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História

O trabalho missionário prospera

História de: Sueli Câmara Marques
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/12/2020

Sinopse

Nascimento em São Paulo. Irmãos. Viagens missionárias com o pai. Trabalho missionário. Estudos. Formação em Educação Crista. Capelã do Lar Batista. Técnico em enfermagem. Viagem para Bolívia. Trabalho com imigrantes hispânicos. Imigrantes venezuelanas. Projeto “1000 Mulheres”. Brechó missionário. Pandemia.

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Meu nome é Sueli Câmara Marques, eu nasci em São Paulo na capital e minha data de nascimento é 24 de março de 76.

 

Eu lembro já com doze anos, treze anos, eu já fazia esse trabalho missionário, que eu ia nas casas, batia na porta das pessoas, chamava: “Sou da igreja tal, trouxe para você esse folhetinho com a palavra de Deus para você ler e meditar… E a gente vai ter uma programação especial, vai passar um filme, no sábado. Estamos chamando todo mundo para vir, se você puder estar com a gente”. Eu lembro que fazia isso. E tinha que parar e ficar ensinando a bíblia mesmo para as pessoas, falando tudo, explicando e depois de adulta vou lembrar e falar: “Nossa, eu era tão pequenininha, que pessoa ousada. Ficava lá ensinando os adultos” e eu acho que as pessoas iam e gostavam, porque ficavam emocionadas e tocadas de ver uma criança ensinando a bíblia. Então as pessoas acabavam indo também. Era muito gostoso. Então a gente ia um final de semana, saia uma sexta-feira à noite, ou às vezes um sábado de manhã e volta no sábado à noite, ou no domingo à noite; a gente dormia lá na igreja mesmo, então era muito gostoso.

 

Foi na época dos dezoito anos que eu senti um chamado especial para poder trabalhar com pessoas com trabalho missionário. Então eu conversei como pastor da minha igreja, depois falei com a minha família… Aí fui morar no Rio de Janeiro para estudar, fiquei lá quatro anos em um seminário, estudando lá e depois eu retornei para São Paulo de novo. Os primeiros anos foram muito difíceis para ficar longe da família, estar com pessoas que você não conhece, de adaptação, de tudo, mas fui vencendo.

Depois eu voltei do Rio de Janeiro para São Paulo de novo; eu não quis continuar lá, quis voltar para cá e continuar em São Paulo. 

 

Mas no meu último ano de seminário eu fui pra Bolívia e fiz meu estágio missionário na Bolívia, e daí nasceu o meu amor por trabalhar com imigrantes. E eu queria voltar para a Bolívia, porque eu queria trabalhar lá. Só que Deus não me deixou ir para lá; eu falo que ele sempre foi me colocando aqui e aí os bolivianos começaram a chegar em São Paulo. Eu falei: “Então Deus trouxe a Bolívia para mim”. Então comecei a trabalhar com bolivianos e fazer esse trabalho, já não mais com brasileiros, mas mais direcionado para os bolivianos. Então trabalhei ali no Brás, eu visitava as oficinas de costura, eu tinha liberdade para entrar nelas, trabalhei com as crianças, fizemos projeto educacional para as crianças… Começamos o PEP [Projeto de Educação Profissional], que é um projeto social educacional, que a maior parte das crianças são bolivianas. As crianças têm dificuldade de entrar na creche, então começamos o projeto. As crianças chegavam falando só o espanhol e aprendiam o português, para depois entrar na escola mais preparados. E até hoje tem o projeto lá e continua o trabalho com as crianças. Aí fazia projetos culturais, de esporte, de família… Na igreja, trazia para igreja a família toda, para fazer trabalho com eles, com as crianças, histórias, brinquedos infláveis. Eu conseguia empréstimos… A gente fazia coisas muito gostosas lá. Depois eu saí do Brás; fiquei um tempo na Vila Medeiros e depois fui para a Vila Salete e lá eu comecei a fazer trabalho com as venezuelanas. Quando a gente começa em um emprego novo, a gente ainda não sabe onde encontrar as pessoas, e o meu trabalho era só com imigrantes hispânicos. E eu fui procurar ao redor do bairro e procurar onde haviam os imigrantes. E então eu achei uma Casa da Mulher Imigrante, que elas moravam. Elas foram de Roraima para cá, passavam, ficavam naquela casa um tempo e depois de oito meses elas conseguiam trabalho, alugavam casas e seguiam a vida delas. Então achei aquele local e comecei a me aproximar das mulheres e a visitá-la, chamava no portão, conversava com elas… Fiz projeto na igreja social de atendimento médico, psicológico, oftalmo… Aí trouxe pra lá, convidei elas para virem a participar, artesanato… Elas passaram o dia lá, se maravilharam, porque conversaram com podólogo, cortaram o cabelo, fizeram escova e fomos no oftalmologista e massagista… Elas ficaram maravilhadas e continuamos tendo aula de artesanato, porque as mulheres têm toda quinta-feira, eu convidava, elas vinham para participar do artesanato e eu fui fazendo amizade. Sempre chegava uma mulher nova, recente de lá. “Ai não tenho roupa…”. Eu falava: “Você precisa de roupa?” Eu dava doação de roupa, calçado... E sempre que chegava uma nova, falava assim: “Vai lá na igreja, conversa com a Sueli, ela te doa roupa”. Elas vinham, doavam roupa… E comecei a acompanhar essas mulheres, ajudar a fazer currículo. Porque o imigrante vem e ele não sabe nada da nossa cultura, ele não sabe onde procurar emprego, ele não sabe o português, é muita coisa que ele precisa conhecer. Aí comecei a ajudá-las nisso. Já fazia isso no Brás e falou que no Brás eu era assistente social, advogada, enfermeira, médica, psicóloga, tudo. Tudo o que você pensava eu fazia. Porque eu acompanhei os médicos, ia nas consultas médicas com as mulheres, eu acompanhava. “Tenho exame para fazer em tal lugar. Eu não sei aonde ir”. Eu tinha um “poisézinho”, um carro que eu ganhei, que eu ia com elas para todo quanto é lugar e acompanhava. E com as venezuelanas continuei fazendo esse trabalho. E surgiu a oportunidade de ter esse… Eu conheci uma venezuelana que era recuperada das drogas, que estava em uma das casas que a gente tem, que é a Casa Rosa, da Cristalândia, e eu fiz muita amizade com ela e ia lá visitar. Ela falou: “Sueli, tem um projeto [“1000 Mulheres” do SEBRAE], assim, assim, assim com as mulheres, que vão fazer aqui e eu indiquei você. Eu dei o seu nome para você fazer com as venezuelanas ai”. "Tá bom Denise, muito obrigada”. Então o pessoal entrou em contato comigo e eu fiz tudo que consegui para que essas meninas participassem deste projeto, que ia ser na Casa Rosa. 

 

Eu fui para acompanhá-las, para assistir com elas, traduzir o que não entendessem. “Eu posso me inscrever também?", já que ia estar lá. “Pode”. Então eu fiz junto com elas o curso [“1000 Mulheres”], participando…  “Mas você precisa escrever um projeto”. Eu falei: “Que projeto eu vou fazer agora, meu Deus?”. Eu falei: “Queria ter um brechó, então vou começar”. Do nada mesmo, eu comecei a escrever o projeto e como seria o brechó. A ideia era o seguinte, que o brechó fosse missionário, que era para eu vender as roupas do brechó e com o dinheiro do brechó eu poderia ajudar os venezuelanos. Porque quando as mulheres completaram os oito meses na casa, que tinham que alugar casa, elas juntavam dinheiro para dar depósito no aluguel. Mas quando muda para casa, o que tinham? Absolutamente nada. Então eu ia conseguir doação de móveis para elas, de colchão, cobertor, cama, fogão, geladeira, de tudo, para elas poderem começar a vida nova delas. Eu tinha interesse em fazer isso, de ter esse brechó para poder ajudá-las.

Aí comecei a montar, arrumar as roupas, passar, lavar, comprar arara, instalar arara na parede… Arara não, mas fui fazendo as prateleiras, tudo bonitinho. Meu esposo ajudou; “Eu preciso que você faça isso”. E ele foi comprar, foi fazendo tudo, comprando cabide, e foi comprando e montei meu brechó bonitinho.  Falei: “Agora preciso divulgar”. Timidamente comecei a divulgar…

 

Continuo trabalhando na minha igreja com os venezuelanos; com meu brechó, fazendo ele ir para frente para dar certo. Falei assim: "Agora vai ser missionário mesmo”, porque além de ajudar o pessoal, ainda tem que me dar um sustento, para continuar fazendo o trabalho com eles. Então estou aí nessa de fazer esse brechó ir para frente e dar certo; já anunciei, já recebi bastante ligação e continuo fazendo.

 

E aí o brechó, é porque assim: como eu recebia muita doação de roupa para doar para elas e acabava ficando com uma quantidade de roupa grande em casa, às vezes fazíamos bazar na igreja com essas roupas. Aí falou assim: “Sueli, não pode ficar guardando essas roupas aqui. Tem que dispensar essas roupas logo. Essa roupa não pode ficar aqui”. E o bazar a gente fazia uma vez a cada dois meses, ou uma vez por semestre. E eu falei: "Não posso”. Então é uma forma de ter a roupa para poder doar para elas e também ter algum recurso para ajudá-las. Porque às vezes iam procurar emprego e não tinha crédito no Bilhete Único, então colocava crédito no bilhete para procurar emprego. “Eu tenho consulta médica, não tenho como ir”, então às vezes colocava crédito no Bilhete Único ou então ia com elas. Quando meu carro quebrou, ai comecei a ver o Uber para poder ajudá-las, para ir, pagar, voltar… Então tinha que ter um recurso a mais, para poder fazer esse trabalho. Então o brechó era uma maneira, um recurso disponível que eu tinha, que pode tanto servir para elas, quanto render lucro para poder ajudá-las também. Então essa foi a ideia inicial.

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