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O surfe e o skate me levaram pro lugar que eu estou hoje

História de: Guilherme Malpighi Amado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Guilherme Malpighi Amado nasceu nna cidade de Santos, masm orou muito tempo perto da represa do Guarapiranga em São Paulo, onde conviveu com a natureza e alcançava as pitangueiras do quarto. Com 13 anos ganhou a primeira prancha de surf, esporte que nunca mais largou. O surf o levou para muitos lugares e escolhas.

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História completa

Meu nome é Guilherme Malpighi Amado. Eu nasci no dia 11 de maio de 1974, na cidade de Santos. Meu pai chama Rui Antônio Amado. Ele nasceu em Santos também, no dia 13 de junho de 1943. E a minha mãe se chama Iara Malpighi, nascida em Santos também no dia 27 de fevereiro de 1943. Os dois nasceram no mesmo ano. A família do meu pai tem origem portuguesa, eles vieram da cidade de Coimbra como imigrantes e permaneceram na cidade de Santos. E da parte da minha mãe, tem a parte do meu avô materno que é italiana, eles vieram de uma cidade de Bologna, uma cidadezinha chamada Crevalcore, inclusive pra trabalhar com o café, como colhedores de café na época; e tem uma parte que é da minha vó materna que são pessoas de Santos mesmo, são caiçaras. Então eles encontraram lá e tem a junção dos dois. Então tem brasileiro e é nessa parte de caiçara, aí tem negros, índios, locais desse lado junto com italiano, com português e tudo isso sou eu hoje.

 

Nós morávamos numa casa na represa de Guarapiranga. Quando chegamos não tinha nada em volta; estrada de terra, o terreno era um pasto. Minha mãe construiu a casa e era um local muito gostoso de viver. Nós acompanhamos desde o plantio das árvores o plantio de todos os arbustos que tinha, do gramado. Essa casa tinha vidros grandes na sala, era extremamente aconchegante. Da minha janela eu lembro que tinha uma árvore frutífera, era uma tangerina, eu podia estender a mão e colher. Infelizmente pela questão do trânsito em São Paulo ficou inviável continuar lá. Eu lembro que as mulheres sempre cantavam, elas cantavam em todas as atividades. Minha vó estava cozinhando, estava lavando roupa, e a minha mãe a mesma coisa, sempre cantarolando. E o meu pai também. Meu pai é pianista e sempre estava tocando ou tinha uma música como pano de fundo. Minha vó não contava histórias, contava piadas. Piadas ótimas, com um sarcasmo muito ácido. Nossa família sempre teve esse lado debochado, assim, muito escrachado. As reuniões eram barulhentas, todo mundo dando risadas. Sempre teve esse lado de puxar mais para o cômico do que para o lado de dar lição de moral.

 

Eu e o meu irmão, lembro que nós brincávamos nesse terreno perto de casa, que era um campo de brincadeiras de todos os tipos. Nós aproveitávamos toda essa parte verde, mas também íamos pra rua. Aí na rua era empinar pipa, eu lembro que tinha tudo tradicional, peão, figurinha a gente fazia também, batia figurinha. Nós tínhamos brinquedos também, sempre tivemos acesso a todos os brinquedos, mas eu lembro que nessa época eram brincadeiras muito ao ar livre, sempre aproveitando o terreno, correndo pra cima e para baixo. Depois mais pra frente foi que eu comecei a andar de skate, depois a surfar, pegar onda. Isso deu outro significado pra minha vida até de escolhas. Eu acho que o surfe e o skate foram ações que me tomaram, levaram-me pro lugar que eu estou hoje até. A primeira vez que eu surfei foi na praia de Pitangueiras, no Guarujá, eu devia ter uns treze anos. Lembro que o mar estava supergrande. A gente pegava a espuma, entrava com água até a cintura e tentava pegar a onda, remar na prancha, que era uma prancha grande, e ficar em pé. Esse momento eu lembro até hoje, foi uma coisa marcante. Na época tinha poucas pessoas que surfavam. Hoje já é um inferno, tem surfista pra todo lado, mas na época não era um esporte tão difundido. Sempre que eu podia eu ia pra praia pra pegar onda, então estava lá motivado pra fazer isso e até hoje. Hoje eu ainda continuo surfando, faço kitesurf também. Skate menos porque eu tenho medo de cair, meu corpo já não é mais o mesmo, mas eu lembro que isso daí foi uma grande mudança do antes pro depois.

 

Eu fui uma criança que não fez a pré-escola. Eu ficava em casa mesmo, eu e o meu irmão. Eu comecei a ir à escola com seis pra sete. Então antes disso eu não sabia ler. Eu fui sorteado na escola de aplicação da USP, que é uma escola superboa pública, estadual. Normalmente são vagas para filhos de funcionários da própria USP e depois se tem alguma vaga sobrando, eles oferecem como. Eu entrei na primeira série, era uma escola que ficava longe de casa, no final eu pegava esse trem aqui pra ir de casa até o colégio, mas a minha lembrança inicial é que realmente foi um choque de entrar na escola, de estar nesse primeiro passo aprendendo a ler, a escrever. Imagina, eu entrei sem saber nada. Lembro-me de ter feito novas amizades, inclusive tenho alguns amigos até hoje dessa época que são marcantes, que são amigos mesmo. Foi uma educação, assim, pra mim bem boa em qualidade, tive professores muito bons que abriram a minha cabeça pra muitas coisas. Não era uma educação assim by the book, era uma educação bem aberta. Eu tive aula de filosofia, inglês, francês e os professores eram da própria universidade. Depois da escola, acabei escolhendo Direito por não ter outra coisa em mente. Foi meio por falta de opção, eu sabia que era lado de humanas, né? Não entrei no primeiro ano na faculdade. Eu saí do terceiro colegial, aí prestei, não passei, eu acho que eu só fiz Fuvest e no outro ano, eu fiz um ano de cursinho no Anglo da Sergipe, e aí eu acabei entrando na PUC aqui em São Paulo. Eu terminei o curso de Direito e trabalhei em um escritório de advocacia, mas eu não estava feliz. Eu não tinha vontade de acordar e ia para o escritório meio que arrastado, falando: “Nossa, eu tenho que ir de novo lá!?”. Eu tinha 23 para 24 anos e estava com o stress num nível bem alto. Aí chegou um momento que não aguentei mais: “Não é isso que eu quero fazer na vida”. Já era uma coisa que eu estava meio que segurando, porque eu sou teimoso, não gosto de dar o braço a torcer, mas não dava mais. Eu tive essa vontade e foi uma coisa que eu fiz: “Mas e agora? Vou sair daqui e vou pra onde?”. Acabei fazendo bicos como garçom, trabalhei como jardineiro, trabalhei em um estúdio de som fazendo mixagem pra espera telefônica, mas realmente foi uma época difícil, um momento de crise existencial total.

 

Em 2000 um primo meu saiu do Brasil num barco de veleiro para dar a volta ao mundo. Atravessaram o Canal de Panamá e chegaram ao Havaí no ano de 2002, mas o amigo que estava com ele na época quis voltar, então meu primo me ligou: “Guilherme, você não quer vir ser tripulante do barco?”. E em abril de 2002 eu fui para a ilha de Oahu, no Havaí. Lá eu fiquei com o barco um ano parado, surfando e trabalhando como jardineiro. Eu tinha conhecimento de plantas, porque minha mãe sempre puxava esse lado da gente. Falava: “Essa árvore aqui tem tal nome”. Então além de saber o nome popular eu sabia o nome científico. Isso impressionava as pessoas. Eu ganhava dez dólares por hora e consegui juntar dez mil na época. Foi uma época muito feliz da minha vida, porque eu estava lá trabalhando, ganhando dinheiro e sem preocupação. Eu estava no Havaí há seis meses e um dia a Adriana, a namorada com quem eu estava há três anos, me ligou: “Estou grávida”. Fiquei, imagina, estava no meio do supermercado lá, eu recebi a ligação. Comprei um cartão telefônico e liguei de volta: “Que aconteceu?”. “Ah, você vai ser pai”. Eu desliguei, assim, fiquei pensando. Um tempo de depois voltei a falar com ela e aí a gente conversou. Acho que ela estava meio que esperando que eu fosse voltar, mas eu falei: “Não vou”. Porque eu sabia que se eu voltasse, não ia ter mais aquela oportunidade, o que realmente era verdade. Mas a partir desse sexto mês eu fiquei o tempo todo com esse pensamento: quando eu voltar pro Brasil eu terei uma filha. Depois do Havaí, a gente preparou o barco, atravessou o Pacífico e fomos para as Ilhas da Sociedade, que ficam na Polinésia Francesa perto do Taiti. Foram 21 dias de mar e a ideia era permanecer um tempo lá, só nessa vida de cruzeiro, e depois chegar até a Nova Zelândia. O Taiti é um lugar fantástico, paraíso total com poucas pessoas, então foi muito bom. Eu peguei muita onda, surfei muito e lá não trabalhava - nem tinha trabalho. A gente só surfava, mergulhava, pescava e curtia. Aí em 2004 a namorada do meu primo se formou em arquitetura e foi para o barco viver com ele. Quando ela foi eu voltei, porque três no barco não dá.

 

Eu lembro que o avião faz a primeira parada na Ilha de Páscoa aí depois vai a Santiago, de Santiago pra São Paulo. Quando você vê atravessando os Andes cheios de terra já é uma sensação bem estranha. Aí eu comecei a pensar em trabalhar na parte de meio ambiente. Preparei um currículo, fiz entrevistas, mas não acabei sendo contratado. Fiz então uma Pós em Gestão Ambiental no Senac, e foi isso que me abriu a vista. Nessa época, por coincidência, eu tive contato com meu ex-chefe, que era de uma empresa de consultoria de Santos. Ele tinha estado na Nicarágua fazendo auditorias em fazendas de café na parte de sustentabilidade e a pessoa que estava com ele foi embora. Então eu fui contratado em 2006 para um novo trabalho: escrever relatórios sobre auditorias de sustentabilidade. E mesmo sem conhecer nada de café, de fazenda, de agronomia, eu peguei gosto pela coisa. Hoje todo mundo acha estranho um ex-advogado estar trabalhando com café. Fiquei cinco anos nessa empresa e aí tive contato com um grupo de fazendas que trabalhava com o programa de sustentabilidade da Nestlé. Naquela altura eles precisavam de alguém para dar apoio técnico no processo de certificação. Eu lembro que depois, em 2011, houve um evento de celebração para justamente comemorar que essas primeiras fazendas tinham sido certificadas. Nesse evento eu conheci o meu chefe atual e ele falou que estava abrindo uma posição para cuidar do programa de sustentabilidade aqui no Brasil. Depois de um tempo eu acabei sendo contratado. Hoje minha função é visitar as fazendas e conversar com os agrônomos e também com os nossos parceiros comerciais em cada uma das regiões, então a minha função é de justamente gerenciar esse pessoal para ver se efetivamente eles estão trabalhando com o que deveriam, que é justamente melhorar a questão de qualidade, de sustentabilidade e produtividade das fazendas.

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