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História

O sonho rural de morar em São Paulo

História de: Berenici Vieira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/05/2004

Sinopse

Nesta entrevista, Berenici conta um pouco da sua breve infância na cidade de Rio Novo, sobre as brincadeiras com as crianças que moravam por perto e as pescarias nos riachos próximos da sua casa. Fala de quando se mudou para São Paulo e depois saiu da casa de seus pais para se casar. Conta também do nascimento das suas duas filhas e da separação que ocorreu entre elas após o divórcio com o marido e pai das meninas. Berenici informa sobre as dificuldades que enfrentou para encontrar um lugar para morar e o medo de não conseguir um emprego estável. Discorre sobre a gratidão de estar na equipe da empresa Aché por mais de 15 anos, das amizades que tem no trabalho e da conquista da casa própria, que divide com uma das filhas. E por fim, informa sobre a vontade de dar condições para que seus netos estudem e o sonho de encontrar um companheiro.

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História completa

P/1 -  Berenici, para começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Berenici Vieira, eu nasci no dia 6 de fevereiro de 1957, em Rio Novo, Minas Gerais.

 

P/1 – Como é Rio Novo?

 

R – É uma cidade pequena.

 

P/1 – E a sua família é de lá mesmo?

 

R – São todos de lá.

 

P/1 – Como chamam-se seus pais?

 

R – Geraldo Vieira e Geralda Eusébia.

 

P/1 – Você sabe um pouquinho da história deles, como é que se conheceram, o que eles faziam?

 

R – A, infelizmente eu não sei. Eu não conheci meus pais. Vivi com eles até os dois anos.

 

P/1 – O que aconteceu Berenici?

 

R – Minha mãe faleceu, e meu pai pegou as crianças e distribuiu. Foram todos adotados.

 

P/1 – Você tinha muitos irmãos? E quais são os nomes dos seus irmãos?

 

R – Somos em quatro. É Marco Francisco, Maria dos Anjos e Albino.

 

P/1 – E cada um foi morar com uma família lá da vizinhança?

 

R – Sim, eu fui morar com a Mercedes e o Antonio.

 

P/1 – E você continuou morando em Rio Novo?

 

R – É fiquei lá até meus oito anos.

 

P/1 – Que lembranças você tem dessa época? Dos dois aos oito anos?

 

R – Ah [risos], eu gostava muito de lá,  eu brincava muito, pescava, eu gostava de pescar  meus pais eles saiam, iam pescar e eu também ia, eu adorava.

 

P/1 – Ia pescar aonde?

 

R – É um riozinho que tinha lá perto,  no próprio terreno da gente.

 

P/1 – Como é que era essa pescaria?

 

R – De anzol, [risos] e minhoca, que eu pegava na roça.

 

P/1 – Pescava o que?

 

R – Lambari, traíra, cará, peixinho de água doce. Era muito gostoso. 

 

P/1 – E que outras brincadeiras tinham?

 

R – De balança. Gangorra, naquela época era gangorra, aqui é balanço.

 

P/1- Como é que era?

 

R – Amarrava uma corda no galho de uma árvore, com uma tabuinha e a criançada brincava assim. Brincava de roda [risos].

 

P/1 – Com que crianças você brincava?

      

R – A gente ia visitar os vizinhos que tinha criança e a gente brincava.

 

P/1 – Você lembra de alguma cantiga de roda?

 

R – [risos] Ah, eu agora não lembro. Mas eu sei que a gente brincava muito.

 

P/1 – Como era o lugar que vocês moravam?

 

R – Bom, tinha muita plantação, cana, plantava arroz, feijão, milho.

 

P/1 – E quem trabalhava na roça?

 

R – Meu pai e minha mãe e eu ia junto. Eles plantavam para eles e para outras pessoas.

 

P/1 – E o que você fazia?

 

R – Ficava sentada, pertinho deles, eles trabalhando e eu plantava feijão e ficava por lá.

 

P/1 – E o que mais você lembra dessa época ? Vocês acordavam e iam pra roça cedinho?

 

R – É cedo e levava comida e de tardezinha nós vínhamos embora.

 

P/1 – O que se fazia a noite?

 

R – Dormia cedo, lá não tinha energia elétrica nem nada. 

 

P/1 – E as notícias, como é que chegavam?

 

R – Pelo rádio. Radinho a pilha [risos].

 

P/1 – Você gostava de ouvir rádio?

 

R – Gostava.

 

P/1 – E pra cidade, vocês iam para a cidade?

 

R – Onde a gente morava mesmo chama Guaianá, é bem mais afastado. Ia para Rio Novo, que era bem mais movimentado, e Juiz de Fora de ônibus, mas andava. Tinha uma boa caminhada a pé, para chegar no arraialzinho para pegar ônibus.

 

P/1 – E você gostava de ir passear?

 

R – Gostava, eu era criança e gostava de passear.

 

P/1 – Ia fazer o que em Rio Novo?

 

R – Ah, tinha médico às vezes, ia comprar roupa...

 

P/1 – E escola? Tinha escola?

 

R – Tinha. Eu frequentei escola, pouco tempo.

 

P/1 – O que você lembra dessa escola?

 

R –  Bom, [risos] eu lembro que lá nessa escola tinha canavial, tinha um pé de laranja lima, nossa na hora do recreio, a gente corria para lá. Não podia ir. Não era nem laranja lima, era lima mesmo sabe? Era escolinha de roça simplezinha. Era uma casa e uma sala para a escola. 

 

P/1 – Você lembra da professora?

 

R – Ah, eu não lembro muito não.

 

P/1- E dos coleguinhas?

 

R – Mais ou menos, não lembro direito não.

 

P/1 – Não e lá você estudou que série?

 

R – Primeiro ano.

 

P/1 – Qual a lembrança mais gostosa que você tem?

 

R – De pescar. [risos] Quando podia saia para pescar. Eu tinha uma varinha e anzol e pescava e depois cozinhava e comia.

 

P/1 – Com oito anos para aonde vocês foram?

 

R – Viemos para São Paulo.

 

P/1 – Você lembra dessa viagem de vinda para São Paulo?

 

R – Ah, não. Eu sei que viemos para cá. Quando eu completei nove anos eu estava em Santos, onde ficamos pouco tempo e depois viemos para cá.

 

P/1 – Você lembra da primeira vez que você viu o mar?

 

R – [risos] Eu lembro sim, nós não conhecíamos o mar, aí conhecemos. Foi legal.

 

P/1 – O que você achou?

 

R – Foi legal. Me levaram, uma família que conhecia e meus pais me levaram. 

 

P/1 – O que você achou?

 

R – Ah, eu gostei do mar [risos].

 

P/1 – Seus pais vieram para São Paulo por quê?

 

R – O sonho. O pessoal que mora na roça, eles querem vir para a cidade.

 

P/1 – A vida lá era difícil?

 

R – É difícil. Era gostosa, vida de roça, mas tinha o sonho, vamos para São Paulo, todo mundo falava em São Paulo e viemos.

 

P/1 – Você lembra aonde vocês foram morar quando chegaram?

 

R – Nós viemos para o Belém. Meus pais vieram para trabalhar para uma família de portugueses. Daí fomos para Santos para eles trabalharem como caseiros. Voltamos para São Paulo e fomos morar na Vila Matilde, eles também tinham casa lá, tinham muitas casas aqui.

 

P1 – Dessas casas que você morou quando chegou em São Paulo, qual é a casa que você tem mais recordação?

 

R – A da Vila Matilde. Era casa de três cômodos, de assoalho de tábua. Eu lembro de lá,  fui pequena e passei minha adolescência toda lá. Depois eu conheci o pai das minhas filhas e mudei...

 

P/1 – Nessa época da infância o que você lembra? As brincadeira de São Paulo eram diferentes lá de Minas?

 

R – Brincadeira é quase tudo igual de criança não tem tanta diferença.

 

P/1 – Você gostou da cidade grande assim? Você lembra qual foi sua primeira impressão de São Paulo?

 

R – Bonito.  Eu gostei.

 

P/1 – Você lembra de algum passeio que você tenha feito aqui em São Paulo, quando você era criança?

 

R – Ah fui no planetário, com a escola de excursão. Eu achei muito lindo.

 

P?1 – Qual foi a escola que você foi estudar aqui em São Paulo?

 

R – O nome certo agora eu não lembro, só sei que é na cidade Patriarca.

 

P/1 – Como é que era?

 

R – Era escola pública. Brincava, ficava lá com as colegas. Tinha umas brincadeiras  normais, tinha uniforme: sainha preguiada azul, blusinha branca.

 

P/1 – E você era boa aluna? Qual que era a sua matéria favorita?

 

R – Sim. Pena que com tanta surra que aconteceu na minha vida, sumiu meu boletim, eu cheguei a ganhar medalhas, era sempre as primeiras. As notas melhores eram as minhas,

tinha outros, mas eu também. Eu gostava de todas. Ia bem nas matérias.

 

P/1 – Você não trabalhava nessa época?

 

R – Não. Só estudava na parte da manhã.

 

P/1 – E adolescência em São Paulo naquela época? Tinha bailinho, cinema, como era?

 

R – Foi na mesma escola, mas meus pais não deixava sair. É que veio da roça. Era difícil ir para algum lugar sozinha. Era mais com eles. Saia da escola ia para casa, ajudava a minha mãe e ia na casa de conhecido, a gente saia assim.

 

P/1 – E você saiu da casa dos seus pais quando?

 

R – Bom, eu engravidei da minha filha, da Edilaine.

 

P/1 –  Quando é que a Edilaine nasceu?

 

R – Nasceu dia 31 de outubro de 1976.

 

P/1 – Você lembra do dia do nascimento dela?

 

R – Eu lembro [risos]. Estava lá em Minas, ela não nasceu aqui, ela é mineira. Nós estávamos lá e eu só sei que foi um dia bonito. Comecei a passar mal assim de tardezinha, já correram atrás de carro, para levar, estava na roça perto de Rio Novo, na Santa Casa de Rio Novo, só que ela foi nascer no outro dia, as sete da manhã. Mas foi muito bonito, ela era muito bonitinha. ( risos) Lógico.

 

P/1 – E o nome, como foi que você escolheu esse nome?

 

R – O pai dela quis colocar esse nome. Tinha vários nomes, mas Edilaine foi o que mais gostamos.

 

P/1 -  Você engravidou em São Paulo, mas sua filha nasceu em Minas.

 

R – Nasceu em Minas.

 

P/1 – E você ficou em Minas muito tempo.

 

R – Não, pouco tempo. Eu nem lembro direito. Eu sei que fui para o Rio de Janeiro, trabalhei em casa de família por uns tempinho, de um pessoal conhecido que estava precisando de uma pessoa para trabalhar na casa deles, para cuidar de três meninas, uma chamava Edilaine. Por isso eu coloquei o nome da minha filha de Edilaine. Passei uns tempo lá mas já estava grávida. Minha mãe não sabia. Eu não estava me sentindo bem. Falei que queria ir embora e me levaram. Nessa época uma irmã minha foi lá, ela sabia que eu estava grávida e falou para a minha mãe, e logo fui para o médico fazer exame, foi aquela coisa.

 

P/1 – E você tinha quantos anos?

 

R – Eu estava com 18 para 19.

 

P/1 – Você parou de estudar nessa época?

 

R – Eu já não estava estudando mais e fui com a minha mãe para Minas.

 

P/1 – E depois você voltou para São Paulo?

 

R – É. E fui morar na cidade  Patriarca, além da Penha. Era uma casinha e foi morar eu, o pai da minha filha e a menina.

 

P/1 – E você morou lá muito tempo?

 

R – Morei.

 

P/1 – Era uma casinha que você gostava?

 

R – Gostava. Era uma casa bonita, uma casa velha, mas eu gostava. Tem até a foto das minhas duas filhas sentadinhas na frente da casa.

 

P/1 - E a sua outra menina foi nascer quando?

 

R – Ela nasceu eu já morava nessa casa em São Paulo.

 

P/1 – Como é que ela chama?

 

R – Luciana.

 

P/1 – Que dia ela nasceu? E como foi?

 

R – Ela nasceu no dia 12 de fevereiro de 1978. Foi legal. A Luciana, eu comecei a sentir as dores do parto, já corremos para o hospital e não demorou muito nasceu. Enquanto os médicos estavam lá preparando, “deixa ela ai um pouquinho, vamos ajeitar” quando chegaram ela já estava nascendo. Rapidinho.

 

P/1 – Como é que era morar com suas filhas?

 

R – Bom foi até os 8 ou 9 anos.Naquela época a gente não era muito de sair. Ia mais na casa de conhecido. Brincava com elas de brincadeiras normal,  [risos] esconde-esconde, pega-pega, nossa a gente brincava de boneca.

 

P/1 – E depois o que aconteceu?

 

R – Meu relacionamento com o pai delas não estava bem e resolvi separar.

 

P/1 – E foi morar aonde?

 

R -  Eu fui para casa de conhecido, e depois consegui arrumar um lugarzinho para mim ficar, mas foi tanta coisa ruim, que eu só sei que trabalhei, procurei trabalhar, trabalhei a noite uns tempo, fiquei doente, sai de lá, foi então que conheci uma colega que trabalhava aqui, no Aché e a falou que eu deveria vir aqui. Ela falou: “Vai lá que você vai conseguir um emprego.” Eu vim e consegui o emprego.

 

P/1 – Você já tinha ouvido falar do Aché?

 

R – Não, nada.

 

P/1 – Quando você fala que fica ruim é por que ficou longe das suas filhas?

 

R – É fiquei longe delas, foi triste, em parte para mim foi triste. Mas tudo foi se ajeitando, arrumei emprego, elas lá e eu com medo de ir buscar e ficar desempregada e ficar de situação difícil com elas. Tinha aquele medo de pegá-las, ia lá ver, até que um dia o pai levou, deixou lá comigo e foi embora. 

 

P/1 – Isso foi quando?

 

R – Só sei que eu já tinha uns cinco anos de Aché , quando ele levou e deixou comigo.

 

P/1 – Como é que foi a sua entrada na empresa?

 

R – A minha amiga falou : “Vai lá que você vai conseguir serviço”, eu vim, fiz ficha tudo direitinho, naquela época não tinha teste, já fiz ficha, estava precisando e eu comecei a trabalhar.

 

P/1 – Você se lembra da sua primeira impressão do Aché, quando você chegou aqui?

 

R – Olha para falar a verdade, eu cheguei aqui, nossa, eu sou uma pessoa simples, nunca tinha, entrado em uma empresa, assim grande. Achei muito estranho. Meu Deus do céu. Eu sou tímida, pensei. Olha eu vou ficar aqui, mas vou embora depois do almoço. Só pensava nisso, e conversei com outras pessoas e já aconteceu isso, de trabalhar em um lugar e ter vontade de ir embora. Mas acabei me acostumando, com tudo, com o pessoal e agradeço a Deus de estar aqui.

 

P/1 – Quantos anos?

 

R – Tem mais de 15.

 

P/1 – Você entrou para trabalhar em que área, Berenici?

 

R – Na limpeza, no setor de embalagem e envelopamento. Eu sempre fui de lá, até hoje. Quando ia limpar nos líquidos, reunia vários de outros setor, na hora do almoço e ia lá para fazer a faxina, para lavar.

 

P/1 – Como é que era esse trabalho de limpeza?

 

R – O chão, varria, precisava pano, lavava parede, aquelas tubulações do envelopamento, eu que limpava, subia nas escadinhas, limpava tudinho. Tinha os dias da semana certos para limpar, no horário do expediente.

 

P/1 – Como é que era o setor de envelopamento quando você chegou? Descreve para mim.

 

R – É as maquinas de envelopar, os comprimido. As mesmas máquinas de hoje, mas com modificações. Eu não limpava as máquinas, são as operadoras de máquina que limpam.

 

P/1 – A limpeza era repetida todos os dias?

 

R – É sempre varrendo, passando pano; tinha o dia de limpar parede, tubulações.

 

P/1 –  Como é que era seu uniforme?

 

R – Era preto com uma golinha cor de abóbora.

 

P/1 – E das meninas do envelopamento? 

 

R – Elas usavam avental branco, porque eu lembro da Eugenia de roupa branca, de uniforme branco.

 

P/1 – E a limpeza mudou muito daquela época?

 

R – Mudou. Eu sou da época de passar o paninho no chão, torcer o paninho, com o rodo e agora não, usa equipamento diferente. Usava enceradeira, mas tem também outra máquina. Elas passam, não tem que estar pondo a mão naquela água, em pano, sabe mudou bastante.

 

P/1 – E o espaço mudou alguma coisa?  

 

R – Mudou, muita coisa dali, várias máquinas foram tiradas de lá.

 

P/1 – E os funcionários? Sempre foi muita mulher na produção?

 

R – É e continua.

 

P/1 – E você ficou muito tempo trabalhando na limpeza?

 

R – Fiquei uns sete anos.

 

P/1 – E nesse tempo suas filhas voltaram a morar com você?

 

R – É, para mim foi muito bom elas estarem comigo. Eu tinha muita preocupação, medo  de passar necessidade com elas e por causa delas, mas Deus ajudou, eu continuei trabalhando, elas foram crescendo, estudando também. Foi muito bom.

 

P/1 – Com o teu salário você foi conseguindo outras coisas?

 

R – Quando eu completei um ano aqui na empresa, eu estava no hospital, doente. Minhas filhas não moravam comigo, fiquei com a roupa do corpo, na casa de pessoas conhecidas e outros nem eram conhecidos para falar a verdade. Me ajudaram até que ajeitei um lugarzinho para morar, aluguei um quartinho e comecei a comprar minhas coisas de novo.

 

P/1 – Foi montando do teu jeito?

 

R – Tudo de novo, fogão, cama, armário, panela.

 

P/1 – Depois você perdeu tudo, como é que foi isso?

 

R – Porque quando eu voltei, pegaram as minhas coisas. Eu morava sozinha. Levaram tudo só fiquei com a roupa do corpo e em um lugar que fiquei doente. É um lugar que você entra e não sente vontade de ficar. Eu não tinha nada, continuar ali também... Eu falei “não” e sai andando por ai, até que conheci uma família, que do lado da casa deles tem uma igreja. Eu fui para lá, morar na casa de uma filha desse senhor. Fui lá, queriam que eu ficasse morando com ela, mas eu fui embora para Taboão. Fui morar com uma moça, na Praça Oito. De lá eu consegui alugar um cômodo para mim e fui montando minhas coisas, me ajeitando.

 

P/1 – E depois as suas filhas foram morar com você?

 

R – É  aluguei um cômodo, depois aluguei dois cômodos, e o pai levou e deixou elas comigo.

 

P/1 – É o lugar onde você mora hoje?

 

R – Não, eu comprei um barraco, da prefeitura, depois sai daquela favela. Antes disso a minha filha tava grávida e eu disse "vamos sair fora". Tinha uns terrenos que iam sair mas eu não estava com dinheiro, porque tinha tanta coisa para pagar. Eu aluguei um cômodo e fui morar com a minha filha, e ela já tinha o Bruno e estava esperando um outro filho. Aluguei um cômodo pequenininho e quando eu consegui um dinheirinho, sai fora desse aluguel. E mudei para outro lugar. Comprei um barraquinho, mas não gostei de lá não. Falei que assim que puder nós vamos embora daqui.

 

P/1 – Por que você não gostou?

 

R – É pequeno, não tinha quintal para as crianças, tinha só um biquinho atrás que eu colocava a roupa. Eu disse: “Assim que puder, nós vamos embora daqui.” E tem um ano e três meses, graças a Deus.

 

P/1 – Como é que era o bairro lá?

 

R – Era uma favela grande. O João do Pulo. Tinha tudo. O local é bom, mas favela grande é muita bagunça. Vou segurar o dinheirinho e quando puder nós vamos comprar em outro lugar. E consegui lá onde eu estou.

 

P/1 – Aonde que é?

 

R – No Taboão. É pequeno, da prefeitura, mas é tudo construidinho, você olha nem fala que é da prefeitura, é tudo bem arrumadinho.

 

P/1 – E a casa já estava pronta?  

 

R – Já , mas estava sem rebocar e não tinha piso, o telhado era baixo, cheio de goteira, estava horrível, comprei. "Deixar lá e ficar aqui não dá, vamos aguentar do jeito que está". Depois de seis meses eu consegui começar a arrumar, a gente recebe um dinheirinho no final do ano aqui, e agora vamos arrumar. Pus as parede na altura certa, trocou o telhado,  rebocou, depois foi a cerâmica. Meus móveis estavam velhos, compra uma coisa, compra outra.

 

P/1 – E essa casa tem quintal?

 

R – Tem, um quintalzinho, não é muito grande, mas está pondo a cerâmica.

 

P/1 – E a rua, a vizinhança como é Berenici?

 

R – O pessoal é muito legal. Eu gosto. Tem casa bem grande. Quem chegou primeiro, conseguiu um terreno bem grande. Tem uma senhora já faz tempo que ela está lá e fala: “Ai, quando eu cheguei aqui eu fui lá na prefeitura, ...” porque o pedaço que a gente mora lá era um sitiozinho, e o senhor queria tudo para ele, ela foi na prefeitura, e eles  dividiram. Ele ficou com uma parte, deu um pedaço para ela, outro pegou outro pedacinho, e foi indo.

 

P/1 – Para você o que representa ter a sua casa própria, Berenici?

 

R – Para mim, não é uma casa grande, um valor, mas para mim representa muito. Ter um cantinho para morar, falar não vou pagar aluguel, porque eu tenho essas três crianças que eu cuido também. O dinheiro que ia para pagar o aluguel, fica para a casa, para roupa, comprar um calçado. Para mim é muito bom, dá mais tranquilidade. 

 

P/1 – Como é que você conseguiu comprar essa casa?

 

R – Eu já conhecia essa senhora que mora lá faz tempo. Um dia eu fui na casa dela e vi uma placa para vender, fui procurar saber quem estava vendendo e consegui.

 

P/1 – Você lembra o dia que você comprou? 

 

R – Eu lembro, eu levei uma pessoa para ver, se valia a pena, porque as vezes a gente está comprando, nem vale a pena. E ela disse: “ você deve comprar sim.” Mas não paguei tudo, não tinha o dinheiro todo.  Foi abaixando o preço, dei uma parte e o restante eu fui pagando aos pouquinhos. Do salário fui juntando, segurando, chegou o final do ano, peguei o dinheirinho daqui, guardei e consegui comprar.

 

P/1 – Você já tinha mudado de cargo aqui dentro?

 

R – Já, eu passei para a produção.

 

P/1 – Fazendo o que?

 

R – Fazer produção. Esse serviço que eu faço agora, só que era com outra máquina, que eu trabalhava. Mas fiquei pouco tempo, fiquei um mês, e passei a ser operadora, me deram promoção, para operadora de máquina. O salário aumentou.

 

P/1 – Você esperava essa promoção?     

 

R – Se eu esperava? Para falar a verdade eu não esperava, eu agradecia a Deus por estar empregada, mas ter essa promoção para mim foi maravilhoso, melhorou muito, me ajudou.

 

P/1 – E o que a operadora de máquina faz?

 

R – Bom o que eu faço: destruo material que é reprovado. Tem que destruir cartuchos e blisters  que não pode sair fora da empresa, tem que sair tudo destruído.

 

P/1 – Como é um dia típico de trabalho? 

 

R – Sete e meia a gente vai para o setor. Faz a ginástica, tem resíduo que vai para o galpão para ser incinerado. Eu tenho que preparar os memorandos nas pastas, saco de tudo de farmacêutica, também faço.

 

P/1 – Como é que isso?

 

R – O material que é descartável, luvas, plásticos, que mexem com a matéria-prima, coloca tudo em sacos para ser incinerado. Então preparo a alimentação, vejo quanto que tem, preparo tudo direitinho, resíduo, desço no caminhão que  leva esse material, papelão, tudo para o galpão, deixo aqui na minha salinha o que é meu e volto para trabalhar na minha máquina, destruir os blisters, cartuchos, plásticos.

 

P/1 – E como é essa máquina?

 

R – É bem  barulhenta. [risos] Acho que a mais barulhenta que tem aqui é a minha máquina.

 

P/1 – Você coloca lá os blisters e sai como?

 

R – Sai picadinho, fala moer, mas sai picado, coloca em uma caixinha. Ensaca direitinho.   

 

P/1 – E o caminhão vai buscar?

 

R – É, depois tem o pessoal da limpeza, aqueles que recolhe. É um lixo especial, porque ele é reciclado.

 

P/1 – E tem mais alguma atividade que você faz?

 

R – Mais é esse ai. Todo dia tem saco, todo dia tem blister, cartucho às vezes tem, às vezes não tem, o que aparecer para destruir, tem que fazer.

 

P/1 – E sempre foi feito isso ou começou com você?

 

R – Já fazia,  porque a máquina era diferente bem mais antiga.

 

P/1 – Como é que era essa máquina?

 

R – Era pequenininha, colocava os blisters de pouquinho. Agora não, eu encho uma caixinha e coloco dentro da máquina.

 

P/1 – E hoje como é seu uniforme?

 

R – [risos] Meu uniforme é igual as outras. Blusa branca, a calça é cinza.

 

P/1 – E o dia a dia da empresa mudou muita coisa? Restaurante, os jardins, os prédios.

 

R – Ah, mudou. O Aché cinco aqui, quando entrei estava só as colunas. Você vê, nós estamos aqui. O restaurante não era aqui, era em outro local, passou para cá. É mais bonito. Naquela época o suco era servido em uma jarrinha, a jarra, os copinho. Hoje você vê. Temos suco, temos refrigerantes, pode escolher.

 

P/2 – Você acha que as condições de trabalho melhoraram?

 

R – A melhoraram bastante. Muita coisa mudou, o pessoal também.

 

P/1 – E hoje como é sua vida?

 

R – A minha vida está bem, moro com a minha filha e os três netos.

 

P/1 – E como é que chamam os netos?

 

R – Bruno, Everton e Luciano.

 

P/1 – Mora tudo na mesma casa?

 

R – Eu dividi a casa. Dividi no meio. Metade para mim e metade para ela e os filhos.

 

P/1 – E você acorda cedo?

 

R – Acordo seis horas, mais tarde as sete horas. Não sou de levantar tarde de jeito nenhum. Eu levanto quero limpar, lavo a loucinha, o fogão. Sou enjoadinha. Gosto de tudo limpinho e bem arrumadinho, acho bonito uma casa arrumadinha. Casa de pobre, simples, mas tudo limpinho e bem arrumadinho.

 

P/1 – Como é a sua casa? Descreve para mim.

 

R – Tem a pia com gabinete, fogão, armário, minha cama, guarda-roupa, tem uma cômoda, onde eu ponho a televisão, uma geladeirinha também.

 

P/2 – Esse é seu cantinho?

 

R – É meu cantinho, é pequeno mas é meu.

 

P/2 – Para você é uma conquista ter essa casa.

 

R – Para mim é. Agradeço a Deus por ter conseguido esse cantinho para mim e para ela. Porque eu não pensava só em mim, é  minha filha, meus neto, minha família são eles.

 

P/1 – E a outra filha aonde é que está?

 

R – A outra filha mora lá perto também.

 

P/1 – Tem filhos?

 

R – Tem. Tem três filhos.

 

P/1 - Como é que se chamam?

 

R – Tem o Fernando, a Cristiane e o Ronei, que é o mais velho.

 

P/2 – Hoje em dia o que você mais gosta de fazer quando não está trabalhando?  

 

R – Bom, eu não sou de ficar saindo para passear, sou caseira, talvez  porque não tenho uma companhia para sair para passear, então, fico em casa, gosto de fazer um crochezinho de vez em quando, assisto televisão, leio a Bíblia, não leio muito, não sou fanática. Vou na igreja evangélica, mas se me chamar para um passeio eu vou sim, por que não?

 

P/1 – E olhando para o futuro, Berenici, o que você sonha?

 

R – Eu sonhei meu neto, começou a estudar esse ano. Eu sonho em poder dar estudo para eles. Pelo menos igual a minha filha. Ela estudou até o segundo colegial, só não fez o terceiro porque não quis. Mas meu sonho é poder estar trabalhando para poder dar estudo para eles terem sua vez, eu penso muito neles.

 

P/2 – E para você, o que você sonha?

 

R – Eu. As coisas que eu queria conseguir, material, já consegui graças a Deus. Bom, eu sonho em ter um companheiro já que é para sonhar. Sonho em ter um companheiro. Não sei se está no meu destino ter um companheiro ainda, se não tiver também, já está bom assim.

 

P/1 – Você se diverte com seus netos?

 

R – Ah, eu gosto sim. Chego em casa eles estão me esperando. “Oi vó” “A vó está chegando” já vão lá abrir o portão, quer saber se eu levei alguma coisa para eles, é assim. Se vou sair vou no mercado, na feira, eles tudo quer ir.

 

P/2 – A gente está chegando no fim, Berenici, eu queria saber se você quer completar alguma coisa que você ache que deixou de dizer.

 

R – Importante para mim é que eu agradeço a Deus por estar ai com saúde, estou trabalhando, agradeço a Eugenia, a Marli, elas sempre me apoiaram. São minhas maiores amigas.

 

P/2 – Tem muita amizade na Aché?

 

R – [choro] Tem bastante, fico muito à vontade quando estou aqui, porque me sinto um pouco sozinha, então chego aqui, às vezes chateada, um brinca, outro brinca, começo a rir, brinco também, que eu só gosto de brincar com os outros, é o meu jeito.

 

P/1 – Como que é o clima de trabalho aqui na empresa?

 

R – É bom, gosto muito. Sempre me trataram muito bem, meu setor, o pessoal sempre me tratou bem, não tenho queixa de ninguém. Eles me respeitam eu também respeito, mas a gente brinca, não é por causa disso que a gente não faz uma brincadeira. Eu gosto com a Marli e a Eugenia.

 

P/1 – Quando você chegou, pensou que ia ficar 15 anos aqui?

 

R – Não, quando cheguei aqui achei estranho e queria ir embora depois do almoço, que nada.

 

P/1 – E por quanto tempo você quer continuar aqui?

 

R – Gostaria de ficar aqui bastante tempo. Até me aposentar, eu brinco com a minha filha. “Você vai ficar lá até se aposentar”.  Eu não sei, Deus é quem sabe e eles lá. Eu, por mim, tendo saúde, eu quero continuar trabalhando.

 

P/1 – Para terminar, eu queria saber o que você achou de ter contado um pouquinho da sua história para a gente?

 

R – [risos] Eu gostei, não sei se vocês gostaram, mas eu gostei. Eu achei legal vocês terem lembrado de mim.

 

P/1 – Muito obrigado pela participação.Valeu. 

 

R – Eu que agradeço.

 

P/1 - E não fica triste não!

 

R – É de alegria.  

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