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O som do verão

História de: Maureen
Autor: Maureen
Publicado em: 15/06/2017

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Quando eu era menina morava em uma casa de madeira com um lindo jardim e um pomar com vistosas árvores. Ameixas, jabuticaba, pitanga, limão, mexerica. Sem contar as amorinhas espalhas pelo quintal. Eu morava com minha família nos fundos da casa da minha avó e tudo isso fazia parte do terreno dela. Ela e meu avô que cultivaram tudo. Minha avó tinha também uma horta, e lembro muito bem do milho. Ela me chamava para colher e tirar as folhas que cobriam as espigas. Depois, mais tarde, ela dividiu a horta e de um lado colocou patos e marrecos. Eu adorava o marreco porque era branquinho e barulhento. Quando a gente entrava no cercado para pegar os ovos ele saia correndo todo desajeitado berrando quéeee quéeee quéeee. Minha avó tinha um galinheiro também. Devia de ter umas oito galinhas e mais o galo. Eu morria de medo de entrar na casinha das galinhas para pegar os ovos. Elas começavam a gritar e pular de poleiro em poleiro. Sem contar o galo que era assustador. Quando nós soltávamos as galinhas tínhamos que prender o cachorro. O Toby corria atrás delas pelo quintal. Era só galinha pelos ares. Mas ele não conseguia pegar elas não. Quem matava as galinhas era minha avó mesmo. Ela usava um tronquinho de uma árvore que foi cortada como matadouro. A técnica era simples: esticava o pescoço da galinha no tronco e dava com o machado. Eu achava horripilante ver o corpo da galinha ainda se mexendo sem cabeça. Depois era hora de depenar. Lembro até hoje o cheiro que ficava na lavanderia. Sabe quando joga a água fervente no corpo da galinha, para ficar mais fácil de tirar as penas? Aí cortávamos as patas e depois tirávamos as vísceras. Eu gostava de ver os ovos ainda em formação, o coração, o fígado e a moela. Algumas ainda tinham grãos de milho inteiros no papo. Uma época ela, minha avó, criou coelhos. Disso não lembro muita coisa, somente das peles esticadas no varal. Elas ficavam durinhas e com o pelo bem macio. Não lembro se comíamos coelho. Quando eu era bem pequena plantei um Ipê amarelo, bem na divisa com o muro do vizinho. Ele cresceu bonito. Todo verão eu ia procurar a casca das cigarras. Ele era o lugar especial delas, para trocarem o exoesqueleto. Elas eram muitas naquela época e cantavam com força que faziam os ouvidos arranharem. Era a época mais linda do ano. Tomar banho de chuva e brincar no quintal entre sabiás e chupins. Hoje escutei somente uma cigarra e realmente me fez falta o som do verão e as nuvens altas e espaçadas soprando rápido pelo céu de Curitiba. Naquele tempo aquela seria para sempre minha vida. Verão de 2015.
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