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História

O taxista faixa preta

História de: Manoel Bezerra de Vasconcelos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2011

Sinopse

Hoje taxista, antes professor de defesa pessoal, pizzaiolo, pasteleiro. E antes de tudo isso, ceramista. Manoel passou por muitas profissões desde a infância pobre em Bezerros, em Pernambuco, onde precisava amassar barro desde os oito anos para ajudar os pais. A família migrou para São Paulo, em busca de melhores condições de vida e Manoel precisava de um emprego para ajudá-la. Foi contratado por uma pastelaria cujo dono era chinês e se fascinou tanto pela cultura a ponto de aprender a língua. Desde então, ele aprendeu várias artes marciais, ganhou campeonatos e até se casou com uma chinesa.     


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História completa

P/1 – Seu Manoel, bom dia!

 

R – Bom dia!

 

P/1 – Muito prazer em estar aqui com o senhor. Eu queria começar a nossa entrevista perguntando o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Muito bem. Manoel Bezerra de Vasconcelos, nascido em 23 de setembro de 1964, na cidade de Bezerros, Pernambuco.

 

P/1 – O senhor poderia dizer o nome dos seus pais e qual a atividade profissional deles?

 

R – Meu pai se chama João Bezerra de Vasconcelos, já é falecido - faleceu em 2007. Ele era vaqueiro. Minha mãe, Maria Natércia Vasconcelos, ainda é viva; é pedreira.

 

P/1 – Pedreira?

 

R – É, ela constrói casas. Interessante. Eu tenho quatro irmãs e dois irmãos.

 

P/1 – Poderia falar o nome deles?

 

R – Vamos lá. Por ordem, como se diz: eu, Manoel Bezerra de Vasconcelos, aí vem a minha irmã mais velha, Josefa Bezerra de Vasconcelos, depois vem a segunda, Selma Bezerra de Vasconcelos.

 

P/1 – Só o primeiro nome.

 

R – Só o primeiro nome. Depois tem o Cícero - todos Vasconcelos, o Braz, Natércia - tem o nome Natércia Vasconcelos - e Cícera. Tem uma que morreu, que também se chamava Cícera. No total, somos sete.

 

P/1 – E conta para mim, o senhor viveu em Bezerros até quando?

 

R – Até 1979.

 

P/1 – Então até os quinze anos.

 

R – Isso, aproximadamente.

 

P/1 – O senhor poderia contar um pouquinho como era a sua vida de menino lá em Bezerros?

 

R – Muito difícil. Eu comecei a trabalhar com oito anos de idade. Trabalhava em cerâmica - a gente fala [em] “colocar telha para secar”, você coloca telha no sol. Era o serviço mais leve que tinha para eu fazer, por causa da idade. Aos dez anos de idade aprendi a fazer tijolos de oito polegadas - que é um tijolo pequeno - e fazia tijolos. O meu pai é quem amassava - a gente fala “amassar o barro”, preparar o barro; como eu tinha os pés muito pequenininhos, era muito criança, não tinha força para amassar o barro. Então, meu pai amassava o barro e eu fazia...

 

P/1 – O barro era amassado com o pé, assim?

 

R – Com o pé. E eu fazia os tijolos. 

Aos doze anos aprendi a fazer telha, ganhava um pouquinho mais... Mas era muito difícil. Para o senhor ter uma ideia, trabalhávamos eu e minhas duas irmãs mais velhas. Tinha lá um pãozeiro, passava vendendo pão com um balaio na cabeça; passava de manhã, a gente comprava o pão e pagava na sexta-feira, quando recebia. Eu comprava três pãezinhos, para mim e minhas duas irmãs. A gente olhava para o pão e pensava: “A gente come tudo agora ou guarda para o almoço?” Porque é o seguinte: você tinha que dividir; comia a metade e guardava a outra metade, porque no almoço a gente sabia que não ia ter nada para comer. 

A vida era assim. Quando foi um dia, umas quatro horas da tarde, eu estava no... Chama “barreiro de barro”. Estava lá, tirando barro; meu pai passou: “Filho, venha para casa, preciso falar com você”, aí eu fui para casa. 

Se eu me emocionar aqui não estranhe não, porque...

 

P/1 – Todo mundo se emociona...

 

R – É, é pesada a coisa. Ela machuca, entendeu? Foi bem dolorido. 

Ele chegou em casa... A gente era tão pobre que não tinha mesa para sentar e comer; a gente comia sentado no chão. Então fizemos aquela rodinha, os sete filhos. Meu pai encostou-se no fogão de lenha e falou: “Filho, eu conversei com a sua mãe. Chegou um amigo meu de São Paulo e ele falou para mim que se eu arrumar o dinheiro da passagem, ele tem emprego para mim garantido...” 

O medo do nordestino de vir para cá é não ter emprego. Ele quis arriscar. Por quê? Porque ele tinha um emprego. Ele falou: “Eu vou com o emprego e você fica aí cuidando dos seus irmãos.” Eu era o mais velho e disse: “Tá bom, pai!” A dona da fazenda onde ele trabalhava fez as contas dele; na época, pagou para ele mil e quinhentos cruzeiros. Um advogado falou que ele tinha direito a oito mil. Ele falou: “Não, eu preciso ir para São Paulo, não vou entrar nessa questão. Isso aí demora e eu quero ir embora.” Ele largou tudo lá e veio embora para São Paulo.

 

P/1 – Só ele?

 

R – É, só ele. E eu fiquei lá trabalhando. Isso foi em 1977. 

Passou 1978 e nem notícias do meu pai. As crianças adoeceram. Lá, o nordestino é muito solidário: um ajuda, o outro ajuda, todo mundo ajuda - mas dentro do possível, porque é uma comunidade muito pobre. A cidade de Bezerros, na época, nem rodoviária tinha; Os ônibus paravam no meio da estrada.

 

P/1 –Só fazendo um parênteses, falando de Bezerros... Porque Bezerros também não é pequeno. Em que lugar de Bezerros vocês moravam?

 

R – [No] município de Sairé, uma cidadezinha pequenininha. Lá, Bezerros é conhecido como a cidade do papa-angu que, quando tem aqueles carnavais, é famosa. 

Quando foi em 1979... Sabe quando você está desiludido? Você se imagina só, um rapaz com quatorze para quinze anos, só trabalhando, passando fome? Chegava um... Na sexta-feira vinha um caminhão cheio de saco de pão, que era o pão velho da padaria que eles traziam para fazer lavagem para os porcos. Então a gente ia lá, corria e escolhia aqueles pães que não estavam mofados para comer. Não tinha jeito, entendeu? Era muita necessidade.

 

P/1 – E o senhor era o mais velho dos irmãos.

 

R – Era o mais velho. 

Um dia, eu estava no barreiro de barro, amassando barro. Era umas duas horas da tarde, um sol quente, eu não sei, cada um... Não sei, a minha família sempre foi católica, todo mundo. Digamos que eu sempre fiquei em cima do muro, porque eu sou mais daquela tese que só acredito vendo. Não é que Deus tenha que provar alguma coisa para mim, mas eu tenho... Sei lá, tenho que ter alguma consistência para eu acreditar que existe Deus - pelo menos eu pensava assim. 

Nesse dia, realmente eu passei a acreditar em Deus porque eu estava lá, amassando o barro e... Sabe quando bate uma tristeza? Eu tinha catorze anos, olhei para aquele sol e disse: “Olha, minha mãe fala tanto que existe Deus, que lá em cima é o céu. Será que Ele não está vendo que eu estou me matando aqui...”? Isso dói...

 

P/1 – Toma uma aguinha aqui.

 

R – Não, tudo bem. (suspiro) Continuei amassando o barro. Sabe, sinceramente, naquele dia eu passei a acreditar em Deus. Eu ouvi uma voz atrás de mim: “Filho...”. E quando olhei para trás, era o meu pai.

 

P/1 – Era o seu pai?

 

R – É. Ele tinha chegado. Eu corri para cima dele, chorando que nem agora e ele: “Eu vim buscar vocês.” Dois anos sem dar notícia e nada. Ele falou: “É que lá não é fácil, é difícil.” Ele veio para cá trabalhar como ajudante de caminhão, carregar caixa na Brahma. Ele falou que foi muito difícil para ele comprar um barraquinho de madeira numa favela para trazer os filhos. Ele juntou todo mundo - os sete filhos, minha mãe - colocou a gente no ônibus e, entre aspas, digamos, acabou aquele sofrimento de passar fome, trabalhar muito. Viemos para cá.

 

P/1 – Seu Manoel, antes de chegar em São Paulo... O senhor já viajou bastante, conhece várias partes do mundo. Naquela época, aos catorze anos, o que o senhor imaginava que existia no mundo, além de Bezerros?

 

R – Nada. Olha, para vocês terem uma ideia, eu estudei até a terceira série e lá, você... Eu não sabia o que eram idiomas. Para mim todo mundo falava igual, que nem a gente. Só que foi um choque quando eu cheguei aqui, porque: “Pô, as pessoas falam e eu não entendo?” Sabe quando a sua cabeça dá um nó? Quando eu cheguei aqui... Você vê, terceira série lá é tão atrasado que eu lia palavras soletrando as letras - como quando você começa a aprender a ler, a professora ensina B com A - BA, e por aí vai. Eu soletrava as letras para poder ler uma palavra, então eu cheguei aqui, entre aspas, semianalfabeto.

Nós viemos para São Paulo e fomos morar num... [Se] chama Parque Arariba, em Santo Amaro. Já tivemos um susto, no início, pelo seguinte: lá, apesar de ser pobre, você tinha uma casa para morar - eu morava numa casa. Como minha mãe era pedreira, ela construiu a casa da gente, então era uma casa decente. 

Chegamos aqui [e] fomos para um barraco de tábua. Aquilo ali assustou: “Pai...” “Filho, foi o que eu consegui comprar, porque uma casa... Esquece, não tem como!” Minha mãe chegou para a gente e falou: “Vocês vão andar pela rua; o que vocês acharem de tijolo, telha, madeira, traz para casa. Eu vou transformar esse barraco numa casa.” Em seis meses, no meio da favela, minha mãe construiu um sobrado.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É.

 

P/1 – E como era a comunidade onde vocês moravam?

 

R – Comunidade de favela, normal. São pessoas pobres, são as pessoas mais necessitadas. A maioria [era] nordestino mesmo, que vem para cá e que não tem onde morar, aí vai morar onde? Numa favela. E você vê, isso abriu caminhos, porque um certo dia chegou um senhor...

 

P/1 – Espera aí. Você falou que vocês recolhiam material para construir a casa. Conte mais disso, essa história é bacana.

 

R – A gente juntou tudo o que achava na rua - tijolo, telha - e foi trazendo. E a minha mãe, para a gente... Veja bem, o pobre... Você não tem opção de dizer assim: “Eu vou sair daqui porque eu vou reconstruir isso.” Você tinha que continuar morando ali. Então, o que a minha mãe fez? Ela fez os alicerces da casa por fora do barraco; ou seja, o barraco continuava lá, mas ela começou a construir por fora, fazer tipo uma cobertura por fora. E todo mundo olhava, todo mundo via uma mulher lá fazendo massa e subindo. 

As paredes foram subindo; quando foram ver, o barraco sumiu. Ficou escondido lá. Quando ela fechou tudo, a gente começou a destruir o barraco por dentro e fizemos as partes de dentro. Em seis meses, tínhamos um sobrado lindo.

 

P/1 – Que beleza!

 

R – É. Até que um dia passou um senhor lá, [de] chapéu... Com aquele chapéu de construção - não sei como é que chama – e aí falou: “Olha, interessante. Eu ouvi boatos por aí que dizem que foi uma mulher que construiu isso aqui.” E minha mãe: “Fui eu, sim.” “Mas a senhora tem formação?” E ela: “Não, senhor. Eu aprendi com o meu pai.” E ele: “Muito interessante. A senhora quer ganhar um dinheirinho?” E ela falou: “Quero.” Minha mãe arrumou um emprego de pedreira e foi trabalhando. 

 

P/1 – E o seu pai estava trabalhando também.

 

R – É, na Brahma. 

Aí veio a minha parte. O meu pai nunca soube ler nem escrever, mas era aquele tipo de homem que tem uma memória muito boa. Ele olhava uma placa de ônibus e não sabia o que era, mas ele... A mente dele sabia que era o mesmo. Ou seja, ele não tinha problema de não saber ler, ele pegava os ônibus... 

Ele chegou em casa e falou: “Filho, eu passei em frente a uma pastelaria, tem uma placa lá... Eu não sei o que está escrito mas, pela forma como está colocada, eu acho que precisa de empregado. Vamos lá?” Eu disse: “Vamos.” 

Chegamos lá e estou eu olhando - P, R, E… Soletrando... Eu não sabia ler direito. O meu pai: “Está difícil?” “Está pai, calma, devagar.” Aí eu: “Precisa”... Eu não sabia daquele S, E separado. É “Precisa...” e tinha o S, E. “Balconista, pai.” O pai: “Tá bom, vamos lá.” Quando chegamos lá me aparece um chinês de olho puxado. Eu fiquei atrás do meu pai, porque eu nunca tinha visto gente com os olhos puxados. Bezerros é [a] duzentos quilômetros do Recife, não tem chinês em Bezerros. O meu pai: “Tudo bom?” “Tudo bom!” “O senhor precisa de empregado?” “É, a gente precisa de empregado.” Ele: “Olha, meu menino tem... Vai fazer quinze anos. Ele é muito trabalhador, mas ele não sabe fazer nada”.  Meu pai sempre foi muito honesto, sempre franco. Ele falava “Eu sou o que sou, não vou mudar isso.” 

O chinês olhou e falou: “O senhor falou uma palavra muito boa.” O meu pai: “O quê?” “Trabalhador.” Ele falou: “Nós temos problema aqui com pessoas que vêm trabalhar, não passam da experiência - que são três meses - e somos obrigados a dispensar porque eles só querem comer pastel e não querem trabalhar. Começa [na] segunda-feira, a gente ensina o serviço.” Eu disse: “Está bom!” Já estava contente porque tínhamos arrumado um emprego para mim. Eu nem quis saber de salário, entendeu? Não, era um emprego. 

Existe uma diferença cultural. Eu não sei hoje, trinta anos depois, como é que está em Pernambuco, mas, na minha época - não é machismo nem discriminação, é cultura – homem não varria chão, homem não lavava prato, não é que... É cultura, quem faz isso são as mulheres. Quando eu cheguei, na segunda-feira, o chinês me chamou na cozinha e tinha uma pia sem fundo - eu não via o fundo dela - cheia de pratos para lavar. Ele: “Você pode limpar tudo.” Eu olhei para ele, me senti humilhado, sério! Eu disse para ele: “Vou ter que lavar tudo isso?” O meu pai tinha falado: “Filho, trabalhe direitinho que a gente precisa desse emprego para você ajudar seu pai.” Eu disse: “Tá bom, pai.” Então aquilo ali, para mim, foi humilhante, infelizmente. 

Na época, de princípio, foi humilhante lavar aquele monte de prato. “Lava os pratos e varre aqui, e limpe o banheiro ali...” Eu disse: “Meu Deus do céu, a que ponto nós chegamos.” Mas estava trabalhando. 

Passaram-se três meses - na época, você só podia registrar depois que trabalhasse três meses, era o sistema do governo - aí o chinês... O chinês falava todo enrolado. Eu não entendia nada que o chinês falava, o português dele era muito ruim. Ele falou: “Você pede a seu pai que venha aqui.” “Sim, senhor”. Aí o meu pai foi lá: “Tudo bom?” Ele: “Tudo bom, seu João. Nós estamos muito contentes, seu menino muito bom, ele parece uma máquina: se a gente não desliga, ele não para, muito bom. Mas tem um problema”. 

Com jeito de nordestino, o meu pai: “Qual é o problema? O que ele fez de errado?” “Não, ele não fez nada de errado. O problema é que ele não sabe fazer conta, ele não sabe somar, multiplicar. E para eu pôr ele no balcão, ele precisa somar, multiplicar, senão ele vai servir os clientes e como é que vai anotar? Eu mantenho ele na cozinha direto. Olha, a minha cozinha parece um prato, porque ele não para de limpar! Ele termina, começa de novo. Tem hora que eu tenho que falar pra ele: ‘Tá bom, você já limpou isso aí, não precisa limpar mais.’ O senhor precisa pôr ele na escola.” 

O meu pai coçou a cabeça e falou: “Meu amigo, eu tenho mais seis em casa. São pequenos. Eu os trouxe... Para o senhor ver, faz menos de três meses; eu não tenho como pôr ele numa escola e pagar, eu não tenho dinheiro para isso.” O chinês olhou: “Espera um pouquinho. Papá...” Papá é papai. “Venha cá”... e chamou o pai dele. “Cadê a mama?” “Tá lá.” “Mama...” Aí chamou e começaram: pá-pá-pá, pá-pá-pá, eu não entendia nada, e meu pai só olhando. E ele lá, rasgando o verbo... o chinês. Aí ele parou e falou: “Eu conversei com o pai, com a minha mãe. A gente veio de Hong Kong para cá, a gente também era pobre, e os nossos amigos ajudaram a gente. Os chineses ajudam uns aos outros e se há uma coisa que a gente respeita são as pessoas que trabalham. O seu menino merece respeito. Eu conversei com o pai e com a minha mãe. Nós vamos colocá-lo na escola, vamos pagar.” Olhou para mim e falou: “Você só tem que me trazer notas boas. Nada é de graça.” Eu disse: “Sim, senhor”. Ele falou: “Vou ver o colégio.” 

Eu trabalhava em Santo Amaro, a pastelaria era no Largo Treze de Maio e tinha um colégio que se chamava Colégio Manuel Bandeira. E ele falou: “Você vai lá amanhã.” Eu fui lá. 

Quando eu cheguei no colégio: “Seu Manoel, tudo bom?” “Tudo bom.” “Até que ano o senhor estudou?” Eu disse: “Terceira série.” “Quantos anos o senhor tem?” Eu disse: “Quinze.” “O senhor tem o histórico escolar?” “Não.” “Mas como...?” “Não tenho, ué!”. Ele falou: “Eu vou pedir para os professores fazerem uma avaliação do senhor.” Aí me deram lá um monte de provas, papel. Eu olhei e fiz o que sabia fazer. Os professores olharam e um deles falou: “Olha, dá para ele começar na segunda série.” Para você ver... Para quem estudou até a terceira... “Está bom!” 

Eu trabalhava das seis da manhã até às seis da tarde, entrava no colégio [às] seis e meia, saía [às] onze da noite. Eu saía do Largo 13 para o Parque Arariba, que dá quarenta minutos a pé; eu ia a pé porque não tinha dinheiro para a condução. E comecei a estudar. Nesse meio tempo, eu vi o chinês falar... Eu não entendia nada, cheguei para o patrão e falei: “Posso fazer uma pergunta para o senhor?” E ele falou: “Pode.” “O senhor me ensina a falar do seu jeito?” Ele: “Como assim?” “Ah, o que o senhor fala aí, que eu não entendo nada. Fala com a sua mãe, com o seu pai...” E ele: “Ah, você quer aprender a falar chinês?” Eu disse: “É.” “Primeiro você aprende a falar a sua língua.” 

Eu disse: “Eu não sei falar a minha língua?” Ele falou: “Sabe, mas não sabe escrever. Aprende a ler e a escrever primeiro, depois a gente conversa.” Eu disse: “Sim, senhor.” E fui estudar. 

“Terminei o ginásio, terminei a oitava série, está vendo? Passei para o primeiro colegial. Agora: “O senhor vai me ensinar chinês?” Ele olhou para mim: “Fala com a minha mãe.” Eu disse: “Como eu vou falar com ela? Eu não entendo nada do que ela diz!” Ele chegou lá e falou para ela, eu não entendi nada. Ela olhou para mim - ela me chamava de Vascelo, ela não sabia pronunciar Vasconcelos. “Vascelo, senta aí. Você quer aprender a falar chinês?” “Quero.” “Tem que fazer tudo o que eu mandar, não pode reclamar.” E eu: “Sim senhora.” “Então tá bom. [Na] hora do almoço a gente começa.” 

Chegou a hora do almoço: “Vascelo!” Pegou uma tigela cheia de amendoim torrado, dois palitinhos... Ela pegava com uma facilidade, fazia assim: pegava caroço por caroço, colocava na outra tigela. “Eu quero que você faça isso.” Eu olhei, sou canhoto, peguei os palitos, tramelou tudo, não ia. Ela: “Calma, é jeito, é assim” - me ensinou direitinho. Eu peguei, o palito quebrou e ela: “Não é força, é técnica. Vai tentando.” E eu ficava lá, mexendo os palitos. 

Uma hora depois, ela: “Vascelo, trabalhar!” “Mas eu não almocei!”. “Esse era o seu almoço! Você não consegue pegar o seu almoço, vai trabalhar!” Eu disse: “Essa chinesa vai me deixar doido!” No outro dia, a mesma coisa… E assim, sucessivamente. Eu comecei a tomar café reforçado de manhã porque eu sabia que ia ficar sem almoço e, naquela época, eu não conseguia pegar os caroços de amendoim. Quando deu uns vinte e cinco dias, mais ou menos, ela olhou para mim: “Está difícil?” Eu disse: “Muito.” Ela falou: “Vai ficar pior.” Eu disse: “Pior?” Ela falou: “É, devolve palito de madeira.” Eu devolvi e ela me deu dois de marfim. Eu podia ter trazido para vocês; eu tenho em casa esses palitos de marfim até hoje, é um tesouro para mim. Primeiro que marfim é um material maravilhoso, só que ele é liso, extremamente liso. Realmente, não dava e ela falou: “Pelo menos esse você não quebra, vai tentando.” Eu levei exatamente quarenta e oito dias para transferir esse caroço de amendoim de uma tigela para outra, um por um caroço de amendoim torrado. Pá-pá. Quando eu consegui... 

Outra coisa... Por exemplo: no dia em que eu não pegava, eu não almoçava. Nesse dia: “Olha, eu consegui tudo.” E ela: “Ah, muito bom. Faz de novo para eu ver porque não vi, estava trabalhando.” E consegui: transferi todos os caroços de amendoim de uma tigela para outra. E ela: “Ah, muito bom! Agora pode almoçar. Não precisa usar talher, você pega qualquer coisa agora.” E realmente eu fiquei apto com os palitinhos. 

Na frente, eu vou contar para vocês o resultado desses palitinhos. Eu fiz sucesso na China por causa da agilidade que eu adquiri para pegar comida com os palitinhos.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho. Essa família então tem muito importância na sua vida.

 

R – Tem, tem sim.

 

P/1 – Eu queria que o senhor contasse o nome deles e descrevesse como é que era essa pastelaria.

 

R – Está bem.

 

P/1 – Como ela era.

 

R – O nome deles é... Vou te falar o principal que eu sei, porque chinês é difícil pronunciar os nomes. O patrão, o dono, ele chamava Li Chao Fan, inclusive o nome da minha filha é Li por causa desse chinês, eu falei para ele... Na frente, eu vou contar para vocês. Eu falei: “Se eu tiver um filho ou uma filha, vai ter o seu nome.” E, realmente, eu cumpri a minha parte, por isso, a minha filha - a primeira - chama-se Li Zhao Fung. O nome dele era Li Chao Fan, tem o irmão que chamava Thomas. O nome da mãe e o nome do pai eu não sei; e mais duas irmãs que eu também não sei.

 

P/1 – Eles eram de Hong Kong.

 

R – De Hong Kong. Era uma família de dois filhos e duas filhas. O chinês é assim: se ele confia em você, ele confia: você passa a fazer parte da família dele. Só que tem uma coisa: não traia a confiança dele, porque ele não é que nem nós brasileiros, nós somos muito... Como fala?… A gente dá muitas segundas chances. “Ah, esquece!” Não, chinês não tem isso de segunda chance. O chinês diz o seguinte: “Você pensa bastante para falar; quando você falar, não volte atrás.” Você tem que ter palavra, tem que saber o que está dizendo; não pode ser volúvel de fala. “Ah, não era isso.” Não tem isso, você tem que ter consciência do que está fazendo. 

Eu fui almoçar tranquilo: “Acabou o sofrimento, graças a Deus!” E eu queria saber: “Agora a senhora vai me ensinar chinês?” “Ah, tá bom, tá bom. Repete comigo: Pudidau.” E eu: “Hã?” Ela: “Pudidau.” “Não, devagar, eu não entendi nada.” Ela: “Pudidau.” E aí eu: “Pudidau.” Ela: “Não, não é pudidau, é pudidau.” Eu disse: “Mas eu estou falando certo: pudidau. Ela falou: “Você está falando pudidau. Não é pudidau, é pudidau. Vai repetindo.” Eu chegava de manhã: “Como é que era a palavra?” “Pudidau.” “Está errado.”

 

P/1 – O que é ‘pudidau’?

 

R – Calma que eu te conto, está mais agoniado do que eu. 

Um dia, eu cheguei de manhã e ela: “Como era a palavra?” “Pudidau.” “Muito bom.” Eu disse: “Um milagre! Pudidau”. Ela fala: “Isso.” “Diz o que é pudidau.” Ela olhou para mim e: “Não sei!” Aí eu disse: “Ai meu deus do céu, eu vou ficar louco aqui!” O filho dela chegou, bateu nas minhas costas, deu risada e falou: “Bu zhidao significa ‘não sei’”. Quer dizer, ela respondeu certo - “não sei” - mas eu não sabia. Inclusive, é a única palavra que eu falo em chinês, que a minha filha, a minha esposa falam, e não tem sotaque, é perfeita, de tanto que eu repetia. 

Para você ver, eles são inteligentes, eles fazem as coisas... Eles não perdem nada. Tudo o que eles fazem... Eles me ensinaram isso, falaram: “Você tem que aprender uma coisa na vida: tudo é uma troca, não existe nada de graça, tudo tem um preço. A gente te ensina, você aprende, mas tem que dar retorno para a gente.” Então, o primeiro retorno… 

O que eles começaram a me ensinar? Por exemplo, numa pastelaria entra muita gente, certo? E às vezes entram pessoas... Como eles lidam naquele ramo, eles já sabem aquele tipo de cliente que quer entrar, comer e dar um jeito de sair sem pagar, eles já sentem como é isso. Eles começaram a me ensinar esse tipo de frase. Ele falou: “Quando chegar alguém aqui que a gente achar que é suspeito, a gente vai falar, em chinês, para você ficar atento; eles não vão entender, não vão perceber.” 

Começou assim e foi indo, mas o chinês é muito difícil. Por quê? Porque são mais de trezentos dialetos. Eu conheci uma família... Essa família, eles eram cantoneses, então eles falavam cantonês. Atrapalhou a minha cabeça inteira, por quê? Porque eu aprendi um pouco de cantonês, depois tive que aprender mandarim. Volta e meia eu falo e não sei o que estou falando. É verdade! Porque eu confundo. Alguém pergunta: como que é mandarim e Cantonês? É simples, é igual português e espanhol - ou seja, se você fala espanhol eu entendo algumas coisas, não tudo. A mesma coisa se eu estou falando português. É a mesma coisa, o mandarim e o português. Tem coisas do mandarim que você entende e tem coisas que você não entende, é mais ou menos nesse sentido. 

Pastelaria... vamos lá. Eu terminei o ginásio, terminei o colégio, o tempo foi passando...

 

P/1 – São quantos anos?

 

R – Dez anos nessa pastelaria.

 

P/1 – Dez anos.

 

R – É, que eu passei. Eles começaram a me ensinar tudo - eu aprendi a fazer massa de macarrão, aprendi a fazer massa de pastel, fazer pastel, coxinha, quibe, esfiha, tudo o que tinha eu aprendia a fazer. Chega um dia, o chinês falou: “Eu vou casar, vou montar outro negócio e você vai tomar conta disso aqui.” Então, eu passei a gerenciar a pastelaria. Ficamos só eu, o pai dele e a mãe dele.

 

P/1 – Onde era a pastelaria?

 

R – Alameda Santo Amaro, [no] Largo 13 de Maio, aqui em São Paulo.

 

P/1 – Ainda tem até hoje?

 

R – Não, não existe mais.

 

P/1 – Era grande, pequena, como era?

 

R – Era uma pastelaria grande, mas só vendia coisas de chinês, só comida chinesa. Tanto é que eu aprendi... Eles me ensinaram a fazer tudo. Eu que fiz a comida do casamento dele, o preparatório foi todo eu quem fez.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É, porque eles me ensinaram a mexer com tudo. 

Nessa pastelaria, nesse tempo em que eu estava trabalhando, uma coisa interessante. Quando o meu pai saiu de Pernambuco e veio para cá, eu arrumei um monte de pai. Todo mundo: “Cala a boca, senão apanha!” Era pequeno, então todo mundo queria bater. Na minha cabeça aquilo não foi legal, eu fiquei... Sabe quando você fica desnorteado? 

Quando eu cheguei aqui, uma das coisas que eu queria era aprender a lutar. Eu disse: “Eu quero aprender a lutar, porque se alguém me bater vai levar também.” Esse era o sentido. Falei com esse chinês. Lá em Bezerros, a gente não sabia o que era kung fu, você só sabia o que era karatê. Eu não sei se é ironia do destino... Você vê, na época eu não aprendia; eu comecei a aprender karatê hoje, trinta anos depois... Fazer o quê? 

Eu falei com o chinês que queria aprender a lutar, e ele: “Ah, tem um amigo meu, mestre de kung fu...” Eu disse: “O que é isso?” Ele falou: “É luta!” E eu: “Ah, legal.” Ele me levou na Liberdade. Eu fui lá, assisti a aula. Nossa... Achei fantástico! “Eu quero começar. Vou falar para o meu pai.” 

Meu pai: “Não, não quero você metido com briga.” Eu já estava com quase dezoito anos, mais ou menos, [tinha] dezesseis para dezessete. Eu disse: “Mas eu quero aprender a lutar. Eu vou treinar escondido do meu pai.” Então, eu trabalhava na pastelaria, trabalhava domingo sim, domingo não - eu tinha uma folga por domingo - falei com o patrão e disse: “Olha, o senhor vai dizer que eu preciso trabalhar todo domingo agora.” “Mas por quê?” “Porque eu quero treinar.” E eu: “Pai, eu vou trabalhar todo domingo.”

Veja bem, já quase com dezoito anos, mas sempre respeitei muito meu pai, era o que ele determinava. Eu falava que ia trabalhar no domingo. É uma mentira que eu contei para ele antes dele morrer, ele pelo menos não me condenou por isso. Então, eu ia treinar escondido. Outra coisa: como eu recebia o salário e dava para ele, eu não tinha como tirar dinheiro para pagar a academia. As minhas irmãs recebiam uma mesada, um pouquinho. Elas me davam - as minhas irmãs sabiam - para eu treinar escondido; eu treinava uma vez por semana. Só que aí, quando fiz dezoito anos, tive que falar para ele. Falei, e o mais interessante: eu larguei tudo na pastelaria, falei com o patrão. Eu disse: “Eu vou sair de tudo isso aqui, vou morar na academia.” Coisa de maluco, não fazia sentido. Eu larguei tudo porque assistia muito a filmes, e filme realmente mexe com a sua cabeça...

 

P/1 – Que filme?

 

R – De kung fu, essas coisas. Eu via os monges nos templos e dizia: “Não, eu quero treinar.” 

Fui morar na academia. Na academia eu só ganhava a alimentação, eu tinha que fazer limpeza e eles começaram a me ensinar, a dar aula. Em 1982, quando fiz dezoito anos, fui campeão brasileiro pela primeira vez. E o mais interessante: eu era iniciante, tinha dois anos e pouco de treinamento; fui lutar com um cara que era... Tinha mais de seis anos de academia, um japonês. O cara era muito bom. Eu era canhoto, ele era canhoto, éramos dois canhotos. Aí eu fui campeão brasileiro pela primeira vez.

 

P/1 – Vamos contar um pouquinho mais devagar isso. Você viu os filmes, começou a se animar com essa coisa, mas trabalhava na pastelaria e estudava à noite.

 

R – É.

 

P/1 – Aí você resolveu romper. Pediu demissão da pastelaria...

 

R – Para ir viver só na academia.

 

P/1 – E onde era essa academia?

 

R – Na Avenida Cupecê, [em] Cidade Ademar. Primeiro eu comecei na Liberdade, na [Rua] Conselheiro Furtado. Depois eu passei para outra academia, que era do mesmo mestre - era um chinês - e fui treinar lá. 

A arte marcial... Sabe quando você se encanta com aquilo? Eu achei fantástico: “Isso é o que eu quero fazer.” E uma coisa interessante: eu fui me desenvolvendo bem naquilo e fui crescendo, crescendo. Em 1991 eu era campeão brasileiro e...

 

P/1 – Calma, você está muito rápido.

 

R – Muito rápido? Não contei nem um quarto ainda!

 

P/1 – Não, mas esse começo é muito importante entender porque é uma guinada na sua vida, não é verdade?

 

R – Com certeza!

 

P/1 – Qual foi a sua primeira arte marcial?

 

R – Kung fu.

 

P/1 – Então eu queria que você contasse um pouquinho o que é - não precisa alongar muito, não. O que é o kung fu e como é que foi a sua rotina para tão rápido assim você se tornar campeão?

 

R – Tá, eu vou explicar. 

Muita gente no Brasil, até hoje, não sabe o que é kung fu. Kung fu é uma palavra cantonesa, que significa trabalho. Por que isso? É simples! Os primeiros imigrantes chineses que imigraram para a América tinham muitos problemas, eles eram muito oprimidos. Para se defenderem, eles lutavam e lutavam muito bem. Os ocidentais queriam saber o que era aquilo e eles não sabiam o que dizer, falavam que era kung fu. 

Por que eles falavam que era kung fu? Porque para aprender kung fu significa que você tem que trabalhar muito, é uma conquista que leva tempo, é uma vida. Por exemplo, [em] qualquer outra arte você se forma em dez, vinte anos, tudo bem. O kung fu é a vida inteira, você nunca vai parar de aprender, é uma filosofia. Leva anos para você aprender isso. Eles costumam dizer o seguinte: quanto mais você sabe, menos você sabe. Eu falei: “Não entendi.” E ele falou: “É melhor não entender.” É bem complicado. 

Que mais? Diga...

 

P/1 – Queria que você falasse como é que conseguiu esse título.

 

R – Como eu lhe falei, aquele negócio de que eu queria aprender a lutar de qualquer jeito... [Pra] tudo você tem que ter um talento, tem que ter um dom. 

Eu sou canhoto. Isso foi interessante, porque em 1986, voltando um pouquinho, eu estava disputando um torneio interno. Tinha um pessoal assistindo e aí eu ganhei. Quando terminou o torneio, o meu mestre chegou para mim e falou “Está vendo aquele japonês lá no fundo?” “Estou.” “Ele é meu amigo, ele é mestre de judô. Você vai segunda-feira na academia dele conversar.” Eu disse: “Mas por que, mestre?” Ele falou: “Porque eu estou mandando.” Eu disse: “Sim, senhor.” 

Na segunda-feira eu fui lá na academia do homem. Cheguei lá, o japonês: “Você é aluno de meu amigo, é? É o seguinte: você é muito bom em morotenagi.” Eu disse: “O que é isso?” E ele falou: “Você pega muito bem nas pernas e derruba muito rápido; eu vou treinar em você isso.” Foi lá no balcão, pegou um quimono: “Vai vestir quimono.” E eu pensei: “Pô, estão me mandando fazer as coisas sem eu querer, mas como o mestre mandou, eu vou lá.” 

Foi quando eu comecei o judô. E ele realmente me treinou a técnica morotenagi, que é pegar nas pernas e puxar. Por que isso? Porque no kung fu... O kung fu é uma luta muito completa: vale chute, soco, queda e mobilização, é quase um vale-tudo. Como eu era muito bom na queda, eu aperfeiçoei isso no judô e fui crescendo no kung fu, fui indo... Campeão, fui indo. 

Em 1991 ia ter um Mundialito na China, então a federação anunciou os cinco melhores: os cinco brasileiros, campeões de suas categorias, vão para a China. Eu estava crescendo, era o campeão. Disputei um [Campeonato] Paulista; no Paulista, fiz uma projeção no adversário e torci o pé, aí não pude continuar a luta. O médico parou e eu fui vice-campeão paulista. Disputava o Brasileiro - o vice e o campeão. Eu fiquei quinze dias com o pé engessado, o médico falou: “Não pode tirar o gesso.” Eu tirei o gesso escondido e fui lutar porque já era data do campeonato e, se passasse, eu não ia. 

Subi em cima do ringue devagar, os caras falaram: “Por que é que ele está tão lento?” “Ele é assim mesmo, deixa começar a lutar para ver.” O médico me orientou: eu só podia socar, derrubar; nada de chutar, porque o pé estava inchado. O cara que foi campeão paulista não foi campeão e eu fui campeão brasileiro com o pé inchado. O presidente da Federação falou: “Categoria peso-pena...” - que era a minha, 56 quilos - “Manoel, classificado para a China!” Nossa, fiquei muito feliz! 

Só que aí chegou um empecilho. Ele falou o seguinte: “A Federação não tem dinheiro para mandar todo esse pessoal, então cada um tem que bancar.” De que jeito? Como eu ia me bancar, ir para a China? Não tinha como... Era muito caro! Sabe quando você levanta e sai? “Manoel, porque você está indo embora?” “O que eu vou ficar fazendo aqui? O senhor falou que quem quer ir tem que bancar, eu não tenho condições para isso...”. E ele: “Espera um pouquinho, vou conversar com você depois.” Ele era dono de empresa e falou: “Olha, eu não patrocino ninguém, eu não banco ninguém, mas tem coisas que não dá para deixar passar. Você é muito esforçado, eu vi como você ganhou esse campeonato, não é para qualquer um. Treina e deixa a passagem comigo, deixa comigo.” Eu disse: “Eu não acredito!” Aí estava decidido: eu iria para a China, Pequim.

 

P/1 – Isso em que ano?

 

R – Em 1991.

 

P/1 – 1991 você já tinha...?

 

R – Ah, rapaz, eu nem me lembro. Vinte e cinco para vinte e seis anos.

 

P/1 – Vinte e seis para vinte e sete.

 

R – É, por aí.

 

P/1 – Então nós vamos dar uma congelada nisso porque você pulou muito; nós vamos voltar.

 

R – Eu pulei muito?

 

P/1 – Nossa senhora! Trabalhando, treinando, ter conseguido o título, e a reação que você teve com os seus colegas... Isso é legal. Vou lhe perguntar isso e vou perguntar sobre o seu mestre, porque você tem uma relação grande com ele, não é isso?

 

R – Tenho. 

 

P/1 – E aí você vai falar o nome dele e um pouquinho... Para a gente poder valorizar mais ainda isso tudo. Porque tudo foi com muito esforço, muito sacrifício.

 

R – Isso. Faz o filme que eu quero trinta por cento.

 

P/1 – Não, você vai fazer o mexicano.

 

R – O mexicano.

 

P/1 – Eu que vou pedir trinta por cento. OK, então antes da gente chegar na sua ida à China, eu queria que você contasse um pouquinho como você pediu essa demissão, como foi a reação da família que lhe acolheu lá. Isso foi tranquilo, como foi isso?

 

R – A família que eu conheci, como te falei, eram duas filhas, dois filhos, o pai e a mãe. O pai voltou para o Canadá, porque ele tinha outra filha lá - o pai e a mãe. Ficou o filho mais velho, que casou; enfim, casaram-se todos. 

Cada um montou uma pastelaria - é o normal deles. Cada um montou uma pastelaria. Essa em que eu trabalhava, eu continuei nela. O dono era o filho mais velho, aí chegou... Parece que foi uma coisa que deu certo: eu queria sair da pastelaria, ele queria mudar e falou que ia fechar a pastelaria, ia encerrar aquilo ali. Mas eles ainda voltam muito em cena porque eles me ajudaram muito, eles tinham muita... Acontece que os chineses aqui se conhecem entre si, é uma comunidade em que todo mundo sabe quem é todo mundo, como se fosse aquele bairro que todo mundo sabe quem é o primeiro morador e o último. Os chineses são assim, eles se conhecem e são muito unidos nisso. 

Eu queria porque queria me aperfeiçoar no treinamento, porque eu estava treinando muito pouco e estava indo bem. Aprendi a lutar, comecei a aprender a lutar, então eu queria morar dentro da academia para desenvolver os meus treinamentos. Não que eu quisesse ser um monge, mas eu queria ser um bom lutador e isso sempre... Eu sempre pensei o seguinte: você não tem que ser bom, você tem que ser o melhor. E isso não é fácil, é muito difícil. Quando eu falei para o meu pai e para a minha mãe que eu ia morar na academia, realmente eles não me entenderam, não gostaram, mas... “Bem, se é o que você quer fazer, vai fazer isso aí.” 

Foi uma fase em que a minha vida ficou restringida à academia. Eu vivia na academia, dormia e acordava na academia. Aquilo ali... Realmente, eu me aperfeiçoei muito. Primeiro, você tem que aprender como dar aula. Eu fui aprendendo, fui treinando, então eu era aquele tipo de lutador que vivia para a luta. Eu esqueci o mundo lá fora e me dediquei às lutas, a lutar. 

Eu fui campeão nos anos seguintes, continuei sendo campeão. Só em 1990 é que eu não fui campeão, em 1990 eu perdi - perdi por nocaute. Tomei um chute no maxilar e acordei no vestiário, sentado. Olhei: “Tudo bom, mulher?” “Tudo bem.” Aí eu disse: “Como é que eu vim para cá?” “Veio andando.” Na minha memória não tem registrado que eu vim andando, mas eles disseram que eu levantei e vim andando... Não me lembro, realmente a pancada foi muito forte. O meu irmão - um dos meus irmãos - treinava comigo, parece uma coisa do destino. Eu lutei com o cara que era professor do lutador com o qual meu irmão lutou. Eu perdi, o meu irmão ganhou… O meu irmão foi campeão brasileiro.

 

P/1 – Qual irmão?

 

R – O Brás. Mas só foi campeão uma vez e parou, não quis mais mexer com isso, largou. Hoje é administrador de empresas. [Os outros irmãos] seguiram outros rumos, só ele que veio um pouquinho do meu lado.

 

P/1 – Seu Manoel, para a gente reconstruir, para nós que não conhecemos o mundo das artes marciais, tudo meio que se embaralha. Primeiro você começa com o kung fu...

 

R – Depois do judô.

 

P/1 – Depois do judô.

 

R – Isso. Aí vem o seguinte: você vai descobrindo as coisas aos poucos. O kung fu é completo, mas não é uma coisa na qual você se especializa. 

Eu via luta de boxe... Os caras boxeavam muito bem, eu não sei socar assim. Aí, eu conversei com o meu mestre, perguntei a ele sobre as artes marciais. Ele chegou para mim e falou: “Manoel, existem várias artes marciais. Se você quiser ser bom de queda, você tem que treinar judô; se quer ser bom de chute, tem que treinar tae kwon do; quer ser bom de mão, tem que treinar boxe, e por aí vai. Eu não lhe proíbo de fazer nada, você faz o que achar que deve fazer, isso vai enriquecendo o seu currículo como lutador.” Então, depois do judô, veio o kickboxing que, na época, chamava-se full-contact. Surgiu no Brasil e eu me engajei nisso aí. E fui indo. 

Como eu praticava o kung fu... O kung fu é um esporte muito de base, você aprende realmente a base, o início. Como eu tinha aquela base, as outras artes marciais se transformaram em secundárias, ou seja, era fácil aprender. [Pra] você treinar qualquer arte marcial leva de três a quatro anos para formar na faixa preta, é a média. É uma faculdade. Kickboxing eu treinei dois anos e me formei na faixa preta.

Por ironia do destino, o judô, que eu comecei... Aquele... Eu devo formar na faixa preta no ano que vem, porque eu dei uma parada. Parei muito, fui mexer com outras coisas. No kickboxing, que eu me formei na faixa preta, eu fui vice-campeão brasileiro amador, vice-campeão brasileiro profissional de kickboxing. Depois do kickboxing eu fui treinar na Pirelli... Boxe. Uns... Servílio de Oliveira é um nome que...

 

P/1 – Servílio de Oliveira.

 

R – Está vendo? É o único medalha olímpica que nós temos até hoje no boxe; ele foi medalha de bronze em 1968, no México. Um senhor de cor, desse tamaninho. 

Fui treinar na Pirelli, em Santo André, boxe. Fui pugilista amador, não ganhei nem um título, mas lutei pra caramba... Muito difícil. Depois do kickboxing eu fui treinar tae kwon do. 

Tae kwon do é uma história muito interessante, pelo seguinte: eu treinei um mês. O mestre, em coreano, chama sanoni. O sanoni falou: “Você vai fazer exame.” E eu: “Legal!” O exame foi no Center Norte. Na época, o San Min Shou, o cara que trouxe o tae kwon do para o Brasil, veio para uma comemoração. Eu estou lá, fiz uns movimentos - [tinha] um monte de alunos, aí veio um faixa preta, chegou e falou: “O sanoni quer falar com você lá na frente.” Eu me levantei, cheguei lá e todos estavam sentados; e eu de pé. Ele: “O sanoni quer que você faça os conselhos de novo.” Eu imaginei: “Pô, devo ter feito muito mal.” 

Fiz tudo de novo. Daí eu vi o gran mestre lá. Bati no ombro dele. “Ah, tá bom, pode se sentar”. 

Tae kwon do funciona assim: no Brasil, todo mundo que chega aqui adota uma coisa chamada jeitinho brasileiro. Sempre tem isso. Se você faz um exame e é muito ruim, eles lhe dão uma faixa de ponta amarela, que é um prêmio de consolação para você não ficar triste. Se você fizer direitinho, eles dão a amarela direto; e se você for bom, eles dão a ponta verde. 

Quando eu cheguei na academia, estava lá: “Manoel, faixa verde!” E eu disse: “Hã?” Quatro faixas direto! “Não é possível!” Ninguém acreditou no mestre, nunca ninguém pegou a faixa verde direto. Resumindo: fui treinando e todo mês fazia exame, todo mês passava. Oito meses de treinamento, faixa vermelha e ponta preta, ou seja, pronto para fazer exame do tae kwon do. Com oito meses eu me formei em faixa preta do tae kwon do.

 

P/1 – Caramba!

 

R – Isso são coisas que o mundo não sabe, ninguém sabe. O meu mestre falou para mim: “Não existe ninguém que se forma em faixa preta em oito meses, mas você já fez tudo o que foi pedido e conseguiu.”

 

P/1 – E o seu mestre?

 

R – Qual deles?

 

P/1 – O primeiro. Fala um pouquinho dele.

 

R – O primeiro. O meu primeiro mestre dá aula até hoje, a maioria já é mestre e vive disso. Ele é chinês, nascido em... Quando chegou ao Brasil ele era britânico, porque nasceu em Hong Kong. Hoje, ele fala muito bem o português. 

Foi um segundo pai para mim, porque eu penso o seguinte: eu aprendi, desde pequeno, que você tem que aprender a respeitar as pessoas que lhe ensinam alguma coisa que é boa, que é útil para você. Aprenda isso e imagine como se fosse seu pai, porque o seu pai só quer o bem para você. Nós estamos falando de pai e de pessoas normais; não é o que acontece, às vezes, por aí. Então, para mim, é um segundo pai porque ele me ensinou o que é certo, me ensinou a ser justo e a ser humilde; tem que ser humilde. 

Muitos dos meus colegas dizem que o que eu conquistei foi graças à humildade, que você cumprimentar o adversário, respeitar o adversário... Por mais fraco que ele seja, trate-o com respeito. A arte marcial tem muito disso. Esse meu mestre me ensinou muito isso, ele segue muito... A disciplina chinesa é fantástica! Isso me serviu para educar minhas filhas. Ou seja, se eu não fosse um lutador de artes marciais, não seria o que sou hoje. 

Pela forma como eu vivia... Você vive numa terra em que as pessoas... Não é que são ignorantes,  elas são... Ignorantes, no sentido de não conhecer as coisas. Então, acham que tudo se resolve no grito: eu falo mais alto que você e acabou. Você vai lidar com o povo oriental, um povo que é calmo, tranquilo… Não existe pressa para eles. Eles falam que tudo tem o seu tempo e a sua hora. Isso muda muito na sua cabeça. 

O que você quer saber mais? Fala!

 

P/1 – O nome do mestre.

 

R – O nome do mestre: Li Wing Kay.

 

P/1 – E você então tem uma relação com ele até hoje.

 

R – Tenho, tenho. É meu mestre. Ele é muito famoso, muito conhecido. No Brasil é um dos divulgadores do kung fu. No Brasil, nós temos três mestres que divulgam bem o kung fu: mestre Li Wing Kay, mestre Jun Kaway - a academia dele é aqui na [Rua] João Moura - e mestre... Como é o nome dele? Meu Deus do céu! Mestre Lope, que é em São Caetano. 

São três mestres que divulgam, há mais de trinta anos, as artes marciais do kung fu. Uma coisa que as pessoas perguntam, e me perguntaram muito quando eu estava lutando: “Escuta, você não confunde não? Você vai subir lá, lutar judô. Judô só pode derrubar, você não dá um chute no cara!” “Não, não dou.” Vou te dar um exemplo: tae kwon do é só perna, setenta por cento é só perna. Mão é só no tronco, você não pode socar no rosto. [Perguntam:] “Você não mistura, não?” “Eu nunca misturei.” Então eles falaram: “Realmente, você divide bem.” Ou seja, se eu subir num ringue de boxe, é boxe que eu vou lutar; se eu subir num tatame de judô, é judô que eu vou fazer. Eu sempre defini bem isso. 

Nesse tempo todo, nesses anos todos, eu [me] formei na [faixa] preta de kung fu, quarto dan; preta de kickboxing, terceiro dan; preta de tae kwon do, primeiro dan. 

Aí surgiu no Brasil o muay thai, o boxe tailandês, que é uma luta extremamente violenta. Olha, eu não aconselho... Não é para qualquer um, é verdade. Se você não for macho mesmo esquece, porque você vai apanhar. Bate muito.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Eu disse: “Eu quero fazer isso aí.” Veja bem, eu sou de estatura pequena.

 

P/1 – Qual é a sua altura?

 

R – Eu tenho um metro e sessenta e quatro e meio. Eu prestei exame para a polícia várias vezes e fui barrado lá no Barro Branco por causa da altura. Eles não perdoam: é um e sessenta e cinco. E eu não tive padrinho, infelizmente; não entrei por causa disso. 

Não é que eu fosse um insatisfeito, eu queria ter conhecimento das artes marciais. Eu dizia: “Quero ser o melhor, então vou treinar tudo isso.” Alguns alunos meus falaram: “Professor, o senhor foi campeão na época errada.” Porque, realmente, na década de 90 eu ganhei tudo o que tinha que ganhar, menos dinheiro. Hoje, na época de hoje, eu estaria rico com certeza, hoje dá dinheiro... É diferente, entendeu? Então... Aí eu comecei o muay thai. Muay thai também foi impressionante: um ano, faixa preta.

 

P/1 – Um ano?

 

R – É. [Perguntam:] “Pô, como é que você consegue?” E eu falo: “Tentando.” Quando foi no... Tem muita coisa, vou te dizendo a parte das artes marciais para resumir. No ano de 2000 eu sofri um acidente de moto, bati atrás de um carro a oitenta por hora, na [Avenida] Alcântara Machado. Era uma e meia da manhã e eu dormi na moto. Trabalhava muito. 

Olha, eu tinha uma luta que era o seguinte: eu trabalhava... Depois que eu larguei a pastelaria eu comecei a trabalhar em vários serviços. Eu trabalhei no J’s Hambúrguer, que é uma lanchonete que não existe mais, foi uma das minhas patrocinadoras; trabalhei na Folha de São Paulo como distribuidor de jornal; enfim, eu fazia bico de tudo quanto é lado, dava aula e ainda treinava. Era uma correria terrível. Fui campeão brasileiro de muay thai duas vezes, aprendi a técnica do muay thai perfeito! 

Quando eu sofri esse acidente - caí da moto - então o pessoal: “Calma, fica tranquilo.” Não senti nada. Estou no hospital, quando eu olho... O pé está lá em cima, com um gesso desse tamanho. Eu não entendi nada. O médico veio, o pessoal falou: “É o seguinte: o senhor teve uma fratura exposta no maléolo.” O maléolo é essa rótula aqui. Tanto é [que] isso aqui tem três parafusos. Veio um desânimo grande na minha vida, porque falaram: “Esquece artes marciais; para você, acabou.” Eu fiquei um ano andando de muleta. Pela técnica da arte marcial, você aprende a se virar, então subir escada... Rapaz, eu subia escada com muleta. “Assim não dá.” “Então, como é que você consegue?” “É treino, meu filho, é prática. Tudo para mim é um treinamento.” 

Realmente, eu... Sabe quando você desanda um pouco? Eu acho que até pulei, viu? Contei demais e falta a época dos títulos.

 

P/1 – Mas a gente volta, não tem problema.

R – É, a gente volta. Vamos voltar, depois a gente continua aqui depois do acidente.

 

P/1 – Não, continua do acidente da moto.

 

R – Porque aqui já vai chegar onde eu estou.

 

P/1 – Ótimo! Depois a gente volta.

 

R – Então está bom.

 

P/1 – Quando você teve o acidente, falaram: “Olha, não vai mais poder lutar”...

 

R – Isso. Aquilo, psicologicamente, acabou comigo. 

Parecem coisas interessantes. Eu sempre estudei, fiz Direito, mas acho que deveria fazer História, porque adoro coisas que falam de épocas que não foram as nossas - as minhas, nem as suas - mas existiram, não foi... Como é que fala? [Ficção] científica, aquelas coisas que inventam. Não, foi uma coisa real, que existiu. 

Eu sempre procurei ver essas coisas e estudei muito sobre a fênix. Tem a história de que destruíram uma ilha com bombas, destruiu tudo. Só que ela [se] camuflou debaixo das folhas das árvores, das cinzas, e quando aquilo tudo passou, ela ressurgiu. Os japoneses gostam de pensar assim, então eu costumo dizer que a fênix ressurge das cinzas e você vai somando isso. Eu sempre aprendi o seguinte: nas artes marciais você nunca pode desistir, não existe esse negócio de ‘não posso’ e ‘não consigo’; não existe ‘não consigo’, ‘existe vou tentar’. Se não deu é porque não tinha de ser, mas você tem aquela convicção de dizer: “Eu tentei, eu fui à luta.” 

Eu fiquei mais ou menos dez anos parado; sabe quando você desanima, esquece? De cinquenta e seis quilos eu passei a oitenta. Engordei, virei um porco, em português bem claro. E sabe quando você está desanimado? 

Um certo dia, subi a Teodoro Sampaio, trânsito... Parei, olhando as lojas. Tinha uma televisão lá... Luta. Tudo o que tem a ver com luta eu estou olhando, estou olhando lá. Aí estava escrito kyokushin. Kyokushin é karatê Oyama. É bom eu falar o que é isso aí para vocês saberem as origens. Esse Oyama é interessante: ele é coreano, foi para o Japão aos nove anos de idade fazer judô, se formou. Aos vinte e dois anos era faixa preta, segundo dan; ele começou correr o mundo e juntar com as pessoas. Há uma diferença entre esse [mestre], que se chama Masutatsu Oyama, e outros lutadores. O senhor sabe o que é eu e o senhor subir no ringue, a gente lutar de homem para homem? Ele achou que era pouco. Sabe o que ele fez? Ele começou a entrar numa arena para lutar com touros! E o histórico dele é fantástico: ele lutou contra cinquenta e dois touros, matou três. Ele arrancava o chifre, o touro vinha, e sabe o que ele fazia...?

 

P/1 – Com a mão?

 

R – É. Ele parava o touro. E isso era o que eu queria fazer há trinta anos atrás: karatê kyokushin, que é o karatê mais respeitado - não desfazendo dos outros, mas é um karatê muito respeitado. Aí eu estou olhando a televisão [e vejo]: karatê kyokushin. 

Surgiu uma vaga na fila e eu não sei por quê - tem coisas na vida da gente que você procura uma explicação, mas não tem - eu encostei o carro, subi lá. Como eu fui muito conhecido na década de 90, eu cheguei lá [e perguntei]: “Quem é o professor?” “Sou eu, o senhor me conhece?” “Não.” Eu disse: “Legal.” “Ah, ninguém me conhecia mesmo. Eu queria fazer karatê.” “Tá bom!”

Comecei a fazer karatê. Meu amigo, foi um tormento! Gordo demais, fora de forma, não conseguia fazer nada direito, meu Deus do céu! Mas fui tentando. Passava dois, três dias, todo quebrado, dolorido. 

Para você ver, [eu tinha] cinco faixas pretas nas costas, voltei ao zero de novo. Isso aqui foi domingo passado, campeonato paulista. Ou seja, se você nasce para ser marceneiro, você vai ser marceneiro, não tem jeito. Foi campeonato paulista.

Detalhe: desde o início, por que eu não quis fazer karatê? Porque é um estilo de luta que não tem limite de peso. Luto eu com você. “Ah, o cara tem cem quilos.” Problema seu que não tem cem quilos! Então eu nunca entrei no karatê por causa disso, eu tinha medo. Eu digo, “Pô, eu não consigo lutar com um cara de cem quilos, pelo amor de Deus!” Os chutes têm muitos nomes, então, quando eu voltei, realmente eu voltei entrevado. A abertura... Eu tinha uma abertura fantástica, mas a abertura fechou, os movimentos ficaram lentos e sabe quando... 

Voltei realmente como iniciante e, como ninguém me conhecia, eu disse: “Está perfeito!” Só que aí não tem jeito, não adianta você se esconder. Segunda-feira passada, fazendo luta, eu dei um giratório num faixa preta - eu sou amarela, estou começando. Em todos os exames que fiz eu passei. Em quinze dias eu fiz um exame ali e já passei... E estou indo. Eu dei um giratório num faixa preta que o jogou no chão. Eles são rígidos. O mestre olhou: “Senta todo mundo. Você não tem espírito faixa preta; ele é amarela, você toma um nocaute; segunda-feira você vem treinar com faixa marrom.” 

 

P/1 – Rebaixou o cara!

 

R – Eu fiquei triste pelo cara. Sério, eu não queria aquilo, não. Eu disse: “Meu deus do céu!” “E você, três meses sem lutar!” “Por quê?” “Porque só tem quinze anos!”. Ou seja, o fato de ser adolescente, falaram que... Lógico, eu concordo, você tem que ter o bom senso. Mas vamos raciocinar, vai? Eu sou amarela, tudo bem, ele não sabe das outras coisas que eu fazia, eu tenho um chute muito... Eles já estão chamando de... Chama saero geri, saero geri mortal; se pega, derruba. Eu tenho o telefone, eu vou mostrar para você, no domingo, o saero geri que eu dei no cara e o joguei longe. Ele fala “Como é que pode?” 

Eu estou, por enquanto, três meses sem competir, sem lutar, é o castigo. E o outro voltou para a faixa marrom. Mas o meu objetivo agora é terminar essa faixa preta de kyokushin, que não é luta para qualquer um, terminar a de judô no ano que vem e a de jiu-jitsu. Eu tenho cinco; se eu conseguir essas três, já são oito faixas pretas.

 

P/1 – E o pé, já está normal?

 

R – Está. O pé melhorou, mas é o seguinte: o médico, quando cuidou do meu pé, o ortopedista… É impressionante, viu? Às vezes eu admiro o pessoal, como eles conhecem. Eles fizeram a cirurgia e falaram “Seu Manoel, o senhor é atleta.” “Isso.” “Dá para perceber pelo seu corpo, os seus ossos.” Eu disse: “Ô loco!” Ele falou: “O senhor vai se recuperar rápido por causa do tanto de esporte que o senhor fez. O senhor não é uma pessoa comum, que não sabe nada. O senhor tem uma tendência a essas coisas, então isso vai ser fácil pro senhor.” Demorou um tempinho e, realmente, eu me recuperei. O pé hoje não tem problema nenhum.

 

P/1 – Que beleza!

 

R – É. Graças a Deus.

 

P/1 – Mas vem cá, você disse que com as oito faixas dá para entrar no Guinness? Como é isso?

 

R – Eu espero, porque não acredito que alguém mais tenha oito faixas pretas. Se você conhece, me apresenta porque eu quero conversar com esse cara. Ele tem um conhecimento imenso em arte marcial. 

Eu duvido, acho meio difícil. Porque eu já verifiquei, o meu mestre é faixa preta de kung fu, faixa preta de tae kwon do, faixa preta de karatê e faixa preta de judô; ele tem quatro, é o mais graduado que eu conheço. Eu já fiz uma pesquisa, você consegue encontrar alguns professores que tenham duas ou três faixas pretas. Quatro já é difícil, cinco então... Eu quero ver se consigo as oito, se Deus quiser.

 

P/1 – E aí vai se candidatar.

 

R – É, pretendo, porque acho que... Agora quero voltar aos campeonatos.

 

P/1 – O Mozart está ansioso para saber a história da China, então vamos voltar. Você disse que... Eu esqueci quem foi que falou: “Olha, eu banco a sua passagem”...

 

R – Ao presidente da Federação na época, o Enio Cuono, eu devo isso... Tanto é que ele é o padrinho da minha filha. Eu sou daquelas pessoas que valorizam as pessoas que gostam de mim, que fazem as coisas por mim. 

Eu falei por brincadeira, falei: “Eu vou à China. Não sei se vou ganhar, mas vou arrumar mulher lá, vou me casar e da minha filha - ou o meu filho - o senhor vai ser padrinho.” E ele falou: “Será uma honra.” E realmente ele foi o padrinho da minha filha.

 

P/1 – Rapaz, que decisão!

 

R – É, chama-se “você querer”. Por isso que eu digo: você tem que ser... Não existe impossível, vou lhe dizer o porquê. Quando chegou essa fase em que eu falei que queria casar com uma chinesa, tudo o que eu via ao meu redor era impossível. Eu disse: “Eu não acredito!” Não existe o impossível, existe determinação e força de vontade. Você olha hoje para o espelho e diz: “Eu vou tentar.” Daqui a vinte anos, se você não conseguir, você tem um argumento: “Eu tentei, fui atrás; não deu porque não tinha que ser.” O duro é você olhar para o espelho: “Pô, eu não consegui.” Aí te perguntam: “Você tentou?” “Não.” “Então você está reclamando do quê?”

 

P/1 – Pois é. Então...

 

R – Começar em 1991, no torneio?

 

P/1 – É. Antes do torneio, como você imaginava que era a China? Porque você já tinha um conhecimento: filme, a convivência com os mestres, a convivência com os outros chineses...

 

R – Igual você, uma curiosidade imensa. Nossa, eu estava tão feliz por ir à China porque era o que eu mais queria, conhecer a China. E tem mais: você sabe para onde eu ia? Eu ia para o templo Shaolin, pois o campeonato foi lá.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É. Olha, eu tenho o quarto lugar do mundo mais honrado que se possa ter, porque eu tive o quarto lugar na China. E eu perdi para chinês, lá dentro do berço, entendeu? 

Tem uma coisa interessante, que eu não acreditei. Quando eu cheguei lá em Pequim, em 1991, nós fomos para uma cidade chamada Sanshou, que é onde fica o templo Shaolin. Aí a guia, tradutora, falou: “Olha, você vai lutar primeiro com o lutador do segundo escalão de Shaolin.” Eu disse: “Tá bom.” 

Eu ganhei, ninguém acreditou. Eles aplaudem você de pé, sabe quando você se sente... Não é que você... Não é uma expressão de [ser] metido, é uma expressão de orgulho. Todo mundo de pé te aplaude, nossa! 

A segunda luta foi com o cara do primeiro escalão; o bicho pegou, foi feio. Meu amigo, sabe uma coisa interessante? Eu observei cada detalhe. À noite, a gente estava lá e eu vi os chineses fumando e bebendo. Eu disse: “Meu Deus do céu!” Aí: “Está vendo que eles estão fumando…?” Eu falei: “A luta vai ser amanhã de... Caramba! E o cara fuma desse jeito?” “É normal para eles aqui.” Foi uma luta que à noite, sem brincadeira, eu chamava os colegas para me ajudar até a ir ao banheiro porque eu não conseguia me levantar, todo dolorido. Foi uma surra grande, foi feio! Aí eu fui quarto do mundo na China.

 

P/1 – Isso o quê? É mundialito de...

 

R – De kung fu.

 

P/1 – Mundialito de kung fu.

 

R – Da China.

 

P/1 – E eram quantos brasileiros?

 

R – Seis.

 

P/1 – A melhor colocação do Brasil foi a sua.

R – Foi a... Teve um que foi campeão em formas; formas é kati; chama-se kati, como em Japonês chama-se katá. Ele se chama José Roberto Jardim, hoje é ator na Record. 

Aí, meu amigo, veio o seguinte: antes de ir para a China em 1991 - vamos voltar um pouquinho - eu cheguei para a minha família e falei: “Como eu vou à China, vou procurar uma mulher para casar.” “Vem cá, você é doido?” “Não, eu quero casar com uma chinesa.” Liguei para o meu antigo patrão e perguntei se seria possível casar com uma chinesa. Ele deu risada e falou: “Esquece! Você aprendeu chinês, mas casar com chinesa, esquece!” Eu disse: “Mas por quê?” Ele falou: “É impossível!” Eu disse: “Não existe impossível.” 

Eu bato nessa tecla: não existe impossível, você tem que tentar. Eu disse: “Olha, eu estou indo para a China, vou disputar o Mundialito.” “Pode ser que lá você consiga, tem muita gente.” A minha cabeça foi focada no campeonato e arrumar uma mulher para me casar. 

Estava indo para a China e quando chegamos lá me apresentaram a guia. Eu fui como chefe de delegação porque falava o chinês e me apresentaram a guia. A guia falava português de Portugal. Onde tinha uma chinesa, eu estava puxando conversa. O pior é que falei para a guia: “Olha, a gente veio lutar e quero ver se acho uma esposa.” “Você quer casar…?” “Quero casar com uma chinesa.” Ela falou: “Conhece alguém?” “Não, senhora. Eu estou aqui pela primeira vez” “Você tem alguma posse?” Eu disse: “Não, senhora. Por quê?” “Porque aqui você tem que pagar um dote para o pai da moça - uma propriedade, alguma coisa.” Eu disse: “Mas que propriedade? Eu não tenho nada!” Ela falou: “Então esquece! É impossível!” Eu disse: “De novo? Não é impossível.” 

Fomos ao restaurante, a garçonete veio atender e me dirigi à garçonete falando. A guia era engraçada e falou: “Ela é casada e tem quatro filhos.” Eu disse: “Está bem!” Aí essa guia chegou para mim e falou: “Você quer mesmo casar com uma chinesa?” Eu disse: “Quero.” Ela falou: “Tá bom, eu vou te apresentar alguém, mas toma cuidado.” Eu disse: “Sim, senhora.” 

Marcamos à noite, no hotel. Eu era cabeludo, na época, era jovem ainda. Meu amigo, me chega uma moça fantástica: linda, maravilhosa. Ela não falou nada, não sabia de nada. No dia seguinte, ela chegou e falou: “Senhor Vasconcelos, amanhã tem um aniversário na casa do meu irmão, é o aniversário dele. Quer ir comigo?” Eu disse: “Claro, vamos.” Deixei o pessoal todo no hotel e fui para a casa dela. Chegando lá, ela me apresentou o irmão; o irmão me apresentou a esposa, filho, filha, genro e nora. E ele ressaltou, no meio da... No meio da conversa, ele falou: “Eu tenho mais uma filha, que não chegou ainda. Ela tem um cargo muito importante, chega muito mais tarde.” E eu disse: “Sim, senhor.” 

Quando foi à noite, umas nove horas mais ou menos, eu vi uma mão: “Ni hao, papá.” - é “Boa noite, papai.” “Venha cá.” Era a mesma moça. Quando olhei eu disse: “Eu vi essa moça ontem no hotel.” Sabe quando você... E ele: “Seu Vasconcelos, essa é a minha filha mais velha, a senhorita Chao Nun. Ela é engenheira-chefe do Departamento de Engenharia de Pequim.” Eu disse: “Realmente tem um cargo importante.” 

Comecei a conversar com a moça. Conversa vai, conversa vem e ela... Eu tinha que ir no dia seguinte. Eu estava em Pequim e tinha que ir no dia seguinte para Sanshou, para o torneio. Conversei com ela, achei a conversa muito interessante: “Amanhã eu vou para o torneio. Será que a gente podia conversar de novo?” E ela: “Claro.” 

Fui para o torneio, voltei com a cara desse tamanho, olho roxo. “Agora danou-se, olhar para a mulher com a cara desse jeito...” Mas sabe quando a gente diz: “Nossa, é a mulher perfeita?” Eu estava ali e não era toda vez que teria a chance de vir para a China de novo. 

Quando eu voltei, a senhora Chao... Chamava-se Chao Yu Lan, a guia - está aqui, mora aqui comigo. O tempo passou e ela acabou vindo para o Brasil. Eu disse: “Senhora Chao Yu Lan, a gente pode ir na casa do seu irmão?” “Fazer o quê na casa do meu irmão?” “É que eu fiquei de conversar com a sua sobrinha.” Ela: “Tudo bem.” 

Fomos lá. Cheguei lá, conversei com ela. Eu tinha que ir embora três dias depois. Eu disse: “Olha, eu vou lhe fazer uma pergunta. Você pode achar estranho, só espero que não me interprete mal, está bom? Não se ofenda.” Ela falou: “Não, pode perguntar.” Eu disse: “Você quer casar comigo e ir morar no Brasil?” Ela olhou para mim e disse: “Está falando sério?” “Estou.” “E se eu disser que quero?” Eu disse: “A gente casa.” Ela falou: “Eu quero!”

 

P/1 – Olha... Assim?

 

R – Assim. Aí chamou o pai dela, conversou. As pernas tremeram: “Agora eu vou apanhar!” E ele falou: “Senhor Vasconcelos será muito bem-vindo à minha família.” Só que aí foi o seguinte: eu tinha que despachar o pessoal, porque nem contei para eles... Contei por alto. 

Aqui, nós estamos detalhando as coisas. Eu contei... Porque não dá, se cada passageiro que eu pegar eu for contar, vou ficar o dia inteiro com o passageiro dentro do carro. Tinha que trazer o pessoal para cá. 

As coisas não são assim tão fáceis, demora um pouco. Só que ela, a guia, me orientou direitinho: a gente foi ao hotel, compramos uma aliança e já fiquei noivo. Foi rapidinho. Essa aliança eu dei para a minha filha, está com ela: é ouro 24 quilates, é regulável, uma aliança com ouro mole, muito mole. Você regula o tamanho e lá eles são assim: eles não falam que tem que tirar medida, [é] uma medida só, que cabe para todo mundo. 

Fiquei noivo. Voltei para o Brasil em 1991, finalzinho de 1991. Voltei para o Brasil com o olho roxo, mas feliz da vida porque tinha uma noiva chinesa que estava lá do outro lado do mundo. Aí vem a guerra: eu preciso voltar à China, eu quero casar, trazer a mulher. Então eu fui trabalhar só nesse sentido. 

Meu amigo, fui lá em 1992, não quero nem saber. Providenciei tudo aqui. Meu pai me ajudou, meus irmãos me ajudaram, tudo mundo ajudou, mas falaram que era loucura. A família em casa: “Você é doido, rapaz. Você nunca viu essa mulher, viu-a uma vez na vida e quer casar?” Eu disse: “Pai, mas é uma mulher maravilhosa!” “Tá bom, fazer o quê?” 

Em março de 1992, eu larguei tudo aqui e voltei para a China, só que eu não fui lutar, não era torneio, não era nada. Eu fui para casar com a chinesa. Quando eu cheguei lá, ela falou: “Olha, tem que fazer check up. Se constar alguma doença, não pode casar.” Eu disse: “Tá bom.” 

Fiz um check up - os exames, as mesmas perguntas. Eles olharam, ela olhou, aí a médica olhou para a tia da minha esposa e falou: “Ele é atleta?” E eu falei: “Sou sim, senhora.” Ela olhou para mim: “Você fala chinês?” E eu: “Tué, tué.” “Sim, sim.” Ela falou: “Olha, muito bom. Uma saúde muito boa, perfeito. Está ótimo!” Aí eu casei com a moça no sábado, dia dezesseis de março de 1992.

 

P/1 – Em Pequim.

 

R – Em Pequim.

 

P/1 – Como é que foi a cerimônia?

 

R – A gente vai à prefeitura. Primeiro vai ao fotógrafo, tira aquela foto preto e branco - os dois juntos - e daí vai à prefeitura. 

Uma coisa interessante: quando eu voltei para o Brasil, aqui me orientaram a procurar um tradutor juramentado para ver a documentação. Eu traduzi o meu registro de nascimento, RG, tudo o que tinha de documento traduzido para a língua chinesa, então levei a documentação toda pronta. 

Presta atenção: quando chegou lá, na hora do casamento, o cara chamou a tia. Eu só ouvi ele falar: “Eu não estou entendendo o que está escrito aqui.” Ela olhou: “Mas é o nome dele. Nome próprio não se traduz, nome próprio é nome próprio.” A gente sabe disso. Seu nome é seu nome. Ele olhou para ela e falou “Não interessa, eu tenho que entender o que está escrito, se eu não consigo entender o que está escrito...”. Eles são assim. E ela: “Meu Deus! Tá bom, eu vou dar um jeito de traduzir isso.” Ela falou: “Não é fácil traduzir o seu nome, é muito grande, Manoel Bezerra de Vasconcelos.” Na certidão de casamento - eu vou mostrar para vocês - tem o nome lá. Eu vou mostrar qual é o Manoel, qual é... Está tudo dividido lá. Como ela é tradutora - tem carimbo e tudo - ela traduziu: “Pronto, está aqui.” E ele: “Agora sim eu entendo o que está escrito.” Eles são assim, se eles não entendem... Esquece! 

Casamos na Prefeitura e, à noite, tem a festa na casa da noiva. Os convidados, tudo [em] traje chinês. Para mim não era novidade, porque eu vivia vestido com roupa chinesa por aí, já estava acostumado. E no outro dia... Lá só tem uma Igreja Católica.

 

P/1 – Mas me conta da festa, como é que era? O que tinha na festa?

R – Comida chinesa, bastante comida chinesa, muito chinês. Só tinha eu de ocidental lá, não tinha mais nenhum, não apareceu nenhum, só eu. Ficou todo mundo perdido aqui.

 

P/3 – E você ouviu o que os chineses comentavam sobre...

 

R – Ouvia. Eles falaram [que era] interessante. Para eles era uma novidade porque, pelo menos naquela comunidade, não se conhecia nenhum brasileiro que tivesse casado com uma chinesa em tão pouco tempo. A gente não se conhecia praticamente, eu não conhecia, eu não sabia... Para você ver, a minha mulher falava japonês e eu não sabia, entendeu? 

Eu estou conhecendo você agora, não sei quem é você, mas há uma diferença: nós, brasileiros, não entendemos isso. Fala: “Como é que se casa com uma pessoa que nunca viu, tão rápido?” É simples! Nós temos o hábito... Nós, ocidentais, temos o hábito de namorar, noivar e casar, isso faz parte do nosso cotidiano. País da Europa tem isso; na China, na Índia, não existe isso. Na China, na Índia, é o seguinte: você conhece e você casa. O procedimento normal é meu filho casar com a sua filha, a gente decide que eles vão se casar. Eles são apresentados um mês antes e se casam, não tem essa espera toda. Para eles, isso não era um obstáculo, era normal. Inclusive, a casa do meu sogro estava cheia porque eles queriam ver o brasileiro; o ocidental é diferente. 

Quando ela chegou no emprego - trabalhava para o governo - falou para o chefe: “Olha, eu peço dispensa porque casei e vou morar no Brasil.” “O quê? Morar no Brasil? Não vai, não.” “Como não vai?” O pai dela, como tem uma influência muito grande na China, conhece muitos políticos, ele: “Deixa isso aí que eu resolvo.” Aí foi rapidinho, resolveram e liberaram-na, não teve muita dificuldade. 

Deixa eu te contar: aí veio a outra parte. Casei com a moça, maravilha! E trazer a mulher? Precisa de visto. Vou ao consulado brasileiro, quando chego lá: “Olha, não dá para ser esse visto. É uma coisa que demora.” Voltei para o Brasil e deixei a mulher lá. Casado, mas a mulher ficou lá na China.

 

P/3 – Nem lua de mel teve?

R – Olha, eu passei uma noite só com a mulher, não deu para passar... Voltei para o Brasil. Chegando aqui, fui batalhar para trazer a mulher. Comecei a colher informações - ali na Avenida São Luís tem muito escritório de advocacia, procurei um advogado que disseram que era muito bom em trazer as pessoas de outro país. Eu fui lá e disse: “É o seguinte: casei na China, minha esposa está lá, preciso trazê-la para cá. E aí, como é que faz?” “Quatro mil reais.” Na época... Nossa!

 

P/1 – Muito dinheiro.

 

R – É. Eu disse: “Tá.” Ele falou o seguinte: a gente traz via Paraguai. E depois traz ela para cá... “Como assim?” “Não, a gente traz por escala.” 

Resumo: eu não sou burro. Eu disse: “Tá, você vai trazer ela para cá clandestino?” “É.” “Não, eu quero a minha esposa aqui, eu me casei com ela. Tem uma lei universal que diz que a mulher segue o marido. O Brasil não tem problemas de relações diplomáticas com a China, eu quero ela aqui legalmente, não quero saber.”

Procurei outros meios. Só sei que, graças a Deus, o visto dela não demorou muito a sair. 

Meu amigo, foi engraçado. Eu vou lá para o aeroporto; levei meu mestre, meu mestre foi comigo. Chegamos lá e estamos esperando a esposa...

 

P/1 – Em Guarulhos.

 

R – Lá em Guarulhos. O voo chegou. Uma hora, duas horas. “Pô, mas o voo já está aí faz duas horas, cadê a mulher? A mulher não aparece!” Fomos ver a informação direitinha e falaram: “Não, realmente ela veio. Está aqui.. “Mas cadê a mulher que não sai?” 

Meu amigo, três horas depois sai um fiscal lá da alfândega com a mulher. Ela esqueceu - não é que esqueceu, ela perdeu as malas na Alemanha, por causa de escala. Na Alemanha tem que fazer escala, tem que trocar as malas, tem que tirar de um lugar para o outro; enfim, ela não conseguiu. Acho que as malas dela ficaram todas na Alemanha. Mas depois eles mandaram para cá.

(pausa)

P/1 – Voltando, você estava falando que a mala tinha extraviado na Alemanha...

 

R – Na Alemanha, isso. Bem, ela chegou. 

Nesse meio tempo... Eu estou lá esperando, desligado do mundo. Estou com a atenção na mulher, cadê a mulher que não chega? Quando ela sai de lá de dentro, meu amigo, veio um monte de repórteres em cima da gente. “Mas o que é isso?” “Seu Vasconcelos?” “É, sou eu.” “O senhor casou na China? Essa é a sua esposa?” “É a minha esposa”. “Ela fala português?” “Ela não fala português, calma!”

Foi um sufoco para sair do aeroporto. A mídia já começou a estourar ali. Na semana seguinte, quando eu cheguei em casa, tinha duas mulheres sentadas na porta de casa. Trouxe ela para cá, aluguei uma quitinetezinha na [Rua] Major Sertório, num lugar pequeno. “É o senhor Vasconcelos?” “É.” “O senhor pode dar uma entrevista para a gente?” “Posso.” Então foi Globo Repórter, Esporte Espetacular, Sílvia Poppovic, da Band; Perfil, do Otávio Mesquita, na época que existia isso aí; Jô Soares Onze e meia do SBT - no Jô Soares eu a levei. 

O Jô Soares está em débito comigo. Eu vou lhe dizer uma coisa - eu ainda vou falar isso aqui - eu encontrei com o Jô Soares há um mês, na Cantina Jardim de Napoli. Veja bem...

 

P/1 – Sim, em Indianópolis.

 

R – É. Eu acredito o seguinte: eu posso não me lembrar de uma coisa mas, em se tratando de uma pessoa pública, ela tem que ter desenvoltura para lidar com o público. Porque é o público que a mantém, não tenha dúvida disso. Se não existe o público, não existe celebridade. 

Eu: “Tudo bom, seu Jô?” “Tudo bom.” “O senhor se lembra de mim?”. “Não, não me lembro.” “Eu que casei na China, dei uma entrevista para o senhor.” Ele olhou para o amigo e falou: “Casamento na China é motivo para entrevista?” Eu não abri mais a minha boca, eu achei... Ele poderia, no mínimo, dizer o seguinte: “Eu não me lembro porque são várias entrevistas, são muitas, mas o senhor pode me refrescar a memória?” Enfim, dar uma atenção.

 

P/1 – Claro!

 

R – Entendeu? Eu acho, é o meu ponto de vista. Eu disse: “Pô, tudo bem.” 

Faz quinze anos, eu concordo que ele tenha esquecido; quantos mil programas esse cara não fez? Um monte. Só que ele não pode esquecer que a entrevista que eu dei lá para ele foi uma entrevista que deu repeteco, como a gente fala; deu bis, entendeu? Foi repetida porque todo mundo achou interessante. 

Ele esqueceu. Eu disse: “Mas eu não esqueço.”

 

P/3 – Por que você resolveu casar com uma chinesa? Você achava que esteticamente era legal ou era a paixão pela cultura?

 

R – [Por] um motivo simples. Quando eu fui trabalhar na pastelaria, a irmã do patrão era uma mocinha, a coisa mais linda do mundo, aqueles olhinhos puxados... Uma coisa me veio à cabeça: “Eu quero os meus filhos assim, com os olhos puxados.” Eu não sei o porquê. Eu achei aquilo lindo, maravilhoso! 

Essa foi.... Todo mundo quer saber o motivo. O motivo de eu querer casar com uma chinesa foi esse, o principal. 

O segundo: nordestino, em geral... Em português bem claro, está cheio de corno, mas ninguém quer ser corno, todo mundo morre de medo de ser corno. É verdade! Então, infelizmente, não dá para se confiar em ninguém, é complicado. Na época de hoje então, nem se fala. Eu queria arrumar uma mulher em quem se pudesse ter o mínimo de confiança. Como eu aprendi muito sobre os chineses... Os orientais são muito dedicados à família, à mulher. Se você é o marido… Não precisa ser o marido ideal, mas você é um marido que é um marido, você tem a mulher em casa. E ela não vai ficar olhando para ninguém na rua... Ela é a sua mulher, é a sua família. Então, o risco de você ser corno é menor.

 

P/1 – Você pensou em tudo.

 

R – É, pensei em tudo. Algumas pessoas dizem que eu dei um tiro no escuro e acertei no olho. E foi realmente o que eu queria. Eu me casei com uma engenheira, uma pessoa extremamente instruída. Hoje ela trabalha com tradução, é muito respeitada aqui no Brasil pela parte de tradução. 

O interessante é o seguinte: quando nasceu a minha filha primeira, ela não falava português direito ainda. Ela falou: “Eu quero fazer um acordo com você”. Eu disse: “Que acordo?” Ela falou: “Nossa filha você deixa que eu educo, e não se intromete.” Eu disse: “Tá, mas por quê?” “Não se ofenda, vocês educam muito mal; se a gente educar a nossa filha assim, ela não tem futuro.” Eu disse: “Ô loco!”

No fundo, [ela] tem um pouco de razão - a gente sabe disso. Nós somos relapsos para educar, tudo a gente passa a mão, deixa para lá, e o chinês é muito categórico com isso. Para vocês terem uma ideia, a minha filha, com sete anos de idade, estava aprendendo a decorar livros. O chinês tem quatro mil e quinhentos ideogramas, que é como a gente chama o alfabeto. Um chinês fala que se um ocidental aprender duzentos já está de bom tamanho, ele sabe muito chinês, porque é muito difícil. A minha filha sabe dois mil e quinhentos e a avó dela falou que, quando ela fizer vinte e um anos, tem que saber os quatro mil e quinhentos. Então, é desse jeito que funciona. 

O que você quer mais? Diga.

 

P/1 – Queria que você contasse um pouquinho da vida da sua esposa antes dela lhe conhecer. Então ela nasceu em Pequim...

 

R – Nasceu em Pequim. Ela era engenheira mecânica lá. Largou... Realmente, o Jô Soares falou isso: “Ela tem mais coragem do que você, porque largar tudo na China para vir para cá viver com um brasileiro que nunca viu, realmente tem que ser uma mulher de determinação.” E ela é, realmente ela é. Disso não tenha dúvida.

 

P/3 – Naquela época, não tinha política do filho único; então, ela tinha irmãos também.

 

R – Ela tem um irmão e uma irmã. A irmã é diretora de cinema.

 

P/1 – É mesmo?

R – É. Eu tinha até foto dela, era para eu trazer. E o irmão dela é arquiteto. Lá eles estudam. A mãe dela, que mora comigo hoje - porque o meu sogro faleceu em 2000 - era professora lá, dá aula de chinês para a minha filha direto, e mora aqui. Tem 75 anos, não fala uma palavra de português, só que a velhinha fala quatro dialetos. Quando ela começa a falar e eu não entendo, sei que ela está me xingando, porque ela está falando em outro dialeto que eu não entendo. É verdade. 

A minha mulher falou: “Quando a minha mãe fala mandarim, normal. Quando ela fala e você não entende, ela está falando outro dialeto e te xingando.” Porque aí eu não entendo mesmo.

 

P/1 – E fala um pouquinho das suas filhas. O nome delas, idade e o que elas estão fazendo.

 

R – Tá. A minha filha mais velha tem dezessete, vai fazer dezoito dia 27 agora. Ela fala inglês, fala chinês, português, francês e está no primeiro ano de Relações Internacionais na PUC. A segunda tem doze anos, fala português, chinês e inglês.

 

P/1 – O nome delas?

 

R – Ana Flávia. Essa parece mais comigo.

 

P/1 – Ana Flávia é mais nova.

 

R – É a mais nova.

 

P/1 – E a mais velha?

 

R – É a Li Zhao Fung. É o seguinte: eu vou... Muita gente quer saber por que esse nome e eu vou explicar para vocês. Lembra que eu falei para vocês que o meu patrão - é uma coisa interessante - o meu patrão [se] chamava Li Shao Fan. O meu mestre chama Li Wing Kay, certo? Essas pessoas me ajudaram demais, eles foram a base da minha estrutura, principalmente em tudo o que eu luto, ir para a China, o conhecimento que eles tinham entre chineses, eles foram muito importantes na minha vida. Então, eu decidi... Eu falei para eles: “Se eu tiver um filho, ou uma filha”... Como Li é um nome... Como fala? Unissex. Masculino e feminino, é isso?

 

P/3 – É.

 

R – Um nome que é para homem e para mulher...

 

P/3 – E o que significa?

 

R – Li é um nome próprio...

 

P/3 – Não é nome de fruta, nada disso.

 

R – Não. De um milhão e trezentos milhões de chineses que tem lá, um milhão se chama Li. É bem por aí, entendeu? É que nem José e Severino, lá na Paraíba. Tem duzentos milhões de Severinos. Então, Li é um nome próprio. 

Veja bem, o interessante é o seguinte: ninguém me instruiu para dar o nome da minha filha, fui eu que procurei, vi direitinho. Li, que é o nome desses chineses que me ajudaram muito. Só que aí eu tinha que pôr o nome da mãe, não podia deixar de fora. E eu tinha que colocar um segundo nome nela, porque o chinês tem que ter dois nomes, não é que nem nós brasileiros que temos três, quatro, não. Tem que ter dois nomes dele. Ela tinha Li, aí eu pus Zhao, que é o nome da família. Família Zhao é família de imperadores, teve uma época que era o imperador Zhao quem comandava, é um nome muito forte na China. Zhao, que se escreve com ZH. Inclusive, às vezes, na Polícia Federal: “O cara é Zao Nung.” “Não senhor, não é Zao Nung não. É Zhao Nung. Se lê Zhao, mas se pronuncia ‘tchao’.” 

Eu tinha que dar outro nome para ela. Eu queria chamá-la de Li Zhao Shan, mas Shan, em chinês, significa 'grande montanha', é nome masculino. Aí eu coloquei Li Zhao Fung. Você escreve Fung, mas lê Fan. Todo G em Chinês termina sozinho, ele é mudo, você não pronuncia, mas tem... Está lá. Aí eu pus Li Zhao Fung e tinha que pôr o meu. Daí falaram que estragou, Vasconcelos, que é português.

P/3 – Fung o que é?

 

R – Fung, a tradução...  Fung significa pequena flor.

 

P/1 – Bonito. Li Zhao Fung de Vasconcelos.

 

R – É.

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Diga mais.

 

P/3 – Vamos falar um pouquinho então do seu aprendizado de chinês. Você começou com o pessoal da pastelaria e continuou aprendendo. 

 

R – Com as mudanças… Tem coisa que é tão interessante que não dá pra entender. Eu sempre chamei minha esposa de “minha querida” em chinês. Um dia desse eu chamei minha filha: “Minha querida, venha cá” em chinês. Ela olhou pra mim [e disse]: “Pai, o senhor não pode me chamar assim.” “Não entendi, filha. Por que, não é ‘minha querida’?” “De marido pra mulher.” Fiquei confuso    

 

P/3 - O chinês tem essa coisa de ter palavras... É como o tupi também... Tem palavras que só pode falar para um parente...

 

R – É, eu só posso direcionar aquilo, não pode ser para outro, é diferente. 

Outra coisa: como eu falei para vocês, são mais de trezentos dialetos. O problema do Chinês é o som, a pronúncia. Já aconteceu de eu falar, falar, a mulher olhar para mim e falar: “Eu não estou entendendo nada do que você falou.” “Mas não...” Daí a minha filha fala: “É, pai! O seu chinês é horrível.” “Muito obrigado.” Aí a mulher explica: “É o som das palavras. A forma como você pronuncia é outra coisa, entendeu? É muito fonético.”

 

P/3 – Cada palavra tem quatro pronúncias.

 

R – É.

 

P/3 – Então tem... São monossílabos.

 

R – É.

 

P/3 – Mandarim é o chinês clássico. O resto são variantes, os dialetos. Só para dar um exemplo aqui, que eu não quero interferir na entrevista: por exemplo, quando eu estudei chinês, uma coisa que me impressionou foi a palavra mai - comprar; mai - vender.

 

R – Está vendo?

 

P/3 - A diferença para o ouvido do ocidental é mínima, não existe. Eu fiquei pensando: e o fanho? como é que se vira em chinês?

 

P/1 – Fanho?

 

R – Viu? Agora nos campeonatos - voltando aos campeonatos -, eu vou lhe dizer: voltei para a China, casei. Eu estava, digamos assim, chegando ao auge da minha carreira de lutador. Eu trabalhava numa lanchonete, entregando lanche, e trabalhava na Folha de São Paulo.

 

P/1 – Conta mais desse pedaço.

 

R – É, esse pedaço aí. Eu vou contar. 

Um dia, teve um campeonato brasileiro. Pedi para o dono da lanchonete se poderia me dar uma semana de folga, expliquei e ele: “Tá bom, vai, mas vai ser descontado.” “Não tem problema, tudo bem.” 

Fui lá, fui campeão. Quando eu voltei, o seguinte: tem certos clientes que são clientes habituais. Para você ver, as coisas interessantes acontecem na sua vida. Às vezes, você não precisa se matar; elas estão no seu caminho, vão passar por você. A minha divulgação na mídia maior foi por causa disso. Eu cheguei na lanchonete, daí o gerente falou: “Ah, vai lá no Stalimir levar lanche para ele porque ele quer falar com você.” “Está bom.” 

Stalimir é uma agência de propaganda, se chama Stalimir Propagandas. E eu sempre levava lanche para esse cara. Fui lá levar o lanche: “Vasconcelos, rapaz, [há] uma semana eu estou passando fome!” Eu disse: “Mas por que você está passando fome?” “Eu peço o lanche lá e demora muito para chegar; quando é o senhor que vem trazer, traz rapidinho. Onde é que você estava, rapaz?” Eu disse: “Eu estava disputando um torneio.” “Que torneio?” Eu falei, expliquei, e ele: “Não, espera aí, me conta mais dessa história.” Aí eu contei. Ele falou: “Faz o seguinte: volta lá para a sua empresa, não saia de lá; eu vou te dar um empurrão, o resto é com você.” Eu não entendi nada. 

Eu voltei. [Quando] cheguei lá, o gerente falou: “Fica aí, não sai daí. Já ligou para mim para você ficar aí.” Demoraram uns quarenta minutos, chegou um carro da Folha de São Paulo, repórter e tal. “Senhor Vasconcelos?” “Sou.” “O senhor pode ir com a gente até a Folha?” “Tá, vamos lá.” Olha, admiro aquela foto, foi o fotógrafo que tirou na hora. Falou: “O senhor pode fazer uma?” “Faço!” Fiz os movimentos lá e o cara tirou a foto perfeita. No dia 28 de fevereiro de 1993, capa da Revista da Folha, entendeu? Nossa! 

Na segunda-feira eu não saí da lanchonete, atendendo telefonema. “O que é isso?” À noite fui para a Folha dar autógrafo, autografar revista. Aquilo ali foi um estouro na mídia. 

Na quarta-feira, o gerente falou: “Volta lá no seu Stalimir porque ele quer falar com você.” Eu disse: “Tá bom!” Eu era quarto do mundo na China, campeão brasileiro e estava ali, no impasse. Ele falou: “Você viu a repercussão?” Eu disse: “Pô, e agradeço muito ao senhor.” Ele falou o seguinte: “Eu falei com o diretor da Folha...”, chamado Caio Túlio na época...

 

P/1 – Caio Túlio!

R – Está vendo? O senhor sabe. “O dono da sua lanchonete… Eu conversei com ele. Falei que, pelo que eu vi, pelo que você me falou aqui, você tem um potencial, então nós vamos te ajudar durante um ano. Um ano! Eu conferi aqui, você é o atual campeão, então, durante um ano eu vou lhe dar estadia para qualquer país que você for; eu banco. O restaurante vai te dar alimentação com o acionista e a Folha vai bancar a passagem.” Ou seja, o cara é... Eu arrumei três patrocínios em um. 

Veja bem, eu não tinha lucros financeiros, mas para onde tivesse torneio eu iria e isso, na época... Meu Deus, caiu do céu porque, em muitos torneios, brasileiros não vão porque não têm dinheiro, não podem bancar, não têm quem banque. Eu disse: “Perfeito!” Aí veio a Copa Europeia, na Inglaterra, [em] Londres; eu fui para Londres e fui campeão europeu. Trouxe a medalha, então, não saí da mídia, da revista. 

 

P/1 – Aí que foi o episódio do hino?

 

R – Esse foi o episódio do hino, lembrou muito bem. Chego lá, campeão europeu, aí falam para mim: “Olha, é o seguinte: nós não trouxemos o hino nacional brasileiro, vai tocar o hino do Paraguai.” Eu disse: “Não vai, não.” Eu disse: “Não tenho nada contra o Paraguai, mas eu sou brasileiro e nem apareço lá.” 

A equipe que foi comigo... Sempre tem alguém que é melhor financeiramente. O cara falou: “O que é isso, rapaz?” “Eu fui o único que foi campeão e eu não tenho o hino brasileiro?” Ele falou: “Quando é que tem que subir no ringue?” O cara: “Só ao final do dia ,que é o final do torneio. É quando tem que acabar.” Eu tinha sido campeão ao meio-dia. Ele falou: “Eu vou arrumar esse hino nacional.” Pegou um táxi e arrastou para Londres. 

O cara voltou três horas da tarde. “Acabou?” Eu disse: “Ainda não.” Ele: “Ótimo, está aqui o hino nacional brasileiro.” O cara conseguiu, em Londres, não sei como... Tinha dinheiro. Então eu disse: “Aí, sim.” 

Meu amigo, nada tira de você... Por exemplo, eu vou morrer e no dia em que eu morrer... Bem, depende de como você morre: às vezes você morre de uma vez e não sabe, mas se você morrer lentamente... Eu vou estar lembrando dessas cenas na minha vida. Eles falam: “Categoria tal...” Porque tem categoria de peso. Ele não fala o seu nome: “Fulano de tal…” Eles falam: “Campeão Europeu: Brasil!” Aí saiu um cara quatro por quatro carregando sua bandeira - era para eu trazer essa foto para você... Eu tenho essa foto lá. O interessante [é que] só tinha eu no pódio, porque os outros dois foram nocauteados, não tiveram como subir no pódio. Todo mundo pergunta: “Cadê o segundo e o terceiro?” “Não tiveram como subir no pódio: nocaute.” Bandeira brasileira, todo mundo em pé, você enche o peito: “Eu sou brasileiro.” Entendeu? Isso foi maravilhoso, foi um episódio na...

 

P/1 – Inglaterra.

 

R – Na Inglaterra. Aí veio o Campeonato Mundial da Malásia, [em] Kuala Lumpur. Como eu já tinha esses patrocínios que bancava eu fui fora do grupo.

 

P/1 – Mas isso de quê? Kung fu?

 

R – De kung fu. Em 1993. Aí eu fui fora dos grupos. 

Tinha uma escala na Coreia e, como sou prata de tae kwon do, o mestre falou assim: “Você vai ficar na academia do meu amigo mestre na Coreia, em Seul.” “Perfeito!” Fui para Seul, desci lá, o cara falava espanhol. Porque na Coreia é assim: você saiu do aeroporto, esquece! Ou fala coreano ou não fala com ninguém. Eu não sei agora, mas na época [era] terrível! 

Fui para a academia dele e ele: “Quando é o seu voo?” Eu disse: “É amanhã, tal horário.” Fomos para o aeroporto. Quando chegamos lá, o cara confere: “Não, o seu voo foi ontem.” “Como ontem?”Aí me explicaram aquele negócio de fuso horário. Eu disse: “E agora?” Ele falou: “Olha, não tem como reembolsar a passagem, a não ser que o senhor compre uma passagem da Coreia para a Malásia.” “Quanto é a [passagem da] Coreia?” “Quatrocentos dólares”. Eu tinha setecentos dólares que o Stalemir tinha me dado, que era a estadia, aí eu paguei a passagem. 

Olha, isso deixa a gente triste. Liguei para o Brasil, a Federação informou: “Ele vai chegar já no dia, em cima da hora. Vamos mandar alguém esperá-lo no aeroporto de Kuala Lumpur.” “Tá bom”. Aí eu saí da Coreia para a Malásia. Cheguei lá, tinha um cara com uma placa: “Vasconcelos”. Um indiano, normalmente é indiano. O motorista de táxi me levou direto para o hotel. Quando chega no hotel... Eles têm umas regras... Você tem que se registrar no hotel para poder entrar no torneio. “Tá.” “E a estadia?”. “São quinhentos dólares”. Eu só tinha trezentos dólares, era o dinheiro que eu tinha. Eu disse: “Acabou o dinheiro!”, expliquei. O técnico da Federação do Rio de Janeiro... Sabe o que ele falou para mim? “Volta para o Brasil, ué! Não tem dinheiro para estadia...” Aí você fica olhando assim e diz: “Mas espera aí, eu sou campeão brasileiro. Eu vim para o mundial porque eu sou classificado, eu estou representando o meu país.” São coisas que você não esquece. 

Um dos colegas que foram comigo é um mestre de capoeira, mestre de kung fu -  [se] chama Silvano, eu nunca vou esquecer esse cara. Ele é alagoano, chegou e falou: “Espera aí, como é que é? O Manoelzinho vai voltar para o Brasil, por quê?” “Porque não tem dinheiro para pagar a estadia”. “Mas ele não tem porque gastou na passagem...” “Problema dele! O que nós podemos fazer?” O cara olhou e falou, “Meu, nós somos seis brasileiros, seis nesse fim de mundo que eu não sei nem onde eu estou mais… Tão longe que é pra lá da China, a Malásia... E você manda ele voltar?” 

Chamou os outros atletas. Na época tinha um outro que se chamava Expedito; ele foi campeão mundial de kickboxing, então o cara tinha um poder aquisitivo melhor. Ele chegou e falou: “Pessoal, é o seguinte: eu não tenho muito, mas é o dinheiro que eu trouxe para comprar alguma coisa - cinquenta dólares, está aqui. A gente tem que pagar a estadia do Manoelzinho para ele não voltar, porque o técnico mandou ele voltar para o Brasil.” O Expedito falou: “Eu dou cem dólares, está aqui.” “Pô, sobrou dinheiro! Tá bom, o senhor vai ficar sem dinheiro!” Fizemos um registro lá no hotel. Meu amigo, eu cheguei lá no Ginásio [quando] faltavam dez minutos para a hora da minha luta.

 

P/1 – Nossa!

 

R – É. Eu trouxe... Eu tenho uma coisa fantástica que eu esqueci, é muita coisa.

 

P/1 – Não, depois a gente pega.

 

R – Quando eu cheguei lá a primeira luta era com um malasiano, dono da casa. Ginásio lotado. Eu tinha um problema de peso, eu tinha que perder peso, então eu andava praticamente sem comer para dar o peso certo. Cheguei lá, a balança era digital ainda -  dá exato, não tem meio termo, daquele 'é mais ou menos', não. Subi na balança, cinquenta e seis quilos cravados. Eu disse: “Não vou nem respirar, porque senão ela aumenta um grama aí.” 

Desci e subi no ringue. Meu amigo, eu subi tão revoltado no ringue que não estava nem pensando na diversão; eu estava revoltado com a situação, porque eu disse: “Pô, não é justo!” Sabe quando você sobe assim... Quando começou a luta, o malasiano veio para cima de mim e eu não sei... Não me pergunta como é que eu fiz aquilo que eu não sei até hoje, estou procurando saber. Eu peguei o homem, o levantei lá em cima, e bum! O ringue é forma de um metro e meio, ele afundou no tablado, deslocou a clavícula, nocaute. O fotógrafo chinês pegou a foto... É o que eu te falei, me pegou projetando-o no ar. Está lá a manchete: “Brasileiro nocauteia malasiano no primeiro combate.” Daí calou o Ginásio. 

Semifinais, eu fui disputar com um espanhol e, como em todo esporte, você depende de uma coisa chamada... Em lutas eu aprendi o seguinte: você sobe no ringue, nocauteia, que você ganha. Caso contrário, você não sabe o que vai acontecer, você depende do juiz. Eram cinco juízes, três... Dois deram vitória para mim e três deram vitória para o cara - por um votinho só eu perdi. Aí fui disputar o terceiro lugar. Disputei o terceiro lugar com um da Coreia e ganhei. Tenho essa foto também, fui terceiro do mundo na Malásia... Fui terceiro, o espanhol foi segundo e a Coreia ficou em quarto. 

Nisso, a minha filha estava para nascer, em 1993, aí voltei para o Brasil. Sabe quando você volta... “Quero ver o meu bebezinho.” Em seguida, teve o outro mundial, nos Estados Unidos. Primeiro, ia ter o Campeonato Americano, em Los Angeles; eu fui convidado. Fui lá e fui campeão. Em seguida, viajei para São Francisco para disputar o Mundial. 

Eu queria, sei lá… Que muitas pessoas vissem. Porque elas não entendem, quem não está no mundo das artes marciais não sabe como é que funciona. Eu disputei um dos maiores torneios - e mais importantes - que tinha na época, que se chama Copa Mundial de Artes Marciais, ou seja, tinha tudo o que vocês possam imaginar de artes marciais. E como é que funcionava? Eles dividiam por grupo: A, B, C e D. Então, grupo A - não importa os lutadores, quem caiu ali, está naquele grupo, vai lutar sobre a regra de judô. Quem está ali tem que saber o que é judô - judô é só queda. 

Aconteceu uma coisa muito interessante: o que tinha de lutador ... Tae kwon do... O que faz o tae kwon do? Chuta. Chegava lá, dava um chute no cara e ele... Puft, nocaute. Pronto, acabou! E o cara: “Pô, não entendi nada!” 

Eu, pelo conhecimento... Por que é que o mestre me mandou nesse torneio? Ele falou: “Pelo conhecimento que você tem, qualquer coisa que colocarem lá você sabe.”

 

P/1 – É verdade.

 

R – É. O primeiro que eu peguei: regra tae kwon do. Eu senti um orgulho imenso, eu peguei o aluno de um cara chamado Tan Tao Liang. Esse cara tem mais de cem filmes, é artista chinês famoso. Ele estava lá. Para mim, foi um orgulho tirar uma foto com aquele cara, porque era o meu ídolo. Ele tem um chute muito alto. Eu treinei igual a um louco para ficar igual ao cara e consegui, tenho um chute perfeito e ganhei. 

Segunda luta: regra de kickboxing, chute e soco. “Beleza! Maravilha!” Terceira luta, eu caí no grupo de judô, só queda. Eu ganhei de um americano, ganhei de um chinês e fui campeão sob um sul-americano, fui campeão do mundo nos Estados Unidos.

 

P/1 – Ah, foi campeão do mundo?

 

R – Campeão do mundo. Isso em 1993. Foi o auge ali. A década de 90, realmente, nas artes marciais, para mim, foi fantástica! Aquilo em que eu mais me desenvolvi, realmente, foi o kung fu. Nas outras artes todas eu lutei - judô eu fui vice-campeão metropolitano de judô; campeão brasileiro de muay thai; tae kwon do; kickboxing; mas o kung fu realmente foi o que eu mais aprendi.

 

P/1 – Manoel, eu estou vendo que nós vamos ter que fazer uma segunda rodada, porque a história é longa. Mas eu queria pegar umas coisinhas aqui. Você está contando muito de luta, mas você não descreveu com detalhes. Eu queria que você descrevesse duas grandes lutas suas com mais detalhes.

R – Duas grandes lutas? A primeira, como disse, foi um japonês. Ele era canhoto, eu era canhoto. Dois canhotos, com um detalhe: na época, em 1982, ele era um cara das artes marciais e eu era um iniciante que surgiu. 

 

P/1 – Isso foi onde?

 

R – No Ginásio do Pacaembu, eu ganhei por nocaute técnico. Tenho a foto com ele também, todo ensanguentado lá. O médico mandou parar a luta porque ele não parava de sangrar, aí [se] chama nocaute técnico.

 

P/1 – Conta então detalhes da luta.

 

R – É uma luta de três rounds de três minutos cada um. É uma luta que vale chute, soco, queda, então é uma luta bem completa, saiu muita pancadaria. É verdade. Essa foi interessante. 

Deixa eu ver outra mais: essa da Malásia realmente foi fantástica, porque foi um nocaute espetacular! Na China... Uma coisa que me chamou a atenção na China, me deixou assim, sabe? Eu fiquei honrado, para mim foi muito... Eu fiquei muito orgulhoso. Os chineses são justos - quem é bom, é bom; quem não é, não é. Então, não interessa se é o chinês ou é o ocidental. Eu ganhei a primeira luta, maravilha. Na segunda luta, o chinês ganhou o primeiro round. Voltamos para o segundo, lutamos o segundo round. Quando voltou, ele já tirou o protetor, os juízes deram a vitória para mim. Ele não acreditou, o cara ganhou o segundo... Aí voltamos para o terceiro. No terceiro, ele ganhou por pontos. Quando o juiz encerra a luta, o ginásio inteiro fica de pé e aplaude. Quando eu saí do ringue, não entendi nada, agradeci e perguntei à guia. “O que eles estão aplaudindo? Eu perdi a luta!” “Eles estão aplaudindo porque você é o único ocidental que não caiu. Não perdeu por nocaute, perdeu por ponto, então você é um lutador de nível.” Ou seja, o outro ganhou porque foi um pouco melhor, então eles aplaudem, eles valorizam o que é bom. Eu disse: “Nossa, eu achei...”

 

P/3 – Quando você falou isso da China... Você voltou várias vezes à China?

 

R – Não, só duas vezes. Em 1991, no torneio, e depois foi quando eu casei. Não voltei mais. Minha filha já foi, minha mulher sempre vai, mas eu não voltei mais. Eu não tenho ideia de como está a China, deve ter mudado muito e, realmente, mudou muito.

 

P/1 – Deixa eu lhe perguntar um pouquinho assim da... Porque você teve vários trabalhos.

 

R – Vários.

 

P/1 – Então vamos fazer essa lista, que é curioso. Você começa na pastelaria, aí você vai para a academia.

 

R – É.

 

P/1 – Trabalha dentro da academia.

 

R – É, o Jô Soares tinha me perguntado isso. Ele falou: “Pô, como é que você aguenta? É tanto horário...” Realmente, eu vivia com uma agenda que era puro horário, tinha aqueles horários seguidos. Vou dar um exemplo para vocês: eu trabalhava na... Depois que começou a parte da luta foi quando eu saí da pastelaria, então não existia mais a pastelaria; depois que eu voltei da China, casei, então realmente mudou muita coisa. Eu trabalhava na Folha de meia-noite às seis da manhã...

 

P/1 – Meia-noite às seis.

 

R – É.

 

P/1 – Fazendo o quê?

 

R – Distribuindo jornal, eu trabalhava com distribuição. Dormia até meio-dia, ia dar aula em Santo Amaro, numa academia - começava às duas horas e terminava três e meia. Corria para a Cidade Ademar para dar aula às seis horas da tarde. [Às] sete horas da noite eu tinha que estar na lanchonete para trabalhar até às onze da noite.

 

P/1 – No J’s.

 

R – É, no J’s.

 

P/1 – E você entregava.

 

R – Isso, entregava lanche. Do J’s eu já ia direto para a Folha, por causa... Era muito corrido e ainda tinha que treinar, sábado e domingo era para treinar. O senhor vê como mudam as coisas. 

Quando foi em... Para vocês terem uma ideia, eu vou contar para vocês como... Não é como encerrou, é que tudo você tem que... As coisas vão mudando e você tem que mudar junto. Em 1995, eu não tinha mais patrocínio, porque eles falaram: “Não é bem um patrocínio...” Esse Stalemir falou: “Olha, eu gostei de você, entendeu? Você é uma pessoa muito esforçada, então eu vou te dar uma força dentro das minhas possibilidades.” O cara me conseguiu três patrocínios, pô! Só o fato de você viajar para todo lugar e ter quem banque já era um milagre. Em 1995, não tinha mais nada disso; eles ficaram muito contentes e ganharam muito com a mídia. Meu amigo, você aparece no Globo Repórter, Jô Soares, com camisa estampada, com tudo quanto é patrocínio... Para isso eu nunca ganhei um centavo; também não estou reclamando não, eles me divulgaram. 

Em 1995, eu ainda era o campeão mundial nos Estados Unidos, em Orlando, só que aí vem o quê? O mestre: “E aí?” “Não dá, eu não tenho como ir.” Eu tinha uma filha de dois anos, enfim... “Eu tenho a minha vida, não dá.” Eu dei o meu lugar para o vice-campeão; fazer o quê? Então ele foi. Em 1998, eu ainda estava lutando e era campeão. Eu cheguei no torneio e aí falaram: “Olha, só deve ter uma luta para você, ninguém quer lutar com você.” “Mas como? Não entendi.” 

Resumo: fizeram as chaves. Quando chegou na última luta, o cara tinha ganhado, [iria] disputar com o Manoel. “Segundo lugar para mim está bom.” “Como assim?” Ele: “Meu amigo, eu vou perder de qualquer jeito, então é melhor ser segundo sem apanhar.” Eu disse: “Ô loco! Pô, cara, não é assim.” “Não, o que é isso?” Aí a Federação anunciou... Eu tinha isso em VHS, não sei o que aconteceu, onde sumiu, mas eu tinha gravado isso. A Federação anuncia: “O atleta Manoel Vasconcelos, campeão paulista por WO...” WO é quando não tem adversário. “... campeão brasileiro por WO pela 12ª vez e, a partir de agora, a Federação determina que ele ou se afaste dos ringues ou mude de categoria, porque não tem mais adversários.” Quer dizer, o que eu quero mais como lutador? Perfeito! 

Em 1998, foi quando eu não lutei mais. Em 2000 sofri o acidente, que eu achei que tinha afundado realmente. Você vê o que é a arte marcial, o que é a disciplina. Você continua trabalhando, seguindo a vida, mas você percebe que precisa de um motivo, alguma coisa para continuar. Foi o fato da academia, de voltar para o karatê. 

Outra coisa: eu sempre fugi do karatê, por quê? Não adianta você fugir do seu destino, ele está escrito e vai acontecer. Eu sempre fugi do karatê porque não tem limite de peso. Eu disse: “Pô, não tem condição de eu lutar com um cara de cem quilos.” Aí, volto; agora, com quarenta e seis anos, sou categoria veterana, não tem limite de peso, você pega qualquer faixa, qualquer peso. Eu disputei o Paulista no ano passado, perdi a primeira luta e disputei esse ano, domingo. Perdi porque saí do ringue três vezes e você não pode sair três vezes, mas dei uma queda no cara feia e o cara que ganhou foi vice-campeão, perdeu para um outro faixa preta. Peguei o cara de cem quilos.

 

P/1 – Cem quilos!

 

R – Então, o que eu falei... Daí a conclusão, é como se dissesse: “Olha, você tem tanto medo, então você vai ter que lutar com um para você ver que é difícil, mas não é o fim do mundo.” Estou eu aí, com quarenta e seis anos, disputando campeonato paulista de karatê kyokushin, sem limite de peso. Eu cheguei à conclusão: não adianta você fugir do que tem para fazer, porque você vai acabar fazendo. Porque eu levei trinta anos, já que quando eu cheguei aqui, no começo, era para fazer karatê e não comecei por causa disso. “Não, não tem condição.” Hoje estou eu aí. Outra coisa: karatê não tem proteção nenhuma, é assim, do jeito que está aqui, então são lutas muito duras. Mas eu estou aí treinando e o objetivo agora é terminar essas três faixas pretas. Espero que lá no karatê ninguém fuce lá na internet para não descobrir quem eu sou, porque eles não sabem até hoje quem eu sou.

 

P/1 – Até hoje?

 

R – É.

 

P/1 – Você está anônimo?

 

R – É, é isso o que estou falando para o senhor. É o seguinte: a memória do brasileiro. Por exemplo, no judô todo mundo me conhece. Nas outras artes, onde eu vou: “Professor...” No karatê, quando eu subi lá, perguntei: “O senhor me conhece?” Ele: “Não”. Estou treinando lá há quase dois anos e eles não sabem quem eu sou.

 

P/1 – Que bom! 

 

R – Menos mal.

 

P/1 – Você já contou então um pouco das lutas mas, ao mesmo tempo, como você é um cara muito bacana, muito trabalhador também, você teve vários tipos de...

 

R – ... de empregos. Vou dizer uma coisa: hoje, eu acredito que de fome eu não morro. Primeiro porque eu trabalho; segundo, eu sei fazer muita coisa. É aí que entra a humildade. Se a casa cair: “Olha, tem um emprego de balconista na lanchonete da esquina.” Foi o meu primeiro emprego em São Paulo, balconista. Eu sei servir um café, eu sei servir alguém. Depois de balconista eu passei a pasteleiro, inclusive eu vou dar um conselho a vocês: pizza... Eu sou um ótimo pizzaiolo. Você come pizza feita por aí com água, faz uma pizza com leite, maravilhosa! A massa, você não faz com água, faz com leite. É perfeita! 

Depois eu passei a ser chapeiro. Lanche, comida, essas coisas, entendo tudo. O táxi veio por causa do conhecimento das ruas: como eu comecei a trabalhar na Folha e trabalhar no J’s Hamburguer, eu fui obrigado a conhecer a cidade.

 

P/1 – Espera um pouco. Então, antes, no J’s, você era entregador...

 

R – Primeiro balconista, pastelaria. Depois pasteleiro, na pastelaria. Depois chapeiro, na lanchonete. Aí depois, na Folha de São Paulo, distribuidor de jornal, e J’s Hamburguer, entregador de lanches.

 

P/1 – De moto.

 

R – De moto. Eu tenho a fita gravada no Otávio Mesquita com a moto, entregando lanche; foi na época... 

 

P/1 – Professor.

 

R – [Em que eu fui] professor. Ah, de professor eu tenho que lhe contar isso, meu amigo: eu tenho uma fase da época de professor que é dureza. 

É o seguinte: eu procurei um emprego em empresas de segurança, porque me orientaram: “Você dá aulas de artes marciais, vai procurar empresas de segurança.” Aí eu fui a uma empresa de segurança chamada Centro Training - Formação e Reciclagem para Vigilantes. Cheguei lá e disse: “Olha, eu queria deixar um currículo; sou professor...”. “O senhor é professor de quê?” “De defesa pessoal.” Já me mediram de baixo para cima. “O senhor deixa o seu currículo aqui.” “Está bem.” Deixei. 

Uma semana depois ligaram: “É o senhor Manoel?” “Sou eu.” “O senhor pode comparecer no Centro Training?” “Posso.” Eu fui lá, [quando] cheguei lá: “Espera um pouquinho.” Sai um homem de lá, de bigodão... “Tudo bom com o senhor?” “Tudo.” “O senhor é o Manoel Vasconcelos?” “Sou, sou.” “Esse currículo é seu?” “Sim, senhor.” “Como é que uma pessoa com essa estatura tem cinco faixas pretas?” Eu disse: “Não sei.” E ele: “Nem eu.” Ele falou: “Posso conferir a autenticidade desse certificado, desse diploma?” “Pode.” Ele já tinha mandado a secretária ligar para tudo quanto é federação e realmente consta - eu sou registrado, eu tenho o diploma. Ele falou: “Senhor Vasconcelos, é o seguinte: eu fui delegado por mais de vinte anos, então eu já vi muita coisa. Num português bem claro, um professor de defesa pessoal com a sua estatura, para lidar com os homens que eu lido aqui, não tem chance. Como eu só acredito vendo, eu quero que o senhor me demonstre o que o senhor sabe fazer.” Eu disse: “Sim, senhor.” 

Ele pegou o telefone [e falou com] um outro professor que, por coincidência, se chamava Manoel: “Manoel, quantos homens nós temos na sala?” “Setenta e dois.” “O senhor me dá a sala por meia hora?” “Sim, senhor. Claro!” Aí eu fui lá. [Quando] cheguei lá, [era] formação paramilitar e formação militar. “Senhor Vasconcelos, os homens são seus.” “Sim, senhor.” 

Setenta e dois homens na sala. Eu: “Bom dia, senhores.” “Bom dia.” Pus o quimono, faixa preta, todo mundo olhando. Eu disse: “É o seguinte: o senhores estão aqui para aprender sobre defesa pessoal, correto?” “Correto!” Na arte marcial tem isso: se você tem uma voz firme, dependendo de como você fala, as pessoas já começam a lhe respeitar. Se você é muito molenga, eles levam na brincadeira. Eu disse: “Muito bem, eu quero saber dos senhores: quem tem cem quilos?” “Eu, senhor!” “Ótimo!” “Alguém com mais de cem quilos?” “Cento e quinze.” “Alguém com mais de cento e quinze?” Ninguém levantou a mão. “Vem você de cento e quinze.” Eu disse: “É o seguinte pessoal: eu vou começar pelo maior que tem, pelo mais forte, porque depois vocês não me falam gracinhas.” Eu falei logo, entendeu? 

“Tudo bom com o senhor?” “Tudo bom.” Cumprimentei-o e tal. Disse: “Eu vou virar de costas para o senhor - de costas - e o senhor vai me segurar do jeito que o senhor quiser. O senhor me segura e depois vai me dizer:  'Eu estou seguro.'” Ele: “Sim, senhor.” Quer vir aqui para eu te mostrar? É interessante. Tem alguém para vir aqui para eu mostrar como o cara...?

 

P/1 – Ah, aqui agora?

R – É, para você ver, é interessantíssimo.

 

P/1 – Vamos lá!

 

R – Vamos lá. Não saímos daqui, ficamos aqui mesmo, aqui mesmo dá. Eu virei de costas, o homem chegou e me segurou assim. Como sou baixinho e ele era muito grande, eu fiquei com as pernas balançando lá no chão. Ele segurou firme. Agora fica lá atrás de mim... Eu fiquei lá, balançando por debaixo dos braços, cruzei os dedos lá na cabeça. Está vendo? Isso! Eu falei para ele “Está seguro?” Ele falou: “Está!”. Eu disse: “Eu não saio daqui?” “Não.” Eu simplesmente fiz assim, ó… O que eu estou fazendo em você, a mesma coisa, está vendo? Como ele traçou os dedos eu fui lá e... Porque são as partes mais fracas do corpo. Peguei nos dedos dele e puxei de uma vez. O homem me largou no chão, a mão tremendo, porque eu fiz para valer. Todo mundo: “O que você fez?” Ele falou: “Não sei, mas quase que quebrou meu dedo.” “Como o senhor conseguiu sair daqui?” Eu disse: “Técnica. Arte marcial é técnica, a força ajuda. Se eu ensinar para o senhor essa técnica, quem o senhor segurar não vai sair, porque o senhor conhece a técnica. Mas sem conhecer a técnica, fica difícil.” E aí comecei: torção daqui, torção dali. Ensina para um, ensina para outro; o diretor olhava: “Está bom, 'seu' Manoel; pode deixar o Manoel assumir.” Me levou lá para o escritório: “O senhor começa na semana que vem.” Ele falou: “Impressionante!”

 

P/1 – Beleza!

 

R – Fui dar aula e começaram a surgir os problemas. Por quê? Cada aula é uma turma nova, são vigilantes. São pessoas que trabalham na área de segurança, aquele tipo de pessoas que já estão acostumados a lidar com brigas, então para eles nada surpreende. Começaram a surgir os problemas, porque eu era o menor que tinha lá dentro. Não tinha segurança do meu tamanho, ou seja, eu era um naniquinho; então, volta e meia aparecia um que queria espremer um pouquinho e eu era obrigado a me defender. Existem defesas que não tem jeito, machucam, não adianta. Dependendo da forma como a pessoa agride, você tem que machucá-lo para se defender, senão você não se defende. E era um para o hospital, outro para não sei onde… 

O diretor chegou: “Senhor Vasconcelos, nós temos um problema.” Eu disse: “O quê?” “Olha, o senhor é excelente, mas está quebrando o meu pessoal todinho. “Tem que pegar leve.” Eu disse: “Mas senhor, não sou eu, são eles que vêm para cima de mim. É só o senhor ver.” Porque tem câmeras... “É só o senhor ver nas câmeras.” 

Ele mandou ver as fitas e apareceu um caso de um cara que eu fui ensinar queda para ele. Quando eu fui ensinar queda, o cara quis me levantar e me derrubar ao contrário. Eu inverti a posição, taquei uma chave no pescoço dele e o cara: bum! Ele falou: “É, realmente. Mas vamos ver se a gente controla isso porque está difícil, está machucando muita gente.” Então, dava uma situação meio complexa. 

Primeiro exame: tem que dar a avaliação e eu sou um profissional, então eu ensinei e avaliei. Eu tinha cinquenta homens, uma turma - eu reprovei vinte e oito. Ele: “'Seu' Vasconcelos, se o senhor continuar me reprovando esse pessoal eu vou fechar. Não pode ser assim.” Aí é que eu fui aprendendo: infelizmente, você tem que dançar a música que se toca. Houve casos que eu pedi dispensa. Teve grupo de pessoas…

Veja bem, eu ensinava o quê? Defesa pessoal. Vigilante é para se defender de agressões físicas e havia pessoas que não tinham condições nem de se defender da mulher aleijada em casa, de tão ruins que eram. Não dava para aprovar uma pessoa dessas. Eu não vou assinar um documento dizendo que eu aprovei essa pessoa em defesa pessoal. Teve casos em que... “Olha, eu não vou assinar isso.” Ele falou: “Eu tenho que arrumar alguém para assinar.” “Pode arrumar. Eu não assino.” Eu sempre fui muito realista nisso. 

Eu tenho catorze alunos faixa preta, um deles é mulher. Na época, ela tinha dezesseis anos; hoje ela é PM em Santos, tenho contato com ela até hoje, é uma grande amiga. Mas os meus alunos aos quais eu dei faixa preta são faixa preta, porque eu ensinei e garanto aquilo. É que aconteceu... O que eu falei para vocês, do karatê. Eu dei um chute no moleque antes de ontem; o mestre tirou a faixa dele, porque ele era preta. As coisas têm que ser assim. 

Bom, trabalhei nessa empresa, Centro Training, e depois fui para a Estrela Azul, que era conhecidíssima, famosa. Fechou. Faliu. Dei aula muitos anos na Estrela Azul. E uma coisa interessante: eu treinei a segurança da Marta Suplicy.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, na época em que ela foi prefeita. A Prefeitura, a Secretaria de Segurança, determina um grupo de militares para fazer a segurança da prefeita. Só que, como eles vão trabalhar à paisana, eles têm que ter curso de segurança pessoal privada, faz parte da legislação da Polícia Federal; é estipulado isso, mesmo eles sendo militares. Eles têm que fazer esse curso. 

Eu treinei esse pessoal e foi interessante o seguinte: lá na cantina... Ela ia muito à cantina. Um dia, chegou lá e: “Ah, a Marta.” Eu disse: “Eu treinei a segurança dela”. E todo mundo riu. Outro dia, quando ela chegou, o homem abriu a porta, olhou para mim: “Dona Marta, por favor. Esse aqui é o nosso professor, foi ele quem treinou a sua equipe de segurança.” O pessoal ficou assim, ó: “Quê?” Ela: “É um prazer conhecer o senhor.” E era o major responsável pelo grupo, entendeu? 

Nas artes marciais, como diz o outro, eu já fiz essas coisas, mexi com isso... foi Estrela Azul, Centro Training e hoje taxista.

 

P/3 – Agora os prêmios. Você ganhava como campeão do mundo, essas coisas?

 

R – Não, senhor.

 

P/3 – Ganhava só medalha, não entrava nada de dinheiro?

 

R – Não. Os meus troféus... É o que eu digo para vocês... Um dos meus alunos falou: “Professor, o senhor foi campeão na época errada.” Realmente, hoje eu ganharia dinheiro; naquela época, eu pagava a inscrição para ir lutar. Você não ganhava nada. 

Eu dei sorte de conseguir aqueles patrocínios que me bancaram e eu viajei tanto... Mas dinheiro, você não ganhava nada. Eu não ganhei um centavo, nunca ganhei.

Olha, tem um episódio na luta. Em 1992... Foi interessante esse episódio... Vieram uns argentinos para cá - justo argentino - e eu fui campeão brasileiro. O desgramado cismou com a minha cara e me desafiou.

 

P/1 – Assim?

 

R – É. Eu falei: “Não. Eu sou um atleta, eu treino, não sou de bater em ninguém, não.” Só que ele era campeão argentino, mesma categoria que eu, mesmo estilo de luta. A Federação falou: “Você tem que aceitar o desafio, porque é uma coisa legalizada. Não é briga, é um desafio. Ou você aceita ou perde o título.” Eu disse: “O quê? Ah, então vamos lá.” 

Fui lutar em Buenos Aires e falaram: “Olha...” Foi o único dinheiro que eu ganhei com luta até hoje, hein pessoal! Eu ganhei quinhentos dólares, levei seis meses para receber, foi difícil, entendeu? Mas fui lá em Buenos Aires, meu amigo, dei uma surra nesse argentino... E foi legal. 

Eu fiz 74 lutas: perdi dezenove, empatei três, ganhei 52.

 

P/1 – 52!

 

R – É. Isso na época do auge.

 

P/1 – Que beleza! É uma carreira.

 

R – É uma carreira. Eu tenho uma revista do Éder Jofre - a revista está lá, é de 1960. Eu não era nem nascido, porque nasci em 1964, mas tenho essa revista autografada pelo Éder Jofre, que ele me deu.

 

P/1 – O Éder Jofre contou a história aqui.

 

R – O Éder Jofre contou?

 

P/1 – Contou.

R – Está vendo?

 

P/1 – Em 1992.

 

R – Olha!

 

P/1 – E eu queria que você falasse um pouquinho do táxi, que eu fiquei curioso.

 

R – Do táxi?

 

P/1 – É. Você começou a tocar o táxi quando?

 

R – Deixa eu lembrar... 1994. É, para 1995... Não, minto: 2000!

 

P/1 – Depois do acidente.

 

R – É, foi depois do acidente que eu parei de entregar o jornal. 

Você faz as coisas, às vezes, mais por fazer. Eu fiz o curso de taxista: “Vai que um dia precisa.” Realmente, não deu outra. 

É uma área que, para mim, é muito boa por causa dos chineses. Às vezes, eu pego chinês que não é de Pequim, fala cantonês, mas dá para se virar e eles se sentem mais à vontade. E a gente não se sente tão fora de rota. 

Eu entrei no táxi porque lá, primeiro... Eu trabalhava na Folha, a gente tinha um contrato. Aí houve uma fusão entre a Folha e o Estado de São Paulo e mudou a diretoria; venceu o contrato e algumas pessoas não renovaram. Eu fui uma delas. Eles me deixaram com seis funcionários que eu tinha - eu tinha duas peruas e seis funcionários para pagar cinco anos de direitos trabalhistas. Então, meu amigo... Como fui pobre a vida inteira, eu disse: “Eu não sou um cafajeste.” Eu vendi tudo o que tinha, usei os cartões de crédito e paguei todos os funcionários; tanto é que ninguém me colocou “no pau” até hoje, graças a Deus, porque realmente eu fiz a coisa certa. Como diz o outro: “Você leva uma rasteira e tem que levantar para começar de novo.” A mulher realmente me ajuda demais, me ajudou muito; o senhor sabe quanto custa uma hora de aula chinesa? Duzentos e cinquenta reais a hora. Ela dá aula de chinês direto. 

Houve um caso interessante: quando foi para comprar esse táxi, eu não podia comprar, era muito caro. A licença está na faixa de cento e cinquenta mil reais hoje, aí eu comecei na frota - pagava cento e cinquenta reais de diária. Minha mulher chegou em casa um dia: “Tem um amigo meu que falou que ajuda você a comprar o táxi.” Eu disse: “Legal.” Na época, era equivalente a trinta mil reais. 

Fui lá na Liberdade, no escritório dele: “O senhor Chang, por favor?” “Vasconcelos.” “Tudo bom?” “Tudo bom.” “Sua esposa falou que você precisa de dinheiro para comprar um táxi.” “É.” “Quanto o senhor precisa?” Eu disse: “Está na faixa de uns trinta mil reais, mais ou menos.” E ele falou: “Dois reais o dólar, então quinze mil dólares.” “É, mais ou menos isso.” O cara abriu a gaveta e pegou um maço de dinheiro: pá, pá, pá. “Vai comprar o seu táxi.” 

Meu amigo, aí é que está, saber... Meu pai me ensinou que você tem que andar com um pé na frente e outro atrás, e tem umas frases simples do Nordeste - “quando a esmola é grande, o santo desconfia”. Eu olhei e disse: “Então vamos fazer o seguinte? O senhor deixa eu falar com a minha esposa primeiro e aí depois eu volto.” “Tudo bem.” 

Eu olhei para a cara da Chao Nun [e disse]: “Tem coisa errada.” E ela: “Mas por que tem coisa errada?” “O cara nunca me viu na vida. Eu chego lá e ele me oferece quinze mil dólares assim? Um monte de dinheiro! Tem coisa errada.” Ela falou: “Vou ligar para o consulado.” Aí ligou para o consulado; como ela trabalha no jornal chinês, tem acesso a muita coisa. Ela deu o nome do cara, aí o consulado [respondeu]: “Deixa eu falar com o seu marido. Tudo bom, seu Vasconcelos?” “Tudo bem.” “Senhor Vasconcelos, o senhor fez muito bem. Esse cavalheiro que está lhe oferecendo dinheiro é da máfia chinesa, e é simples: o senhor vai comprar o seu carro, mas não vai parar de pagar para ele.” Você nunca para, você tem que estar sempre pagando, é como um aluguel que você tem... “O senhor vai estar submisso a ele direto.” Eu disse: “Deus me livre!” Você vê como eu escapei de uma? 

Daí eu fui trabalhar… Olha só, a história da minha vida é muito interessante. Eu não jogo, não bebo, não fumo. Graças a Deus não tenho esses vícios, acho que são vícios que prejudicam você muito. Na época dos bingos, tinha um bingo ali na [Rua] Mourato Coelho com a [Rua] Teodoro Sampaio, [se] chamava Pote Bingo. Eu estou passando de táxi, um segurança encostou: “Espera um pouquinho, vai levar o gerente em casa.” Saiu um cara de gravata: “O pessoal me leva no Grajaú, mas eu fico em Santo Amaro, é Grajaú.” “Cinquenta reais.” “Vamos embora!” Peguei o carro: “Tem um cartão?” Eu disse: “Tenho.” Dei o cartão para ele. 

Demorou uma semana, ligou o cara: “Você pode vir me pegar aqui no bingo?” “Claro.” Eu fui lá. Quando eu cheguei lá, entrei, aí o Valdir: “Vou chamá-lo lá em cima.” Fiquei lá embaixo, aquele monte de máquinas, uma barulheira danada e todas: pé, pé, pé. E uma coisa... Sabe quando te chama a atenção? Quarenta mil reais. 

Ele desceu. “Vamos?” Eu disse: “Posso perguntar uma coisa?” Ele falou: “Pode.” “O que é isso?” Ele falou: “O acumulado da máquina.” “Acumulado, quarenta mil reais?” Ele falou: “É.” “Mas tem quem ganhe?” “Ganha, é difícil mas ganha. Quer tentar?” “Não, cara. Eu tenho dez contos no bolso.” Eu só tinha dez reais e ia fazer a corrida dele, de cinquenta. Ele falou: “Tenta a sorte aí, vai que dá certo!” “Como é que faz?” Ele: “Põe o dinheiro aí.” Eu peguei o dinheiro... Uh! a máquina levou o meu dinheiro. Eu disse: “E agora?” Ele falou: “E aí, aposta três.” Apostei três: “E agora?” “Está escrito: jogar em turbo.” “O que é turbo?” Ele falou: “É rápido.” E eu meti o dedo. A máquina: bá-bá-bá… Quando chegou no número meia, meia, com trinta bolas, a máquina gritou: “Bingo acumulado!” O bingo parou.

 

P/1 – Você ganhou?

 

R – É. O cara: “O que é isso?” Eu disse: “Fiz alguma coisa errada?” Ele: “Não, cara, você só ganhou quarenta mil, setecentos e cinquenta.” Os caras chegaram: “Meu, eu jogo isso há cinco anos e nunca ganhei.” Eu disse: “Eu nunca joguei, meu amigo.” “Estou vendo!” Ganhei quarenta mil, setecentos e cinquenta. 

No outro dia, eu fui ao centro e comprei um táxi completo. Entreguei a frota e comprei na época um Vectra 98. 

 

P/1 – Que maravilha!

 

R – É, foi uma das sortes... Ou seja, de tudo o que eu fiz na vida, eu ganhei alguma coisa. Outra coisa: nunca mais entrei lá, pegava... O gerente morreu afogado na represa. Tomou uma cerveja, foi para a represa e morreu afogado. Mas eu ia lá pegar o gerente e ficava de fora. “Não, isso aí é vicioso. Você entra aí e quer jogar.” O que eu tinha que ganhar - chama-se sorte - aconteceu na minha vida. Não sei o porquê, mas aconteceu. Eu ganhei e comprei o meu táxi; acabou, não quero saber de jogo. Isso foi um episódio interessante também.

 

P/1 – Conta para mim, como é o seu cotidiano no táxi?

 

R – Não tenho horário para trabalhar. Por quê? Você tem que... Se é um mês fraco, férias, muita gente viaja, mas eu tenho uma clientela muito grande, porque eu não tenho horário. Ou seja, por que as pessoas pedem um táxi? Porque têm urgência, precisam de um táxi. Dependendo do horário, não é qualquer um que vai atender. Duas horas da manhã... Para você achar um táxi é meio complicado. Tem pessoas que me ligam, pessoal de balada, pessoal jovem: “Seu Vasconcelos, onde o senhor está? O senhor pode vir me pegar?” “Estou indo.” 

Eu levanto... Um dia desses, a mulher falou: “Você vai acabar morando com os seus clientes.” Porque eu levanto no meio da noite, de madrugada. Mas é um serviço que você tem que trabalhar com cautela, é perigoso. Semana passada, mataram um no Jabaquara e o coitado não estava fazendo nada. Estava esperando passageiro, chegaram e atiraram nele, então é uma profissão perigosa. 

Não pretendo envelhecer nisso. O meu projeto, como eu falei para vocês, é terminar minhas oito faixas pretas, e aí quero vender meu táxi com tudo para juntar mais algum dinheiro. Eu quero ver se compro o meu salão, porque já tive academias; não dá dinheiro, mas se tiver uma propriedade e tiver a minha academia, conhecimento é o que eu mais tenho. Eu vou montar a minha escola porque eu não tive a chance de ganhar dinheiro com lutas, mas eu posso fazer ganhadores: para isso você tem que ter uma escola. As pessoas novas que vão surgindo aí... Conhecimento de artes marciais é o que eu mais tenho.

 

P/3 – E ter muita hora livre para escrever o seu livro.

 

R – É. E eu quero escrever um livro, se Deus quiser. Eu tenho fé em Deus. Acho que isso aqui é um grande passo.

P/1 – Sem dúvida, porque você depois ainda vai receber isso tudo transcrito, ou seja, o texto...

 

R – Perfeito!

 

P/1 – De tudo o que você falou, então é meio caminho andado para fazer. Agora, antes da gente encerrar e avaliar eu queria que você contasse umas três histórias engraçadas ou trágicas da vida de taxista.

 

R – Olha, tem cada história! Eu não sei se pode contar, não...

 

P/1 – Pode.

 

R – Pode?

 

P/1 – Não tem censura, não é, Mozart?

 

R – Olha, eu estudei, então a nossa língua... Eu fiz Direito e uma coisa que eu discordo do Direito é o seguinte: nós temos leis demais...

 

P/1 – Você fez Direito onde?

 

R – Na Unip, aqui na [Rua] Sumidouro. Nós temos leis demais, mas não temos a aplicação delas - esse é que é o problema. Lei não falta, tem lei para tudo quanto é lado. O nosso problema, o problema do nosso Direito - eu não sei se algum advogado falou isso, se não falou deve saber - é a nossa língua. Por quê? Porque Direito é interpretação, certo? 

Nós temos uma coisa que se chama jeitinho brasileiro: o brasileiro se apoia nisso, usa as palavras e acaba desviando da Lei. Eu discordo de muita coisa, então estudei porque queria aprender sobre isso, saber sobre Direito. Mas para aplicar não dá. Você é uma andorinha sozinha, que não faz verão. 

Vou dar exemplo: perguntaram para mim - eu estava comentando sobre o caso do Daniel Dantas e falei que achava um absurdo. Aí falaram: “Não, você não sabe a causa, a prisão dele foi legal.” Tudo bem que seja, eu só não concordo com uma coisa: se eu ou o senhor formos presos hoje, a gente não é solto com menos de vinte e quatro horas, é muito difícil. Dependendo do caso você fica lá, espera o habeas corpus, tudo. 

Como é que o Ministro do Supremo me assina um habeas corpus [à] meia-noite para soltar um banqueiro? Isso aí é chamar o brasileiro de idiota, me desculpa. Se o Ministro do Supremo vir isto eu discordo dele, sabe por quê? Não faz sentido. Significa o quê? Traduzindo: o que manda no país é dinheiro, é poder. Por que esse banqueiro foi solto [à] meia-noite? Porque ele é poderoso, ele tem muito dinheiro. Uma pessoa com muito... Tanto é que os assessores dele ficaram presos por dias.

Eu bato muito de frente com... Não gosto nem de discutir, porque... Eu aprendi o seguinte: você faz certo para não fazer errado. Vou dar um exemplo simples: minha sogra sempre vai para a China e quando ela volta traz remédio chinês, porque já tem setenta e cinco anos e não está acostumada com esses remédios. Então ela vai, traz um pouquinho de remédio. 

Da última vez que ela foi, acho que a velhinha extrapolou e trouxe uma maleta cheia de remédio. Chegou na alfândega, não passa. Minha mulher me chamou, eu fui lá; me apresentei para o fiscal, expliquei. Ele falou: “É que a quantidade de remédio que ela trouxe não faz sentido para a pessoa usufruir, é como se fosse para venda.” Eu disse: “Não tem problema, vamos fazer a coisa certa: o que o senhor precisa para eu liberar esse remédio?” “Receitas médicas de cada um desses remédios.” “Não tem problema, meu amigo, eu vou providenciar isso e trago para o senhor em vinte e quatro horas.” E ele: “Tudo bem.” Voltei para casa, fiquei no telefone direto com a China, com um médico que a gente conhece lá. Passei o nome de todos os remédios; o cara mandou, via fax, a receita de tudo; eu levei lá, mostrei, ele conferiu. “Muito bom, doutor.” “Muito obrigado.” “Está bom!” 

Eu fiz a coisa certa, sem precisar burlar ninguém, sem precisar subornar ninguém. Está certo, está certo, está errado, está errado. Não tem meio termo.

 

P/1 – Seu Manoel, voltando para as três histórias de táxi para a gente…

 

R – De táxi, ai meu Deus do céu. Três histórias de táxi? Espera aí, deixa eu ver. Tem cada uma que é inacreditável! Você não acredita! 

Eu vou começar com uma simples, para você ver como as pessoas são. Eu estava passando na Avenida Higienópolis, um senhor de bengala fez sinal. Eu parei. “Tudo bom?” “Tudo.” “Para onde é que o senhor vai?” Ele olhou para mim: “Sabe que eu não sei?” Eu fiquei pensando por um segundo e disse: “Está bem, então eu vou sair andando.” “Isso!” Eu saí. Peguei a [Avenida] 23 de Maio, [Avenida] Ibirapuera… 

Você vê, [pra] tudo na vida você tem que aprender a lidar com o que você faz. Eu aprendi a lidar com o táxi: você tem que ter olho clínico, saber quem você pega e saber o que acontece. O que me veio à cabeça sobre aquele senhor? Por incrível que pareça, me veio à cabeça o seguinte: é uma pessoa que não sai de casa, eu acho que ele quer sair para passear um pouco. Aí fui... Ibirapuera, Museu do Ipiranga, passei por Santana, e o velhinho só olhando. Parei no Parque da Aclimação, ele: “Legal! O senhor me leva de volta agora?” “Levo sim!”

Levei ele lá. [Quando] chegou lá: “Filho, muito obrigado. Olha, eu estava precisando sair. Faz muito tempo que eu não saio, não faço nada. E não precisou falar muito. O senhor fez o que eu queria, muito obrigado!” Para você ver... O cara não sabia para onde ir; ele queria sair, passear um pouco. 

E tem aquelas escabrosas, de doer.

 

P/1 – Opa, conta uma!

 

R – Parei numa balada conhecida - Pink Elephant, na Faria Lima. Um casal: “Tudo bom?” “Tudo.” “Leva a gente lá na Bela Cintra.” “Tá bom!” “Taxista, posso fazer uma pergunta para você?” “Pode.” “Você não quer subir comigo lá, eu com a minha mulher? A gente faz um sexo a três, cara, é uma beleza!” Eu olhei para ele e disse: “Não, muito obrigado!” A mulher: “Tem certeza?” Eu disse: “Tenho.” 

Levei ele. Quando eu cheguei lá, pagaram a corrida e... “O senhor não quer subir mesmo?” Eu disse: “Não, senhor. Ai, meu Deus do céu, o que é isso, rapaz?” 

Outra vez, subindo a Augusta, de madrugada. Um casal, bem vestido. O cara chegou do meu lado: “Tudo bom?” “Tudo.” “Posso fazer uma pergunta?” “Pode.” “O senhor transa com casal?” Eu disse: “Não, senhor, eu carrego gente. O senhor vai para algum lugar?” Deu vontade de olhar para o táxi e... “Está escrito aqui motel, garoto de programa? O que é isso, rapaz?”  (risos) Acontece muito dessas coisas.

 

P/1 – E com os chineses? Como é transportar a turma dos chineses?

 

R – Os chineses… Por incrível que pareça, tem umas partes maravilhosas, porque quando... Como eu mexo no mundo das artes marciais, eu sei distinguir o que é um chinês, um japonês e um coreano. Primeiro porque eu falo chinês, um pouco de japonês, coreano. Ele abriu a boca, eu sei o que ele está falando, se é chinês, japonês ou coreano; eu já tenho noção. 

Às vezes, entra no meu carro e, conforme entra, eu já: “Nin chungojan?” “Você é chinês?” O cara: “Tué”, “Sim”. E começa a conversar,  mas tem uns que dão uma de desentendido. É que o chinês não gosta... O chinês... Tem uma parte que é difícil [de] entender. Se você não fala o idioma dele, ele não dá a mínima para você, você é excluído. E quando você fala o idioma dele, ele não gosta. É complicado, não dá para entender bem. 

Tem alguns chineses que eu pego, que a gente vai conversando; falo da minha esposa, digo que ela é de Pequim… Enfim, [é] muito agradável. Peguei um... Foram quatro, não, cinco chineses... Não pode carregar cinco no carro, aí eu disse: “Moça, não pode...” “Mas é ali pertinho, por favor.” “Tá bom!” Era curta distância, mas não pode. No meio do caminho, estou falando com ela: “Nin chungojan?” E ela olhou: “Hã? O quê? Não sou chinesa, sou japonesa.” Eu disse: “Engraçado, você é japonesa, mas eu perguntei para você em chinês e você falou que não é chinesa.” Que coisa! Eu sou maluco agora? Você entendeu? Porque eu perguntei: “Nin chungojan?” É: “Você é chinesa?” Ela olhou para mim: “Não, eu sou japonesa!”...

 

P/1 – Mas em chinês!

 

R – É. O que é isso? Então tem alguns que são complicados.

 

P/1 – E eles se impressionam com esse seu conhecimento da cultura...

 

R – Eles se impressionam. Quando eu casei e trouxe a mulher para cá, houve uma grande repercussão. Alguns chineses me respeitam, falam: “Nossa! Você é uma pessoa que realmente não existe. Fazer o que você fez, pela época!” Tirar um chinês da China não é fácil, a China é extremamente fechada. Você sabe que a China só se abriu depois de 1997, quando Hong Kong passou a fazer parte da China, mas antes disso era complexo tirar um chinês de lá. O consulado brasileiro na China só dá visto para turista que prove que tem dinheiro ou diplomata. O resto, os chineses estão aqui todos ilegais. 

O que eu estava dizendo? Eu tinha um assunto para falar, mas saiu da memória.

 

P/1 – Desse respeito que eles tinham por você, pelo seu conhecimento...

 

R –  Isso, isso. Uns respeitam, só que outros me olham torto, falam que sou abusado. Vou te dizer por quê: na China não tem quase mulheres, são poucas, é muito homem. Eu saio do Brasil, um país repleto de mulheres, vou para a China e tiro uma!

 

P/3 – Tira a mulher de lá.

 

R – É. Os conservadores não gostam disso, eles não acham legal. Às vezes eu saio com a minha filha… Como a minha filha tem os cabelos castanhos, ela só tem os olhinhos puxados, o resto é... E uma vez eu estava no restaurante com ela – de tanto conviver com chinês, a comida de que eu mais gosto é a comida chinesa, adoro comida chinesa – e um chinês falando para o outro: “Olha, o cara não tem vergonha. A menina tão novinha, tem idade para ser a filha dele.” A minha filha olhou para mim, eu olhei. A minha filha foi lá e falou: “Você tem razão, ele é meu pai. E o que você tem a ver com isso?” “Desculpa, desculpa.” Ele pediu desculpa em chinês. Às vezes, há esses contratempos, porque eles não sabem... Minha filha já é grandona, então eles não sabem o que é o quê.

 

P/1 – Para terminar, eu ouvi você citando para a Gabriela uma frase que eu achei muito bacana...

R – Qual? Acho que já sei: “Lutar para vencer”... Esqueci a segunda frase... “Acreditar no impossível, renascer das cinzas.”

 

P/1 – De novo.

 

R – “Lutar para vencer, acreditar no impossível, renascer das cinzas.” Eu resumo isso em mim: tudo o que fiz, tudo o que faço, depois do acidente voltar de novo. Sabe quando você se sente novo? Você diz: “Espera aí, tudo o que eu fiz eu posso fazer.” Não tem essa de dizer: “Você não consegue, você não pode.” Isso já vem desde o casamento, porque o que eu tive de contras foi impressionante. Todo mundo: “Você é doido!” Não faz sentido, casar com mulher que nunca viu, num lugar... Não tinha lógica. 

De tanto ver você falar em impossível, eu mostrei que era possível. Então, eu acredito, sabe... Por menos que você tenha condições, nunca diga: “É impossível!” Não existe impossível. As coisas mudam, tudo muda e tudo é possível, você só tem que acreditar. Que nem eu, eu estou acreditando nisso, eu acredito que isso vai virar um livro. Eu quero que vire um livro, que vire uma história, porque o amanhã que eu digo é daqui a dez, vinte anos, não sei. Eu não vou estar mais aqui, mas eu quero que fique o que eu fiz, principalmente na área do esporte, pelo meu país. 

Não é fácil você... Uma coisa de que eu não esqueço nunca, jamais: o americano, entre aspas, é muito individual, no aspecto de achar que o mundo são eles em si; não todos, lógico, mas a maioria acha que eles são eles e acabou. Não tem coisa mais gratificante do que você sair daqui, ir lá para os Estados Unidos, subir num pódio com cinquenta e dois países de pé - são representantes de cinquenta e dois países - de pé, para ouvir o seu hino nacional. “Campeão do mundo: Brasil!” Não ganhei um centavo por isso, mas ganhei a honra para o meu país, ou seja, você, você e você, que nunca lutaram, são campeões porque eu fiz isso por vocês. Quando eu estava lá, eu não era o Manoel; era o Brasil, estava representando cada um. Para muita gente não têm significado nenhum, mas para mim tem muito, vale muito.

 

P/1 – Manoel, você falou uma coisa que me chamou muito a atenção na hora em que estava desligada a câmera. É que a sua admiração e a sua paixão pela cultura oriental é tão grande que uma passageira te confundiu...

 

R – Com um oriental.

 

P/1 – Como é que foi essa história?

 

R – Eu peguei uma passageira. Conversando com ela, ela falou: “Olha, vocês orientais são muito diferentes da gente, mas é muito interessante, a gente aprende muito com vocês.” Eu olhei para ela: “Mas... Vocês orientais?” “É, o senhor não é chinês?” “Não, senhora, eu sou pernambucano.” “Mas o senhor tem os olhos puxados.” Eu disse: “É a convivência! Eu sou casado com uma chinesa há vinte anos, é por isso.”

 

P/3 – Eu lembrei de uma coisa relativa ao táxi. Quando entrei no seu táxi, vi a bandeirinha de Pernambuco e comentei: “Você é pernambucano?” E você falou: “É o primeiro cara que reconhece a bandeira de Pernambuco.”

 

R – No Brasil tem muita gente que não sabe a bandeira do seu estado.

 

P/1- É linda a bandeira de Pernambuco!

 

R – Muita gente não sabe. Eu vou ser claro com vocês: eu conheço a bandeira de alguns estados, todos eu não conheço. Conheço a de Minas Gerais, a de São Paulo, conheço a de Goiás. A do Paraná e a da Paraíba, que tem aquela frase lá que todo mundo conhece, e a de Pernambuco. Os demais eu não conheço. Muita gente chega no meu carro e fala: “Essa bandeira é de que país?” E eu falo: “É lá da terrinha, rapaz, lá de Pernambuco.” O cara olhando para mim: “De Pernambuco?” Eu digo: “É.”

 

P/1 – A gente já vai encerrar. Gabriela, Mozart, vocês querem fazer alguma pergunta?

 

P/2 – O que você falou agora da convivência, acho que você falou pouco. Como é que foi quando a sua mulher chegou? A convivência com ela, uma pessoa que você não conhecia.

 

R – Olha, eu vou contar para vocês... Realmente, digamos que eu... Quando você quer muito uma coisa, você esquece os detalhes, os obstáculos. Infelizmente, o ser humano é assim: ele foca só aquilo que ele quer. Tem coisas que eu não posso contar - não é que eu não posso contar para vocês, é que são coisas particulares e não faz sentido lógico. 

Eu vou dizer para vocês: é diferente em tudo, da cama à cozinha. São pessoas muito diferentes da gente. Eles levam a coisa muito a sério. O chinês é de um jeito que você tem que tomar cuidado com o que você fala, porque a gente fala muito de brincadeira. A gente tem o hábito de falar: “Ah, eu estava brincando...” O chinês não fala brincando. Se ele falou, é aquilo o que ele falou. O que você fala você tem que cumprir. É como na época do meu pai, do meu avô, que a palavra de um homem não precisava de papel assinado. O chinês... Na China, lógico que tem muita gente sem vergonha, como em todo lugar do mundo. Mas os chineses que são decentes, que são honestos, eles são honestos mesmo, eles são justos. Digamos que o meu aprendizado dentro de casa só aumentou com isso. 

Sabe uma coisa - eu não sei se falei para vocês na entrevista... Quando a minha filha... Eu falei da minha filha, que a mãe dela pediu para ela educar e não deixar que eu me intrometesse, porque falou que a gente educava muito mal. O meu pai tem catorze netos e um bisneto. Ele ligou para mim, um dia, e falou: “Filho, eu tenho uma coisa interessante.” E eu falei: “O quê?” “Só a sua filha fala ‘bênção, vovô’. Os outros todos são: ‘Oi, vô’, desse jeito!” 

Eu fui criado assim. Eu andava com o meu pai, que é uma pessoa mais velha, que nem o senhor, por exemplo; eu tinha que pedir a benção para o senhor, eu fui educado assim. Então, eu ensinei para as minhas filhas. Elas... Se eu ligar para elas dez vezes, elas falam: “Benção, pai.” Dez vezes! Eu ligo agora: “Oi, filha.” “Benção, pai.” “Deus te abençoe. Tá bom, eu vou ver aqui e te ligo.” Daí eu ligo de novo: “Oi, filha.” “Benção, pai.” Entendeu? Segue à risca. 

Na minha família tem umas regras interessantes, eu não falei isso para vocês. Minha esposa, minha filha e eu - nós três conversando, certo? Eu estou falando com a minha esposa em português; aí, ela fala para a minha filha em chinês. A minha filha fala para mim em português, eu falo para ela em português, ela fala em chinês. Ou seja, só quem fala somente chinês é a minha filha, só ela fala chinês. 

A mãe fala chinês para ela, não deixa ela falar em português. Quando ela esquece, às vezes está no embalo da conversa, e ela: “Mãe!” Ela olha para mim: “Wou puton”. Wou puton é “eu não entendo”. Ela: “Mãe, é claro que a senhora entende!” “Wou puton!”, não quer saber, ela tem que falar em chinês. Por quê? Porque ela aí, realmente, aprende. Ela passeia, se diverte como todo mundo, mas não sai de casa sem a lição estar pronta; os compromissos são em primeiro lugar.

 

P/3 – Só uma coisa: a chegada da sua mulher ao Brasil. Como é que foi a reação dela aqui? E se hoje, por exemplo, ela “traça” uma feijoada.

 

R – Vou explicar. É o seguinte: os chineses são muito sofridos, muito. Então, para eles uma dificuldade tem que ser realmente uma dificuldade. Bobagem não é dificuldade para eles. 

Muita gente pergunta: “Ela se adaptou aqui? Como é que foi?” “Se adaptou muito bem, e rápido.” Ela falou uma coisa interessantíssima para minha filha: “Vocês brasileiros… Para minha filha, que é brasileira: “Vocês têm três coisas que o mundo não tem, vocês não valorizam.” A minha filha: “O quê, mãe?” “Vocês não vivem em guerra com ninguém, não têm fenômeno da natureza que destrói meio mundo e tem a melhor alimentação do mundo, não se come melhor do que no Brasil.” 

Voltando à feijoada, que o senhor me perguntou: eu ensinei para ela, expliquei para ela como fazer uma feijoada, ela aprendeu. Meu amigo, ela acrescentou uma coisa e ficou perfeita: gengibre. Maravilhoso! É um gosto que ela tem, estranho, de comer, é abacate com feijão, com feijão normal, temperado - coloca abacate no meio e come junto, entendeu? Então tem umas comidinhas que não dá para descer.

 

P/1 – Na entrevista da Folha, você fala que quando ela veio para cá ela fazia o quê? Ovo com açúcar... Como é que é?

 

R – Não, não é ovo com açúcar, é feijão com açúcar. Acho que foi isso, eu não me lembro, faz tantos anos. Ela come... É que o chinês mistura muito coisa doce com coisa salgada, é diferente da gente, inverte muito nisso. Tem algumas comidas que ela fala que não dá para descer, não tem jeito. 

Sabe o que eu faço com as minhas filhas, de vez em quando? Chega quarta, sexta-feira, a gente cai fora e vai comer uma costela, um picadinho, uma coisa diferente, porque lá em casa é só comida chinesa. Se você chegar na minha sala, tem uma mesa com duas garrafas térmicas - uma vez me perguntaram e queriam saber por que na cozinha tem duas garrafas térmicas; no quarto, duas garrafas térmicas; no banheiro, duas garrafas térmicas. Mas por que tanta garrafa térmica? É que uma é com água fervida e a outra é com chá sem açúcar, chinês não bebe água gelada...

 

P/3 – Só bebe água quente.

 

R – É, água quente e chá sem açúcar, isso é fundamental. Por exemplo, nós brasileiros... Quem fuma tem o hábito, cigarro do lado... Chinês é um copo. Com o quê? Com chá sem açúcar. No trabalho deles, você vai em qualquer escritório tem um copo lá, com chá sem açúcar. E olha, realmente, é bom mesmo. Você vê a minha mulher... Ela tem quarenta e nove anos e parece que tem trinta, entendeu? Então, até nisso eu acertei. Não tenho uma velha gorda em casa me esperando.

 

P/1 – Seu Manoel, então... A gente já falou bastante, já contou do seu sonho, o que é importante também, então...

 

R – Opa, espero que vocês ouçam falar mais de mim, se Deus quiser.

 

P/1 – Vamos ajudar para que se fale mais.

 

R – Porque eu quero... Quando eu falei para vocês em formar nessas faixas pretas, eu vou homenagear os meus mestres, que são mais de dez. São pessoas que me ensinaram o que eu sou hoje e eles não se conhecem entre si, só alguns. Eu tenho o plano de reunir todo esse pessoal, homenageá-los, e quero ver se no futuro eu consigo entrar no Guinness. É o que eu quero, se Deus quiser.

 

P/1 – E o que você achou de contar um pouco da sua história aqui, no Museu da Pessoa?

 

R – Meu amigo, eu adoro contar a minha história para todo mundo, conto para quem perguntar. Chamou para contar a minha história, eu estou lá. Tanto é que chego adiantado, não me atraso, fico muito contente. 

Se quer saber da minha história, eu tenho o maior prazer em contar e falo, porque aí vocês gravam e deixam gravado. Não se preocupem com aquelas cláusulas, porque eu não quero nada em troca. Eu quero a divulgação, quero que o mundo saiba. Pra mim isso é fundamental porque a gente não leva nada daqui; pelo contrário, a gente deixa. Eu quero deixar algo interessante. No futuro, sei lá, [daqui a] vinte anos: “Pô, olha, meu pai conheceu esse cara.” Acho que isso é interessante.

 

P/1 – Ótimo, então muito obrigado.

 

R – De nada.




 

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