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História

O último português da Confeitaria Colombo

História de: José Pereira Correia Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2003

Sinopse

Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, José Pereira Correia Lopes nos conta sobre a sua migração de Portugal para o Brasil. Saído de Minho, região de Viana do Castelo, fala com saudosismo sobre sua terra e a dura a decisão de vir tentar a vida no Brasil. Nos conta sobre a chegada ao Rio de Janeiro e seu primeiro emprego, na centenária Confeitaria Colombo, como atendente de balcão, onde trabalha há mais de 45 anos. O último português da casa fala com detalhes sobre as curiosíssimas histórias e transformações da famosa confeitaria que resiste desde 1894, cujo fundador, Manuel Lebrão, é criador do lema: "O freguês tem sempre razão."

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História completa

 

P1 – Boa tarde, seu Pereira.

 

R – Boa tarde.

 

P1 – Gostaria então de começar a entrevista pedindo que o senhor nos forneça o seu nome completo, o local e a data de nascimento, por favor.

 

R – Eu sou José Pereira Correia Lopes, nasci em Viana do Castelo, uma cidade que fica ao norte de Portugal e que se chama Minho, por isso eu sou um minhoto nato de Portugal.

 

P1 – E a data de nascimento?

 

R – A data, eu nasci em 03/06/1939.

 

P1 – Sobre seus pais, nome completo e a profissão deles.

 

R – Antônio Luiz Correia Lopes e Glória da Conceição Pereira, meu pai era agricultor, minha mãe ajudava nos trabalhos de agricultura, mas fazia o serviço do lar também.

 

P1 – Avós, o senhor conheceu os avós, nome, qual era a profissão deles.

 

R – Bom, alguns avós paternos, por parte do pai só o avô, era Sebastião Luiz Pereira e a mãe da minha mãe, quer dizer, ao inverso, chamava-se dona Aninha, era o nome famoso dela, Aninha era Ana, né, mas o sobrenome eu nem sei, dona Aninha, famosa lá no local onde a gente nasceu.

 

P1 – Conhece um pouco a origem da sua família, uma família que tá nessa região de Portugal há gerações, você conhece um pouquinho sobre isso?

 

R – Minha família ela não tinha assim, os anos passados, famosa, era família humilde, né, família que eles sempre foram agricultores, então as pessoas falam muito bem, era uma família que tinha o nome a zelar, né, por honestidade, mas que não tinha assim muito bens materiais, eram pessoas simples e eu realmente só vim a conhecer as pessoas mais antigas foi mesmo só meus avós.

 

P1 – E irmãos, você tem irmãos?

 

R – Eu tenho irmãos, somos sete irmãos, somos três homens e cinco mulheres, um está aqui no Brasil e o restante tá tudo lá em Portugal.

 

P1 – Então me conta um pouquinho quais são as memórias de infância da sua cidade?

 

R – Bom, em Viana do Castelo a gente primeiro tinha que ir a escola, né, e depois da escola a gente ia brincar e sempre ia para uma pracinha, né, e ali se juntava com os colegas e ali era a nossa higiene mental, aquela diversão, aquela pracinha, o jogo de bola, né, bater uma bolinha era o principal, jogar uma sueca também já fazia parte e as vezes comer a merenda também, porque a gente saía da escola, chegava em casa, pegava a merenda e saía comendo pela rua, era assim que a gente vivia a nossa infância, né, e se distraía até às oito, nove horas da noite ficava ali botando a nossa conversa em dia, mas era muito gostoso aquele bate papo com aqueles amigos de infância, até hoje a gente se recorda disso porque dá muita saudades, viu, era muito gostoso mesmo.

 

P1- Mas quer dizer, pra gente tentar entender, a sua família era uma família de agricultores, vocês plantavam era pra consumo, se vendia essa produção e se plantava o que?

 

R – Sim, a gente plantava o milho, talvez pra consumo lá, mas batatas, cebolas, hortaliças, enfim, tomate, tudo que era, e o feijão, mas o básico mesmo, o forte era o milho, porque o milho era pra você, aliás, vender e para o seu sustento e o feijão também, o feijão você vendia, o feijão você fazia as várias utilidades, você fazia a sopa, fazia um feijão com arroz, um feijão ensopado, tinha várias utilidades, mas o milho você fazia o pão, a broa de milho que eram feitos em fornos grandes, né, fornos assim que eram esquentados à lenha e você cozinha o pão uma vez por semana, quer dizer, tinha que dá pra sete dias, tinha várias broas de milho e para o dia que fazia o pão, né, você fazia uns bolos mais festivos pra você combinar, tomar um vinho e etc. O outro não, o outro era mesmo pro alimento durante a semana, mas isso era o básico de um lavrador, de um agricultor era isso. Aí então o milho além de você depois ter aquela palha, né, que se chama, aquela palha guardava-se nos seleiros pra depois alimentar os animais durante o inverno, porque ali os animais não tem como ir pastar no campo, aliás, havia enchentes etc., aí então eles ficavam todos presos, aí tinha utilidade, o milho era pra consumo nosso e para vender e a palha era para o animal depois se alimentar, o feijão também era muito isso, os outros produtos era mais para consumo próprio, a hortaliça, a couve troncha que é uma coisa que aqui no Brasil eu nunca vi, uma couve troncha que e fantástica.

 

P1 – O quê que é isso, couve troncha?

 

R – Couve troncha é uma couve assim muito mais macia, mais fina, ela completa muito bem um cozido, né, o famoso cozido à portuguesa, né, então a couve troncha completa muito bem, então tudo isso você plantava e colhia.

 

P1 – Mas, por exemplo, as crianças precisavam também trabalhar na lavoura?

 

R – Bom, as crianças elas tinham aquela obrigação de ajudar os pais após vir da escola, porque tem que ir às vezes dos animais, a cuidar dos irmãozinhos porque as famílias eram numerosas, né, os pais iam para o campo e às vezes o irmãozinho mais velho tinha que cuidar dos irmãozinhos menores, mas propriamente na lavoura não. Mas ficar tomando conta de uma ovelha, tomar conta de uma vaca ou de um boi, a criança assim, não quero dizer uma criança de uns seis, dezessete anos mas pra nove anos na Aldeia já ia à luta também.

 

P1 – Mas o senhor, num grupo de irmãos, aonde o senhor tá, é o caçula, é o mais velho, como é que é?

 

R – Eu já sou em sexto, eu sou o sexto.

 

P1 – O caçula?

 

R – Sétimo é uma menina, aí ela encerrou.

 

P1 – E sobre os animais, que animais vocês tinham em casa?

 

R – A gente tinha o animal vaca ou boi e filhotes, os bois e as vacas ela tinha atividade, primeiro puxar o arado pra você virar a terra porque não era mecanizada, era tudo na base braçal e o boi é que era o sacrificado, tanto ele levava o carro, chamava-se carro de bois, tanto carregava o adubo, vamos falar mais certo, o estrume pra você levar para o campo e dali no campo você espalhar porque senão no campo não dava o fruto, né, e ia. O boi tem essa utilidade do trabalho, ele trabalhava e depois também tinha a engorda, quando ele ficava bem gordo você vendia ele e comprava um bem mais magro pro lugar daquele e a vaca, essa dava a criação, dava o leite e dava o bezerrinho pra você também fazer, criar o bezerrinho e vender, assim que você vivia na agricultura e além disso também você vendia o leite. Então dava pro alimento de casa como pra você vender, tudo isso pra você arranjar dinheiro, para você poder comprar o bacalhau, o arroz, que a gente não plantava arroz, o macarrão, as roupas, né, era isso que você vendia e tinha também galinhas, né, galinhas era de muita utilidade tanto para, elas põe os ovos, né, como se diz, põe os ovos e você vendia os ovos e tinha o porco também e o porco também tinha muita utilidade, o porco e a fêmea, porque aí as fêmeas dava os bacorinhos e o porco você ensebava, ensebava era a palavra certa, você engordava, depois quando ele tinha dez, quinze arrobas, né, assim uns 150 quilos você matava e salgava aí ele servia de alimento pra você durante uns três, quatro, ou cinco meses. Depois você fazia a mesma coisa com o outro, porque a carne animal você não tinha acesso, acesso só em dias festivos porque era cara, a carne animal era cara, você não tinha o dinheiro pra comprar a carne animal, então você tinha a carne do suíno ou do cabrito, todos esses animais ou do cordeiro etc., que era mais fácil de você criar e depois matar para o seu sustento.

 

P2 – O senhor falou aí algumas vezes sobre dias festivos e tal que era diferente, que prato típico ou que comida assim especial o senhor lembra que era especial que havia nesses dias festivos.

 

P1 – E quais eram os dias festivos, o quê que era importante de se comemorar na sua cidade?

 

R – Sem dúvida nenhuma o dia mais festivo era a páscoa, a páscoa é uma solenidade mais festiva, o natal era mais familiar, mas a páscoa além de ser a data mais importante da igreja, né, que é a ressurreição de Cristo, a morte e a ressurreição. Então depois ela combina no domingo de páscoa tipo uma procissão do padre e seus acompanhantes, aqui eles chamam de compasso, e eles vão nas casas, visitam todas as casas que querem e vão visitar, levam a cruz de Cristo pra beijar e ali é servido um banquete a todas pessoas que vão, um banquete de doces, enfim, outros preferem mais um chouriço, um presunto etc. Então a páscoa é muito festiva e naturalmente nesse dia sempre você tem um frango à molho pardo, um cabrito estufado, o cozido, eles comem muito, né, três, quatro pratos e por incrível que pareça que aqui ninguém dá valor a orelha do porco, a cabeça do porco ela é desmembrada em quatro partes e nessas quatros partes tem o focinho, né, e a orelha, então aquilo era muito gostoso aquela parte, então ela é salgada e ela é para a páscoa, para o carnaval, nós chamamos de entrulhos, lá no nosso lugar o carnaval, era assim também para o dia de Reis e assim mais ou menos outro dia que você achasse que merecia comer uma orelha como ela é famosa lá e havia um prato muito tradicional lá em Portugal que vocês conhecem aqui que é o cozido, que é o frango à molho pardo etc. Mas o mais tradicional que hoje é Viana do Castelo e Ponte do Lima, Ponte de Lima é uma vila muito importante ligada a Viana do Castelo fica distante vinte quilômetros, mas se você falar em Ponte de Lima hoje os turistas só lembram, os turistas portugueses só lembram “Ah, tem o sarrabulho”, muito bem, é aonde se come o melhor sarrabulho em Portugal é em Ponte de Lima e em Viana do Castelo também, porque aquela região se adapta, então sarrabulho o que que é? É os miúdos do porco, quando você mata o porco você aproveita o sangue do porco, quando você mata o porco você mata com faca mesmo e quando ele jorra o sangue tem uma pessoa com um alguidá, uma bacia e enchendo o sangue, o sangue jorrando na mão da pessoa, é manual é só pra ele não tear.

 

P1- Ah, que interessante, então você...

 

R – Girando na hora, o porco jorrando sangue e você com aquele sangue você vai fazer o famoso sarragulho, porque o sarragulho você aproveita as carnes frescas do dia do porco, você tirar aquelas febras do porco e depois dá pra você fazer as linguiças, linguiças de sangue com cebola, outras com carne, então isso chama-se sarrabulho, é carne de porco variadas, costelas, pé de porco, carnes frescas e o arroz, aí então chama arroz de sarragulho, fica escuro, igual você come um frango a molho pardo só que ele, o sangue é do porco, então isso é uma comida festiva e tradicional lá da nossa região de Portugal, lá de Viana do Castelo e Ponte de Lima. Existe também uma _____ mais fina, uma coisa que só tem acesso ao rico, chama-se lampreia, lampreia você também pode fazer um arroz a molho pardo, né, ela também, só que essa lampreia é um peixe de água doce que ela não tem espinha, não tem osso, ela não tem nada, ela só tem umas guelrrazinhas na boca e você caça eles, isso os pescadores mais simples, né, que existem redes que cercam o rio, botam no rio, o Rio Lima que vai da Ponte do Castelo que nasce na Espanha, mas ela atravessa essas cidades, e então você bota umas redes e você cerca a lampreia, mas aqueles que não tem esse recurso eles botam um ramo de louro com paralelepípedo agarrado e a lampreia, o louro, chama loureiro, né, ele atrai a lampreia, a lampreia vai e gruda naquele paralelepípedo e fica ali e você vai com o seu barco ou com o seu barquinho, né, que aqui chamam de caiaque e você vai e aí com uma fisga aí você fisga a lampreia. Você traz a lampreia, ela, trás até o paralelepípedo da garralha, ela tem uma aderência muito grande, ela tem nos lados, né, aí você chega ali bota dois pauzinhos de louro e aonde a fisga entrou você vai e coloca aqueles pauzinhos pra estancar o sangue, e você vai à cidade, você vende, eles colocam em tanques pra você vê, isso também é uma comida muito apreciada e rica lá da nossa localidade lá da Viana do Castelo.

 

P1 – E o senhor falou de carnaval, como é um festejo de carnaval na sua lembrança de infância?

 

R – Olha, nosso carnaval lá, as pessoas da minha terra devem saber o que eu to falando, o entrulho, as pessoas se vestiam da roupa pior que tivessem, né, aquelas roupas que você usava uma vez até pra varrer o forno, assim, você pegava um pedaço de pano e eu disse pra você, o forno ele era aquecido com lenha, com carvão e você tinha que limpar o forno pra jogar ______ e aquilo às vezes vinha bem feia e as pessoas se vestiam com aquilo e saíam por ali fazendo as suas papagaiadas e você não sabia quem era porque tava com a cara coberta e etc., mas eles comemoravam e isso era só no nosso pedaço, comemoravam jogando o cântaro, o panelo não sei como era dedicado, o cântaro é uma moringa mais grande de barro que lá não existia água encanada, você tinha que ir ao poço ou a fonte e trazia água pra casa nesses cântaros, esses cântaros eles são feitos assim um violãozinho, né, que aqui eles chamam, tem um nome assim que eu conheço mais ou menos, eu sei que ele é de barro, uma vasilha e você então ali, eles jogam a bacia numa distância de cinco ou dez metros e começa a jogar um pro outro e vai cruzando pras pessoas.

 

P1 – O pote de barro?

 

R – O pote de barro, aí a diversão é deixar cair, aí quebra e se diverte assim, às vezes vai na cabeça da pessoa, né, que a pessoa não cerca bem e eles se divertem assim, claro que nas cidades já tem o baile de carnaval depois, né, às terças feiras o baile festivo de carnaval e aquela zona, lá pra Lisboa é certa, já se especializou no carnaval é igual aqui, né, com escolas, com esse carros alegóricos e etc.

 

P1 – Mas na tua infância a tua brincadeira era essa?

 

R – Era jogar o panelo, o barro, o cântaro de água, o cântaro de barro que é o nome certo.

 

P1 – Qual é a distância da sua cidade pra Lisboa, onde é que tá em Portugal a tua cidade, localizando?

 

R – Eu estou no norte de Portugal, Viana do Castelo dá uma distancia de trinta quilômetros ao Porto, dá uns trezentos e cinquenta quilômetros a Lisboa, Lisboa fica no centro do país pro lado onde chama-se norte e pro outro lado é o sul onde tem Algarve, né, o Alentejo essas cidades assim.

 

P1 – Mas, por exemplo, nas suas memórias de infância na sua cidade Viana do Castelo, qual era o número de habitantes, era grande, como é que era a cidade?

 

R – A cidade, os habitantes, eram poucos os habitantes, não tinham muitos não, primeiro que inclusive não havia automóveis, havia poucos, você podia jogar bola na estrada, no meio da rua, né, mas ali eram poucas pessoas, não eram poucas pessoas, era uma cidade tinha a sua Câmara Municipal, tinha Governador Civil daquela cidade, tinha a estação de ferro, tinha os comboios, lá chama comboios, né, a estação, as caminhonetes que faziam trajetória assim pra Ponte de Lima ou pro Porto etc., mas era uma cidade que as pessoas conheciam quase todas, você sabia quem era quem, né, você dava “Boa tarde, bom dia e etc.,” então você conhecia os comerciantes todos, né, então a cidade era assim, uma cidade familiar, né, como a gente pode chamar.

 

P2 – E tinha muito comércio lá?

 

R – O comércio sim, bastante, mas eu acho que apesar dessas mercearias como eu falei que eu trabalhei, o café e as confeitarias eram os lugares assim mais requintados, eu acho que se destacava mais eram os cafés, o café era uma casa, né, aonde depois do almoço era aquele charme você ir tomar um café, você não tomava café em casa e nem no restaurante, você ia tomar o café no café, que você normalmente tinha uma hora ou duas de descanso e o café só servia café e às vezes uma taça de vinho, algo mais, mas o chique dele era o café, você ficava ali lendo o seu jornal, no seu recreio, na hora do seu almoço e então acho o que se destacava mais no comércio lá eram os cafés.

 

P2 – E como eram esses cafés, o senhor lembra, como eles eram fisicamente, eram...

 

R – Sim, eram salões igual o que eu posso dizer assim, você entrar num salão da confeitaria Colombo, é um salão mais ou menos parecido enquanto menor e todos eles tinham um subsolo que era por causa do frio, no verão todo mundo vinha pra fora, tinha o andar piso normal e no inverno iam pro subsolo, porque naquela época não havia, é porque é cimento, né, era na base da temperatura ambiente e no subsolo era, a temperatura era ótima você se sentia bem mais agasalhado, né. Então era um salão normal, não era um balcãozinho, um café em pé não, não existia café em pé, era tudo sentado, também você não ficava rico, né, porque ali, as pessoas ali elas eram chiques, da nobreza era ir ao café e o pessoal da cidade todos iam ao café “Vamos ao café” e vai ao café e ficava lá, tomavam café e ficava assistindo, naquela época já existia televisão no meu tempo, né, e ficava ali lendo jornal e passando seu tempo, que era uma higiene mental.

 

P1 – Mas quer dizer, a sua moradia era quão distante da cidade, por exemplo, vocês moravam na cidade?

 

R – Não, a gente morava distante mais ou menos três quilômetros da cidade, aí tinha que pegar uma condução pra cidade.

 

P1 – E você, por exemplo, você frequentou escola?

 

R – Frequentei escola.

 

P1 – E aonde era, era na cidade, era no vilarejo, aonde era?

 

R – Na minha freguesia, né, a gente chamava de freguesia.

 

P1 – Conta um pouco da escola, lembra do nome?

 

R – A escola era interessante, eu acho que nem nome tinha na época, aquela escola nem nome tinha, agora a escola aonde, tinha o professor e a professora, né, a professora dava aula às meninas e o professor aos meninos, sendo que o professor, que eu fiz a quarta classe, né, o primeiro grau que a gente pode dizer, primeiro, segundo, terceiro e quarta, né, o professor dava aula às quatro classes, não era pra primeira classe, primeira classe quando a pessoa vai chegar lá com sete anos, né, começou aprender o abc, não, ele dava à todas as classes, era tudo junto e cada matéria ele dava em separado, uns iam ao quadro negro, você vê como a nossa, a coisa era bem difícil. A história de Portugal a gente não aprendeu por livro comprado numa livraria não, a gente aprendeu ele escrevendo no quadro negro e a gente copiando pra uns cadernos e ali naturalmente ele escrevia o básico, né, talvez da história de Portugal, o descobrimento, os reis aquela história toda, né. E a gente aprendia então e eles escrevia e depois estudava por ali, era assim que se fazia que eu acho que havia dificuldade de adquirir o material escolar ou eu não sei porque, “Você tem que comprar esse livro tal” a gente compraria, mas talvez pra economizar tinha famílias talvez mais carentes então ele dava pra todos, ele escrevia, a gente copiava e depois estudava por ali, porque tinha muita coisa pra aprender, né, tinha as linhas férreas, a linha férrea que era trazido com o boi, que é o trem, né, “Ela sai de Lisboa, de local tal, passa em Viana do Castelo passa por tal e tal”, você tinha que decorar aquilo tudo, né, e os rios também eram importantes “O rio nasce na serra de São _____, na Espanha, passa por Porto da Marca, Porto de Lima e vai pra Viana do Castelo” e era os doze rios mais importantes, que o maior é o Rio Tejo em Lisboa que é até navegável, né, até ali dá pra embarcações grandes, mas tinha que decorar aquilo tudo e tudo aquilo era a base, era tudo escrito no quadro negro, que ele escrevia gente, fazia os nossos cadernos e depois é claro era assim, e pras outras classes ele dava o abc, enfim, ele se virava e a gente ia a exame e a gente era aprovado e tirava até distinção, aqui não existe isso, né, distinção você é reprovado ou aprovado e a distinção é quando você realmente é o melhor aluno da turma.

 

P1 – Por um acaso se falava de Brasil naquela época?

 

R – Brasil, sempre se falou de Brasil porque tinha um pessoal “Ah, fulano está no Brasil”, aqueles que a gente nem conhecia, né, e o Brasil era muito famoso pelo padrão de vida porque as pessoas vinham aqui, Portugal era muito pobre e as pessoas vinham para o Brasil e quando chegavam lá sempre com uma roupa limpa, né, roupas muito bonitas porque aqui no Brasil sempre teve, se veste muito bem e levavam dinheiro, as vezes adquiriam bens até quando ________, então atrás daquilo vinha outro e vinha outro, era uma imigração enorme e atrás disso que eu vim para o Brasil também.

 

P1 – Mas quer dizer, você lembra do Brasil ser um assunto na sua casa, tinha alguém da família que tinha imigrado já?

 

R – É, o Brasil já, o meu irmão veio primeiro que eu, veio em 1952 e tinha tios que estavam também aqui no Brasil e as pessoas sabiam quem estava no Brasil estava em situação boa, né, então sempre era um assunto “O Brasil tá feito”, então sempre havia comentários e agora futebol quando o Brasil foi campeão em 58 eu ainda tava lá, eu vim em setembro, o Brasil foi campeão em 1958, aí foi uma festa só.

 

P1 – Como é que foi, lembra um pouco.

 

R – Lembra um pouco que a gente tava se divertindo lá na pracinha e chega um bando de rapazes que estavam escutando o jogo, né, que não era televisionado, aí vieram com aquela alegria toda “Brasil foi campeão”, aquilo foi uma festividade danada, porque Portugal gosta muito do Brasil, né, porque aqui ainda existe uma rivalidade, mas lá os portugueses torce muito pelo esporte brasileiro, é corredor de automobilismo, tudo é o Brasil em primeiro lugar e então foi uma alegria muito grande o Brasil ter sido campeão do mundo.

 

P1 – E televisão, você lembra quando você viu televisão pela primeira vez?

 

R – Olha, fui vê lá na cidade, né, e acredito que foi por volta de 56 por aí.

 

P1- Você lembra o que você via lá?

 

R – Uma vez eu vi um jogo do Vasco da Gama e do Porto, mas eu vi um programa humorístico, né, e assim é um programa assim das pessoas cantando e etc., mas a gente não se ligava muito porque, mesmo que a imagem era muito fraca, né, era cheia de chuvisco, né, e a imagem não dava muito pra, que nós não tínhamos televisão em casa, né, então a gente não tem muito lembrança da televisão, sei que era importante a televisão porque lá liderava, senão me engano a bateria, a televisão, então eu não lembro muito assim da televisão, sei que existia, as pessoas iam pro café pra vê a televisão, não era o meu caso que não tinha poder aquisitivo pra ir pros cafés.

 

P1 – Agora em termos de juventude, o senhor veio pro Brasil com quantos anos?

 

R – Dezoito pra dezenove anos.

 

P1 – Pois é, como era um pouco essa juventude de dezesseis, dezessete anos numa cidade como a do senhor?

 

R – É, ali é o que a gente além do trabalho se divertia todas as tardes e depois você ia procurar a ir à uma festinha que tinha festas regionais e o principal divertimento era dançar o arrasta pé, né, naquelas...

 

P1 – Dançar o que, seu Pereira?

 

R – A gente não sabia nem dançar, mas arrastava o pé, né, por exemplo, assim, o vira, né, em Portugal dança muito o vira, grupo folclórico, a gente dançava aquelas musiquinhas, aquelas bem, eram muito rápidas, né, então a gente dançava o que podia, bolero a gente não sabia dançar, bolero, né, a gente não sabia dançar.

 

P1 – E assim, era música ao vivo ou era...

 

R – Era ao vivo, era concertina, concertina era uma sanfona, quando era acordeão e acompanhamentos já era uma coisa mais chique, né, mas assim, essas festas, essas danças era a base de concertina, sanfona, era uma coisa muito mais simples, era uma coisa caseira, local, né, aí quando era assim um acordeão aí vinha às vezes acompanhado com violão etc., já era uma coisa mais fina, a gente tinha que pagar, tinha que fazer uma vaquinha pra pagar a música.

 

P2 – De quanto em quanto tempo acontecia essas festas, esses bailes?

 

R – Sabe os bailes, essas dançazinhas normalmente todos os sábados, não, todo o domingo, porque sábado não era dia de descanso não, sábado a gente trabalhava, né, o agricultor ou o comércio trabalhava, ainda não havia a semana inglesa, dia de domingo que acontecia isso e numa dessas por exemplo, numa venda, uma venda não é um café, uma venda é o local onde você vende vinho, cerveja, você vende uma cerveja muito raro porque, havia refrigerante também, mas o vinho que era o forte da localidade, você então ia à venda tinha as pessoas jogando sueca, o baralho e os outros. Então tinha concertina e se divertiam dançando e o dono da venda, uma venda além de vender o vinho vendia cereal também, podia vender um arroz, um açúcar, um café aí então ele fazia, contratava a concertina que era pra dá movimento a sua venda, então quase todo sábado ou quase todo domingo, você ia se divertir dançando o que você sabia, né, e as moças e os rapazes...

 

P1 – Era um momento de encontro.

 

R – Um momento de encontro, mas a missa em primeiro lugar.

 

P1 – Fala um pouco dessa influência, você teve uma educação religiosa, você teve na sua casa?

 

R – Sim, educação religiosa, lá nos nossos lado só existia a religião católica e então a católica você sabe tem que tirar a catequese, você tem que fazer a comunhão, você tem que ir às missas todos os domingos e às vezes tem que tirar o terço à tarde, isso aí que é o pior, que as vezes você tinha que ir ao terço, rezar o teço e estava o baile acontecendo aí você tinha que acabar o terço e você ia correndo para o baile, né, porque o terço era de tarde.

 

P1 – Você lia o terço todo?

 

R – O padre, era na igreja, é porque de manhã era a missa, antigamente não existia missa à tarde não, era tudo de manhã, depois isso veio depois, de manhã era a missa então você era obrigado a ir a missa, se não fosse a missa era pecado e depois o terço era às 3 horas, o padre ia rezar o terço e as pessoas quase todo mundo ia ao terço, não digo todo mundo, mas aqueles mais religiosos, mais ferrenhos, né, aí depois dali você saía do terço aí você ia se divertir.

 

P1 – Mas a sua família era uma família muito religiosa?

 

R – Religiosa sim, não digo, praticante sim, porque quando fossem chamados eles estavam lá, né, mas não quero dizer que eles saíssem por ali fazendo peregrinações não, iam a missa, a missa às vezes todos os domingos, mês que eram festivos em homenagens, mês de Maria, mês de maio, aí tem uma pregação especial a pessoa ia, mês de junho que o mês de junho é do Coração de Jesus, mês de março é o mês de São José, aí as pessoas iam aquela novena, iam assistir a missa então isso aí é o que a gente aprendeu na nossa infância e que procurou manter, né?

 

P1 – Mas o senhor falou de vinho, a sua área é uma área produtora de vinho, vocês produziam naquela região ou na sua casa, vocês tinham vinhedo por exemplo.

 

R – Tinha, era também um dos pontos tanto vinheiro como olival.

 

P1 – O que?

 

R – Oliveiras.

 

P1 – Oliveiras, olival.

 

R – É, que davam o azeite aí tudo isso faz parte de um lavrador, chama-se lavrador, um agricultor que é composto, por isso que a gente falou da produção de milho etc., também o vinho e o vinho faz parte do alimento da pessoa, porque a pessoa lá não bebia água, podia beber raramente, é o pessoal dizia que água era muito boa pra tomar banho o resto.

 

P1 – Aí aproveitava pra beber o vinho, né?

 

R – Então a pessoa, aquele lavrador que tivesse um padrãozinho melhor ele tinha vinho pra beber o ano todo e tinha o azeite também, por isso vivia assim, né, então tinha o vinhal, tinha uns que deram, mas tinha uns lá, lá se chama não é fazenda é a quinta, né, quinta é uma bonita casa, composta de vários campos e nos campos assim  tem essa plantação de vinho, de vinhal, videiras, né, hoje tá mais modernizado, hoje o sistema é diferente, antigamente era ramada, latada, né, toda a base de ferro, né, e os ferros fazia uns arcos muito bonitos, era vaidade até fazer uma vinha bonita e por ali as vinhas davam seus ramos, suas flores e os seus cachos de uva, mas dessa vez era até para depois vender o vinho que eles também gastavam muito, porque você tinha que cuidar, sulfatar, era sulfato, né, para poder matar o micróbio, né, que dava na uva.

 

P1 – Sulfatar?

 

R – Sulfatar, então aí esses vinhos aproveitava para vender porque eles investiam no vinho, aliás, ainda hoje em Portugal é o que dá mais dinheiro ao agricultor ainda é o vinho.

 

P1 – Havia uma diferença assim de educação entre os homens e as mulheres na sua casa?

 

R – Sempre naquela época havia assim, veja só, os homens na minha casa, talvez nas outras casas também, os homens tinham obrigação, aqueles que não podiam de concluir o primário e as mulheres se soubessem ler e escrever primeiro, segundo já estava bom já, não tinha continuidade, já não ia mais a escola, já ficava então pra ajudar em casa pra varrer uma, né, varrer a casa, lavar uma louça etc., Então elas já não tinha aquela obrigação de saber tanto como o homem e porque tinha depois do primeiro grau vinha admissão que eles chamavam, admissão ao Liceu e depois do Liceu vinha o estudo já superior, né, mas isso na minha localidade poucos eram aqueles que tinham continuação no estudo, né, tinha o primário e por ali ficavam.

 

P1 – E seus pais, por exemplo, eram alfabetizados?

 

R – É, o meu pai sim era bem alfabetizado também a minha mãe só sabia ler e escrever e só, não, ler e escrever muito mal, tinha muito poucas claridades.

 

P2 – O senhor falou aí voltando um pouco, né, os bailes no caso eles eram aos domingos porque ainda não tinha a semana inglesa, o que que é isso semana inglesa, o que é exatamente isso?

 

R – Olha, semana inglesa eu aprendi aqui, é só trabalhar cinco dias, né, e o sábado você descansa também, né, então é isso que nós chamamos semana inglesa, né, que trabalhava os cinco dias e os sábados hoje também ninguém trabalha até o próprio operário.

 

P1 – Em Portugal?

 

R – Sim, o operário antigamente trabalhava aos sábados, né, e hoje não trabalha mais aos sábados, os sábados já é dia de descanso, então é mais ou menos isso.

 

P1 – Então vamos contar um pouquinho agora a vinda pro Brasil, como é que foi, por que que veio, que ano veio, quais eram as suas expectativas?

 

R – A vinda para o Brasil se deu precisamente pela fama que o Brasil tinha de bom para se ganhar dinheiro e depois lá em Portugal havia nessa época que eu estava lá estavam as guerrilhas em nossas colônias Angola e Moçambique e nós quase todo mundo éramos obrigados a servir o exército, lá chamávamos de tropa, ir pra tropa, né, e quando nós íamos pra tropa lá as mães choravam muito, era porque achavam que ia sofrer na tropa então era um desespero danado as famílias quando a pessoa ia pra tropa.

 

P1 – Era obrigatório?

 

R – E era obrigatório, ali não tinha, a não ser que a pessoa tivesse feito física, senão, ainda mais nessa época das guerrilhas quando estava a guerra em Angola e Moçambique em dois anos de serviço militar tinha que servir quatro e você fazia a recruta em Portugal e depois ia pras colônias, você ia lá brigar com os negros, ia lá batalhar, e você não sabe se voltava, aí então você ia perder um tempo, aí como eu tinha um irmão aqui no Brasil eu escrevi, pedi se aceitava mandar uma carta de chamada, ele tinha que ser responsável por mim, pra isso era carta de chamada, só com aquela carta de chamada passado pro Consulado é que eu podia dá andamento as documentação que a gente veio tudo documentado, inclusive com a licença militar lá. O comando militar teve que dá o comando pra eu sair do país, paguei uma taxa e só assim, então eu corri antes dos dezenove anos, senão depois já não tinha como ausentar, tinha que servir o serviço militar, então se deu mais realmente a perspectiva do Brasil ser um grande país que a gente tem uma vida muito boa e ao menos as pessoas de daqui pra lá iam muito bem, até às vezes lá um automóvel e também eu ter que fugir do exército, a palavra certa é: eu fugi do exército, é por isso que eu vim aqui para o Brasil, mas também tinha alguém me aguardando, tinha o meu irmão aqui me aguardando aonde me deu toda assistência, nunca teve problema assim comigo, sempre me sustentaram até eu trabalhar, né, e nunca teve problema nenhum.

 

P1 – Mas você teve algum irmão, por exemplo, que foi pra essas, Angola/Moçambique?

 

R - Não, não tinha, porque meu irmão era mais velho e naquela época se você tivesse, eles eram mais velhos do que eu, naquele tempo não havia a guerrilha, né, havia o serviço militar normal, você passava dois anos e você é uma inspeção, né, pra ser examinado e naquela época se você tivesse um bom pedido, né, você tivesse por exemplo às vezes uma pessoa famosa que tivesse acesso a junta examinadora aí eles livravam do exército, aí meu irmão, meus irmãos fizeram esse pedido, meu pai tem um certo prestígio lá na, com essas pessoas, era o nosso médico da família, né, aí ele...

 

(Pausa)

 

P1 – Então seu Pereira, voltando um pouco o processo de imigração o que consistia essa carta de chamada?

 

R – A carta de chamada era uma pessoa que tinha que se responsabilizar pela gente, então era retirado no Consulado e mandava para a gente lá em Portugal e depois com aquela carta de chamada a gente começava a tratar da documentação, né, várias coisas precisava pra você precisar imigrar, era você se sindicalizar.

 

P1 – De que profissão?

 

R – Comerciário, era profissão que você já tinha trabalhado no comércio, então você era obrigado a ser comerciário e você, foi com esse documento que eu consegui dá começo aos meus documentos pra começar a imigrar.

 

P1 – Mas você já havia trabalhado em Portugal?

 

R – Trabalhei como aprendiz, né, numa mercearia e depois num café, mas aprendiz lá não registrado, né, não era sindicalizado, não tinha documentação, ainda estava, inclusive não se ganhava. A gente vivia em troca do aprendizado, que ali era pra você aprender pra você depois sair pra sua vida você ia ser um balconista profissional, aí então ali você trabalhava o aprendizado em troca, você não tinha vencimentos.

 

P1 – Mas então qual foi o primeiro café que o senhor trabalhou, qual foi e qual era o nome o senhor lembra?

 

R – Café Girassol.

 

P1 – Como é que era?

 

R – Ele tinha esse nome de Café Girassol porque ele ficava num jardim, em Viana do Castelo tem um jardim muito bonito à margem do Rio Lima, né, e perto do mar e ele então era redondo e as cadeiras ficava em volta no verão, ficava muito bonita, então ali depois da mercearia fui pro Café Girassol e ali fiquei trabalhando mais ou menos um ano na parte de copa, eu atendia os garçons, né, sendo que ia dá o café pra eles, torradas e etc., assim era o meu trabalho.

 

P1 – O que te moveu a esse trabalho, como é que você foi trabalhar, porque era um trabalho que você queria aprender?

 

R – Sim, porque você saindo da agricultura e ir para o comércio você era um rei, você era um status, você se sentia mais gente, mas enfim superior, era isso que me levou a entrar no comércio.

 

P2 – Era uma ambição geral do pessoal conseguir trabalhar no comércio pra fazer imigração?

 

R – Exatamente, o comércio você é, você sentia, é que é uma profissão muito bonita, você, parece que não, mas é uma profissão muito bonita, é muito importante você atender o público e você andar bonito, andar arrumadinho, né, eu acho muito importante isso aí, esse nosso comércio.

 

P2 – Tem um certo fascínio, né, um certo ______.

 

R – Sim, é respeitado, lá em Portugal era assim e aqui no Brasil também era, os tempos hoje mudaram um pouquinho, mas continua sendo.

 

P1 – E assim, bom, então vamos voltando ao Brasil, então você consegue, você faz essa carteira de sindicalizado do comércio, né, e você embarca quando, que dia, de que forma você veio?

 

R – Olha, eu pra embarcar pra cá levei talvez nove meses depois que a carta, é, do sindicato, depois do sindicato começou, teve que ir a uma junta médica, esse foi o último, a junta médica, a junta militar pra me dá licença pra me ausentar do país, né, e outros processos através da nossa, e os documentos vão pra Lisboa pra junta de migração também, né, que eles também tem que ter autorização dos nossos portugueses pra poder nos autorizar a nos ausentar do país, então é um processo que leva tempo e então depois a gente adquiri a passagem...

 

P1 – Qual é o valor de passagem, por exemplo, o teu irmão ajudou a pagar, o teu pai que pode pagar?

 

R – É, a passagem meu pai me comprou a passagem, depois a gente chega aqui, a gente ganha um dinheirinho e paga, né, mas às vezes o pai não tem nem o dinheiro, faz até um empréstimo pra poder pagar, porque uma passagem para o Brasil naquela época era 5.500 escudos, 5.500 escudos, você comprava um campo de plantação, era muito dinheiro porque não havia dinheiro em Portugal, porque um operário podia ganhar 20 escudos por dia se ganhasse assim, um bom operário, né, um bom pedreiro, um bom carpinteiro naquela época, né, então era muito dinheiro às vezes você não tinha aquele dinheiro, você tinha um animal, às vezes você tinha que vender animal pra fazer dinheiro, um animal por 1000 escudos, outro vendia uns quilos de milho, enfim, pra você fazer o dinheiro, então tudo isso depois você adquiriu a passagem e depois do ok que a gente passou na inspeção médica, né, aí marcou o dia do embarque isso se deu no navio Ana C da companhia italiana a 14 de setembro de 1958.

 

P1- Como era o nome do navio?

 

R – Ana C, é daquela companhia que tem o Eugênio C, Frederico C etc., então era o Ana C que era um navio que, acho que esses navios eram mistos antigamente, traziam cargas e passageiros ao mesmo tempo.

 

P1 – Então conta como é que foi essa viagem, você embarcou aonde?

 

R – Eu embarquei em Lisboa no Cais da Rocha.

 

P1 – O que você trouxe com você de bagagem?

 

R – Olha, bagagem a gente traz, primeiro a gente traz algumas roupas, né, traz umas roupas, dinheiro muito pouco e sempre traz um enxoval, né, assim, a nível de cama não, de cama é daqui, mas roupas de vestir, assim roupas intimas sempre traz uns dois ternos, antigamente usava muito terno, né, e enfim traz as roupas e trazia algumas encomendas pra matar a saudades que aqui estavam, por exemplo, umas garrafas de vinho, uns salpicões, uns presuntos, né, como eu falei do porco, a gente matava aquele porco aquela saudade que eles tinham da infância deles também, né, do porco, então são essas coisas que a gente traz, traz umas coisas bem simplezinha.

 

P1 – E como é que foi a viagem?

 

R – A viagem cheia de, a gente já chora em Viana do Castelo, né, e em Lisboa o embarque é muito triste porque tem muita gente ali que vai se despedir em Lisboa, né, no caso meu eu já me despedi em Viana do Castelo e a gente sai, normalmente foge das pessoas pra não se despedir, né, tem essa covardia ainda por cima, eu por um acaso me despedi da família e minha mãe passou muito mal, segundo depois por carta eu soube, e em Lisboa depois que o navio começa a se afastar do cais aqueles lenços brancos, aquelas pessoas chorando muito e depois é encarar, é a esperança de você reencontrar as outras pessoas aqui no Brasil aí traz aquela alegria também, aquela perspectiva de você ver um irmão que você não vê há muito tempo, ver tios etc., por aí afora, a viagem em si ela é uma viagem, como não é uma viagem de férias é uma viagem, você não vem muito alegre não, mas você acaba se divertindo também que no navio tem muitas diversões, você enjoa bastante no início, uns três ou quatro dias você enjoa bastante, a gente parou na Ilha da Madeira mas não saltamos, não saltamos por que? Porque você não está de férias e você tem, pra ir na Ilha da Madeira você tem que ter, né, você tem que tá bem disposto, bem alegre, tem que ir de barca, tem que ir ver alguns lugares, você tem que ter dinheiro também, né, então a gente ficou no navio mesmo que ali não tinha como se perder, dali não saía, aí ficou ali mesmo, dali só salta pro Rio de Janeiro e assim foi, depois a gente passou, teve uma festinha no Equador, na linha do Equador, né, tem dois mares, uma festinha, as pessoas se pintaram muito, né, igual aos caras pintadas daqui e fizeram uma festinha, uma dançazinha também no navio também tinha essas dançazinhas, tinha piscina.

 

P1 – A maior parte dos passageiros eram o que, eram imigrantes também?

 

R – Ah, sim, quase tudo eram imigrantes e uns já estavam, tinham ido visitar os seus países de origem e já estavam de volta, né, aqueles que estavam de volta que visitam seus países de origem estavam numa boa agora aqueles que estavam pela primeira vez eram mais sofridos, né, mas vinha bastante gente e realmente era uma viagem boa.

 

P1 – Comida do navio era brasileira, era portuguesa, era o quê?

 

R – Não, a comida era mais a nível italiana, né, o vinho era italiano, o vinho sempre na mesa, né, mas a comida italiana também não era típica porque eles sabem que tem várias raças ali, então tinha a comida de tudo, tinha a batata frita, a carne, o peixe, muito peixe, salada, era assim, mais ou menos assim.

 

P2 – Você fez essa viagem sozinho ou alguém lá do vilarejo, da vila veio com o senhor também?

 

R – Veio um colega meu, primo de segundo grau também, vinha que tinha o pai aqui então nós começamos juntos a tratar da documentação e viemos juntos, embarcamos juntos, então não era uma solidão total, tinha com quem conversar alguma coisa.

 

P1- Você chega que dia no Rio, qual foi a sua primeira impressão?

 

R – Eu cheguei 24 de setembro de 1958 e tava me aguardando além do meu irmão outras pessoas que também eram da minha terra, né, e realmente foi uma festividade muito grande, né, uma alegria, me assustei com o Rio de Janeiro, com o tamanho dela, saí de uma cidade pequena e uma cidade dessas foi interessante até que nós fomos no Leblon, fomos andar no Leblon e depois fomos pra Santa Teresa, nós morávamos em Santa Teresa, o meu irmão morava lá, tinha quarto.

 

P1 – Qual o nome do seu irmão?

 

R – Abilio Pereira Lopes, aí então o Abilio já tinha a cama preparada, o outro também tinha com o pai dele, eles moravam juntos, era umas duas salas grandes, mais ou menos um salão que tinha, cada um tinha a sua cama, cada um tinha o seu banheiro e era muito bem situado, Santa Teresa era um bairro nobre da época, né, aquela casa era de um tio que eu tinha aí, e cada um então ficava na sua cama, agora tinha um coisa também que cada um fazia a comida, um dia na semana cada um fazia a comida, cozinhava com álcool, uma lata de, fazia uma comida só, não era várias comidas não, se era arroz com carne era arroz com carne, se era macarrão com carne, se era sopa era sopa, se era batatas com bacalhau, não tinha variedade de comida, era...

 

P1 – Passava a semana comendo a mesma comida.

 

R – Um dia um fazia uma coisa, era um cardápio, né, eram seis ou sete pessoas, cada um cozinha num dia, então já se programava, então era um lata de goiabada vazia, aquelas latas de goiabada, tinha uns pregos pra fazer o suporte, você enchia de álcool botava ali a panela e jogava o álcool ali, fervia e cozinhava-se ali, não tinha fogão, não tinha nada, então um dia na semana um fazia o jantar, no almoço cada um se virava, almoçava no restaurante ou só lanche ou nas casas etc. Então era assim a vida do imigrante.

 

P1 – Que rua você foi morar?

 

R – Fui morar na Rua Terezina, número 14, ali na, ficava assim depois do Largo Guimarães, na Rua Paula Matos ali em Santa Teresa, morava na época também em frente a gente chamava-se Alberto da Gama Malcher, também juiz de futebol, também morava ali.

 

P1 – Como era o nome?

 

R – Alberto da Gama Malcher, era um juiz famoso na época.

 

P1 – Mas o senhor falou uma coisa interessante, era uma casa de um tio, quer dizer, o tio já era proprietário no Brasil.

 

R – Já era proprietário, esse tio era construtor e esse tio tinha essa casa lá, então ele alugava para nós as pessoas da terra, né, naturalmente um preço mais barato e sabia que a gente cuidava, não estragava, né, então a gente nunca ficou com dificuldades de moradia.

 

P1 – Como era um pouquinho o bairro de Santa Teresa quando você chegou, o que que tinha de lojinha, de comércio em 1958, né?

 

R – Santa Teresa era um bairro assim mais residencial, que era as famílias mais ricas moravam em Santa Teresa, né, até hoje mora a família Monteiro de Carvalho e outras famílias como a família Loi Jorge e etc. e então ali era um bairro residencial e tinha casas muito boas e comércio era pequeno, era um armazenzinho, era um barzinho, não tinha praticamente restaurantes, né, era só o prazer de morar em Santa Teresa por causa do clima, né, um clima fresco, um clima saudável e ele era perto do centro da cidade, era só pegar o bonde e já estava aqui e tinha depois, era perto também do Silvestre, né, tinha ali no Largo do Guimarães, eles vinham os bondes, um vai pra São Silvestre, outro vai pra Neves etc. ali, então Silvestre era um recanto lindo, ali você tem uma estação que você vai ao Corcovado, antigamente o bondinho do Cosme Velho parava ali no Silvestre. Hoje não pára, querem voltar a ter essa estação ali, mas hoje não pára mais ali, então o bairro de Santa Teresa era um bairro assim residencial, cheio de casarões não havia perigo assim de cair os prédios, depois houve uma época que começou a desvalorizar porque caía um prédio ali, um prédio acolá se criou parece um favela lá ou qualquer coisa aí depreciou muito os imóveis ali, mas era chique morar em Santa Teresa na época, você tava na montanha praticamente e já estava no centro da cidade.

 

P1 – Mas você poderia me citar, por exemplo, alguma loja de lá, um nome de loja que você lembre tradicional.

 

R – Lá em Santa Teresa mesmo tinha no Largo Guimarães tinha uma mercearia, mercearia que vendia assim só mesmo gêneros alimentícios, né, mas a casa em si acho que ela não existe mais, então era Mercearia Mauá, eu não sei bem o nome certo, eu me lembro, tinha um bar também que a gente ia sempre tomar café da manhã ali no bar também, propriamente não tinha assim um nome famoso não, não tinha assim, porque aquele restaurante famoso que tem na Rua Plasil acho que na época não existia não, na Rua Plasil em Santa Teresa, então não tinha assim que eu me lembro restaurante ou mercearia famosa.

 

P1 – Mas quer dizer, você como morador do bairro de Santa Teresa quando você precisava comprar bens, comida, por exemplo, roupa, o bairro não tinha isso.

 

R – Não tinha, isso aí tinha que ser aqui na cidade mesmo.

 

P2 – Nos primeiros dias do senhor aqui no Brasil, chega aqui, fica ali em Santa Teresa, o que o senhor mais sentiu falta assim de casa, aquela coisa assim de bater a saudade?

 

R – Ah, sim, bateu muita saudade sim, bateu, e sentia muita falta daquele convívio onde a gente nasceu, né, aqueles costumes, aquelas dançazinhas que a gente se encontrava nos bailes, aquela reuniãozinha de ir à missa e ficar batendo papinho, enfim, aquilo bateu muita saudade e aqui a gente se sentiu numa cidade grande, então sem perspectiva de voltar tão cedo, né. Então foram momentos difíceis, mas sempre a gente com esperança de um dia regressar de vez a terra, a gente ganhar um dinheirinho, melhorar de vida e depois voltar a morar em Portugal, isso não aconteceu.

 

P2 – O senhor manteve amizade, manteve contato com aquele seu amigo que...

 

R – Não, aquele meu amigo depois ele foi trabalhar na mesma casa que eu, mas ele acabou imigrando pra França, aí foi trabalhar na França, ele deixou o Brasil e foi pra França, naquela época acolhia os nossos portugueses todos, a mão de obra portuguesa era muito bem remunerada, né, lá, então ele daqui foi pra França, escrevia alguma vez por carta, depois nunca mais teve contato com ele.

 

P2 – E qual foi assim, né, a coisa que mais chamou atenção assim com relação à diferença de costumes, o que era comum em Portugal aí o senhor chegou aqui e viu que as pessoas não respeitavam e outras coisas que as pessoas respeitavam muito aqui e em Portugal não era muito comum, qual foi assim...

 

R – Não, eu me sentia aqui, me sentia assim mais à vontade, mais à vontade porque a população, as pessoas tanto como um nível superior, um nível médio, como um nível inferior elas são mais amáveis, elas te dão mais atenção, aí você tem mais acesso às pessoas, mesmo as pessoas ricas, as pessoas de fama aqui você tem mais acesso. Você convivia com elas porque eu depois de dois meses fui ter esse convívio e lá em Portugal há uma separação muito grande, a nobreza, a burguesia predominava muito, você não tinha acesso a certos lugares que aquilo havia uma separação muito grande, primeiro que a pessoa era de uma família mais rica, uma família mais nobre e lá quem tivesse dinheiro se julgava superior a quem não tinha, então eu achei que aqui eu me senti melhor, achei fantástico isso, o convívio das pessoas, a amizade, a delicadeza que as pessoas tem aqui um com os outros, o tratamento, a facilidade que você tem em adquirir as coisas, o jeitinho brasileiro, né, e lá acho que as pessoas são mais fechadas, mais carrancudas, inclusive o tratamento às vezes mais, não sei se é por ignorância ou se é os costumes, né, já é assim mais bravinhos um pouco, mais estourados, então me senti bem aqui, os costumes acho que foi pra melhor.

 

P1 – E a língua, o que você chegou falando em português, que no começo foi uma coisa divertida que aconteceu, você não entendia o português da gente.

 

R – A língua consegui falar algumas bobagens sim, a língua...

 

P1 – Qual, conta aí pra gente?

 

R – Não podia falar rapariga, lá era comum e aqui era uma coisa feia, né, a moça se sentia ofendida, né, era mais ou menos assim e lá, rapariga, mesmo as nossas irmãs: “O rapariga, traz isso pra cá”, já era normal, rapariga e rapaz, lá também se falava rapaz: “Ó isso e tal” e muitas coisas, por exemplo, existia a lotação na época, lotação não se pode dizer que seja hoje essas vans, um micro ônibus, né, porque existia as linhas de ônibus e existia as lotações. Aí eu em vez de dizer lotação é lutador, o calabouço chamava de calhabouço, calhabouço era aqui no Flamengo “Vamos pra praia do calhabouço”, não era calhabouço era calabouço, guiloa dizia guiloua então eu falei muita bobagem aqui, as pessoas, os costumes, né, e depois a gente foi aprendendo, se educando um pouquinho, né, a gente vem de um lugar simples pra um meio maior depois a gente vai aprendendo também, né, aí melhorou um pouquinho.

 

P1- Então vamos falar da vida profissional, tá, o Abilio, seu irmão, trabalhava aonde?

 

R – O Abilio ele trabalhava numa fábrica de doces na Rua Santana, trabalhava lá, tanto produzia como vendia, então ele trabalhava lá, mas ele até teve oferta do patrão dele se eu queria ir pra lá, mas ele achou que não era um lugar muito bom, que era um lugar assim de poucas perspectivas aí conseguiu em outro lugar pra mim.

 

P1 – Qual foi o seu primeiro emprego no Rio de Janeiro?

 

R – O primeiro emprego meu e único foi Confeitaria Colombo, na Rua Gonçalves Dias, número 32, to lá há 45 anos.

 

P1 – Então conta como foi o convite pra ir trabalhar lá na Colombo?

 

R – Aí tinha esse meu tio que era proprietário desse imóvel que a gente morava, ele tinha conhecimento com um dos proprietários da Colombo, através, vinha uma amizade através das filhas, filhas de colégio, filhas que frequentavam o Clube Ginásio Portuguesa, então se conheciam, aí então ele pediu essa vaga pra mim e pra outro meu parente que viajou comigo, aí conseguiu fácil, entramos lá 3 de novembro, aí conseguimos entrar na Confeitaria Colombo, não era através de currículo, não existia isso, era através de pedido, você chegava: “Tem uma vaga pro meu filho ou uma vaga pro meu parente ou uma vaga pra um primo meu?” Aí eles sempre davam aquele jeitinho “Bota em tal lugar”, conforme a prova que a gente fizer, a gente fazia uma provazinha, assim por exemplo, a prova era: eles escreviam o nosso nome etc. e atrás eles faziam uma prova de multiplicar aonde colocavam um zero ali um zero pra pegar a gente, né, existe um zero embaixo que a gente não multiplica, né, a gente passa a frente, pula, né, e ali as pessoas que não tiverem essa malandragem a gente não consegue fazer essa conta de multiplicar, essa operação, aí eu já sabia daquela, eu fiz com muita facilidade. O meu colega de viagem que era meu parente esse não conseguiu fazer, aí por isso eu fui trabalhar em balcão e ele foi trabalhar mais em setores assim de copa e de bar que não precisava ter tantas escolaridades.

 

P1 – Agora o nome do dono da Colombo nessa época?

 

R – Olha o nome, sabe que era uma firma Ltda., mas tinha sempre três sócios que ficavam mais aqui na Confeitaria Colombo que era, se chamava Elói Jorge que era já assim um senhor beirando seus oitenta anos, tinha Manuel José Antônio Veloso, Manuel Antônio de Souza Veloso esse que me empregou, esse era um senhor já novo e tinha José Tavares Jorge, José Tavares Jorge era outro sócio, né, então eles eram os três que comandavam a casa, né?

 

P1 - Eles eram de onde de Portugal, você sabe?

 

R – Olha, um era de Braga, esse que me empregou, senhor Veloso, o seu Jorge esse era de Viseu e o senhor Tavares era de Vale de Cambra, Vale de Cambra é uma cidade que tem muitos laticínios etc. tem um bom queijo lá, não é só o queijo da Serra da Estrela que é bom não, lá também os queijos do Vale de Cambra também é muito bom. Eram pessoas que dirigiam a casa e certamente na filial tinha outros patrões e na seção industrial onde se produzia geleias, mocotó etc. também tem outros patrões, mas lá na Gonçalves Dias eram esses os principais.

 

P1 – Então me conta o seu primeiro dia de trabalho, quando você viu aquela Colombo o que você sentiu, você tinha dimensão da coisa, da importância no contexto da cidade?

 

R – Olha, o primeiro dia de trabalho a gente fica na retaguarda, né, a gente fica praticando, aprendendo e a gente ficou vendo e aprendendo os produtos porque a gente não conhecia os produtos daqui, você sabe que a Colombo ela não era só restaurantes, nem só balcão de doces e salgados, ela era também armazém, um armazém, um supermercado, na época a Colombo era o supermercado da época, a gente tinha uma estrutura para poder atender as famílias de toda a cidade do Rio de Janeiro, tínhamos carregadores, tínhamos caminhões só para entregar, as pessoas só telefonavam pra lá e diziam as quantidades, tínhamos listas próprias pra isso e o interessante que pagavam por mês, não pagavam, era uma facilidade, havia muita honestidade, né, então através do telefone eles resolviam tudo, não precisavam nem ir lá, e eu trabalhava na retaguarda atendendo, eu era uma das muitas pessoas que faziam isso, despachar essas notas pra encaminhar pra sua casa ou pra casa daquele senhor, daquele senhor, aí então iam caixões e era um caixão verde, era uma cor registrada, né, da Colombo, tanto o caminhão era verde como os caixões você sabia que era da Colombo e tinha uns baús também de folhas, de lata, de zinco, né, também pra levar outros produtos, produtos como bolos e etc. Então ali é que comecei, comecei aprender e ajudar e dali foi realmente meio difícil que a gente vê aquilo “Não vou aprender isso nunca, é tanta coisa”.

 

P1 – O que tinha de produto, por exemplo, seu Pereira?

 

R – Olha, o que você vê num supermercado assim hoje lá tinha, né, lá tinha, começava pela batata, arroz, feijão, café, uma enorme quantidade de marcas, petit-pois, ervilhas, aprendi até falar petit-pois, né, aspargos, pontas de aspargos, não sei o que, enlatados assim em conservas, sardinhas, azeites, enorme variedade de azeites, tinha até além dos portugueses, tinha italianos, franceses, era vinhos, era tudo importando, até marron-glacé tinha, vinho do Porto, marron-glacé vinha da França, então era muito difícil você aprender aquilo tudo, você aprende, você ficava apavorado, mas foi se levando em frente, né, até depois ali da prática feita você veio pro balcão, fui ser uma balconista atendente.

 

P1 – Então tenta descrever pra mim a Colombo de 1958 fisicamente, a gente olhando de frente hoje, a Gonçalves Dias a gente olhando, é numero 32, hoje ela é maior, né?

 

R – Não, porque o 32 é a referência, 32 à 36, 32, 34, 36, no 32...

 

P1 – Conta igual que era quando você chegou?

 

R – Houve alteração no 32, no 34, 36 não houve alteração porque não se poderia mexer porque ela é tombada pelo patrimônio histórico, mas o 32 sim, aí o 32 era onde efetuava o armazém o que eu chamo de supermercado e ela tinha uma ligação com Sete de Setembro, quer dizer, ali ela tinha mais um prédio fazia um L e saía na Rua Sete de Setembro exatamente, então era muito comprida e era muito alto, o pé direito de seis metros e era sobre escadas e sobre trilhos que você conseguia alcançar as mercadorias nas prateleiras e além disso tinha mais um prédio nos fundos onde eu comecei que, chamávamos aviamento, né, aviamento que era pra enviar as encomendas ali, também a mesma coisa que tinha pros clientes comprarem na hora você tinha também no aviamento pra você despachar as encomendas. Então ela operava como armazém, tinha os salgados e doces e engraçado que nos salgados tinha uma coisa interessante, a vitrine o freguês se servia, levantava, era de abrir a estrutura, era francesa e depois iam na caixa e pagavam, comiam dois ou três e pagava só um, e hoje eles dizem: “Bom era naquele tempo que a gente comia dois e só pagava um”, porque eles que se serviam, né, então era próprio pra isso. No salgados era assim, tinha o balcão de salgados, o balcão de doces e tinha o restaurante em cima e embaixo e só vivia lotado e tinha a nossa indústria que os nossos produtos era ali no bairro da Saúde ali na Rua do Livramento, Rua da Gamboa produzia geleias de mocotó, variedades de geleias e de biscoitos enormes e tínhamos também, fazíamos banquetes externos, uns banquetes externos que marcou fama que nós fizemos pro Rei da Bélgica que fizeram, né, em 1920 e a Rainha Elizabeth em 1968 foi feito num navio aonde ela estava viajando, então a Colombo tinha uma estrutura muito grande.

 

P1- A Colombo foi fundada em que ano seu Pereira?

 

R – 1894.

 

P1- E quem são os fundadores?

 

R – Os fundadores foi Manuel José Lebrão e Joaquim Borges Merelas e o Lebrão falando dele porque realmente marcou época, ele criou uma frase: “O freguês tem sempre razão” e até hoje no comércio as pessoas copiam “O freguês tem sempre razão”.

 

P1 – Ah, é dele essa frase?

 

R – É dele essa frase, Manuel José Lebrão e esse homem, falar um pouquinho desse homem, ele fazia a Confeitaria Colombo que ele depois, o sócio dele foi pra Portugal e ele mandava o dinheiro pra ele e depois indenizou ele, ficou a firma só com o Lebrão. O Lebrão criou patrão que era ele, interessados, a palavra interessados é interessante, interessado e o empregado, então o interessado chegava a patrão e o interessado chegava a empregado era assim uma escadinha, né, e o interessado no final do ano tinha assim um x% do lucro da empresa e o Lebrão, então o que ele fez, em 1920 ele inaugurou a casa em 1894, em 1920 ele fundou uma firma de doces que tinha doces cristalizados e vários produtos e deixou o comércio para outros interessados, mas os interessados virou patrão também. Então quer dizer, que o interessado não pagou um tostão pra se tornar sócio da Confeitaria Colombo, foi só pelo seu mérito, pelo seu trabalho e o Lebrão foi dessas pessoas, o prédio ele deixou pra família, para os familiares, agora o comércio ele deixou para os funcionários, aí dali em seguida até ela virar uma Sociedade Anônima sempre patrão, interessado e empregado, interessado, patrão e assim foi a Confeitaria Colombo e além desse feito que ele fez e Portugal era muito pobre naquela época aí ele construiu um hospital no norte de Portugal na cidade dele, Vila Nova de Cerveira, construiu um hospital e doou a comunidade, hoje tem uma estatua dele lá, nós levamos uma estatua lá, tem uma rua em Teresópolis com o nome dele e ele comprou uma quinta lá, uma quinta que chamam de fazenda ou sítio e pra produzir os marmelos.

 

P1- Lá aonde, em Portugal?

 

R – Em Teresópolis e ela produzia os marmelos e fazia a marmelada Colombo que até hoje é muito famosa, a marmelada Colombo dá saudades, hoje nós voltamos a ter a marmelada Colombo e o quê que ele fez, depois ele pegou essa casa, esse solar, chama-se solar em Portugal, um solar, um palácio, no caso, aí ele deu à Prefeitura como assim tipo um acervo, era um museu, então tá lá e tem a rua com o nome de Manuel...

 

P1 – Em Teresópolis?

 

R – Em Teresópolis, quer dizer, um homem desprendido, bem feitor, ajudou na Santa Casa de Misericórdia, Associação dos Empregados do Comércio, esse Lebrão foi um homem fantástico, um português de uma visão muito grande vim a saber, a Colombo recebe uns duzentos ou trezentos turistas por dia, então significa que é uma casa muito admirada pelas pessoas e se deve a ele, ele foi o idealizador daquilo tudo.

 

P1- Mas a Colombo começou como o que?

 

R – Ela começou como...

 

(Troca de CD - 79 minutos)

 

R – Ela começou como café, o primeiro piso interno começou como café e no número 32 começou como refinaria de açúcar e produção de doces, tá, e depois ele pegou essa refinaria, esse 32 e transformou num armazém e montou uma indústria na Joaquim Palhares, uma indústria de doces cristalizados e várias coisas. Então ele foi para Joaquim Palhares, então ali ficou sendo armazém da confeitaria Colombo o número 32, então ela começou como café e como armazém, depois foi crescendo, veio a decoração dos espelhos, ela começou a ampliar...

 

P1 – Você sabe datar isso quando que ele começou botar aqueles espelhos?

 

R – Os espelhos eles foram colocados em 1912, que eles vieram da Bélgica porque os melhores espelhos do mundo eram Belgas, né, então ele começou com uma decoração e fez o prédio todo, o prédio tem cinco andares hoje e todo ocupado, ele fez, começou a servir comida aonde servia o café, ele ampliou o salão e começou a servir também comida na alimentação, virou um restaurante o café. Então em 1912 foi feita aquela decoração, vieram o espelho e o vitrô, o vitrô que é uma claraboia que nós chamamos, veio da França, né, a claraboia e os espelhos vieram da Bélgica, agora o mais interessante é o seguinte, os espelhos são muito grandes eles tem 4,50m por 3,60m eles vieram oito, são oito, só que dois quebraram na viagem e depois tiveram que vir mais dois que quebrou um e o que é que aconteceu, um ficou sem colocar bastante tempo até conseguirem fazer outro espelho até poder ficar realmente com aquela decoração todinha dos espelhos, a madeira é a jacarandá, né, é a brasileira, o mármore é todo italiano, todo carraro, todo italiano e o piso é um piso português.

 

P1 – Mas você conhece um pouco dessa história, ele quis fazer uma confeitaria muito luxuosa, era isso, quer dizer, que ele começa de uma forma simples, né, o negócio começa com um armazém.

 

R – É que ele já tinha tentado uma confeitaria antes e não deu certo, a história conta que ele tentou, que ele veio para o Brasil também, assim, não sei em que idade, ele inaugurou em 1894, mas acho que ele veio por volta assim de 1860 ou 70, então ele tentou um comércio, ele trabalhava em secos e molhados, depois tentou uma casinha por conta própria, aí depois não deu muito certo, encontrou o sócio Meireles que tinha dinheiro, era homem de dinheiro, então começou a Confeitaria Colombo e ele, começou a Confeitaria Colombo na Rua Gonçalves Dias. A Rua Gonçalves Dias era uma rua que não tinha muito prestígio, a rua de prestígio era a Rua do Ouvidor, aí ele começou e o que aconteceu com crescimento, aconteceu que existia a Pascoal na Rua do Ouvidor onde se reuniam os poetas, os escritores como Olavo Bilac, Murilo de Menezes, Bastos Tigre, Machado de Assis etc. e eles se desentenderam com o dono da Pascoal.

 

P1 – Que era uma confeitaria?

 

R – Que era uma confeitaria, era chique na época, que a Rua do Ouvidor era chique, a Rua do Ouvidor tinha a Torre Eiffel, tinha o nome do Ouvidor, né, a rua, porque era uma família nobre ou coisa parecida e vivia bela época que era época da França que era no Rio de Janeiro, então eles vieram pra Confeitaria Colombo e o Lebrão que era uma pessoa muito inteligente, sabia que aquilo dava pra prestigiar a casa, acolheu muito bem, acolheu, tinha uma rodinha, no salão interno do lado esquerdo, só que eles eram muito bagunceiros, né, sabe como é, intelectuais ou coisa assim, faziam muita bagunça e às vezes não pagavam nem a conta, faziam um versinho, um poema qualquer e largava pra lá e o Lebrão aceitava tudo isso de boas maneiras e assim foi cativando as pessoas pro bom atendimento ao público e foi o crescimento, a Confeitaria Colombo começou a crescer e depois inauguraram o salão de cima, já foi o França, Antônio Ribeiro França que inaugurou o salão de cima, quando o Lebrão já entregou o comando, né, aos de baixo. Aí começou a crescer e a casa foi crescendo e se tornou realmente uma potência na área de restaurante, de salgadinhos, de doces e de banquetes externos, enfim, tudo isso começou naquela época, mas graças ao Lebrão e o França que deu continuidade.

 

P1 – Você começa a trabalhar na Confeitaria Colombo em 58, né, como era a relação de vocês empregados da Colombo com os empregados de outras confeitarias até tradicionais como a Casa Cavé, por exemplo, e tal, havia uma rivalidade ou então como é que era isso?

 

R – A gente não tinha muito acesso, existia a [Confeitaria] Manon que era no Largo da Carioca.

 

P1 – Era no Largo da Carioca a Manon?

 

R – É, tinha um no Largo da Carioca e tinha na Rua do Ouvidor também que chegava no Largo São Francisco, acho que já existia da Rua do Ouvidor também, existia a Cavé como você disse, existia também a Lalé, existia um versinho assim: “Quem vende Cavé e quem vende Lalé”, assim um slogan, que era de um lado era uma e de um lado era outra, mas a gente quase nem conhecia os empregados porque a gente ficava o dia todo dentro do nosso estabelecimento e quase nem conhecia, os patrões que tinham um melhor entendimento entravam assim em conversa pra vê quando ia alterar os produtos e etc. Agora claro que sempre quando o freguês falava: “O doce da Cavé é melhor que o da Colombo”, a gente não gostava muito não, mas é porque o empregado da Colombo se sentia um pouquinho superior pelo prestígio da casa, tinha um crédito muito fácil quando começou as vendas a crédito no material domésticos e etc. porque se alguém não pagasse o patrão pagava, o patrão assumia a dívida do empregado que era pra não sujar o nome da casa, ele usou o nome da casa pra fazer esse crédito, então temos muito, aonde chegássemos tínhamos crédito fácil, então a gente sentia bem, naquela época era um emprego muito bom realmente.

 

P1 – Agora eu queria perguntar, voltando ainda um pouco da história da Colombo, que dizer, esse grupo do Olavo Bilac e os outros, assim, quais são um pouco dessas histórias desses frequentadores, eles escreveram sobre a Colombo, você sabe?

 

R – Não, eles escrevia mais no jornal da época, na revista da época mais que eles escreviam assim e eles ali, eles vinham da Academia, parece que ali era uma continuação da Academia Brasileira de Letras, agora a Colombo que escreveu assim sobre eles que foi interessante a época dos frequentadores e etc. né, então a gente sabe alguma coisas sobre eles que o Emílio de Menezes era uma pessoa, o Olavo Bilac era o líder da turma, então a gente sabe que ele acolhia as pessoas, só ele aceitasse na rodinha dele quem era aceito ou não, parece que o Emílio de Menezes era bastante avantajado o físico, né, usava casaca, mas que bebia muito, se embebedava, parece que dava certos problemas e tinha também um personagem que ficava na porta da Colombo, se não me engano era Azalon,  ele tinha mania de morder, achava um nome de morder, mordida é pedir dinheiro, então ele ficava pedindo dinheiro aos clientes e era da rodinha deles, aí então o Lebrão dava uma mensalidade, por quinzena “Olha, você vai ganhar x só pra não entrar na Colombo”, só porque ele assustava os fregueses tão feio que era, ele ficava pedindo esmolas, né, e às vezes ele pedia a quinzena adiantado, que dizer, era uma pessoa indesejável na rodinha dele mas ele ia, mas era uma pessoa também, era um personagem, aí então...

 

P1 – Mas tem uma musiquinha ou alguma coisa escrita sobre esse velhinho que ficava na porta da Colombo.

 

R – É, esse antes foi assim e depois através da Virgínia Lane que foi quem cantou a musica, né...

 

P1 – Como é que é a música, seu Pereira, canta um pouquinho?

 

R – A porta da Colombo é uma só saçaricando, é assim mais ou menos, aí os velhinhos era a porta de encontro lá da sociedade, os velhinhos iam pra ali porque a frequência era até às 7 horas era das madames, era da sociedade e depois das 7 a frequência já era outra, era umas meninas já com outra finalidade, então os velhinhos ficavam ali todos paquerando porque a casa ficava aberta até mais tarde porque na época o comércio ficava até mais tarde somente para o restaurante.

 

P1 – Até que horas?

 

R – Olha, na época a casa chegava ficar aberta até às 10 horas da noite, outro comércio não, fechava mais cedo, mas a Colombo ficava até às 10 horas da noite, porque era o centro da cidade, era o café, chegou a servir o jantar também, né...

 

P1- Chegou o que?

 

R – Servir jantar, servia almoço, o chá, que era o famoso chá das cinco e depois servia o jantar e dava janta, os empregados tinham janta também, porque os empregados todos almoçavam lá, tinha um refeitório só pra eles e tinha dormida, não para todos, mas para um grande número de empregados tinha dormida lá e tinha uma coisa interessante: não podia casar o empregado sem pedir autorização ao patrão, pra casar tinha que pedir autorização ao patrão e então tinha janta, era uma casa assim que tinha uma estrutura muito boa.

 

P1 – Então vamos falar da sua experiência na Colombo, você entra, você vai trabalhar no atendimento, você vai trabalhar um pouco como prático, né, e depois vai trabalhar, o que, quais eram os produtos da Colombo dessa época, por exemplo, que hoje não existem mais?

 

R – Naquela época tinha produtos realmente que não existem mais, por exemplo, nós tínhamos umas balas muito famosas que eram produzidas lá chamadas balas de ovos e balas queimadas, essas balas eram, que pessoas iam comprar, eram artesanais produzidas lá em papeis coloridos, né, são produtos que hoje não se fazem mais, nós tínhamos o marron-glacê que a gente mandava vir da França em lata e depois ali confeccionava ele, era em calda e depois você passava um glacê nele, mas tinha que ter uma técnica senão ele estragava e azedava, tinha, por exemplo, uns docinhos finos de ovos, era uma variedade, doces de ovos coisa que se não faz mais, porque também não tem público mais pra eles, né, eram doces pequenininhos mais pra festinha etc. então também não se fazem mais.

 

P1 – Que doces, como é que eram?

 

R – Era doce à base de ovo, então você decorava aquele docinho você fazia um ratinho, fazia uma abóborazinha, você fazia tudo à base de massa de ovo e tem outros doces cristalizados também, ovos e cristal, açúcar cristal não, era açúcar glacê, era cristal também, você fazia assim era uma linha grande, tinha uma linha de pães também, por exemplo, pão paris, pão galete, era todo, o nome vinha de fora, né, era uma linha bastante...

 

P1 – Pães o que, salgados ou pão doce?

 

R – Não, eram doces, pão de sal a gente quase não trabalhava, né, porque era coisa pra padaria, né, então trabalhava mais com pães doce variados, tinha o brioche, o famoso brioche que era uma coisa, hoje chama de briochinho, briochinho é um pãozinho que eles tem nas padarias mas o nosso brioche era receita francesa mesmo, uma receita que ele entrava numa forma e depois tinha uma bolinha em cima que decorava o brioche, fazia parte de um café da manhã fino como um croissant, um brioche, era uma coisa muito fina. Um doce marquesa, manueis, mãe benta, era assim os doces mais pro café da manhã, esses doces quase não tem mais utilidade, as pessoas se adaptaram a outras coisas e não tem mais freguesia pra isso, pra eles, então se produzir a gente não vende.

 

P1 – E o centro da cidade quando o senhor começa a trabalhar ali na Colombo, como é que era o Rio de Janeiro, a cidade do Rio de Janeiro da década de 50, 60?

 

R – O centro da cidade era tudo, né, inclusive os Bancos funcionavam aos sábados, então o maior movimento da cidade, da nossa casa era aos sábados, depois passou a ser a sexta feira, então depois a cidade ela se dava uma, quando você abria a casa de manhã, oito e meia você já tinha freguês entrando pela sua casa adentro para fazer compras tanto no armazém como na parte de balcão de doce e salgados e gente, por exemplo, tudo bem vestido porque naquela época todo mundo usava terno, né, e as senhoras se vestiam bem, porque, hoje elas só se vestem bem quando vão a uma festa, né, o resto todo mundo anda a vontade, foram os costumes que mudaram. Inclusive nos nossos salões não se sentavam sem paletós, né, a gente tinha até um paletó pra emprestar pras pessoas que vinham sem paletó, você tava de paletó e eu não tenho como, você ia deixar de ser servido, a gente tinha um paletó e ela aceitava, né, então tinha várias vezes que o freguês pagava e botava o troco no paletó que não era dele e deixava o troco, depois a gente ia correndo, chamava: “Olha, seu troco e tal”, era uma coisa interessante, então a cidade era tudo, era tudo no centro, casas lindas. Vocês, voltamos à Rua Gonçalves Dias, não era só a Colombo que era uma casa bonita, tinha várias casas, inclusive com a mesma pessoa que fez o mobiliário da Colombo, aquelas estantes, aquelas vitrines também fez pra uma joalheria chamada Wernec, fez pro Cinema Íris que ainda existe aí na Rua da Carioca, existia uma sapataria chamada Insinuante também e fez assim várias, então foi feito tudo com muito estilo. Então tinham casas muito bonitas, as pessoas vinham no centro da cidade quando elas passavam na Rua do Ouvidor ou na Gonçalves Dias elas vestiam maravilhosamente bem, elas vinham exibir as suas roupas, tinha até casa de peles lá Gonçalves Dias, a Sibéria.

 

P1 – Casa de peles.

 

R – De peles, tinha ali tinha a Imperial Modas, tinha essa Sibéria que eu te falei, então era uma rua chique e as pessoas vinham e eu me lembro, olha, eu vou te dizer uma coisa, uma das pessoas que eu atendi, eu já no balcão, todas as pessoas se vestiam bem, tinha pessoas que vinham até de luvas, luvas, aquele lequezinho e tal e quando a gente tava no balcão que a gente embrulhava, tinha que saber embrulhar que não existia sacolas não, olha, foi um custo as pessoas acertarem sacolas na Colombo, foi um custo, porque a gente tinha um papel tradicional, um papel rosa e tinha o barbante era de três cores, era colorido, né, eram três fios trançados.

 

P1 – Que cor que era?

 

R – Era o vermelho, o verde e branco, então ficava um embrulho bonito e aí tinha um canudinho pra botar na, pra você não machucar os dedinhos, botava assim, fazia alto assim, e aí eu me lembro que eu estava embrulhando, depois me dirigi pra trás pra atender uma pessoa aí quando vi atendi aquela pessoa, disse assim: “Nossa, que moça linda, vestido de seda, que moça linda”, bom, naquela época de 60, então ela foi embora, ela comprou não sei se foi uma pão de forma, de centeio ou coisa parecida, depois um superior meu disse: “Sabe quem você atendeu?”, eu disse assim: “Eu não”, “Você atendeu a Adalgisa Colombo”, que foi Miss Brasil, eu nem sabia quem eu tava atendendo ali, “Você atendeu a Adalgisa Colombo”, que ela na época mocinha era muito bonita, né, que ela veio antes ou depois da Marta Rocha, né, deve ter sido daquela época, né, mas então não era só ela que se vestia bem, eram todas pessoas, os nossos empregados andava tudo de paletó, nós usávamos mesmo camisa, naquela época existia o paletó branco para o verão e o azul marinho que era o mais pesado para o inverno, então o nosso armazém se vestiam assim, os nossos empregados era todos de paletó, depois foi abolido com o decorrer dos tempos que realmente era muito calor e tal, assim como aboliram para os fregueses sentar sem paletó, aboliram o paletó dos empregados também.

 

(PAUSA)

 

P2 – A gente tá falando do Rio de Janeiro, de 1958 nos anos 60, ou seja, Rio de Janeiro, capital do Brasil, certo, e a Colombo até pelo local aonde ela tá e tal, embora falando geograficamente seja até meio afastado, mas ela tá dentro do que a gente pode chamar ali do centro, né, do poder, onde as coisas aconteciam e tal, como que era essa relação das pessoas que estavam no poder? No caso, Senadores, Deputados, de repente a Colombo eles iam muito até lá, havia reuniões, excursões, que lembrança que você tem dessa época?

 

R – Na época era realmente a capital, né, aqui no Rio de Janeiro e eles frequentavam, os políticos bastante frequentavam a Confeitaria Colombo, por exemplo, Nelson Carneiro era uma grande frequentador da Confeitaria Colombo, havia um Senador também de muito nome na época, chamado Gilberto Marinho, também era frequentador da Confeitaria Colombo, o Getúlio Vargas, esse não é do meu tempo, esse era assíduo de lá tem até fotos com banquetes que ele participou, que a Colombo serviu o Getúlio Vargas. Até inclusive dizem que ele tinha uma ligação muito forte com a Virgínia Lane, que a Virgínia Lane foi um símbolo da Confeitaria Colombo porque divulgou a música Sassaricando, né, então foi muito importante para a Confeitaria Colombo. Agora tinha frequência, veja só, Juscelino Kubitschek, ele era o Presidente da Republica, várias vezes foi lá na Confeitaria Colombo, foi lá no segundo andar, gostava de comer um linguado à inglesa, o Eurico Gaspar Dutra teve muita vezes, era Marechal, não era Presidente, Presidente ele foi há anos atrás, mas teve muitas vezes Eurico Gaspar Dutra e era um freguês interessante também, era daqueles fregueses que tinha conta na Confeitaria Colombo, no dia primeiro era o primeiro a entrar, oito e meia da manhã já ia lá pagar sua conta, era fantástico, uma pessoa muito simples, muito amável, tinha Carlos Lacerda, Negrão de Lima, Chagas Freitas era um frequentador assíduo da Confeitaria Colombo, agora sobre reuniões, eles, lá conta a história que os Senadores se reuniam lá inclusive para a derrubada do Getúlio Vargas, tem um seriado chamado Agosto que foi gravado na Confeitaria Colombo, algumas cenas aonde realmente havia reunião dos Senadores, né, simulando ali e diz que ali foi tratada a derrubada, o golpe no Getúlio Vargas, né, eu não presenciei essas reuniões, mas políticos iam realmente muito na Confeitaria Colombo porque era, e a gente servia também muito as forças armadas, né, a gente fazia muitos banquetes no Itamaraty, muitos banquetes no Itamaraty, então tinha uma, a capital era muito importante pra Confeitaria Colombo naquela época.

 

P2- Você falou que o Getúlio era frequentador assíduo, Carlos Lacerda também, já aconteceu dos dois se encontrarem, tá lá o Getúlio tomando o cafézinho dele e entra o Lacerda?

 

R – Não tenho conhecimento disso não, porque como eu disse, quando cheguei aqui o Getulio já era morto, né, não tenho conhecimento disso não, mas eles lá, o Leonel Brizola também já foi lá naquela época que era um político danado, era polêmico, né, mas eles, iam uns amigos mesmo, inimigos não ia, não se encontravam e se fossem nunca teve cenas desagradáveis não lá.

 

P1 – Agora essa mudança da capital do Rio pra Brasília, a Colombo sentiu a saída da cidade, dessa elite mais política e tal?

 

R – Sentiu sim, porque esses fatores, inclusive Juscelino ofereceu um terreno, né, para a Colombo se localizar também em Brasília, né, os patrões foram lá, mas os nossos patrões eram acomodados, né, não queriam crescer, já estavam satisfeitos então não aceitaram o convite, Juscelino como gostava muito da Colombo e tinha uma amizade também com os patrões então ele ofereceu um terreno lá pra Colombo se instalar lá, mas a saída dos políticos não foi só essas pessoas importantes, também os Deputados comuns que foram pra lá que não mais frequentavam a Colombo e mesmo a gente servia, servia o Senado, servia a Câmara, qualquer solenidade que tinha, a Colombo tinha estrutura pra isso, pra mil pessoas ou seja lá o que fosse, então sentiu muito a saída da capital, e veio também, apareceu a concorrência na, os bairros começaram a crescer, os centros começou a ficar um pouquinho, as pessoas já não vinham ao centro da cidade, isso também trouxe um pouco e os shopping também apareceram como lazer etc. e atrapalhou um pouquinho a gente, a gente realmente um pouquinho sentiu.

 

P1 – Que época que você tá falando?

 

R – Olha, época de 70 a gente começou a decadência, a Confeitaria Colombo começou a decadência porque a gente perdeu praticamente o nosso armazém, a concorrência dos supermercados a gente não sobreviveu, tivemos que dá uma transformada no 32 que era o nosso armazém numa lanchonete, os banquetes que a gente fazia externo a gente perdeu terreno também, apareceu muita concorrência, né, as pessoas particulares fazendo um casamento ou um aniversário etc. A gente perdeu um espaço bastante grande que era uma fonte de renda muito boa, então ficamos mais reduzidos aos restaurantes e aos balcões de salgados e doces e às vezes subsidiado a vinda de dinheiro da indústria aonde se produzia a geleia, o creme de arroz, marmeladas etc.

 

P1 – Quer dizer, esses produtos da Colombo eram vendidos também em outros lugares da cidade?

 

R – Exatamente, esses produtos enlatados, né, saía tudo pra vender, às vezes ia até pra São Paulo, em São Paulo tem até um depósito distribuidor, elas eram pro estado do Rio e às vezes até São Paulo e no Norte também.

 

P1 - Você falou na lanchonete, então qual é a data que acaba o armazém Colombo?

 

R – Olha, o armazém Colombo ele, definitivamente, ele encerrou em 1992 quando a casa foi vendida, porque o 32 ela acabou mais cedo, virou uma lanchonete de comida fast-food em pé.

 

P1 – Mas Colombo?

 

R – Mas Colombo, chamava-se Colombo Express, né, aí então era comida ligeira, rápida, mas continuamos com o nosso armazém no segmento que saía pra Rua Sete de Setembro, nós fomos ______, que aonde inclusive a gente vendia um bacalhau famoso que até hoje as pessoas procuraram, nós temos uma foto lá que tem uma fila em 1964, que tem uma fila que só a Colombo vendia bacalhau, aquele bacalhau 8 por 10 que é aquele bacalhau grosso, 8 por 10 significa que numa caixa de 50 quilos tem mais de oito bacalhaus dentro de uma caixa aí então ele tem que ser grande pra dá os 50 quilos, é só a Colombo que tinha esse bacalhau, então esse armazém só foi finalizado mesmo quando a Arisco adquiriu a Confeitaria Colombo, aí ela encerrou as atividades do nosso armazém totalmente.

 

P1 – Tá, então vamos voltar a Colombo da época que você entrou, vamos lá, você então vai trabalhar no balcão, assim o que se vendia mais nessa época?

 

R – O que se vendia a mais sem dúvida alguma, como eu trabalhava na área de doces e salgados eu tinha acesso ao armazém quando os fregueses queriam, eu podia até trabalhar na casa toda, qualquer balconista podia atender freguês na casa toda, ter acesso, mas a gente trabalhava com comissão, né, então quanto mais você vendesse melhor, porque a gente não podia aceitar gorjetas, era proibido, né, nem garçons podia aceitar gorjetas, não era permitido.

 

P1 – Mas isso era uma prática da Colombo ou de todas as Confeitarias do Rio?

 

R – Não, só a Colombo tinha essa, o fundador ele criou a comissão para o garçom e para o balconista para não, que não queria que aceitasse gorjeta, achava que isso aí não era bonito aceitar gorjeta do freguês.

 

P1 – O balconista, mas o garçom...

 

R – O garçom também, o garçom não podia, estava no cardápio “Nossos empregados não aceitam gorjetas”, hoje não, depois os tempos mudaram, né, então existia a comissão, então por isso que eu trabalhava mais na Confeitaria que nós chamamos onde vendia doces e salgados, aonde a gente vendia mais eram os doces, salgadinhos, biscoitos, casadinhos, petit fours e o armazém era um complemento. “Ah, me dá uma lata de compota de pêssego, me dá uma lata de castanha de caju”, aí eu ia no armazém, apanhava, juntava, aí o freguês levava, comprava tudo o que queria, podia buscar frutas também que nós tínhamos frutas na Sete de Setembro, então o que eu vendia mais realmente era doces e salgadinhos.

 

P1 – Mas frutas na Sete de Setembro como assim, o que é que tinha na Sete de Setembro?

 

R – Na Sete de Setembro é que a nossa casa é o anexo, ele entrava na Gonçalves Dias e saía na Sete de Setembro, então a Sete de Setembro, além dos produtos de mercearia e enlatados tínhamos também frutas, as melhores frutas da praça porque realmente eram mais caras, mas nós tínhamos um comprador que ia selecionar elas lá no mercado, aí só comprava as frutas melhores, selecionadas, então o freguês pagava mais caro, mas sabia que comprava um produto selecionado.

 

P1 – Bom, então essa pessoa, nessa época já em 58 se comia em pé?

 

R – Não, porque a lanchonete veio depois, esse armazém número 32 ele durou até os anos 70 mais ou menos, em 70 que foi criado essa lanchonete em pé, comida em pé, aí depois quando a Arisco adquiriu a Colombo em 1992 ela acabou com essa lanchonete em pé e depois construiu uma lanchonete com mesinhas, com bancos, com tudo direitinho, mudou o sistema.

 

P2 – O que o senhor aponta ao longo dessa vivência toda na Colombo, o que o senhor aponta como principal diferença daquele público que ia à Colombo em 58 daquele publico que frequenta a Colombo hoje em dia, qual a mudança houve ao longo dessas décadas, vamos dizer assim?

 

R – Houve uma mudança muito grande porque naquela época os fregueses eram quase sempre os mesmos, os fregueses que comiam em pé, os fregueses que levavam pra casa, você tinha, adquiria até um número de fregueses que esperavam pra ser servido por você, então às vezes fazia fila: “Ô, fulano, to aguardando”, então você atendia um, atendia dois, atendia três, atendia quatro e era sempre os mesmos fregueses e no dia seguinte às vezes você repetia a mesma coisa. Então ia fregueses, antigamente eram comerciantes, tinham casas comerciais, eles viviam também na cidade, eles todo dia iam almoçar nos salões, tinham seu garçom certo, esperava o seu garçom, então você podia contar no final do dia você tinha aquela receita, porque era um faturamento sempre praticamente igual porque a freguesia não falhava, era um freguês fiel a você, porque são fregueses da Colombo e nada mais, não iam pra outros lados, então era freguês de todos os dias e por isso vamos dizer, era freguês fiel, freguês que você pode considerar que ele era realmente seu freguês, primeiro que também chegava, ele comprava e ele tinha facilidades de não pagar, ele botava na conta, aí a nota fiscal ia para o escritório e depois era cadastrado na conta dele e ele pagava no final do mês. A maioria era assim, chegava lá, “bota na minha conta”, aí pronto, mandava um filho, mandava às vezes no salão tomar um sorvete, qualquer coisa “Manda botar na minha conta”, aí a Colombo trabalhava assim na base também da confiança, sabe, agora hoje esses fregueses acabaram, os fregueses primeiro que não tem mais poder aquisitivo pra ir todo dia, são aqueles fregueses executivos, há algo na cidade, algum evento na cidade aí eles vão na Colombo, nos salões almoçar, reservam mesa etc. né, mas são fregueses que vem hoje mas não vem amanhã. Ele não tem freguês todo dia, o freguês de todo dia hoje na Colombo são muito poucos, você pode considerar os fregueses dos salões não são 20% os fregueses que vêm todo o dia e essa administração retornou, retroagiu aos tempos passados, pra te prender ele te dá um desconto pra ir almoçar todo o dia ou quando você for lá você assinar a sua nota, a sua comanda e no final da quinzena mandar a conta lá no seu escritório e com desconto, você em vez de ir em outro lugar você vai lá na Colombo, entendeu, você tem a facilidade de pagar por quinzena ou até às vezes por mês ou paga quando você quiser, ninguém te cobra juros, ninguém cobra nada então ainda tem essa facilidade que eles conseguiram, né, ter essa ideia boa que você adquire uns fregueses diários. Senão nem isso você teria, né, porque aqueles fregueses que iam todo o dia eram amigos do patrão, iam lá mais pra bater um papo, gostavam de dizer: “Eu sou freguês da Colombo há não sei quantos anos”, então o freguês de hoje é um pouquinho diferente, nós vivemos hoje em dia por rotatividade, por região, o freguês de hoje como o senhor diz eles tem muitos que ainda vão lá comer seu doce, seu salgadinho todo o dia, tomar seu café, mas no restaurante não vão todo o dia e nós sobrevivemos mais tanto das visitas, dos turistas, grupos estrangeiros que vão com o seu guia como turistas de outros estados como São Paulo, Rio Grande do Sul e outros estados do Brasil.

 

P1 – E você atribui isso a quê? No sentido que esse cliente, quer dizer, o tempo é menor, a condição financeira é outra, assim, perfil até dos empregados hoje, das pessoas que trabalham no centro também é outra.

 

R – Houve também, já freguês que vão até por causa do empregado, que tem aquela amizade com o empregado, a Colombo em 92 ela foi vendida, então muitas demissões e naquela época os próprios fregueses eles se afastaram, porque já não tinha aquele conforto, chegar lá ser notado, o freguês queria ser notado, é que vai no salão, vai na coisa, ele quer que saiba que ele é freguês da Colombo, entendeu, então ele não era notado, ele era um estranho e foi se afastando e também o fato das coisas estarem muito caras, o poder aquisitivo não dá mais pra você gastar quarenta reais por dia num almoço, né, essas pessoas mais jovens, esses executivos conhecem outras casas também, hoje tem uma concorrência muito grande, né, então eles aí já procuram outros restaurantes até às vezes mais modernos pra tomar um vinho diferente etc. uma comida diferente e acredito porque isso se deve mais também àquele vínculo familiar que existia na Colombo com seus fregueses e o poder aquisitivo, eu acho que é um dos fatores, porque antigamente o dono de uma casa comercial ele tinha dinheiro, ele fazia, ele tinha situação boa, era uma família, casa comercial era uma família, o empregado ficava trinta, quarenta anos numa casa e hoje não fica, hoje abre uma casa e amanhã tá fechando, são muitas dificuldades.

 

P1 – Agora os empregados do comércio do centro eles eram fregueses da Colombo?

 

R – Os empregados do comércio?

 

P1 – É.

 

R – Esses pra comprar uma coisinha ou outra eram, alguns tinham condições de comprar, não quero dizer de sentar num restaurante e almoçar todo o dia, mas uma vez por outra iam e comprar no balcão, tinham condições mesmo, que as coisas eram mais baratas, né, acho que o produto você tinha mais fácil acesso. Por exemplo, antigamente era comum o freguês comprar cinquenta doces, hoje, cinquenta doces, “cinquenta aí”, você dá, hoje se você vender meia dúzia é festa, hoje é diferente, as coisas estão mais caras do que antigamente. Antigamente as coisas eram mais baratas e as pessoas eu acho que eles ganhavam melhor e também tinham menos onde gastar o dinheiro, hoje tem muito onde gastar o dinheiro, primeiro nas nossas casas, a pessoa tem às vezes até dois computadores, vídeo pra cá, vídeo pra outro lado tudo isso custa dinheiro. Antigamente não havia isso, havia uma televisãozinha e era difícil, qualquer um tinha televisão, então o dinheiro sobrava fácil, então havia mais dinheiro pra circular nas outras coisas.

 

P2 – A Colombo era até uma opção de lazer pras famílias.

 

R – Sim, sem dúvida alguma, a pessoa saía de lá todo prosa lá com seu embrulhinho lá...

 

P1 – Famoso embrulho rosa, né?

 

R – Rosa com cordão de três cores.

 

P1 – Agora vamos falar do chá das cinco, o quê que era o chá das cinco, o que se servia, o que se serve hoje, o que mudou, ainda toca piano, ainda tem piano, como é que é?

 

R – Hoje ainda existe o piano e antigamente tinha uma orquestrazinha de violinos, piano e violinos e esse chá das cinco acho que vem em razão lá da Europa, né, acho que dos costumes, né, chá é uma origem inglesa lá da Inglaterra e se criou o famoso chá das cinco. É que as pessoas vinham na cidade, as madames principalmente e vinha no chá das cinco aí lotavam o salão, mas o chá das cinco podia ser um refrigerante também se houvesse, mas vinha um prato de doces variados pra mesa, um pratinho de sanduíche fininho que só a Colombo fazia...

 

P1 – Aquele quadradinho branquinho, né?

 

R – É um _______ e os salgadinhos e o chá a pessoa pedia o chá tudo bem, era à la carte então o salão ficava lotado, tanto os salões do chá das cinco após o almoço, é que a pessoa almoçava mais cedo e acaba mais cedo o almoço.

 

P1 – Que horas se almoçava antigamente seu Pereira?

 

R – Dez e meia já tinha gente querendo almoçar, onze horas começava o almoço já e ia até duas horas, duas e pouco acabava o almoço, aí depois já entrava o lanche, entrava o lanche e entrava o famoso chá das cinco, que às vezes não precisava ser às cinco, podia ser três, podia ser quatro. Então as pessoas criaram o habito do chá e iam lá, enchiam aqueles salões todos e tinha um detalhe também, ia tudo isso pra mesa e a pessoa tirava um ou dois produtos, podia ser sanduíche ou dois salgadinhos ou até uma sorvete etc. e o outro era consumido, ele só pagava o que consumia, que dizer, a pessoa tinha opção de escolher, aquilo era uma atração da casa até poder, depois a gente achou que aquilo não era tão funcional assim, não devia ser muito higiênico, né. Já está na mesa e depois voltar pra ser vendido, mas era isso que acontecia, né, era os costumes: “Traz um prato de doce e um prato de salgadinho” ia lá um prato de doce, um prato de doce com dez doces às vezes eram duas famílias ou duas pessoas ou três, ia o de salgadinhos e tal, “Me dá um sorvete”, aí _________ iam os canudinhos acompanhando, então lá ia. Então esses eram os costumes de antigamente e hoje não, hoje se criou o bufê, self-service que você monta uma mesa enorme com salgadinhos, com doces, com canapés, com sanduíches, com frutas, com frios, com presuntos, queijos etc. e com uma variedade enorme de sucos, bolos, tortas e então você vai, se serve, pode ficar à vontade, você pode ficar ali das cinco até às oito se servindo.

 

P1 – Isso no segundo andar?

 

R – No segundo andar, aí você fica ali se servindo a vontade e depois o garçom, quando ela solicitar o chá, o garçom vai e coloca o chá na mesa ou café com leite ou chocolate. Então hoje o sistema é esse, mas no salão de baixo você quer um chá, quer uma bolacha você é servido do mesmo jeito, isso chama-se à la carte, né, agora o bufê isso, só o que mudou foi isso, a modernidade, né, mesma coisa hoje de comida à quilo, né, então comida à quilo pra cá, comida à quilo pra acolá, então é o sistema, mas você ia na cidade, ia ao dentista...

 

P1 – Antigamente a cidade tinha essas coisas. (PAUSA)

 

P1 – Então o senhor tava comentando da cidade, tinham médicos, tinham dentistas a cidade tinha uma função na vida das pessoas da cidade do Rio de Janeiro e hoje não é assim.

 

R – E hoje não é assim, mas antigamente era assim, as pessoas saíam de casa: “Vou à cidade, vou ao médico” ou então “Vou ao médico, vou ao dentista” a onde qualquer lugar que fosse, aí sempre finalizava frequentando uma confeitaria, a Confeitaria Colombo era uma das preferidas da pessoa. Então acabava tomando o seu sorvete e, interessante, às vezes trazia a netinha e era uma promessa: “Olha, se tu passar de ano tu vai tomar sorvete na Confeitaria Colombo”, era prestígio pra família, era um prestígio danado você oferecer um sorvete na Confeitaria Colombo.

 

P1 – Mas, por exemplo, voltando ao chá ainda, a louça que se usava no chá ainda é a mesma hoje, a Colombo tem uma louça própria com timbre, como é que é?

 

R – Tem, ela usa desde o inicio, né, que usa a louça com as mesmas cores, que é o ouro, que é o mais caro o ouro, o verde e o branco, então são vários frisos em volta, só que antigamente era louça portuguesa, louça de Vista Alegre, louça importada, era uma louça muito fina, a xicrinha de Vista Alegre ela chamava, tinha o nome até de casca de ovo de tão fininha que era, era uma casquinha de ovo mesmo. Mas depois tornou-se impraticável trabalhar com essa louça porque era muito cara, mas mantiveram sempre os mesmos padrões, mais cores, começamos a trabalhar com louça do sul aqui de Santa Catarina, da Schmidt etc. e outras marcas, mas a louça também fina, quebrava muito, você entra numa máquina de lavar a 90 graus aí ela beliscava, trincava, que os pratos eram sextavados assim, né, e muito fina. Então era todo aquele sistema, então a louça era realmente muito cara, tanto pra banquete que tinha uns pratos especiais como pro dia a dia, então tudo isso, ultimamente essa nova administração ela fez a mesma louça, mas um pouquinho mais forte e é uma louça também muito boa, mas mais pesada um pouquinho, mas os mesmos padrões, a louça continua a mesma louça bonita e os copos hoje eles têm o logotipo da Confeitaria Colombo.

 

P1 – Qual é o logotipo seu Pereira?

 

R – Tem o emblema, né, e tem que ser “Confeitaria Colombo fundada desde 1894”, tem em azul que são as cores tradicionais da Colombo e tem em ouro também.

 

P1 – Como é esse, é um brasãozinho, e você sabe o que significa esse brasão?

 

R – Olha, eles criaram esse brasão quando eles criaram a marca assim também para os carros de propaganda, quando criaram o creme de arroz infantil aí criaram esse brasão, a finalidade, então ficou sendo esse aí, o logotipo, o nosso letreiro também sempre tem esse brasão, é um brasão bonito, mas é em azul, agora tem em ouro também, dourado também.

 

P1 – E toda louça tem impressa isso?

 

R – A louça tem Confeitaria Colombo, os pratos no fundo, embaixo, e as taças é do lado, dá bem pra ver, e tem as xícaras também de chá também com logotipo também e nós comercializamos muito essa marca, as pessoas levam pra fora, compram as lembranças da Colombo, até prometem, compra uma xícara, compra um bule, compra, isso ajuda muito, é marca Colombo.

 

P1 – Desde de quando se faz isso aí, você sabe?

 

R – Isso aí foi agora, desde 99 pra cá, com essa nova administração que resolveu investir na marca Colombo, é igual o Flamengo vendendo as suas camisas, né?

 

P1 – Então só pra acabar a coisa do chá, qual é o nome daquela torrada da Colombo, tem nome aquela torrada compridinha?

 

R – Olha, o nome certo tem o nome de torrada de Petrópolis, essa é a mais pedida, existe a torrada americana, mas a torrada americana já é com queijo ralado, né, e a torrada de Petrópolis ela é torrada e vai com uma manteiguinha, né, mas o nosso pão que faz a torrada não tem nada a ver com o pão de Petrópolis. É um pão chamado Pão Blumenau, porque esse nome, realmente ele é um pouco diferente, porque um dos sócios, um dos interessados ele era de Blumenau aí ele trouxe a receita de lá.

 

P1 – Porque é um pão alto com uma casca.

 

R – Exatamente, então ele trouxe a receita de lá, então deu o nome de pão de Blumenau, mas no fundo ele é adocicado, ele leva ovo, leva uma pitadinha de limão etc. realmente é um pão muito gostoso, pode comer até puro, né, muito bom.

 

P1 – E aqueles sanduichinhos quadradinhos da Colombo de queijo ou de presunto tem nome?

 

R – Esses agora resolveram homenagear os sócios Meireles, dão o nome de Meireles, sanduíche Meireles então a versão diz, e nós, eu sempre conheci eles como sanduíche fininho de pão de forma, né?

 

P1 – Como o pessoal pedia.

 

R – Esse sanduíche, o pão foi um dos problemas pra gente voltar a ter esse produto. Ele era cortado numa máquina, mas de lâmina, era máquina de serra, era de lâmina, então essa lâmina quando a Arisco adquiriu se desfez dessas máquinas, ela nunca mais queria ter esses produtos, né, bom, nunca mais tivemos esses produtos, quando essa administração assumiu ela resolveu investir nos produtos passados como esse pão, pão de _______. Então esses sanduichinhos voltou a ter, aí então adquiriram uma máquina que era de serrinha, mais fininho, ela veio, acho que uma máquina importada do Uruguai. Aí então voltamos a ter esse sanduíche e também resolveram homenagear o Meireles, sanduíche Meireles, então continuamos a ter esse sanduíche, a procura continua do mesmo jeito, relembrando os tempos passados, “Aquele sanduichinho fininho”, então a gente “Ah, já tem novamente”, então é uma, enfim, o freguês fica muito feliz da vida, né, “Antigamente tinha aquele sanduíche”, “Sim, eu conhecia”. Então é muito interessante, a gente, a idade às vezes a velhice, a idade quando chega uma pessoa: “Ah, o senhor trabalha aqui há muitos anos?”, “Trabalho”, “O senhor conheceu meu pai, meu avô?”, “Quem era seu pai, seu avô?”, “Era fulano de tal”, eu digo: “Conheci”, aí eles ficam tão emocionados, né, porque passaram por ali também e eu fico muito contente quando as pessoas procuram e eu sei responder, fico feliz mesmo.

 

P2 – Quem é responsável pela Colombo hoje em dia, quem é a atual administração?

 

R – Hoje é Maurício e Roberto de Souza Assis, eles foram quem adquiriram, eles são os maiorais, né, ela é uma casa Ltda., Ltda. a seis, a seis pessoas, mas eles que tem por exemplo 85%, os outros tem só pra completar o capital, né, então é Maurício e Roberto Assis eles que são os proprietários e eles é o que manda e a menina falou que eles não eram do ramo, mas tem vários conhecimentos porque viajavam muito, negócio de restaurante, enfim, tirar conclusões, trazer novidades e a gente no dia a dia sabia tocar, né, então ele disse: “Bom, do lado de fora eu não conheço nada, mas daqui eu conheço alguma coisa, então o que eu puder ajudar” e a gente ficou junto, o que eu sabia, o que eles trouxeram, né. Então a casa hoje tá muito bem e também é o momento, a casa hoje não cai mais por quê? Porque ela entrou nessa e cordão cultural, nessa de turismo, casa patrimônio histórico, porque o Rio de Janeiro hoje ele vê muitas reportagens porque eu posso dizer, eu participo tanto da Alemanha, a Alemanha teve uma televisão aqui passou sete minutos, fez uma reportagem comigo, foi até me buscar aonde eu moro e ficou o dia todo na Colombo, dois dias na Colombo, Alemanha, Holanda, França, Portugal e Portugal agora, RTV também e uma revista também de volta ao mundo também, então isso aí desperta a curiosidade das pessoas, quando vem ao Brasil “Ah, quero conhecer o Café Colombo”, chamam de Café Colombo, “Quero conhecer”. Às vezes saem diretamente do aeroporto, eles querem conhecer o Café Colombo, então é o que eu digo que veio dar um equilíbrio muito grande e isso a tendência do turismo aqui é melhorar porque nós temos bastante turistas aqui no Brasil apesar de, então isso pra Colombo é o equilíbrio e se Deus quiser nunca vai mais que...

 

P1 – Vou eu voltando das coisas que vou me lembrando da Colombo, ainda se faz o biscoito leque, ainda se faz naquelas caixas? O que se faz hoje ainda que você pode dizer: “Isso começou com a Colombo” no século passado?

 

R – É, o biscoito leque foi muito bem citado, é um produto que ele leva a Colombo ao estrangeiro, é um produto que a Arisco interrompeu, mas o maquinário ela deixou e tem as pessoas que sabiam lidar com aquilo, então nós, era feito na indústria, instalamos as máquinas no centro e a fiscalização sanitária foi lá, aprovou o local e continuou se fazendo, era um biscoito artesanal, né. Aquilo é feito lá no fogão, ficam duas ou três meninas lá fazendo, né, produz poucos por dia, mas ele é um biscoito que fica numa lata e aquela lata é cor azul, né, o desenho no leque. Então é um produto que realmente eu posso dizer que quando eu entrei pra Colombo ele já existia há muitos anos, eles tentaram trazer uma máquina da Alemanha pra eles poderem fazer aquilo industrial, não deu certo, tem que ser mesmo naquelas características mesmo.

 

P1 – Mas ainda hoje se faz assim?

 

R – Se faz artesanalmente, tudo as meninas fazendo, você não, se quiser atender a supermercado você não tem produção porque você não desenvolve, você faz no máximo quarenta latas por dia, entendeu, e quarenta latas você vende lá na loja, né, por dia e as pessoas às vezes telefona de Brasília, telefona de São Paulo querendo esses produtos. Aí a gente manda o freguês se comprometer a pagar o sedex, a gente manda pelo correio pra eles ficarem felizes, aquela lembrança, o biscoito casadinho é uma das coisas que você sabe e é bem verdade que as pessoas se mudaram pra Brasília e querem porque querem os casadinhos da Colombo porque eles conheciam na época. Porque a capital era aqui e eles foram obrigados a se transferir pra Brasília como funcionários, não era só políticos, mas funcionários tiveram que ir, né, e depois por lá ficaram e eles querem porque querem que os casadinhos é um produto que até hoje também se faz e já se fazia a rivaldade, parece que ela tem uma homenagem a rivaldade, parece que existia um colégio com nome de Rivaldade Corrêa, parece, talvez seja esse nome que vem de rivaldade, né, que sempre perguntaram porque esse nome, a gente propriamente dito não sabe porque é esse nome.

 

P1 – Descreve um pouquinho como é o bolinho rivaldade?

 

R – Rivaldade é um bolinho, são uns discos, né, a gente diz que é de pão de ló, mas na realidade ele não é de pão de ló, ele é uma massa igual, você faz um batido pra fazer a capinha do casadinho só que eles é estendido em folhas de papel, papel que vai ao forno e não queima, então você estende e faz um disco grande, em vez de ser um casadinho pequenino você faz um grande, né, aí você faz várias, aí aquilo vai em tabuleiro de ferro, vai ao forno e cozinha. Bom, depois dele cozinhado essa capa maior, depois aquilo você tem que rechear com doce de leite, faz duas camadas de recheio de doce de leite, tem um aparador pra ele ficar certinho, bom, depois dele recheado tem que cobrir de fundá, é o fundá que ele fica aquele bolo branquinho, mas tem que ser o bem certinho pra ficar um marmorezinho tanto por baixo como por cima e nas laterais, então isso chama-se rivaldade, dá trabalho, né, mas as pessoas dizem discos de pão de ló com recheio de pão de leite, mas na realidade não é pão de ló, pão de ló é um produto que não leva manteiga, não leva, porque pão de ló é só feito de gemas de ovos e açúcar, né, o pão de ló não leva. Já aquele produto leva manteiga, então ele é feito na base do bico do confeiteiro, sabe aquele que faz, dá trabalho, mas assim é feito rivaldade.

 

P1 – Mas assim essa pergunta, você sabe se teria um produto da Colombo que é pioneiro, quer dizer, que começou com a confeitaria e até hoje é feito.

 

R – Eu acho que é mais a parte do pastel de nata que é um produto de origem portuguesa, né, o pastel de nata e com certeza os doces que fazem até hoje que todo mundo conhece as mil folhas, uma massa folhada esse aí também já é centenário, né, e na parte de salgadinho nós podemos citar o camarão recheado, a maravilha de camarão também que só a Colombo faz.

 

P1 – O quê que é a maravilha de camarão?

 

R – Maravilha é feito um cilindro, a massa altinha, né, feito um cilindrozinho, mas só que é no alto, né, e recheio de creme e camarãozinho, azeitona e depois com uma tampinha por cima, vamos dizer quase um volevá, só que o volevá é de massa folhada, aquele não, aquele é massa mais de pastel, aquilo dá trabalho também porque tem que zelar e tem que abrir com abridor pra fazer a casinha dela, é tudo artesanal, depois tampada também tipo um alicatezinho de unha, né, assim, dá um trabalho danado, então são produtos que acompanham a Colombo desde do inicio do século, do passado, né?

 

P1 – E você então, me fala de você, você trabalha muito tempo no balcão, depois qual é a outra função que você vai fazer, porque você conhece a Colombo da cozinha, do atendimento, você conhece tudo da Colombo, né?

 

R – Eu comecei realmente como atendente de balcão e sou atendente até hoje, o meu maior prazer é atender as pessoas, né, eu acho muito bacana, eu atender tanto a pessoa que eu acho que é mais rica ou mais pobre, o contínuo que vai lá, eu acho que, eu atendia com muito prazer essas pessoas mais humildes que são empregados do escritório que a gente mesmo havendo comissão, ele gastava pouquinho, sabia que ia ganhar pouquinho naquela comissão, mas atendia com muito prazer aquelas pessoas. Então o que eu gosto de fazer ainda mais é isso, depois quando eu chefiei a seção de doces e salgados, parte da lanchonete, quando era armazém tinha um interessado na época tomando conta, depois acabou, eu comecei a dá apoio à lanchonete também, ajudava a administração que foram ficando idosos, controlava os preços, né, os preços quando a Sunab [Superintendência Nacional de Abastecimento] ia lá, inspeção sanitária, tudo isso, ficava nas minhas mãos, né. Hoje não tem mais Sunab, hoje tem Procon [Programa de Proteção e Defesa do Consumidor], né, mas tudo isso fazia parte do meu trabalho, assim, a chefia dos setores, depois em 92 quando a Arisco assumiu eu virei um Gerente Operacional e Gerente Operacional tinha que agir na casa toda mesmo, que eles dispensaram as pessoas e ficaram sem saber nada, eu tive que acompanhar a manutenção, a caixa d´água era lá no quinto andar, tinha que mostrar a eles como é que funcionava, essas máquinas como é que funcionava, quer dizer, eu tinha um pouquinho de conhecimento da parte de produção dos anos que lá estava e às vezes passava por lá, porque cada setor tem o seu chefe, o seu interessado, né, então eu tinha acesso porque a nossa casa é vertical, né, aí a cozinha fica em cima...

 

P1 – A cozinha fica aonde, conta como são os andares?

 

R – Nós temos os térreo, depois nós temos o segundo andar que ele tem um salão de chá e copas, né, depois nós temos mezaninos, aonde tem almoxarifado, açougue, etc., depois temos o terceiro aonde tem a produção totalmente, a produção dos doces e pães e a produção da cozinha e salgado tudo é no terceiro andar, ali tudo é a produção.

 

P1- Quantas pessoas trabalham ali, você sabe?

 

R – Olha, hoje não tem muitas, mas tem 130, né, 130 pessoas trabalhando, depois do terceiro andar vem mais um mezanino, fica adega, fica um almoxarifado, depois vem o outro piso que vem escritórios e vem as acomodações dos empregados como banheiros, vestiários pra homens, pra mulher etc. Depois tem um piso no final que é o refeitório e rouparia, então, quer dizer, elas são departamentos e são todos utilizados, né, mas a parte principal é o terceiro andar que é a produção geral, a linha que se produz tudo e o resto é mais apoio, né, mais apoio e os salões, a casa só fatura em cima do salão de chá que é no segundo andar, aonde tem o chá e tem o almoço, o almoço é o bufê também, né, e o térreo que chama-se bar jardim que são umas mesas redondas de mármore que agora virou um bar jardim, onde você serve lanches variados, saladas, sanduíches etc. igual o coiso de doces e salgados e a lanchonete número 32, né, que é paralelo, né?

 

P1 – O mobiliário é o mesmo?

 

R – O mobiliário da...

 

P1 – Da parte de baixo, do salão.

 

R – É a mesma coisa, o mesmo balcão, a única coisa que não é a mesma coisa é o balcão de _______ que antigamente era balcão de mármore, hoje tem o balcão simples ali, mas querem voltar ao passado, né, voltar ao balcão de mármore e tudo, querem...

 

P1- Fala um pouco dessa embalagem, o senhor já comentou os famosos papeis cor de rosa e o barbantinho, né, mas hoje vocês tem sacola, vocês tem quentinha, o que a Colombo tem?

 

R – Hoje a maneira mais prática, né, antigamente pro sujeito ir pra um balcão, ser balconista, um atendente, ele tinha que fazer, por exemplo, embrulhar um queijo cuia, queijo cuia não sei se vocês conheceram, queijo palmira, é queijo de lata, embrulhado numa lata, vocês não conhecem, queijo bola, redondo só que era numa lata, você embrulhar aquele queijo e uma garrafa de champanhe, agora quero vê fazer aquele embrulho, uma garrafa de champanhe em cima daquele queijo como é que você vai embrulhar, como é que vai passar o barbante, o freguês chega aqui e quer _______, você tem que saber embrulhar.

 

P1 – Como é que embrulha uma coisa redonda com uma garrafa?

 

R – Pois é, tinha que ter uma proteção, saber botar uma base em baixo, um prato de papelão, outro por cima, saber fazer uma alça pro freguês chegar com o embrulho em casa, senão ficava no meio do caminho, né. Então naquele tempo tinha várias coisas, então tinha muitos itens pra você embrulhar e tínhamos que embrulhar pra poder entregar, também tinha isso, né, e outros fregueses levava coisas menores levava, outros mandava-se entregar, hoje não, hoje tem umas caixinhas plásticas aonde você quer duas ou três coisas na caixinha plástica é só fechar, botar numa sacolinha e ir embora, mais prático, pode ser que seja mais caro a embalagem, mas você economiza muito tempo e até mão de obra.

 

P1 – Quando é que você acha que entrou sacola plástica na Colombo?

 

R – Ah, na Colombo ela entrou eu acredito que em volta de 1970 entrou a sacola plástica, entrou até, era uma sacola até que tinha o símbolo era um galo, o símbolo da sacola era um galo hoje...

 

P1- De Portugal?

 

R – É, hoje é um brasão, mas o galo é símbolo de uma cidade chamada Barcelos, é um galo de barro, vários tipos de barro, barro de luxo, barro simples, então nós também tínhamos um biscoitinho de coquetel que se produzia chamado biscoitos galo, isso fazia parte dos coquetéis da Colombo tinha os salgadinhos e também esses biscoitinhos.

 

P1 – Como é que era ele?

 

R – Era um biscoitinho também, talvez uma lata também altinha, cilíndrica e tinha também branca com o emblema de um galo, né, aí a gente chamava biscoitos galo Colombo.

 

P1 – Mas era um biscoito o que, amanteigado?

 

R – Não, era um biscoito salgadinho, podia dizer que era um biscoito piraquê, uma coisa assim parecida, mais ou menos, então essas embalagens hoje facilita muito o empregado você não precisa ser um especialista em embrulhos, qualquer um dá pra fazer isso. Você hoje não precisa tirar hoje uma nota fiscal, você, veja só, você recebia, vinha um talão fiscal pra tua mão você tinha direito, você pegava um talão fiscal, com cinquenta páginas, com dois carbonos, né, era a terceira via, uma ia pra o freguês, outra ficava no caixa e outra ficava no talão, aí você tinha que escrever, era tudo manual e não tinha máquina de calcular não, tinha que ser tudo na cabeça. Eu hoje não sei trabalhar com máquina de calcular, se você me der máquina de calcular chega pra lá que eu faço tudo orçamento, faço tudo na cabeça.

 

P1 – É mais rápido do que...

 

R – É, porque não tem confiança na máquina e hoje em dia as pessoas não fazem nada sem a máquina de calcular e, mas hoje não precisa, hoje a máquina registradora através de ppi que é um código ou então um computador, às vezes o freguês chega lá “Me dá uma revedá, me dá um quilo de casadinhos, me dá dez doces, me dá esse salgado”, a moça vai digitando e dá o valor e pronto. O empregado antigamente tinha uma coisa que nós fazíamos tudo, nós fazíamos o embrulho, nós fazíamos a nota, fazíamos o pagamento no caixa, a gente entregava tudo pro freguês, era o troco e houve uma época que até existia o envelope pra você dá, botava o troco no envelope e dava ao freguês, você não botava a mão, nem no salão, não botava a mão em dinheiro não.

 

P1 – Quando você entrou era assim ainda?

 

R – No salão era, no balcão não, mas no salão o cobrador, tinha o chefe cobrador que eles levavam o troco dentro do envelopinho e dava ao freguês, era costume da Colombo que só ela que fazia e dinheiro novo, a casa só trabalhava com dinheiro novo, ia na Casa da Moeda, né, e arranjava muito troco, sempre muito troco, gastava muito troco.

 

P1 – E quando é que passa, por exemplo, a usar cheque mais?

 

R – Olha, o cheque era uma das coisas que mais se usava na Colombo, os salões recebiam muitos cheques e o setor de armazém também, era muito cheque mesmo, era pilhas de cheques, era o pagamento em dinheiro, cheque e depois veio o sistema de vale, né, vale restaurante, essas coisas assim que também o freguês podia fazer compras com o vale, mas hoje em dia o cheque é muito raro, muito raro pra ser realista, do que era e hoje não tem, você recebe dez ou vinte cheques num dia enquanto anterior recebia trezentos, quatrocentos de cheques, hoje é o cartão, a moeda corrente hoje em dia é o cartão que você recebe, o freguês a maioria é com cartão, o cartão de crédito até esse cartão que desconta na hora, né, o visa eletrônico, elétrico que eles dizem, né?

 

P1 – Vocês têm algum tipo de pagamento muito próprio da Colombo, quer dizer, não existe um cartão da loja Colombo, não existe...?

 

R – Não, por enquanto não existe não, não existe essa opção da Colombo ter o seu cartão próprio, não tem, não, senhora.

 

P1 – Agora sobre mudanças de moeda, quando acontece isso, ou um plano Collor, muda pro real ou muda pro cruzeiro, como é que isso refletiu num comércio de uma confeitaria?

 

R – Olha, era difícil porque principalmente a gente tinha que adaptar as màquinas também, né, as máquinas registradoras, cortar zeros, né, mais ou menos era assim pra cortar zeros, né, era aquela. Então a gente tinha que se adaptar, a gente se adaptava, o caixa era mais difícil um pouco, mas depois as notas eram carimbadas, você tem uma nota de dez mil, aí enquanto não saía a nova nota, ela era carimbada com o carimbo que valia dez cruzeiros no caso, se valia dez mil ela passava a valer dez cruzeiros, depois mudou pra cruzado, assim, essa história toda.

 

P2 – E quando houve aquela questão do confisco da poupança no plano Collor, como é que foi o impacto disso?

 

P1 – O comércio sentiu?

 

R – Foi, nós perdemos até com isso, aí o que aconteceu, voltando a moeda a gente tinha sempre muito troco, sabe, e quando houve mudança na administração e nós temos um cofre muito grande, nós temos dois cofres muito grande mesmo e então nós fomos deixar lá num departamento caixas e mais caixas de dinheiro que já não tinham mais valor, que a pessoa guardava pra troco, porque às vezes ia um carro buscar troco, uma Kombi buscar troco, porque o comércio nosso era muito troco, muito miudinho. Você atendia, vamos dizer, duas pessoas por dia, vendia doce, salgadinho, aí você tem que dá muito troco, você não podia dizer que não tinha troco, o patrão não admitia isso, então os outros setores também tava e às vezes esse dinheiro perdia o valor e você deixava pra lá, aí achamos caixas e mais caixas de notas, tudo carimbadas, sem valor nenhum, dinheiro mesmo, dinheiro velho que não tinha mais valor nenhum, ih, tá baba, ih, perderam, como é que é, tinham tanto dinheiro que até esconderam, mas aquilo naturalmente não teria valor era tudo pra troco. Mas achamos muito dinheiro, tudo por causa da confusão da moeda, dessa desvalorização que vinha da moeda e depois vinha a moeda nova, então quando, sobre a poupança do Collor, esse confisco, haviam muitos fregueses que tinham dívida na Colombo, dívidas que pagavam por mês e etc. só que eram feitas em cruzeiro, né, o Collor mudou a moeda dele ou, não, ele mudou a moeda não, foi quando o Collor entrou.

 

P1- Moeda e ele fez aquele confisco com o dinheiro, que dizer, as reservas das pessoas e as pessoas não puderam retirar.

 

R – Acontece que a gente se recusou aceitar a moeda antiga, acho que houve de cruzado e passou pra cruzeiro ou coisa parecida, acho que era cruzado e passou pra cruzeiro aí a pessoa se recusou porque não aceitavam aquele dinheiro antigo, aí muitos fregueses não tinha dinheiro pra pagar só tinham aquele dinheiro velho aí acabou que não pagaram e as dívidas ficaram até hoje, os fregueses não pagaram até hoje, muitas daquelas contas que tinha a Colombo perdeu.

 

P2 – Nessa época, né, houve casos até comum, foram muitos comuns em outros setores, né, o sujeito ir lá e comprar um pão doce, né, um negócio relativamente barato e querer pagar com cheque porque tava sem dinheiro, esse tipo de situação.

 

R – Havia sim, casos que as pessoas não tinham dinheiro e pagava com cheque, mas o dinheiro assim pra coisas grandes não havia, mas dinheiro pra coisa do dia a dia a pessoa sempre tinha o dinheiro de circulação, sempre tinha. Agora tinha pessoas que chegavam lá e queriam vender dólar pela metade do preço só pra angariar os cruzeiros, entendeu, tinha pessoas, porque as casas de câmbio essas que operavam trocando moedas não tinham, mas naquela época eu me lembro que insistiam “Não temos cruzeiro”, o real não era, o real foi criado com o Fernando Henrique, eu só sei que eles se recusavam a aceitar porque não tinham dinheiro, não havia dinheiro, então muitos fregueses chegavam lá e ofereciam a moeda pela metade do preço, eles queriam dinheiro de qualquer maneira, dinheiro vivo, aí depois as pessoas conseguiam através de gerente de Banco, conseguiram liberar verba, poupança e conseguiram sempre uma justificativa pra liberar o dinheiro.

 

P1 – Agora uma pergunta sobre a Colombo de Copacabana, você sabe quando ele foi fundada, você sabe quando ela foi fechada?

 

R – Fundada foi em 1945 e fechada em 1994.

 

P1 – O senhor chegou a trabalhar lá?

 

R – Não, só de visita, o funcionamento dela era o mesmo sistema do centro, ela tinha o seu armazém, tudo enquanto menor, ela era uma casa muito bonita, tem até uma escadaria muito bonita, um acesso ao salão, mas embaixo tinha o seu balcão de doces, seu balcão de salgados, tinha as mesinhas no centro, em cima tinha um salão muito bonito até, depois mais tarde com ar condicionado, tinha uma escadaria muito bonita com tapete vermelho que as pessoas gostavam muito. Tinha um serviço também igual ao do centro da cidade, tinha o mesmo armazém e as frutas iam nossa de lá e a mercadoria nossa, o nosso comprador comprava pro centro, comprava pra lá, só vinha nota de transferência, o resto o mesmo bacalhau, a mesma coisa, então era uma casa que funcionava também e que deixou saudades.

 

P1 – O que diferenciava o cliente de Copacabana do cliente do centro?

 

R – Lá tinha os seus clientes também de conta corrente, que compravam por mês, que compravam assim também o pagamento à prazo, o de Copacabana eles eram fregueses de lá, eles também eram fiéis por quê? Havia uma história dos fregueses que iam em Copacabana e reclamavam “Ah, as coisas de lá não são boas igual aqui”, havia muito essa história que as coisas do centro, não sei se já é uma coisa psicológica que as coisas do centro eram superiores às de Copacabana, mas na realidade havia até um intercâmbio de profissionais que iam lá quando havia alguma dúvida, iam lá ensinar a fazer ou a aprender também, aí havia alguns produtos que na realidade eram todos iguais e os fregueses de Copacabana eles eram mais de fim de semana, eles frequentavam a Colombo mais de fim de semana, né, tem fregueses lá que a gente não conhecia, né, que era só de Copacabana, era só de lá mesmo.

 

P1 – A Colombo da cidade abria no final de semana?

 

R – Não, da cidade fechava aos sábados, quatro horas da tarde.

 

P1 – E hoje como é o horário de funcionamento da Colombo?

 

R – Olha, hoje por incrível que pareça quando todo mundo fecha a gente fica aberto, nós temos horário mais longo, abrimos oito horas, nós fechamos às vinte, né, e aos sábados nós abrimos às nove e fechamos às dezessete, quer dizer, que nós ficamos sozinhos no centro da cidade, mas felizmente não tem acontecido nada. Também não tem mendigo na, nesse dia no sábado não tem ninguém na rua pra perturbar, né, os mendigos vão pra suas casas, né, que eles só ficam na cidade durante a semana, depois eles também vão descansar no fim de semana, aí quer dizer que nós ficamos até um horário mais longo, coisa que nós chegamos a não abrir aos sábados e agora Graças a Deus tamos abrindo com horário até mais longo.

 

P1 – Qual é o dia que tem mais movimento na Colombo e qual é o horário?

 

R – Olha, sempre o nosso dia melhor é às sextas feiras.

 

P1 – É você falou, depois do trabalho, você falou.

 

R – É às sextas feiras acho que é um dos dias melhores, porque as pessoas sempre compram pra levar pra casa no fim de semana, então às vezes o salão não está muito bom, mas o balcão compensa, o balcão tem mais movimento, então compensa, quer dizer, dá um equilíbrio e o horário sempre começa mais ou menos duas horas e vai por aí em diante porque os costumes agora começa mais tarde. Tem freguês que chega quatro horas para almoçar, então tem um costume diferente e o freguês que vem almoçar às vezes compra também pra levar pra casa, o freguês que almoça mais tarde até na lanchonete depois come a sobremesa em pé, então eu acho que o horário de pico é mais ou menos duas horas da tarde.

 

P1 – E tem um dia do ano que seja mais movimentado, por exemplo, hoje é dia dos namorados, esse é um dia que traz movimento pra Colombo ou o dia das mães ou dia especial do comércio, por exemplo, o dia dos comerciários fecha a Colombo?

 

R – Não, a Colombo não fecha nunca, a Colombo tá sempre aberta, não tem feriado, tá sempre aberta. Agora sem dúvida alguma eu acho que uma época melhor num todo, a época melhor mesmo é a de julho, é por causa das férias das pessoas, férias escolares das pessoas de outros estados vêm fazer visita no Rio de Janeiro, né, aí vem, as do Rio de Janeiro mesmo as pessoas dos bairros trazem os netinhos ou os filhos pra conhecerem a Colombo. Então julho se torna um mês melhor porque é menos desprendioso e o faturamento é quase igual a dezembro, mas dezembro você tem muito mais despesa, você investe mais, é um bom mês, mês de natal, mas você investe mais em produtos e você tem mais despesa, paga 13º [salário], então eu acho que o mês de julho pra empresa é um mês melhor que tem do ano, e o dia melhor sem dúvida alguma é aquele 21, 22 de dezembro que são os dias assim que dá mais fluxo de gente.

 

(troca de CD - 80 minutos)

 

P1 – Seu Pereira, agora em relação aos funcionários, né, primeiro, quer dizer, hoje há rotatividade de funcionários na Colombo, assim, fala um pouco dos outros antigos funcionários?

 

R – Sim, falo sim, hoje realmente há uma rotatividade muito maior, antigamente na Colombo, não só na Colombo como no comércio vizinho que eu conhecia era normal as pessoas fazerem trinta, quarenta anos de casa, havia uma amizade muito grande entre patrão e empregado. E na Colombo o sistema era o seguinte, era ser trabalhador, honesto e o resto enquanto a Colombo durasse tinha emprego, a casa assim, não era mandado embora de jeito nenhum, por isso que os empregados lá, hoje tenho 45 anos as pessoas se admiram, mas lá tinha de 50, 60, às vezes de mais anos, porque havia o respeito, o empregado se colocava  a nível de empregado, isso ali patrão era patrão, então respeitava o patrão e o patrão podia até as vezes chamar atenção, achar ruim, como se diz, e o empregado aceitava, o empregado também tinha uma coisa de bom, ele tinha que se dedicar ao trabalho e ia esquecer um pouco a sua casa, a sua família, quem tinha que cuidar da família era a esposa, tinha que cuidar, né, tinha que fazer a parte dela que era pra poder dá liberdade pro empregado, pro empregado não ter preocupações, não faltar pra levar um filho a escola, pra levar um filho ao médico, a esposa que tinha que fazer isso tudo, então a gente se dedicar totalmente à empresa onde trabalhasse. Então eu acho que isso foi o fundamental pra pessoa viver numa firma muitos anos com harmonia, se dedicar realmente e saber que o patrão ia ser um patrão, eu acho que é uma das coisas mais importantes, é a gente dá valor ao nosso patrão porque o patrão é o que nos dá o emprego, né, o pobre coitado, o que o pobre pode dá pra mim, não pode dá nada, então eu acho que a gente tem que ter uma amizade muito grande com o patrão e ter interesse, se sentir orgulhoso quando é chamado pra vir trabalhar ao domingo, vir de boa vontade “Você foi convocado pra vir.” Então se sinta prestigiado, né, então isso é da maneira que se pensava e que eu penso, hoje a rotatividade é muito grande, primeiro que eu não sei, o patrão qualquer coisa tá demitindo o empregado, não aceita muitas coisas, muitas desculpas, não tem sentimento e eu sinto isso mesmo lá na Colombo falando da onde eu conheço que lá existe, que o patrão não está se importando muito se o empregado tem família, se não tem, assim como o empregado também ele falta às vezes por coisas desnecessárias e se ali ele é chamado atenção por seu superior não aceita.

 

P1 – Mas hoje o senhor tem o mesmo relacionamento com os proprietários da Colombo que tinha com os proprietários da época?

 

R – Tenho, tenho sim, tenho o mesmo relacionamento com eles porque...

 

P1 – Na hierarquia profissional na Colombo tem os patrões, que dizer, o senhor é o Gerente Operacional?

 

R – Gerente Operacional.

 

P1 – O senhor responde direto aos donos da empresa?

 

R – Respondo direto aos donos da empresa, mas não tomo decisão nenhuma, aonde os patrões estão permanente, embora saem mais cedo, chegam mais tarde, não vêm sábado qualquer coisa, mas quando eles estão presentes eu não tomo decisão nenhuma sem os consultar, sem a decisão deles, eu não abuso, precisa comprar isso ou comprar aquilo que vai onerar custos, gastos tem que consultar, né, “Olha, tem que comprar isso, aquilo.” Então eu faço a coisa na humildade, não procuro extrapolar, né, procuro ser o mais simples possível e também na produção procuro ajudar no que for possível os funcionários.

 

P1- Mas você na hierarquia, você tá aonde na Colombo, me fala numa hierarquia de cima pra baixo, como é que é?

 

R – É, eu posso estar talvez em terceiro plano, né, em terceiro plano talvez, às vezes as pessoas até brincando, dizem que o patrão sou eu pela idade, mas tudo isso é de brincadeira, mas eu me considero em terceiro plano porque em terceiro, tem os patrões, tem o financeiro que também faz parte da diretoria e é um dos principais e depois a gente que lida com o profissional, a gente que “Olha, faz isso assim, faz isso assado, olha isso aqui”, tipo de um conselheiro, isso mais ou menos é o que eu represento. Porque um firma nova, uma diretoria nova ela sempre traz alguém de confiança para poder introduzir às vezes um cardápio novo, né, às vezes contrata temporariamente e a gente, o que a gente faz, a gente ajuda essa pessoa que vem e não bate de frente, se bater de frente perde o emprego.

 

P1- Agora uma coisa que eu tô pra perguntar desde o começo, agora que eu me lembrei, mulheres, as mulheres começam a trabalhar na Colombo quando, quando você entrou já trabalhavam mulheres, que função elas fazem?

 

R – É, hoje em dia, não existia nem vestiário de mulher, né, não existia a mulher lá onde eu trabalho, na indústria não posso responder porque trabalhavam bastante porque a indústria era diferente, mas lá mulher só caixa, só operadoras de caixa, não tinha outro tipo de mulher, não tinha realmente, havia uma, não é psicológico, racismo contra a mulher, é mais ou menos isso. Então as pessoas dizem que não tem nada contra a mulher, mas tinham, porque não havia emprego para a mulher e vou dizer mais, tem uma foto lá na Colombo que o salão debaixo tá cheio e você encontra só três, quatro mulheres só no salão o resto tudo era homem almoçando, se você entrar naquele tempo nos anos 60 ou coisa parecida a mulher não trabalhava muito fora, ela vinha muito na Colombo no chá etc. mas no almoço mesmo eram só três ou quatro mulheres, ficava o salão cheio de homens e mulher muito poucas. É que a mulher não tinha muito acesso, né, ao trabalho, naquele tempo mesmo só trabalhava operador de caixa, hoje não, hoje trabalha bastante mulher lá tanto operadora de caixa como atendente, acho que a mulher eu acho que ela seja assim mais fácil de se lidar e se satisfaz com salário menor, talvez seja isso porque dá preferência as vezes até pela mulher hoje atendendo, talvez mais delicada com os clientes que às vezes o homem é mais bruto, né, porque nem todos são delicados assim e acho que a preferência pela mulher, hoje tem bastante mulher lá trabalhando.

 

P1 – E a maior parte dos empregados são brasileiros ou ainda tem imigrantes portugueses como o senhor?

 

R – Não, olha só, essa história é muito interessante, eu entrei segundo consta que éramos 350 empregados ali, né, que operava com muitas coisas como eu falei e a lei não permitia ter mais estrangeiros do que brasileiros, sabe, existia até a lei dos 2/3, né, e parece que a Colombo tinha mais estrangeiros no caso do que brasileiros, inclusive, espanhóis podiam ter alguns, mas a única raça estrangeira era tudo português e uma meia dúzia de espanhóis, italianos não tinha e olha, hoje só tem eu de português, não tem mais imigrante nenhum, hoje em dia a nossa raça portuguesa acabou, está acabando, né. Porque desde de 70 e pouco não vem mais ninguém pra cá, né, foram pra outros países e os portugueses foram morrendo, agora tem eu e os filhos de portugueses, né, e um exemplo é a Colombo, não quero dizer que todo mundo morreu mas se aposentaram também, né, e foram embora, então hoje é tudo brasileiro, português único sou eu.

 

P1 – Agora você trabalha sempre alinhado assim?

 

R – Não, eu uso mais o paletó às vezes quando tem uma recepção, mas eu mais trabalho com a gravata, assim, sempre arrumadinho, mas de gravata e camisa de manga cumprida e quando tem assim uma reservazinha especial a gente bota um ternozinho, um paletó, né?

 

P1 - Mas essa é uma exigência da casa ou uma exigência sua de querer...

 

R – Mais minha, a apresentação sempre depende mais de mim.

 

P1 – E os outros empregados trabalham de uniforme.

 

R – Os outros empregados trabalham de uniforme, o uniforme hoje há uma certa mudança, enquanto naquele tempo existia o paletó como eu falei branco no verão e azul marinho no inverno, depois quando a Arisco assumiu ela colocou uns coletes nos garçons, uns coletes pretos feito pinguim mas era muito bonito, muito alinhado e essa nova administração agora colocou os aventais, parece que é moda na Europa, então hoje trabalha de camisa branca os garçons, gravata comprida e um avental que traça aqui a cintura e amarra. Então diz que é chique hoje em dia e nós estamos trabalhando assim hoje em dia.

 

P1 – Então falando da família, o senhor é casado, o nome da esposa, o nome dos filhos?

 

R – A esposa também tenho uma história que eu consegui ela na Colombo, ela era caixa da Colombo.

 

P1 – Então conta, tem que contar, essa não vai ficar sem contar.

 

R – Ela era de Angra dos Reis, então ela veio para a cidade grande, né, pra casa de uma tia e por intermédio de uma pessoa como a família dela lá em Angra era mais ou menos, então essa pessoa veio pedir se ela poderia trabalhar na Colombo no caixa, então foi recomendada e ficou lá trabalhando no caixa.

 

P1 – Que ano isso?

 

R – Isso foi em 63, ela foi trabalhar no caixa, então ela é de Angra dos Reis e dali começou a se entender um pouquinho melhor, nunca ninguém se declarava, né, que havia uma certa paixão, né, e um dia a paixão apareceu de repente e pronto, e acabou que começou o namoro e nos anos 70 a gente casou.

 

P1 – Como é o nome dela?

 

R – Alda Marques Lopes, ela chama-se Alda e até hoje nós estamos juntos, né, casamos em 70 e temos já 32 pra 33 anos de casados, um casal de filhos.

 

P1 – E ela deixou de trabalhar na Colombo?

 

R – Ah, sim, não, ainda ela trabalhou uns três anos depois, pegou gravidez e aí foi cuidar da criança e da casa.

 

P1- Como é o nome dos filhos?

 

R – Um chama-se Rogério Marques Lopes e a outra é Silvia Marques Lopes.

 

P1 – Profissão deles.

 

R – O Rogério segue engenharia de produção e a Silvia é formada em enfermagem.

 

P1 – Vocês moram aonde em Santa Teresa?

 

R – Eu moro em Niterói no bairro de Santa Rosa, na rua Geraldo Martins, 237, apartamento 201.

 

P1 – E, assim, como é que é um pouco a sua avaliação, uma pessoa que veio de uma região de Portugal, depois trabalhou como balconista na Colombo e hoje tá aí com uma família totalmente carioca, todo mundo formado, há 45 anos no mesmo emprego, se realizou como imigrante, como é que é isso?

 

R – Não, eu acredito que eu fui longe demais, porque vir lá de Portugal com a instrução que eu tinha muito pequinininha, trabalhei como balconista em poucos anos, fui a chefe de setor, consegui quatro vezes ir lá a Portugal, consegui formar os filhos, né, e vivendo há 32 anos muito bem Graças a Deus, nos damos muito bem. Então eu acho que, bens materiais não tenho, tenho um apartamentozinho só e um carrinho, é o suficiente e o prestígio de trabalhar na Colombo.

 

P2 – O senhor gostaria que seus filhos trabalhassem na Colombo, seguissem lá...?

 

R – Olha, se eles trabalhassem com prazer, se eles gostassem, né, eu acho que seria válido trabalhar na Colombo, eu acho que não tinha nada demais, eu acho que, eu gostaria que ele fosse até padre, olha eu acho que se ele trabalhasse na Colombo e fosse realmente, levasse a sério e seguisse os meus conselhos acho que seria ótimo, a pessoa não adquire muita coisa mas seria um segmento meu, né, porque a Colombo foi fundado por portugueses, sempre administrada por portugueses até 1992, se desfez, foi vendida à empresa e eu continuei. Então continua um filho de Portugal, sangue de português ainda continua lá com seu dedinho, sua ajuda, então se eles tivessem lá era uma continuidade da família portuguesa, né?

 

P2 – O senhor nunca pensou em fazer uma confeitaria, um negócio seu ou uma coisa assim?

 

R – Às vezes é uma oportunidade, realmente o meu sogro tem uma casa em vista e só queria que eu desse um ok pra eu ir pra lá, pra Angra, mas eu, primeiro não sei tinha uma certa amizade com os antigos patrões e faltou coragem, não que não desse certo lá que a casa era muito boa, tinha certeza que ia dá certo, mas eu sempre fui muito acomodado. Eu achava que já estava bom pra mim o que eu tinha, na época eu já estava com os meus 28 anos de casa, né, então eu já me dava por satisfeito, então por isso que eu nunca tentei me estabelecer por conta própria.

 

P1 – Então pra gente ir acabando, assim, o que você mais gosta de comer lá da Colombo?

 

R – Olha, o que eu mais gosto da Colombo, a gente gosta de tudo, né, tem lá uma coisa chamada camarão recheado, se a gente não tivesse 64 anos e o colesterol, aquilo não é uma atração danada, ô que coisa gostosa, mas por exemplo eu posso dizer que eu nem almoço, eu desacostumei de almoçar porque quando a casa foi vendida em 92 os meus colegas foram embora, aí eu não me sentia bem ir pro refeitório, não tinha ambiente pra mim porque a gente ia no refeitório, tinha aqueles colegas que a gente conversava de futebol, de política, ficava uma horinha ali almoçando. Depois também diretores novos às vezes eu não tinha coragem de deixar às vezes a casa sozinha embaixo, o salão, eu queria estar sempre presente, aí fui me acostumando sem almoço, a comer uma coisinha, beliscar aqui, a beliscar acolá, tomar café com leite, tipo o americano gosta muito de fazer isso, né, comer um sanduíche, tomar um café com leite, aí fui me acostumando, hoje realmente eu não faço a refeição do almoço, agora quando eu chego em casa aí eu abuso, né, eu janto com força.

 

P1 – E a sua casa tem tradições portuguesas assim de comida ou é uma casa bem brasileira?

 

R – Não tem não, aquilo é o maior problema.

 

P1 – Aqueles chouriços lá da tua terra, aquela orelha, né?

 

R – Ô aquela orelheira, que saudades, às vezes tem uma salpicão, né, que a gente tem vontade de comer, mas desde que inventaram essa tal de dieta, né, que faz mal, que foi a pior coisa que pôde existir foi isso, foi inventar essa dieta. Então a gente tem que evitar por causa das gorduras, então a mulher segue isso à risca, aí não tem coisas boas, mas a comida é um problema, é um problema porque Silvia não come carne, Rogério não come feijão e não sei o que lá, tem que ser pra mim e pra mulher e pro filho, tudo comida diferente, aí então lá realmente eu facilito o máximo que eu puder “Olha, se tiver feijão e arroz pra mim tá de bom tamanho não precisa se preocupar mais”.

 

P1 – Mas tem alguma coisa que você leva pra casa assim da Colombo, como antigamente o pessoal levava pra casa?

 

R – Eu levava bastante o biscoito casadinho, levava biscoito casadinho.

 

P1 – Os seus filhos curtiam?

 

R – Se curtiam, agora saudades da comida de Portugal, além do sarragulho famoso, é o cozido, o cozido era uma comida...

 

P1 – Você sabe cozinhar?

 

R – Eu não, não sei nem fritar ovo, eu vejo lá os cozinheiros e olha eu passei longos anos, longos anos não, pra não mentir, mas de 92 até 99 eu fazia o cardápio, eu que fazia o cardápio e não sei nem cozinhar mas pra prática, né, porque às vezes chegava um freguês: “Como é que é esse prato?”, aí: “Esse prato é assim, assim, assim”, aí depois a composição a gente tinha que fazer, né, a gente ia fazer um dia, montava um prato com cardápio de peixe, outro de carne, outro de frango, aí um prato mais forte, um mais fraco, né, tinha que fazer assim, né, aí eu ia de barca e na barca eu já ia estudando o cardápio o que fazia. Então algum tempo eu passei o cardápio pros dois salões, né, mas depois agora eles já contrataram um chef, né, um chef assim mais de nome internacional, aí então é ele quem faz.

 

P1 – Faz, mas pede dicas para o senhor?

 

R – Às vezes, “Qual o prato que saía mais?” aquela coisa toda, né, assim.

 

P2 – O senhor costuma frequentar restaurante ou alguma coisa assim fora da Colombo?

 

R – Não sei nem sentar, não frequento, muito raramente, é brincadeira, não frequento porque já vivo dentro de um restaurante e também a esposa é muito caseira, não anima, né, aí então eu deixo os filhos irem e a gente fica em casa.

 

P1 – Mas vocês saem às vezes, vão passear?

 

R – Às vezes saímos, às vezes, a gente às vezes vai em Teresópolis ou vai em Petrópolis, nós já fomos à Portugal os dois, né, e às vezes quando vem no Rio de Janeiro a gente come qualquer coisa assim numa lanchonete, mas nada de...

 

P1 – Mas você fica de olho?

 

R – Não, eu só procuro comer franguinho, batata frita, que isso não faz mal a ninguém e arroz, agora não vai se encharcar num frutos do mar, não vai se encharcar no que você não conhece que você tá sujeito a ter uma intoxicação, camarão, essas coisas, saladas, não vai, aqueles molhos, aquilo tem que ter muito cuidado. As verduras bem lavadas, hoje as verduras já vem tudo limpas, vem tudo ensacadas, vem tudo lavadas, mas você tem que lavar, lavar e lavar e mesmo assim às vezes acontece, entendeu, então eu realmente não, mesmo que não dá pra você frequentar restaurantes, né, a verba não chega.

 

P1 – Bom, então pra ir finalizando, assim, o senhor mudaria, se pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida você mudaria alguma coisa?

 

R – Olha, com sinceridade não, acho que tudo que aconteceu foi bem aceito, eu gostaria de acrescentar alguma coisa a mais, era obter condições de ir a Portugal mais a miúdos, isso eu gostaria, não pra viver lá, viver lá não porque tenho uma vida muito equilibradinha aqui e muito sadia com a família, é uma vida que eu acho que o melhor que aconteceu além disso que nós falamos sobre a Colombo foi o convívio com a esposa que se adaptou bem, ela realmente se adaptou muito bem a tudo e a todos, não tem nada de portuguesa, não tem nada com as portuguesas, tem 55 quilos, você vê que tá no ponto. Aí então quero dizer que é uma paixão que a gente tem e eu acho que isso me recompensou muito, mas poder ir lá em Portugal de vez em quando comer aquele cozido, aquele sarragulho e vê os costumes e matar a saudades. Ah, isso eu gostaria sim de ter um pouquinho a mais, mas do resto eu estou satisfeito, feliz com a trajetória, veja, vocês hoje me entrevistando aqui, né, como outras coisas aconteceram, como eu falei da televisão da Alemanha, o livro Anônimos Famosos que eu fui o destaque desse livro.

 

P1- É do Carlos Eduardo Novaes?

 

R – Foi, ficou sensacional aquela foto, qualquer dia vou tirar uma xerox pra trazer pra cá.

 

P1 – Você foi um anônimo famoso.

 

R – Fui um anônimo famoso.

 

P1 – Você acha que você é um?

 

R – Realmente eu me considero um anônimo famoso porque naquele lugar onde eu trabalho há 45 anos e as pessoas me reconhecendo eu me considero um anônimo famoso e foi nessa tese então que ele escreveu esse livro, né, das pessoas que marcaram época brincando na calçada há trinta anos, vendendo pipoca, não sei o que, aquela da Mangueira. Então tudo isso que aconteceu a televisão portuguesa esteve lá, fez uma matéria, quer dizer, eu saindo pra todo Portugal também eu acho que eu não posso querer mais do que tudo isso, acho que tem um valor, né, então eu me sinto feliz por isso, então nada, nada, eu faria tudo de novo se quisessem fazer o mesmo comigo.

 

P1 – Bom, então o que o senhor achou então desse projeto que é um projeto de Memória do Comércio da Cidade do Rio, o que achou de dá o seu depoimento?

 

R – Olha, eu acho, espero que esse depoimento se aproveite algumas coisa que eu tenha tido contribuído, que seja útil, porque eu acho o comércio uma coisa principal da cidade é o comércio e ser um balconista, ser um atendente de público, ser um Gerente de loja, eu acho uma profissão muito bonita, você chegar, você atender aquela pessoa, eu acho isso aí uma arte, então espero que isso aí tenha um sucesso também muito grande e o que eu tenha falado seja de bom proveito.

 

P1 – Tá bom, eu agradeço, foi muito bonito, obrigada pelo depoimento, seu Pereira.

 

R – Tá bom, espero que a gente se veja, né?

 

P1 – Vamos sim, claro.

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