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História

O transformador de vidas

História de: Antônio Rosendo dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/05/2020

Sinopse

Em seu depoimento, Antônio Rosendo dos Santos conta como, após alguns outros empregos, começou a trabalhar na Febem. Ele relata seu envolvimento com os meninos internos, e como, através de aulas de informática, foi possível operar uma verdadeira transformação na vida destes jovens.

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História completa

P/1- Antonio, bom dia. Você poderia começar falando seu nome completo, local e data de nascimento? 

 

R- Ok. Meu nome é Antonio Rosendo dos Santos, eu nasci em Tarabai, que é uma extensão lá de Presidente Prudente, Presidente Venceslau, no extremo oeste de São Paulo. Nasci em 13 de agosto de 1964. Hoje com 40 anos bem vividos.

 

P/1- E qual seu cargo atual?

 

R- Eu sou coordenador das EICs [Escola de Informática e Cidadania] do Complexo Raposo Tavares, a EIC Aroeira e a EIC Cedro. É claro que sempre tentando conseguir mais uma EIC dentro do complexo, né? Esse é o nosso objetivo.

 

P/1- Certo, Antonio, você poderia contar pra gente qual foi a sua trajetória rapidamente até chegar à FEBEM [Fundação Estadual do Bem Estar do Menor] e na EIC, até ter contato com o CDI [Centro de Democratização da Informática]?

 

R- Ok. Eu comecei na minha vida profissional trabalhando como guarda mirim em Diadema, ainda com 12 anos. Aí consegui autorização especial do juiz de menores pra trabalhar registrado em carteira, como dizia no tempo. Depois, comecei numa indústria de borrachas, e logo após, segui pra algumas indústrias metalúrgicas, que é a vocação da região. Passei pela Courotec Recaro, prestei serviço na Mercedes Benz. E em algumas empresas, sempre ligadas ao ramo metalúrgico. Depois parti, também, pra área de informática, uns 18 anos atrás. E, após isso, surgiu o concurso pra FEBEM e eu me inscrevi na intenção do seguinte: dentro da FEBEM você encontra muito social. E, nessa ocasião, eu já estava um bocado maduro, já com família constituída. Somente procurando algo de complemento de vida. Então, em primeira instância, eu pensei: "FEBEM tem pessoas. Pessoas têm história, né?" E assim começou meu ingresso dentro da FEBEM. Aí surgiu a proposta do CDI, de se montar as EICs. E fomos pra uma capacitação. Conheci pessoas.

 

P/2- Que ano?

 

P/1- Quando foi isso?

 

R- Isso foi em 2004, começo do ano de 2004.

 

P/1- Você entrou na FEBEM quando?

 

R- Entrei na FEBEM em 2003, novembro de 2003. E dentro dessa proposta de cidadania, me chamou a atenção a questão de ter o menor infrator em reclusão. Você ter alguém tentando praticar cidadania dentro de quatro paredes. Desculpe a palavra, dentro de uma jaula. E chegou um desafio: "Como praticar cidadania entre quatro paredes?" E a gente acaba percebendo que além das quatro paredes, existe uma maior, que é o céu. Que você subindo, você tem a liberdade. Então, dentro das nossas EICs nós não consideramos as quatro paredes, e sim a quinta, que é além dos muros, né? Isso é o nosso objetivo principal. 

 

P/2- Então, aproveitando a própria pergunta que você fez, como é trabalhar a questão de cidadania em situação de reclusão?

 

R- Hoje, a cidadania dentro da FEBEM já não é mais uma questão teórica, é uma questão prática. Porque os nossos meninos hoje, dentro das nossas EICs na FEBEM, eles procuram é: "O que que eu posso fazer pra me transformar e transformar o ambiente em que eu vivo?" Isso em outras palavras, às vezes de gíria, de brincadeira, de música. Mas a pergunta é sempre a mesma: "O que eu posso fazer pra tirar de mim essa visão que as pessoas lá fora têm?" "Como é que eu posso trabalhar?" Então, é justamente em cima desse perfil que as nossas EICs dentro da FEBEM trabalham. Mostrando ao menino quais são as opções que ele tem quando ele sair. E a partir daí, a gente também tentar dar um acompanhamento depois da saída da FEBEM. A questão da cidadania é muito forte entre eles. A questão de ser alguém. A questão do carinho, da atenção. Isso é muito forte pra eles.

 

P/2- E que temas vocês trabalham?

 

R- Por exemplo, hoje nós trabalhamos com temas fortes, por exemplo, o rap. Que é muito forte entre eles. E dentro do rap, o que ele vê ali, a questão da consciência de inserção dentro da sociedade, não é? As palavras do rap, nem sempre são o que elas estão dizendo, é algo mais do que isso. 

 

P/2- Como assim?

 

R- Esse algo mais é o que, por exemplo, numa música violenta, o que que está por trás desse tema de violência.  É a família? A base é a família. Então, nós começamos trabalhando a família. Dentro daquela música. Depois, essa ligação que a família tem, o amor que a família tem, que muitas vezes deixa de dar também, por questões sociais. Então, a partir daí, sim, você começa a trabalhar essa questão da família. O que está por trás do pano.

 

P/1- Você tem exemplo de atividades, com algum menino, com algum grupo?

 

R- Temos sim. Nós estamos, vou te dar em primeira mão, acho que nem o pessoal do CDI está sabendo ainda, talvez só alguma das pessoas. Tem um prêmio agora que o CDI está promovendo. E esse prêmio é o Comunidade em Ação. E nós, como somos uma EIC nova, não sei se nós vamos ou não participar desse prêmio. Mas foi jogada a ideia para os meninos e eles falaram: “Senhor...”, que é o termo que eles usam lá pra todas as pessoas que não são menores. “...Nós podemos participar desse prêmio?” Falei: “Talvez sim, mas esqueçamos o prêmio, vamos estar na ideia de ajudar. O que que vocês sugerem?” Primeira pergunta deles: “Quantas unidades tem aqui dentro desse Complexo nosso da Raposo Tavares?” “Ah, são 5”. Pergunta deles: “Em quais dessas unidades nós temos informática, igual nós temos aqui?” “Olha, temos duas, a de vocês e a 38, que é do nosso lado, a Cedro, e tem uma outra que é o Bradesco.” “E o restante? O restante não tem?” A ideia deles qual foi? Captar recurso. Pra quê? Pra eles fazerem as máquinas e doarem pras outras unidades. Eu falei: “Puxa, mas você vai doar isso de graça?” Estou provocando o menino. "Vocês sempre quiseram ganhar em cima de tudo." Porque a FEBEM é uma troca. Você me faz isso, eu te dou isso, tá? Então, o que que eles falaram? Falaram assim: “Olha, nós estamos ajudando alguém que ainda não tem”. Aí, eu acabei percebendo que esse trabalho que a gente vinha fazendo de cidadania começou a ter um objetivo concreto, ter um ponto concreto. E ainda falei: “ Olha, mas pode ocorrer um problema aí de vocês não receberem nada por esse prêmio, que são 2 mil e quinhentos reais, 2 mil e poucos reais”. "Mas, não tem problema. O nosso objetivo é ajudar alguém. Alguém da nossa situação e dentro da nossa comunidade aqui do Complexo.” Então isso foi um ponto de partida pra quê? Pra mais ânimo. Você colocar mais sal, mais tempero na comida que está ficando muito boa. Um trabalho muito legal.

 

P/2- O prêmio, eu não entendi, o prêmio preconiza o quê?

 

R- O prêmio preconiza apenas uma ajuda de custo pra um projeto. Mas essa questão de dinheiro aí, entre aspas, não está chamando a atenção dos meninos. O que está chamando a atenção dos meninos é o prêmio em ajudar. Esse prêmio que eles estão interessados é de quê? De que o trabalho deles possa ajudar alguém lá na frente. E eles sabem que eles vão montar algumas máquinas, que vai ser difícil. Alguns deles já vão estar em liberdade quando isso acontecer, mas eles vão fazer história dentro de uma comunidade onde estão vivendo. Isso daí é fantástico. 

 

P/1- Qual é a motivação dos meninos pra participarem da EIC? Eles são bastante motivados?

 

R- São.

 

P/1- Qual a expectativa deles?

 

R- Eu vou te dizer que... Vou esquecer que eu estou numa entrevista agora, e vou te falar que eles até enchem o saco, desculpe o termo. [RISOS] Eu chego 8 horas da manhã. Do pátio até minha sala são em torno de 30 metros. Eu levo meia hora pra chegar até a sala. “Senhor, que horas que vai ser a aula?” “Que tema que nós vamos discutir hoje?” "O que nós vamos debater hoje?” “Senhor, eu posso escrever uma carta?” “Senhor, o que nós vamos fazer?” Sabe, então, são 20 metros em meia hora. Eu costumo falar que eu sou o cara mais rápido do mundo, não perco pra ninguém. E sempre chego atrasado. Por que? Porque você nunca consegue simplesmente passar despercebido. Por que? Porque existe uma EIC, existe uma motivação, existe também um interesse. E isso é muito importante. 

 

P/2- Quantos meninos estão nessa unidade?

 

R- Na Aroeira?

 

P/2- E quantos estão nas EICs?

 

R- Isso, na Aroeira. Hoje nós temos 67 meninos internados e temos hoje 62 participando da EIC. Isso todos os dias, inclusive nos dias que a gente quer, não pode, mas tem que ficar até mais tarde. Por que? Porque eles têm interesse. E você não vai deixar o interesse pra lá, né? Nosso horário de aula é 1 hora e meia.  A gente acaba estendendo isso pra 2 horas, 2 horas e 15. Isso não porque o educador queira, mas porque o menino quer. Esse interesse não pode ser desperdiçado. Na outra EIC, a EIC Cedro, nós temos 150 meninos internados, dos quais 110 participam da EIC. São meninos também bastante atuantes. É uma população diferente da população de 37, que é a Aroeira. Por exemplo, a Aroeira é uma população de graves/gravíssimos. É o último estágio que um adolescente consegue chegar dentro da FEBEM. Ele é um reincidente, ele já pegou alguns anos de FEBEM, saiu e retornou. Então, por menor que seja o crime dele, a infração dele, ele é considerado como grave/gravíssimo. Isso, pros educadores e inclusive pra mim, isso é um entre aspas. Porque na verdade ele não é grave/gravíssimo. Talvez a sociedade seja grave/gravíssimo. Ele é um menino que é carente. De afeto, de carinho, de solidariedade, de estar junto, de alguém ouvir. Então, ele é um menino grave, sim, na carência. E que a própria EIC, os próprios educadores estão trabalhando nisso, estão lapidando. E eu posso dizer, com muita certeza, que, daqui a alguns anos talvez muitos não se lembrem da gente, mas nós vamos lembrar daqueles meninos ali. Nós vamos ver esse menino lá na frente, em algum lugar muito bom. Pode ter certeza disso. Porque eles vão fazer história. Hoje eles estão sendo rejeitados pela sociedade, às vezes pela própria instituição que os caracteriza como grave. Mas eu tenho certeza que, lá na frente, nós vamos ouvir falar desses meninos. E muito bem, tá? Nós temos alguns já se preparando pro vestibular. Outros, já com liberdade quase chegando, interessados em dar continuidade ao trabalho que a EIC está promovendo. Então, por isso que eu afirmo, com muita certeza, que nós vamos ouvir falar muito bem desses meninos lá na frente.

P/2- Existem outros programas aliados a esse da EIC, ou é só o trabalho da EIC mesmo? Quais são os trabalhos voltados pra eles de promoção?

 

R- Nós temos hoje, dentro da unidade, como um carro-chefe, a EIC. A movimentação das unidades são as EICs. Só pra você ter um exemplo, nós estamos há 40 dias em greve de funcionalismo dentro da FEBEM. Tanto a EIC Aroeira, como a EIC Cedro foram as únicas atividades que, todos os dias durante essa greve, abriram as portas. Únicas atividades que, em 100% desses dias, tiveram pros meninos. Em nenhum momento nós fechamos as nossas portas ou falamos assim: “Hoje não vai ter atividade porque  a unidade está meio tensa.” De maneira alguma. Todos esses dias nós abrimos. Aliado a isso, nós temos atividades de capoeira, temos artesanato. Que o pessoal da pedagogia aplica, sempre treinando, capacitando esses meninos pra viverem e ganharem sustento com o que estão aprendendo. Temos violão. O Projeto Guri que é muito bom. Projeto temos também o cavaquinho. E temos as aula de ensino normal que são obrigados aí pelo ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente]. E hoje, nossa população questiona o porquê de se estar dentro da sala de aula e por que não se fazer uma escola menos formal. Isso na EIC nós temos um sucesso tremendo. Nós hoje estamos educando o ensino normal dentro da EIC. Hoje eles fazem o texto e dentro do texto eles trabalham não só a cidadania, como a escrita. E assim vai. E a gente está fazendo uma parceria muito legal com os educadores, com os professores. Os professores trabalham projetos de sala de aula dentro da EIC. A nossa intenção era abrir a EIC apenas às 13 horas, quando eles não tivessem mais aulas. Mas, nós descobrimos que, dentro do projeto que o professor está na escola normal, a gente pode estender pra EIC. Então, a nossa escola está sendo aberta hoje das 8 até "Deus sabe que horas". Porque eles que caracterizam esse próprio fechamento da escola.

 

P/2- Mais ou menos o quê, 10 horas da noite?

 

R- Hoje estamos em torno de 8, 8 e meia da noite. 

 

P/2- Doze horas de funcionamento?

 

R- Doze horas de funcionamento. É algo muito gratificante. Estamos também elaborando, agora, um projeto pra mãe do menino, pro pai do menino fazerem informática dentro da unidade. 

 

P/1- __________

 

R- É, na EIC. Isso tem dois lados, um bom e o outro ótimo. O bom é que você está tirando da exclusão alguém que não teve oportunidade. E segundo, o adolescente vai ter, um pouco mais, a família ao lado dele. Quem vai dar essa aula de informática? Não vai ser eu, não vai ser educador. É o menino. Ele vai dar aula pra mãe, pro pai, pro irmão. Esse plano, esse projeto está muito forte. Eu creio que na próxima semana, nós já começamos a dar um início às aulas. Já temos 36 mães inscritas. Mães e pais. Nossas aulas vão ser na parte da tarde. Nós vamos encontrar um horário em que a gente vai colocar o adolescente pra explicar como funciona essa máquina que todo mundo acha difícil. Ainda mais pras pessoas mais antigas. Um projeto que está agitando muito a unidade. Que está toda a hora: “Minha mãe vem quando?” “A mãe de fulano de tal vem quando?” “Pra quem que eu vou dar aula?” Eles sentem a importância, também de estar se sentindo um professor. E diga-se de passagem, um ótimo professor. Você tem menino lá, que se deixar você 5 minutos com ele, ele te vende 5 máquinas. Você vai descobrindo vocações neles.

 

P/1- Pelas questões que você mostrou que os alunos levantam, o interesse deles maior mesmo está na questão da cidadania, não é?

R- Cidadania.

 

P/1- Como é isso daí? Com que eles fazem essa...?

 

R- Olha, nossa população veio de Franco da Rocha. E, não sei se vocês já viram televisão, Rede Globo, etc.  

 

P/1- Descreve um pouco como que é.

 

R- Claro. Antes, era menino em cima do telhado com a touca na cabeça e com um pedaço de ferro na mão, que o pessoal apelida de naifa, no pescoço de algum funcionário. Então, esse quadro, que veio já de Franco da Rocha e é a mesma população que nós temos dentro da nossa unidade, está muito forte ainda nas nossas cabeças. E hoje a nossa população já está há 4 meses conosco. E coincidiu, justamente, com a vinda da EIC lá pro Complexo. Nós não temos nenhuma foto, nenhuma imagem de nenhum menino em cima do telhado. Não temos nenhuma foto, nenhuma imagem de naifa no pescoço de funcionário. O que nós temos hoje são 4 ou 5 funcionários dentro de uma unidade, o restante está em greve. E os meninos respeitando, conversando, contando suas vidas, às vezes pedindo conselhos. Então, com a vinda da EIC pra dentro da unidade, essa questão ficou muito forte. A questão do respeito, do estar junto, da participação. Hoje, eu posso dizer pra você que a nossa população, quase que 100% participa das nossas EICs. Um resultado muito bom nas mãos, um resultado de respeito e de solidariedade. Eles são muito solidários. Só que a gente não tinha percebido ainda que eles são solidários, não só com eles mesmos, mas com a casa toda. Hoje é muito raro você não receber essa pergunta: “Senhor, já almoçou?” “Ah, ainda não almocei.” “Então, vai almoçar com a gente.” Sabe? Isso, pra uma pessoa que está dentro da FEBEM é um campo muito grande de solidariedade. Porque a cultura da FEBEM em si não é essa. É de egoísmo, é de egocentrismo. Você percebe que com a prática da cidadania, com a prática do respeito, da ajuda mútua, que a própria EIC passa, a situação vai mudando. A gente acaba percebendo que cada um de nós pode e deve, sim, ser agente transformador dentro do lugar onde a gente vive. Independente de ser FEBEM, independente de ser qualquer lugar. Mas, ser agente transformador da sociedade pra melhor, isso é uma missão de cada um. Isso não tenha dúvida. 

 

P/2- Queria perguntar uma coisa que talvez quem ouvir a sua exposição também tenha a mesma pergunta. A quê você atribui essa mudança de atitude dos meninos? Que você descreve um quadro bem diferente.

 

R- OK.

 

P/2- Quer dizer, isso é a política toda da unidade ou da EIC? Porque a EIC tem só 4 meses.

 

R- Isso. Perfeito.

 

P/2- Seria pouco tempo talvez pra fazer uma mudança assim. Então, isso eu gostaria que você… 

 

R- Eu colocaria essa questão em dois tempos. O primeiro tempo seria assim: o menino já vem de um ambiente tenso. “Senhor, apanhei do meu pai, apanhei da minha mãe, apanhei na rua, o Estado me prendeu, apanhei aqui dentro, apanhei muito aqui dentro”. "Hoje eu tenho medo de pancada? Não. Pode vir a pancada que não tem problema". Esse é o momento. Quando esse menino chegou dentro da unidade, que ele olhou e viu que ele tinha opções, ele mesmo pensou: “Eu não quero refletir o que eu era lá em Franco da Rocha, eu quero aqui ter outra imagem”. Isso que eu digo pra você não é suposição, não. São conversas, tá? São bate-papos familiares. Isso caracterizou quando ele chegou na unidade, a política da unidade é essa, de não estar apenas reprimindo, mas educando. Inclusive tem um corpo pedagógico muito bom. Ele começou a dividir essas águas. E o segundo tempo dessa pergunta é a questão da EIC. Porque até então, ele sabia que aguenta pancada, porque já são homens, a maioria deles maior de 18 anos. A partir daí, começou o divisor de águas. Ele se viu numa situação de acolhimento, só que não tinha ainda o combustível pra isso. Foi quando surgiu a EIC que coincidiu justamente com esse tempo. E o que a EIC estava dando pra ele? A oportunidade de abrir esse leque, a oportunidade de conhecer o que ele não conheceu na rua. Que existem pessoas boas, que existem pessoas que gostam de ajudar, e o que a gente prega muito lá dentro: “Olha, você está sendo ajudado mas, por favor, ajude também, porque você também é agente, tá? Você também tem a obrigação de ajudar". Hoje nós temos meninos com vocação específica, sabe? “Olha eu quero fazer isso. Como é que eu vou fazer isso? ” 

 

P/2- Por exemplo?

 

R- Por exemplo, informática, que é o nosso caso bem forte que nós temos dentro da EIC. Oras, você tem um menino que acabou de sair da FEBEM. Um caso, por exemplo, de um menino que recebeu liberdade semana passada e que está saindo pra trabalhar num programa social lá fora. Ele vai ter uma continuidade do que ele estava aprendendo na EIC. A partir daí, o que que ele vai fazer? Ele também vai ser solidário e vai ajudar fazendo o quê? O que ele aprendeu. Ele vai ensinar artesanato, vai ser capacitador de artesanato, que é o forte que tem dentro da FEBEM. Origami, bonecas de papel, bonecas... tudo que eles aprendem, né? Então, quer dizer, ao mesmo tempo que ele vai estar aprendendo, ele vai estar ensinando. E essa questão de cidadania pra ele está muito forte. Porque não fui eu que fui procurá-lo. Ele ligou “Olha, eu sei que você trabalha aqui fora com informática, eu sei que você trabalha numa escola tal. Dá pra eu me encaixar aí?” Marcamos um lugar: "Vamos lá, vamos conversar". Essa questão da vocação, de ele saber o que ele quer, gratifica muito. Você sabe que uma população chamada gravíssima, não é tão grave assim. Só são métodos utilizados. Por que, eu não sei também, e não estou muito interessado. Eu estou muito interessado em saber o quê? Que aquele menino saia dali feito cidadão. É isso. 

 

P/1- Queria perguntar mais no sentido do impacto da EIC na instituição. Até que ponto essa relação diferenciada do aluno com a EIC interfere na relação do aluno com a instituição, da diretoria, no geral?

 

R- O aluno hoje da EIC, posso dizer, o aluno da própria unidade, interfere de uma maneira clara. Como? Hoje em dia, ele não só pergunta, ele não só pede, mas ele questiona. “Oras, por que? Eu vou ter tal coisa, mas por que eu não posso ter mais ou por que você está dando demais?” O papel da EIC, acho que isso vai ficar mais forte ainda, a questão de se questionar, não apenas aceitar, mas questionar o que está vindo pra você. O que nós ouvimos muito dentro da nossa unidade: “Por que não pode ter um curso profissionalizante lá fora?” Ora, se muitos deles já estão com a liberdade chegando, então está existindo uma recuperação? Sim, né? E eles perguntam hoje: “Por que eu não posso fazer um pré-vestibular lá fora. Porque eu sou grave? Eu não sou mais grave, hoje eu sou um cidadão”. Eles questionam. O papel da EIC na questão da consciência está muito forte. Mesmo porque nós trabalhamos textos, trabalhamos vida, trabalhamos participação, tudo dentro da EIC. Às vezes nós desligamos os computadores e batemos papo. Muitas vezes, nós não temos aula de informática. A informática é uma ferramenta. Nós desligamos as máquinas e batemos papo. "Como é que você está? Como que anda a tua vida aqui dentro? Como é que está a tua vida dentro do quarto com o teu colega? Como é que está a tua vida com a tua família? Você teve visita? Você não teve visita?" Você provoca e eles falam. Eles choram. A gente chora junto. E isso está sendo muito rico nessa questão de encontrar o menino amanhã, olhar nos olhos dele e ele não abaixar mais a cabeça. Ele olha nos seus olhos e fala: “Bom dia.” Antes eu recebia resposta assim: “Bom dia? Eu estou preso, então não existe bom dia”. Hoje não! Hoje ele sorri pra você: “Bom dia. Que horas é a aula de informática?” Desse jeito. Na verdade não é aula, é bate-papo. É: “Como foi teu fim-de-semana?” Esse envolvimento é muito bom. 

 

P/1- E o outro lado? De que forma a instituição, a diretoria, influi na relação do aluno com a EIC?

 

R- Na verdade, a instituição está observando, não é? O que a gente sente muito é que o corpo técnico, o corpo da diretoria do complexo em si, ele está observando. Porque nesse complexo é uma experiência nova. Mas está assustando. O novo assusta, né? Inclusive, quando uma juíza, a Dra. Mônica, que cuida de todas as FEBEMs do estado de São Paulo foi fazer uma visita pra EIC, foi convidada, não por mim, mas por um adolescente. Ele puxou a Dra. Mônica pelo braço e disse: “Olha, vamos lá conhecer a nossa escola de informática.” Ela foi e perguntou: “O que é isso?” Ele falou, assim: “Aqui é onde a gente bate papo, onde a gente conversa, onde a gente estuda, aqui é o nosso espaço”. E ela falou: “O que vocês precisam pra melhorar isso?” Aí pronto, o menino começou: “Olha, senhora, precisamos de monitores”. Perguntou porque quis, né? “Precisamos de peças pros computadores, precisamos de mesas.” A pergunta da juíza: “Mas, por que?” “Senhora, a gente vai ajudar as unidades do Complexo que ainda não têm computador, todo mundo vai ter computador aqui.” Então, a juíza falou assim no celular: “Pessoal do Tatuapé, por favor, tem umas peças aí jogadas, tragam pra Raposo Tavares”. Por incrível que pareça, a nossa primeira parceria, dentro da EIC foi feita por um adolescente. Não posso falar o nome dele porque a lei não permite. Mas a nossa primeira parceria foi feita dentro de uma unidade da FEBEM, dentro de uma EIC, para uma juíza que cuida de todo o sistema. Eu jamais, com toda a minha experiência, conseguiria uma parceria dessa. Foi das melhores

P/1- Captador de recursos.

 

R- Captador de recursos.

 

(Mudança de fita)

 

P/2- Uma coisa que eu queria perguntar é como foi o contato com o CDI. Como vocês chegaram lá, vocês foram procurados, vocês procuraram?

 

R- O contato com o CDI foi feito no final do ano passado. Pela nossa, na ocasião, Diretoria de Educação da FEBEM, professor Jair, que hoje já não se encontra mais dentro da FEBEM. Foi feito um primeiro contato, e a partir desse contato, houve um interesse pela proposta do CDI e amarrado aí, também, a questão da Educação, muito forte, caracterizado pelo secretário de Educação, Dr. Gabriel Chalita, com proposta realmente educacional dentro da FEBEM. E com forte impacto da cidadania. A instituição FEBEM viu que o trabalho do CDI estava junto com a proposta do secretário da Educação. A partir daí, se começou um trabalho, vamos dizer assim, bonito. Mas nós não pensamos que ia ser tão forte. Tão forte. Porque uma coisa é você ter algo pintado, mas o que está atrás disso? Nós não sabíamos até então que a nossa população ia mudar. Nós não sabíamos até então que essa proposta de cidadania ia ser tão absorvida pelos próprios internos. Hoje nós somos procurados, inclusive, pelo pessoal de pedagogia das unidades. Pra quê? Pra sugestões de como a EIC pode ajudar a parte pedagógica da FEBEM num sentido geral, como que a própria pedagogia pode colaborar pra EIC. Então, hoje nós temos uma parceria dentro das nossas EICs. Foi dentro dessa proposta. Tanto que o sentido de educar, que a FEBEM é um lugar pra se educar, não pra se reprimir. Mas dentro da visão de cidadania.

 

P/1- E a posição dos funcionários, porque isso é uma proposta de uma nova administração. Qual a posição dos funcionários? A gente sabe que tem uma cultura atualmente consolidada, como fica essa substituição? Até que ponto vai essa substituição da repressão pela educação?

 

R- Quando nós chegamos nas unidades, nós fomos recebidos como algo novo. Ou seja, informática para o ladrão. A cultura nossa foi recebida dessa maneira. As pessoas mais antigas de FEBEM receberam com um certo distanciamento. Foi um primeiro passo, uma primeira dificuldade que nós tivemos. Quando o CDI foi lá montar toda salinha, foi fazer a instalação de programas, tudo, nós víamos alguns olhos nos olhando. “Puxa, o ladrão tem e eu não tenho. O que eu preciso? Roubar pra ter também.” À medida que o tempo foi passando, que o próprio funcionário viu que a EIC era um objeto de transformação dentro da unidade, as coisas começaram a mudar. Até que nós chegamos com uma proposta, para o funcionário, assim: “Olha, você também é um excluído do mundo digital. Você não quer participar conosco aqui de algumas aulas?” “Poxa, mas eu posso?” “Pode, esse aqui é um espaço aberto. É uma escola nossa.” Então, o que nós vamos fazer? Vamos criar espaços para os adolescentes, para os funcionários e para os terceirizados. Essa, inclusive, foi uma proposta muito forte que nós tivemos na capacitação de coordenadores, de que o espaço da EIC não é um espaço privado do adolescente, mas um espaço da comunidade. E comunidade é inclusive os funcionários. Hoje, nós já vemos assim, a nossa sala de informática não tem agente de proteção na porta. Uma das características da escola formal é você ter, pra cada sala de aula, um agente de segurança na porta. A nossa EIC não tem. Não precisa e eles não querem. Tanto o agente fala: “Eu não preciso estar aí. Pra que eu vou estar aí se os meninos sabem o que estão fazendo, eles são conscientes do que estão fazendo.” Nós tivemos uma intervenção do batalhão de choque na FEBEM, uma rotina quando se muda a diretoria. E dentro desse contexto de invasão, nós não encontramos sequer um, nenhum objeto, da sala de informática nos quartos deles. Eles respeitam aquele espaço, é um espaço onde você deixa aberto e não some nada. Ali não acontece nada. Justamente por isso que o funcionário fala: “Puxa, aqui já teve duas revistas, nós nunca encontramos um objeto sequer da sala de informática”. E olha que são coisas que podem sim servir como armas. Mas não foram encontrados. Então, o funcionário acabou percebendo que foi a partir da implantação da EIC que houve uma mudança na consciência do menino sobre isso. O próprio funcionário hoje, você está dando aula, ele chega e começa a ajudar. "Olha, eu tenho uma experiência lá fora também, como é tua experiência?" 

 

P/2- Você falou aí, ____________ desenvolver mais sobre a formação do coordenador. Como foi a formação do coordenador da EIC no seu caso?

 

R- Já muito antes de vir pra EIC, de vir pra FEBEM, eu tive uma  formação religiosa um tanto quanto sincera comigo mesmo. Eu sempre procurei buscar. A minha vida praticamente foi uma busca. Aos meus 18 anos eu fui pro seminário. Fui não pra ser padre. Eu fui procurar algo pra que eu pudesse ser um agente transformador da sociedade. No seminário encontrei muita coisa boa. Fiz seminário em Barretos. Diga-se de passagem, muito bonita a cidade, né? Fiz meu seminário lá, fiquei 4 anos. E numas férias que eu tive vim aqui pra Diadema.  Conheci minha esposa e acabou a vocação. Acabou a vocação e então casei. Nós temos hoje uma filha. E essa formação continuou na mesma expectativa, na mesma ganância, de buscar algo mais social. Fui trabalhar em indústria, sempre trabalhando aos finais de semana, às vezes como voluntário em igreja, em comunidades de bairro. Sempre disposto a criar grupos pra transformação. Até o dia que eu entrei na FEBEM e olhei aquilo tudo. Na ocasião em que nós assumimos o cargo, pra qual fui concursado, nós encontramos 280 meninos, dentro de um galpão, sem as menores condições de estarem dentro. Foi numa emergência pela superpopulação. Isso totalmente condenado pela própria FEBEM que procurou, é claro, a partir dali, mudar essa situação. Na hora que eu olhei aqueles 250 meninos primários, nenhum deles tinha cometido crime até então. Pelo menos que tivesse sido apurado. Você olha 250 meninos parecendo um amontoado humano. Eu pensei, a primeira coisa, em Hitler e na questão do material, do lixo humano. E convivi com aqueles meninos 4 meses dentro desse galpão. Ali, eu vi muita coisa boa, só que eu vi muita coisa ruim também. E a partir dali, eu falei: “Meu Deus, agora eu procurei o que eu achava, achei o que eu estava procurando”. Eu estava procurando algo e achei algo. "E agora? Como que eu vou poder ajudar isso?" Porque na verdade, dentro da instituição FEBEM você é um cisco, você é um grão. Como você pode, dentro disso, transformar? Eu acredito muito que Deus faz as coisas certas na hora certa. E, depois que foi feita a unidade pra esses meninos, ela foi dividida entre a EIC Aroeira e a EIC Cedro.  Em duas unidades FEBEM já bem estruturadas, surgiu a proposta de a gente coordenar as EICs. Você fala:  "Puxa vida é um passado." Mas que já estava sendo traçado um futuro. E nessa questão, hoje eu me sinto realizado. Hoje sou um sujeito que não fica sem FEBEM, que não fica sem esses meninos que, teoricamente, são à margem da sociedade

 

P/2- Mas eu gostaria que você falasse da orientação que você recebeu do CDI. Você recebeu?

 

R- Sem dúvida.

 

P/2- Que tipo? 

 

P/1- Um acompanhamento.

 

R- O CDI, eu vejo assim, quando nós chegamos na primeira reunião de capacitação, a primeira coisa que vimos foi a seriedade. Porque, normalmente, capacitação você pensa que é oba-oba. Então a primeira coisa que eu vi foi seriedade. Você já fica com o pé atrás. Opa, aqui é o lugar certo. Quando a Rose e a Fátima foram dar as capacitações, com seu devido tema, você encontrava um começo, um meio e um fim. Só que esse fim nunca existiu, porque esse fim elas sempre deixavam a provocação de você estar fazendo. Inclusive, até falei pra Rose, uma ocasião, que uma das piores coisas do mundo que eu fiz foi ser um coordenador de EIC. Porque isso está me incomodando muito. Incomoda no sentido assim, hoje eu estou aqui, mas estou pensando como é que está minha unidade lá, como é que está a minha EIC, como está funcionando, qual o recurso que eu preciso captar pra que isso ande. Então, a partir do momento que essa capacitação chegou, chegou também o desconforto, no bom sentido, de você estar galgando, galgando, e absorvendo, e ao mesmo tempo você querer mais. Então, a própria capacitação em si já foi um incômodo. Uma coisa é você ter uma capacitação científica, onde você aprende que um mais um são dois. E outra coisa é você ver que nem sempre um mais um são dois. Ele pode ser um pouco mais, certo? Então, nesse sentido, o CDI fez uma capacitação, não só pra alguns coordenadores, como os nossos educadores. Eles saíram muito conscientes da missão deles dentro da EIC. Eu posso dizer pra vocês, que o coordenador que saiu vazio não é coordenador. Todos os temas foram bem trabalhados, todos os temas foram muito bem estruturados, foram provocados, foram amarrados. E a gente percebeu que naquele grupo, tanto educadores, como coordenadores, formamos uma comunidade. Depois a gente conversa, liga um pro outro: “Oi, como é que está?” “Você tem tal experiência, conta pra mim como é.”

 

P/2- Entre as EICs? 

 

R- Entre as EICs nós conversamos, informalmente, nós conversamos. E nas reuniões, é claro, de coordenadores, educadores, é festa, não tem jeito. É troca de experiências. 

 

P/1- Quais foram esses temas abordados que você disse?

 

R- Olha, por exemplo, um que me marcou muito foi a questão de captação de recursos. Outro tema foi voluntariado. Você percebe como vai captar um voluntário dentro da FEBEM. Fala pra mim como. Gente, inúmeros modos. Às vezes você tem uma visita que vai lá. “Meu, vem cá o que que você faz de diferente? Você poderia estar oferecendo isso pra essa população aqui?” “Ah, posso. Mas eu não posso vir aqui todo dia.” “Não precisa. Que trabalho você tem?” Nós temos professor da USP hoje dentro da nossa EIC, que está nos ajudando quase todo dia, com ideias, com textos. É um voluntário, é uma captação de recursos de voluntários. A FEBEM instituição pra captar recursos é muito complicada. Por que? Existe um processo, por lei, que deve ser assim. Às vezes a gente não pode esperar. "O que você faz?" "Você pode me arrumar um teclado? Estou precisando de um teclado, como é que eu faço?" “Ah, eu trago pra você.” “Que dia que você traz? Estou te esperando.” “Olha, está aqui o teclado.” Acabou meu problema? Não, vou atrás de outro. Então, essa questão da capacitação, por exemplo, pro voluntariado foi um tema muito interessante. Porque tinha outras EICs também da FEBEM nessa capacitação. Foi a pergunta: "Como, dentro da EIC, eu posso captar voluntários se a tua população é fixa?" Mas a gente percebe que no dia-a-dia é diferente. Sabe, não é teórico, é prático. Então, eu costumo falar pro menino: “Olha, todo mundo que passar por esse pátio aqui é um colaborador em potencial, corram atrás.” Eles correm . Então, já sabe, vocês quando forem lá nos visitar, pode saber, você é potencial também.

 

P/1- Eu queria falar um pouco da captação de recursos. Como acontece? Quais são os recursos que vocês têm? Como se dá isso?

 

R- Nosso recurso financeiro hoje é uma EIC auto-sustentável. A própria instituição mantém. Mas, como eu te disse, a questão do Estado é muito burocrática. O Estado é burocrático. Algumas necessidades que nós temos hoje dentro da EIC não podem esperar. Não podem esperar porque a nossa população é ansiosa. O que nós fazemos? Hoje, qualquer necessidade que tenha dentro da EIC é distribuída com os próprios meninos. O que eles fazem? Isso não é orientação da EIC, eles fazem porque são cidadãos. Família vai pra uma visita: “Olha, a gente está sem papel sulfite, será que na próxima visita você pode trazer 10 folhas de papel sulfite pra mim?” A visita traz 50. Cinquenta multiplicado pela população da EIC. Até hoje nós estávamos, até receber a doação do CDI, trabalhando com papel sulfite deles mesmos. Essa captação vem, acima de tudo, deles mesmos. Fita pra impressora, por exemplo, eles trazem, a família traz. Existe também um processo burocrático, pra entrar isso dentro da FEBEM. A gente dá um jeitinho, consegue um pouco mais de rapidez. Então, eles próprios são captadores de recursos

 

P/2- Se você pudesse falar um pouquinho mais sobre a metodologia proposta pelo CDI...

 

R- Ok.

 

P/2- Vocês tiveram dificuldade com ela ou não? Como foi o entendimento sobre a metodologia?

 

R- Na verdade não. Uma mão lavou a outra. Por quê? A gente já viveu a experiência de comunidade. O CDI também com uma experiência de comunidade, usando a informática como ferramenta. Foi o que eu te falei, encontrei minha vocação. Nós, EIC, encontramos nossa vocação. Nada mais define o ser humano, essa missão que ele tem na vida dele, é a ajuda. Eu fico até contente quando eu vejo nos nossos computadores, nas EICs, aquele selinho da Mega Ajuda. Cada vez que eu olho para aquele selinho, eu falo: “Puxa vida, que coisa bonita”. Esse aí é o enfoque maior de ser humano. Essa proposta do CDI veio muito ao encontro do que a gente já pensava. Essa dificuldade, nós conseguimos, sem combinar nada, reunir um grupo que tinha essa mesma proposta. A proposta da Mega Ajuda. E que hoje eu falo assim pro pessoal da nossa EIC, pros nossos meninos: “Escuta, está vendo esse negócio de Mega Ajuda? Isso aí é grande, hein? Isso é grande.” Então, eles: “Senhor, o que que é Mega Ajuda?” Aí começa, né? “O que que é CDI?” “Qual a proposta que ele tem pra gente?” “Traz mais algo sobre o CDI.” “Como é que funciona esse troço aí?” “Ah, está ajudando?” “É, está ajudando.” “Ah, então, quer dizer que vão dar tudo?” Falei: “Não vão dar tudo, não, senhor. Quem vai dar tudo é você. Você tem, sim a obrigação de dar tudo o que você tem e passar isso pra frente. Não guarda pra você, não”. 

 

P/1- Eu queria perguntar um pouco sobre a mudança na forma dos alunos, na postura dos alunos. Você disse que, com a implantação da EIC, o processo de mudança que está tendo, está mudando as mentalidades lá dentro, mas eu imagino que tenha algumas resistências. Eu pediria que você desenvolvesse um pouco, da parte dos alunos, quais são as maiores dificuldades que vocês vêem no trabalho da EIC com os alunos, quais são as maiores resistências? 

 

R- Ótimo. Nossa maior resistência hoje é um grupo pequeno. Isso em toda cultura de sistema prisional tem, tá? A questão daqueles meninos que já estão com a vocação, assim pensam eles, já caracterizada. O futuro deles já pronto. Então são meninos que, normalmente, trabalharam com o tráfico aí fora, nas favelas, nos morros. E eles se acham já direcionados a isso. Então pra eles não existe mudança nenhuma. Pra eles tudo que vier se direciona ao tráfico, se direciona à violência. São poucos, são em torno de 4, 5 meninos, no máximo, que têm essa mentalidade. Mas, que a EIC também, tanto da Cedro, como da Aroeira, está tentando trabalhar. Como? Conversando. “Olha, como que é isso, como é aquilo.” E fazendo, tentando fazer, que acho que é o trabalho primordial nosso, de trazer esse menino ao convívio dos outros. Mas, se você vê uma população igual à nossa, é muito pouco. É muito pouco. Então, é gratificante você ter o quê? Esse grupo também. Por quê? Esse grupo está fazendo a diferença no sentido de ser algo que a gente tem que ir em busca. E mais uma vez a gente voltou naquele velho tema: transformar. A nossa ideia dentro da EIC é transformar. E a gente também tem condições de transformar esses meninos com a EIC. A gente tem condições de mudar essa visão de mundo, essa visão de sobrevivência, que na verdade o que eles querem é sobrevivência.

 

P/1- E como eles interagem, esses meninos? Você tem...

 

R- A princípio, eles interagem de uma maneira muito arredia. Eles se isolam, não querem muito papo. Após algumas horas de conversa, algum tempo que você chega, começa a rodear pela família, que é o ponto fraco de todos eles. É a família: “Como vai tua filha?” Eles são meninos de 16, 17 anos, mas que já têm família constituída. "Como vai teu filho? Você tem uma foto do seu filho pra eu ver?” “Puxa, que menina bonita, que menino bonito. Meu, é seu mesmo?” “Ô, senhor, é claro que é meu!” Então, você vai começando daí. E a partir daí, você vai tirando esse menino. Eu tenho quase certeza que a gente vai chegar lá.

 

P/2- Como é o aprendizado desses meninos da informática, mesmo? Eles têm dificuldade, não têm?

 

R- Ok.

 

P/2- Problemas de coordenação motora ou não. 

 

R- Eu vou dar um puxão de orelha, hoje, no ensino formal. Infelizmente hoje nós temos meninos com histórico escolar de 8a série, que não sabem ler nem escrever. Não estou dizendo que ele é analfabeto funcional, não. Estou falando de analfabeto mesmo, tá? Eu até puxo a orelha dos nossos professores lá. “Gente, vamos ser mais sérios, vamos pensar no humano como humano.” Então, essa questão da EIC e o ensino formal está muito forte. O adolescente, por exemplo, quer escrever uma carta pra família dele, senta no computador, olha, abaixa a cabeça e fica na vergonha. “Poxa, senhor, não sei escrever, nem sei ler.” Falei: “Quem disse que você não sabe ler nem escrever, você sabe, sim senhor.” Você puxa o professor: “Professor, senta aqui com o menino.” Então, essa integração aí da pedagogia com o ensino formal está tendo essa dificuldade. Mas, ao mesmo tempo, a informática dentro desse processo está ajudando muito. Porque hoje o menino não se interessa pelo lápis e pala caneta, mas a máquina está sendo uma ferramenta pra ele ter esse interesse. Essa questão do ensino formal junto com o ensino da informática está dando muita esperança pra gente. Porque hoje nós já temos meninos em 4 meses, que a facilidade da escrita ficou muito maior. Por que? Porque a ferramenta está sendo bem utilizada. E eles mesmos caracterizam isso. Eles falam: “Olha, eu não gosto de escrever não, mas no computador eu vou”. Esses são os piores meninos, entre aspas, pra se tirar de uma aula que acaba. “Ô meu, acabou seu tempo.” “Senhor, só mais um minutinho.” Esse minutinho demora meia hora, 40 minutos, e assim vai. Outra coisa interessante que a gente está vendo na EIC é que nós começamos uma doação que o CDI nos colocou de 10 computadores. Hoje, nós temos mais uma semana, com 14. Eles mesmos já fizeram mais 4 computadores. 

 

P/2- Eles que montaram?

 

R- É. Já montaram quatro computadores. Eu estive aqui a semana passada, eles escreveram uma cartinha pediram alguns monitores, porque o mais difícil é o monitor, pro CDI. “Olha, escrevam do jeito que vocês sabem, eu não quero ser nenhum intermediador, não. Eu vou ser correio, está bom? Então escreve do jeito que vocês sabem aí. Peçam o que vocês querem.” Captador de recursos, não é? E trouxemos aqui uma cartinha pro CDI pedindo essa doação. E as máquinas estão prontas lá, mais uma semana já estão fechando, já estão instalando programas. Isso, em 4 meses de EIC, pra meninos que não sabiam o que era uma máquina lá dentro. Não sabiam o que que era programa. Não pegamos nenhum menino que tinha experiência em informática. Isso caracteriza pra gente um sucesso muito grande. Não nosso, porque a gente é apenas mais uma ferramenta. Mas, deles. A gente tem certeza que esses meninos vão ter história, como eu falei no começo, nós ainda vamos falar muito bem deles, eu tenho certeza disso.

 

P/2- Não tem internet lá?

 

R- Não temos Internet.

 

P/2- _______________

 

R- Olha, eu vejo com bons olhos. Eu acho que dentro da filosofia que o Prof. Gabriel Chalita está dando pra FEBEM, pra área educacional, não de contenção, mas educacional, eu vejo que essa necessidade e essa proibição não vão durar muito tempo, não. Está dentro do que eu imagino. Porque hoje são jovens, tem que ter contato com o mundo. É claro que existe, sim, a questão da comunicação errada que a Internet também possibilita. Mas o que você vê dentro da nossa concepção de EIC é que eles estão preparados e muito pra uma __________ via Internet. É claro que você vai ter que olhar mais, vigiar mais, ficar mais atento ao que eles estão fazendo. Mas, na grande maioria, você vê temas pra pesquisa. O menino quer saber, por exemplo, quais os cursos da Poli “Menino, onde é que você ouviu falar de Poli? É poliesportivo? O que é Poli?” “Não, Poli é isso aí.” Sabe, então você vê que ele está se preparando pro mundo externo. E a Internet nada mais que é isso, é um galgar pro mundo externo. É melhor você dar um menino pra sociedade preparado, dar um menino pra sociedade esclarecido dos direitos e dos deveres inclusive dele, do que dar um menino que quando chegar aqui fora, porque eles estão há mais de três anos presos, não sabe nem o que que é. É assim uma dívida, vou falar de dívida, que a sociedade tem com esses meninos aí. Porque eles estão lá, não é porque eles querem, não. É uma dívida que nós não pagamos. E se estamos pagando, estamos pagando muito devagar, está muito devagar o negócio. Então, essa dívida tem que ser paga de uma maneira clara e no prazo certinho.

 

P/1- E quanto aos educadores, quem são os educadores?

 

R- Hoje nós temos quatro educadores. Dois da EIC Aroeira e dois da Unidade Cedro. A Elaine e o Mário da Unidade Aroeira e outra Elaine e o Rodrigo são educadores da Unidade Cedro. São pessoas comuns, com os mesmos sonhos, com a mesma seriedade, com o mesmo desconforto em estar educando. Educar hoje é um desconforto com você mesmo, porque você está sempre tentando mais, mais e mais, novas experiências. Nós encontramos pessoas dentro do mesmo espaço, com as mesmas propostas e com os mesmos objetivos. 

 

P/1- Eles eram funcionários da FEBEM?

 

R- Eles são funcionários da FEBEM, todos eles são funcionários da FEBEM. Quer dizer, por isso que eu te falo, foi uma coincidência muito grande. De estar todo mundo no mesmo espaço, tão pequeno, com os mesmos objetivos. São pessoas extremamente agradáveis, são pessoas que discutem, nós brigamos muito, sabe, a nível de ideias. Discutimos. Mas sempre estão lá. Nosso objetivo é aqui, vamos chegar lá. Então isso é o nosso carro-chefe dentro da nossa escola.

 

P/1- Tem alguma pergunta, algo que você queria falar que nós não perguntamos, você queria colocar alguma...

 

R- Eu só queria colocar essa questão da dívida social. Hoje o CDI, eu vejo assim, como um instrumento muito forte dentro da proposta educacional. Somente informática não é importante. Databyte ou qualquer uma outra aí, pode dar informática. Cidadania? Procura quem pode dar cidadania hoje. Eu vou em qualquer lugar, vai na própria Internet. Quem está dando cidadania? Então, você vê o singular muito chamativo na proposta. E essa dívida a gente tem o prazer de estar participando de alguém que está ajudando a pagar essa dívida. E o CDI está fazendo isso, e diga-se de passagem, muito bem feito, né? Toda essa atenção, todo esse respaldo pedagógico, dentro da proposta de Paulo Freire dentro dessa proposta de estar junto, que é muito mais importante, o CDI está cumprindo muito bem cumprido esse papel. Tanto é que em outras unidades da FEBEM estão muito de olho. Poxa, é diferente da que eu tenho aqui. Por que? Uma palavra só: cidadania. Só isso.

 

P/1- O que que você achou de dar esse depoimento?

 

R- Eu não dei depoimento. Eu só conversei. [RISOS] Eu só conversei um pouco, um pouco das histórias que a gente vive. Eu acho que a gente começa a se tornar amigos a partir do momento que a gente convive com temas tão gostosos, temas tão bons de se conversar. Eu não acho que isso é entrevista, não. Isso é bate-papo de amigos. Fica tranqüilo.

 

P/1- E a iniciativa do CDI de coletar a memória da instituição, o que que você acha? Queria colocar alguma coisa? 

 

R- Olha, a gente, aqui no Brasil, a gente é citado como um país que não tem memória. Eu acho que não é verdade não, a gente tem memória, sim. 

 

(Fim da fita 1)

 

R- Conversando sobre os anos de 1970. Sobre a universidade, sobre quem era quem. Então a gente tem memória, sim. O que falta na gente é essa provocação. Eu adoro provocar, sabe? Eu gosto de falar assim: "Olha, você não consegue fazer.” “Ah, eu consigo, sim.” “Ah, quero ver.” Sabe? Então, essa questão da memória, é muito importante. Você coletar dados. Por que? Daqui a 10 anos, daqui a 15 anos. Olha, alguém fez, sabe? Alguém tinha uma ideia. Não importa o nome, o nome é o menos importante de tudo isso, mas a ideia é muito importante.

 

P/2- ______encerrar. Agradecer a vocês em nome do Museu da Pessoa e do CDI.  

 

R- O prazer é todo meu, nossa, todo meu. 

 

P/2- Muito obrigada.

 

P/1- Obrigado.

 

R- Está joia.

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