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O Tuca da Mooca

História de: Waldemar Antonio Grazioso Saroka (Tuca)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Waldemar Antonio Grazioso Saroka, o Tuca da Mooca, nasceu no bairro pelo qual reserva grande apreço. Ao longo da história conta o dia a dia, a cultura e as relações intrafamiliares dos descendentes italianos no Brasil. Levou uma juventude bastante ativa, desde apaixonado por carros até como radioamador, ainda, como adulto, buscar levar uma vida reciclada: aos 40 anos acabou de entrar na graduação em Direito. Nas linhas que seguem, preparem-se para aventurar-se pela história de mais que uma pessoa, de um bairro, de uma nacionalidade. 

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História completa

P - Então Tuca, começar a entrevista primeiro agradecendo sua presença aqui, e pedindo para você falar de novo seu nome completo, local e data de nascimento.

R - Meu nome é Waldemar Antonio Grazioso Saroka, nasci na Mooca, em 3 de junho de 1967, e sou conhecido com o apelido de Tuca.

P - E porque do apelido?

R - Você sabe que eu fui às origens, e cheguei na seguinte, me passaram o seguinte: minha tia e minha mãe, com aquele jeito quando era, menininho, Tuquinha,Tuquinha Tuquinha. Uma tia que pôs o apelido, não tem nenhuma ligação, correlação com meu nome, nada. E ficou Tuquinha,Tuquinha daqui Tuquinha de lá.

P - E o nome dos seus pais e atividade profissional deles?

R - Meu pai é Waldemar Antonio Saroka, minha mãe, minha mãe Teresa Rosa Miguela Grasiosi Saroka. Meu pai chegou a gerente nacional de vendas da Swift, Swift Armour na época do Brasil, minha mãe sempre, como boa italiana, cuidou da casa em todos esses anos.

P - E o nome dos seus avos, você lembra?

R - Lembro, Antônio Aleixo, meu avô paterno que nasceu em Moscou, e minha avó Antonia Saroka, que nasceu em Calnas na Lituânia. E maternos, ah Juana Benvenga e o Antônio Benvenga, que nasceram, são oriundos de Castelo San Lorenzo, Província de Salerno. A Mooca, todos os oriundos da Itália, a maioria, a grande maioria, vieram do sul, Castelo San Lorenzo, Castellammare e Castellabari , são as três cidades no Alto da Mooca e da Mooca que tem a maior concentração de italianos aí dessa região, né da região de Salerno, Província de Salerno

P - E como é que seus avós vieram pro Brasil? Esse que veio de Moscou, e...

R - Esses daí vieram em 24, 27, todos queriam sair da guerra, aquele boato de guerra e tal, tal, tal, tal, e foram para região aí da Zona Leste e trouxeram os costumes e tudo mais. E os italianos vieram junto com a família Mucciolo ou Mucciolo, que hoje ai tem o Dom Antonio Mucciolo, que é o bispo da Rede Vida aí, uma pessoa aí, e, de uma cultura impar e etc, etc, que também se alojaram na Mooca, e precisamente na rua Javari, ali próximo do campo do Juventus; chama-se estádio Condessa Marina Crespi, não Conde Rodolfo Crespi, perdão. E na Rua Javari eles tinham uma leiteria, que era como se fosse uma aí, se comparar uma casa de secos e molhados, uma pequena mercearia. Vendiam vinho que meu avô trazia da Itália, importava pra cá pro Canadá e pro Uruguai, meu vô por parte de mãe, materno. E muito bem, nessa idas e vindas, minha mãe e minha tia, Rosa e a Teresa, nasceram no Uruguai em Montevidéu. Vieram pra cá pra São Paulo e depois voltaram pra Mooca com três anos, né, e continuaram aí até que meu avô faleceu em 1945, Antônio, meu avô, meu nonno faleceu e minha avó assim preocupada de como, se ela ia conseguir ou não tocar o armazém a mercearia e tal, ela resolveu vender. Muito bem. E já tinha aí um forno de pizza, se fazia de tudo naquela época, e, ela vendeu pra família Barbudo, que hoje, hoje é os que tocam já na quarta geração, a tradicional pizzaria São Pedro, que fica na Rua Javari que uma das mais antigas da Mooca, e uma das mais tradicionais. Meu tio avô trabalhou ali na, no Cotonifício Crespi, ele era farmacêutico particular do Conde Rodolfo Crespi, o Mauro, e aí a gente continuou até hoje aí, estamos na Mooca.

P - E, até esqueci o que eu ia perguntar... E como é que era a casa da sua infância, a casa que você cresceu ali na Mooca, você lembra?

R - Era na Rua Javari, que Javari é a capital da Mooca, né, a rua Javari é a capital da Mooca. Era uma casa, o primeiro, que eu me lembre, o primeiro endereço de infância na Visconde de Laguna, que é uma travessa da Rua Javari e depois no 562 da Rua Javari, que é hoje em frente, ao Extra. Então o grupo Pão de Açúcar, comprou o Cotonifício Crespi e, manteve as estruturas externas, né, e fez o supermercado Extra. Minha casa ela era uma casa de dois dormitórios, grande, uma casa grande e embaixo uma outra casa. Era um sobrado, na parte de cima morava eu, minha mãe e meu pai, sou filho único e embaixo minha nonna e minha tia, que era solteira. E na garagem, nas festas, na Páscoa, enfim, Natal, juntava-se toda família, italianada toda: macarrão, frango e aquela montoeira de comida ali. Ficávamos a tarde inteira comendo, brincando e cantando, depois de tomar uns bons vinhos aí, todo mundo começava a cantar.

P - E como é que era essa convivência com os vizinhos ali em volta, eram todos italianos?

R - Olha, a Mooca é interessante, né? A Mooca é uma grande família. Todo mundo te conhece, você conhece todo mundo, tem uma fidelidade assim ferrenha. É, em qualquer lugar do planeta que você vai, é incrível, nos lugares mais remotos você vai: “Oh, te conheço de algum...”, da Mooca, “Ô, bello daqui, bello de lá”, e se abraça e tem sempre um lugar pra mais um, no coração do moquense tem sempre lugar pra mais um. São pessoas assim que não deixam passar nada, são, que exigem seus direitos, vão até o… gastam pouco, perdem dinheiro até, pra exigir seus direitos, né, e são um povo unido, um povo alegre, um povo unido, um povo briguento, né, desde que tenha, que tenha razão, né, a referente, a certeza da razão relativa. É um pessoal que vai até as últimas consequencias aí. Um pessoal trabalhador. E hoje, pelo menos até o ano passado, era um lugar que um baixo índice de criminalidade, um bairro muito interessante, muito gostoso e difícil de quem teve essa passagem de vida na Mooca querer sair da Mooca pra outro lugar, não se sente bem, quer voltar pra casa e a casa quando digo é a casa Mooca, né?

P - E como é que era seu cotidiano com seus avós morando ali também, seu pai indo trabalhar? Conta um pouquinho.

R - Então, eu comecei a estudar ali no Colégio Montessori Lubienska, que um método diferenciado de ensino, e quem tocava isso eram as Missionárias de Maria, ali na Rua João Antônio de Oliveira, e o complexo ali chamava-se Condessa Marina Crespi, que era a esposa do Conde Rodolfo Crespi, né? E ali foi minha parte de pré e tudo mais, tal, tal, tal. Costumava-se ser alfabetizado com quatro anos, quatro anos e meio, a média de quem, é, tinha, estudava no método Montessori Lubienska, que são duas austríacas aí, um método um pouco diferenciado, então a turminha toda aí, com quatro anos, quatro anos e meio já era alfabetizada. Javari, Juventus, então a gente pulava o muro do Juventus, pra jogar bola de madrugada e o pessoal corria atrás da gente. Carnaval também era ali no Juventus. Na minha época aí, na década de 70, 70, de 70 a 80, o carnaval ainda não era no clube que hoje fica no Alto da Mooca e era no estádio. Jogávamos bola, ficávamos na rua o dia inteiro, empinava-se pipa, e tudo mais que hoje eu não vejo nos meus próprios filhos, eu não vejo mais esse tipo de brincadeira: bolinha de gude, soltar balão, as festas juninas, se reunia todo mundo da Rua Javari e montava uma mesa grande na rua, fechava a rua e era assim. Foi muito prazeroso a infância, foi muito gostoso. Vale a pena ressaltar que a igreja São Rafael era a paróquia, é ainda a paróquia da região e aos domingos não tinha conversa, tinha que ir pra missa. E depois da missa, tinha um padre, um italiano que chamava Valentin, que hoje ainda segundo consta informações, tá com quase 100 anos, tá vivo numa missão, se não me engano em Manaus. E ele pegava toda turminha e ia pra jogar bola. Então a gente ficava até tarde de domingo jogando bola com o padre Valentin, e foi assim a infância, fogueira, e, no Natal amigo secreto na casa de um, na casa de outro, dia das crianças também. Todas as datas festivas na Rua Javari, sempre tinham iniciativa de um, juntava pratinha daqui pratinha de lá, e a gente vivia contente e alegre.

P - Uma coisa, se ouvia muito italiano como língua ali, as pessoas mantinham isso, você fala italiano?

R - Eu entendo, mais o napolitano, entendo mais, falo muito pouco, é, minha nonna falava misturado italiano com português e na minha casa um, falando em italiano era um imbroglio porque meus avós paternos, quando eu ia conversar com eles ali, falavam russo com lituano e misturava com português e em casa minha nonna falava o italiano misturado, arrastado, napolitano que é um dialeto difícil e até quase que extinto na Itália, uma língua parecida aí com russo, sei lá, bem diferenciado, e falava em casa. E minha mãe que ficou no Uruguai falava um pouco de espanhol, e meu pai português, então você imagina. Mas no bairro da Mooca (risos), tinham os italianos que falavam arrastado e faziam questão de quando fossem negociar alguma coisa e tal, tal, tal, de praticar o italiano pra que os outros, os brasileiros, os moquenses que não falava, não falassem, não entendessem, né? E algumas missas ainda eram rezadas em latim, na igreja de São Rafael. Às vezes alguns eventos aconteciam com esse tipo de coisa.

P - E só uma coisa, você fala muito dessa cultura italiana, muito presente, mas e da parte dos seus avós da Rússia, da Lituânia, ficou alguma coisa?

R - Então, muito, muito pouco. Os russos são mais secos, né, no modo de tratar com família, assim, o pai tem aquela posição militar, que até um coisa que por eu entender isso depois da passagem dessa vida pra outra, do meu pai, é uma coisa até que eu sinto muito de não ter tido esse discernimento antes e tentado me aproximar mais desse lado do meu pai. Meu pai sempre teve a reserva, do tipo, “Eu sou o pai, você é o filho. Você fica aí, me obedece, segue as regras. E eu não posso deixar você entrar no meu íntimo. Fica na sua, fica como filho e me respeita e tal, tal, tal, tal.” Então não quebrou o protocolo da amizade. Eu sei que, com certeza um pai jamais não tem esse sentimento de amor, mas ele manteve, pra poder exigir, né, alguns padrões aí. E a família italiana já é mais festiva, abraça e beija e tal, tal, tal. Então esse foi alguns dos motivos, que eu entendo, que eu não tenha tanta afinidade, não tive tanta aproximação com a cultura dos meus avós russos. Mesmo porque eles também seguiam aquela linha, aquela linha totalitária, postura, nunca tá doente, tem que se trabalhar, tem que se estudar, ponto. Nas festas evita beber a mais,evita entrar na intimidade de falar uma bobagem. E o italiano não, o italiano já falava o palavrão: “Oh, vem cá, vou te dar escondido um presente”, teu pai não te dá, os tios vão lá e alimentam essa sua vontade. É eu tinha um tio que chamava Giuseppe Cappo, que tudo o que meu pai não fazia ele ia lá e fazia escondido (risos). Então, esse lado talvez de eu ter mais afinidade, é comum, né, se vai pro lado que te dá, que te dá abertura, sempre o ser humano vai pro lado mais fácil, mais gostoso mais alegre, e o outro te serve como padrão. Hoje tem porque, né, tem porque você ter uma vida regrada. Se você for passar por dificuldade, você já lembra da dificuldade que eles tiveram e tal, tal, tal, porque deles terem aquele jeito mais abrutalhado mais seco e tal, tal, tal, pelo modo que eles vieram, tal, tal, tal. Mas nem a alimentação, muito pouco, meu pai gostava às vezes de ir na Vila Zelina e comer chucrutes, aquelas coisas lá e porque lá também é uma colônia de pessoal da lituânia, né? Então tinha as comidas típicas, joelho, joelho de porco, uma geléia que eles fazem ali cozinhando a cabeça do porco e tal, tal, tal, mas nunca e nem faz parte do meu gosto, da minha culinária. É mesmo o macarrão, o fusilli. O fusilli hoje ainda tem alguns lugares na Mooca que você encontra quem faz mão, porque é feito num ferrinho quadrado, um por um. Ele é como se fosse um espaguete com furo no meio. Aquele furo, segundo os italianos é pra que, ah, o molho né, o molho bem curado, bem vermelho, entre dentro, e o parmesão ralado grosso. Uma família também que veio da Itália, é família Di Cunto, que também hoje tem um lugar aí, um comércio gigante, tudo com berinjelas e todas essas coisas aí que vieram de costumes da Itália.

P - E você aprendeu a cozinhar? (risos)

R - Aprendi a cozinhar, modéstia à parte faço um macarrão que todo mundo gosta (risos), berinjela também, pizza também, quando tem oportunidade faço pizza, gosto muito de cozinhar.

P - Voltar agora então pra sua escola. Você falou que estudou na escola que tinha um método diferenciado, conta um pouco mais desse período escolar. R - Então o método Montessori, chama-se, são duas pessoas aí que, que trouxeram isso pro Brasil, que é Montessori e Lubienska, são duas austríacas. Esse método de alfabetização é diferenciado e eu pude acompanhar com meus filhos e dos demais, é através de ditado, não se usa muito lápis, você faz a... você tinha umas placas com lixas do alfabeto, onde você passava o dedo na letra A, na letra B, na letra C, depois ia pra tapetes individuas e você montava ditados com palavras e associava e tal, tal, tal. É bem diferenciado. Depois saí de um método desse, que é super liberal, objetivo e deixar a criança viajar no que ela quiser, criar o que ela quiser, não conduzir, mas deixar que a criança conduza aí os estudos, né, e fui pra um totalmente fechado, que é o Agostiniano. Agostiniano é o oposto, né, é uma rigidez militar, de padres agostinianos, onde ainda peguei o paredão, faz coisa errada vai pro paredão, todo mundo passa ri: “Ah, você fez coisa errada”, tal, tal , tal. É, ficar no quarto pensando. Então, foram essas duas educações antagônicas que eu vi na minha infância.

P - E essas duas escolas eram ali na Mooca ali perto, você ia a pé para essas duas?

R - Ali na Mooca, em Belém. É ia por lá. Uma ficava na Rua João Antonio Oliveira, do lado do estádio do Juventus, e a outra no Belenzinho, que também é perto da Mooca.

P - E você tem alguma lembrança de algum professor que tenha marcado?

R - De todos, né? A primeira professora que foi a Iza, que nos éramos os três os que, os que foram os primeiros alfabetizados. Eu tive esse prazer aí de ser alfabetizado aí da turma junto com mais dois. Então eu lembro aí os nomes deles nunca mais os encontrei. Era o Sidnei Rufica, João Alberto Willudovic Junior, que eu fiquei sabendo que ele foi pra área de odontologia, mas também nunca mais eu vi, morava na Javari também. O Sidnei não me lembro onde morava. Só tinha uma característica, que marca, já tentei Orkut , procurar esse sobrenome Sidnei Rufica, João Alberto Willudovic Junior, mas também não encontrei. Nós três fomos os primeiros a ser, a ter o prazer de ser alfabetizados. A professora primeira foi a Iza. E no Agostiniano tinha o professor Valentim, homônimo do padre, que também foi padre, saiu do seminário, casou-se, a filha dele estudou com a gente, que foi uma pessoa interessante, que ele chamava todo mundo na frente: “O Tuca vem cá, deixa ver tua unha.” Olhava a unha, olhava atrás da orelha pra ver se tava limpo, se não tava, “Tira o sapato aí pra se cortou a unha (risos), cortou a unha”. Um cara interessante. Quem tava com a unha sem cortar, mandava pra casa, mandava advertência: “Oh, precisa cortar unha, precisa no sei o quê”. E o professor Roberto, que eu lembro que ele falava que dava aula de historia lá, e no Dante Alighieri, fazia as comparações: “Ah, o pessoal do Dante, no sei o quê”. Fazia esse jogo de rivalidades pra obter o que ele queria, né? Um cara interessante, muito legal. Na época era um padre, o padre Cirilo, que me perdoe, mas o padre depois casou com a diretora da escola (risos), com a Dona Dalva, fiquei sabendo. Tinha um professor estranho que chamava-se Areia, que ele chegou a ser coordenador do Agostiniano, isso já no segundo grau. E ele gostava daqueles assuntos de ufo, era um ufólogo. E quando a gente queria matar aula: “Oh, faz pergunta de ufo”, ficava todo mundo enrolando fazendo pergunta de ufo e não tinha aula. Ele dava aula de desenho, educação artística, tal e a gente ficava enrolando a aula dele com ufo. E como todo adolescente, tinha as brigas no colégio, suspensões e tal, tal, tal. Outra coisa interessante do Agostiniano era o que hoje eu vejo que tem muito pouco, era uma ênfase assim à religião, um colégio católico, continuo sendo católico, mas tem alguns preceitos aí que entraram na minha vida que eu consigo assim, pegar o que é bom de cada coisa. Então se foram, desde o católico até cultos afro e ameríndio aí, você tem que pegar, essa é a minha linha né? Pegar coisas boas pegar, vê o que é que serve pro teu dia a dia, onde você pode encaixar, onde você não pode e tal, tal, tal. Mas dentro do Agostiniano em particular tinha um patriotismo interessante, se condicionavam a ter o amor a pátria, né? Então uma vez pode semana a gente cantava o hino. Hoje pra você identificar, quando a gente se encontra, “O, estudou no Agostiniano”, tem tipo de um código pra você identificar uma pessoa, um ex-aluno do Agostiniano. Que é que é? Toda vez que entrava um professor, pela manhã, todos se levantavam, e você fazia uma oração. Essa oração falava o seguinte: “Oh Deus Onipotente. Princípio e fim de todas as coisas infundi em nós brasileiros o amor ao estudo e ao trabalho. Que assim seja” E todo mundo sentava e começava a estudar. Então isso ficou uma palavra de passe. Toda vez que você encontrar, “Quero ver se você é do Agostiniano mesmo”. Você não lembra mais da fisionomia, qual que é mesmo a oração? Ai: “Oh Deus onipotente. Conta comigo que não lembro mais, tal, tal, tal, tal”. E aí a gente se identificava: “Pô que legal, de que turma você era, e de que turma você não era e tal”. Tinha alguns professores que usavam muito as músicas pra inserirem os textos que eram difíceis de ser decorados e tal, tal, tal. E, olha valeu, valeu mesmo, uma escola muito interessante.

P - E no período de juventude, qual que era o lazer das pessoas ali na Mooca, vocês saiam, como é que era?

R - Então, nossa época tinha uma herança de uma turma, que se chamava… tinha, bom, no Clube Atlético Juventus, era os nossos fins de semana, e tinha a tradicional domingueira que às seis horas da tarde ia todo mundo na domingueira escutava música, dançava, e tal, tal, tal. Na juventude, bicicleta, depois aí, nossa turma foi ter carro pra ter carro pra começar na noite e tal, tal tal, um pouco mais tarde com 20, 21 anos de idade, e aí, a época era mais Jardins, todo mundo ia namorar, e tal, tal, tal, do lado da Augusta, na Pamplona, na Up & Down, aquela época do Up & Down, do Ta Matete, do St Paul, do Soul Train e sempre em turma. A Mooca tem uma característica, é difícil você ver o pessoal sair sozinho, sempre sai em quatro, cinco, dez, é, com vários carros, a mãe leva, antes de ter habilitação e outro pai vai buscar, sempre, sempre assim. E os jogos de futebol, taco, que não se joga mais, que a gente fechava a rua com bolinha, com taco e jogava de um lado pro outro o dia inteiro, isso até na juventude, né, o que hoje a gente vê que a juventude antecipou, não curte mais isso, e já tá no carro com 16 anos, a gente começou a sair sozinho e curtir carro, essas coisas, essa coisa mais noturna depois com 19, 20, 21 anos de idade.

P - Tinha cinemas ali na região?

R - Tinha cinema, na Rua Javari, tinha o Cine Ouro Verde, na Rua Javari não, na Rua da Mooca, perdão. Tinha o Cine Ouro Verde, era muito freqüentado, toda a turminha ia pra lá, a escola ia pra lá. Com 18 anos eu lembro que o primeiro filme que fui assistir era um lançamento, era o da Xuxa, aquele filme que foi proibido, então tinha fila, todo pessoal da escola, porra, a Xuxa, a Xuxa, a Xuxa, e nós fomos assistir no Cine Ouro Verde. Na Xuxa tinha uma figura interessante que não tem mais, que era... Que o cinema era um lugar, devido a repressão familiar e tal, tal, tal, um lugar que você ia pra pegar na mão de uma menina, pra beijar uma menina, o que hoje já não é mais comum, né, pegar na menina em qualquer lugar e tal. Mas naquela época, vamos falar antigamente, porque a progressão é tão rápida que eu já me sinto um dinossauro. Mas então, pelos costumes, naquela época você ia no cinema pegar na mão, pra namorar pra um, e tinha uma figura que hoje não tem mais que é o lanterninha. O cara chato que quando você tava pegando na mão (risos) ele enfiava a lanterna na sua cara: “Olha, mais respeito que senão eu vou te por pra fora”. E punha pra fora mesmo. O cara... E às vezes ele vinha, porque ele ficava com um terno preto, você não enxergava, sentava atrás e ficava horas e horas esperando você pra dar o bote. Quando você abraçava a menina, quando acontecia alguma coisa, aquilo que você vê em, hoje você vê em propaganda, era o que acontecia com os pubertos. A gente ia lá e ficava olhando e na bobeada punha mão, e no sei o quê, não ia no diretamente, né? Hoje você já, já fala direto o que vai acontecer, não você ficava, e aí tirava a mão e não sei o que, não sei o quê… Era uma fase do namoro, mais romântico, interessante, então, isso a gente fazia dentro do cinema. Aí saia, contava pra molecada, o, abracei, peguei na mão e tal, e tal, era uma coisa assim de outro mundo. Eu vivi isso aí na Mooca, naquela e no Cine Ouro Verde. Tinha um outro cinema mais pra cima, na Vila Prudente, que chamava Cine Amazonas, mas não era muito frequentado. Tinha uma rixa na Mooca, que era Mooca Baixa, que era da Rua Javari, atravessando a linha do trem, até a divisa com a Avenida do Estado, e a Mooca Alta que era o pessoal que morava da Paes de Barros pra de cima. “É da Mooca Baixa e tal”. Por quê? O pessoal mais elitizado ia pra Mooca alta, ia da Mooca baixa pra Mooca alta, então ficava essa, essa, os novos ricos: “Ah, é da Mooca baixa e tal”. Tanto é que depois foi se melhorando a vida e tal, tal, tal, nos mudamos pra Mooca alta, pro Alto da Mooca. E hoje ainda assim, é uma parte industrial, uma parte mais… mais feia, depende de como você enxerga, né? É uma parte que não progrediu tanto quanto a Mooca, o Alto da Mooca, o Alto da Mooca é mais residencial, um programado, um bairro programado. E a Mooca Baixa continua igual, as casinhas mais antigas mais humildes, e poucos prédios, agora que começou aí a febre de imobiliária na Mooca

P - E como é que você escolhe a faculdade, como que vai essa, a escolha profissional?

R - Então, aí eu sai de lá fui pra Getúlio Vargas, estudei na Getúlio Vargas, fiz Elétrica lá, e depois saía da Elétrica, ia pra estudar Engenharia, cada um... Na Getúlio, por exemplo, você já tava direcionado a aptidão, né? Porque o objetivo era já sair com o profissionalizado, né, e, continuar a carreira e poder estudar e tal, tal, tal. Toda a turminha, toda turminha daquela época de 80 por aí, já, queria trabalhar e estudar a noite, né? Conseguir comprar seu carro, conseguir ter seu próprio sustento e tal, tal, tal, e a noite estudar e, era comum naquela época, foi uma época...

P - E como é que foi esses processos de prestar vestibular e...

R - Ah Foi tranqüilo, direto, direto, tive uma boa formação, foi tranqüilo, tranqüilo. Era difícil quem saíaa do Agostiniano fazer cursinho, era muito difícil, só pra Medicina, né, pra essas, pra os mais concorridos sim, aí o pessoal tentava, a turma tentava já no segundo ano, Getúlio Vargas, era Getúlio Vargas, Federal e Liceu de Artes Ofícios, eram as três top públicas que tinha vestibulinho. Você saía do primeiro grau e para entrar no segundo grau lá você tinha o vestibulinho. Pelo menos todos que saíram do Agostiniano que eu encontrei, passaram sem problemas. E depois saindo o pessoal que estudou comigo e que a gente se encontrava nas feiras aí, nos eventos que juntava Federal, Liceu de Artes e Ofícios e Getulio Vargas, todos daí foram diretos pra faculdade também sem problema, sem cursinho, sem problema algum. E um foi prum lado, pra, um amigo aí, o Soneca o apelido dele foi pra antiga Varig, todos bem colocados, pra Brown Boveri, GM [General Motors], Volks, todos, todos foram pessoas de sucesso aí, sem problema.

P - E aí você sai então e começa a trabalhar já?

R - Então, aí o ultimo ano, o quarto ano, foi terrível. No quarto ano eu fazia a Getúlio Vargas à noite, consegui também entrar direto num estágio de, já de engenharia e projetos na Linhas Correntes, no Ipiranga, na Rua do Manifesto, e de manhã fazia faculdade, então, passei por tudo, por síndrome do pânico, putz, foi terrível, foi um ano, dormia no carro, aquelas coisas que, você acorda às cinco, vai pra faculdade e volta, vai pro estágio, volta vai pra escola à noite, é coisa, é vida de maluco, né? Mas valeu a pena, e depois melhorou, foi melhorando, depois aí eu fui, fui galgando cargos aí, tendo amigos lá dentro e tal, tal, tal, e foi tranqüilo. Depois eu saí de lá, profissionalmente, até com o incentivo de uma turma de lá dentro: “Pô, porque você não começa a atuar na área de informática, que tá começando agora?” Porque 1990, por aí, tava começando os computadores da Apple, não se falava do IBM, do PC, né? Só se falava de Apple, Apple, Apple, Apple. E aí começou adentrar o IBM em 90, 91, “Pô, porque você não começa a montar, traz peça de fora, monta, monta a rede e tal, você tem aptidão”. Aí, aí comecei nessa área, fiquei muitos anos nesta área, depois mais a parte de consultoria de redes, né? De montagens de infraestrutura de rede, infraestrutura de segurança digital. E agora depois de muito tempo, mais de 20, quase 20 anos sem estudar, resolvi entrar na área do Direito, e aí comecei tudo de novo. Tô no primeiro semestre de Direito aí, gostando muito, por um incentivo aí de uma pessoa muito querida. Tô, pretendo aí me formar bacharel em Direito.

P - Então voltando ao que você estava falando, que você tava fazendo Direito e tal, mas voltar mais um pouquinho. Bom você casou, como é que foi aí?

R - Então, eu casei em 97, com a Débora e tenho dois filhos desse casamento, o Enzo e o Giulio. O Enzo tem 10 anos e o Giulio tem sete anos. Os dois italianinhos bagunceiros. E, me separei o ano passado, mas a gente tá sempre juntos aí, e..

P - E como é que você conheceu sua ex-esposa (risos)?

R - Na Mooca também.

P - Na Mooca? (risos)

R - É na Mooca também, ela fazia São Judas ali, fazia Direito na época. A Mooca é grande, mas é pequena (risos).

P - E você mora lá até hoje?

R - Moro lá até hoje, moro lá até hoje, minha mãe, meu pai faleceu minha mãe mora lá na Mooca também. Eu posso te dizer que é difícil eu não conhecer as pessoas da Mooca. Sou capaz de andar com você: “Esse chama fulano, esse chama sicrano”.

P - Teve muitas transformações, né, nesses últimos tempos na Mooca assim de imobiliárias, como é que foi, como é que você foi vendo esse, esse processo todo você que esta lá desde sempre?

R - Teve. Então, eu acho que nos mais alguns anos vai parar tudo lá. Porque se não engano tem uma previsão de 100 novos prédios. E aonde esse povo vai sair, é complicado. Próximo do Juventus, não aumentaram as ruas, a infraestrutura, nada disso, a gente já sente, hoje é parado total. A Paes de Barros continua a mesma, com as duas faixas, mais a de ônibus elétrico, então, gigante, gigante, gigante e a quantidade de pessoas que tem lá, terrível. Na rua do orfanato, que já é divisa com a Vila Prudente também tem muitos prédios novos, então, tá crescendo assim, tá crescendo em quantidade, mas em qualidade tá um pouco parado.

P - Na verdade, acho que a gente podia voltar um pouquinho ainda pra faculdade tudo mais, esclarecer mais um pouquinho. Quais foram as grandes mudanças de quando você saiu da GV e nessa fase do primeiro emprego, e indo pra faculdade, quais foram as grandes mudanças que você sentiu assim na sua vida?

R - Você sabe que eu não… essa parte assim não passou muito consciente. É uma parte assim que a gente leva um pouco assim na brincadeira e tal, tal, tal e o tempo passa. Eu acho que depois dos 30 anos de idade é que se começa a ter uma consciência uma filosofia, apesar da vida ir rápido, você começa a perceber mais, começa a ficar mais sensível as coisas espirituais, a dar valor no que os teus paisfalavam e você ouvia e não conseguia entender. Por isso que: “Oh, não faz isso”, aproveita seu tempo, e você vai, vai correndo e depois, quando você começa a ter um conhecimento filosófico da vida, começa a ter uma noção de realmente, que tem alguém lá em cima que tá regendo tudo isso, que você é alma espírito e corpo e que tem muitas coisas que você não entende, mas você tem que começar a entender, tem começar a sentir o lado espiritual, a sentir as pessoas que te rodeiam, os sentimentos das pessoas que te rodeiam, nesse ponto você começa a viver e voltar o tempo que você passou e saber o porquê que de cada coisa. Puxa vida aquilo serviu pra isso. Eu tava tomado por uma coisa e talvez agora eu ache que minha área é o Direito, olha só, que mudança radical, né? Eu acho que minha área é o Direito, eu acho que sempre tive tino pro Direito, porque que eu perdi todo esse tempo com outras coisas? A questão de você ter que ganhar o dinheiro pra sobreviver que é diferente de fazer o que você gosta. Às vezes você é levado na vida a ter que trabalhar com uma coisa que não é, o que te preencha na plenitude, né, e você adequar isso com teu dia a dia e com o ganhar é uma coisa que só quando você tem consciência de todas essas coisas que regem o mundo, das pessoas que te rodeiam, das tuas amizades, ser seletivo nas amizades.

P - Essa coisa das suas mudanças, quando passou, saiu da escola, foi pra faculdade e tal, tem uma coisa que a família italiana é muito protetora muito, né, a mãe italiana tem essa imagem tal... Não se sentiu um pouco essa coisa de ter que ficar mais tempo longe de casa trabalhando e a mãe…

R - Isso, isso é, você mexeu num ponto aí que é um problema que você tem que se desvencilhar, por quê? Se não atrapalha a tua vida. Mesmo com amor que se tem, vai ter sempre pela mãe italiana, ela interage muito, ela quer saber, ela tem um ponto de vista que ela não sossega só com o ponto de vista, ela tem que falar ela tem que... E isso atrapalha bastante, atrapalha, num atrapalha mais porque uma vez que você consegue enxergar,porque até os 30 anos você é um bebezão, depois você começa, pelo menos na minha vida foi assim, depois você começa a enxergar: “Poxa isso aconteceu errado por causa desta atitude”. Relacionamentos, tem que tomar cuidado porque a mãe italiana quer saber quem que é, se tem olho azul se não, não tem (risos), se faz o macarrão se não passa na aprovação não serve pra… mas são coisas administráveis. Alguns, ainda muita gente na Mooca você vai ver que o solteirão fica com a mãe até o resto da vida e depois fica perdido, né? Quem não consegue, não sei se maturidade, não sei se tá certo ou tá errado, mas desvencilhar, cortar esse elo que é muito forte, mas não deve ser até o fim da vida assim, esperar a mãe morrer pra poder se relacionar, né? Mas isso é uma coisa que você vê constantemente na Mooca, os solteirões aí com 50, 60 anos vivendo na casa da mãe. “Ô, vou comer na minha mãe. Ô vem cá”. Aí te convida e você vai lá. E a senhora de idade que faz o macarrão, tal, tal, tal. Isso é comum, isso é muito comum. Eu tentei dentro do possível com um pouco, não dá pra ser um corte que não tem uma… não choca, né? Mas a mãe: “Ô, você não gosta mais de mim?” A mãe italiana pega muito no sentimental. Toda hora te liga quando você não você vai almoçar, ou namorando, ou trabalhando, ou já casado, num outro relacionamento, ela te cobra muito, te pega no sentimento, você não vem pra cá, você não gosta mais de mim. E fala pra todo mundo, te põe numa situação difícil. “Pô mas porque você não gosta mais da sua mãe, você tá maltratando a tua mãe?” Como tô maltratando? Não fui uma semana, tô com a vida, tenho dois filhos, eu tô correndo, né? E chora, e fala pro padre da igreja, e você vai lá: “Ô meu filho, você vai ter um pecado terrível você não gosta da sua mãe”, “Imagina como não gosto da minha mãe?” E ela não entende, ela quer aglutinar todo mundo e quer continuar mandando, né? Aquele jeitão dela, no bom sentido com o coração, até entendo hoje que sou pai, mas não respeita. Vem de uma tradição que não respeita o pouco da individualidade que você tem que ter, né? Tem horas que você tem que estar com teu filho, um natal que você não pode passar com a tua mãe. Isso aí é um crime doloso, né, um negocio que é terrível, não vai ter perdoar nunca. Sempre lembra, qualquer coisinha: “Você não gosta de mim porque no natal de 1800 e não sei quanto você não passou com a gente”. Não admite que você passe um dia sem ligar, é: “Eu fiz a berinjela pra você”. Nossa, imagina se você não vai comer a berinjela? Aí, se, às vezes você volta do almoço que você tá cheio até em cima, todo mundo vem com pão italiano e coloca: “Toma experimenta. Você não gosta? Você não gosta? Você não gosta mais de mim”. E aí chora e tal (risos). Então isso aí é super comum do pessoal da Mooca, essa dominação da mamma.

P - E num foi meio um choque assim quando você saiu e começou a fazer suas coisas, ir para outros lugares, ficar longe, longe dessa…

R - Foi, foi, foi, até você ter, você conseguir tratar bem e tal e saber da tua individualidade que a vida continua. Essa programação que acontece é uma barreira muito grande pra quem está na adolescência e tal pra quem é da Mooca. Sempre liga e chora no telefone, e, e, com todos, com a maioria dos descendentes italianos acontece isso: “Ô, minha mãe...”

P - E aí nesse começo, você falou que começou a trabalhar que tinha essa, essa coisa, essa geração que queria começar a trabalhar e ganhar. Você lembra aqui o que você fez com o primeiro salário, assim com as primeiras...

R - Ah Bom, ai é carro, né? Torra tudo em carro, em som de carro, você não pensa, você pensa em curtir a vida, o presente. E, quem consegue ter o amadurecimento e ver que a vida não é isso antes, se dá melhor. Quem demora mais, é um poço sem fundo, né? Vai viajar, vira um consumista aí, que foi o meu caso, mas depois fui acertando conforme veio o amadurecimento, fui acertando.

P - E você aproveitou assim viajando também?

R - Aproveitei bastante. Bastante, aproveitei bastante. Tudo que a juventude pode usufruir eu fiz. Fui viajar, trocava de carro sempre e tal, gastava bastante, com supérfluos. Não passava vontade.

P - Tem alguma viajem especial, que você lembre, tem alguma historia bacana que, que tenha feito?

R - Tem várias. Tem uma coisa interessante que eu deixei passar: em 1982… eu gostava muito de rádio-amadorismo. Então eu conhecia pessoal no mundo inteiro e tal. Então sempre que tinha alguns eventos no Uruguai, na Argentina, no Chile eu ia, e o pessoal estranhava: “Pô, você é um menino”. E no rádio não tem noção de quem que tá falando, né? Então vários eventos eu fui, quando teve o evento de terremoto no México, terrível, na década de 80, nos ficamos à noite inteira. Depois fui conhecer as pessoas, os familiares, no Uruguai também teve um evento que, uma criança... Porque, década, final de 70 e 80 ainda era um caos a telefonia. É, pra você falar com os países vizinhos, o Uruguai e tal, você tinha que ligar de manhã e esperar a telefonista te dar o retorno: “Olha já consegui a ligação, pode falar”. E eu tinha um primo no Uruguai, tenho ainda, tá vivo ainda, o Luiz, ele se comunicava com uma pessoa aqui no Ipiranga, um alemão que tinha rádio, e chamava-se Bauer, esse já faleceu, um grande amigo meu, se tornou um grande amigo meu. Em 1973, quis chamar, ele fez uma amizade maior com meu pai, e todas as tardes de domingo, pra se comunicar com os familiares, nós íamos na casa dele e falávamos com rádio amador. E aquilo marcou minha infância, tinha seis anos. Bom, aí fui crescendo, ia às vezes mais lá, meu pai pra retribuir o favor levava caixas de enlatados da Swift, que ele trabalhava na Swift. Presunto, salsicha, a gente passava a tarde lá. E aí eu fui pegando o vírus do rádio-amadorismo na época, que hoje acabou, pela facilidade que a gente tem com a Internet e com os meios de comunicação. E no Uruguai tinha uma menina que nasceu com a válvula invertida, e até uma coisa interessante. Tinha um especialista aqui no Hospital Dante Pazzanese e que era, a especialidade dele e esses problemas de inversão de válvula, não sei se era válvula mitral, eu lembro vagamente. E através do rádio eu consegui adequar que essa criança recém nascida viesse aqui e fosse operada no hospital. Então isso são eventos que marcaram, que aí depois eu fui lá e a família: “Ah, mas você que é o Tuca?” “Nossa, pensei que era um homem.” “Mas sou homem, né, e tal”, “Não, mas imaginavam uma pessoa de idade e tal, atrás do radio e tal, tal, tal”. Então foram passagens assim, interessantes. Tinham uma caravana me esperando no Uruguai, pra saber quem era, e quando olharam: “Nossa” Era tipo: “Que coisa, né, um menino e tal”. Tinha eventos por exemplo no rádio-amadorismo, quando existia campanha da vacinação, todo mundo ia pra Secretaria de Saúde e cada um ficava num ponto monitorando, se precisava de alguma coisa, se precisava, ia junto com a Policia Civil, Militar e com a Secretaria de Saúde. E também foi um evento interessante. Então que eu me lembro de viagem interessante, e isso daí. Fora as viagens de praia, né, litoral. No Chile teve uma passagem interessante que esse Bauer, nós fomos fazer um serviço no Jornal Mañana, em 91, se não me engano. E, naquele dia nós fomos conhecer o pessoal do corpo de socorro andino, e eles no levaram no mercado do Chile em Santiago pra comer uma mariscada, e eu gostava de vinho. E me deram uma garrafa de vinho que se chama-se chica. É um vinho novo, se bebe no Chile: “Ah Vinho eu bebo pra burro, né, minha nonna molhava o pão no vinho e me dava”. E tomei uma garrafinha, muito bem, aí achei gostoso, pedi mais uma garrafinha, e o pessoal: “Tuca, devagar, que se vai quedar mareado, você vai ficar bêbado e tal”, “Não, não tem problema”. Puxa a hora que eu levantei, eu lembro que eu fumei até Lucky Striker, e eu não fumo. Aí, tá bom, aí fomos pra casa e tal: “Tuca não tá bem e tal”, “Não, tô bem, tô bem”. Eu deitei, na parte… era um sobrado que a gente estava lá, em Cidade Satélite e na cama de cima de um beliche. Muito bem. E aquilo quando você tá no estádio que vai fazer alguma… querem aplaudir, todo mundo bate o pé e aquilo treme. E eu percebi aquilo na casa na parte de cima e as paredes fazendo assim: “Nossa esse negócio é forte, que eu bebi”. (risos) E eu escutava umas vozes, sonado que a mariscada é uma comida forte só com marisco, de caloria mil, e mais o vinho, você imagina, um suador considerável. E eu tava lá e urrrrrrrrrrrrr, tremia tudo e ninguém na casa e as paredes faziam assim. “Tuca, sai daí, louco, louco”. Tava tendo um terremoto onde o epicentro era em Viña Del Mar. Porra, eu via as paredes, aí eu só me toquei que eu não tava muito bêbado de fogo, que era um terremoto, “Terremoto, terremoto” e eu escutava grrrruuuu, passar ambulância prum lado, grrrruuuu, passar ambulância pro outro. “Nossa senhora, que é que me deram pra beber?” Aí caiu uma estante com os livros, caiu no chão, beeeeiii. E o lustre, rggrgrg. Aí que eu me toquei: “Meu, a casa vai cair”. Aí eu me lembrei que a casa era preparada para abalo sísmico, que nem um drywall e ela fica numa plataforma sem contato direto, pra poder mexer e não quebrar. Por isso que as paredes fazia assim, a cama fazia assim. Aí quando eu desci que eu vi fogo de um lado e cano d’água estourado saindo água do meio de um racho na rua e tal, que eu: “Pô, você não pode ficar aí”, “Eu não sabia”. E a sensação que você está num estádio, todo mundo batendo o pé, aquele, rrrrrrrrr, aquilo vem da terra, rrrrrrrr, e as paredes balançando e tal. Então foi uma coisa interessante que eu passei. A outra lá mesmo no Chile, quando eu fui visitar o Corpo de Socorro Andino, é um grupo de malucos voluntários, que vão, quando vem expedição, “Ah Eu vou subir no Himalaia, no Aconcagua, vou subir no sei aonde”, os caras vão e depois tem um deslizamento, alguma coisa, o sujeito fica preso lá na montanha. Aí chamam esses malucos do Corpo de Socorro Andino que são malucos, que são voluntários, eles sobem num carro e vão até o fim buscar, resgatar os caras. Então, convidaram a gente, amigo desse Roland Bauer, saudoso um alemão inteligentíssimo, nos convidou pra ir lá, e chegando lá, o que que eles fizeram? “Ah O Tuca é teu amigo? Vamos batizar ele. Ah Vambora”. E me colocaram aquela roupa de neoprene, capacete, e não sei o que, me levaram num barranco de neve e me jogaram um monte de neve em cima. Pronto agora você tá batizado, já é um dos nossos. E aí foi. Eles tomam uma bebida lá que se chama pisco, que é de alto teor alcoólico, como uma bagaceira, né? E tem uma briga que o Pisco surgiu no Peru ou surgiu no Chile? O mais famoso de lá chama-se Capel. E tem um outro que não é divulgado, chama-se Três Erres, que também é muito bom. Eles tomam aquela bebida com Coca Cola, que chama-se piscola, ou tomam, igual a caipirinha que chama-se pisco soeur. Então a turma bebia aquilo o dia inteiro, depois subia na montanha, tava quentinho, né? Então essa passagem foi muito interessante de viagem.

P - Só uma coisa, você falou de estádio, lembrei, a Mooca tem essa coisa do futebol, que é muito forte dos italianos e tal. Como é que era, você freqüentava o estádio?

R - Juventus. Todos na Mooca tem o primeiro time e o segundo é o Juventus, todos são juventinos, né? E é muito comum ir no estádio do Juventus. Na Rua Javari, aquele Rodolf Crespi, que segundo o filme foi onde o Pelé fez o melhor gol, o gol mais bonito. Ele driblou todo mundo e tal, tal, tal, foi o Santos e eu num lembro o outro, foi o Santos e Juventus, né? Ele tava no Santos. E o estádio continua igual, com arquibancada assim, alvenaria, nada coberto. E, quartas-feiras era… sempre que tinha jogo, íamos, ia toda turminha lá pro Juventus. E eu, sou palmeirense, também tem a turma dos palmeirenses. Na Mooca o que a turma faz? Quando é final, alguma coisa que tem possibilidade grande do Palmeiras não decepcionar, a turma aluga um ônibus, e compra pão de lingüiça, toda essa, sardela, alichela tal, e vai 30, 40 num ônibus pro estádio, sempre um organiza. Aí depois, depois do jogo do Palmeiras e Boca Junior em 2002? Acho que foi 2002, aí a turma desistiu e não vai mais, que foi no Morumbi, mas, é... Tem bastante corintiano, tá bem diversificados, né, em times. Mas Juventus, todo mundo. Chegou Juventus, chegou o clube Atlético Juventus, chegou a ser um dos que tem o maior número de sócios, agora não sei como é que tá. Mas o futebol, ainda tem as encrencas na Mooca de futebol. Mescalez, me lembrei agora a turma que era tradicional, os mescaleros, que. Ah Melhor, tinha uma mais antiga, chamava-se Pepe Legal. A Pepe Legal é da geração do meu pai, Babu, o que foi vereador e deputado federal, Jose Índio dos Santos, o Zé Índio. O irmão dele, o Mauricio, que eram os irmãos Zé Índio, eram dessa turma. O que é que se fazia naquela época de adolescência? Gincanas. Então, a Pepe Legal com outra turma fazia gincana de pular com saco, de dançar, quem dança melhor, time de futebol. Então na adolescência também era comum, que hoje não tem mais, fazer as gincanas. O Babu, O Zé Índio essa turma, ainda ta, tão com uns 60 e poucos anos, voltaram a fazer eventos. Eu tava andando de bicicleta um domingo, vi um evento na Praça Souza Fontes, perto do Juventus, fui ver o que era. Aí tava lá o Babu, que é uma pessoa assim bem querida na Mooca. O Zé Índio também é. O Zé Índio foi vereador, duas vezes seguida e depois foi pra deputado federal, e hoje não tá mais na política, mas são pessoas queridas, e que brigaram aí pela Mooca. Hoje tem uma pessoa em ascensão que é o vereador Adilson Amadeu que também gosta muito da Mooca. Todos na Mooca tem esse perfil, adoram, amam a Mooca, não sai da Mooca de jeito nenhum. E, e o futebol, é bem eminente, é bem forte ali na Mooca. A turma gosta mesmo de futebol, de ir em estádio.

P - E ai essa coisa de fazer Direito agora, como que surgiu?

R - Então, eu tava assim depois de me separei tava pensando, reavaliando a vida e etc, etc. E a minha namorada Márcia: “Pó, você tem um perfil tão legal pra Direito. Vai, vai aproveita, né?” Será que vai será que não vai, então: “Vai ,vai, vai”. E aí conversa com um, conversa com outro, tem uma faculdade ali na Mooca que chama-se Unicapital que já esta lá há 40 anos, até passa desapercebido, né? Onde é o Shopping Capital hoje, que é o único shopping que tem na Mooca. E eu fui lá ver e tal, aliás ela viu, ela incentivou. Fiz os exames normais, nada extraordinário, e o pessoal de lá da faculdade, me telefonou, “Ô vem cá. Ô a gente queria montar uma turma pequena, né? Tem um desembargador, que tá coordenando esse curso, tal, tal, tal, e você tem uma história na Mooca, você tal.” Eu falei: “Olha tenho sim, gostei do propósito, vamos, que…”. Que é que é esse projeto? Esse projeto dessa turma, dessa turma reduzida aí?” E nós somos em 20, 15 a 20 por aí. Uma faixa etária de 30, 40 já, não de 18, 20, que é de quem ingressa na faculdade. Primeiro que a gente vai ter alguns eventos que a gente tá programando pra os 40 anos. Ainda tá em fase de projeto e tal. E depois a gente quer fazer alguma coisa filantrópica. Aproveitar, juristas e fisioterapia, todo o potencial humano que tem lá, através de uma Oscip, uma ONG, alguma coisa destinar algumas horas por mês, né, ainda não tenho isso bem, bem fixado, bem é claro, mas pra poder atender pessoas menos favorecidas. Eu acredito que até o segundo semestre a gente já tenha isso tranqüilo. Então se for pra área de direito, vamos fazer um serviço gratuito pra atender a população, sobre a égide de um mestre, sobre, sobre a coordenação de um advogados, dos coordenadores do curso e vamos poder, vamos poder fazer alguma coisa, é, com esse intuito de fazer feliz a humanidade, de amenizar aí, alguns problemas que seria de dever do estado, né? Essa é a lacuna que a Ong que a Oscip tem que aproveitar. Então é esse, isso também me deu... Tô super entusiasmado, tô até chato às vezes de ficar em todo lugar: “Ah, isso é artigo não sei o quê, artigo num sei que lá, e com a vontade do novato, do aprendiz de querer saber tudo, e com a experiência um pouquinho mais do bode velho, né?

P - E como é que foi voltar pra faculdade agora, já mais tarde?

R - Olha, foi muito legal, eu acho que até interessante, não fazer faculdade com 17 anos e fazer com 40. O teu aproveitamento é outro, a tua visão é outra, aonde você vai aplicar, você já tem uma experiência, o que passou, é maravilhosa, acho que vale a pena, vale a pena. Terceira idade, não posso falar, mas a segunda idade é muito legal. Pra quem tá, fabuloso, fabuloso. E a turma que tá junto, que tem alguns, minoria por incrível que pareça, os meninos de 18 anos, 19, acho que tem dois ou três lá, nesse curso, mas já estão também… que não tem espaço, né? A turma tá lá pra aprender, né, não quer passar e ter diploma, é diferente. “Se vai, preciso passar”, não. Essa é a diferença. Você quer aprender, você não tá preocupado em passar, preocupado em aprender e poder aplicar isso na tua vida, aplicar isso no teu lado profissional e na época que faz você quer passar, ter diploma e trabalhar e vamos levando, né, e vamos ver o que vai. Hoje você fica, fica bravo com você se você num consegue, assimilar a matéria. Do outro jeito não, você vai dar um jeito, cola, copia, faz trabalho, hoje não, você quer provar pra você, você quer ter a experiência, quer ter a sabedoria, você cobra direto a tua sabedoria. É até você enche a paciência do educador, do profissional que tá do teu lado de tanta cobrança, você quer cobrar: “Isso não é aquilo? Isso não é aquilo e tal?”. E o que antes você não tem essa visão. Então acho que se eu passar conscientemente, se é que tem uma outra vida eu vou deixar pra ficar, pra estudar quando eu for mais velho, porque é uma experiência maravilhosa.

P - E uma curiosidade, você teve uma oportunidade de ir pra Itália de conhecer a...

R - Não, não, talvez nós vamos agora em julho, do dia 1 ao dia 14, tudo tá caminhando pra isso. E, agora, é, eu tenho muitos amigos que vêm pra cá. E tem dois em particular que é o Crescenzo e o Adriano. Crescenso Rubinete e Adriano Butaro. Ele trabalha na Bolsa de Milão, o Adriano, e o, e o Enzo trabalha como advogado, né? E eles, chegou a amizade tá tão grande que tá insustentável: “Se você não vai vou mandar te pegar aí, pra você vim pra cá e tal”. E ele tem algumas coisas, tem uma criação no sul da Itália de um gado, de uma vaca em particular que está em extinção. E só essa vaca faz, gera um leite que faz um queijo que é comum no sul, que é artesanal que se chama Caccio Cavalo. É umas bolotinhas assim que é, dentro ele é quase um requeijão e fora é crocante. Eles até recebem um incentivo dos governantes, acho que é uns mil e poucos euros, por vaca, que é pra poder não deixar isso acabar. E essa fazenda, esse lugarejo onde faz, é perto da cidade dos meus avós, que é o Castelo San Lorenzo, Província de Salerno, que tem 4500, 5 mil habitantes. Uma cidade pequena, agrícola. Um paese, um bairro, 4500 habitantes pra nos é um bairro, E, vive da uva e do vinho. Então eu sou louco pra conhecer, esse lugar em especial, vamos ver se tudo der certo.

P - É, você falou rapidamente, sobre o casamento, mas eu queria perguntar como foi a paternidade, como foi ter o Enzo, e o como é o nome dele, o Giulio, como é que foi a mudança de ter seus filhos?

R - Foi uma experiência boa, o Enzo é uma figura interessante, é um político nato. Se relaciona com todo mundo com uma seriedade e tal. E o Giulio, é o mais espevitado, mais malucão, a minha experiência, primeiro que você envelhece uns 50 anos, no momento do nascimento do primeiro filho você já começa a se olhar espelho, já cresce rapidamente uns cabelinhos brancos, na hora, na hora, na hora mesmo. É um impacto psicológico interessante, é uma iniciação, sem retorno. Você tem que ficar velho e acabou. Você tem que ficar responsável e acabou, não tem conversa. E depois, quando veio o Giulio, o Enzo, o Enzo ficou mais velho também na hora. Na hora que ele viu, ele falou: “Nossa Já começou a nascer os cabelinhos brancos”. E ele ficou um cara, não demonstrou ciúme, mas era o, era o reizinho, e perdeu o reinado, né, tem que dividir e tal e tal. E você lidar com tudo isso é uma experiência boa, às vezes ruim, você tem que se informar, você vai buscar a psicologia, você vai buscar com os mais velhos, você vai buscar, como torear, como deixar, esse, essa passagem ser uma passagem mais tranqüila e tentar educar, né? Você se monitorar mais, não tem espaço pra você ficar, pra você demonstrar alguma fraqueza, aí você começa a entender o lado dos teus pais e tudo mais. Quando você é pai você começa a entender esse outro lado. O lado de educador, o lado de ter que deixar você, com respeito. Não poder deixar perder esse tipo de coisa, não poder fumar, não poder fazer algumas coisas que você que não quer que seu filho faça. E aí surge também as divergências maiores no relacionamento também, afloram, né, em todo relacionamento. Que são as divergências de cultura que vem de uma família e outra. Nessa hora que você vai educar, “Opa, não é por ai;”, “Por quê?” “Por que era assim”, “Não, não é assim”, então vem o choque de culturas de... De tudo vem nessa hora também, que é uma fase interessante.

P - Então vamos concluindo, já encerrando, tem alguma coisa que a gente não tenha perguntado que você queria deixar registrado?

R - Não, não tem.

P - E então já pra concluir, assim, como foi que foi dar essa entrevista aqui hoje?

R - Foi, foi, maravilhoso, é, a princípio, você fica apreensivo. Nunca tinha feito nada assim, né, nada parecido. Fica um legado, né, é legal que vai ficar uma coisa pro meus filhos poderem ver um pouquinho da minha vida, e uma oportunidade, que eu queria agradecer a vocês por esta oportunidade, e, uma coisa nova. Obrigada pela oportunidade.

P - Obrigada a gente. (risos)

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