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História

O silêncio entre as palavras

História de: Bartolomeu Campos de Queirós
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/10/2012

Sinopse

Aprendendo a ler com avô. Infância em uma casa colonial. Colégio interno. Leitura de autores consagrados na Literatura Brasileira. Ida à Paris aos 25 anos de idade com bolsa da ONU. Ingresso no Instituto Pedagógico Nacional de Paris. Primeiro livro: “O peixe e o pássaro”. Volta ao Brasil. Prêmio João de Barro de Literatura. Crítica no Jornal do Brasil. Editoras solicitam textos. Brincadeiras com os irmãos na casa do avô. A vida em Papagaio, MG. Faculdade de Filosofia. Literatura sem fronteiras etárias. Conquista de diversos prêmios literários. Auge da literatura infanto-juvenil nos anos 1970 no Brasil. Trabalho na alfabetização de crianças. Escrever para reviver a própria infância e lidar com a passagem do tempo. Surgimento da Fundação Nacional do Livro repensando a função literária. Perspectivas da literatura infanto-juvenil

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História completa

Bartolomeu Campos de Queirós, nascido em Papagaio no dia 25 de agosto de 1944.

O meu primeiro livro foi a parede da casa do meu avô. Lá eu aprendi a ler.

Eu perguntava pro meu avô: "Que palavra é essa? E aquela?" E ele ia me contando e eu ia decifrando. E tinha o muro do quintal, eu usava o carvão que sobrava do fogão à lenha e ia escrevendo as coisas que ia aprendendo. O meu avô ensinava que com as 26 letras do alfabeto eu podia escrever tudo o que eu pensava. Achava muito pouca letra para escrever tudo. Estava sempre pensando uma palavra que eu não desse conta de escrever. Meu exercício de infância: pensar uma palavra que eu não pudesse escrever. Até hoje acho que é essa tentativa que faço na literatura.

Tinha um jornal no colégio, que a gente fazia naquele tempo. Eu escrevia de vez em quando. Nunca pensei em ser escritor. É uma vida que só aparece mais tarde. Toda a vida fui um bom leitor, gostava muito de ler. Até hoje digo sempre que ler é superior a escrever. Gosto muito mais de ler do que escrever.

A minha casa era colonial e tinha as janelas que davam para a rua. A porta também entrava para a rua. Tinham três degraus para subir a escadinha da casa e tinha um corredor muito grande, que de um lado e do outro eram quartos e salas. Lá no fundo tinha uma copa e uma sala de jantar muito grandes, ligadas à cozinha. Depois tinha uma área externa coberta. Ali que eu passava a infância. Era uma casa grande, de cômodos grandes, a gente tinha espaço para brincar dentro quando chovia. Uma casa agradável com telha colonial. Hoje ela não existe mais. 

Em casa eram quatro mulheres e dois homens, eu e o José. O José já morreu. E era um relacionamento muito de criança mesmo, cheio de briga e brincadeira. E a gente brigava na casa do meu avô, por parte de pai. Ele era muito engraçado. Às vezes eu brigava com meu irmão, pegava a faca e saía correndo atrás dele, aí meu avô me cercava e falava assim: "Não, faca não é bom. Vem cá que eu vou te dar um machado, que você mata ele de uma vez só." Aí, perdia a graça. A gente ia jogar pedra um no outro, meu avô falava: "Não, essa pedra está pequena, vem cá que eu vou te dar um tijolo porque você mata ele de uma vez só". Aí cortava as brincadeiras. 

Eu pensava que eu ia ser caminhoneiro, que nem meu pai. Gostava muito de caminhão. Meu pai botava uma almofada, um travesseiro em cima das pernas dele, me assentava em cima, me entregava o volante e eu ia brincando com aquilo. A vida inteira dirigi e nunca soube quando aprendi. Aquela era a coisa do meu pai comigo. Eu tinha um fascínio muito grande quando o meu pai me levava para viajar com ele. No entanto, eu tinha muito medo de escola porque minha mãe falava que tinha que estudar muito, muito tempo, frequentar muito as aulas, ser muito bom aluno para nunca ser igual ao meu pai. O que eu mais queria. Então eu tinha um medo danado da escola roubar de mim a vontade de ser o meu pai.

Eu sempre fui um cara mais reflexivo, indagativo, questionador. Eu nunca ri à toa, nunca achei muita graça no mundo. O mundo para mim sempre foi uma coisa meio pesada. A lucidez sempre foi uma coisa que me acompanhou muito. E a lucidez é uma droga violenta. Você estar lúcido o tempo inteiro, encarando tudo. 

Quando saio do curso ginasial em Divinópolis, vou para o convento dos dominicanos em Juiz de Fora. Lá estudo um tempo, venho para Belo Horizonte e começo a estudar e trabalhar no Centro de Recursos Humanos, uma escola de experiências pedagógicas do Ministério da Educação. Eu tinha um chefe que era um grande poeta, Abgar Renault. A gente tinha uma relação muito boa. E ele me aproximava muito da poesia, conversava comigo de vez em quando sobre poesia. Ele me marcou muito. Ele representava o Brasil na UNICEF naquele tempo. E aí ele me consegue uma bolsa para Paris.

Eu fui para Paris e estudava no Instituto Pedagógico Nacional e a gente não tinha aula nem quinta e nem domingo. Dois dias de folga. Comecei a ficar muito à toa e ter saudade do Brasil. 

Aí um dia eu falei comigo: "Ô, cara, você está pensando a mesma coisa todo fim de semana. Por que é que você não pensa uma coisa que nunca pensou?" Então eu penso o meu primeiro livro: O Peixe e o Pássaro.

E quando eu fiz “O Peixe e o Pássaro”, havia um crítico literário do Jornal do Brasil, que chamava Dom Marcos Barbosa, esse livro tinha sido editado e chegou na mão dele. Ele fez uma crônica no jornal recomendando ao Carlos Drummond de Andrade que lesse o livro, que falava muito da clausura. Era a opinião dele. E aí as editoras começaram a me pedir texto. Eu comecei a escrever.

Eu acho que a minha literatura tem um pouco a ver com a prosa. 

Eu não digo muito porque esgoto a fantasia do leitor. Prefiro deixar também que fantasie. Sempre reduzo o máximo que eu posso para deixá-lo entrar no texto comigo.

E eu persigo também uma literatura sem fronteira, que sirva para todo mundo. Não quero uma literatura com destinatário. 

A busca dessa palavra exata para deixar vir à tona a fantasia é um trabalho muito pesado. Porque não é qualquer uma que serve. As palavras conversam entre elas. Uma tem a ver com a outra. Você tem que procurar esse equilíbrio da linguagem. É o que eu faço muito. E nessa busca você cria a unidade do texto. O texto é unido. Tem uma palavra que você sabe: essa não fica bem dentro desse texto. Você tira, conserta, dá um jeito. E toda a vida foi isso, essa coisa bonita e séria.

Por exemplo, a palavra “maçã”. Então estou precisando escrever um texto com uma fruta. Falo assim: "Eu vou fazer maçã", aí consulto o Dicionário de Psicanálise, o que é "maçã" em psicanálise, vou no Dicionário de Sonhos, no Dicionário da Bíblia. Nisso, paro de escrever encantado com a maçã e fico dias pesquisando a palavra. 

Eu tenho essa coisa de não ter uma disciplina de escrever e, ao mesmo tempo, uma indisciplina total de lidar com a palavra. Largo tudo e vou consultar a palavra, que é uma coisa que me encanta muito. 

Isso me dá um trabalho! Eu fico pesquisando. É um prazer muito grande. Agora, pode ser que para o leitor passe completamente despercebido, isso não choca, ele gosta por outras coisas, pelo ritmo, pela sonoridade. Você tem que fazer isso pelo seu prazer. 

Escrevo e penso na criança como minha leitora, mas ela me amedronta muito. A criança me traz muita nostalgia, me interroga muito sobre o tempo. Isso me inquieta um pouco, saber que ela está num lugar que eu irremediavelmente já perdi.

Acho que escrevo pela minha infância, não para a criança, mas pela infância que eu gostaria de reviver. A criança para mim é sempre um objeto de precaução, de medo, de nostalgia, de inveja. 

Nunca é muito agradável falar da gente. Porque a gente acaba falando é do outro. Não tem como. Quando você está no divã do psicanalista e fala assim: "Agora eu vou falar de mim". É pura mentira. Você fala do pai que não foi bom, do amor que perdeu, da mãe que foi embora, do tio que morreu. Sempre só fala do outro. O eu é feito de pedaços dos outros. 

A minha mãe morreu muito cedo com 33 anos, teve câncer, eu estava com seis para sete anos. Ela tinha uma voz muito bonita, cantava umas músicas de Carlos Gomes, umas modinhas antigas, umas modinhas imperiais, umas canções de amigo portuguesas. Mas quando a dor do câncer era muito grande e ela não estava suportando, sentava na cama e cantava maravilhosamente bem. A gente sabia que a dor era muita. Aquela voz de soprano atravessava a casa inteira, o quintal. Então, acho que há uma presença da minha mãe na minha literatura, porque quando a dor é muita eu escrevo.

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