doado, era esse: aparecer na imprensa que ele doou equipamentos para fortalecer nossa política de socialização da informática. Na medida em que outros estados começaram a ler essas reportagens, e aí pessoas ligadas a movimentos comunitários começaram a querer conhecer o CDI. E não foi muito grande o passo para que pudessem também querer ter nos seus estados uma fonte geradora de renda, como a informática propicia, através do mesmo modelito: doações, equipes de voluntários fazendo a princípio o trabalho de meio campo, o trabalho de interação, o trabalho de fazer o que tem quer ser feito. E as coisas começaram a acontecer. Mas não havia intenção nenhuma: "ah, vou tornar o CDI antes de ele poder ter esse poder de influenciar pessoa, e seduzir pessoas para que atuassem no campo social através da informática". Eu acho que isso aí foi o poder da imprensa que acabou divulgando automaticamente e dando uma expressão, a princípio nacional, e agora, fugindo às fronteiras do país, a uma atividade que, com certeza, tem espaço em qualquer lugar do mundo.  Porque em qualquer lugar do mundo vai ter gente precisando da informática para ter, quem sabe, uma forma de ingressar ao mercado de trabalho, ou uma fonte geradora de renda, independentemente de ser um mercado informal de trabalho. Quer dizer, as coisas foram vindo. Não houve assim preparação nem desejo dele. Acredito que tudo foi um processo de crescimento, de envolvimento dessas forças que foram ampliando seus horizontes, seu desejo de estar participando desse movimento. E, naturalmente, a coisa acabou ganhando essa expressão quase internacional, ou internacional se a gente pode dizer assim, né? Algo mais?

 

P2 - Você quer dizer alguma coisa que nós não perguntamos, alguma coisa que você queria contar?

 

R - Eu tive aqui que fazer um exercício de memória, de coisas que, com certeza, estavam lá adormecidas, esquecendo de nomes, esquecendo de alguma situação. Mas o que eu posso dizer, e faz parte da minha trajetória no Rio de Janeiro. Assim como eu embarquei nessa onda do CDI, assim como eu embarquei em uma onda de crianças que a gente dá suporte lá em Ipanema, embarco na onda da qualidade de uma ONG que eu dirijo que é a União Brasileira da Qualidade, que procura difundir modelos de gestão. Porque isso também tem a ver com a questão a geração de emprego e renda, porque as empresas bem geridas são aquelas que oferecem melhores produtos e serviços, mas são aquelas também que, com certeza, por ampliar a sua margem de vendas acabam também mantendo empregos ou gerando novos empregos. Então, o trabalho social está também na forma com que a gente atua nessa ONG que é a UBQ. Então, o meu estímulo é a todos aqueles que tiverem a oportunidade de dar o seu talento, o seu tempo em benefício da sociedade mais personificada; em um centro comunitário; em grupos de jovens, seja ligado a igrejas quaisquer que sejam -  todos os movimentos são positivos em igrejas -; ligados a movimentos voluntários em ONGs, e não são poucos os ligados à terceira idade, que é um trabalho que eu me identifico muito também;  ou crianças, ou jovens carentes, ou deficientes, ou portadores de necessidades. Todo o trabalho que a gente puder, como ser humano vivo e consciente do seu dever social, puder prestar qualquer tipo de colaboração,  que o faça, na condição de pessoa física, de pessoa jurídica e que, conseqüentemente, isso seja um trabalho que reverbere todo o potencial que nós temos de solidarizarmos com aqueles que estão, infelizmente em dificuldades, ou com menores oportunidades que as nossas. Então, a minha mensagem é bastante geral, completa e deseja atingir o coração de todos aqueles que se sensibilizem com isso. Porque é uma forma de que todos vivam bem amanhã. Como está hoje o desequilíbrio está fazendo todos nós inseguros. Se a gente sair, se a gente solidarizar com que quer que seja, com certeza mais pessoas estarão felizes e amanhã procurando formas mais dignas de vida. E conseqüentemente, todos vivendo bem depois de amanhã. Eu acho que o movimento é esse.

 

P1 - Perfeito. E o que é que você achou de dar esse depoimento?

 

R - Ah, uma oportunidade, como eu diria, eu fui pego de surpresa... Mas para falar desse trabalho social, que foi o CDI, para falar de que pessoas devam se abrir um pouco, devam sair de si para ajudar os outros, é sempre uma coisa gratificante, qualquer oportunidade que vier nesse sentido vai ser sempre bem recebida. Ainda que a gente não possa se desdobrar em mais atividades, em pessoas, que a gente é um só. Mas toda vez que a gente estiver dando um depoimento, a gente vai, com certeza, de alguma maneira atingir um ou outro coração mais rebelde, mais fechado e que vai ver o seguinte: que não vale a pena viver egoísticamente, não vale a pena viver fechado, não vale a pena viver com medo. É apenas abrir-se para que todos possam ter... daqueles que podem e que tem o coração aberto, e que pensam solidariamente em contribuir de alguma maneira com a sociedade. Dá pra fazer isso, qualquer que seja o nível social da pessoa, qualquer que seja o nível em que ela esteja encaixada economicamente, qualquer que seja a sua ideologia, a sua crença, a sua fé. Qualquer pessoa pode sair de si e ajudar os outros naquilo que for necessário, bastando apenas estar presente, se voluntariando para que essa ação seja efetiva. Tudo isso vai ser válido para que todos vivam melhor amanhã, ou depois de amanhã, no máximo. Certo? 

 

P1 - Certo. E só mais uma coisa. O que é que você acha da iniciativa do CDI de resgatar memória?

 

R - É uma coisa interessante porque, assim como a minha está fragmentada hoje, dando depoimento de viva-voz, eu tenho certeza de que se você juntar os cacos daqueles que foram integrante do CDI, você vão montar quase todos os momentos que passaram no CDI. E isso vai ficar como um registro histórico e que vai com certeza, quem sabe, motivar outras pessoas a montarem outras formas de ONG que tenham a mesma destinação de atender as pessoas carentes. Quer dizer, toda forma de memória é válida e a gente às vezes é um pouco relapso em relação à questão da memória. Acho que esse depoimento, a busca de vocês por depoimentos é uma busca bastante saudável, na medida em que vai dar condições. Um museu, eu penso assim, vai reproduzir conjuntos de idéias que surgiram que pessoas com ideologia, com desejo de construir uma sociedade melhor. Toda vez que isso puder ser feito em forma de memória, ali está mais uma justificativa de você perpetuarem esse modelo de conseguir registrar memórias, registrar depoimentos que dêem condições para que a sociedade de dinamize, se recicle e continue contando histórias bem sucedidas de movimentos ideológicos. É isso que a gente acredita.

 

P1 - Obrigado. Nós agradecemos em nome do Museu da Pessoa. 

 

R - Valeu, valeu Danilo. Felicidade para vocês, viu Lídia para você também tá?

 

P1 - Obrigado.

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