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História

O trilhar de um engenheiro pelas usinas brasileiras

História de: Carlos Mazzaro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Mineiro.Infância no Interior. Indústria Familiar. São Paulo. Engenharia. Itaú Cimentos. Companhia Brasileira de Alumínio (CBA). Descanso na fazenda. Trabalho na aposentadoria

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História completa

P/1 – Doutor Carlos, para começar nossa entrevista, vou pedir para o senhor falar o nome completo, o local e a data de nascimento. R – Carlos Mazzaro, nasci na cidade de Monte Santo de Minas, Minas Gerais, no dia 2 de março de 1928. P/1 – Doutor Carlos, qual o nome dos seus pais? R – Francisco Mazzaro Primo; Justina Meireles Mazzaro. P/1 – E o seu Francisco trabalhava com o que? R – Ele tinha, ele era um italiano, geômetro italiano que veio ao Brasil, não posso precisar bem a data, mas montou uma pequena indústria, era de pequenas turbinas hidráulicas. Eu convivi com ele até depois de formado, ele faleceu em 68 e essa firma continua até 1970, foi quando me tornei empregado, fui trabalhar no Grupo... no Cimento Itaú, Itaú de Minas, fui gerente técnico daquela fábrica. P/1 – O senhor cresceu em Monte Santo? R – Monte Santo. Aos 12 anos eu fui para o colégio, ginásio, em Guaxupé. P/1 – Colégio interno? R – Interno. O curso ginasial foi feito totalmente interno. Eu comecei na cidade de Guaxupé em 1940; em 42 eu parei um ano, fiquei 40 e 41, parei um ano, problema de doença; voltei em 43 e fui ao colégio diocesano em Campinas, depois voltei a Guaxupé, terminei o ginásio em Guaxupé. Era Colégio São Luiz Gonzaga. Depois vim para São Paulo, fiz o colegial aqui. P/1 – Eu queria que você recuperasse um pouquinho as lembranças mais antigas de Monte Santo, quando o senhor era criança, vocês brincavam do quê, como era a cidade... R – A cidade era uma cidade do interior, hoje ela é mais – ela deve ter uns 150 anos – nessa época era uma cidade pacata, uma cidade muito pequena população, mas a vida normal era de uma criança que fez a escola primária. Depois, em 1940, é que fui para o colégio interno, lá não existia ginásio, era só o primário, iniciei fora, interno. O colegial, fiz aqui em São Paulo, em 1945 vim para São Paulo, terminei em 47, terminei o colegial. Fiquei parado um ano também; em 1949 eu fui para Itajubá, onde fiz o preparatório, ingressei na faculdade, em 1950, foi o primeiro ano. P/1 – O colegial o senhor fez aqui em São Paulo, em 45. O senhor chegando em São Paulo, essa cidade já era grande, estava no final da guerra mundial... R – Era grande, mas era muito diferente! Era muito mais pacífico, eu tenho boas recordações dessa época, os jovens tinham outra vida, era uma vida muito mais segura. Hoje, tenho a impressão que mudou muito, mudou para pior. Eu acho que a vida do moço hoje, não sei, eu acho que no meu tempo era mais sadio, você não tinha droga, uma série de coisas que têm hoje. O que existia em São Paulo aqui era o vagabundinho, um batedor de carteira naquela época; hoje você tem seqüestro, você tem o problema da droga. As próprias faculdades hoje, eu acho que elas facilitam muito o mau caminho. Eu moro aqui em Higienópolis, na Rua Sabará, estou perto do Mackenzie, estou perto da PUC também, na Consolação, da FAAP, você vê diariamente, praticamente, 50% dos estudantes dentro da aula e 50% nos bares. Eu acho que no meu tempo não tinha isso não! P/1 – Doutor Carlos, o senhor fez o colegial aonde? Que colégio? R – Eu fiz aqui no Colégio, não tem mais, Alfredo “Pucca”, era aqui na antiga, na Rua Beneficiência Portuguesa, aqui perto, esquina com Brigadeiro Tobias. P/1 – Brás? R – Não, aqui no Centro, perto da Gazeta, antigamente era aqui, na Brigadeiro Tobias com Rua Beneficiência Portuguesa. P/1 – E por que o senhor veio fazer em São Paulo o colegial? R – Foi uma opção, naturalmente pensando em seguir o curso superior aqui. Houve uma facilidade, existiam parentes, familiares, então foi mais fácil naquela época. Porque eu não tinha condição, no interior as escolas no interior eram muito difíceis. Então havia parentes da minha família aqui, os primeiros meses, o primeiro ano eu fiquei, uma questão, familiarmente, a questão de segurança, vai perto do parente que está sendo olhado, está sendo fiscalizado. P/1 – Que bairro o senhor foi morar? R – Eu morei na Teodoro Sampaio, morei também depois aqui na Consolação, vários lugares. Quando terminei, morei em uma república que era praticamente quase na esquina da Paulista com a Angélica, hoje parece, se não me engano, é um prédio da CESP, era da CESP lá. Quando eu terminei o colegial em 47 estava em uma república. Depois fui para o interior, fiquei um ano parado, fui trabalhar com os meus pais, mas depois resolvi estudar, abraçar a carreira de engenharia porque o meu pai tinha uma pequena indústria e aquilo era um incentivo. Meu pai, como era um geômetro, é um técnico italiano, como nós temos aqui na CBA, que mexe com as usinas, então nessa época houve uma influência. Meu pai tinha uma pequena indústria, então precisava, ele se sentia com muito orgulho se tivesse um filho engenheiro. Aquilo também foi motivado, pequena indústria, na época ele tinha 40, às vezes 50 funcionários, aquilo incentivou, motivou, foi uma questão de motivação. De querer abraçar, seguir uma carreira que era do pai. P/1 – Dentro da engenharia a gente tem elétrica, hidráulica, civil... R – O curso em Itajubá era o seguinte: o antigo curso em Itajubá, você sai eletricista mecânico e com direito a civil, com limitações. Minha carteira, por exemplo, do CREA, ela se limita, na questão civil, a pontes, postes e canais, mas posso administrar, posso projetar. O curso antigamente de Itajubá, ele era diferente, você saía engenheiro eletricista mecânico e tinha que defender, no final do curso, a tese era uma usina hidrelétrica, você tinha que participar desde da topografia. No segundo ano, por exemplo, você saía topógrafo licenciado, fiz curso de estrada de rodagem, era um topógrafo licenciado no segundo ano; fiz curso de geologia que hoje, nas escolas de engenheiro eletricista, mecânico, não tem isso, primeiro ano, por exemplo, estudei geologia, o objetivo era dar noções, fazia projeto de pequenas barragens... Então a geologia é um negócio muito importante, é fundamental na construção da barragem o estudo geológico, então não era profundo, mas ele dava uma boa orientação. Então foi isso, e no final do curso, antes do exame final, seria a espécie de uma tese, você tinha que defender um projeto de uma usina do qual você participou durante o ano. Você era chamado por todos os professores da cadeira a defender aquilo que você fez, tinha inclusive até datilografia, os desenhos tudo, e a conclusão disso tudo que você fez numa hidrelétrica, você teria que ver: a usina é econômica, é vantajosa? Porque você vai fazer o estudo de uma usina, tem a questão fundamental, é saber se vale a pena, custos da potência instalada, se compensa, se isso dá, desde aquela época, se isso dá retorno. Você faz um investimento em troca de que? De um retorno, então era o custo do quilowatt instalado, que hoje também isso é observado, você não faz um, construir uma usina hoje sem saber se isso dá retorno, então é melhor comprar a energia, não faz a usina, né? P/1 – Na época que o senhor se formou, como era o mercado da engenharia? Ele era mais voltado para a energia, rodagens? R – Eu não tive muita preocupação com isso. Não era difícil não, eu não tive esse objetivo, não tive isso como objetivo porque a minha intenção era dar continuidade à pequena fábrica que nós tínhamos, era da irmandade, mas eu me lembro bem que não era difícil não. Naquele tempo tinha a Light, e foi uma grande escola do Brasil, foi a Light, fora a escola porque fazia o estágio e o aluno durante o estágio ele já era analisado, a própria Light já admitia; depois veio a Cemig, você tinha as companhias de estrada de ferro, tinha companhia das estradas de rodagem, não era difícil o emprego não. O pessoal geralmente saía do curso e, quando ele fazia o estágio, era admitido, não tinha problema de mercado de trabalho. Eu acho que era mais fácil. Se pensar bem hoje, você pega um filho, estuda um filho, você tem o problema de arranjar emprego para ele, mas antes era mais fácil. Eu não tive esse problema porque tinha outro pensamento, era continuar a pequena fábrica que meu pai tinha, que era em sociedade com meus irmãos, mas eu lembro muito bem, você saía um topógrafo, e podia trabalhar em estrada de ferro, podia trabalhar em estrada de rodagem, a Light, a Cemig, e tinha várias firmas, naquele tempo não tinha grandes fábricas de turbina no Brasil como nós temos hoje, a Ford, a mecânica pesada, que é a Alstom, não tinha. P/1 – Estava começando o desenvolvimento da indústria de base, né? R – Eu acho o seguinte: a década de 50 é um marco, que eu lembro bem, muito importante no Brasil, que é a década da indústria automotiva, e também quando eu formei, o Brasil não tinha 10% de potência aproveitado. Não tinha, era em torno de 7%. A década de 50 é que é um marco muito importante na indústria automotiva, também na mecânica pesada, e também da eletricidade, porque aí nasceu muitas companhias, o Brasil não tinha nada nessa época, era muito pobre em energia elétrica. Nessa época, a própria São Paulo tinha muito problema. A própria CBA é um exemplo, foi escolher um local para montar a fábrica, que o certo era montar em Poços de Caldas porque a jazida era lá, então ela foi procurar um local onde a Light tinha uma condição de fornecer energia. Viesse para São Paulo, dentro de São Paulo, não tinha; a própria CBA escolheu o local porque existia uma disponibilidade pequena, e o que motivou o Doutor Antônio a fazer as usinas hidrelétricas? Foi a dificuldade de ter energia. Em 73, quando eu entrei na companhia, ele era inclusive até criticado: “Por que não aumenta a fábrica ao invés de fazer as usinas hidrelétricas?”, porque já começou a ter energia disponível, mas ele achava que com o tempo ia ter problema. Hoje ele tem uma participação de mais de 50% no consumo de energia, com energia própria e é devido a isso, acho que isso foi um grande pensamento dele, eu acho que foi um expert nesse particular. P/1 – Qual era o nome da fábrica do pai do pai do senhor? R – Era F. Mazzaro Primo – era o nome do meu pai, Francisco – Construções Mecânicas. Eu consegui fazer até, eu fui monitor e assistente catedrático em mecânica aplicada. Com ele, depois, eu construí e projetei laboratórios de hidráulica n ITA, na escola de Curitiba, de Goiânia, Campina Grande e também em Itajubá. Pequenas máquinas para laboratório, para ilustrar, para o aluno ver o que era uma turbina, como aquilo funcionava, e com detalhes que você via, por exemplo, tinha visor, você podia ver o motor da turbina funcionando, questões de teoria, por exemplo, eu fui um projetista de teoria hidráulica. Tudo aquilo, detalhes, eu procurei mostrar nas máquinas que nós fabricamos, o interessante de ser observado em uma máquina. Tinha o visor, você via, por exemplo, a máquina funcionar, como era o impacto do jato d’água em uma turbina Pelton. Eu fiz isso aí também, isso aí foi um marco muito importante na minha vida, mas isso aí infelizmente acabou no ano de 70. P/1 – A fábrica? R - Foi o seguinte: o meu pai faleceu em 68, a firma estava sólida, muito boa, mas os meus irmãos, eram cinco irmãos: um médico, e quatro não, eu engenheiro e dois técnicos, mas logo após o falecimento do meu pai, foi em 68, em 70, meus irmãos, os mais velhos, começaram a ficar meio desanimados. Existia um grupo suspenso, a firma estava muito sólida, e eu queria ampliar, eu queria fazer não só esse ramo de fabricação de máquinas e hidráulica, como também máquinas agrícolas, e eles achavam que já estavam cansados: “Olha, você continua, nós lhe vendemos a nossa parte.”, eu não quis. Teria que enfrentar praticamente sozinho. Aí estavam fazendo uma usina do Cimento Itaú, Itaú de Minas, e eles ficaram sabendo desse interesse da gente parar com a indústria, então o Doutor Zé Mário Tavares de Oliva foi que conversou comigo: “Se você vai parar” – eles estavam montando uma usina termo - “Existe a possibilidade de você ser o gerente técnico dessa fábrica, você quer?”, eu falei: “Posso pensar nisso.”. Eu não posso abandonar, existe o problema, a minha sociedade é muito pacífica, não há desarmonia, e o desinteresse de continuidade, porque eu não quero, eu não tenho uma intenção, existia um grupo suspenso, se eu dividisse aquilo eu não tinha condições de fazer novos investimentos. Ele viu isso, falou: “Eu posso estudar isso.”, eu falei: “Eu tenho que vender o equipamento.”, aí ele falou: “Eu posso estudar isso.”, eu falei: “Tudo bem.”. Até foi uma coisa muito interessante. O Doutor Zé Mário, ele era o líder ali no Cimento Itaú, aliás, ele era muito conhecido até do Doutor José Ermírio, então ele era um homem de palavra, ele disse: “Você vem para cá, no final do ano eu compro seu equipamento, mando fazer uma avaliação e compro seu equipamento!”. Eu achei isso aí muito, condição muito, palavra, negócio de palavra, levar isso aos meus irmãos que eram sócios: “Ele falou que compra!”, palavra, mas: “Eu vou estudar isso.” Eu levei isso aos sócios, meus irmãos: “Qual é a garantia que ele dá nisso aí?”, aí voltei a falar com ele: “É minha palavra. Você vem para cá, inclusive seus irmãos continuam lá, parte da manutenção da fábrica de cimento Itaú, uma parte eu dou para você. Você vem para cá e assume a gerência técnica, e no final do ano eu acerto.”. E isso aconteceu, meus irmãos foram convencidos disso aí e ele comprou todo o equipamento mesmo. Um irmão, quando eles estavam na fase de ampliação, estavam construindo a fábrica lá em Curitiba, um deles foi chefiar a manutenção mecânica, e eu fiquei na Itaú de Minas, em 1970, 71, saí de lá em 73. Foi quando eu entrei na CBA. P/1 – Nessa época, a Cimento Itaú não pertencia ainda ao Grupo Votorantim? R – Não, não. Quando saí de lá, não me recordo, eu saí em meados de 73, e se não me engano foi comprado em 78 parece, 77 ou 76, porque eu estava aqui, eu não me recordo qual a época que a Cimento Itaú foi comprada, mas deve ter sido em 76. P/1 – Itaú de Minas é perto de Monte Santo? R – É perto, 70 quilômetros da minha cidade! Você tem aqui, minha cidade é divisa com o estado de São Paulo, é um município, até eu tenho uma fazenda ali que está na divisa de Minas com São Paulo, bem na divisa. Eu não sei se você conhece aquela região de São Paulo, Mococa, conhece? P/1 – Conheço, conheço Itaú de Minas também! R – Ah, conhece a Itaú de Minas? Então você conhece, você sai daqui, vai pela Bandeirantes, você vai Casa Branca, então você passou na porta da minha cidade. P/1 – Sim! R – Exatamente na porta da minha cidade. A Itaú de Minas, você sai, São Paulo, Bandeirantes, vai Casa Branca, vai Mococa, na divisa você pega Minas Gerais logo que passa a cidade de Aceburgo, depois tem uma derivação, Guaxupé, e sai para Passos, você passou na porta da minha cidade. Aí você vai a São Sebastião do Paraíso, Itaú de Minas, Passos. P/1 – Lá em Itaú de Minas tem a fábrica de cimento, o que tinha na região que propiciou a instalação da fábrica? R – Lá existia calcário, o fundamental é o calcário, é uma região de calcário. Isso aí foi um grupo, Siqueira Meireles de Oliva. Naquela época o Brasil, não posso precisar bem, importava muito cimento, eu lembro na idade de criança, hoje eu estou com 77 anos, eu vi cimento que foi importado em barricas, eu vi isso! Eu lembro bem, em mais de meus sete, oito anos, eu lembro disso porque meu pai mexia também com obra, então eu lembro disso aí. A fábrica de cimento Itaú eu não posso precisar bem, mas eu acho que era da década de 38, 1938, se não me engano, foi fundada em 1937, 38, tenho quase que certeza foi nessa época, não estou bem lembrado. Mas ali é uma região calcária. Você pega ali Itaú de Minas, vai depois Formiga, você vai Belo Horizonte, onde eles tinham também uma fábrica, depois fecharam. Quando eu assumi a gerência, eu tive que ficar um mês lá em Belo Horizonte, que precisava introduzir em Itaú de Minas uma modificação, principalmente na questão, tinha muitos funcionários, tinha que fazer uma redução, e eu fiquei, era uma fábrica muito parecida em Belo Horizonte, um mês. Depois o meu trabalho foi fazer um organograma, um objetivo: reduzir pessoal. Quando entrei na CBA, o primeiro trabalho meu aqui, existiam duas usinas, França e Fumaça, então perguntava para o chefe qual o seu pessoal aqui, ele trazia uma lista, eu falei: “Não, quero saber… Monta um organograma. Eu quero que você monte: quantas pessoas trabalham aqui, onde trabalham...”, na montagem começou a aparecer gente que estava sobrando. Fiz uma redução aqui, na Itaú de Minas, quando entrei, eu participei de uma redução, lá tinha 1200 operários, foi reduzido para 900, 950 depois. P/1 – Que época que é mais ou menos? R – 70. Em 1970. P/1 – Como reduzir pessoal e manter a produção? É a época do milagre econômico... R – Você faz um organograma, hoje você faz até uma redução por terceirização, mas naquela época, eu acho que havia muita consideração: “Aquele rapaz é filho do fulano, fulano trabalhou tantos anos aqui.”, é muito paternalismo também, e às vezes eu acho que o funcionário não era bem aproveitado. Tanto que quando eu comecei a fazer isso lá, foi por seção: pega a parte de manutenção mecânica, na parte de manutenção você tem a parte elétrica e tem a mecânica. Você vai para uma jazida, você faz uma montagem, você analisa qual o desempenho, hoje você pode, hoje é diferente, a informática hoje, ela é a grande culpada pelo desemprego (risos), que reduz muito hoje. Naquela época o objetivo era reduzir pessoal também, já se começou a pensar isso. Como era fábrica muito antiga, então foi analisado, não caiu nada a produção; alguma coisa foi terceirizada, muito pouco, existia muita gente lá desnecessária. Aqui, por exemplo, quando eu verifiquei o número de funcionários que existiam na usina França e Fumaça, houve redução. A hora que montou, não se justificava aquilo. Tinha muita gente de serviços gerais, por exemplo, para fazer o que? Aqui aconteceu comigo uma redução da usina França e Fumaça. Depois, na montagem da primeira que eu participei da construção e montagem da equipe, foi a usina Alecrim. Foi estudado: quantos precisam aqui, quantos precisa por turno, é uma montagem: quantos precisa de operador? Tantos por turno; a manutenção mecânica? É isso, então isso foi tudo estudado o número de funcionário para o exercício da função. As usinas, por exemplo, do Juquiá, elas têm um problema, elas têm um problema que não tem estrada, então você é obrigado a manter ali manutenção de estrada, tem transportes porque tem que transportar filhos para a cidade próxima, o que não acontece hoje na usina de Piraju, que foi concluída há dois anos atrás, é uma filosofia completamente diferente. Por exemplo, na usina do França, na usina da Fumaça, na usina do Alecrim, na usina Serraria, Porto Raso e Barra, você tem que ter até a casa dos funcionários porque eles têm que residi lá. Usina, por exemplo, de Piraju, não tem que ter nada. A usina de Piraju o pessoal mora na cidade de Piraju, como que transporta? Terceiriza. Aconteceu também na fábrica de cimento Itaú, o que tinha? As casa eram tudo, como era na Votorantim também, as casas, os funcionários moravam tudo lá. Aquilo dava um problema sério, você tinha que fazer manutenção nas casas. P/1 – São as chamadas Vilas Operárias? R – É. Depois, o que aconteceu? Logo que eu saí de lá, foi uma idéia minha, pegar aquelas casas, dar para os empregados por um valor irrisório. Como você tem que fazer uma transferência, não pode ser de graça, então foi feito isso lá. Faz muito tempo que eu não vou à Itaú de Minas, porque hoje passou tudo para a fábrica Taboca, quando a gente tinha colocado o primeiro forno via seca, eu participei daquilo, toda a coordenação foi minha. Lá naquela fábrica da Taboca existia um forno quatro que não era via úmida, a fábrica de cal, a fábrica de pó calcário. Por que existia essas seis fábricas na Cimento Itaú? Porque o calcário não é homogêneo, você tinha problemas do calcário que não serve, por exemplo, para cimento, serve para cal? Então ia para a fábrica de cal; não serve nem para cal nem para cimento, tinha o pó calcário, que é um corretivo. Essa montagem na Taboca era um forno quatro, tinha fábrica de cal, de pó calcário, isso estava, a gerência técnica absorvia tudo isso. Depois foi o forno cinco, hoje eu não sei como está aquilo, eu coordenei tudo aquilo, junto com a F. Smith, a obra civil; eu saí de lá quando entrou em operação o primeiro forno via seca. Nessa época, antes de entrar em operação, a fábrica de Cimento Itaú, a diretoria, me proporcionou uma visita às fábricas todas no norte, da Votorantim. Fiquei 20 dias lá em Recife conhecendo as fábricas da Votorantim, João Santos, depois fui conhecer uma na Paraíba... A gente não tinha treinamento de via seca, tinha os treinamentos, mas teórico; eu fiquei 20 dias em Pernambuco, fui na Paraíba. P/1 – Se o senhor fosse – eu sou leiga no assunto – se o senhor fosse me falar como se fabrica cimento, como se fosse uma receita de bolo, pega o calcário... tira água, bota água, o que faz? R – O via seca e via úmida. O via úmida não é mais possível pelo seguinte: gasta muito combustível; o via seca gasta menos óleo. Uma das coisas que você parte da fabricação de cimento, é extração do calcário. Você tem a moagem, depois ele é calcinado, faz o clínquer, aí é adicionado também, não só o calcário, entra também uma argila, é adicionado. Você tem muito detalhe, então vai ser complicado para você. Você tem os processos de homogeneização, você tem o calcário que é adicionado à argila, tem os silos que fazem a homogeneização, depois aquilo entra no forno para calcinar, aí sai o clínquer; quando saí o clínquer, você depois vai para os moinhos de cimento que têm uma pequena – hoje não adiciona muito mais para dar o tempo de pega – usa muito escória de alto forno. Mas é um processo que para falar aqui é meio demorado. P/1 – Esse é o processo seco? R – Basicamente é o calcário. Extração do calcário, moagem do calcário, tem que fazer a farinha, chama-se farinha, farinha crua. Ela recebe homogeneização, que é adicionado um pouco de argila para poder ter o cimento, aí é calcinado, entra no forno para sair o clínquer – parece nozes que come no Natal – aquilo é o clínquer. Dali é moído e às vezes é adicionado gesso, parece que hoje não adiciona mais o gesso para dar o tempo de pega, parece que hoje não está usando quase mais gesso, está usando mais escória. P/1 – E o que muda na produção da cal? Para se produzir cal, qual a diferença? R – A cal também é o mesmo processo de moagem do calcário e ele entra – pelo menos no tempo que eu estava lá, hoje eu não sei que tipo de forno está usando, antigamente era um tal de forno ASB, era um forno à base de lenha. Você tem a cal primitiva, era aqueles fornos que você tinha de barranco, aqueles que você punha o calcário lá, aquilo era calcinado naqueles fornos, o processo ASB é diferente. Hoje não usa mais fornos de barranco, era a cal; hoje você faz a cal hidratada, depois de feita a cal, ela é hidratada. A cal, antigamente, você tinha que fazer o que? Arranjar um buraco, jogar a cal lá dentro, jogar água, e ele calcinava, hoje ele já é feito, ele já é hidratado. P/1 – Quando se deu seu ingresso na CBA? R – Quando se deu? P/1 – É. R – Dia 16 de abril de 1973. 73. Vai fazer agora em abril 32 anos. P/1 – É uma vida, né? R – É, é uma vida! P/1 – Quais foram as circunstâncias do ingresso do senhor na CBA? Foi um convite, o senhor mandou currículo... Como foi isso? R – Foi uma coisa interessante. Eu estava no Cimento Itaú e eu já tinha idéia de não continuar mais lá, apesar de ter estudado isso no curso, tinha noções do que era uma fábrica de cimento, mas eu achava que aquilo não era, meu ideal não era aquilo. Depois, eu tinha dois filhos, eu pensei na educação também de filhos e pensei muito em vim para São Paulo. Vindo para São Paulo eu tive a oportunidade de entrar na Cesp. O Doutor Miguel Carvalho Dias tinha um primo, Doutor Souza Dias, ele era presidente da Cesp. Eu já conhecia o Doutor Souza Dias há muitos anos atrás porque ele era dono de uma concessionária, era a Companhia Luz e Força de Mococa. Quando eu tinha a minha firma eu prestei muitos serviços para ele, e eu conheci o Doutor Souza Dias. Uma certa vez, eu estava no Cimento Itaú, às vezes eu encontrava com ele, ele falava: “Eu acho que a tua vida não é essa, cimento, sua vida é energia elétrica, máquinas hidráulicas... Você quer ir para Ilha Solteira?”, eu falei: “Não gostaria de ir para o canteiro de obras, não.”, “Por que?”, “Levar filho...” – eu tinha dois filhos pequenos naquela época – eu falei: “Doutor, se fosse para ficar em São Paulo, eu até aceitaria, mas para obra, não gostaria não.”. Então ele queria também, e como ele era acionista da Companhia Geral de Eletricidade, que era de Guaxupé, uma concessionária, houve a idéia de eu ir para lá, mas não deu certo. Quando eu saí do Cimento Itaú, eu tinha pensado em mexer com fazenda, eu tinha uma fazenda. Eu saí do Cimento Itaú, eu saí em março, e vim a São Paulo, e aqui encontrei um primo da minha esposa que trabalhava na Alcan, ele chamava-se Ernesto, Antônio Ernesto, e ele conhecia um rapaz que tinha saído da Alcan, era o Mazzoni, era conhecidíssimo do Antônio Ernesto que trabalhava também na Alcan. Ele disse assim para mim: “O que você está fazendo?”, “Eu estou parado! Agora vou ficar de férias por conta própria, vou mexer com fazenda!”. O Antônio, que era tio da minha mulher: “Você não pode fazer isso, a tua vida não é essa!”, eu falei: “Antônio, o que você tem a ver com isso?”, eu brincava com ele, a gente tinha muita liberdade: “Eu vou te apresentar uma pessoa aqui que está na Votorantim, eu soube que está procurando um engenheiro que é para a usina de Alecrim.”, ele nem sabia o nome da usina. Eu falei: “Antônio, eu não vou fazer isso não! Vamos largar de conversa, eu vou pagar um almoço para você.”, e fomos almoçar junto. Isso foi em final de março, não posso precisar o dia, mas ele insistiu, disse: “Você vai conhecer o Mazzoni! Mazzoni é um expert em alumínio, ele foi contratado pelo Doutor Antônio, ele saiu da Alcan e ele me falou que estava na Alcan, ele é novo na Alcan... E comentou esse assunto que estava procurando um engenheiro.”, e como veio a calhar isso, eu falei: “Mas eu não vou mexer com isso.”. Ele insistiu, ele me trouxe aqui após o almoço, foi conversar com o Mazzoni: “Realmente estou precisando. O Doutor Miguel me recomendou aqui se conhecesse algum engenheiro para mexer com usinas. Você traz o currículo.”, eu falei: “Tá bom, vou trazer.”, mas eu não estava querendo nada, e saí com o Antônio. Ele me levou na Alcan, era aqui na São João, foi fazer meu currículo. Eu falei: “Antônio, eu quero descansar, você quer me botar em um emprego? Eu quero ficar pelo menos uns quatro, cinco meses parado, mexer com outra coisa, comprei uma fazenda já faz tempo, não estou tendo tempo de apreciar aquilo.”. Ele insistiu e eu fiz o currículo, e fez vir comigo aqui entregar o currículo. Entrei, em frente à minha sala era a sala do Mazzoni, a minha sala atual, terceiro andar.. Ele veio, estava tudo bem: “Antônio, passe bem, até logo, eu vou embora.”, e fui embora. Chegando na minha cidade, me convidaram para ser entrevistado, aí a minha mãe já era viúva, a minha esposa: “Antônio conhece isso lá, você vai perder uma oportunidade dessa, estão te chamando.”, “Mas eu queria ficar parado... Eu vou lá e vou pedir um prazo!”. Vim aqui, fiquei uns dez dias sendo entrevistado pelo Doutor Miguel: “Agora você vai conhecer a usina tal, França.” – fui na usina do França – “Agora você vai conhecer a Atlas.” – era a diretora Cássio, fui na Atlas – “Agora você vai conversar com o Hoffmann.” – fui entrevistado pelo Hoffmann – aí vinha o Doutor Miguel: “Você vem aqui à tarde.”, ia à tarde, aí: “Você vem aqui amanhã cedo.”, levantava cedo. Aí ele começou a conversar, o Doutor Souza Dias ligou para ele, e o apelido do Souza Dias era Tito, Doutor Tito. (PAUSA) P/1 – O senhor estava falando... R – Nessa entrevista com o Doutor Miguel, o Doutor Souza Dias ligou para ele, não sei qual era o assunto, e o Doutor Miguel: “Ah, Tito...” – era Tito – e quando terminou o telefonema, eu falei: “É o Doutor Souza Dias?”, “Você conhece ele?”, falei: “Conheço, conheço ele demais!”, “Ah, é? Você conhece?”. Aí conversou comigo: “Você volta amanhã cedo aqui.”, o que ele fez? Ele foi conversar com o Doutor Souza Dias (risos), aí o Doutor Souza Dias disse assim: “Eu estou atrás desse rapaz para levar ele para Ilha Solteira e ele não quer ir. Eu conheço ele demais, pega ele!”. Estava começando já a montagem das máquinas do Alecrim. Aí ele não falou nada, mas o Doutor Souza Dias me disse depois, eu conhecia muito o Doutor Souza Dias, aí foi quando o Doutor Miguel: “Vamos fazer o seguinte: você volta aqui à tarde, nós vamos ter uma entrevista com o Doutor Antônio.”. Sabe como foi a entrevista do Doutor Antônio? Subiu eu e o Doutor Miguel na sala do Doutor Antônio, Doutor Antônio estava escrevendo: “Ah, é, isso. Olha na mesma proporção que eu não te conheço, você não me conhece, se você acha que tem condições de assumir o cargo, está contratado!”. A entrevista com o Doutor Antônio foi desse jeito. P/1 – Essa foi a entrevista? R – Foi! P/1 – E o senhor saiu da sala dele com que sensação? R – Aí eu falei: “Doutor Miguel, eu quero um mês de prazo para vir para cá.”, “Não, não. Tem que ser imediato!”. Foi no final de março, fiquei mais de uma semana sendo entrevistado aqui, foi quando entrei aqui no dia 16 de abril, e eu não tive tempo de nada! Foi para o espaço a minha idéia de ficar uns dias na fazenda. Até hoje tem a fazenda, mas todo sábado eu vou lá, toda sexta-feira (risos). Mas é isso aí, o começo da minha vida aqui na CBA foi desse jeito. P/1 – O senhor veio com a família toda? R – Aí demorei uns dias porque os meus filhos já tinham iniciado – tinha dois filhos só, um casal; um que hoje é engenheiro agrônomo e o outro é professora, o terceiro é paulistano, é o único estrangeiro que tem na minha casa, eu falo isso para ele, o resto é tudo mineiro, o mais novo nasceu aqui – eles vieram para cá em junho, foi quando eu comprei um apartamento aqui na Rua Maranhão. Aí que eles vieram para cá e eles foram matriculados no Rio Branco, os dois, eram garotos ainda. Um é agrônomo, toma conta da minha fazenda, e a filha, ela reside, é professora, está em Rio Preto. Minha esposa também é professora, ela formou-se depois de casada, na PUC, foi a primeira aluna. P/1 – Olha! E seu Carlos, como começou o seu dia-a-dia de trabalho? O senhor tinha que ir sempre fazer visita às usinas ou ficava sempre em São Paulo? R – Aqui? Inicialmente, a minha preocupação maior foi a usina do Alecrim porque eu tive que ir na usina de Alecrim, tive que formar o quadro operacional, tinha que participar da montagem, não existia residência, o começo não foi fácil, não, porque eu comecei a entrevistar o pessoal da Light – naquele tempo existia Light, não era nem Eletropaulo – para formar para treinamento de operadores e de manutenção, foi feito anúncios em jornais e foi feito entrevistas. Bom, tinha que achar primeiro um chefe para a usina, isso foi uma coisa interessante. O primeiro chefe de usina está comigo até hoje. P/1 – Como ele chama? R – É o Gilberto. Mas o Gilberto, quando foi para ser chefe da usina de Alecrim, tinha um chefe na usina do França que se chamava Adalto Ragoni, ele era muito conhecido do Miguel, era antigo, e ele queria ir para o Alecrim, então ficou meio complicado a admissão do Gilberto porque o Adalto queria ir para o Alecrim, e o Gilberto, tirei ele da Light. Ficou acertado de que o Gilberto seria treinado para assumir França, usina do França, e o Adalto iria para Alecrim. Foi o que aconteceu. P/1 – Para Alecrim? R – Para o Alecrim. O Adalto foi para o Alecrim... P/1 – Para a gente registrar, senhor Carlos, a usina do França fica em que cidade e a Alecrim fica em que cidade? R – Você tem ao longo do Juquiá, próximo aqui de Juquitiba, você tem a usina do França. O Rio Juquiá nasce aqui em São Paulo, vem, ele vai desaguar lá em Juquiá, atrás de Juquiá, você tem seis usinas aí. O primeiro aproveitamento é o França, segundo aproveitamento é fumaça, aí eles começaram no quinto, do primeiro para o segundo, depois passaram para o quinto, que é Alecrim, depois foi feito o sexto, depois foi feito o quarto, depois foi feito o terceiro, quais são? O primeiro é o França, segundo é Fumaça, terceiro é Barra, quarto é Porto Raso, quinto, Alecrim, sexto, Serraria. Então havia os dois primeiros aproveitamentos que existiam aqui duas usinas, França e Fumaça, estava sendo construída Alecrim. Então o Gilberto assumiu, foi treinado para ficar na usina do França e o Adalto acompanhando a conclusão da montagem, comigo, da usina Alecrim. Depois não deu certo com ele lá, houve um problema com ele, administrativo, e foi mandado embora. P/1 – Alecrim não tinha nem a Vila dos Operários? R – Não tinha nada! Só tinha só da obra, só da obra. E inclusive o projeto de todas aquelas casas do Alecrim, na margem do Rio Juquiá, fui eu que fiz. Então montei a primeira, fui eu que montei; depois Serraria, eu também montei a equipe. Na montagem, em meados da usina Alecrim eu sofri um acidente violento. P/1 – De carro? R – De carro. O motorista vinha me trazendo, Doutor Antônio me convocou para que eu viesse para São Paulo, nós no carro, eu e o motorista, veio uma caminhonete, deu uma trombada. Fiquei quatro meses no hospital. Na construção da usina Alecrim. Depois eu me lembro muito bem, quando terminou, foram feitos os primeiros ensaios da usina, Doutor Antônio quis ver, fui de bengala! Na usina Serraria. Depois veio a Porto Raso, depois veio Barra, depois foi Iporanga. Ao longo do Juquiá você tem seis usinas: França, Fumaça, Barra, Porto Raso, Alecrim, Serraria. Tem uma no Rio Açungui que é um afluente do Juquiá, o Rio Açungui, que é em Iporanga. P/1 – Deixa eu esclarecer uma coisa: essas usinas todas que estão ao longo do Juquiá, elas pertencem à CBA ou ao Grupo Votorantim? R – CBA. P/1 – CBA? R – CBA. Essas usinas são exclusivamente para a fábrica de alumínio. P/1 – Para potencializar a produção de alumínio? R – É. Exclusivamente. Todas as usinas que eu mexo são, fora da Santa Cruz, que eu sou diretor na Santa Cruz, que é diferente. P/1 – Ela tem um perfil diferente? R – É. Eu sou diretor vice-presidente na Santa Cruz e gerente geral de produção e transmissão de energia elétrica na CBA. P/1 – Que é um segmento, né? R – É. Eu entrei, sou o diretor mais antigo da Santa Cruz, não sei se você sabe disso. O Geraldo veio depois, depois veio o Derma. P/1 – Por que elas são diferentes? Eu queria que o senhor registrasse para a gente por que elas são diferentes. R – A Santa Cruz é uma concessionária de energia elétrica, ela gera energia e distribui, compra energia e distribui. São 34 localidades. E a CBA, as usinas exclusivamente para a fabricação de alumínio. Você tem essas seis usinas no Juquiá, mais uma no Açungui, são sete, de Iporanga, oito e Jurupará, nove. Essas são com linhas de transmissão que vão diretamente à fábrica. Piraju e Ourinhos, essa que eu estou terminando, são integradas. Elas geram e jogam no sistema, e através do sistema a fábrica recebe energia, é diferente. As nove usinas da CBA têm uma linha de transmissão que leva à fábrica; Piraju, Ourinhos e Canoas, que a CBA tem uma participação, essa energia é injetada no sistema, o sistema integra, paga um pedágio, íntegra. A Santa Cruz tem três usinas dentro de Piraju mais duas pequenas, são cinco usinas. Ela participa com 30%. Ela é auto-produtora com 30% da energia que ela distribui. São 34 localidades no Vale do Paranapanema e duas, são três no Paraná. No estado de São Paulo você tem: Ourinhos, Avaré, Piraju e Santa Cruz do Rio Pardo, são quatro regionais, essas quatro regionais foi idéia minha, antigamente era um gerentão. Quando a CBA comprou a Santa Cruz, o objetivo não era ser concessionária de energia elétrica. P/1 – Qual era o objetivo? R – O objetivo era fazer a usina de Piraju. Era uma situação litigiosa na época entre os proprietários da usina de Santa Cruz e a Cesp. O que era o litígio? As condições do litígio: a Santa Cruz falava assim: “Eu tenho o direito de fazer essa usina!”, a Cesp falava: “Não, eu tenho direito nessa usina!”. Aquela briga. Surgiu a idéia, como os antigos donos da Santa Cruz já estavam idosos, já estavam cansados daquilo, de vender a Santa Cruz. Então o Doutor Souza Dias, primo do Doutor Miguel, é que nasceu essa idéia: “Compra a Santa Cruz, passa a distribuição para a Cesp e você fica com o direito de fazer a usina.”. E foi isso que aconteceu, em 1979. Eu já entrei como diretor, mas o tempo necessário para passar para a Cesp e a gente continuar o projeto de Piraju. O projeto de Piraju era uma usina de 150 megawatts. O aproveitamento era diferente, mas ela feria muito a questão ambiental, e era um estudo antigo, estudo da Cesp, da Canambra - Canambra foi uma contratada na década de 50 para fazer estudos de todo o potencial hídrico do Brasil. P/1 – Como ela impactava o meio ambiente naquela época? R – Vou explicar. Você para poder ter uma queda maior, tem uma potência maior. A potência hidrelétrica, ela é em função de um desnível e de uma vazão. O desnível é em metros e a vazão é em metros cúbicos por segundo, certo? Então o produto desses dois fatores dá a potência – podia explicar isso em física, mas vai complicar – então quanto maior a queda, maior a potência. Para obter uma queda maior que era o projeto 50 metros de queda, tinha que desviar o rio, isso é um impacto ambiental há muitos anos existente, mas que ninguém levava muito em consideração, na época ninguém levava, isso passava. O estudo foi feito, na época nasceu a questão, a exigência muito da questão ambiental. Quando foi feito o EAIMA, o estudo de impacto ambiental, o EAIMA, não foi aprovado e não houve defesa, não tinha como defender isso daí. Era: “Faz o seguinte, não vai tirar toda a água do rio, bota uma válvula dispersora com uma vazão de 10 metros cúbicos e você vai desviar aí 200 metros cúbicos. Deixa, não fica sem água nesse trecho, nesse meandro, não fica um meandro seco.”. A cidade de Piraju, também aquelas usinas da Santa Cruz paravam de gerar, mas ficava água no reservatório, mas isso não foi adiante. Isso é difícil ser aprovado. Ficou aquele negócio: passa para a Cesp, não passa para a Cesp, discute o direito, não discute o direito, e chegou ao ponto – eu sofri muito com isso porque nessa fase a concessionária não fazia investimentos, e uma concessionária de energia elétrica, ela tem que automaticamente fazer investimento. Cresce, o crescimento vegetativo é 5, 6% ao ano, mas você tem que fazer investimento, tem que atender – a Santa Cruz estava ficando para trás, não fazia investimento. O negócio foi se complicando ao ponto de interferência inclusive, naquele tempo era o DNaEE – Departamento Nacional de Energia Elétrica. Quando não houve a possibilidade de fazer a usina, ficou esse problema do impacto ambiental, então o Doutor Antônio resolveu assumir a Santa Cruz, aí foram feitos investimentos. Com o decorrer do tempo, mudou a lei de concessão, hoje as concessões não são mais, você não requer mais a concessão, elas são licitadas. Piraju foi a primeira: “Quem dá mais? Quem dá mais vai fazer a usina.”. Quem mais oferece um valor para o que hoje é a Anel, você tem o direito de construir a usina, mas é leilão, é licitado, foi concorrido. A CBA comprou a Santa Cruz para ter o direito e acabou não tendo nada desse direito, quase que perde porque houve candidatos também à proposta, felizmente a CBA ganhou. Foi refeito o estudo de Piraju, não pôde ser mais os 150 megawatts, é 80, por que? Perdeu queda, a queda que era 50 metros passou a 25, então a potência é menor em função da queda, a água é a mesma, mas a queda, o desnível é menor. A história da Santa Cruz e das usinas da Santa Cruz é essa, em linhas gerais é isso (risos). P/1 – Quando o senhor começou na Votorantim, quais eram os principais valores do Grupo, da família Ermírio de Moraes que o senhor percebeu e incorporou? Quais são os exemplos? R – Eles sempre foram um exemplo, eu acho que quando eu entrei o Grupo já era grande. A CBA também era uma fábrica que estava já se projetando na indústria de alumínio; a Alcan não era isso, era maior, como ainda é, mas em complexo industrial, a CBA é maior hoje. O Grupo naquele tempo já era grande, hoje é monumental, sei lá quantas vezes ele é mais, não sei, mas na época ele já era conhecidíssimo na área de cimento. Cimento, Votorantim era o máximo em cimento! P/1 – Referência. R – Era a Votorantin, era o Itaú, era o Grupo João Santos. Ele era respeitado. Depois derivou para a indústria de alumínio, metalurgia em geral, o níquel. O grupo já era grande, hoje é monumental, eu nem sei quanto, qual o valor, quantas vezes é mais do que em 73, eu não tenho a menor idéia. P/1 – Certo. O senhor se lembra do seu primeiro dia de trabalho na Votorantin? Foi aqui na Praça Ramos, foi em outro local? R – Lembro! Para dizer a verdade foi meio constrangido. Você vai ficar em uma sala cheia de gente, um cantinho em uma mesa que mal e mal eu podia botar minha cadeira. Eu saí, eu tinha uma indústria, fui para um cargo na Itaú de gerência, tinha secretária, tinha tudo (risos), de repente entrei em um cantinho de uma sala onde tinha a tal de mecanizada, uma mesa cheia de coisa, não tinha onde ficar. Foi meio, foi um impacto! Foi violento, mas entrei em equilíbrio, falei: “Não é possível que vai ser desse jeito!”, então eu achava muito bom quando tinha que ir para a usina. P/1 – O senhor gosta de estar na usina? R – Não é só gostar da usina não, é que o local que me colocaram no primeiro dia foi horrível. Não tinha, aí depois vim para uma sala próxima onde está hoje a secretária do Doutor Miguel, ali tinha um rádio: “Alô, 591.”, tinha tudo por rádio, uma barulhada do diabo. P/1 – Rádio para se comunicar com as outras unidades? R – É, para se comunicar com as outras unidades. Sala ao lado do Doutor Miguel, aí melhorou um pouco. Depois que, porque não tinha muito espaço aqui no terceiro andar. Mas o primeiro dia, foi impacto! Você é contratado engenheiro, então houve um negócio meio violento. Quando eu fui para a Cimento Itaú, fui para uma sala, gerente, tinha uma mordomia, aqui nunca fui de mordomia, mas de repente, vir para cá e não saber onde vai ficar... Hoje mudou um pouquinho a filosofia, hoje você tem que pegar, vai pegar uma pessoa, um gerente, tem que dar uma sala. Os meus subordinados que eu admito... foi meio, mas não tem nada a falar disso não, na época estava... Você fez a pergunta, eu estou respondendo (risos). Se você não fizesse, eu não responderia. P/1 – O que mais apaixona o senhor em estar perto de uma usina? Que local da usina o senhor gosta de estar, o senhor tem paixão? R – Tudo, é geral. É genérico. Tudo é bom, faz parte, eu sempre disse o seguinte: “Quando ela começa a construir, depois ... é muito importante a fase.”. Você começa, é uma fase; eu que acompanhei todas as fases, é sensacional quando aquilo conclui e você vê a obra concluída. P/1 – Começa a produção mesmo de energia? R – É, isso é uma. A minha vida, eu comecei Alecrim – aqui, no caso – nem bem terminei, veio Serraria, nem bem terminei, veio Barra, foi uma seqüência, todas elas foram uma seqüência. Não houve nenhum hiato, muito pequeno, mas aqui em Serraria, Porto Raso, Barra, Iporanga, depois foi a questão da Santa Cruz, depois foi o Piraju, Ourinhos, foi a compra de Itupararanga, participei também... Itupararanga foi comprada em 73, final de 73, comecinho de 74, era da Light. Eu e o Hoffmann fizemos o estudo para aquisição lá, nós fomos os técnicos, estudos técnicos para aquisição da usina de Itupararanga. . P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa para o senhor, pode parecer meio ingênuo, mas a gente conhece tradicionalmente o setor energético como sendo público, e desde essa época a Votorantim já tem as usinas. Por que a Votorantim resolve investir na construção das usinas? R – A questão é a seguinte: houve uma necessidade por falta de energia. O caso da CBA, não tinha energia; o alumínio, fundamental é energia, em qualquer indústria pesada, é energia. A própria fábrica de cimento, quando ela foi feita, em Votorantim, ela fez as usinas de Jurupará, usina de outra coisa. O cimento Itaú também teve o mesmo problema, sem energia não vai, é fundamental. O que tinha naquela época, o que é mais barato? A energia hidráulica, qualquer outra energia é mais cara, era imbatível. Energia hidráulica é imbatível porque o combustível é zero, então é fundamental. Se costuma falar: “O que é alumínio?”, “É energia empacotada!”. Energia mais bauxita, dá alumínio. A energia em qualquer área hoje é fundamental. Sem energia você não faz nada. Na época que eu formei, era paupérrimo. Vou te contar a história daqui, você vai dar risada. Quando eu formei, não existia eletrificação rural, era uma miséria! Eu fabriquei maquininhas para a fazenda, para o cara ter energia para apagar o lampião, certo? P/1 – Hã, hã. R – E cheguei, ia naquelas fazendas, fazia uma pequena usina para acender energia para uma casa, duas. A dona da fazenda, a mulher do fazendeiro, do sítio, falou assim: “Eu quero montar o ferro elétrico.”. A usina era pequena, então você punha assim: punha uma lâmpada acesa, para ligar o ferro, desliga a lâmpada. Só pode ser feito durante o dia. Fazia uma reversão. Você botava a máquina para funcionar, para não disparar, você botava umas lâmpadas equivalentes à potência do ferro elétrico. Vai ligar o ferro elétrico, desliga as lâmpadas! Isso foi a década de 50, eu fiz isso. Você hoje, você tem luz do campo, você tem uma série de coisas, eu vi na Santa Cruz a facilidade de fazer eletrificação rural. Naquele tempo nem existia, ou fazia pequenas usininhas de dois quilowatts, três quilowatts, você tinha um pequeno potencial hídrico lá. A década de 50 é o que eu te disse, é um marco no Brasil! A indústria automotiva e as grandes centrais de energia elétrica, é a década de 50. Até ali estava tudo parada a coisa. P/1 – A Votorantim tem investido em termoelétricas? R – Acho que não, não conheço. Tinha em... mas parece que parou, Tocantins. Mas não tem mais não, com certeza. Não conheço nenhuma termoelétrica. Existe, talvez, aproveitamento nas usinas açucareiras, tem, isso existe, qualquer usina açucareira tem. P/1 – Essa busca da Votorantim por essa autossuficiência em energia me parece que é meio pioneira, visionária... R – São, são! P/1 – Pelo que andei lendo, na época da crise do apagão, do racionamento que a gente teve antes do acidente, já teve outro racionamento, mas me parece que teve uma preparação dentro das indústrias. R – Desde o início! Eu lhe disse há poucos minutos atrás que ele foi criticado, quando fazia a usina elétrica, foi criticado, a Alcan: era melhor aumentar a fábrica de alumínio do que fazer usina. Mas ele tinha uma visão diferente, achava que isso aí ia chegar um certo tempo, tinha influência no custo, e hoje o que ele faz? É um mix. Qual é o mix? Energia comprada e energia gerada, isso dá... Mas na época não foi tanto mix não, na época foi não ter energia. E você vai fazer alumínio sem energia? Você vai fazer fábrica de cimento sem energia? O próprio local que ele foi montar a fábrica, lá existia um terminal onde existia uma disponibilidade da Light, porque o certo era ir fazer a fábrica em Poços de Caldas. P/1 – Onde estão as jazidas. R – Não tem transporte, nada, a bauxita está ali. Não ia ter que transportar. Hoje, o transporte de Cataguazes, parece que vai transportar também de Goiás... P/1 – Vem de trem? R – De trem. O certo seria, mas não tem, Poços de Caldas não tem, na época não tinha e a jazida estava ali, a bauxita estava ali. P/1 – Com essa estabilização do setor econômico desde o plano real, quais são os desafios da área de energia para o Grupo Votorantim? O que se pensa a médio e longo prazo? R – Eu acho o seguinte, é o que eu disse, o objetivo dele hoje é ter uma produção maior de alumínio ainda. Está concluindo hoje a usina de Ourinhos, ele pensa em fazer ainda a Tijuco, que está paralisada há 12 anos, que eu participei desde o início. Existe um outro aproveitamento que é Piraju II, então acho que a sua pergunta já respondi, eu acho que na questão do alumínio, é energia, fundamental para ele, é fundamental. Esse desafio já aconteceu, ele está concluindo com uma coisa que ele fez, e vai atingindo, a intenção, ele vai atingir o objetivo. Essa intenção há muitos anos ele teve, o que é o objetivo? São intenções mensuráveis e que produz o bem para aquilo que você vai fazer, ele se concretiza. Eu acho que ele está atingindo um objetivo baseado em uma intenção, intenções que ele já teve há anos atrás, por que objetivos são intenções, né? P/1 – Isso. R – Não é? Se você analisar qual é a definição de um objetivo, objetivo são intenções. Você mensura e vê que é factível, traduz o bem e vê pelo que você quer fazer, ele é atingido. Ele está atingindo um objetivo baseado em intenções que ele já teve aí, sei lá, na década de 70, quando começou. P/1 – Daqui para a frente, como o senhor imagina que o setor da energia, no Grupo, pode crescer, pode potencializar? Vai ter Piraju II, continuar crescendo nessa região? R – Eu estou participando aí, você sabe eu o Tijuco foi um problema muito sério, sério na questão ambiental, por isso ele já tem todos os equipamentos adquiridos. Está sendo reformulado o projeto para atender particularidades e impactos que realmente existem. P/1 – Formação do lago, essas coisas? R – É. Coisas que estão sendo levadas mais, que ele já se conscientizou e concorda com a modificação do projeto, está sendo modificado. Estou participando desse trabalho também, ontem a gente teve reuniões, tem sempre reuniões a esse respeito. Ele não desiste, são 14 anos que está rolando, eu participei de toda a negociação de equipamento do Tijuco. Passou tudo pela minha mão e do Seu Nelson Teixeira. Nós dois fizemos isso. Paixão dele. Todo o equipamento foi adquirido, 95% está adquirido, equipamento. O problema foi impacto ambiental. Ele está reformulando o projeto e não desiste, não; eu acho que vai concluir. Ourinhos está sendo concluído, se não fossem os problemas que aconteceu na barragem ali, de secadeira, que aconteceu no início do... quem iniciou primeiro aquela obra não foi a CBA, foi outra firma, uma secadeira mal feita acabou dando problema, a primeira máquina entraria em operação agora, final de Abril ela entra, são três máquinas. O Piraju II já existe projeto, a questão ambiental, a questão também que a cidade acha que aquilo provoca impacto, acha que aquilo provoca coisa nenhuma, a questão de você tem, o ambientalista é problema, às vezes tem razão, às vezes não tem. Alguma coisa ele tem muita razão, eu acho, outras não. Tem hora que é meio fanático pela coisa, aí é problema. Acho que hoje o que tem em mãos de projetos para concretizar, Ourinhos já está feito, não tem conversa, é questão de três meses está tudo pronto. P/1 – Fica livre! R – É, usina completa. O Tijuco também eu acho que vai vencer essa parada, e o Piraju II também está sendo estudado. Outro aproveitamento, não tenho em mente. P/1 – O senhor estava aqui na época que teve o problema de Santa Cruz, com aquela inundação? R – Sobre? P/1 – Teve um problema com inundação, quando choveu mais... R – Ah, sei... P/1 – O senhor podia contar? R – Quando aconteceu aquele acidente, é claro, vou relatar. Santa Cruz tem três usinas dentro da cidade. Ocorreu uma decamilenar em uma condição muito atípica, no período seco, que é junho, você não tem, todos os reservatórios estão no máximo porque não há ocorrência de chuva, ocorrência de chuva vai ter agora, a enchente São José que vai acontecer agora, 19 de março, depois não tem mais. Então o nosso reservatório hoje está quase pleno. O Jurumirim, nessa época, estava pleno, e ocorreu uma decamilenar, então não houve condições dos equipamentos extravasores, eles tiveram que abrir comporta de um valor muito alto e que não passou nas comportas da usina Paranapanema. Eu estava lá, eu vi, foi até uma tristeza, quando comprou a Santa Cruz e a CBA resolveu continuar com a Santa Cruz, na margem direita existia uma usina, eram três máquinas, eu desmontei tudo aquilo, reformei tudo aquilo, enfiei tudo na Atlas com Cássio ainda na época, montou tudo, depois aconteceu essa enchente violenta que acabou com essa usina. Depois de uns dois anos que o Doutor Antônio foi convencido, foi refeita; onde existiam três máquinas, fizemos uma só! Participei integralmente desse projeto, eu estava lá. Eu estive em Jurumirim, a Cesp estava botando sacos de areia lá porque já estava passando, mais um pouco o Jurumirim também ia ter problema. Eu presenciei isso, estive em cima da barragem, eu e o Geraldo fomos na usina de Chavantes e não pudemos chegar na usina porque o lago estava todo, próximo à casa de máquinas, jantes, ele saiu em uma canoa, eu falei: “Eu não vou entrar nessa canoa furada, não!”, ele foi. O Geraldo, que você entrevistou, nós saímos de Jurumirim e fomos ver os problemas em Xavantes, foi triste aquilo. Foi um desmanche hidráulico da usina, muito antiga, uma das primeiras usinas da Santa Cruz, que já vinha desde o tempo dos antigos donos. Tinha sido totalmente reformada, desmantelou tudo! Hoje ela foi refeita, eram três máquinas, fiquei com uma só. Eu participei integralmente desse projeto, de montagem e tudo o mais. P/1 – O senhor tem algum, tirando esse acidente atmosférico... R – Não entendi. P/1 – Tirando esse acidente atmosférico que causou um milhão de problemas, o senhor tem outro caso pitoresco de estar em usina, lidando com o pessoal pião de trecho, essas coisas, que o senhor pode estar contando para a gente? R – Acontece normalmente nessas épocas de enchente, eu presenciei certas coisas na usina do França, Fumaça, mas não teve negócio assim. Houve, aconteceu desmoronamentos há pouco tempo na usina do Alecrim, mas não teve... P/1 – Algo mais pitoresco, engraçado? R – Não, não tem. O que teve foi mais ameaçador, foi contornado. Esse da usina Santa Cruz, foi em 83, essa foi feia! O resto teve problemas, mas não foi tão grave. P/1 – Certo! E me fala uma coisa, hoje o senhor estava brincando que o senhor estava aposentado já, como é? R – Desde 86. P/1 – Mas o senhor continua aqui no Grupo? R – Continuo. P/1 – O que o senhor faz hoje? R – Diretor vice-presidente da Companhia Santa Cruz, a parte técnica é comigo; na gerência geral de produção e transmissão de energia elétrica, coordenação operacional de todas essas usinas e mais a construção (risos). P/1 – Como o senhor arranjou fôlego para fazer tudo isso? R – Eu e a secretária aqui em São Paulo. Foi sempre assim! P/1 – Beleza, hein! R – E viajo uma vez por semana, vou à obra; final de semana, sexta-feira, vou para a fazenda, 300 quilômetros, e volto no domingo. Não gosto de viajar nem na segunda, nem na sexta: na segunda porque começo e final de semana é bom ficar aqui, final de semana porque preciso trabalhar para mim, quando pode, mas eu fico ligado, fico ligado. Eu tenho telefone na fazenda, na cidade onde eu fico, constantemente, qualquer problema, meu subordinado liga para mim. Fico ligado! P/1 – Hã, hã. R – Vou para a fazenda, tem telefone; se eu pouso lá, tem algum problema, liga; se estou na cidade, liga. Tem telefone de familiares, se eu estou em algum lugar, eles me encontram. Aqui em São Paulo também estou sempre ligado. P/1 – Coisa boa! O que o senhor acha que tem das características pessoais do Doutor Antônio Ermírio que acaba perpassando para o Grupo? Persistência, obstinação... O que o senhor acha que são características dele que acabam sendo incorporadas pelos funcionários do Grupo? R – De um modo geral, eu acho que ele é um idealista, ele é um homem do trabalho, tá certo? E tem muita gente aqui que parece que assimilou isso. Eu não quero dizer que eu, essa vontade de trabalho eu vim adquirir, eu sempre tive isso, mas eu acho que ele tem uma equipe muito grande aqui que parece que, não sei explicar direitinho, que faz o gênero dele. Pega aqui exemplos da diretoria, tem um pessoal muito dedicado que em outras firmas não tem, em outros Grupos não tem. Grupos executivos, acabou a hora de trabalho, final de semana... Eu acho que aqui na CBA, não sei nas outras unidades do Grupo, mas a CBA, como exemplo, a diretoria é um pessoal muito dedicado, que segue muito. Porque o Doutor Antônio é um homem do trabalho, é um idealista, lazer dele é a Beneficência Portuguesa. Eu acho que ele, engraçado, não sei explicar direitinho, mas se você pegar toda a diretoria, é um pessoal muito dedicado, você vem em um sábado, está todo mundo aqui. O pessoal é muito ligado e ele... Pode ser que isso seja, que tenha um campo magnético que (risos) o pessoal... Sei lá, com ele só trabalha esse tipo de gente. P/1 – Ele tem um ritmo muito grande de energia? R – Tem, tem. Ele não perde tempo, não! Ele é muito, acho que a vida dele é o trabalho pelo menos o que a gente pode, a convivência com ele é essa. Não tem tempo para perder, até para fazer uma visita às obras dele, é um negócio muito cheio de tempinho aqui, tal, não perde tempo! P/1 – Cronometrado. R – Ele é fabuloso! P/1 – Para o senhor, qual a importância da Votorantim no panorama da indústria brasileira? R – É muito grande. Pega indústria de alumínio, cimento, açúcar, álcool, papel, celulose. Só não entrou na indústria automotiva, mas fornece matéria-prima para isso. Votorantim é fabulosa, ela tem uma participação muito grande, você vê, tem o aço, tem o alumínio, papel, celulose, uma participação violenta! P/1 – Verdade! A gente está aqui fazendo a entrevista do senhor para fazer parte do Acervo Centro de Memória Votorantim. O que o senhor acha desse projeto do Centro de Memória, qual a importância dele? R – Acho bom. Eu acho que isso é muito válido, eu acho que é uma coisa importante porque a Votorantim vai para 85 anos, é importante conhecer as fases de um empreendimento, de uma indústria. Naturalmente, sem entrevistar, sem ter esse contato com quem participou disso, eu acho que seria... não seria válido. Eu também tive minha pequenininha indústria, eu lembro daqueles ainda, só que não pude fazer, era pequeno, não pude fazer o que você está fazendo hoje, mas paciência. Agora, eu acho muito bonito, muito válido isso, mostrar aqueles que participaram, pequena ou grande, valor. Eu acho, eu tenho visto aí, vocês fazem entrevista desde o diretor até o mais humilde funcionário, isso é muito bonito! Isso aí é, até o tabuleiro de xadrez tem o peão (risos), tem a torre, tem o rei e a rainha, e o bispo, e o cavalo. Porque não dá o xeque-mate (risos). Eu acho muito importante! P/1 – E o senhor, como se sente de ter contado a trajetória profissional do senhor e ter olhado para trás, ter deixado registrado para o Projeto Memória a sua experiência? O que o senhor achou de ter dado essa entrevista para a gente? R – Você diz a meu respeito? Olha, às vezes a gente conversa com os filhos, relata isso aí. Eu acho, dá para escrever um livro! Modesto, mas dá. Eu já, com esses meus 50 anos de engenheiro, acho que dá para escrever um livrinho sim. Eu peguei uma fase, tem muita coisa que eu passei na minha vida, sempre trabalhei honestamente, não fui grande, mas não fui pequeno, não tive fracasso. Encerrei a atividade por circunstância, saí de um pequeno empresário, fui para empregado, não voltei para trás; vim com um conhecimento, adquiri outros. Porque quando você entra no trabalho, você está sempre aprendendo, nunca a gente sabe tudo. Eu acho que nunca a gente se sente realizado, mas eu também não tenho frustração nenhuma, não. Eu acho que como engenheiro, modestamente, o que eu aprendi, o que eu tive na vida, eu sou um sujeito satisfeito, eu estou muito satisfeito. Não tenho frustração nenhuma. Formei, estudei, aprendi, exerci, fazer mais o que? Acho que eu posso morrer tranqüilo, cumpri minha missão! O dia que encerrar minha vida, não tem frustração nenhuma não. P/1 – Que bom! Em nome do Centro de Memória Votorantim e do Museu da Pessoa, agradeço muito a entrevista do senhor! R – Eu agradeço também muito, ter me ouvido aqui. Eu fico muito grato, não sei se correspondi plenamente... P/1 – Nossa!

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