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História

Ô Seu Magro

História de: Antônio Fernandes Gomes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2021

Sinopse

O entrevistado conta sobre sua entrada na Petrobras em 1976 e sua carreira na empresa. Fala sobre a rotina de trabalho, seu relacionamento com os colegas e sobre as relações da empresa com o sindicato.

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História completa

Projeto Memória da Petrobras Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Antônio Gomes Entrevistado por (Elodí Aleburg?) Aracaju, 15 de dezembro de 2004 Código: Entrevista número CB SEAL 19 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha Revisado por Alice Silva Lampert P/1 – Sr. Fernandes, eu queria que o senhor começasse falando o seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome é Antônio Fernandes Gomes. Eu nasci em 14 de outubro de 1954 no povoado de Salgado, município de Delmiro Gouveia no estado de Alagoas. P/1 – Conta para a gente como e quando foi o seu ingresso na Petrobras. R – Eu ingressei na Petrobras em 1º de junho de 1976. Eu ingressei como auxiliar de suprimento. Eu cheguei aqui por volta das 10 horas, e estava de chinelo e o vigilante não deixou entrar para fazer inscrição. Era o último dia. Eu peguei um táxi, fui à minha casa calçar um sapato. E quando retornei o vigilante disse que já tinha passado o horário. E eu falei pra ele, disse: “Olha, mas eu fui calçar o sapato. O dinheiro que estava no meu bolso, inclusive, não foi nem suficiente para pagar o táxi”. Ele já dispensou. P/1 – E era o mesmo vigilante? R – Era o mesmo vigilante: “E o senhor não vai deixar eu entrar pra fazer a minha inscrição?”. Ele olhou pra mim e disse assim: “Se depender de mim você vai entrar na Petrobras”. Era o último dia de inscrição. Eu cheguei, fiquei na fila aqui nesse treinamento. E fui o último a se inscrever no concurso de 1976. E fui o primeiro a ser chamado para trabalhar na Petrobras, após o resultado do concurso. De modo que eu fui trabalhar no suprimento e tive realmente boas oportunidades no suprimento, como auxiliar de suprimento. P/1 – E o senhor sempre trabalhou nessa área de suprimentos? R – Eu trabalhei na área de suprimento até 1988. Eu ingressei como auxiliar. Dois anos depois teve um processo seletivo interno para ajudante, eu consegui. Em 1981 teve um outro processo interno para comprador e só tinha uma vaga. Eu também consegui essa vaga e me tornei comprador. E logo eu assumi a Gerência de Compras da unidade. Fiquei algum tempo como Gerente de Compra. E fui convidado a gerenciar o Setor de Pessoal. Em 1988 eu saí da área de Suprimento e fui atuar na área de Recursos Humanos. P/1 – Conta um pouco pra gente assim desse seu cotidiano de trabalho nessas áreas. R – Bom, por onde eu passei eu procurei fazer o melhor. Construí muitos amigos, pessoas, assim, que até hoje são pessoas muito próximas, muito amigas. Na área de Recursos Humanos, eu tive experiência como Gerente de Pessoal, algumas vezes como Gerente de Recursos Humanos interino, de modo que eu sou uma pessoa bastante conhecida. Eu não conheço todo mundo, mas praticamente todas as pessoas aqui me conhecem. E eu tenho uma política, hoje, que é bastante interessante. Quando alguém me encara, eu sempre falo, mesmo que eu não conheça, porque eu não sei com quem estou falando, mas as pessoas me conhecem. E para evitar que as pessoas digam assim: “Olha, passou por mim e não falou” eu já adoto essa política aí de falar com qualquer pessoa que me encara: “Olá, como vai?”. Faço aquela alegria. As pessoas, às vezes, até estranham esse meu modo de ser, pensando que eu sou um político. Na verdade, para evitar que algum colega...são 2000 empregados hoje, praticamente. Mas nós já fomos 4000 aqui na unidade, então, nós temos muitos aposentados. E todos, praticamente, me conhecem, por causa da evidência que eu sempre tive na área de Recursos Humanos, de estar participando das palestras, visitando as áreas. Então a gente não consegue gravar a fisionomia de todos. Mas normalmente quem está em evidência se torna conhecido. P/1 – E nesses anos todos de Petrobras o senhor tem alguma lembrança marcante para contar pra gente? R – Minha lembrança marcante é do meu primeiro gerente aqui na Petrobras, o senhor Frederico Candido Otto Guime. P/1 – Frederico... R – Frederico Candido Otto Guime. Eu ingressei em 1976. Eu tinha 20 anos, era praticamente um adolescente. E o Sr. Guime foi uma pessoa, assim, muito especial. Eu aprendi muito com ele. É tanto que, quando eu me formei em Ciências Contábeis, ele foi uma das pessoas que disse: “Olha, eu aconselho você a retornar e tirar o curso de Administração, porque, como contador, você não vai conseguir alguma coisa. Mas como administrador você vai conseguir”. E realmente eu segui os conselhos dele. Retornei e fiz o curso de Administração por mais dois anos. E logo que eu me formei surgiu a oportunidade. Hoje eu sou administrador graças à orientação e à visão deste homem que foi o gerente e uma pessoa que eu estimo muito e tenho uma grande consideração por ele. P/1 – E uma história interessante, engraçada, da sua vivência aqui dentro da empresa? R – Uma história interessante? Bom, uma história interessante é que, dentro do ambiente de trabalho, a gente sempre tem aquelas pessoas de bastante intimidade. E havia uma colega aqui que ela sempre me tratava assim: “Ô seu magro, seu feio”. Porque na verdade quando eu cheguei aqui na Petrobras eu era bem magrinho. Eu pesava uns cinquenta quilos, mais ou menos. E toda vez que ela falava comigo, ela sempre me tratava dessa forma. E quando eu saí da área de compras, fui ser Gerente de Pessoal, ela sempre ligava: “Ô seu magro, você agora é Gerente de Pessoal, não fique criando dificuldade para gente”. O tratamento dela é sempre assim. E em uma das vezes eu atendi o telefone e confundi a voz. Não era ela, era uma outra colega. E ela estava fazendo tratamento dentário, estava banguela. Na hora que eu atendi o telefone, disse assim: “Diga, sua desdentada feia, o quê que você quer?”. E aí eu vi aquele silêncio do outro lado da linha. Na verdade era uma outra colega, a Inês. E aí eu, percebendo, disse: “Ah, minha filha, me desculpe. Eu pensei que era uma outra pessoa”. E aí foi bastante interessante este momento porque a gente constrói determinadas intimidades com colegas e até hoje, realmente, ela tem esse tratamento assim: “Ah, você engordou, mas para mim você continua a ser o magro.” Faz pouco tempo que ela está aposentada. Hoje ela esteve aqui e nós nos encontramos no corredor. E ela continua com a mesma brincadeira, aquela pessoa alegre, sabe? Sempre construí amizades muito boas aqui na unidade. P/1 – Qual era o nome dessa sua colega? R – Adeilde. P/1 – Adeilde de que? R – Adeilde...eu não lembro mais o sobrenome dela. P/1 – Mas a Inês se chateou? R – A Inês? Não. A Inês ficou, assim, sem entender. Ela não compreendeu direito, mas não teve nenhuma dificuldade não. Depois ficou tudo bem. P/1 – E o senhor tem alguma história, mais alguma outra história pra contar pra gente, engraçada assim, ou apenas interessante? R – Uma outra história interessante? Olha, tem muitas histórias interessantes, mas no momento a gente foge assim. P/1 – Tudo bem. O senhor é sindicalizado? R – Eu fui sindicalizado durante muito tempo mas, na última gestão, nós começamos a discordar de alguns posicionamentos e eu acabei retirando a minha filiação do sindicato. P/1 – Conta isso melhor pra gente. Quais foram esses questionamentos que o senhor fez? R – Bom, mesmo na posição de Gerente de Compra - e mesmo na posição de Gerente de Recursos Humanos -, eu mantive a minha filiação com o sindicato durante muito tempo. Mas, depois de algum tempo, a gente começou a ver algumas posições dos dirigentes do sindicato que não combinavam com a nossa posição. Isso foi, de alguma forma, criando uma certa dificuldade. E isso me levou a pedir o desligamento. P/1 – E isso foi quando, que o senhor retirou? R – Eu retirei em 1980, eu não lembro bem. 1985, 1986 por aí. P/1 – E o senhor permaneceu sindicalizado por quanto tempo? R – Eu permaneci sindicalizado por mais de quinze anos. P/1 – Por mais de quinze anos? R – Mais de quinze anos. P/1 – E, nesse meio tempo, o senhor exerceu algum cargo na diretoria do sindicato? R – Não. P/1 – Mas participou dos movimentos, das campanhas? R – No começo, sim. Depois, por exercer a função gerencial, a empresa sempre exigia que o gerente tivesse uma postura diferente. Então, a gente reconhecia os movimentos, mas não atuava diretamente pela função gerencial que a gente ocupava. P/1 – Mas porque que a empresa exigia isso? R – Bom, as orientações da época exigiam que o gerente supervisor, mesmo em situações de movimento, estivesse sempre presente nas atividades. Era uma orientação da época. P/1 – E como que o senhor vê a relação entre o sindicato e a empresa? R – Relação sindicato / empresa hoje? P/1 – Sim. R – Depois da gestão do Dr. Paulo Mendonça, que passou por aqui, melhorou bastante o relacionamento da empresa com o sindicato. Ainda hoje nós temos visto que há esse encontro, sempre, dos gerentes. Eles estão sempre presentes aqui, trazendo as reivindicações, atuando, de uma certa forma, em parceria com a empresa, mostrando algumas realidades que, às vezes, o gerente não percebe. Eu acho que, ultimamente, tem melhorado sim a relação da empresa com o sindicato. Apesar de algumas posições, ainda radicais, a relação tem melhorado. P/1 – Sim. Senhor Fernandes, a gente está encaminhando para terminar a nossa entrevista. Eu queria que o senhor falasse o quê que o senhor achou de ter participado aqui do Projeto Memória? Qual a sua opinião? Como foi? R – É, eu acho isso importante sim, o registro, a memória, porque tudo passa. E, quando não se tem o registro, fica difícil recuperar essa história. Eu também queria registrar que eu sou pastor. Além da minha atividade profissional, eu exerço esta função de Pastor Auxiliar de uma Igreja Batista. E aqui na empresa eu tenho tido sempre a oportunidade de participar dos eventos ecumênicos, a Páscoa, o Natal, levando uma palavra de fé para os meus colegas. Inclusive, este ano eu estou já com a agenda em Atalaia, aqui na sede, dia 17 em Carmópolis. Então eu tenho este lado, também, de contribuir levando as pessoas à reflexão sobre a vida, sobre o conhecimento de Deus. Levando as pessoas a refletirem na mudança do ano, seus projetos de vida. Eu tenho contribuído muito nesse aspecto também, como profissional e ministro da palavra de Deus. P/1 – Senhor Fernandes, muito obrigada pelo seu depoimento. -------------------------------- Fim da entrevista --------------------------------

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