Busca avançada



Criar

História

O teatro na linha de produção de remédios

História de: Elomir Dália Teixeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/05/2004

Sinopse

Elomir é de família agrícola, no interior do Rio de Janeiro e nos conta como conheceu o teatro, sua grande paixão. Suas memórias trazem à tona desafios, dificuldades e seu gosto por Química, que culminou na sua trajetória dentro da indústria de remédios. Compartilha o conhecimento adquirido que o levou a trabalhar na indústria Aché, e como transformou a vida de seus colegas de produção, e à sua própria vida, com o teatro e artes culturais.

Tags

História completa

P/1 - O seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Bom, o meu nome é Elomir Dália Teixeira, eu nasci em Teresópolis, em 21 de Abril de 1948. Eu faço 54 anos agora em abril.

 

P/1 - Perfeito. E os seus pais também são cariocas?

 

R - Os meus pais são cariocas, eles eram lavradores já os perdi, mas eles eram. Trabalharam muitos anos na agricultura lá em Teresópolis. Eu, quando pequeno, era levado de um lado para outro nas plantações, convivia com aquilo, com aquele ambiente de plantações. O meu pai tinha hábito de me colocar em uma coisa, que a gente chama de jacá, é feito de bambu, que tem uma alcinha. Me colocava nesse jacá e ia colher tomate, eu ficava dentro daquele jacá ali deitado. Então, eu vim dessa época. Nasci no meio de agricultores, me considero uma pessoa simples, gosto de pessoas humildes, pessoas simples. Eu trago muito desse ambiente onde eu nasci.

 

P/1 - Você lembra do que os seus pais cultivavam?

 

R - Couve, bastante couve, batata, batata-inglesa, batata-doce, o tomate, me lembra muito a imagem dos pés de tomate carregados. Eu me lembro muito que via muito tomate plantado. O feijão em vara, vagem de feijão, plantava bastante e tudo que dá, de um modo geral, em uma horta eles plantavam.

 

P/2 - Mas era uma terra própria, Elomir?

 

R - É, os meus pais tinham terra própria, herdada do avô, dos pais e do meu avô. E todos os meus parentes, de um modo geral, todos eles têm um pedacinho de terra e são alqueires de terra. Tenho uma tia que tem muitos alqueires de terra, passa cachoeira por essas terras, você olha aquelas montanhas assim, as montanhas fazem parte das terras de meus parentes lá. Todos, de alguma forma, têm o seu pedacinho de terra.

 

P/1 - Essa produção era para consumo próprio, era para venda?

 

R - Não, tudo que se colhia, era vendido no mercado, normalmente o mercado de Madureira no Rio de Janeiro. Isso ia para o Ceasa. Tinha um barracão, que ficava próximo à fonte produtora e ali eles pegavam os produtos e levavam para esse Ceasa do Rio de Janeiro. Então, tem sempre um barracão próximo.

 

P/1 - E os seus avós paternos, maternos, a origem deles?

 

R - Eles são brasileiros também, nascidos também em Teresópolis. Eu lembro bastante da fisionomia da minha avó. O meu contato maior foi com a mãe do meu pai. Eu me lembro que ela fumava escondido do meu avô, e eu já fumava naquela época, e chegava lá, ela queria dar uma pitadinha no cigarro e a gente ia para um canto, tal, e a gente conversava muito. Ficava assim, até meia-noite, uma da manhã, conversando na beira do fogão de lenha, aquele comum lá, fogão de lenha. O meu avô ia dormir, a gente ficava papeando e ela fumava escondida do meu avô. E sempre que eu ia lá, ela fazia questão de fazer assim: para a vizinhança, tinha muita menina bonita no lugar, e eu era solteiro. Naquela época, era mais bem apanhado e bastante paquerador e a minha avó fazia lá a publicidade: “Ó, o meu neto vai chegar, não sei o quê. Ele vai chegar sábado.” E quando eu chegava lá, as meninas já estavam sabendo que eu estava lá e a minha avó, ela sempre me dizia isso: “Nunca recebi tanta visita, quanto hoje que você está aqui. Aliás, sempre que você vem aqui, que eu tenho visitas em minha casa.” Então, me marcou muito essa minha avó. O meu avô já era mais na dele, mais quieto, mais reservado.

 

P/2 - Eles moravam longe de vocês?

 

R - Eles moravam bem perto da casa do meu pai. Era todo mundo da mesma cidade, um lugar chamado Vieira, é próximo a Friburgo, entre Friburgo e Teresópolis. É um lugar de um clima muito agradável, faz frio assim, era tipo... Essa cidade de Friburgo, por exemplo, é a Suíça Brasileira, a nível de clima, tudo isso. E essa região ficava próxima. É região pequena com uma igrejinha, um pequeno povoado e tal. Não tinha muitos recursos.

 

P/1 - Você passou toda a sua infância lá?

 

R - Eu fui para o Rio de Janeiro aos sete anos de idade. E no Rio, o meu pai, ele deixou a agricultura, parou com a lavoura e nós fomos para Teresópolis, o meu pai foi ser caseiro de um médico e esse médico tinha consultório no Rio e nós fomos cuidar da casa dele. O meu pai passou a ser caseiro dessa pessoa. O nome dele era doutor Dário. Esse médico deixava a casa inteiramente lá com o meu pai. Eu me lembro, até hoje, por exemplo, eu gosto muito do cheiro do cedro porque a casa era toda cercada de muro de cedro e o meu pai, eu tenho essa imagem muito nítida em mim, o meu pai podando o muro de cedro e eu acompanhando ao lado dele, sentindo aquele cheiro. Eu brinco muito com a minha filha hoje. Eu faço questão de tirar o cedro para ela cheirar para ela ver, digo para ela que o cedro lembra infância, então eu digo: “Tem cheiro de infância.” E quando ela vai cheirar o cedro hoje, ela fala: “Tem cheirinho de infância.” Eu trago isso dessa época, que eu cuidava também junto com o meu pai, ajudava a podar as plantinhas, cuidar do gramado e, hoje, eu gosto muito de planta também, eu acho que tem a ver um pouco com isso.

 

P/1 - Dessa sua infância, você se lembra, além desse trabalho já ajudando os pais, você lembra de brincadeiras, grupo de amigos?

 

R - Ah, sem dúvida. Naquela época era muito interessante, no fundo da minha casa, tinha um barranco. O filho desse médico é que brincava comigo quando ele ia a Teresópolis, ele levava uns trenzinhos elétricos e eu não podia ter, não tinha dinheiro para comprar aquilo. Eu brincava com os brinquedos dele. Ele punha esses trenzinhos para passar por dentro, ele fazia um buraco cavado por dentro do barranco, fazia lá por dentro um caminho, uma espécie de um túnel e brincava com isso aí e eu brincava com ele também. Nessa fase, eu brincava muito assim, de pique-esconde, de amarelinha, sei lá o quê. Eu sempre brinquei muito na rua, brincava sempre. Então, eu curti muito isso de brincar em rua e tudo. Era carrinho confeccionado por mim mesmo, com madeira, fazia as rodinhas, tal. Patinete que a gente mesmo improvisava e tal.

 

P/1 - Você se lembra bem dessa cidade de Teresópolis como era na época?

 

R - Sem dúvida, eu lembro bastante. Durante muito tempo, a freqüentei, mesmo depois que eu fui para o Rio de Janeiro, que isso é uma fase posterior, fui para o Rio com sete anos, mas eu voltei lá muitas vezes nessa cidade. Eu sou aquele tipo de pessoa que procura sempre o parente. Fica sempre na casa de um, de outro, primo, uma prima, um tio, uma tia, estou sempre procurando as pessoas de modo geral. E durante um bom tempo, antes de vir para São Paulo, eu tinha hábito de toda sexta-feira assim, ir para Teresópolis e curtir muito a noite em boate, em barzinhos, clubes. Ia com as minhas primas e meus primos, sempre estava indo na casa de alguém visitar. Então, a cidade para mim... Tem o Dedo de Deus que chama muita atenção, tem os clubes que até hoje muitos existem ainda, tem um lugar que tem muita cachoeira. Nessa cidade, esse lugarejo onde eu nasci mesmo, que onde tinha as lavouras, muita coisa já não existe mais porque os meus parentes venderam essas terras, mas a gente ainda vê muita coisa plantada, muita gente ainda vivendo de agricultura e os locais, eles ainda estão muito preservados. A igrejinha é a mesma, a escolinha que havia é a mesma. Cresceu, evoluiu muito pouco a cidade, o lugarejo.

 

P/1 - Você freqüentou escola, ingressou na escola em Teresópolis?

 

R - É, em Teresópolis, eu comecei o bê-á-bá. A cartilha do bê-á-bá era como se falava mesmo. Com sete anos eu fui para o Rio, me matriculei no antigo Primário e fiz, posteriormente, o Ginásio e é interessante também, eu optei por fazer técnico em Química. Eu havia feito o Segundo Grau e quis fazer o curso técnico em Química, comecei tudo novamente. Então, fiz duas vezes o Segundo Grau, sendo um profissionalizante e não tinha oportunidade para estudar. Isso é um problema que eu tenho até hoje, que eu não pude cursar faculdade. Eu não tinha disponibilidade de tempo, de grana, para bancar isso. Eu tinha que trabalhar o dia inteiro, não havia uma faculdade à noite que eu pudesse fazer e isso foi fazendo com que eu me estendesse nisso e acabei não fazendo a universidade. Cheguei a fazer um ano de Química, mas não toquei a coisa. E o que é interessante disso é que, por volta de 1963, já no Rio de Janeiro, eu já comecei a trabalhar na indústria, mas antes, um pouquinho antes, aos 15 anos mais ou menos, 14, 15 anos, eu trabalhava em bar, numa espécie de uma mercearia, e eu trabalhava na copa, trabalhava no galpão. Era muito interessante: o português roubava [risos] o seu cliente em uma balança, quando chegava a minha vez de pesar, eu tirava a diferença contra o português, a favor do cliente. Eu me lembro que eu pegava as compras, eu tinha que entregar essas compras muito longe e colocava num triciclo. Triciclo tem duas rodas na frente, uma roda atrás, um veículo de três rodas, e eu punha aqueles caixotinhos de compra para entregar. O sujeito chegava, fazia as compras deles, a gente fazia entrega a domicílio e eu é que pilotava o triciclo. E já aconteceu episódio de virar o triciclo, a compra cair toda no chão, eu tendo que dar explicação para o português depois. Eu tive oportunidade de subir ladeira, empurrando triciclo que, para mim, para a minha idade e com o meu porte físico, era muito. Eu tenho até hoje, em função disso, algumas veinhas, veias pequenas, capilares bem entupidas, meio roxinha em função disso, naturalmente porque na época eu forcei a barra ao montar no triciclo, tentar empurrar o negócio pela ladeira acima. Mas, aos 14, 15, eu trabalhei com o português nessa vendinha e aos 16 eu fui parar no laboratório Atalaia no Rio de Janeiro. Esse laboratório produz homeopáticos a partir de ervas medicinais. Nós tínhamos lá um barracão com vários tipos de plantas, ervas, tudo ensacadas. No laboratório em si, a gente processava essa erva, macerava por um processo de maceração, você coloca a erva em contato com o álcool e com água, e todo dia você mexe aquilo, mistura, homogeneíza e aquilo fica lá em repouso em contato com esses solventes durante uns 15, 20 dias. Terminado esse prazo, a gente coava, filtrava isso aí e obtinha o extrato fluído. Aquilo que era colocado em vidrinho e comercializado.

 

P/1 - E como é que você entrou nesse laboratório?

 

R - O meu irmão já tinha ido para lá e me colocou.

 

P/1 - Quantos anos você tinha na época?

 

R - Eu tinha 16 anos.

 

P/1 - Estava estudando?

 

R - É, estava estudando. Nessa época, fui estudar à noite, já no Ginásio. Fazia o Ginásio à noite e conciliava trabalho com estudo. E nesse laboratório, eu aprendi a fazer xampu, creme rinse. A gente fazia uma coisa que se chamava defumador, que era uns tabletinhos de ervas, você punha fogo e sai aquela fumacinha para espantar os mosquitos e dá um cheiro de erva no ambiente. Eu lavava vidro. Eu me lembro que eu mesmo tinha que lavar e secar esse vidro, depois enchê-lo. Nós púnhamos ao recipiente em aço inox, nós púnhamos ali o extrato fluído que a gente produziu e tinha uma torneirinha, com a mão esquerda você abre a torneira, ao lado direito tinha uma lata com álcool com os vidros dentro. Você mergulha a mão na maior, sem nada, sem luva naquela época, botava o vidrinho, escorria o álcool, com a mão esquerda abria a torneira, punha o vidro embaixo e o enchia, fechava, mais ou menos em um nível X, não havia um controle de qualidade, então, um vidro ficava mais cheio, outro menos cheio. Um enchia até a superfície e fechava um a um, tampa rosqueada. Ia toda sexta-feira... Aliás, todo sábado porque trabalhava já no sábado até meio-dia. Então, no sábado pela manhã, ao fim do expediente, lá por volta de onze horas mais ou menos, a gente ia limpar a mão porque formava calo na mão, a gente tinha que raspar a mão depois, passar alguma coisa para tirar aquela calosidade, água sanitária e aquela pedra pomes, e aquela pia crespa para limpar isso. Durante muito tempo, eu fiz esse tipo de atividade e lá a gente fazia de tudo um pouquinho. Não tinha serviço, você podia ir para a rua, fazia um trabalho de office-boy. E hora, você estava na expedição, ajudando os caras a embalar produtos e atender as faturas; hora você ia, como eu falei, lavar vidro, ora encher, ora manipular. Eu aprendi a fazer assim, creme rinse, xampu, esses extratos fluídos para fazer xaropes. Eu aprendi bastante coisa nessa fase.

 

P/1 - Nessa época, você era um adolescente, você mencionou que foi assim, um rapaz muito namorador. E como é que foi esse período assim, fora trabalho? O seu lazer qual era?

 

R - Ah, eu... Aquela época era época das calças tinha a boca larga, não sei como chama hoje.

 

P/1 - Boca de sino.

 

R - Boca de sino. As camisas, elas vinham até aqui embaixo, aquela boca de sino enorme, as calças também. A gente punha coisa muito espalhafatosa, camisa amarelão bem cheguei, a calça era calça cor de abóbora puxado mesmo assim, apertada aqui e aberta embaixo. Ia sempre para a farra com as pessoas. Realmente beber alguma coisa, trocar idéia e paquerar as meninas mesmo. No laboratório mesmo, a gente tinha oportunidade, claro, de paquerar as colegas de trabalho. Eu me lembro de um episódio interessante que eu estava manipulando um extrato fluído, eu tinha que botar uma quantidade de álcool, uma quantidade de água. Uma hora, um amigo começaram a brincar com a colega, falando coisas assim, mais ou menos, picantes para essa garota e essa garota também retribuía de forma picante. Ela era muito assim, foi muito audaciosa, vamos dizer assim, e estimulava a imaginação desse amigo meu. Fazia a fantasia sexual dele. Eu, prestando atenção no papo, me perdi, perdi as contas, quanto tinha de álcool, quanto tinha de água. Disse: “Bom, agora então, o que eu ponho mais álcool ou mais água? Então, vou botar mais água. Pronto.” Como não havia... Como eu disse, um controle de qualidade, a coisa era meio à la vonté. Eu não tinha realmente nenhuma visão nessa época e não tinha, provavelmente, nenhuma orientação, é claro. Mas a gente tinha, mais ou menos, uma receita que a gente seguia para cada tipo de extrato, a gente tinha que usar uma quantidade X de cada solvente e a gente seguia, claro. Mas, às vezes, poderia em função da atenção a outras coisas, a gente acabava se distraindo e cometia algumas besteiras desse tipo. Mas um extrato de fluído com não sei quanto, 20, 30% de álcool, mais um pouquinho, menos um pouquinho.

 

P/2 - Era na época que você morava aonde e com quem?

 

R - Eu morava com a família, eu morei com a família até... Porque eu só juntei os trapos com a minha mulher atual, eu só casei uma única vez, aliás não casei, juntei os trapos, tenho uma filha com oito anos e isso aconteceu dez anos atrás. Eu vou fazer 54. Então, até 44, eu queria outra vida, eu badalava mesmo, saía mesmo e...

 

P/2 - Morava com os teus pais?

 

R - Morava. Sempre morei com família, com tudo.

 

P/2 - Em que bairro vocês moravam lá no Rio?

 

R - Jacarepaguá.

 

P/2 - E desta casa de Jacarepaguá, você lembra alguma coisa?

 

R - Claro. Lá era muito bom. Era uma época em que, Ano Novo, Natal, a gente saía, as pessoas iam na casa da gente beber, a gente ia na casa das pessoas, dava uns porres pela rua, chegava bêbado em casa. A gente tinha, assim, muita amizade na rua e saía dali, marcava cinema, teatro, o que fosse, clube. A gente saía sempre enturmado mesmo e hoje você passa o Natal e o Ano Novo quase que sozinho. Quase não vai ninguém na sua casa. Naquela época havia muita troca. As pessoas saiam se confraternizando na rua, entrando de casa em casa. As pessoas iam lá em casa, a gente ia na casa dos outros. Havia muito essa troca. E era uma rua bastante movimentada. As pessoas se falavam muito mais, a gente conhecia todo mundo. É bem diferente da época atual, que a gente fica enfurnado, fica gradeado, fica enclausurado em função disso, em função da falta de segurança e a gente não tem uma relação legal com as pessoas, não se expondo muito, não podendo se expor e se comunicar com as pessoas. Era uma rua bastante agradável, como eu falei, e ali para mim a escola primária era próxima, estava pertinho, ia a pé mesmo.

 

P/2 - E a figura da tua mãe, você não falou dela ainda?

 

R - A minha mãe era muito brava e eu puxei um pouco isso dela também. O meu pai era durão às vezes e eu já tive oportunidade de levar correada mesmo. Ele era aquele tipo de pessoa, se a gente brigasse e apanhasse na rua, levava outra surra quando chegava em casa. Às vezes, sobrava uma vara de marmelo, uma surra de vara de marmelo, correia, tudo isso. Ele era durão, mas no geral, ele era uma pessoa assim, mais quieta, mais na dele. Ele tinha um carinho com os filhos e tudo. A minha mãe era mais durona e sempre pegava muito no pé dele. A gente vivenciava muito os pegas que eles tinham. Mas a minha mãe nesse sentido, ela era muito... Assim, bruta, às vezes, com a gente. Os meus pegas, eu percebo que eu sempre me dei melhor com o meu pai do que com a minha mãe. Com a minha mãe, eu sempre discutia mais, me indispunha mais. Com o meu pai, eu já senti uma reação... Uma relação assim, de maior proximidade, era a pessoa com quem eu me abria mais em algumas coisas. Agora, também ele por ser do interior, não só por isso, mas também por ter uma formação assim, mais rígida, e ter sido, vamos dizer assim, muitas vezes deixado exposto às coisas da vida mesmo, vamos dizer assim. Ele não era uma pessoa que tinha muita orientação, muita atenção dos pais. Então, os meus pais, eles não eram muito assim, de dar assim uma atenção maior a gente, no sentido de educar, de abrir os olhos para a vida, alguma coisa nesse sentido. Algumas coisas como sexo, a gente não podia se abrir porque eles também eram muito bitolados nisso. Como eles também não tinham uma visão disso, não tinham como passar para a gente. Eles eram um pouco rudes, em função da natureza deles mesmo, e a gente assimilou um pouco disso também, não só eu, meus irmãos, minhas irmãs. Lá em casa, nós somos seis pessoas, são três casais e cada um tem um porquinho. A minha irmã mais velha puxou um pouco a minha mãe, é meio enfezada igual a ela. Eu tenho um irmão mais quieto que puxou mais para o meu pai e eu acho que puxei um pouco isto da minha mãe.

 

P/1 - E da escola primária, você lembra alguma coisa curiosa, uniforme que usava?

 

R - Eu me lembro que eu paquerava a minha professora, que se chamava Branca, eu tinha sete anos mais ou menos, a Dona Branca, a Tia Branca, a gente não falava tia naquela época, era professora Branca. Ela era uma pessoa bem apanhada de corpo, de feições, era bonita e eu me lembro que eu ficava muito em cima, de olho nela. Eu brincava muito na escola, sempre me relacionei bem na escola, eu não era de brigar com os colegas de classe. A escola, eu participava de alguns eventos na escola, festa de fim de ano eu participava. Era inibido, como eu sou até hoje, também um pouco inibido, mas eu consegui me relacionar bem também na escola em si. Eu acho que fui um bom aluno nessa época. Eu me lembro que eu memorizava bem as coisas, pegava tudo direitinho, tirava boas notas. Não tenho isso registrado, só na minha memória mesmo, mas eu não tive dificuldade, nunca repeti nenhuma série e eu acho que me dei bem. Eu acho que a escola marcou um momento bom na minha vida, tinha muita gente legal lá, muita gente simpática. Eu me lembro, mais ou menos, como era a fisionomia da diretora, sei, mais ou menos, onde a diretora morava. Essa tia como eu falei, essa professora, ela me chamou muita atenção. Ela me atraía muito na época e, apesar de pequenininho, eu já estava de olho na professora bem mais velha do que eu. Mas eu nunca fui, como eu falei, de brigas com ninguém, fazia lição de casa, bonitinho.

 

P/1 - E o seu interesse pelo teatro nasceu na escola?

 

R - Esse interesse pelo teatro nasceu no ano de 1968 e coincide com a minha entrada no laboratório Maurício Vilela, porque em 1963, eu fiquei no Atalaia até, mais ou menos, 1966. Eu posso estar confundindo um pouco os anos aí, mas eu fui para o Exército em seguida. Quando eu voltei, eu precisava trabalhar porque me convenci, a princípio, em seguir carreira militar, mas eu passei muitos apertos durante o serviço militar. Primeiro dia no quartel, colocaram os soldados e eu, claro, que estava estreando ali, para ficar em um tremendo sol, tirando mato do chão, tudo mais. A gente acordava muito cedo e fazia aquela ordem unida, tinha que estar pronto, com mosquetão nas costas e tudo, para ir para marchar e fazer uma série de coisas, e o quartel não parecia ser o meu caminho. Tínhamos um sargento extremamente bruto. Por qualquer coisa, você tinha que fazer uma série de coisas que ele pedia e coisas difíceis de fazer, tipo ficar em um sol escaldante como é no Rio de Janeiro, com aquela roupa toda no corpo, fazendo flexões no chão, com aquele peso todo em cima. Então, falei assim: “Isso aqui não é o meu caminho.” Quando eu saí do quartel, eu procurei o laboratório Maurício Vilela. Eu não queria mais voltar para o Atalaia. Eu queria fazer uma coisa diferente. No Maurício Vilela não havia vaga. O cara do Departamento Pessoal falou assim: “Olha, não temos vaga no Maurício Vilela. Agora, tem uma brechinha aqui na parte de serviços gerais, limpeza. Mas você não vai querer, você já trabalhou em laboratório.” Eu disse: “Não, eu topo.” Interessante também isso aí, um fato interessante na minha vida. Durante três meses, eu trabalhei no Setor de Limpeza e eu sempre fui muito organizado. Eu me lembro que eu ia limpar os escritórios e as pessoas tinham todas as suas coisas no lugar, eu removia uma coisa, limpava, colocava aquilo exatamente em cima. Quando a pessoa retornava do almoço, ela encontrava a mesa exatamente como estava e é comum a gente ver hoje pessoas fazerem uma tremenda bagunça. A mesa normalmente fica tudo bagunçada e eu cuidava muito bem disso. Limpava o corredor da fábrica. O Setor de Líquidos, os caras enchiam o xarope, o vidro quebrava, caíam no chão, a gente tinha que limpar aquilo tudo, arrancar os cacos de vidro. Então, durante três meses eu limpava e procurava caprichar nisso. E aí, já era... Já, mais ou menos, lá pelo segundo mês, o administrador da empresa, passou pelo corredor e falou: “Você está a quanto tempo trabalhando no Departamento de Limpeza?” Eu falei: “Eu estou há dois meses e pouco.” Aí, ele falou: “Bom, então, você é um cara caprichoso, quando você completar três meses, eu vou te arrumar oportunidade melhor.” E assim aconteceu. Ao fim de três meses já fui parar no Departamento de Estudos que cuidava desenvolvimento, controle de qualidade, pesquisa e fui trabalhar com um farmacêutico muito bom naquela época, chamava Sadir Rei Santos, era o farmacêutico responsável pelo Laboratório Maurício Vilela, que era uma indústria nacional de nome, de tradição. O seu Vítor há pouco tempo teve oportunidade de me dizer que ele não sabia que eu havia trabalhado lá e que ele conheceu os donos desse Maurício Vilela, e confirmou aquilo que eu já falava para as pessoas que o laboratório era um laboratório realmente sério, um laboratório que tinha qualidade, produzia medicamentos com qualidade, que tinha uma linha de produtos muito boa naquela época e que, infelizmente, se viu tentada a vender a empresa para a Beecham, que incorporou por volta de 1973, 1974, por aí mais ou menos, que foi absorvida pela Beecham. E eu entrei nesse laboratório e, como eu disse, tive que encarar o Departamento de Limpeza. Durante três meses eu fiz isso, serviços gerais, limpeza de um modo geral. Tenho isso na minha carteira de trabalho, registrado e ao fim de três meses, eu passei para o Departamento de Estudos e fui trabalhar com desenvolvimento de produtos. Isso aí começa em 1968. Eu ingressei na minha área atual de trabalho no ano de 1968, já na área de desenvolvimento de produtos e ali eu aprendi as coisas que eram mais básicas para você começar; como lidar com alguns equipamentos, como pesar com segurança e adequadamente uma substância. Aprendi que alguns fármacos, alguns princípios ativos, eles tanto podem ser terapeuticamente legais como podem ser muito tóxicos e pode ser um veneno. Eu tinha como exemplo, na época, da estriquinina. Esse farmacêutico que era o meu chefe na época, ele pegou na ponta da unha, um pouquinho de cristal de estriquinina, que é extremamente tóxico e é venenoso, ingeriu para me mostrar que em pequena dose, a substância pode ser terapeuticamente adequada e ser funcional, mas se você coloca um pouco mais, ingere, você pode morrer. Então, ele já começou me dar essas noções nessa época. As balanças de pesagem para pesar pequenas quantidades de droga eram muito arcaicas, mas para aquela época, não. Visto hoje, eram balanças arcaicas, mas naquela época eram as balanças mais precisas que havia. Então, ele ensinava o beabá do negócio, como pesar com cautela, com segurança. Na hora de compor a fórmula do produto, tem critério, você tem que seguir. Ele era extremamente organizado. Ele esquematizava a formulação do produto que estava desenvolvendo, punha em cima da bancada amostrinha da experiência que ele fez em cima, você não podia mexer naquilo, se não misturava tudo. E ele tinha um carinho muito grande com isso. Eu fui me apegando ao jeito dele...

 

P/1 - Foi uma escola.

 

R - Eu acho que ele me ensinou muita coisa. Ele era um cara muito responsável, muito cuidadoso, muito observador. Ele era tão observador que ele observando uma planta que havia no jardim e havia um fruto nessa planta, ele pensou em colher esses frutos e foi processando esses frutos, foi pesquisando sobre ele para descobrir que planta que era, que fruto que era e foi ler e estudar a respeito e descobriu que havia um alcalóide com propriedades analgésicas e anti-inflamatórias nesse caroço, nesse fruto. E aí, a partir daí, ele extraiu, conseguiu um processo, desenvolveu um processo de extração e desenvolveu uma substância que, depois, gerou medicamento para tratamento de quadros anti-inflamatórios, para analgesia e foi a partir desse episódio. E ele tinha em casa, se dava o luxo de ter em casa um laboratório montado com todos os livros técnicos importantes daquela época. Ele tinha tudo na casa dele. Ele tinha a pia de trabalho, tinha as balanças, tinha os misturadorzinho que ele trabalhava lá, os graus de louça com pistilo para triturar. Então, nessa época, a gente fazia muita coisa com esses graus de louça que é bem peculiar de farmácia de manipulação que, até hoje, eu acho que ainda tem. Em algumas farmácias de manipulação, se processa muita coisa em pequena quantidade e tinhas esses... Vidrarias e coisas assim, tinha tudo na casa dele.

 

P/1 - Você freqüentou a casa dele?

 

R - Cheguei a ir. Ah, e tem uma coisa interessante também nessa época, eu já fazia teatro. Eu comecei em 1968 fazer teatro, coincidindo com o meu início na área de desenvolvimento. Em 1968, mais ou menos, eu ia participar de um filme, mas era fazendo dublagem na Herbert Richards lá no Rio, e ele me liberava. Ele morava na Usina, me dava uma carona até a Usina, ele saía mais cedo, o motorista o esperava, levava ele e me dava uma carona para eu fazer minhas pontinhas lá e ele dava maior apoio. Uma época, eu precisei me ausentar para fazer teatro também, ele concordava. Eu acho que é um cara legal. 

 

P/1 - Esse interesse pelo teatro nasceu espontaneamente?

 

R - Como eu já comentei antes, quando eu morava junto às lavouras no interior do Rio de Janeiro, nessa cidade chamada Vieira, em Teresópolis, tinha muitas matas em volta e nós morávamos assim, entre uma mata e um morro, havia a nossa casinha ali. E era casinha, como a gente falava, de sopapo. Por quê? A parede era toda de madeira trançada, bambu e tal, e as pessoas preparavam uma massa, que dava uma liga especial lá, e uma aplicava de dentro com bolo de massa, outro do lado de fora, essas massas se encontravam de dentro de fora e chapava assim, ia formando, aos poucos, a parede. Então, eles falavam “casa de sopapo”, era o termo que se usava na época. E eu me lembro que uma tarde, a minha mãe estava torrando o fubá e aquele cheiro chamou atenção de uma jaguatirica que, para mim, parecia uma onça enorme e eu olhei pelo buraco da parede, vi aquela onça bonita, no terreiro. Até hoje, essa imagem está na minha cabeça. Eu tenho uma vaga idéia ainda de onde era a casa. Depois de muitos anos, eu voltei lá, não havia mais essa casa, mas sei exatamente qual era o lugar. As casas próximas que moravam o meu tio, o meu avô dava para ir a pé também, uma distância pequena, hoje são fazendas que essa fazenda foi desativada, outras pessoas estão lá, tocando criação de gado, por exemplo. Descontinuaram a agricultura, foram cuidar de gado e tal. O meu avô faleceu, a minha avó faleceu, os meus tios também andaram vendendo terra, mas ainda tem muita gente tocando as suas lavourinhas lá.

 

P/1 - A ocupação desse lugar sempre foi a mesma? Eram brasileiros que moravam naquela região?

 

R - Sempre. Eram todos agricultores, viviam realmente da terra. Era o ganha-pão deles. Não tinha indústrias nesse lugar, como em Teresópolis também. Em Teresópolis, eu me lembro que havia uma indústria de tecido, havia a Sudantex. A Sudantex, durante um bom tempo, teve fábrica em Teresópolis e as fábricas, você podia contar a dedo, era muito pouca indústria. As pessoas dependiam do comércio de Teresópolis, e na parte mais interior, a caminho de Friburgo, essa cidade chamada Vieira dependia da agricultura. Basicamente ali só tinha agricultura. As pessoas viviam realmente disso.

 

P/1 - Voltando, a gente estava conversando, então, sobre que, paralelo ao seu trabalho no laboratório, você passou a se interessar pelo teatro?

 

R - Ah, sim. Em 1968, coincide com o meu início no teatro e como começou isso? Em Jacarepaguá, havia uma senhora chamada Roberta... Bom, não importa. Era uma senhora que fazia rádio e teatro. Durante uma época, havia um rádio-teatro, mas era um tipo de rádio-teatro diferente. Por falar nisso, eu cheguei ir na Praça Mauá, onde tinha a Rádio Mauá, que fazia até bem pouco tempo ainda novelas de rádio, aquela coisa toda. Mas essa senhora, ela especializada em rádio-teatro, mas diferente. Ela criou e desenvolveu na época a chamada Novela de Canções. Como é que funcionava isso? Ela punha uma música, e em cima dela, ela criava uma história e punha essa música de fundo. Ela chamava de Novela de Canções. Ela desenvolveu isso e ela já era uma pessoa bastante experiente nessa época e resolveu pegar um pouco de teatro também, mais por esse caminho do teatro e montou na casa dela mesmo... Foi formando um grupo, uma companhia, registrou uma empresa e as pessoas iam sempre na casa dela. Ela tocava piano também, muito bem por sinal, cantava muito bem, e toda noite ela se apresentava. Quem era o público dela? Eram as pessoas que entravam na tal firma que ela criou e ela se propunha a criar, a montar peça com essas pessoas. E ali iam muitas pessoas e eram convidadas e se apresentavam de alguma forma ou a gente ficava conhecendo essas pessoas e elas davam entrevista naquele local. Todo sábado e domingo, a gente era atraído para esse lugar, para ou ensaiar, ou trocar idéia, então alguma festinha que a gente organizava e dali, daqueles encontros foram muitos... A gente começou a ensaiar uma peça que ela mesmo escreveu, uma comédia. Essa comédia foi, posteriormente, montada no Teatro Martins Pena, se eu não me engano, no Rio. E eu participei dessa época, como ator. Era um papel pequeno, mas foi o meu início. Fiz uma ponta nessa peça e a coisa, acho, que começou a ir porque é uma experiência muito interessante; você está no palco, e se comunicar com o público, essa oportunidade, esse vivenciamento, me marca muito e fica sempre aquele gostinho de “quero mais.” E nessa companhia, eu continuei mais um tempo, não saía mais nada lá porque essa senhora depois faleceu. Aquela empresa já estava falindo mesmo porque as pessoas estavam ali por N motivos, além do teatro. Tinha gente se propondo fazer conjunto musical, era muita coisa ao mesmo tempo, até rádio-teatro estavam querendo fazer e, no fim, muitos projetos ao mesmo tempo, embolaram esse projeto e ela faleceu e não tinha quem tocasse isso. Com o tempo, as pessoas foram debandando. Eu conheci uma pessoa de teatro ali, que me levou para um grupo e começamos a fazer teatro. Eu comecei com esse grupo.

 

P/1 - Você lembra do nome desse grupo?

 

R - Esse grupo chamava Grupo Teatro Expressão. Esse grupo já ganhou um festival que houve no Rio. A gente se apresentou no Teatro Municipal de Niterói nessa época em vários teatros e nós participamos de um festival, esse grupo, eu acho que eu me lembre, tinha 11 troféus na época. Nós pegamos cerca de oito, nove troféus esse grupo. Chegou a ser convidado na época para participar de um Festival de Nancy na França. Era um grupo assim, era muito bem dirigido. O sujeito que dirigia, esse diretor... Se eu lembro o nome dele? Esqueci o nome. Esse diretor é um cara, ele fez escola de teatro, ele se formou diretor, ele trabalhou uma época como ator, depois ele fez direção teatral. Ele estudou mesmo, fez faculdade de teatro, se formou diretor e tocava esse grupo. Ele montou esse grupo e esse grupo fez muitos trabalhos. Participava de festivais, fazia teatro mambembe, durante muitos anos fiz mambembe, viajava muito às capitais, fazendo teatro. Trabalhando nesse grupo, eu vim a São Paulo, já fui no Rio Grande do Norte, no Porto de Tubarão, um espetáculo que a gente fez lá na Companhia, acho que Vale do Rio Doce, não sei que tem ali, Porto de Tubarão, não sei se é Vale do Rio Doce. Fizemos duas apresentações ali e eram apresentações pelo MEC. Então, a gente viajou, fazia temporadas pelo MEC, viajando, tal. E a gente teve essa oportunidade de ir para Nancy, mas houve algum problema político na época, na França, e foi suspenso esse festival, mas o grupo conseguiu até isso.

 

P/1 - Paralelo a isso, você conseguia estar trabalhando no laboratório?

 

R - Dali, eu não parei mais. Sempre durante o dia, trabalhava no laboratório, a noite ia para os ensaios do grupo. Depois que eu saí desse grupo, eu comecei a montar os meus próprios grupos. Eu cheguei a formar uns três grupos de teatro no Rio, mas essas experiências são pouco duradouras porque é difícil manter um grupo. As pessoas, elas não compartilham das mesmas idéias ou tenham os mesmos ideais. Elas começam, ficam um tempo, depois fazem uma peça, duas, depois já vão para outros grupos, mas eu fundei três grupos no Rio. Eu me lembro agora, Grupo Espaço Cênico foi um grupo. Grupo Teatro Ribalta foi outro grupo e outro, acho que não teve nem nome. Foi dentro de uma experiência dentro de uma escola no Rio de Janeiro. No Colégio Arte e Instrução no Rio de Janeiro, esse colégio, ele tinha muitas atividades culturais lá dentro. Esse teatro, esse colégio, ele tinha um teatro com capacidade para 700 pessoas e, há anos atrás, os donos desse colégio, eles tinham muita atividade cultural lá dentro e várias pessoas de teatro que eram nomes conhecidos, alguns já morreram, passaram por esse teatro. Tiveram as suas experiências na fase estudantil, universidade de teatro, eles trabalharam nesse espaço. Essa escola, durante muitos anos, agitou esse espaço cultural e, depois, mais tarde, fui estudar nesse colégio, quando fui fazer o Ginásio, fui para esse colégio e nesse colégio eu participei de várias atividades teatrais. Eu, praticamente, fiquei encarregado de toda parte de teatro que havia nesse colégio. Então, ali era teatro com os alunos da escola, teatro com pessoas e fora e que eu levava para ali, para essa experiência.

 

P/1 - Perfeito. E a sua chegada no Aché, como é que se dá? Você já tinha ouvido falar do Aché?

 

R - É, o Aché, eu conheci... Quando eu trabalho no Parke-Davis, quando eu trabalhei no Beecham, no SmithKline, também trabalhei uma época no SmithKline, a gente... O Aché não tinha ainda muito nome naquela época. Eu, sinceramente, não lembrava. O Aché, para mim, era um nome um pouco vago. Aí, quando eu fui para Parke-Davis, depois saí, fui para uma outra empresa, voltei novamente para a Parke-Davis, quando na segunda vez que eu fui trabalhar na Parke-Davis, já era Aché Medicamentos. Eu comecei a trabalhar no Aché Medicamentos, o meu contato com o Aché foi nesse período. E quando foi encerrada a produção no Rio de Janeiro, venderam toda área física lá e toda a produção foi dirigida aqui para São Paulo e eu fui convidado para cá. O meu contato começou em 1984, em março de 1984, acho provavelmente no dia 12 de março de 1984, que eu comecei no Aché. E aí foi um pouco desastrado porque eu vim convidado pelo seu Adalmiro e ele havia me feito uma proposta de salário no Rio. Quando eu cheguei aqui em São Paulo, no Aché, veio o primeiro dia de trabalho e tal. No segundo dia, eu recebi a carteira com o valor de salário lá e não batia. Era menos do que o seu Adalmiro tinha falado. O assunto foi parar no ouvido do seu Rafael, que era o irmão do seu Adalmiro, que era o quarto sócio e ele falou: “Não, eu não conheço você direito, as coisas aqui são um pouco diferentes, a gente precisa conhecer o funcionário, saber como que ele é, se ele produz, não produz, como que é o desenvolvimento dessa pessoa. A gente não conhece direito o seu trabalho.” Eu ainda coloquei: “O senhor não conhece, mas o seu Adalmiro conhece. O seu Adalmiro conheceu o meu trabalho no Rio. E ele já tinha uma proposta de salário.” Como no terceiro, quarto dia, não havia um consenso lá, ninguém decidiu nada, eu me demiti. Então, eu tenho uma baixa na carteira de três dias a quatro dias. Aí, eu estava sozinho aqui ainda, morando em hotel em Guarulhos, fui eu para o banco da praça lá de Guarulhos, sozinho, pensar na vida. “O que eu faço agora? Volto para o hotel, pego a minha mala e já viajo hoje mesmo para o Rio?” Já havia pedido demissão... Comecei a amadurecer a ideia: “Não, eu vou para o Rio. Eu vou para o Rio e depois vou ver como é que vai ficar essa situação.” No Rio, ainda existia um pouco de Aché Medicamentos, só algumas pessoas permaneceram em Aché Medicamentos mais para fechar a porta finalmente. Eu, antes de fechar porta, eu vim para São Paulo, mas ainda ficaram algumas pessoas lá. E o meu irmão trabalhava também lá. Ele era supervisor da Seção de Comprimidos e eu trabalhei em Desenvolvimento, eu saí e ele ainda ficou um tempinho porque ele precisava arrumar as coisas, algumas coisas para encaixotar, mandar para São Paulo. O senhor Adalmiro soube disso, fez contato com o meu irmão, tinha um telefone e marcou uma reunião lá na Gávea nas instalações do laboratório. Nós sentamos, conversamos e ele manteve o salário e tal, falou: “Você pode ir que eu já falei com o meu irmão, está tudo certo.” Aí, voltei e comecei novamente. Isso foi um mês depois mais ou menos.

 

P/1 - Só para entender um pouquinho melhor, com essa aquisição, o que efetivamente veio para Guarulhos?

 

R - Ah, sim. Alguns equipamentos vieram para Guarulhos, outros foram vendidos. O que interessava para o Aché, ele trouxe. Eu, sinceramente, não sei te dizer, não sei o Carlão sabe, mas a máquina de envase de supositório de glicerina foi um equipamento que foi trazido. Tem uns reatores de pomada e creme que foram trazidos, tem alguns reatores para produção de xarope que foram trazidos. Eu não sei quantos equipamentos foram trazidos, se alguns foram sucateados ou vendidos lá de alguma forma.

 

P/1 - E questão dos funcionários?

 

R - O seu Adalmiro, na época, me convidou porque no Aché, aqui em São Paulo, naquela época, quem tocava o Desenvolvimento era Antônio Aloísio Russo. Ele tinha lá uns auxiliares dele. Normalmente, ele que coordenava. Não tinha uma estrutura de desenvolvimento formada ainda. Então, se ele queria fazer o piloto experimental de alguma coisa, ele tinha uma pessoa na área de compressão que se encarregava de fazer os testes lá mesmo nos maquinários da produção. Não tinha assim, um local, uma área física montada para Desenvolvimento. Então, o seu Adalmiro, na época, me convidou para vir para São Paulo para tocar essa área. Quando eu entrei no Desenvolvimento aqui em São Paulo, eu me reportava ao Antônio Aloísio Russo. Durante muitos anos, a gente trabalhou junto e eu devo muita coisa a ele evidentemente. Sempre fui muito reconhecido por ele, na época em que a gente trabalhou junto, a gente se dava muito bem e, aos pouquinhos, a gente foi montando essa estrutura de Desenvolvimento que não havia. Teve um episódio interessante, a Emir que era gerente de controle de qualidade naquela época, ela vai dar depoimento a vocês amanhã, a Emir era gerente de controle daquela época, ou supervisor, eu não me lembro, era chefe do controle de qualidade e ela me liberou um pedacinho da bancada dela. Eu ocupei assim, cerca de dois metros de bancada, ela falou: “Aqui, você pode ficar à vontade.” Eu comecei, trouxe alguns livros técnicos do Rio. A minha mesa de trabalho estava a caminho de São Paulo, os meus arquivos ainda estavam no caminho. Eu tinha alguns livros técnicos já na mão, pus aquilo na bancada e fiquei ali, sentadinho ali, começando com as minhas coisas. O meu primeiro desafio foi um plano chamado Energivite que nós temos até hoje em linha. Depois de você obter um núcleo, você o reveste e ele está na forma final, definida. Naquele momento em que eu entrei no Aché, isso ocorreu ainda no mês de março, abril, mais ou menos, de 1984, o produto estava sob forma de núcleo, parado, acondicionado em barricas. Eu não me lembro se chegava a uma tonelada, não sei, algo em torno disso, uma tonelada mais ou menos. Essa produção estava dependendo de um polímero que era importado e naquela época, acho que havia problema com Cacex, alguma coisa assim, ligado à importação e estava atrasado a importação e ninguém tinha idéia de quando ia chegar esse polímero. Então, o meu primeiro desafio foi desenvolver um filme alternativo para revestir esses tabletes e a Emir me deu muita força nessa época e me falou: “Elomir, nós temos um pepino aqui, um problema.” Que a Emir me contou toda história. Se você conseguir resolver esse problema, você marca dez pontos no conceito da empresa. Aí, eu cá comigo: “Ah, é um desafio mesmo, mas eu vou encarar.” O seu Adalmiro, me lembro que uma vez, nesse mesmo período, ele falou: “Elomir, o problema é esse: o Energivite está parado nas barricas, não existe, não tem o polímero, o que a gente vai fazer?” O produto é cinza metálico, ele comentou. Bom, existe corante branco, mas não existe corante preto. Ninguém vai misturar carvão com corante branco, eu disse: “Não, Seu Adalmiro, mas tem outros recursos.” Para fazer esses filmes coloridos, na realidade, o cara que trabalha em área de desenvolvimento de produtos, ele tem que lidar um pouco... Quase como você fazer uma pintura, lidar com aquarela, alguma coisa assim. Você tem que saber que, combinando as cores, você pode obter noutras cores. Eu falei: “Não, seu Adalmiro, você não precisa de carvão para juntar com branco para fazer um cinza.” Na realidade, você pode obter um cinza do branco, partindo do branco com vermelho, um azul e um amarelo. “Você tendo três cores totalmente diferentes de preto, você reúne com branco, você tem o cinza metálico.” “Ah, é?” “É.” “É isso aí, não precisa de carvão, não existe realmente corante preto.” Naquela época não havia nada disso. Aí, eu olhei para o rótulo da matéria-prima, da barrica vazia, do polímero, catei um rótulo que havia lá do fabricante. Lá dava algumas noções do que era a composição do corante que ele colocava junto com o polímero para dar o filme cinza. Eu catei aquilo com as proporções, mais ou menos, ali, eu fui catar o que a gente tinha de corante nosso no estoque e botei tudo na bancada. Fui para uma balança de precisão, peguei um pouquinho desse corante, um pouquinho daquele, um pouquinho do outro, um pouquinho de cada um, e um papel e um lápis. Vamos lá, agora pega um pouquinho desse, um grau de louça na frente, um pistilo, bota o branco primeiro aqui, agora vamos botar o amarelo. Claro, se botar amarelo com branco vai ficar amarelo-claro. Então, você põe o amarelo, o azul. O que acontece? Ele dá meio verde. Você põe o outro tom e, daqui a pouquinho, o cinza foi saindo, foi aparecendo. O cinza foi se mostrando na minha frente assim. “É, a coisa está indo.” Agora, é ampliar a escala e vê se reproduz. De maneira mais quantitativa, pesei todos os materiais novamente e, devagarinho assim, dessa forma, eu fui compondo a minha primeira fórmula dentro do Aché em São Paulo. Vamos esquecer do Rio, já tive as minhas outras experiências no Rio. Mas de onde vem isso? Eu acho que veio da bagagem que a gente tem. A gente tem um pouco de história, a gente tem um pouco de estrada, a gente quando tem uma dificuldade, uma barreira, vai olhar para trás: “Pô, o que eu fiz antes?” Nessa época, o que em ajudou justamente o contato com esses polímeros. Quando eu pensei num polímero para substituir aquele, que não podia ser importado, na realidade, eu já tinha tido contato com ele no Rio. Essa história de misturar uma cor com a outra para gerar não sei o quê, já tinha feito vários filmes no Rio, filmes de aplicação, que a gente chama para revestimento do comprimido. Nesse momento, eu fui lá no meu arquivo da memória, saquei a fichinha lá e consultei lá. Eu usei a minha bagagem, a minha experiência e fui colocar em prática. Então, não tive dificuldade. Na primeira semana de trabalho, eu já estava na Produção, já testando em escala bem maior os comprimidos que estavam parados nesse revestimento. E, mais ou menos, eu acho que 30 dias depois, um pouco mais, o produto já estava indo para o mercado. É claro que, naquela época, não havia muito tempo para estar fazendo muitos outros testes. A gente fez os testes que podia fazer, que permitiu o tempo fazer naquela época. A gente conseguiu sanar um problema e marcar os dez pontos que a Emir se referiu. Isso a Emir colocou: “Olha, Elomir, se você acertar esse produto aí, você ganha dez pontos de cara.” Eu falei: “Emir, então os dez pontos já são meus. Agora, eu quero mais bancadas.” Aí, ela liberou mais dois metros de bancada. Quando ela percebeu, eu já tinha tomado a bancada dela todinha, um lado. Depois, eu conquistei outros espaços, foi surgindo o setor. “Ah, agora chegou a minha mesa do Rio. Põe a mesa ali, o arquivo...” A minha estante veio também, “a minha estante fica aqui.” Interessante é que, nessa época, eu tive tudo que eu tinha no Rio, só que com ambiente diferente, mas tudo que eu tinha, os meus móveis vieram, livros, a estante exatamente a mesma, mesa e tudo bonitinho na sala.

 

P/1 - Nesse momento, você estava morando onde? Em São Paulo, mas em que lugar? Aliás, em Guarulhos?

 

R - Olha, eu morei 15 dias em um hotel vagabundo que, agora, está sendo desativado já em Guarulhos. Eu já nem me lembro mais o nome dele, mas era terrível. Era um hotel sem estrutura nenhuma, muito pequeno, e eu não podia pagar. Para mim alugar casa não dava porque eu estava começando e quem queria confiar uma casa para que eu alugasse. Eu precisava ter um... Como é que dá o nome? De um fiador, ter uma série de coisas. Então, eu morei 15 dias em um hotel, depois passei para um outro melhorzinho mais 15 dias. Um amigo que foi para o Rio depois que houve a transação de venda, de incorporação do Aché, uma pessoa de confiança, gerente de produção de confiança do seu Adalmiro nessa época, viajou para o Rio e ficou lá um tempo durante essa transição até trazer tudo para cá, encerrar a produção lá, durante um período para pegar também os processos, ter uma idéia da tecnologia, tudo, foi essa pessoa para lá. Eu conheci essa pessoa lá, fiquei amigo dessa pessoa e quando eu vim para São Paulo, essa pessoa estava aqui e me ofereceu estadia na casa dele. Há 50 quilômetros de São Paulo, eu ia todos os dias para a casa dele, dormia lá. Fiquei um mês, mais ou menos, um mês e meio morando com essa pessoa. Depois que eu tive condições de alugar uma casa. A doutora Ilda que veio também do Rio, ela que me deu a primeira poltrona. Depois uma amiga que veio do Rio, em visita, nos arrumou um fogãozinho. Eu estou dizendo “nós” porque depois veio o Cláudio que vai dar depoimento também. O Cláudio também, um gordinho que trabalha no almoxarifado, ele veio de lá depois também. Eu vim primeiro com a dona Ilda, depois veio o Cláudio. Aí, fui morar junto com o Cláudio. Então, essa amiga que veio do Rio, que era muito amiga do Cláudio também, trabalhava na Produção lá, nos deu um fogãozinho de duas bocas. A dona Ilda deu a primeira poltrona nossa. Eu me lembro que a gente a vendeu por CR$ 40,00 naquela época. As roupas eram penduradas em um cordão de nylon na sala atravessado, e punha as roupas penduradas ali. Então foi assim, bem de baixo o negócio. Para fiador, seu Adalmiro foi o nosso fiador. A primeira casa alugada em Guarulhos, o seu Adalmiro, o nosso patrão, foi o fiador. Não tinha colchão. O seu Adalmiro arrumou, mandou pegar os colchonetes. No Aché tinha muito colchonete, não sei para quê, mas tinha os colchonetes lá e ganhamos colchonete do seu Adalmiro e começamos a dormir nele. Veio a poltrona, essa poltrona armava, formava uma cama e tal. E a coisa, mais ou menos, foi... Depois a gente foi, aos pouquinhos, decorando a casa. Então, a gente teve assim, um pouquinho de ajuda de cada pessoa. O seu Adalmiro tem essa passagem que ele foi o nosso fiador, para facilitar, deu os primeiros colchonetes. A dona Ilda a poltrona e aos pouquinhos a casa foi saindo.

 

P/1 - Houve uma época em que você morou numa casa do Aché.

 

R - Ah, é. O Aché tem um negócio aí, que eu não sei se a história é verdadeira, mas quem conhece melhor que eu, vai poder testemunhar até. Ao lado do Aché existiu uma área bem grande, tinha um rio que passava ao lado, tinha bambuzal, tinha goiabeiras, bananeiras, uma casa muito boa, bonita, grande e tinha outras ao lado. Tinha um espaço gramado também bonito e o Aché estava de olho nesse espaço. Até então, nós não tínhamos noção naquela época para que ele tinha interesse naquilo. Mas, naturalmente, o Aché já tinha interesse de adquirir o espaço da Alcoa, onde vai ver o Aché Seis. Então, o Aché, acho que queria comprar essa área, mas ele queria interligar. Como é que ia interligar com aquele terreno no meio? Ali na realidade, é um sítio e a dona do sítio, acho que tinha bronca do Aché e não queria de maneira alguma vender aquilo para o Aché. O Aché teve várias propostas e nada. Um dia lá, alguém teve uma idéia, não sei quem foi do Aché: “Vamos fazer com que a Prodoctor, que é do Grupo Aché, mandar a Prodoctor fazer uma oferta.” E aí, conseguiu dobrar a mulher e a mulher vendeu. Quando a mulher descobriu que Pro Doctor e Aché era uma única coisa, ficou tiririca. Mas o negócio já estava feito e o Aché comprou aquilo, posteriormente canalizou o rio, depois adquiriu as áreas todas da Alcoa e parte das instalações. Parte, ela destruiu para construir o Aché Seis, começaram a construção do Aché Seis e manteve algumas estruturas da Alcoa que haviam lá. Interligou tudo. E eu fui morar numa casa que havia nesse terreno. Nós tínhamos o telefone, só pagava a despesa dos impulsos, que a gente tinha, e a gente morava nessa casa, moramos uns dois, três anos de graça...

 

P/1 - Quem morou nessa casa?

 

R - Morou eu, o Cláudio, esse gordinho que trabalha no Almoxarifado. Morou também uma pessoa que era parente do seu Depiere, tem uma ligação com o seu Depiere, a irmã é casada com o seu Depiere... O Nivaldo. O seu Nivaldo passou a morar com a gente, trabalhava no Aché também. Então, como tinha muita enchente naquela época no Aché e nessa área; e o rio ficava ao lado, isso complicava ainda mais, o Aché construiu umas passarelas de madeira. A gente saía de dentro da varanda, já subia na passarela e entrava no portãozinho do Aché. O muro do Aché passava, tinha um portãozinho, já entrava direto dentro do Aché e passou a conviver com aquela passarela ali porque a enchente era freqüente. Caiu uma chuva mais ou menos já enchia tudo, a gente usava essa passarela. A gente ficava nesse sítio, morava bem ao lado. Quando eu queria ir ao rio, já saía por ali mesmo, tinha uma passarela próxima e eu pegava o ônibus em frente a passarela, já me virava bem. E quando chegava de cursos à noite, que a gente fazia, de algum simpósio, algum congresso que a gente ia, tinha que beirar o muro do Aché, tinha um balãozinho que passava, antes de fazer a marginalzinha, aquilo não tinha nada ali. Então, era um matagal, um balão, e a gente passava beirando o muro no meio daquele matagal, sujeito a ser trucidado ali para ir para casa. Mas, o ficar em si na casa, eu gostava muito da casa, mas a sensação que dava, que a gente continuava dentro do laboratório. Foi uma necessidade momentânea na minha vida, que quebrou um galhão, que nesse período em que eu morei lá de graça, eu pude juntar um pouquinho de dinheiro no colchão e me virar, fazer uma poupançazinha para mim me virar melhor.

 

P/2 - Você já tinha experiência, com a pressão do Aché tinha algo diferente?

 

R – É, eu vivia meio reprimido porque a indústria... A multinacional, ela bitola um pouco, bitola bastante a pessoa, eu diria. Na minha área de atuação, que é desenvolver produtos, eu tinha que seguir estritamente o que determinava a matriz estrangeira. Se eu tinha uma dificuldade de produção com um dado produto, eu não tinha a liberdade para mexer muito naquilo. Para desenvolver produto, a gente não podia partir do zero, a gente tinha que pedir a bênção toda hora, e pedir ajuda de alguma forma, e perguntando sempre o que a gente podia, até onde a gente podia estar atuando em cima do problema para resolver. E ao chegar em Aché, eu experimentei um pouco dessa sensação também quando era indústria nacional, quando era o Maurício Vilela também na área de desenvolvimento, mas eu vivenciei mais isso, de maneira mais forte, no Aché em São Paulo. Porque eu cheguei no Aché, encontrei uma empresa extremamente ágil, as coisas no Aché, elas acontecem muito rápidas, vamos dizer assim. Ela é uma empresa muito dinâmica e eu vinha de um ritmo, estava muito assim, lento. Eu, quando vim do Rio, lá nós tínhamos poucos projetos para desenvolver, chegamos aqui encontramos uma série de coisas, muito trabalho para dar conta, e como a empresa tem esse ritmo muito forte, eu tinha que me adequar a essa nova situação. Mas o que me marcou mais foi o desafio de ter que encarar uma série de problemas, de ter que vencer, chegar à última etapa do projeto e vencer esse projeto, chegar até o fim e de encarar ao mesmo tempo várias coisas ao mesmo tempo, ter uma dinâmica de trabalho muito grande. E isso foi muito estimulante para mim. O Aché, enquanto indústria nacional, ela é muito importante na minha vida profissional porque ela foi um pouco de escola mesmo para mim, porque ali eu aprendi a me virar mais, a ser mais dinâmico, a ter mais flexibilidade, a ter mais jogo de cintura, ter que encarar um novo ritmo de coisas e também pela facilidade com que a gente tinha de decidir as coisas internamente, que é bem próprio de indústria brasileira. Internamente, a gente não depende de matriz para resolver nada. A gente, em um momento bastante curto, a gente resolvia tudo que era necessário porque o nível de decisão estava ali mesmo, ao nosso alcance. Eu observei também que as pessoas que... Da cúpula da empresa eram pessoas muito ligadas aos funcionários, ao pessoal de chão de fábrica e eram pessoas que estavam a todo momento você cruzava com eles, batia nas suas costas e vinham te tratar com intimidade. Te davam muita atenção e tal. Eram pessoas totalmente flexíveis. A gente podia chegar e conversar, expor alguma coisa para resolver. Isso que eu observei era muito diferente das estruturas que eu conhecia no Rio de Janeiro, que eram muito mais fechadas, muito mais distanciadas. O Aché tinha isso e ainda tem muito isso também dessa flexibilidade para estar lidando com as coisas e resolvendo as coisas internamente. Evidente que o Aché está passando por uma fase de reestruturação, muita coisa estava ocorrendo, muitas mudanças, as eu participei desse momento que, para mim, foi mais importante. Atualmente, se a gente for olhar para o passado, eu diria que estou ficando com um pouco de saudade do que era o Aché. Quem está mais tempo, eu acho que vivencia isso, essa coisa de ver, mudar em um ambiente, sair de um ambiente, uma coisa assim, mais madura, mais profissional, mas também deu um baque, chega a criar um certo baque. Eu, por exemplo, eu vivi e curti muito mais uma fase do Aché em que a gente tinha mais contato com as pessoas, conhecia mais as pessoas. Hoje é comum, a gente olha para as pessoas, mas não sabe mais quem é, não conhece mais ninguém. Eu conheço o Carlão porque está lá esse tempo todo igual a mim. A Emir, as pessoas da minha época, mas cada vez mais, a gente é a minoria. O Aché, hoje, tem muita gente estranha, assim grosseiramente falando, as pessoas são muito estranhas, a gente não as conhece direito e eu vivenciei o momento em que a gente tocava muita coisa junto, por exemplo, eu passei por um período no Aché em que eu fazia peças de teatro com as pessoas que gostavam de teatro dentro do Aché. A gente tinha tempo para tocar alguns projetos. Eu criei a primeira amostra de arte no Aché, a gente fez exposição de artes, artes plásticas. Tinha pintura, tinha artesanato, uma série de coisas. Nós organizamos uma feira bastante interessante lá no Aché, foi a primeira que aconteceu. Depois, teve mais uma e depois ninguém mais deu continuidade. Então, além de tentar montar grupos de teatro, montar peças... Envolver as pessoas e algumas experiências culturais e, propriamente a nível de teatro, a gente teve essa oportunidade de fazer essas exposições de arte, para se fazer de alguma forma isso, em colaborar com isso. Também vivenciei um período interessante que, todo final de ano por ocasião das festas de confraternização, eu me lembro que a gente... Carlão também viveu muito isso, a gente chegava na produção e combinava com as pessoas: “Olha, vamos nos reunir e fazer isso? A idéia é fazer isso e aquilo e tal, você topa? Você quer nos ajudar?” Aí, inscrevi o cara, fazia uma fichinha e esse cara participava dos ensaios. Ou saía uma peça, ou saía uma gincana, ou saía uma apresentação de... Sei lá, um karaokê. As pessoas sempre participavam de alguma coisa e a gente chegava junto, a gente estava o tempo todo junto, fazendo isso. Hoje não, hoje é diferente. Você contrata uma empresa profissional, ela organiza uma festa e você vai participar da festa. Para mim ficou um negócio assim, meio frio. O gostoso foi esse momento que a gente teve e todas essas pessoas mais antigas presenciaram no Aché, que era a gente ter um contato mais íntimo com as pessoas. A gente sabia quem era quem, a gente sabia mais com as pessoas, a gente tinha mais intimidade, era um negócio mais família realmente.

 

P/2 – Que época que era?

 

R – E nesse momento... Eu diria até 1987, 1990. Aí, de 1990 para cá, já começa o processo de mudança.

 

P/2 – E no dia-a-dia, qual era o ponto de encontro ali da moçada da fábrica, do departamento?

 

R – Esse período bom do Aché era o período em que o cara parava o carro na porta da empresa, a menininha saía da Produção, já entrava no carro e ia lá para os seus embalos. Os nossos pontos eram os barzinhos de Guarulhos mesmo, boatinha, a gente ia sempre para isso. Eu me lembro, uma época, o pessoal de RH era um departamento pequeninho ali perto onde é hoje a Comunicação, e também ocupando aquela parte que a Comunicação ocupa lá. É um departamento pequeno, poucas pessoas, gente muito fina e a gente tinha um contato muito grande com eles e a gente sempre organizava algumas coisas assim para combinar de ir para um barzinho, de ir para um clube e a gente costumava fazer isso com mais frequência. Por muitas vezes, a gente reuniu a turma para tomar cachaça, tomar pinguinha ali no posto de gasolina, que tem pertinho do Aché ali. Tinha época que o pessoal saía do Aché e ia para aquele posto de gasolina. Um pé de chinelo, um pé sujo, lá tomava as suas pinguinhas lá. A mesma coisa valia para eventos e jogos fora, jogos dentro do Aché de futebol de campo e que a gente convidava pessoas. A gente ia também nos clubes, fazia a nossa torcida. que a gente não vê muito isso acontecer hoje. A gente participava de mais coisas junto com as pessoas

 

P/2 – Tem algum passeio, alguma peça assim, que você pudesse descrever mais, que guardou de forma especial?

 

R – Peça? Peça?

 

P/2 – Ou um passeio, alguma atividade cultural assim que te marcou mais?

 

R –Eu trabalhava como iluminador de uma peça no Rio de Janeiro e estava começando a aquecer a fiação, estava superaquecendo os fios e a peça nunca que acabava. Era o último ato, faltava coisa de 10 minutos mais ou menos, 15 minutos e eu estava ali, porque eu estava vendo a hora que ia pegar fogo em tudo, os refletores todos ligados, tudo de 1000 watts sei lá quanto watts ligados, começou um aquecimento e uma fumaça já, começou já a sair aquela fumacinha e, eu desesperado, torcendo para acabar logo a peça, tentando avisar alguém para puxar o texto, empurrar logo para acabar aquilo. Conseguimos ir até o final da peça e desliguei rapidamente tudo porque já estava quase incendiando.

 

P/1 – E no Aché?

 

R – Então, a gente vivencia isso no dia-a-dia.

 

P/1 – E no Aché, alguma atividade cultural assim que tenha te marcado?

 

R –Eu passo por umas coisas engraçadas assim. Eu me lembro, o seu Victor, seu Depieri, no momento que eles iam pegar seus carros para ir para casa, hoje, vão de helicóptero, mas naquela época, ia pegar o seu carro no estacionamento, eles passavam pelo pátio, estava eu lá com algumas pessoas, parece um bando de malucos fazendo laboratório de interpretação para alguns papéis. Por exemplo, eu fiquei um tempo ensaiando Martins Pena com o pessoal. Eu vinha de uma experiência de teatro, já tinha vivenciado uma experiência mais profissional. Quando eu cheguei no Aché, eu achava que poderia formar um grupo, que aqueles atores iam ter, vamos dizer assim, condições de se enquadrar naqueles personagens e conseguir. Mas era muito difícil. Eu entendo porque eles não tiveram vivência que eu tive, a experiência. Não tiveram a oportunidade de fazer coisas antes. Então, é um pouco difícil. Quando você sai de uma coisa mais profissional, você pega um cara mais verde para querer e querer sugar dele um pouco mais de coisa para ele render um pouco mais. Então, a gente ficou durante alguns meses. Não perdemos esse tempo porque marcou para eles bastante, até mais para eles do que para mim, eles tiveram oportunidade de lidar com alguns personagem de Martins Pena, de comédia, e a gente estava lá feito maluco, fazendo laboratório, falando alto, xingando, coisas assim, para pegar o personagem para poder entender o personagem. E falando alto assim, seu Depiere e seu Victor passavam olhando para a gente assim. Pensava naturalmente que a gente era louco, mas ele nunca se intrometeu. O Aché sempre apoiou esse tipo de coisa lá dentro. A gente se era qualquer tipo de evento, uma festinha se quisesse fazer. Tinha uma época que eles pegavam, o cara ia ficar, por exemplo, noivo ou ia casar, a gente pegava o sujeito, jogava dentro da água, acho que o seu Victor fazia isso, seu Depiere, se eu não me engano, dava um banho de graxa no cara, jogava dentro do lago, coisa assim. É uma época diferente que você sentia que era realmente uma família que estava ali. Esses meus momentos de teatro foram crescendo. Primeiro, ensaiando Martins Pena com o pessoal. Aí, veio lá, um ano lá, que eu não me lembro, acho que foi 1987, veio o dia da criança e montamos uma peça chamada “Três Peraltas na Praça.” Eu já havia montado essa peça no Rio de Janeiro e acreditei nisso: “Essa peça vai ser legal, vai funcionar aqui.” Montei, lotou... Os ônibus do Aché traziam as crianças, lotou o pátio que havia. O pátio, eu não sei se você foi lá, onde tem o Setor de Estoque do Carlão, embaixo era imenso. A gente lotou aquilo lá, montou um palco, um cenário bonitinho e a peça funcionou. Eu senti um prazer enorme de pegar o cara, quase que cru, dirigir o cara e fazer aquele espetáculo acontecer. Também no meio dessas experiências, eu fiz um pouco também de... Era “Dois Perdidos Numa Noite Suja.” Não dá para montar o texto todo, mas eu peguei, mais ou menos, até a metade com dois caras. Um tinha que dar um tiro no outro, outro tinha que dar uma facada, uma coisa assim. E para passar o realismo do tiro, envolvemos o chefe da segurança: “Olha meu amigo, quero um revólver com festim...” Com festim não, com, como que é o nome? Só para fazer o barulho do tiro, mas não tinha, era só pólvora. Ele treinou bem o ator, na hora do tiro, não saiu. Quando chegou no bem bom, falhou o tiro, mas o que eu achei legal é que, tanto na experiência de teatro antigo, quanto nessa experiência com essa peça e outras que vieram depois também, depois eu montei outra para criança também, foi observar que os caras saíram do zero praticamente e se deliciaram em cima do palco, conseguiram se comunicar, conseguiram passar tudo aquilo de legal que tem pela comunicação. Que o teatro dá oportunidade de ver essas pessoas sair do zero e vivenciar um experimento desse tipo. E percebi depois também que elas se motivaram a formar grupos e começaram a reunir mais pessoas. Depois, eu fui não tendo mais tempo, me afastando um pouco, mas elas continuam até hoje de alguma forma. Eu tenho, eu tenho... Eu dei aula de teatro no Rio também de interpretação. No Aché, eu senti, pela primeira vez, dentro de uma empresa: “Caramba, aqui eu faço de tudo.” Aliás, o Aché tem bem essa realidade. Você tem que ter jogo de cintura e fazer tudo um pouco, e ser pau para toda obra. E naquela época, a gente viveu muito isso. Aquilo era muito intenso. A gente fazia teatro, a gente ensaiava coral. Uma época, o senhor Victor cismou que o Aché teria um coral. A gente ensaiava coral. Eu queria montar uma peça não sei das quantas lá, catava algumas pessoas na produção “Vamos lá, vamos fazer, o que vai acontecer, sei lá o que, e vamos que vamos e vai sair uma peça nisso aí e vamos ensaiar.” Eu tinha paciência de todo o sábado e domingo ir para o Aché. Sábado e domingo, ao invés de eu ir para algum outro lugar, estava eu lá envolvendo os caras no ensaio. Era um tal de o cara falta o ensaio, o outro chega atrasado, um dia não da para ensaiar porque faltou não sei o quê, a luz não tinha lugar para instalar a luz, pifou o refletor. Então, a gente usava refletores. Às vezes, tinha pessoal de arte, tinha sempre os refletores para... Eles tinham também o estúdio fotográfico deles, a gente pedia emprestado os refletores. Depois, a gente ganhou uns refletores velhos. A gente tinha o nosso cantinho lá, que a gente punha os refletores, um aparelhinho de som. Quando não tinha, alguém levava um para ajudar. Mas sábado e domingo estava eu lá, envolvido com os caras, ensaiando alguma coisa. Martins Pena foi um que eu fiquei meses lá, que é uma peça difícil e para eles que não tinham experiência, aquilo ali demandou muitos e muitos ensaios e acabamos não montando a peça. Eu fiquei um pouco frustado em relação a isso. Mas no geral, tudo isso que eu experimentei no Aché, todas essas atividades envolvendo o pessoal de fábrica para mim foi muito estimulante porque eu os vi fazerem alguma coisa acontecer e sair muito daquele marasmo. Saíam da produção, ia para o refeitório, depois ia para casa no fim do expediente, não via acontecer muita coisa. Eu fui um dos que agitou muito aquilo, como o Carlão também. Cada um, claro, dá a sua contribuição. Então, nesse meu depoimento, eu acho legal colocar que a gente sempre procura dentro da empresa estar mudando um pouco aquela coisa de só produzir, só fazer remédio, só... Sabe, aquela coisa muito séria. A gente tentava fazer alguma coisa. Isso foi me dando mais suporte para também me aventurar em outras coisas. Por exemplo, eu cheguei a escrever uma peça, uma comédia inédita até hoje. Eu não tive oportunidade de montar porque as tentativas que eu fiz no Aché as pessoas não conseguiam pegar. Falei: “Agora, eu vou dar um tempo porque eu não vou matar o meu texto também e montar de qualquer maneira. Vou dar um tempo.” Então, com esse texto, eu fui na Sbat [Sociedade Brasileira de Autores Teatrais] que tinha uma carteirinha que não deu para trazer, mas tem uma de ator aí. Eu me sindicalizei no Rio e era registrado na sociedade brasileira de atores teatrais. Então, enquanto eu não montar essa peça, eu não sossego. Eu estou perseguindo isso. A peça está inédita, esta desde 1995 mais ou menos escrita, já mudei o texto várias vezes e agora eu cheguei mais ou menos no modelo que eu quero. Agora eu estou partindo para ou eu vou encontrar um grupo, ou eu vou num teatro, eu vou procurar contato com ator, alguém que queira pegar o projeto para tocar ele. Mas, essa minha experiência de teatro sempre esteve ligada de alguma forma com o período que eu trabalhei na indústria e no Aché eu pude juntar as duas coisas pela primeira vez. No Aché, eu pude botar isso para fora, fazer com que isso fosse útil de alguma forma para alguém. Envolvi os colegas de trabalho nisso e dei oportunidade de eles também participarem.

 

P/1 – E quanto ao Desenvolvimento de Produtos, o que consiste exatamente esse departamento?

 

R – Departamento de Desenvolvimento de Produto, ele envolve os farmacêuticos. Ele parte de um projeto já preexistente. A empresa, ela tem, por exemplo, interesse em um dado medicamento, comercializar um dado medicamento. Então, alguém antes, já faz uma pesquisa de mercado, que é o pessoal de marketing, faz a pesquisa de mercado, avaliam-se o interesse real do projeto. Às vezes, o produto, a substância que vai se transformar em um produto depois, ele já é explorado por alguma outra empresa. De repente, não tem nenhum problema de patente e o Aché pode estar explorando isso também. Ele vai partir do princípio de que, aquela substância num dado produto, ele está bem prescrito. A classe médica está prescrevendo bem aquele medicamento, ele está crescendo o receituário dele. Ele está pegando bem no mercado. Então, se o Aché tem interesse em desenvolver algo similar ou algo mais ou menos que se equipare aquilo, a gente starta um processo interno. Existe um comitê de produto que se reúne, discute aquele projeto e viabiliza ele ou não. Se ele é viável, por custo ou por outro fator qualquer, ele vai para o nosso departamento. A gente recebe mais ou menos uma idéia do que a empresa quer. Através de um dossiê que esse comitê elabora, ele diz qual o produto que ele quer, a forma farmacêutica, se é um xarope, se é um comprimido, uma drágea e as características de sabor que ele quer para aquele produto, as características de cor que ele quer. O que o meu departamento vai fazer? Ele só tem, naquele momento, o nome da substância ativa na mão e algumas coisas, algum perfil desse produto que o marketing está querendo. A gente vai pegar essas informações e processar isso. No primeiro momento, a gente vai estar buscando essa substância no mercado, identificando onde tem, quem tem, através do Departamento de Suprimentos e pedindo amostragem dessa substância. O primeiro passo é sempre analisar a substância, ver se tem qualidade, ver a procedência dessa, de quem produziu isso, se tem qualidade e fazer análise disso. Estando ok a análise, a gente vai pedir uma amostra para fazer alguns testes mais. Basicamente, o nosso trabalho começa, primeiro, testar bem a droga em si, a substância pura em si e já formando o esqueleto, mais ou menos, da forma que vai... Onde você vai utilizar essa substância. Então, basicamente, a gente começa após essa fase de análise, aprovada a substância, a gente vai para a bancada e começa a trabalhar a formulação em si. Primeiro, a gente esboça a fórmula e idealiza ela o que vai ser. Se é um comprimido, nós temos a droga, a substância pura e aqueles constituintes que a gente imagina que vão compor essa fórmula. A gente começa fazer alguns modelos experimentais: mistura uma coisa com a outra, a gente leva em uma máquina, faz um teste, ou envolve uma substância com outra, coloca em várias condições de temperatura, pressão, umidade, para ver se as substâncias reunidas são compatíveis entre si, se alguma coisa se degrada. A gente começa fazer uma seleção prévia da formulação, o que a gente chama de fase Pré-Formulação. A gente vai testando a estabilidade da substância com alguns componentes que a gente pretende colocar na fórmula. Aos pouquinhos, essa fórmula vai aparecendo e, dependendo do resultado desses testes que a gente faz, de compatibilidade, de estabilidade, a gente vai, mais ou menos, definindo um esqueleto e uma fórmula. Quando já tingir esse momento, a gente elabora algumas quantidades de produtos em pequena escala ainda, com equipamentos pequenos, chamado piloto. Então, a gente mistura um pó com o outro, com princípio ativo. Se vai granular, a gente umidifica, faz um grânulo direitinho, seca, e depois disso pronto, a gente vai levar nesse maquinário e fazer algumas amostras desse comprimido. Vai mandar para Controle de Qualidade, o Controle vai fazer algumas análises e a gente vai avaliar assim, o momento mais preliminar assim, a dissolução, o tempo de desintegração, a dureza do comprimido, a friabilidade, a resistência desse comprimido. Aí, de acordo com o resultado de análise, a gente vai aperfeiçoar essa formulação. Volta para a bancada novamente, vamos recomeçar: “Bom, aqui precisa melhorar dissolução, precisa melhorar a desintegração, a cor não ficou muito boa, o brilho não está legal, o tamanho não está muito bom, o formato não agradou e tal.” Vamos fazer um pouco mais. Então, a gente vai, aos pouquinhos, aumentando a escala do modelo experimental, até que a gente chega a um tamanho de fórmula que a gente já pode partir para produção, para algum teste em maior escala, para ver se no equipamento da produção é funcional porque você tem que, você tem que ver se o que você fez na bancada se reproduz em uma situação mais industrial no equipamento que, um dia, vai ser utilizado para aquele produto. Vencida essa fase, a gente chega a um modelo de piloto experimental lá, que já atende analiticamente, os resultados já são positivos e você pode colocar esse produto em algum tipo de embalagem, ou em um certo leque de embalagem, uma certa quantidade de embalagem diversificada para fazer o estudo de estabilidade. Esse estudo, basicamente, consiste em você pegar essas amostras com o produto dentro, seja um blister, seja um strip de alumínio, seja um frasco plástico, você vai colocar essas embalagens em câmaras climatizadas. Essas câmaras são reguladas para ter a umidade, a temperatura, mais ou menos, equivalente àquela região onde o produto vai estar amanhã ou depois. Por exemplo; nós temos estufas reguladas somente para 40 graus, 30 graus de temperatura e temos estufa conjugando a umidade com a temperatura para avaliar se o produto vai suportar as regiões quentes e úmidas do país. O estudo que a gente faz, basicamente, a gente quer, a gente tenta extrapolar para uma situação real aquilo que vai ocorrer no mercado. A gente tenta, com antecedência, saber se aquele produto suporta as condições de mercado, as condições climáticas, principalmente, do país. Não adianta ter um produto no mercado que ele funciona bem aqui em São Paulo, mas no Rio degrada rápido, não tem estabilidade, aquela coisa toda. Ou pode se degradar e fazer mal ao consumidor. A gente tem que ter condições experimentais de teste, que possa garantir que aquele produto pode ir para qualquer região do país e o medicamento vai ser estável. Então, o que a gente tenta na farmacotécnica, que é o Setor de Desenvolvimento de Produtos, é justamente desenvolver, aperfeiçoar ao máximo a fórmula, colocar na fórmula aquilo que realmente deve ser colocado, eleger substâncias mais adequada para aquela formulação com a finalidade de tornar esse medicamento mais estável possível. E isso tem que ser pedido de tal forma, que funcione na produção. Não adianta você criar, enfeitar uma formula muito complexa, e amanhã ou depois... E uma tecnologia, um processo de fabricação muito complexo, que não condiz com as condições tecnológicas da produção, com as condições técnicas da produção. Você tem que criar processos de fabricação fáceis, ágeis, que gerem um produto final, que se reproduza lote a lote, que tenha qualidade e que suporte o desafio climático do país, que você consiga estabilidade no mercado.

 

P/1 – E ao longo dessa história do Aché que você vivenciou, de quem veio essas idéias para o desenvolvimento de determinados produtos?

 

R – As idéias, isso parte normalmente do marketing, seu Victor. Isto está na cabeça de pessoas da esfera do seu Vítor. O cara de marketing, de repente, concebe essa idéia, eu posso dentro da minha área de trabalho também ter uma idéia e colocar na mesa de discussão essa idéia. Mas normalmente isso parte da área Médica para a área de marketing.

 

P/2 – Mas quando se diz que o Aché não tem produtos próprios, quer dizer, nesse projeto, nesse processo de desenvolvimento de produtos, há uma parte de criação?

 

R – Sem dúvida.

 

P/1 – Ou é igual ao da concorrência, isso que eu queria esclarecer?

 

R – Nós temos um exemplo chamado Flogene gotas. Ele tem uma substância que outro concorrente tem, mas a forma farmacêutica líquida só o Aché tem. Veja; o nosso concorrente para a droga peroxicambeta 5 dextrina que é o componente ativo do Flogene anti-inflamatório, os concorrentes têm ele ou cápsula ou comprimido. O Aché desenvolveu a fórmula gotas que vai atender um público diferenciado que é a criança. E daí ele criou uma fórmula farmacêutica diferenciada. Isso partiu do zero, por iniciativa do Aché, uma iniciativa interna. Nós tivemos a idéia de fazer uma versão gotas que não havia no mercado para atender uma fatia de consumidor. Nesse sentido, nós criamos uma formulação diferente. Você pode competir com substâncias idênticas, fórmulas farmacêuticas idênticas, mas criar diferenciais no seu produto para ter um plus, para obter um dado plus ou uma vantagem sobre o concorrente.

 

P/2 – Que tipo de diferenciais, sem ser esse exemplo da gota, você poderia dar outro?

 

R – Por exemplo, você pode trabalhar, você pode melhorar o perfil de dissolução de um comprimido, de um tablete. Você pode ter um determinado tablete, ele tem um perfil de dissolução, a biodisponibilidade X e você melhorar esse perfil e obter uma vantagem sobre o concorrente. Você pode trabalhar isso também a nível de cor, a nível de sabor, para facilitar a assimilação. Por exemplo, para pessoas idosas, para crianças, você tem que trabalhar a questão de sabor para que aquele medicamento seja mais facilmente administrado e o paciente possa aderir ao tratamento. Você trabalhando, você pode, claro, em um primeiro momento, você vai desenvolver algo que é uma cópia de alguma fórmula... Não é uma cópia, é um similar, você vai estar olhando o mercado, o que tem lá. Então, você vai estar aí, pelo menos, a nossa sistemática, mais ou menos, é essa. Nós mandamos buscar na farmácia aquilo que tem no mercado e vamos ver tudo sobre aquilo que está no mercado. Vamos buscar também lá fora o que tem e a gente vai comparando. A gente faz investigação analítica disso, destes materiais todos. Eu compro lá um produto na farmácia, vou investigar ele, vou dar uma fuçada lá e vou ver. Vou provar ele, vou mandar fazer uns testes de análise nele. E aí, eu vou tentar trabalhar um ponto fraco que ele tenha. Eu tenho de identificar alguma coisa de ponto fraco que ele tenha e melhorar isso em benefício do meu produto. Eu acredito que você possa criar através da criatividade, através da sua iniciativa, melhorar algo já existente e aí você não cai integralmente na cópia. Cópia para mim é você fazer alguma coisa exatamente com a mesma cara, sem criar nada de diferente, mas você tem que descobrir os pontos fracos do teu concorrente e trabalhar esses pontos fracos em benefício próprio para ter algo melhor no mercado. Eu acho que é por aí a qualidade, é por aí, mais ou menos, a diferenciação que você quer criar. E tem caso em que você trabalha associações que não existem. Você pode ter um produto como a Aspirina, mas pode ter um outro associando Aspirina a outros componentes farmacológicos e criar, potencializar esse produto, e criar um diferencial em relação ao outro que também tem Aspirina. Você pode buscar através de associações entre substâncias, já existe no mercado, você pode associá-las de um modo diferente com outras coisinhas e tornar um produto novo.

 

P/2 – Qual seria um exemplo?

 

R – Você pode...

 

P/2 – É o Tandrilax?

 

R – Tandrilax é um exemplo que é excelente para efeito analgésico, para antiespasmódico tudo. Tandrilax tem bastante diferenciação. Eu imagino não tem nenhum exatamente igual. Eu fiz um levantamento há bem pouco tempo, não tinha nada igualzinho o Tandrilax no mercado. 

 

P/1 – Você falou das associações era um diferencial, era um caminho de desenvolvimento de produto são as associações, qual que seria um exemplo?

 

R – O exemplo, o Tandrilax. Um exemplo, Cefaliv, o outro Cefalium, nós temos, pelo menos, três exemplos aí, de produto. No caso de uma coisa nova, diferente, que não tem concorrente é o Flogene gotas, que nós criamos uma fórmula e que já tentaram copiar que a gente sabe, já tentaram porque é bem assim mesmo. Se alguém quer chegar junto com você, ele vai no seu rastro. Se já existe uma referência, você vai no rastro dessa referência. É por aí, mais ou menos, que funciona a similaridade. Você vai seguir algo que existe e vai tentar descobrir uma mágica de conseguir algo melhor que aquilo. Eu acho que o papel de quem desenvolve, formula alguma coisa assim, você pode ter um referencial daquela direção, mas evitar o choque com aquilo e querer fazer algo igual. Você vai tentar usar aquilo como uma referência, mas tentar fazer melhor.

 

P/2 – E de que forma essa nova situação de mercado com a nova Lei de Patentes, quer dizer, impacta essa forma de trabalhar do Aché, né?

 

R – Joga por terra, porque até o momento, vamos dizer assim, até ontem, a gente sobreviveu da similaridade que é uma realidade de toda indústria nacional farmacêutica. A gente viveu disso aí. Durante muito tempo, a empresa se fez em cima disso, vamos dizer assim. O momento agora é o momento de mudar, é momento de inovar, de buscar coisas realmente diferentes. Por quê? Você não pode estar mais estar copiando abertamente nada porque a patente inibe esse tipo de coisa. Então, você tem, realmente, pela questão da globalização da concorrência que está mais acirrada, você tem que ter produtos inovadores para competir. Você tem que sair desse estágio e inovar, e criar coisas novas. O caminho ao meu ver, é tipo... Eu não sei bem se como que é a coisa, mas se unir à universidade, estabelecer parcerias com empresas, com centros de pesquisa, trabalhar no sentido de modificar molecularmente uma droga, modificar a molécula já existente, modificá-la para criar mecanismos diferentes, formas de ação diferente, drogas... Criar drogas modificadas com menor efeito colateral, mais potente que você possa usar menos, que tenha menos toxidez, que possa administrar em pequenas doses, menor quantidade, com comodidade para o paciente. É buscar mais ou menos isso aí. Modificar o que já existe, por quê? Para criar moléculas novas, cada vez mais está sendo impossível porque tudo está acontecendo muito rápido nesse mundo globalizado. Você criar uma nova molécula agora, você leva, mais ou menos, uns 10, 15 anos para conseguir transformar essa molécula num medicamento viável, para ser comercializado. Eu não tenho assim, números, mas você desenvolve... No passado, a coisa era mais ou menos assim, desenvolve 100 moléculas para daí 10, conseguir chegar, ser viável, aprovado para conseguir chegar ao mercado sob forma de um medicamento. Transformar aquilo em um medicamento viável financeiramente e a nível terapêutico. Muitas se mostram inviável porque os efeitos tóxicos são altíssimos ou para comercializar o custo é altíssimo, coisa nesse sentido. As coisas acontecem tão rápido, as transformações são tão rápidas que você desenvolver algo novo, a nível de molécula, criar algo do zero mesmo, você mal começa fazer, alguém já copiou você, já está na sua frente. Não dá tempo, as pessoas estão muito ligadas e muito assim, entrelaçadas com essa questão da globalização, as pessoas estão muito... Você tem pouco tempo. Você cria agora, o cara já está atrás te perseguindo, se bobear, ela lança na sua frente. O tempo que você tinha para criar uma molécula, você não tem mais hoje. Aquela coisa de ficar 10 anos lá, para chegar a uma aprovação, para conseguir viabilizar aquela molécula e aquilo se transformar num medicamento, você não tem mais esse tempo porque no meio do caminho, alguém já criou junto com você. É o caso de Viagra que agora já tem mais duas substâncias. Se eu não me engano, eu acho que já está estourando no mercado uma outra substância com menos efeito colateral. Se eu não me engano e até mais potente do que o Viagra. A informação muito atualizada, mas está saindo uma outra para competir com o Viagra, rápido, num tempo super... Foi ontem, basicamente, que lançou o Viagra, já tem um concorrente à altura de encarar ele. Então, não se tem muito tempo hábil para estar pensando.

 

P/1 – Tá, mas o Aché já fez algumas experiências no sentido de produzir alguma substância, não é?

 

R – Sim, claro. Nós trabalhamos muito em projeto a partir de, por exemplo, fito-estimulina vegetais, trabalhando extratos aquosos como anti-inflamatório, nós fizemos muito trabalho em parceria com a Unicamp, desenvolvendo substâncias. Internamente, nós desenvolvemos algumas substâncias também, nós já sintetizamos, nós criamos, a própria amoxilina, a nossa planta química, Bromazepam, algumas outras matérias-primas como a frutose a gente desenvolveu internamente também. O Aché desenvolveu várias substâncias, vários insumos para o seu consumo próprio em um dado momento de sua vida, quando era viável produzir internamente estes insumos. Hoje compensa mais você importar. O custo de importação é bem menor, você tem um acesso mais fácil a essas substâncias. Mas em um momento da vida do Aché, ele fez isso lá dentro. Por exemplo, nós temos o Biofenac gotas que é à base do diclofenaco resinato. Quando nós desenvolvemos esses produtos, esse medicamento dentro do Aché, não existia nada em literatura a respeito do dicoflenaco resinato, nós não tínhamos acesso a essa substância. O Aché desenvolveu internamente o próprio diclofenaco resinato partindo da molécula do diclofenaco sódico. Ele pegou a molécula de diclofenaco sódico uniu uma resina de troca iônica e através de uma troca iônica dessa molécula, melhorou algumas características de sabor que se queria nessa molécula para viabilizar uma fórmula farmacêutica de fácil assimilação por parte da criança. A partir dessa substância, a gente desenvolveu o Biofenac gotas para criança, que é anti-inflamatório em gotinhas. Nós diferentemente do concorrente, que já tinha tudo isso para ele, nós desenvolvemos do zero tudo, dentro do Aché. Criamos o próprio diclofenaco resinato para depois compor a fórmula farmacêutica, Biofenac gotas. Quer dizer, uma coisa que nós criamos internamente. E tem outros exemplos também, tem o diclofenaco de etil amônio no Biofenac Gel que nós tivemos no mercado também. Nós também trabalhamos a molécula do diclofenaco sódico e obtivemos por modificação química, um outro componente.

 

P/1 – Em relação ao lançamento de produtos, existe um ritmo ao longo desses anos que foi se seguindo, há um período de crise, de não lançamentos, como é que você vê isso?

 

R – O Aché sempre, por volta de cinco a seis produtos, ele lançava todo ano. Esse ritmo vem caindo. Isso aí coincide com esse momento que a gente, que a empresa está passando de transformação. Como eu falei, para essa questão da Lei de Patentes, por similaridade, fica difícil você conseguir registros de novas marcas no mercado, de colocar novas marcas no mercado. Então, é um momento da empresa refletir e criar uma estratégia de trabalho e ver de que forma vai trabalhar daqui para frente, buscar, inovar, fazer parcerias, coisas assim. Então, o ritmo de lançamentos foi decaindo. Acredito que, de um ano para cá, do ano retrasado para agora, do ano passado para agora, coincide com o momento do Aché parar e refletir, e pensar para onde vai caminhar, exatamente qual é o melhor caminho a seguir. Houve um declínio pequeno, mas sempre lançou por volta de cinco, seis produtos/ano. E do ano passado, retrasado para cá houve uma diminuição... Esse ano passado não teve praticamente nenhum lançamento.

 

P/1 – Você falou desses lançamentos do mercado que, hoje, é muito ágil, aparecimento de novas drogas, como é que você analisa o sucesso de produtos como o Combiron, o Sorine, que são tão antigos?

 

R – O sucesso está no marketing, está na forma com que a empresa... Eu diria, ainda vou mais atrás um pouco, eu acho que tem a ver com quem montou toda essa estrutura com os sócios, que tinha uma vivência muito grande no mercado, conhece o mercado farmacêutico, vieram de empresas farmacêuticas e souberam fazer isso crescer dentro da empresa e montaram um marketing muito bem montado. É um marketing bem agressivo, bem criativo, vamos dizer assim. Acho que depende da criatividade, do empenho, da formação, do profissionalismo de cada pessoa da empresa e o marketing está muito bem estruturado nesse sentido. Nós temos a divisão comercial, divisão de vendas e de marketing muito bem engajada na política do Aché e o Aché está engajado na política de sucesso desde que ele existe. Eu diria que o Aché, ele vende, se ele quiser se empenhar e ele faz isso bem, ele vende qualquer coisa. Nós, no momento da nossa vida no Aché, o Aché chegou a vender aparelho Starilair. Em um momento da vida do Aché foi interessante vender Starilair. Nós tínhamos na expedição vários aparelhos Starilair para vender. A gente comprava também internamente mais barato, o aparelho, então o Aché vendeu Merthiolate da Lilly. Eu tenho impressão que uma empresa, uma empresa moderna, que está olhando mercado, atenta a essas transformações de mercado, ela tem que estar aberta a tudo que tem de novidade, tem que olhar novos nichos, repensar, refletir sob novos nichos, buscar novos nichos de mercado e atuar de maneira mais competitiva porque se não ela não sobrevive. Eu acho que dentro dessa realidade, vale tudo ao meu ver. Você pode estabelecer parceria, você pode, de repente, comercializar genéricos, se for o caso, produzir, comercializar, ou só comercializar sem produzir. Você pode se filiar a alguém, estabelecer parcerias e vender coisas de alguém, trazer, importar coisas e comercializar no Brasil, acho que vale por aí. Trabalhar junto a centros de pesquisa avançados e a nível de molécula, melhorar, trabalhar alguma molécula, fazer o que o Aché está fazendo de usar as parcerias com as universidades, com centro de pesquisa, trabalhando a questão das plantas, trabalhando, pesquisando oportunidades farmacológicas para muitas plantas. É o caso de erva baleeira, cascara sagrada... Desculpe, Espinheira santa, erva baleeira e outros... Agora, eu não me recordo, que estão sendo de interesse e estão tendo respostas bastante interessantes para a empresa. Nós temos hoje várias pesquisas acontecendo com bons resultados em cima de fármacos obtidos de planta ou de extrações de substâncias a partir de plantas. Nós temos, por exemplo, erva baleeira, atualmente nós estamos trabalhando com, creme, pomada. Já passamos por uma fase de estudo com animais, agora vamos entrar em uma fase de estudo com ser humano para ação anti-inflamatória tópica. Produto à base de creme e pomada à base de erva baleeira. A Espinheira santa também está em teste, em comprimidos. Nós temos o Vitex que é o Agnus Castus, que é um produto, se não me engano é para menopausa à base da isoflavonas tem estudo. Este Vitex Agnus Castus, agora eu não me recordo a função farmacológica que está sendo investigada, mas é uma experiência que veio funcionando e é um estudo clínico que está sendo conduzido pelo o Aché. Então, o Aché já há bastante tempo vislumbra a possibilidade desse mercado natural, do mercado a partir de plantas, a partir dos chamados fitomedicamentos. Fitomedicamentos, eu acho que é uma coisa que é bastante interessante e as empresas estão de olho sério nisso aí. Várias multinacionais já tem alguma coisa nas suas linhas ou estão também fazendo investigação, estão também pesquisando. Eu acho que esse que é o caminho mais ou menos. A gente tem uma diversidade muito grande, nós temos uma Amazônia riquíssima, nós temos uma fonte enorme de matéria-prima aí disponível na natureza nossa, que é rica e a gente tem que explorar bem isso. O Brasil tem que explorar bem isso. E eu acho que o Aché está vendo, está engajado nesse processo também de modernização, vislumbrando esse mercado de fitomedicamentos, que tende a crescer. No Brasil já tem um volume razoável.

 

P/2 – Você está falando de futuro. Para a gente ir finalizando, eu queria perguntar sobre o teu sonho em relação ao Aché e também o sonho na tua vida, como é que você olha para o futuro?

 

R – É um pouco complicado porque eu digo sempre que tudo que eu tenho conquistado, depois que eu vim para São Paulo, eu agradeço ao Aché pela oportunidade que tive de trabalhar no Aché e tenho até hoje. Mas é um pouco complicado para mim porque eu já me aposentei por tempo de serviço e daqui a mais uns cinco anos, eu imagino, devo estar cinco, seis anos, eu estou me aposentando pela aposentadoria privada que o Aché tem. Mas ainda vejo assim, muita coisa pela frente, muito desafio pela frente. Então, o que eu quero realmente que venham mais desafios, que eu possa estar preparado para esses novos desafios e fazer agora alguma coisa para me preparar para esse futuro que está aí, está chegando, está estourando aí. O que eu deslumbro mesmo realmente é crescer um pouco mais, trabalhar, contribuir com Aché por mais algum tempo, se for possível contribuir. Se for o caso, ceder o meu lugar a outros que estejam vindo e estejam, de repente, mais a altura de assumir alguns postos de trabalho, alguma coisa que eu faça hoje. Mas eu estou aberto a isso. Ou ceder lugar ou continuar atacando e acreditando mais em mim também, aprendendo mais e enriquecendo a minha formação. É por aí, mais ou menos, que eu penso.

 

P/2 – E na vida pessoal, qual é o teu projeto de futuro?

 

R – Eu quando vim para o Aché não tinha nada. Eu falei que morei, tive o meu primeiro sofá que alguém me deu. Há coisa de três, quatro anos atrás, eu comprei um terreno num condomínio fechado em Arujá. Eu jamais imaginar que ia comprar um terreno num condomínio fechado e muito menos em construir uma casa. Eu já tenho lá a minha casa construída num padrão que tem a ver com o padrão do condomínio fechado lá onde é, em Arujá. E isso para mim tem uma vitória muito grande. Então, o que eu quero mais? Dar uma formação melhor a minha filha, criar, talvez conquistar mais coisas, algumas coisas mais. Penso em poder, de repente, montar alguma coisa própria para quando eu me aposentar ou algum projeto paralelo, alguma coisa aí para mim conquistar mais coisas e preparar o futuro da minha filha e melhorar o nosso estágio atual da relação com a minha mulher e a gente conquistar mais algumas coisinhas. Eu acho que é por aí, mais ou menos.

 

P/2 – Como é que chama a tua esposa?

 

R – É Márcia.

 

P/2 – Que você conheceu no Aché? O Aché também te trouxe a esposa, não é isso?

 

R – Pois é. A Márcia estagiou no Rio na área de Desenvolvimento comigo. Ela foi escolhida pela dona Ilda. É interessante que, nessa entrevista eu a reprovei. Eu precisava de uma estagiaria, ela foi reprovada. E tinha uma outra pessoa que foi aprovada por mim e pela dona Ilda, na época, e essa pessoa começou a trabalhar, não deu certo. A dona Ilda chamou a Márcia de volta. Resolvemos dar uma oportunidade para a Márcia e ela ficou trabalhando, estagiando com a gente. E lá, na época do Parke-Davis que passou a ser Aché Medicamentos, eu conheci a Márcia. Foi trabalhar comigo. Um ano e pouco estagiando, acabou o Parke-Davis lá e ela continuou no Rio, eu vim para São Paulo, separou. Oito anos depois, aqui em São Paulo, a gente restabeleceu o contato. Voltamos a namorar, aquela coisa toda e montei apartamento na Tijuca. E todo fim de semana eu ia para lá, até que eu resolvi juntar os trapos por aqui. Trouxe ela para cá. Então, isso já vem lá da Parke-Davis na Gávea. E ela hoje é minha funcionária, tenho confiança total no trabalho dela, ela é muito competente, muito habilidosa, muito criativa, ela é a pessoa que coordena na prática todas as experiências que a gente faz lá. Hoje, estou mais atrás de uma mesa, mais envolvido em reuniões, mais envolvido com a parte burocrática e isso me faz voltar um pouco atrás no tempo, eu começo a me lembrar do meu chefe também que era o farmacêutico responsável, depois que o pai faleceu, assumiu o filho, com que eu trabalhava no Maurício Vilela. E eu percebi que, com o tempo, ele foi largando a bancada, vai sentando atrás de uma mesa e pegando a parte burocrática. Eu acho que é assim; em Desenvolvimento, quem coordena, quem dirige, gerencia, supervisiona, a tendência é que vá pegando mais a coisa da organização, a coisa mais burocrática, a coisa da administração e vai se distanciando da bancada. Eu sou aquele cara que gosta mais da bancada, mas a distância e disso não tem como mais voltar no tempo. A Márcia é a pessoa que tomou esse meu lugar. Hoje ela está lá, ela que coordena. Eu esquematizo, idealizo, penso. Faço os meus esboços de fórmula lá, imagino. Às vezes, vai por e-mail, às vezes faço o esboço grosseiro no papel, mando para ela e ela que programa, que organiza o teste, que acompanha. O meu contato com a equipe é pequena porque o tempo no Aché é muito pequeno e a gente distancia um pouco disso, mas sempre que posso, estou lá no meio do pessoal, deixo-os muito bem à vontade, não fico no pé, deixo assim, o pessoal com mais liberdade para criar também. Procuro evitar deixar o cara bitolado, muito dependente. Que no momento que eu virar as costas, eu quero que aquilo lá flua. É horrível você ter alguém muito dependente de você e que você não pode nem virar as costas, não pode faltar. Se você precisar faltar por algum motivo, você fica da rua ligando o tempo todo porque não sabe se aquela coisa está andando ou não está. E eu acho interessante você dar uma certa liberdade, deixar a equipe andar com os seus próprios pés. Eu trabalho nesse sentido e ela me cobre bem nisso daí. Está ela lá e a minha sala é separada, ela fica no laboratório, eu fico embaixo. Volto e meia, eu vou lá, pego um guarda-pó, coloco o meu avental, vou lá, mas é raro. Às vezes, eu fico uma semana inteira sem ver a minha equipe, só na hora do almoço. Quando a gente almoça junto, aí dá para ver todo mundo junto.

 

P/2 – Vai para o trabalho junto, almoça junto, volta para casa junto.

 

R – Com a mulher, sim. [risos] Complicado é tipo assim: “Eu estou querendo matar o dia tal, e aí?” Você: “Vai pegar mal.” Quer matar o dia, precisa ter algum compromisso... Matar no bom sentido porque ela tem um compromisso, está adiando aquilo um tempão, tem que resolver uma coisa particular, aí ela quer faltar. Então, a cabeça do chefe fala mais alto, o chefe fica assim: “Ela não é uma funcionária qualquer, é a minha mulher, por acaso.” Vem aquela preocupação. Isso pinta muito na minha cabeça. Por mais que você não queira... Por mais que você queira separar um pouco as coisas nessa hora, a voz do chefe, o responsável pela área fala mais alto. Por quê? Para mim, eu sempre me preocupo, eu posso não moldar nada, não levar nada para nenhum sentido, mas a outra pessoa que está vendo, as pessoas que estão observando, elas podem criticar negativamente e censurar esse tipo de coisa. Às vezes, pinta esse tipo de coisa, mas a gente consegue lidar bem.

 

P/1 – E para terminar, embora a gente não consiga voltar no tempo essa conversa, os fez voltar no tempo. 

 

R – Bastante.

 

P/1 – O que você achou dessa experiência, de ter contado a sua história?

 

R – Muito boa porque, pela primeira vez, eu acredito, tenha tido a oportunidade de fazer isso. Eu acho que nem a minha mulher sabe do que eu estou falando aqui. Grande parte, eu diria que 70% do que eu falei aqui, nunca conversei com ela porque ela também nunca me perguntou e acho que ninguém teve o interesse que vocês estão tendo para esse projeto de me colocar assim: “E aí, e agora se abre e fala aí.” É muito raro eu falar disso para alguém e acho que esse tipo de projeto é bastante interessante na medida em que faz com que você traga à tona uma série de coisas você deixou ali, amortecidas ou adormecidas. Acho que, para mim, foi bastante assim, estimulante e até me emociono um pouco de ter essa oportunidade de vivenciar esse tipo de experiência, vamos dizer assim, que vocês colocaram. Então, eu acho legal você falar. É como abrir lá a sepultura e... Aquela caixinha, aquele baú, você abrir o baú é como pegar um álbum de fotografia antigo e fazer uma revisão profunda, ver lá como você era, assim, assado, coisa que a gente não costuma fazer muito no dia-a-dia. Se todos pudessem abrir os seus baús, seus arquivos na memória para fazer uma revisão lá do início, tudo que botou lá, da onde veio, para onde foi, olhar sempre para trás e olhar para frente, mas procurando valorizar cada passo que você deu. Não ver que o cara, às vezes, o teu parceiro lá, o teu concorrente tem muito mais coisa, o teu vizinho, sei lá quem, teu colega tem muito mais coisa, conquistou mais coisa e você nunca se colocar assim, por baixo em relação a isso, e você olhar sempre atrás: “Caramba, mas o que eu era, o que eu fui, o que eu conquistei, aonde eu cheguei também com os meus méritos?” Sei lá, pelo meu trabalho, alguma coisa assim. Olhar sempre para trás e reviver um pouco, olhar, fazer uma reflexão para depois julgar melhor o presente dele. Então, acho que isso é uma oportunidade da gente poder vasculhar isso, abrir o baú, olhar bem, pegar o álbum antigo de fotografia e... Eu acho que, nesse sentido, foi bastante estimulante e uma oportunidade muito legal que eu estou vivenciando aqui.

 

P/2 – Obrigado pela participação...

 

R – E vocês fuçaram bastante coisa também.

 

P/2 – Obrigada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+