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História

O sonho não acabou

História de: Clélia Gomes Trindade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2016

Sinopse

Clélia nasceu em 1968 e é a caçula de oito irmãos. Ela estudou tanto em escola particular quanto pública e este deslocamento social a influenciou em sua decisão de carreira: o magistério. Entretanto, ela sempre sonhou em cursar Psicologia; grande parte de sua entrevista, então, é a respeito desse sonho ainda não realizado. Clélia nos conta também sobre as dificuldades do cotidiano dos professores de escola pública e de sua graduação de Pedagogia em andamento.

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História completa

P/1 – Você poderia repetir seu nome pra nós?

 

R – Meu nome é Clélia Gomes Trindade.

 

P/1 – E onde você nasceu? Em que cidade?

 

R – Nasci na cidade de São Paulo.

 

P/1 – E data?

 

R – Dia 28 de novembro de 1968.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – É Joaquim Barbosa Trindade, o nome do meu pai; e minha mãe é Maria Estael Gomes.

 

P/1 – E seus avós?

 

R – Meus avós por parte da minha mãe é Maria Madalena Gomes e João Evangelista Gomes. E meu avô por parte do meu pai eu não sei, eu não convivi com ele. Na verdade eu esqueci. E minha avó chamava Cecília.

 

P/1 – E a atividade dos seus avós?

 

R – Eles eram agricultores em uma cidade do interior de Minas Gerais.

 

P/1 – Tanto por parte de pai quanto de mãe seus avós eram agricultores?

 

R – Isso mesmo, trabalhavam na roça. Eram agricultores.

 

P/1 – E a atividade profissional do seu pai?

 

R – A maior parte do tempo de vida do meu pai ele trabalhou como agricultor na roça, no interior de Minas Gerais. E já no finalzinho da sua vida, mais ou menos três anos antes de falecer, ele veio para São Paulo, quando trabalhou como segurança em fábricas.

 

P/2 – E a sua mãe?

 

R – A minha mãe nunca trabalhou fora, sempre foi do lar.

 

P/1 – Você tem irmãos, Clélia?

 

R – Eu tenho oito irmãos.

 

P/1 – Oito irmãos.

 

R – Isso.

 

P/1 – E você poderia descrever para nós o bairro e a rua em que você morava?

 

R – Sim. É interessante contar que todos os meus irmãos nasceram nessa cidade de Minas Gerais de onde vieram com os meus pais. Eu não fui uma filha que se pode dizer “programada”. A minha mãe teve problemas de saúde nessa cidade do interior de Minas Gerais, e por precisar de tratamento médico mais específico, meu pai veio com ela para fazer o tratar aqui em São Paulo. Conseguiram uma casa aqui, juntamente com a minha avó, que já estava aqui em São Paulo, e trouxeram os meus irmãos para cá. E no decorrer desse tratamento da minha mãe foi que ela engravidou de mim. Não foi uma gravidez programada. Minha irmã mais nova já tinha oito anos. Os meus irmãos são todos um pouco pais e mães para mim devido a diferença de idade entre eu e eles. Sou uma espécie de fruto temporão. Eles conseguiram comprar uma casa em um bairro muito simples na zona Sul de São Paulo. A liberdade que tínhamos naquela época era uma coisa maravilhosa. Da minha casa eu me lembro que era uma casa aberta que tinha muitas plantas. Lembro ainda que a minha infância eu passei brincando pelas ruas do bairro inteiro, subia em árvore, brincava de amarelinha no meio da rua. Eu tinha muita liberdade e era muito simples e muito pobre.

 

P/2 – Que bairro era, Clélia?

 

R – Parque Fernanda, na zona Sul de São Paulo.

 

P/1 – E você lembra do cotidiano da sua casa? Além dessas brincadeiras, dessa liberdade, da rotina da sua casa.

 

R – A rotina?

 

P/2 – Com vários irmãos, como é que vocês se organizavam?

 

R – Interessante que logo depois que eu nasci e contava apenas com um ano de idade, o meu pai faleceu. E com o falecimento do meu pai, os meus irmãos mais velhos, a grande maioria casou. Foram constituir família. E eu me lembro que na minha casa ficou eu, a minha mãe e minhas três irmãs mais novas, antes de mim. E elas saiam pra trabalhar logo cedinho. E como não tinha condições de elas estudarem, começaram a trabalhar logo cedo pra poder cuidar de mim. Eu me lembro que eu ficava com a minha mãe. E que sempre a gente saia na rua o pessoal perguntava se ela era minha avó. E eu acho que ela assumiu muito essa posição de avó, porque ela deixava eu fazer tudo (risos) que eu queria. E os meus irmãos eram quem tinham a preocupação e aquela responsabilidade do meu sustento. Então eu sempre via em meus irmãos um pouco como pais e mães. E eu me lembro que me levantava e ficava na maior parte do tempo com os meus sobrinhos, porque eu já tinha sobrinhos, muitos sobrinhos. Eles eram os meus companheiros de brincadeira. Foi uma infância muito gostosa. Uma família muito grande que sentiu muito a falta do meu pai. Os meus irmãos sentiram muito a falta do meu pai e até hoje eles falam do meu pai pra mim e é por isso que eu tenho uma grande referência do meu pai, mesmo não tendo lembrança dele, porque eles sempre deixaram a memória dele muito viva; falavam do quanto ele gostava da família unida, do quanto ele achava importante que uns cuidassem dos outros. Eu acho que isso foi a coisa mais bonita que eu tenho da minha família, que é aquela responsabilidade coletiva e fraterna.

 

P/1 – E na adolescência? Quando você foi crescendo com esse convívio como foi tudo isso na adolescência?

 

R – Essa história sofreu um corte porque a minha avó materna faleceu perto da época que eu ia entrar pra escola. E com o falecimento dela, a venda de uma casa, uma coisa assim; a minha mãe conseguiu um dinheiro e ela destinou esse dinheiro para custear os meus estudos. Ocorre que um sobrinho meu ia estudar numa escola particular, próxima da minha casa, até porque na época as escolas eram muito distantes e não tínhamos escolas próximas. E como a minha mãe não tinha condições de me levar até a escola ela decidiu que eu iria estudar numa escola particular. E ela iria investir esse dinheiro nisso. E até hoje, às vezes, eu me questiono se isso foi bom ou se isso foi muito ruim pra mim, porque conforme eu saí daquela liberdade toda, da rua, das brincadeiras e entrei logo na primeira série, eu não tive formação infantil pré-escolar. Então eu entrei logo na primeira série numa escola muito tradicional para época, rígida, que primava pela educação da burguesia da época. E aquilo foi muito marcante pra mim. E assim, eu tenho lembranças muito difíceis, quer dizer, um contraste muito grande em que eu vinha de uma família pobre que tinha conceitos morais, mas era pobre. E de repente você vê os seus amigos de escola descendo do carro com motorista, com chofer; eu sofri bastante para me equacionar naquele novo ambiente e me lembro que foi um período muito dificultoso para mim. E eu tenho certeza que algumas sequelas disso ficaram até hoje na minha formação. E também foram marcantes na minha adolescência porque eu pensava assim: eu estava muito próxima do que eu gostaria de ter e muito distante da minha realidade. É como se rapidamente eu tivesse perdido um pouco a minha identidade do que é certo, do que é errado. Mas essa experiência não me deixou revoltada ou traumatizada, posso dizer que eu curti muito aquela época, aquela educação. Tanto que quando eu cheguei na segunda série o dinheiro já estava acabando e para eu ficar naquele colégio particular eu procurei o diretor para falar: “Eu não quero sair dessa escola. Minha mãe disse que vai me tirar dessa escola, mas eu não quero sair”. E o diretor me deu uma bolsa e eu fiquei por mais dois anos no colégio.

 

P/1 – Você estava no segundo ano?

 

R – Na segunda série. Eu me lembro disso.

 

P/1 – Você já tinha ficado um ano na escola?

 

R – Eu já tinha ficado dois anos na escola; a primeira e a segunda série. Foi na terceira série que minha mãe me sentou e falou que não dava para continuar, que eu teria que sair da escola. E aquilo foi muito desesperador para mim. Então eu tomei essa iniciativa de chegar e conversar com o diretor que eu queria ficar na escola. Comentei com ele que eu fazia qualquer coisa para continuar. Ele riu! Mas o senhor William Pego – era esse o nome do diretor – me deu uma bolsa de mais dois anos e eu pude continuar na escola até a quarta série e tive uma excelente formação. Eu sabia que eu não podia me igualar às minhas amigas do colégio no quesito financeiro, nem no econômico, então eu tentava suprir essa dificuldade com a parte educacional para ser a primeira da sala, eu me esforçava pra estudar mais, eu me esforçava pra tirar boas notas, porque esse era o único jeito de eu aparecer na sala. E eu posso dizer que eu conheci um pouquinho do que é ser discriminado, do que é ser um aluno comparado com outro. E com certeza isso ajuda muito no meu papel hoje como professora. Isso é fundamental hoje para o meu trabalho.

 

P/1 – Clélia, quando você diz que sentiu um contraste grande entre aquela rotina da sua casa, aquela situação da rua, das brincadeiras com a escola, qual a diferença principal? A rotina da escola, o jeitão da escola e a rotina cotidiana sua fora da escola? O que mais contrastava?

 

R – É muito complicado pra uma criança que até então só brincava e tinha muita liberdade. Inesperadamente saber que tem que ficar sentada em uma cadeira, precisa usar uniforme impecável e sem amarrotá-lo e nem poderá ficar acima dos joelhos, todos os padrões da escola. Até o modo de se relacionar socialmente era diferente. É diferente para uma criança que está na rua e repentinamente tem que cumprir regras estranhas. Eu precisei aprender a conviver em outro mundo. E também era mágico, porque quando eu olhava tudo aquilo, tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo dando certo e eu gostava muito dos dois lados. Eu tive que aprender a conviver nos dois mundos. Nesse particular é que eu acho que foi um corte, foi um choque. Se de repente eu tivesse ido para uma escola do bairro, talvez eu tivesse dado continuidade para aquela minha vida sem sentir essa mudança tão radical. É nesse sentido.

 

P/2 – Clélia, você terminou a quarta série nessa escola?

 

R – Isso.

 

P/2 – E como foi a continuidade?

 

R – Foi construída uma escola estadual no bairro em que eu morava e a minha mãe me matriculou nessa escola, onde eu estudei da quinta a oitava série. E posso dizer que foi o meu inferno astral na minha adolescência, porque eu não tinha identidade com os meus amigos do bairro, pelo contrário, eles me viam como a menina metidinha que passava de uniforme escolar. E também perdi o meu elo com meus amigos da escola particular. Então começou assim: se eu tirava boas notas, prometiam que iam me bater na saída (risos); se eu tirasse notas ruins, a minha mãe, muito rígida, ela achava que o professor sempre tinha razão e eu tinha que continuar sendo a excelente aluna que eu era. E para agravar ela falava assim: “Não! Continua indo de uniforme”, porque eu não tinha uma roupa para usar todo dia. “E o uniforme vai te proteger, porque pelo menos você vai ter uma roupa”. E me punha de uniforme pra ir pra escola. Com certeza as meninas me cercariam na rua. Eu me lembro que da quinta a oitava séries sempre tendo que escolher um portão diferente pra sair, nem tirar as minhas notas, tinha uma certa facilidade, mas eu caí um pouco no quesito notas e fiquei revoltadíssima. Eu achava que tudo era uma droga, que a escola era uma droga, que os professores me puniam até um pouco porque eu tirava aquelas notas. Eu imagino que eu não consegui nesse período me sentir aluna daquela escola.

 

P/2 – Quando você fala dos professores você sentia até como uma punição. Fala um pouco mais disso.

 

R – A impressão que eu tinha, às vezes, é que se eu tirasse boas notas não estava bom; se eu tirasse notas baixas não estava bom. E como eu não tinha um bom relacionamento com a sala, porque eu me senti mesmo muito desambientada... Eu acho que atualmente isso é menos, porque o número de pessoas que saem da rede particular para rede estadual é maior e isso já acontece de uma forma mais normal. Mas há tanto tempo atrás não era assim, era raro um aluno sair de uma rede particular e vir pra rede estadual. Então eu ficava muito visada na escola e eu percebia, às vezes, que até o professor não sabia se aproximar da gente. E eu me lembro disso: quando estava passando alguma coisa que eu já tinha visto na minha quarta série ou na minha terceira série, eu fazia esse comentário, então era terrível para o professor. “Ah! Então por que você não continua lá?”. É muito difícil para uma criança entender isso. Hoje eu consigo processar tudo isso, mas no período foi difícil.

 

P/1 – Agora, dessa forma como você colocou: essa entrada e saída em mundos diferentes. Teve algum professor que te marcou mais? Ou por alguma experiência muito forte ou porque foi alguém que você gostou mais?

 

R – Eu vivi os extremos. Eu tive a professora da minha primeira série que eu não vou esquecer nunca, é a Nilce, que puxava as orelhas da gente e muitas vezes me expôs ao ridículo na sala lendo os trabalhos ou mostrando, por exemplo, uma vez no primeiro dia de aula, quando ela deu um patinho para pintar e eu nunca tinha pintado; acabei pintando o pato de azul e ela pegou a minha folha (risos) e ficou ridicularizando o meu pato azul pra sala toda. E isso me marcou o ano todo, sem falar que o ano todo ela comparou o meu progresso com o progresso dos outros. Quer dizer, eu era uma aluna pobre que estava no lugar errado e ela deixou isso muito claro para mim o ano inteiro. Então é uma professora que eu não vou esquecer jamais. E o engraçado é que quando eu consegui ler, a gente tinha uma cartilha, e quando a gente conseguia aprender a ler ganhava um livro, um button. E ela falava assim: “Está vendo, até a Clélia já está lendo! E você não está!”. (risos) E me comparava assim. São coisas que ainda estão ressoando e, às vezes, quando estou dando aula isso é tão presente em mim que eu sei, nós enquanto professores, educadores, fugimos da ideia de que lidamos com uma criança, que aquela criança tem uma memória, que ela não vai ter lembranças.  Então quando eu me lembro de tudo que eu vivi, desde que eu entrei na escola eu penso assim: “Não, esse aluno vai lembrar de mim, ele vai lembrar das minhas posturas, ele vai saber de tudo que eu falar e vai ficar gravado para ele, na história dele”. Então isso foi importante para a minha formação de educadora. Hoje isso é fundamental no meu trabalho, no meu relacionamento com meus alunos.

 

P/1 – Houve algum professor que te marcou de forma positiva? Que também pode ser uma referência pra você?

 

R – Teve a professora da terceira série que era muito mais sensível e que valorizava muito os meus talentos. Sempre que tinha uma apresentação ou alguma outra atividade ela gostava, principalmente das minhas redações; ela valorizava muito a minha forma de escrever. Incentivava-me muito a escrever porque eu gostava muito de fazer diário. E uma vez fui mostrar para ela o meu diário e ela leu. Então ela falou: “Ai! Continua escrevendo, continua escrevendo sempre, tudo que vier a sua cabeça você continua escrevendo”. A professora Lílian foi a que eu guardo muito. Tive uma professora de Química da quinta à oitava série também; apesar de exatas nunca ter sido o meu forte, mas ela trabalhava tanto com experiências na sala de aula, com o fazer. A gente sempre manipulando, laboratório. Que surpreendentemente, eu conseguia ir bem na matéria! Então são professores assim como ela que eu tenho muito carinho.

 

P/1 – Agora voltando um pouco a sua fase de adolescência. Além da escola, ou até na escola mesmo, você tinha um grupo de amigos? O que vocês faziam? Tinha algum paquera? Fala um pouco disso.

 

R – Essa foi uma fase difícil, porque a grande preocupação da minha família era que eu conseguisse estudar, que eu conseguisse ir bem na escola. Deus me livre se eu chegasse em casa e falasse que eu tinha conhecido alguém. Esse tipo de conversa, de comunicação com a minha mãe, não dava pra ter porque a minha mãe tinha outra realidade. Ela não queria nem ouvir. E os meus irmãos trabalhavam o dia todo. E eu fiquei um pouco sem referência, porque os meus amigos do começo eu já não tinha mais. Na escola estadual foram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. E eu me fechei muito. Eu me fechei muito e dificilmente dividia com alguém os meus problemas ou as minhas dificuldades. Inclusive, às vezes, eu apanhava quando saía da escola, mas a minha mãe nunca soube. Eu evitava levar problemas para casa. Eu não tive namorados nessa fase. Foi uma fase que eu escrevi muito. Eu digo que eu aprendi a escrever nessa fase, porque eu me fechava no quarto, às vezes, e escrevia. A minha comunicação ficou muito comigo mesma. E fiquei presa às reuniões de família. Os meus passeios eram na casa de irmãos. Não tinha acesso a teatro, cinema e museu nessa fase. Pra ser sincera, eu não tinha ido ao cinema, teatro até que a escola fizesse isso.

 

P/2 – Qual escola?

 

R – Ah, foi no magistério. Veio até a opção de ser professora ou não, porque eu sentia que eu precisava trabalhar. Eu queria ser livre, eu queria ter o meu dinheiro pra poder fazer as coisas que eu queria. Então isso forçou a minha decisão de fazer magistério, porque eu pensava: “Se eu fizer o técnico...”, que era o colegial, “como é que eu vou conseguir trabalhar? Não vai me dar nenhuma formação mais rápida”. Então eu pensava: “Não, eu vou fazer magistério”. Havia o curso de magistério em Itapecerica da Serra que era no Colégio Porcino Rodrigues, inclusive era necessário fazer um vestibulinho para ingressar no curso. Fui até muito bem classificada e ingressei no magistério. Parece que aí encontrei a minha praia de novo, porque muitas das meninas que estavam ali também já tinham passado por escolas particulares. Não sei dizer em que sentido, mas eu me senti em casa quando eu comecei a fazer o curso. Eu comecei a sair com as meninas e a gostar muito do curso. Eu passei a ter uma identidade maior com meus professores, sempre tive excelente relacionamento com os meus professores do magistério. Então foi quando eu senti que eu comecei a respirar gostoso. E a princípio eu não posso dizer que meu sonho era ser professora. Com esse isolamento que eu tive eu passei a prestar muito atenção às pessoas; eu gosto de observá-las, de saber o que elas pensam, de saber por que ela age desse ou daquele jeito. “Por que será que ela age desse jeito?”. E isso me inclinava muito, eu tinha muita vontade de fazer Psicologia, ser psicóloga, de trabalhar em clínica. Então até fazendo o magistério eu pensava assim: “Não, não quero ser professora. Eu quero ser psicóloga”. E esse é outro capítulo, porque até antes de me formar eu já comecei a trabalhar como professora.

 

P/1 – Você disse: “Eu me encontrei de novo”, as pessoas, as amigas, as companheiras lá dessa escola do magistério parece que também tinham passado por escola particular. Quer dizer, que característica é essa? Que perfil é esse que você parece que voltou de novo a uma época com um tipo de estudo que elas tiveram que você achou que estava combinando mais? Se eu entendi bem.

 

R – É isso mesmo. É que assim: parece-me que era uma escola voltada para a importância do conteúdo ministrado em sala de aula. Era uma realidade parecida com a da escola particular que iniciei os meus estudos. O bom aluno era o aluno que se esforçava e tirava boas notas. Então eu corria muito atrás desse conceito, de ser boa aluna e estudava bastante, lia bastante. Quando eu troquei de escola, isso não era importante. Importante era se você fosse bem esperto. Então quando falava um palavrão que eu não sabia o significado e eu ficava boiando todo mundo zombava de mim, nem sempre pelo fato de eu ser a boa aluna ou de eu estudar bastante, foi um marco importante na escola.

 

P/2 – E como os professores reagiam a isso? Você já falou um pouquinho, mas fala um pouco mais. A expectativa dos seus companheiros era outra, como você está colocando. E os professores, como reagiam a essa situação da escola pública?

 

R – Eu acho que os professores, até por estarem se adaptando aos alunos que tinham muitas dificuldades e o conteúdo não era o mais importante ali. Talvez uma escola que não estava mais antenada à época.

 

P/2 – Que época foi? Você se lembra?

 

R – Eu entrei 1976, 1980; 1980, 1984, é isso! O professor talvez estivesse mais voltado para pensar no aluno de uma forma mais assistencial. Então pensava ele: “Ah, eu não posso trabalhar isso com meu aluno porque ele está com fome”. E, às vezes, era verdade mesmo! Porque eu me lembro dos lanches servidos na escola estadual, jeito humilhante como era servido em canequinhas de ferro, aquele negócio quente. Às vezes, ovos cozidos aos montes, aquela coisa. Eu acredito que o professor naquela época pensasse assim: “Bom, esse aluno está com fome ou com frio. Para que eu vou passar pra ele alguma coisa?”. Essa visão muito assistencialista, às vezes, deixava o conteúdo de lado sim. Às vezes, a prova era uma coisa tão assim; a avaliação também estava mudando um pouco os conceitos dela, já não era mais aquela coisa pra avaliar o que o aluno tinha aprendido. E eu vinha de um conceito totalmente diferente. Então eu demorei muito a me adaptar. E ali eu não tive marco nenhum, porque os meus estudos não valiam muito, se eu era uma boa aluna, se eu tirasse boas notas também não era relevante. É nesse sentido que eu coloco. Eu acho que estava se moldando ali a mentalidade do professor na rede pública. E eu acredito que eu vivi um pouco assim. Quando eu passei para o magistério não. O colégio Porcino Rodrigues também era estadual. Era uma escola conceituada por seu bom nível educacional, que também primava muito o conteúdo, o saber do aluno, o estudo. Então é interessante que muitas amigas, colegas de classe, que estudavam comigo no Beatriz de Quadros Leme, que é a escola que eu fiz de quinta à oitava, não conseguiram ingressar no magistério. Tentaram e não conseguiram. Então é de se observar que alguma coisa ficou em defasagem no sentido de conteúdo curricular.

 

P/2 – Você estava contando que foi fazer magistério, mas tinha vontade de ser psicóloga. E como foi isso?

 

R – Foi muito difícil, porque ainda era uma época que a gente não tinha essa quantidade de faculdades que tem hoje. E aquilo era só um desejo. Eu conversava bastante com as minhas professoras e a minha professora de Psicologia me incentivava. Mas era um sonho que tinha que passar pelo quesito econômico. E passou aí também uma fase de dificuldade porque os meus irmãos entendiam assim: “Já estudou demais”; “Você já vai fazer magistério, para com isso, já está bom demais. Agora você tem que trabalhar e se sustentar”. Era complicado eu passar o ano inteiro com uma calça jeans e um tênis pra ir pra escola. Há que se correr atrás da sua subsistência, não mais atrás do seu sonho. Eu me dei muito bem no curso de magistério, tanto é que os meus professores me indicaram para que eu fosse contratada como professora eventual no outro turno. Então foi muito gostoso receber o meu salário e muito prazeroso ter o contato com os alunos.

 

P/2 – Foi seu primeiro trabalho?

 

R – Foi meu primeiro trabalho como professora eventual. E era interessante porque era assim: faltava o professor de Ciências, aquele dia eu ia trabalhar Ciências, e aquilo me dava um desespero porque eu pensava: “Meu Deus! Eu não sei Ciências!” (risos). Então eu estudava muito em casa, eu estudava para poder não fazer feio. Outro dia era Geografia; eu só não entrava em aula de Matemática (risos), Química e Física. Mas em todas as outras áreas, em todas as outras aulas. E eu passei a gostar muito de trabalhar com adolescente, com alunos de quinta à oitava série, que era um relacionamento muito próximo. E trabalhei como professora eventual dois anos na escola Porcino Rodrigues, na mesma escola que eu me formei. Os meus professores passaram a me tratar como uma companheira, uma colega de trabalho e isso pra mim foi muito importante. Só que eu fiquei muito indecisa porque Pedagogia não era o meu sonho; eu não queria cursar Pedagogia. Era resistente à Pedagogia.

 

P/2 – Por quê? (risos)

 

R – Eu não sei: “O que eu queria era Psicologia. Não dá pra ser? Então não vai ser (risos) nada”. Então eu pensei assim: “Eu vou estudar”. Eu terminei o magistério e pensei: “Eu vou trabalhar, vou consegui grana, vou estudar e vou tentar uma universidade pública”. E persegui esse sonho durante muito tempo. Logo que eu comecei a trabalhar como professora eventual nos dois períodos, era uma coisa muito complicada porque, às vezes, eu ficava sem ter até o que comer durante o dia. E eu passava o dia todo na escola, até me desliguei muito do meu elo familiar; de certa forma é como se eu culpasse a minha mãe e os meus irmãos por não me apoiarem muito no meu sonho. Eu passei a ser aquela pessoa que amanhecia na escola e ficava lá o dia inteiro. E comecei a fazer um grupo de amigos na cidade de Itapecerica da Serra. E ali eu ficava o dia inteiro estudando; vinha pra casa só no fim da tarde. Passei a estudar muito e tentava a universidade pública, passar no vestibular da USP [Universidade de São Paulo]. Tentei a FMU [Faculdades Metropolitanas Unidas], cursei dois ou três meses, mas no ano seguinte eu perdi o que eles chamam de admissão. Na portaria de admissão você é desligada do Estado porque você não consegue uma sala de aula. Eu não consegui sala. Meu salário ficou interrompido. Aquele pensamento que a gente tem de que tudo é eterno, já desisti da faculdade porque Psicologia era um curso caro.

 

P/2 – Você chegou a entrar na FMU?

 

R – Entrei.

 

P/2 – Fez quanto tempo?

 

R – Dois ou três meses. Paguei a matrícula e quando eu vi que eu não ia conseguir pagar o mês seguinte já me deu um desespero e eu parei. E naquele ano que eu estava fazendo Psicologia uma professora psicóloga, que dava aula no CEFAM [Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério] de Itapecerica da Serra, sofreu um acidente, e a gente trabalhava juntas. Ela telefonou do hospital para diretora e falou: “Põe a Clélia pra dar as minhas aulas. A Clélia está fazendo Psicologia, põe a Clélia”. E eu trabalhei um ano com turma do CEFAM.

 

P/1 – CEFAM é?

 

R – CEFAM é Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério, formador de professor. É o magistério do Estado. E eu trabalhei um ano com as meninas e com a aula de Psicologia. Tudo muito ciente de que eu era aluna, de que eu tinha parado, mas a professora havia me indicado. E eu ia para o hospital e a professora Júlia me passava por escrito o que eu tinha que trabalhar. Ela ficou muito tempo hospitalizada e a gente criou uma amizade muito grande, eu e essa professora. E ela me passava: “Oh, Clélia, trabalha isso, isso e isso”. E aí eu vinha e trabalhava: “Olha gente, a professora Júlia mandou passar isso daqui. A gente vai trabalhar isso daqui”. E foi muito gostoso, foi um ano muito prazeroso. O interessante é que hoje eu trabalho com muitas das meninas que eu cheguei a trabalhar a Psicologia. Até na escola que eu trabalho tem uma das então alunas e ela fala: “Minha professora de Psicologia”. (risos) E eu continuei estudando e eu consegui ingressar depois na UNESP [Universidade Estadual Paulista] de Assis. Fui para UNESP, só que aí eu fiquei com um pé em Itapecerica da Serra e um pé na UNESP, porque eu tinha uma sala de aula em Itapecerica que eu não podia desistir, por que se não como eu conseguiria me manter?

 

P/1 – Itapecerica rede estadual de ensino?

 

R – Rede estadual de ensino. E quando eu prestei vestibular para a UNESP eu consegui vaga só em Assis, interior de São Paulo. Eu prestei vários vestibulares.

 

P/2 – O curso também era Psicologia?

 

R – Psicologia, período integral em Assis. Aí fui pra Assis. Cheguei lá e eu fui com pouco dinheiro. Eu fui sozinha e foi muito legal, bicho, me pintaram toda. “Não, você não vai desistir, você vai ficar”. E eu não tinha como ficar. Aí cheguei pra diretora da escola e falei: “Olha, é o seguinte: eu preciso ir, mas eu não posso perder a turma aqui. Então, pelo amor de Deus, eu preciso de uns dias”. Ela disse-me: “Vai Clélia, tira uma licença médica, vai pra lá, verifica se é isso que você quer”. E eu cheguei a ficar em uma república masculina porque não tinha vaga na feminina. Um grupo de rapazes me recebeu e falou: “Se você quiser ficar no quarto da gente, tudo bem”. E eu fiquei num quarto com quatro rapazes. E era estressante, porque eu passava o dia na universidade e, às vezes, sem ter o que comer; quando comprava alguma coisa colocava na geladeira comunitária, quando ia ver não estava mais. O pessoal pegava. E por várias vezes eu abri a porta do quarto e o pessoal estava drogado! Eles usavam algumas coisas lá, até chá de cogumelo, o que viesse. (risos) E eu não me conformava, falava: “Gente, o pai de vocês paga tudo isso para vocês estarem aqui”. Eles telefonavam para o pai e punha dinheiro na conta deles. E mesmo assim, às vezes, eles faltavam o dia todo. Um dia eu cheguei com fome, nervosa e ao abrir a porta vi toda aquela situação e falei: “Não, eu não mereço isso”. Aí voltei. Voltei sem trancar matrícula, sem nada. Falei: “Bom, se eu consegui a UNESP eu vou tentar a USP [Universidade de São Paulo]”. Aí voltei; a diretora me deu minha sala de novo e eu já estava trabalhando com o Ensino Fundamental I.

 

P/2 – O que é Fundamental I?

 

R – Na época era o ciclo básico. Primeiro, eu estava com uma turma de segunda série. Voltei pra minha sala em Itapecerica da Serra arrasada porque eu havia desistido de um sonho. E voltei pra minha sala de aula e comecei a estudar sozinha e falei: “Bom, eu vou tentar a USP no final do ano, Psicologia”. Aí eu passei aquele ano estudado e trabalhando. E quando chegou no final do ano eu prestei vestibular para USP, mas eu prestei muito confiante. Eu achava que dessa vez ia dar certo. Eu verifiquei na lista da primeira chamada, olhei achando que meu nome estava lá; não estava. Na segunda chamada também não estava. Aí eu desisti, fiquei arrasada, desisti completamente. Foi quando uma amiga falou assim: “Clélia, vamos fazer o curso de Pedagogia mesmo. Na cidade de Machado em Minas Gerais. Um curso vago, você vai uma vez por mês. O seu problema é diploma. Competência você tem, vamos que você pega esse diploma, você vai dar aula e pronto”. Aí eu falei: “Tá, vamos embora”. Só que eu tinha passado na terceira chamada da USP e eu perdi a inscrição porque um amigo chegou em casa num domingo à noite, falou: “Clélia! Você viu seu nome? Você está na terceira chamada da USP!”. E a inscrição ia ser na sexta e as aulas já começavam na segunda e aí não deu certo, eu perdi a inscrição. E isso me arrasou tanto que eu falei: “Não, desisto. Não quero mais faculdade. Vou continuar a fazer magistério, vou continuar com a primeira à quarta série e pronto”. Aí ela falou: “Não, vamos. Você precisa de um diploma”. Aí eu fui com ela, mas eu nunca me conformei com aquilo. A cada quinze dias entrávamos em um ônibus, um monte de gente que pensa que sabe e você vê que as dificuldades das pessoas são muitas, às vezes até para se expressar. E chegava lá tinha que tomar um banho rápido no hotel, ir para faculdade e pegava aquele monte de apostila, uma sala de aula imensa, o professor super nervoso; eu acho que porque ele estava se prestando a esse papel. Aí passava as provas, todas as pessoas tinham que fazer aquelas provas; uma copiada da outra. Ele jogava as notas que dava pra jogar e eu falava para a minha amiga de Itapecerica: “Ana Maria, não vai dar”.

 

P/1 – Como você via esses professores? Você diz que eles ficavam meio nervosos, mas enxergando eles como professores, qual a imagem que você tinha nesse curso que você estava fazendo?

 

R – Eu tinha imagem que eles não gostavam do que estavam fazendo. Parecia que eles não se agradavam nem um pouco àquele curso, do jeito que acontecia. Dava impressão que era uma coisa imposta pela faculdade, até eu acredito que ela devia se manter por isso. E tinha que acontecer daquela forma. Então eles entravam muito mal humorados, humilhavam bastante: “Olha, já que é pra isso que vocês estão aqui, vamos logo. Faz aí a prova e me entrega, e acabou, e pronto”. E se fossemos analisar era isso mesmo, a gente estava ali para adquirir um diploma. Só faltava falar: “Por que não paga de uma vez e pega o diploma e não precisa vir aqui?”.

 

P/1 – E eles, como se colocavam nesse papel?

 

R – Olha, se eles se sujeitavam a isso, eles também de certa forma se culpavam. Eu me sentia culpada de estar fazendo aquilo. Não era uma coisa confortável. Então eu me sentia muito mal, eu falava: “Não, meu lugar não é aqui. Eu acho que tenho condição pra outra formação, o meu lugar não é aqui”. Então eu desisti. Logo depois da terceira ou quarta viagem eu falei: “Não, eu não quero”. E até hoje eu não aceito. Quando a pessoa fala assim: “Ah, eu tenho uma formação à distância”. Se bem que está mudando muito os conceitos da formação à distância, mas se a gente parar para pensar na internet, e comprovar que é possível ter o acesso ao conhecimento de onde você está é uma coisa; agora você fazer parte só de um jogo financeiro é muito ruim para essa profissão, ou para qualquer outra. Mas para profissão de professor, um educador, para você passar alguma coisa você tem que ter formação, você não pode passar o que você não tem. Então como é que fica a formação de professores se você passa o tempo inteiro pensando que você não tem uma formação? Tendo consciência plena de que você não tem essa formação? Isso é muito ruim para a pessoa até na sua vida particular. Eu acabei desistindo. Entendo que seja uma opção de cada um e até respeito isso, mas não aceito. Acho que o professor, a primeira mentalidade dele tem que ser essa: ele tem que ter formação para oferecer.

 

P/2 – Clélia, você fez magistério, você contou os motivos; tinha o sonho de ser psicóloga. E como é que é essa escolha de ser professora? O que ainda determina para você continuar sendo professora?

 

R – Eu vejo o meu papel como professora principalmente na educação básica, como o mais próximo que eu possa estar do meu sonho de ser psicóloga.

 

P/2 – Por quê?

 

R – Porque eu queria ser psicóloga pra entender o comportamento humano, para entender porque que as pessoas, às vezes, agem de determinadas maneiras. Por que uma criança em formação pensa dessa forma e não daquela outra forma? De que maneira que eu tenho que agir sobre o indivíduo pra que ele possa me responder de uma forma mais satisfatória? Então dentro do magistério, e mais tarde, eu tive a oportunidade até de trabalhar com a própria professora Júlia na educação especial, você está muito próximo disso. É impossível se conseguir ensinar alguma coisa quando não conhece a pessoa para quem você pretende ensinar. Então eu vejo assim: o meu sonho eu não consegui realizar ainda, mas o fato de ser professora me dá muito essa sensação, essa sensação de conhecer o meu aluno. Então eu começo um trabalho, a partir daquele trabalho eu começo a conhecer os pais dos meus alunos. E é muito interessante porque, às vezes, quando são feitas reuniões de pais e faço esse exercício, falo: “Ninguém me fala de quem que é pai, deixa eu descobrir”. E é muito gostoso você acertar porque você vê no seu aluno a continuidade dos pais. Então o jeito até de sentar, o jeito de olhar, o jeito tímido de ser. É possível, às vezes, conhecer o seu aluno conhecendo os pais deles. E esse exercício eu continuo fazendo. Cada vez que eu conheço meu aluno, que eu sei de que forma que eu vou tratá-lo para poder conseguir meu objetivo, que é ensinar, então eu vejo que eu estou exercendo de certa forma uma psicologia na prática. Então eu acabei casando as duas coisas: o que foi possível com o que eu gostaria de ter sido.

 

P/2 – E Clélia, conta para a gente alguma lembrança que você tem. Primeiro dia de aula ou no magistério, ou na escola mesmo como professora eventual. Qual a sensação de estar com um grupo de alunos na sua frente?

 

R – Foi maravilhosa. Primeiro pelo seguinte: eu acho que trabalho, quando você vê o seu trabalho como uma coisa difícil, como uma coisa impossível ou que você tem que programar muito, planejar muito o que vai fazer, então ele não é gostoso. E o engraçado é que quando eu cheguei para dar aula, até mesmo quando eu fazia estágio, a minha professora de Didática falava: “Clélia, o teu problema começa quando você pega a pré-escola, mas quando você está trabalhando quarta série, quinta série eu não vejo problemas. A sua linguagem, a sua forma de se colocar está no caminho”. E foi muito assim, eu sai do estágio com esses professores e em seguida passei a dar aula. Então eu não senti essa transição para o meu primeiro dia de trabalho. Eu cheguei, comecei a trabalhar, já tinha planejado a minha aula e aquilo foi fluindo, foi muito fácil. Até pensei assim: “Bom, acho que eu estou no caminho certo. Vai ser por aí mesmo”.

 

P/2 – E ela disse a dificuldade, se é que você tinha, era mais com as crianças menores.

 

R – É. A professora colocava muito isso. Quando eu ia trabalhar com a pré-escola eu tinha dificuldade de colocar as coisas pra eles de uma forma mais meiguinha; que a criança precisa de proximidade. A criança dessa fase quer carinho e eu queria dar aula. (risos) Então eu me encontrava mais com as séries terceira e quarta e da quinta à oitava.

 

P/1 – Você percebe algumas contribuições nos seus alunos a partir do trabalho que você faz com eles? Você sente isso neles?

 

R – Contribuições?

 

P/1 – É. Do seu trabalho para eles. Se você consegue identificar isso.

 

P/2 – Alguma transformação?

 

R – Consigo. Eu acho que isso é o meu termômetro. Eu preciso que meu aluno tenha alguma transformação para eu sentir se eu estou no caminho certo. Nem que seja até para agressividade; não precisa ser necessariamente positivo. Eu acho que, às vezes, a criança implica com o professor ou não quer aprender. Todas as reações delas são mudanças que direcionam o meu processo. E eu consigo sentir isso. E melhor que isso, eu acho que quando as outras pessoas conseguem sentir essa mudança nos nossos alunos é um fator determinante. E os pais me apoiam muito no meu trabalho. Então eu começo a dar aula, eu sempre estou com os pais, exponho para eles o jeito que eu costumo trabalhar, o que eu pretendo, quais são os meus objetivos com determinadas posturas. E os pais sabendo disso, cientes de que forma eu estou trabalhando com os filhos deles, eles me apoiam muito. E sempre me trazem isso: “Olha professora, agora meu filho quer porque quer chegar em casa e fazer a lição dele, porque se não a professora vai ficar brava com ele e ele não quer que a professora fique brava”. Então muda as posturas em casa e quando isso ocorre os pais trazem isso para gente na escola, quando a gente consegue direcionar melhor o trabalho.

 

P/2 – E como você está vendo a escola hoje, Clélia? Você trabalha agora em que rede? Municipal, estadual?

 

R – Eu estou em duas redes: na rede estadual no período da manhã e eu estou na rede municipal no período da tarde.

 

P/2 – São Paulo?

 

R – Rede municipal de São Paulo.

 

P/2 – Como é que você vê a escola hoje?

 

R – São dois mundos muito diferentes a rede municipal e a rede estadual. Eu vejo assim: a rede estadual é menos assistencialista, cada vez mais depende da administração da escola, quer dizer, o administrador tem que ser um bom administrador para poder manter a escola com o mínimo de base pra funcionar. Por exemplo, eu estou com uma quarta série; nessa quarta série foram juntados 35 alunos. Nenhum alfabético. Não tem nenhum aluno que consiga ler, entender o que está lendo. Eles estão num processo de alfabetização.

 

P/1 – Em que série?

 

R – Na quarta série! Para mim isso é grave, porque foram alunos que na trajetória deles não conseguiram de jeito nenhum aprender a ler, que é o mais grave. E então meu trabalho está sendo o de alfabetização numa quarta série, para adolescentes. E eu não tenho apoio, eu vejo que o meu trabalho depende de mim. Eu não tenho ninguém que me apoie na coordenação, coordenando meu trabalho, vendo o que eu estou fazendo ou deixando de ver. Às vezes, falta o básico: as crianças levam colheres pra poder tomar um lanche, tomam esse lanche em pé.

 

P/1 – E material didático, recursos?

 

R – Esse material didático cabe a mim. Quando eu peço, metade dos alunos que podem, trazem; os outros não trazem. Então eu tenho que estar suprindo isso, porque se não eu não consigo trabalhar.

 

P/1 – Existe um grupo que você possa dizer que tem um coletivo na escola, que vocês fazem discussões, que planejam alguma coisa junto na rede estadual?

 

R – É nesse sentido que eu digo que são dois mundos diferentes. A rede municipal oferece um maior tempo para a gente se encontrar, para a gente trocar ideias, para a gente trocar informações, pra poder cada um saber o que está acontecendo dentro da sala de aula do outro. E, por exemplo, um aluno meu não é um problema meu, ele é um problema da escola. A rede municipal, com esses horários extras de encontro de professor, tem uma maior capacitação e tem maior suporte. Tem maior suporte porque a gente trabalha com o auxiliar de direção que é aquele professor que articula o período; ele não deixa de ser um professor, então ele está o tempo todo sabendo quais são as dificuldades do professor de sala de aula, levando para direção, se reunindo com coordenador. Isso faz com que a escola inteira ganhe. Por outro lado, essa falta de amarração da rede estadual faz com que cada um caminhe por si. É o que acontece como aconteceu com essa sala, chega-se na quarta série: “Olha, mas eu tenho um aluno que não lê”. A outra: “Ah, mas eu também tenho um”. E quando vai ver, esse montante é muito grande. E assim, quando colocamos isso para a direção, os problemas da direção não são o aluno, os problemas da direção é a droga que está na porta da escola, é o muro que caiu, é o banheiro que está entupido, é tudo, menos o pedagógico, quer dizer, menos a função da escola.

 

P/1 – Qual o papel do professor hoje? No dia de hoje, depois de tudo isso que você falou.

 

R – É fundamental. Porque vai depender do compromisso, da competência de cada professor o sucesso que ele vai ter, vai depender exclusivamente dele. É isso que me preocupa muito.

 

P/1 – Mas que sucesso seria esse?

 

R – O sucesso de conseguir seus objetivos educacionais. E cada vez mais ampliados, porque hoje o professor não está preocupado só com a formação escolar do seu aluno, ele está preocupado com toda a formação moral dele, com os hábitos dele; se ele vai pra casa depois da aula ou não. Então está cada vez mais ampliando, a gente está tendo que abraçar aí uma série de questões, se é que eu me preocupo mesmo com o meu aluno, com a formação dele. Eu estou tendo que me preocupar não só se ele vai aprender a questão, se ele vai conseguir ler ou não, mas ele vai entender que drogas não é bom, se ele vai entender que AIDS é doença transmissível e de forma que se transmite o vírus. É toda uma formação que está muito centrada na escola. Quando o professor se vê sem o apoio, vamos dizer assim, direto, pedagógico, psicológico, ele se sente por si só. O professor tem que correr atrás, tem que ler, tem que buscar, tem que conhecer seu aluno individualmente. Então é estressante? É muito estressante. É difícil? É muito difícil. Entendo que às vezes nem podemos culpar o professor que não consegue fazer isso, porque ele também tem uma série de outras coisas para correr atrás, ele também tem família.

 

P/1 – Você já pensou em desistir dessa carreira?

 

R – Não, não penso. (risos)

 

P/1 – E qual a lição que você acha que tem da sua profissão? Ou perda.

 

R – Eu acho que a maior lição que eu tive de tudo isso foi conhecer a mim mesma. Você tem que saber quem é você, você tem que saber, às vezes, onde você errou na sua trajetória e aonde você quer chegar, o que você pretende. Então nessa trajetória o meu maior ensino foi aprender a aprender. Eu aprendi que eu preciso aprender com as coisas que eu vivo. Então eu decidi: “Não, eu vou fazer Pedagogia, eu sou professora, eu preciso de formação. Eu vou resolver essa pendência. Depois a gente corre atrás de outros sonhos”. Mas a melhor lição é essa.

 

P/1 – E você está fazendo Pedagogia agora aonde?

 

R – Eu faço Pedagogia na Faculdade Morumbi Sul com a professora Mônica (risos).

 

P/1 – E como é que você está vendo agora a relação desse curso que você está fazendo com a sua atividade como professora?

 

R – Ele veio de encontro às minhas expectativas, porque, às vezes, pensamos que a formação universitária é só uma formação a mais e depois você não precisa dela. E não é assim. A partir do momento que começa a ter pessoas que te dão toques, que te falam: “Olha, o caminho é esse. Você tem que talvez pesquisar nessa área, você tem que buscar mais o seu próprio conhecimento”. Então quando você tem alguns toques, alguns direcionamentos, você melhora o seu profissional e amplia a sua performance.

 

P/1 – Você acha que faz diferença você estar já atuando como professora e fazendo o curso de Pedagogia? Ou seria interessante ter feito primeiro o curso pra depois atuar?

 

R – Eu acho que é válido eu estar fazendo o curso agora depois de já ter atuado, porque se consegue ter um parâmetro antes e depois, eu consigo ver exatamente onde que a formação universitária é importante pra mim. Já é possível conseguir direcionar. E eu consigo ver isso, vendo os meus amigos que não têm ainda a experiência profissional, para eles é uma coisa muito vaga, uma coisa distante. E para mim não. Eu estou fazendo Pedagogia e cada fala que é colocada ela cabe perfeitamente no meu trabalho. É uma coisa direcionada. Muito legal.

 

P/1 – E acho que agora a gente está terminando, Mônica? Não sei se você quer perguntar mais alguma coisa. E você Clélia, quer falar mais alguma coisa que você acha importante?

 

R – Eu acho que o mais importante que se coloca é assim: a necessidade da preocupação com a formação do professor, como cada vez mais a gente está sozinho, como cada vez mais eu sinto que cabe ao professor buscar o seu caminho e se preocupar com aquele aluno individualmente. Então eu penso que as pesquisas devem dar uma atenção maior à formação do professor, de que jeito que vem acontecendo essa formação, de que jeito que esse professor está saindo da universidade para a gente conseguir diminuir um pouco os problemas na área educacional.

 

P/1 – Muito bem. E o que você achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Muito legal, (risos) muito legal, porque a gente faz um retrospecto, a gente volta nas próprias experiências. Eu estava um pouco assustada, mas é muito interessante, muito legal mesmo.

 

P/1 – Muito obrigada.

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