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História

O violino me levou à Roma

História de: Juliana Oliveira Junqueira de Aguiar
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/10/2021

Sinopse

Juliana lembra da sua infância na Maré, junto de seus pais, irmã e irmão. Conta como sua casa era repleta de música e dança e, apesar de seu pai ter que trabalhar muito, eles sempre recebiam convidados em casa. Juliana também lembra do começo difícil na escola, do preconceito com seu cabelo. Juliana lembra com satisfação de como foi seu primeiro contato com a arte, através da dança e posteriormente a música, e como isso foi fundamental para sua autoestima, fala sobre as apresentações nacionais e internacionais que realizou com a ‘Orquestra Maré do Amanhã’. Juliana também disserta sobre a alegria e entusiasmo que tem ao atuar como professora de Ensino Musical na sede do projeto e nas escolas públicas da Maré, onde existem orquestras mirins ‘Maré do Amanhã ‘.


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História completa

Eu comecei a crescer, comecei a falar um pouco mais sobre isso, e eu acho que o auge desse meu despertar para negritude foi ali quando eu comecei olhar, eu quero um cabelo desse tipo aqui, quero desse jeito, e comecei a botar trança, minha irmã sempre gostou de botar cabelo, mas ela botava trança também, a gente parecia gêmeos. A minha mãe começou a botar trança também e depois a minha mãe começou a botar cabelo por conta do padrão de beleza, eu nunca gostei disso, então eu falei - Mãe eu quero trança! Meu irmão já nasceu, eu falo até que ele nasceu em um período privilegiado, porque tá ele é negro, ok tem uns problemas ali e tal, mas meu irmão ele já nasceu em uma geração aonde tudo já foi feito. No Brizolão eu era a louca de usar miojinho, era a estranha, só que quando ele foi passar, ele também estudou no Brizolão, passou o Fundamental dele ali na mesma escola que a minha irmã, o meu irmão já pegou uma geração que estava repetindo o que a gente da primeira geração estava fazendo, já era mais normal ver trança, ver black, os meninos usando black, os meninos fazendo corte. Então, meu irmão, acredito que não tenha tido tanto soco na cara quanto eu e minha irmã, até por ser mulher, enfim.

 

eu lembro que eu usava da sala o meu espaço de dança. e eu dançava, e meus pais perceberam que eu gostava muito de dançar, não sei o que, eles dançavam hip-hop também, então foi uma coisa do tipo (pô minha filha está seguindo o mesmo caminho dos pais, e vamos fazer alguma coisa) e aí eles falaram “Ju tem o Museu da Maré que é pertinho assim da nossa casa, tem o Museu da Maré lá tem dança, tem street dance, você poderia fazer. vai ver, vamos lá ver se você se interessa” - e eu gostei muito, eu me apaixonei

 

tinha umas coisas bem legais no Brizolão, né? Eles pegavam muitas equipes, muita gente de fora, projetos, e levava para dentro da escola, o que me fez ter esse contato com a dança e eu fiquei conhecida na escola do nada, eu saí da esquisita para ser a popular porque eu comecei a levar coisas para escola, comecei a ser referência. As pessoas falavam de dança “a Juliana, vai lá Juliana sabe dançar, Juliana sabe disso, Juliana sabe daquilo”. Então eu comecei a ter um pouco de respeito das pessoas.

 

a Orquestra ela chegou na escola e eu lembro até hoje que eu estava no auditório, a gente estava assistindo algum filme, fazia parte da aula, e aí o Carlos Prazeres chegou anunciando o projeto e falando, “olha temos violino e temos”...depois que ele contou toda uma história, ele falou “temos violino e temos violoncelo, quem se interessar, é aparecer em tal lugar, aqui mesmo na escola”. Deu um negócio, um estalo assim, falei “interessante”!

 

A gente fazia aulas na própria escola, chegou a ser uma atividade extracurricular e o projeto começou a ter autonomia, começou a crescer com essa primeira geração, e eu comecei a fazer parte da Orquestra que era um braço ali da escola, e as pessoas já me viam diferentes, eu ainda no Fundamental, já estava na Orquestra, então as pessoas já começaram...aí o bullying começou a parar, o preconceito, as pessoas queriam imitar meu cabelo, queriam saber quem fazia, questão de roupa também. Aí começou a ter um olhar diferente, 

 

e a nossa primeira apresentação foi no Palácio de Cristal, uma coisa já grande, em 01 mês a gente aprendeu a tocar uma música e ele foi lá visitar, eu acho que ali já foi a porta de possibilidade, “ó o que você pode fazer com esse instrumento”, e na época eu não tinha nenhuma consciência disso, nenhuma, só estava ali porque os amiguinhos estavam, porque eu me sentia bem, falava “cara toca um violino não sei o que”, 

 

Então a gente saía, conhecia outras culturas, a gente passeou, a Orquestra começou a crescer, então a gente começou a conhecer outros estados, a gente começou a conhecer teatros, a gente começou a tocar nesses espaços a Orquestra da Maré tocando em um Teatro Municipal e ter uma fila de gente para assistir a gente. Isso foi muito bonito!

 

A gente nunca botou na nossa cabeça que a gente ia viajar para fora. Viajar para São Paulo já era uma coisa muito grande. Então ir para Roma, para o Papa a gente se dedicou muito, muito, mas muito, muito, muito para essa apresentação para o Papa, escolhemos músicas que a gente viu que ia encaixar, infelizmente o Papa não ouviu nossa apresentação toda, mas a gente ficou assim, poxa demos o nosso suor aqui, mas não foi só para ele que a gente foi tocar, a gente também tocou em um evento onde as crianças tinham acabado de perder seus pais em um desastre natural, essa coisa de furacão, desabamento, essas coisinhas assim, e a gente ficou mais mexido ainda porque não era só o Papa, era para as crianças também que tinham perdido seus pais, todo mundo ali órfão. Vocês estão entendendo o tamanho do negócio! E as crianças também, nossa nunca fui tão amada.

 

Eu sinto que a música está me curando, ela está tirando mágoas, eu tenho escutado música de verdade, tenho escutado muita música instrumental, o que que é a música, tenho feito essa pergunta pra mim, e eu realmente falo que cura, é surreal isso cura de verdade. O caminho está começando a aparecer e eu sigo isso, eu só vou fazer o caminho com caminhar, eu só vou fazer o caminho se eu caminhar, preciso caminhar e as coisas estão começando a aparecer, aí vem a religião que do nada também, espiritualidade bateu na porta, eu carrego uma coisa com a religião bem forte, a partir desse momento também tenho visto a natureza de forma diferente, tenho sentido amor, está tudo junto e o que está me transformando é ter aprendido em dar aula também

 

O concerto com a Anitta foi na virada do ano de 2017, 

Na hora de começar a gente nervoso, só que quando a música começou a gente começou a relaxar, começou a dançar enquanto toca porque foi uma experiência incrível, eu realmente me senti artista, eu falei - cara, eu estou aqui, olha o que que eu estou fazendo, olha o meu trabalho, olha a quantidade de gente aqui, e não foi só para ver ela. Quando falou “Orquestra Maré do Amanhã com a Anitta”,  a galera mandava mensagem no Twitter, de todos os lados, eu senti que as pessoas não estavam olhando só para a Anitta, mas estavam olhando para a Orquestra da Maré. Isso é muito grande, é uma coisa que se eu botar no meu currículo absolve. Vem, vamos trabalhar!


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