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História

O técnico Gaúcho Operando em Águas Cariocas

História de: Fernando Magalhães
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Gaúcho. Técnico em elétrica. Mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar na Reduc da Petrobras. Cursou Química como segunda formação. Trabalha há 23 anos na àrea de tratamento de águas e efluentes industriais. Na data da entrevista trabalhava como técnico de operação sênior e tutor de novos operadores. Participou ativamente de marcos históricos da Empresa, e ressalta a importância da Petrobras no desenvolvimento da economia do país.

História completa

Projeto Memória Petrobras Realização Museu da Pessoa Entrevista de Fernando Magalhães Entrevistado por ____________ Duque de Caxias, ____________ Código: MPET_REDUC_TM_001 Transcrito por Andiara Pinheiro Revisado por Giulia Araujo Entrevista P/1 – Fernando, para começar, eu vou pedir para você dizer seu nome completo, seu local de nascimento e sua data de nascimento. R – Tá. Meu nome é Fernando (Porcumas?) Magalhães, eu nasci em 7 do 10 de 64, foi no Rio Grande do Sul, eu sou gaúcho, e vim ter contato com a Petrobrás aqui no Rio de Janeiro, já quando eu morava no Rio de Janeiro. P/1 – Você veio morar no Rio em que ocasião? R – Meu pai era militar, né? E aí ele... minha família toda é do Rio Grande do Sul, ele veio transferido para cá, para servir aqui no Rio de Janeiro e aqui ele entrou na reserva, tal. E aí eu estudei aqui, fiz escola técnica, tal, segui carreira técnica aqui no Rio de Janeiro. P/1 – Em que área? Área técnica em que área? R – Na eletrotécnica. Fiz na escola técnica, na... Centro Federal de Educação Tecnológico. P/1 – E como é que você teve contato com a Petrobrás? O teu primeiro contrato como é que foi? R – É, na realidade a gente... lá na escola técnica você já começa aspirar a um trabalho na Petrobrás, né? Em função da qualidade do processo, da empresa. Já é um sonho, vamos dizer assim. A gente já começa na escola técnica já querendo entrar na Petrobrás, é mais ou menos isso. P/1 – E em que ano você ingressou? R – É... eu terminei escola técnica em 82, 1982, na crise, final do governo militar, né? E aí acabei desviando um pouco em função de precisar trabalhar, eu fui bancário. Eu fiz um concurso na época pro Banco do Estado de Pernambuco, Bandep. Fui um ano bancário e aí abriu um concurso na área técnica prá Petrobrás e aí eu não aguentei e falei: “Tenho que voltar”. E aí para realizar meu sonho, eu fiz o concurso, passei, meu concurso é de 84, 1984, e em 86 eu fui admitido na Petrobrás, fiz o curso de formação aqui na Reduc (Refinaria de Duque de Caxias) também, foi uma experiência pioneira, foi à noite. Meio puxado e a gente trabalhava, fazia o curso à noite, mas valeu muito a pena. P/1 – Fernando, conta como é que foi esse cotidiano do curso de formação? Como é que era? Vocês vinham para cá, como é que era o curso... R - ... é, a empresa disponibilizou pra gente um transporte, um ônibus, um micro ônibus que saia de Bom Sucesso. Então a gente ia para Bom Sucesso, a nossa turma, turma 47, a gente se reunia lá em Bom Sucesso, entrava no ônibus e vinha prá Reduc. O curso começava aqui por volta de seis e meia e ia até às dez da noite. E às dez da noite esse ônibus fazia um itinerário que tentasse ajudar a todos, chegar próximo de casa, né? Para no dia seguinte tudo de novo, de segunda à sexta-feira e tal. P/1 – Mas aqui como é que era? A rotina era aula, vocês conheceram nesse momento já as unidades aqui dentro? R – Não, a gente fez uma visita técnica, tipo, rodando só assim, dando uma geral na refinaria. E depois o curso de formação, ele é bem abrangente, ele procura te dar uma visão global de refinaria, ele não se atém às partes do processo, ele procura te dar uma formação geral para ser um operador de refinaria, né? Hoje técnico de operação. E aí depois é que você, de acordo com a sua classificação no curso e a disponibilidade de vagas, você é alocado nas áreas nos respectivos processos de acordo com a formação de cada um. Você tem um mixe de formação de técnicos de operação, tem cara que é da área de eletrotécnica, tem gente que é de química, tem gente que é de eletrônica, e a gente procura tentar adequar a formação à área de processo em que o cara vai trabalhar. P/1 – E a sua opção era ficar na Reduc? R – Sim. Sim, sempre foi. P/1 – E em que área especificamente você começou a trabalhar depois do curso de formação? R – É, engraçado. A minha formação, elétrica, né? Tinha tudo para trabalhar na termelétrica, geração de energia, e no entanto, essa área que a gente chama de utilidades, ela é composta por geração de águas, geração de vapor, tratamento de água, formação de energia elétrica. E na época a gente estagiava nas três áreas, fazia um estágio nas três áreas após o curso de formação. E eu passei pelas três áreas e gostei muito da área de tratamento de água e efluentes industriais. E aí alguma coisa me fez optar por essa área diversa da minha área, da minha formação. E acabou que depois eu fui estudar Química, e aí me desenvolvi na carreira e estou até hoje, vai fazer 23 anos nessa área de tratamento de águas e efluentes industriais. P/1 – Pois é, eu tô pensando aqui, né? Já que você fez essa carreira longa e se dedicando a mesma questão do tratamento de água, da década de 80 pra cá, o que é que mudou nesse aspecto? R – Ah, mudou muita coisa. Naquela época a gente tinha uma visão de que a água era um insumo que era inesgotável. A gente “Ah, no planeta...” grande parte do planeta é formado por água, no entanto, hoje essa visão é completamente diferente em função da ação do homem, que a gente chama de ação antropogênica. O homem hoje interfere no meio ambiente de forma que a disponibilização de água, das águas que são de fácil captação, águas superficiais, você tem aí cerca de 2% de disponibilização. O homem hoje vem na realidade deteriorando a qualidade dessa água em função de despejos industriais, esgoto doméstico, fica cada vez um insumo mais difícil de você ter, né? Vai ser a grande crise do homem, vai ser a disponibilização de água, principalmente água doce para consumo humano. E hoje essa visão, ela acaba se tornando muito relevante, por quê? Você tem um binômio de consumo humano e consumo industrial. E hoje a legislação, ela preconiza que a água é um bem público, então ela tem que servir a sociedade. E hoje isso impacta fortemente no crescimento industrial, porque você para ter indústrias, você precisa desse insumo de água. E como o homem tá acabando com a qualidade da água, você começa então a quê? A faltar água pro crescimento industrial e essa é hoje... isso fez dar uma guinada nessa visão desse insumo. E a gente sabe. Então hoje muitas tecnologias vieram a se desenvolver em função disso, de tentar tratar essa água que o homem vem poluindo cada vez mais. E tem a visão ambiental também que é você preservar os mananciais, então tá havendo um desenvolvimento dessa tecnologia no sentido de você diminuir essa captação, esse uso da água e desperdiçar, diminuir o desperdício interno. É esse hoje o grande viés do desenvolvimento da indústria com relação a parte de tratamento de água. É você não descartar, você tentar reutilizar essa água, reusar essa água internamente, de forma a você otimizar isso, né? A legislação hoje, ela faz você pagar pela captação e pagar pelo descarte dessa água, você acaba pagando duas vezes. E aí entra uma tecnologia, nesse meio, para quê? Você diminuir o descarte e você reusar essa água nos seus processos. Isso é bom pra indústria, é bom pro homem, é bom para nossa sobrevivência. P/1 – Pensando na Reduc, você eu acho que melhor do que ninguém pode explicar isso. Pra essa área em termos de estrutura, o que é que mudou lá da década de 80 pra cá? R – Exatamente essa política de você começar a implantar sistemas de reuso de água, hoje a Reduc investiu fortemente nessa parte de reuso de água de forma a você pegar aquela água do processo primário que é o tratamento de água, né? Do tratamento primário, aquela água que era descartada, tipo descarte de clarificadores, sistema de clarificação, lavagem de filtros de areia. E essa água que era descartada hoje, a gente vai reusá-la, para poder voltar com ela prá entrada da nossa estação, né? E de forma a você o quê? Diminuir a captação. Então a Reduc investiu no que a gente chama de processo de desidratação de lodo e depois secagem de lodo. Até porque esse resíduo, ele ia parar no corpo receptor e a mudança da legislação não permite mais que a gente jogue esses resíduos, esse lodo no corpo receptor. Então esse lodo hoje vai ser disposto em aterros sanitários, são os resíduos sólidos. P/1 – Você tinha falado que, inclusive pelo seu interesse da área foi estudar Química e tudo, conta um pouco da tua evolução em termos de carreira aqui dentro, nessa área. R – É. A Petrobrás ela é fantástica, porque ela... para quem está imbuído no... tá no espírito de crescer, ela te dá muitas oportunidades. Então eu como operador, na realidade eu acabei me desenvolvendo em áreas de projetos, em novos projetos, eu acabei aprendendo a parte de automação industrial. Então eu tive oportunidade de trabalhar com automação industrial, automatizar aquelas unidades onde o homem fazia os processos de uma forma mais... de uma forma manual, e você agregar nesse contexto, segurança, porque o cara não tá tão exposto na área e você acabar dando confiabilidade a esses processos, a essas unidades de processos. E eu tive oportunidade de trabalhar com isso, então ela me deu vários cursos e eu acabei que entrei nessa área de automação, né? Para que o homem pudesse operar essas unidades à distância. Então com a implantação do Centro Integrado de Controle, onde hoje você tem, vamos dizer, o cérebro da refinaria, né? Onde os operadores, eles operam as unidades à distância, eles supervisionam e controlam as variáveis de processos dessas unidades. Eu tive a oportunidade de crescer dentro dessa área e acompanhar o desenvolvimento tecnológico da Petrobrás, porque isso foi um movimento que aconteceu na Petrobrás como um todo, e eu tive oportunidade de trabalhar com isso. Hoje eu tenho outra gama de conhecimento que teoricamente eu não pedi, a Petrobrás me deu. Quer dizer, isso aí agrega muito valor profissionalmente a carreira do funcionário da Petrobrás. Porque ela é uma empresa que investe pesado em tecnologia. P/1 – Hoje, Fernando, a tua área é, especificamente eu diria, a sua função qual é? R – Eu sou técnico de operação sênior, na realidade eu já passei por todas as funções na carreira de operação, né? Eu já fui... na época tinha subchefe que era operador dois, tinha chefe que era operador três, chefe de operação que era chefe do grupo de turno, né? Minha carreira aí é de turno, de revezamento, ininterrupto de revezamento. Eu depois passei... fui a supervisor de equipe de turno, depois eu fui técnico de operação que era uma função em horário administrativo, de segunda à sexta-feira. Houve uma nova mudança do plano de cargas e hoje eu fui enquadrado como técnico de operação sênior que já tá quase lá no finalzinho da carreira, e acabou que agora entrei na área de treinamento. Então eu tô como tutor, e eu recebo os novos operadores, eu faço a especialização desses novos operadores que estão entrando hoje na nova Petrobrás, vamos dizer assim, né? E outra grande oportunidade que a empresa me dá, que é a hora de eu passar o conhecimento que eu adquiri ao longo desse tempo e multiplicar isso aí, porque eu acho que é exatamente isso que faz essa empresa grande. É o conhecimento, é o comprometimento da força de trabalho dela e essa multiplicação de conhecimento e comprometimentos, isso faz essa empresa. É o, vamos dizer, o (pleis?) que o empregado dá pela sociedade, pela empresa, pelo país. P/1 – Trabalhando de turno, quais foram as circunstâncias inusitadas que você se deparou aí? R – Várias circunstâncias. É um aprendizado muito grande porque você trabalhar em turno é um horário muito atípico, então de repente você acaba criando uma segunda família na realidade. E às vezes a gente tá mais tempo aqui dentro que está com a nossa própria família. Então você acaba estreitando relações, você acaba aprendendo a entender as individualidades das pessoas. Você tá numa madrugada, você tá num sábado, você tá num carnaval, num ano novo e interagindo de uma forma que tem um objetivo comum que é a produção, é a continuidade operacional. Mas envolve uma série de outras coisas e a gente atende muito, muito, como é o ser humano, como são as pessoas. É um trabalho interessante. P/1 – Qual era a rotina do turno? Como... de... tantas horas... R – É, o revezamento de turno, você tem uma tabela que você trabalha em três horários. Basicamente hoje, a nossa tabela, o sistema roda 24 horas, as unidades rodam 24 horas. Você imagina por exemplo equipamentos que trabalham com altas pressões, altas temperaturas, você não pode chegar lá e desligar a máquina, né? “Então vou embora, acabou meu horário”, não dá. Então esse sistema, ele roda. E as pessoas então, nessa tabela de turno, você tem três grupos de turno que trabalham de sete e 30 da manhã às 15 e 30, de 15 e 30 às 23 e 30 e de 23 e 30 às sete e 30 da manhã do outro dia. Então, enquanto três grupos de turno trabalham nesse horário, dois grupos estão folgando. E você vai rodando nesses horários na tabela. Basicamente você trabalha sete horários por mês, desses três horários durante o mês, rodando na tabela. E tem os folgões e tal. P/1 – Fernando, dessa... da tua carreira, de todas as áreas que você passou, qual foi o maior desafio que você enfrentou aqui na Reduc, profissionalmente falando. R – Foram, nossa, foram muitos desafios. A nossa função de operação na realidade são desafios diários, cada dia é um dia. O processo ele dá sinais, ele... que são coisas assim imprevisíveis. E dentro de determinados aspectos de confiabilidade, operacional, de segurança, você tem que interagir com esse processo de forma que você tenha continuidade operacional, com respeito à segurança das pessoas, ao meio ambiente, isso hoje é fundamental. Então na realidade esses desafios são diários, mas outros grandes desafios que nós tivemos aqui, né? Que foram períodos que nós passamos aqui, períodos complicados em função de políticas, períodos de alguns acidentes assim, que impactaram fortemente a imagem da empresa. E a força de trabalho acaba se sentindo atingida com esse impacto. Mas a década de... o ano de dois mil foi um divisor de águas muito grande prá Petrobrás, em função daquele acidente, do rompimento do oleoduto na baía de Guanabara. Aquilo ali impactou fortemente a força de trabalho, eu acho que esse foi o grande desafio que a gente teve, tentar virar o jogo, né? Tentar mudar essa imagem que a sociedade estava tendo de uma Petrobrás poluidora, de uma Petrobrás que não respeita a sociedade, não respeita o meio ambiente. E isso aí fez com que a Petrobrás crescesse muito em função dessa necessidade de mudar a empresa, a imagem da empresa para sociedade e para o mundo. Porque a Petrobrás hoje é uma empresa internacional. P/1 – Você falou da questão do acidente e de alguns outros períodos, inclusive, em que houve esse tipo de problema. Do que você lembra, como que são essas questões que envolvem a Petrobrás como um todo, eram sentidas aqui. De que forma, que você se lembra, de que isso se manifestava nos funcionários e tudo. No cotidiano da refinaria. R – Literalmente vestir a camisa da empresa. Eu acho que esse é o jargão que a gente usa muito, mas que é como se fosse uma segunda pele, você acaba vestindo a camisa da empresa, você acaba vivenciando a realidade da empresa. Então você vê a sua empresa numa situação ruim, né? E ele não é... é a maior empresa do país. Hoje as pessoas vêem no Brasil, vêem a Petrobrás na realidade. É uma empresa que se destaca hoje mundialmente, nós vamos ser a quinta empresa do mundo. Esse é o objetivo do governo, é o objetivo da empresa. É o que a gente quer, é o que a gente enxerga pro futuro. E a gente acaba então, vivenciando situações que a gente... são emergências operacionais, as vezes acontece, faz parte do nosso trabalho, né? Incêndios, a gente trabalha com temperaturas elevadas, a gente trabalha com pressões elevadas. Existe periculosidade no nosso trabalho, entendeu? E a empresa investe muito nessa área de segurança, treinamento pessoal inclusive, brigada de incêndio, para vazamentos de gás, vazamentos de líquido. Hoje a gente tem aí centros de defesa ambiental espalhado aí pelo Brasil todo, de forma que você possa atuar o mais rápido possível em caso de algum sinistro desse. Mas o investimento que foi feito ao longo desses, posso falar, desses últimos nove anos aí, foi um investimento muito pesado. Posso quase dizer, afirmar, que foi a empresa que mais investiu no mundo nessa área de segurança, é por isso que a gente tá hoje com esses resultados bons. Porque há muito que melhorar ainda, eu acho que esse é o grande desafio, é você tá sempre melhorando, você tem um objetivo de você crescer mas com melhoria contínua, com resultados sustentáveis. A Petrobrás, ela precisa ter resultados sustentáveis para ela poder continuar competitiva nesse mundo hoje que é um mundo globalizado, né? Houve uma mudança muito grande depois de internet. Hoje você tá conectado no mundo, se a empresa não tiver agilidade, ela não sobrevive no ambiente competitivo e a empresa vem seguindo nesse caminho. Se mostrar competente, otimizada e competitiva, né? Principalmente. P/1 – Fernando, você pode contar um pouco prá gente como é que é a relação da Reduc com a comunidade, enfim, onde ela tá inserida aqui em Duque de Caxias? R – Sim. Isso é uma outra coisa que a empresa vem investindo bastante. É exatamente nesse relacionamento que ela tem, no entorno dela. Que na realidade aonde que você implanta uma unidade da Petrobrás, você tem um crescimento e às vezes um crescimento desordenado dessa região, né? E isso não era visto, não era tratado porque não era a atividade fim da empresa. E hoje com esse viés social que a empresa tem, ela começa a interagir mais com a sociedade, com seu entorno. A gente tem umas contradições assim, que elas ocorreram ao longo do tempo, então por exemplo, a Reduc hoje, ela trata água numa quantidade para uma cidade de sei lá, 200 mil habitantes. E no entanto, a comunidade aqui do lado da Reduc não tem água potável. Então tá se estudando parcerias aí, é uma coisa que vem se estudando ao longo do tempo alguma forma da empresa ajudar o Estado a de repente fornecer, ajudar nesse fornecimento de água para essa comunidade. Mas não é só isso, a coisa vai além. Hoje nós temos programas por exemplo, de envolver todas as indústrias que estão no entorno da Petrobrás, que isso aqui virou um pólo, né? Um pólo industrial, e a empresa se relacionar com essas indústrias, por exemplo, para tratar grandes sinistros que possam vir a ocorrer. Então você tem vários programas, a empresa faz vários treinamentos, vários simulados. Ocorreu um agora, recentemente, envolvendo várias dessas empresas. Existem programas específicos para isso, e cada vez mais, porque de certa forma, nós impactamos, de certa forma não, nós impactamos fortemente essa região. Então a empresa tem que dar essa contraprestação, tipo, eu impacto você mas ao mesmo tempo eu acabo ajudando você. Então nós temos por exemplo, coleta de lixo. O lixo que é gerado aqui na refinaria. A gente tem um programa de reciclagem que acaba ajudando a comunidade, porque o retorno que você tem, o dinheiro que você tem dessa reciclagem desse lixo, a gente ajuda instituições aqui, no entorno da refinaria. É uma outra relação que a refinaria tem, interessante, muito importante para a comunidade. P/1 – Fernando, se você tivesse que dizer aí uma característica da Reduc, aliás não precisa ser só uma. Mas quais são as principais características da Reduc, de um modo geral? R – A Reduc hoje, é um complexo industrial que ele é o mais peculiar da Petrobrás. A Reduc hoje é a refinaria mais complexa do abastecimento do refino. Ela tem aí um mix de produtos beirando quase 60 produtos, né? Nós produzimos muitos derivados e a Reduc cresceu muito nos últimos anos, ela... investiu-se muito na Reduc. Hoje a Reduc ela tá com um fator de conversão, de unidades de coque, já partiu meados de 2008, que isso aí com certeza faz alavancar a Reduc. A Reduc entra mais fortemente até no próprio sistema Petrobrás porque essa não é uma competitividade, mas a gente tá sempre se comparando, né? As unidades de processo, as unidades da Petrobrás como um todo, elas se auto avaliam, sempre no intuito de melhorar. Aquilo que eu te falei, aquela melhoria contínua. E a Reduc hoje, para você ter uma ideia, o impacto dela na região de Caxias... Caxias hoje é o sexto PIB (Produto Interno Bruto) do país em função da arrecadação de produtos na venda dos derivados que são produzidos aqui na Reduc. Então a Reduc tem esse poder de alavancar a economia dessa região toda, isso é muito, muito, muito importante, né? Nós estamos precisando de desenvolvimento nesse país, de dar emprego. Hoje nós temos aí 15 mil pessoas dentro da Reduc na força de trabalho seja contratado, pessoal próprio. Todas as obras que tem hoje na refinaria tá englobando aí um universo de 15 mil pessoas e isso aí é fantástico para uma região carente como é a baixada fluminense, isso é muito importante para o Rio de Janeiro, né? Prá Unidade Federativa, isso é fantástico, essa geração de empregos aí. P/1 – Houve alguma alteração no cotidiano da refinaria em virtude da crise econômica? R – Sim, com certeza, né? Eu acho que a Petrobrás, ela como um todo, ela foi impactada, o país foi impactado fortemente pela escassez de recursos. A Petrobrás, ela tinha, ela tinha não, ela tem uma visão estratégica de... até 2012 de investir cento e tantos bilhões. E de repente esse dinheiro vai e some do mercado, né? Como a empresa capta esses recursos num ambiente de incerteza, num ambiente de crise. Esse é o grande desafio que a Petrobrás tá passando hoje, mas ela é uma empresa que eu não tenho a menor dúvida disso, ela vai dar esse retorno pro país. E a empresa tá sinalizando isso de uma forma muito transparente prá sociedade que ela não vai parar com os investimentos dela, ela vai continuar investindo apesar da crise. E eu tenho certeza que essa crise, ela... ano que vem a gente já tá respirando melhor aí. E a Petrobrás fazendo a parte dela. P/1 – Agora por outro lado, já houve alguma mudança no cotidiano em virtude do pré sal? R – Sim. Hoje a gente enquanto funcionários da Petrobrás, isso é uma grande preocupação prá gente. Porque a gente vislumbra vários perigos aí que eu acho que o país precisa se preparar, né? Ninguém sabe na realidade, não há certeza da potencialidade do pré sal, a gente sabe que é muito grande. Agora, o quanto, não se sabe. Tecnologicamente não se sabe. Há que se ainda ter um... muitos outros indícios para você delimitar o potencial de petróleo que tem. E a gente sabe da importância do petróleo no mundo, né? Há países fomentando guerras em função de petróleo e isso aí acaba impactando a gente. Você pensando lá, “Poxa, a gente tá com esse patrimônio que é do povo brasileiro...” e a gente fica preocupado, né? Como isso vai ser tratado, em forma de planejamento governamental, como fica a Petrobrás inserida nesse contexto. Porque hoje ela é a empresa que detêm essa tecnologia de prospecção, de águas profundas, enfim, é campeã nesse sentido e vai continuar, não tenho a menor dúvida disso, porque ela investe pesado nisso. Hoje é uma grande preocupação da gente aí, mas eu tenho certeza que a empresa vai fazer a parte dela, a gente espera que isso reverter da melhor forma possível para o país, para sociedade brasileira. Eu acho que o brasileiro tá precisando disso. Garantir essas reservas pra gente. P/1 – E em relação ao Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) e até mesmo as Refinarias Premium, também houve alguma alteração, enfim, se prepara alguma alteração na Reduc em virtude disso? R – É, na realidade, a Reduc hoje ela produz insumos, né? Para indústria petroquímica, na realidade a Petrobrás voltou a atuar na petroquímica nesse novo Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). A Petrobrás... é um projeto eu acho que, nossa, de 12 bilhões, não sei. Não vou te dar números assim, tô te falando em sentimento mais ou menos. Um investimento que nunca teve no Rio de Janeiro, quer dizer, isso vai impactar fortemente aquela região, você vai ver, aquela região lá crescer muito, você vai ver o Rio de Janeiro crescer muito. E a Reduc, intrinsecamente, acaba ligada a isso, porque a gente fornece insumos, né? Essa logística, eu não sei como ela, isso transcende aí a minha... os meus horizontes aí. Mas com certeza ela tá nesse contexto, ela tá no Rio de Janeiro. Isso é um pólo industrial, a gente vai ter outro aqui. Eu digo “Pô, graças a Deus, que bom!”. P/1 – A gente falou... você mencionou Fernando, algumas questões de política e tal. Como é que vocês, você particularmente, vivenciou a década de 90 aqui, com aquelas intervenções políticas sobre a Petrobrás. R – É, na realidade, aquilo foi um movimento. Eu acho que são círculos que ocorrem, círculos de desenvolvimento de novas ideias, né? E a gente tava ali no auge da globalização, do neoliberalismo, enfim, e aquelas políticas de privatização, aqueles movimentos de privatização porque aquilo era mundial, né? E diferentemente a gente não podia deixar de passar por isso. Foi um período de incertezas sim, nós enquanto força de trabalho, a gente ficou preocupado, bastante preocupado com isso. Eu também fiquei muito, né? Porque você se sente ameaçado, mas hoje a gente vê que isso acabou sendo bom, isso teve um lado bom, essas ameaças. Porque fez com que a empresa se reformulasse, que a empresa olhasse para o seu interior e visse quais são aqueles pontos fracos que ela tava em função de um... enfim, de um monopólio que existia e que hoje não existe mais. Se preparar para a competitividade, né? Só que na realidade essa competitividade acabou não acontecendo. Os parceiros internacionais não vieram. A empresa agora tá tentando uma parceria lá na refinaria do Nordeste com a Venezuela, tentando, vamos dizer, arrumar parcerias no mercado internacional, é o que a empresa vem tentando fazer. E já tem hoje vários exemplos com essa nova legislação dos campos de petróleo e tal, você já tem poços que são hoje operados pela Petrobrás, a Petrobrás tem lá 40%, a ADP tem 20. Você já tem já um invento ali com relação a essa legislação das jazidas de petróleo. Isso veio com a Constituição de 88, isso veio com a quebra do monopólio. E estamos aí, a Petrobrás continua aí, competitiva, crescendo, dando resultados. P/1 – Você é sindicalizado? Participa ou já participou... R – É, eu já fui, vamos dizer assim, mais aguerrido. Faz parte né? Eu também tive os meus aprendizados aí ao longo da história. Eu acho importante sim, eu acho que o sindicato, ele é importante no sentido de ser um... de representar a categoria mas não é só representar a categoria em questões salariais, em... é com relação às condições de trabalho, a segurança no trabalho. A Petrobrás é uma empregadora muito boa, tudo o que eu tenho hoje eu devo a Petrobrás, eu tenho orgulho de trabalhar na Petrobrás. Falo isso numa boa mesmo, tranquilo. Mas de qualquer forma, essa relação entre empregador e empregado, ela precisa de um equilíbrio, né? E aí que entra o sindicato, no intuito de tentar equilibrar essas forças para que no final das contas fique bom para um lado e fique bom para o outro. E atividade sindical, ela bem trabalhada, um sindicato ágil, um sindicato informatizado com bons propósitos, ele é muito importante pra categoria, pra toda categoria. P/1 – Dentro desses anos aí, você vindo pra Reduc todo dia, como é que você, das coisas que você lembra, da participação do sindicato aqui da... enfim, da atuação do sindicato da Reduc, como é que foi ao longo desses anos todos? R – Olha, teve momentos bons, teve momentos ruins, né? Isso faz parte de gestão, sindicato tem a sua gestão também. E o sindicato, ele tem as influências políticas, como a própria empresa tem. E teve gestões boas, teve gestões que... nem tão boas assim, depende da política, do contexto político na época. Teve momentos em que nós fomos manipulados sim, e outros momentos muito bons, aonde você via que realmente o sindicato estava ali mesmo para atuar em função da categoria profissional. P/1 – Você se recorda de alguma greve, Fernando? R – Sim, sim. Nós tivemos uma greve que... essa não tem como não recordar, né? Foi uma greve pelo turno de oito horas, um direito garantido constitucionalmente e que por motivos, enfim, na época a empresa ainda não havia implantado, já tinha passado dois anos. E aí nós fizemos um movimento aí e foi um movimento muito forte, nós paramos a produção da Reduc, nossa, mais de 30 dias, foram, acho que 52 dias se não me engano. P/1 – Quando foi Fernando? R – Eu acho que foi em 80 e... deixa eu ver, não. 94, 95. Isso, 94, 95. Pelo turno de oito horas, né? Cinco grupos, turno de oito horas. P/1 – Mas conta pra mim como é que era o cotidiano, vocês vinham prá cá e faziam... R – Não, eu fiquei aqui dentro 30 dias sem rendição. Foi... posso dizer que não dá para esquecer. Você longe da família, quase que num cárcere privado, e com uma responsabilidade muito grande de não dar prejuízos à empresa, de manter os equipamentos. Numa situação de estresse, um estresse muito elevado aonde os ânimos tão aflorados e você numa situação de incerteza. Que você, durante uma greve, você tá com teu contrato de trabalho suspenso, né? Tudo pode acontecer aí. E ocorreram demissões na época, muitos e muitos colegas foram demitidos. Hoje a gente viu que, demissões arbitrárias. Faz parte, faz parte da política, desse jogo de forças, né? De correlação de forças. E esses colegas tiveram, vamos dizer, lesões de direito e essas lesões de direito, eles entraram na justiça, tal, isso foi reparado. Inclusive, nós fomos anistiados, né? Eu fiz jus às férias, que na época eu perdi, dois meses de férias, a empresa... nós conseguimos uma anistia no Congresso e hoje nós vimos que aquela lesão de direito foi reparada. Faz parte também, as coisas demoram um pouco e tal, no final das contas a empresa acaba... você tem que seguir a lei e ela segue. (Troca de fita) (Volume muito baixo) P/1 – Fernando, o que é ser petroleiro? R – Ah, hoje é minha vida, né? Eu entrei jovem aqui, me considero jovem, maduro mesmo. 45 anos
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