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História

O sommelier de São Felipe

História de: José Bispo das Neves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2016

Sinopse

Bispo começa falando de sua família baiana de São Felipe e de sua infância difícil nessa cidade, onde teve que tomar conta de seus irmãos mais novos quando da morte de seus pais, aos seus 12 anos. Sem muito espaço para brincadeiras, conta como foi criar sua família e sua entrada no comércio da região, passando depois para uma quitanda na cidade de Salvador, em sua juventude. Então, fala de seu crescimento no ramo e sua mudança para São Paulo, onde passou a trabalhar no Mercado Municipal. Conta também de seu aprendizado na época e de sua passagem para a Zona Cerealista, contratado como vendedor na Casa Flora. Em seguida, ouvimos sobre seus conhecimentos acerca de vinho, àrea que domina como poucos, e também sobre a mudança no gosto dos clientes. Por fim, Bispo nos fala sobre sua família em São Paulo e de seus sonhos.

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História completa

Meu nome é José Bispo das Neves, nascido em nove de maio de 1949, em São Felipe, Estado da Bahia. A minha mãe, Matilde Correa Caldas, meu pai não aparece o nome no documento, mas ele chamava Profiro Bispo das Neves.

Meus pais são da mesma região, também da cidadezinha de São Felipe na Bahia. São Felipe é uma cidade do recôncavo baiano, lado lado de Nazaré das Farinhas. Quando os dois faleceram foi muito cedo. Com 12 anos de idade, eu já não tinha nem avô, nem avó, nem pai e nem mãe. E assim, a gente foi, levamos a vida com cinco irmãos, graças a Deus, estão todos bem de vida. logo cedo, eu fiquei sem eles, né, e tivemos que encarar a vida do jeito que eles ensinaram. Hoje, graças a Deus, estamos bem, estamos aqui. Na verdade, os pais sempre ensinaram a gente o que era bom para todos, né, talvez é por isso que todos aprenderam uma boa lição e que estamos hoje tudo bem, conseguiu-se crescer e aumentar essa família, estão quase todos casados e com uma turma boa de filhos, né? Viviamos numa casa da roça, né, uma casinha de madeira, de barro, não é na base de tijolo e cimento, era coberta de palha. A gente vivia a nossa vida ali.

A alimentação mais fácil seria a gente ver muito da farinha de mandioca, o inhame, a batata, Às vezes chegava época de passar dificuldade um pouco por não ter os produtos, mas conseguimos passar essa fase. Nessa escadinha dos irmãos eu sou considerado como homem dos mais velhos, né, e era eu que conduzia os outros, até recebendo nome de pai pelos mais novos, porque era eu que dava as ordens e para eles, era eu que tava ali para atender. No momento, as necessidades que eles precisavam saber, era eu que dava as ordens para eles, as respostas do que eles queriam saber. Na verdade, assim, a gente quando novo não pensa em nada disso, né? Mas acontece que chega um momento que você tem que crescer e além de crescer, tinha uns vizinhos que às vezes, deram até alguma ajuda pra gente, vendo a necessidade do momento, para conseguimos sair dessa para uma outra melhor. Mas não foi muito fácil, não. Hoje, se você não tiver um bom começo de vida com a família, uma situação dessa é bem delicada para você conseguir chegar onde nós estamos hoje. Em vilarejo assim,aqueles poucos que tem, eles acolhem você também como fosse um grande homem, muitos vizinhos, né? Acho que o importante é o calor, aquela vontade de querer ajudar. Tudo naquele momento vale, algumas coisas que, às vezes, tinha necessidade, que os meus irmãos precisavam, as vezes, trazer um pouco de comida, alguma coisa que faltava, eles ajudavam. E a gente vivia disso aí, né? Aos 12 anos, a responsabilidade começou, praticamente, 100% da minha parte e consegui levar a vida tranquilo. Tranquilo pelo conhecimento que se já tinha, os irmãos ajudando catar o que tinha para levar para a feira e lá, a gente fazia a venda, comprava… fazia a venda e com aquele dinheiro, fazia a feira, né? Mas era pouca coisa, porque não dava para faturar muito, às vezes, no meio da semana, faltava umas coisinhas pra comer, que não dava. Os vizinhos quebravam o galho, ajudavam a gente em algumas coisas, a gente conseguia chegar no final de semana pra arrumar mais alguma coisa.

 

Hoje, se você perguntar para qualquer pessoa que depende da roça, se a gente soubesse o valor que tem, o trabalho que dá para o cara conseguir colocar comida dentro de casa dependendo da roça, na época de seca, e mesmo assim ninguém mais quer trabalhar na roça. Mas tem gente que não abre mão disso, gosta daquilo que faz e eu sofri muito por causa da seca. Quando a seca vem, não ha jeito de driblar, você tem que rezar e pedir, como a gente aqui pediu muito em São Paulo para chover, nós dependemos da água para poder molhar o solo, para você poder plantar o grão e para ele brotar.

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