Busca avançada



Criar

História

O ser humano por trás das doenças

História de: Vera Regina Gaensly Cordeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/01/2022

Sinopse

Vera conta sobre sua infância no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, sobre como dediciu se tornar médica e sobre o Insituto Dara, que criou para auxiliar o combate à pobreza e que possui parceria com a Vedacit.  

Tags

História completa

P/1 - Bom dia, Vera, tudo bem?

R - Bom dia, Genivaldo, tô bem.

P/1 - Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Nós vamos começar, então, com a primeira pergunta, a mais básica: o seu nome completo, a sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu. 

R - Meu nome é Vera Regina Gaensly Cordeiro. Eu nasci em 21 de julho de 1950, no Rio de Janeiro (RJ).

P/1 - Qual o nome dos seus pais, Vera?

R - Meu pai é Horst Ewald Gaensly e a minha mãe é Cordelia Carmem de Novaes Gaensly.

P/1 - Você tem irmãos?

R - Tenho dois irmãos, sou irmã mais velha. Meu irmão depois de mim é Roberto Gaensly e meu irmão dez anos mais novo é o Renato Gaensly.

P/1 - Os seus pais são cariocas mesmo ou eles vieram de alguma outra região? Ou alguma outra cidade ou país?

R - Meu pai veio de Curitiba (PR) e tem uma origem alemã, é por isso esse nome, Horst Ewald Gaensly, e minha mãe é carioca, do Rio de Janeiro.

P/1 - Bem, então vamos conversar um pouquinho sobre a sua infância. Você se recorda de onde você morou quando era criança?

R - A infância, pra mim, é um dos momentos mais alegres que eu tenho pra falar da minha vida, porque não sei se você conhece o Rio de Janeiro. Existia, antigamente - talvez você não fosse nascido -, uma fábrica de tecidos chamada Fábrica de Tecidos Bangu e o meu pai era diretor dessa fábrica e, nos anos cinquenta... Bangu hoje em dia é conhecida como Bangu 1, Bangu 2, os governadores presos, mas naquela época, era um lugar extremamente agradável de se morar, principalmente pra criança, porque eu vivia como uma moleca de rua, sabe, brincando de soltar pipa, de botar cerol na pipa e fazer cruzamento, quebrar. Eu me lembro que quebrava lâmpadas e botava cola, pra fazer cerol. Bangu era um paraíso pra mim, porque eu podia morar em casa, lidar com os vizinhos, não tinha problema de segurança. Eu me sentia sempre muito junto da natureza, porque era uma casa com uma mangueira, enfim, era um lugar que eu guardo, vou guardar sempre [com] muitas saudades.

P/1 - E qual era a sua brincadeira predileta nessa época, Vera, além de soltar pipa?

P/1 - Eu segurava a pipa, porque o líder era o meu irmão, né? Meu irmão mais jovem que mandava em mim, mas eu era auxiliar dele. Enfim, eu tinha duas brincadeiras. Eu ganhei, uma vez - uma coisa interessante, Genivaldo - uma casinha de bonecas de entrar dentro, cor de rosa e depois, o layout dessa casa é o mesmo da sede da instituição que eu ia fundar muitos anos depois, mas é interessante essa sincronicidade, que já aparecia na infância. 

Pra falar a verdade, eu não gostava de ficar na casa brincando de boneca; eu gostava de limpar a casa, ficava limpando a casa, arrumava. Quando estava tudo arrumado, eu saía, subia numa mangueira e gostava de escrever poesia. Tinha um caderninho que eu escrevia e desenhava e eu me lembro que eu ficava tanto tempo nessa mangueira… Eu era muito franzina na infância, a minha mãe me levava comida, botava numa cestinha e eu puxava e comia na mangueira. (risos) Essas duas situações: eu era a faxineira da minha casinha, ficava chateada de ficar grudada, porque o jardim era tão gostoso e eu não gostava de ficar dentro da casinha. Gostava de brincar, fechar a porta, trancar e até minha mãe reclamava: "Minha filha, mas você não brinca na casinha?" Eu escondi e perdi a chave de propósito, porque eu não gostava de ficar trancada na casa, eu gostava de ficar na mangueira.

(04:44) P/1 - E você gostava de ouvir histórias, quando você era criança?

R - Gostava, gostava muito de ouvir histórias, mas engraçado que tinha Jerônimo, o Herói do Sertão, naquela época no rádio - naquela época era o rádio, né? Eu me lembro que tinha uma caixa d'água que eu ficava deitada vendo estrelas, eu e meu irmão, e ouvindo muito rádio, histórias de rádio. Eu não me lembro, pra falar a verdade, de eu lendo pequena. Mais tarde eu li muito, mas na infância eu não me lembro de ler livro de papel; talvez folhear, ouvia mais histórias pelo rádio.

(05:19) P/1 - E a sua família, seus pais, contavam histórias pra você?

R - Minha mãe contava muito, meu pai não tanto. Meu pai trabalhava. A fábrica tinha quatro mil funcionários, era uma das maiores fábricas têxteis do Brasil, tinha filial até na Europa, enfim, era a fábrica do momento daquela época. Hoje em dia é um shopping center, olha que horror! Eu acordava com o barulho, apito da fábrica, imagina, aquela música tem tudo a ver com a minha infância. Mas eu me lembro da minha mãe contar… Não eram histórias de Branca de Neve, de rainha, ela contava histórias da família. Contava histórias da tia dela, que ela adorava. Ela tinha… O meu bisavô, avô dela, foi médico, deputado federal, amigo de Pedro Ernesto, foi cassado. Enfim, eram histórias incríveis e ela contava essas histórias pra mim, eram histórias familiares que eu ouvia.

(06:24) P/1 - E a sua mãe trabalhava também? Tinha alguma profissão? Ou ela cuidava da casa, mesmo?

R - Genivaldo, é engraçado essa tua pergunta, porque eu vou responder e vou voltar para o futuro: minha mãe, durante muito tempo foi... Na verdade, naquela época, o diretor... Bangu era como se fosse do outro lado do mundo, como se fosse o Japão, porque era longe. Hoje em dia você chega rápido, mas naquela época era muito longe do Centro do Rio de Janeiro, da zona sul do Rio. Então, a gente ficava muito separados do resto, né? E minha mãe era dona de casa, ela cuidava de mim e dos meus irmãos. Eu me lembro dela, organizava a casa, mas ela criou [uma escola]  porque ela percebeu que as escolas eram muito depauperadas, muito sem vida. Como ela viajava pra Europa, pra poder meu pai se atualizar do que estava de novo na área têxtil, principalmente na Europa… Enquanto meu pai se atualizava, ela se atualizava na parte de educação. Eu sempre brinco que eu tive Paulo Freire na infância dentro de casa, porque ela criou uma escolinha, chamava Escolinha Bangu. Era uma escola… Eu vivia fantasiada de Pluft, o Fantasminha. Eu vivia ao mesmo tempo que Maria Clara Machado, que era pessoa seminal na área de teatro infantil e ela congregou a Dona Leda Pellegrini, que depois veio a fundar o Espaço Educação, uma escola de vanguarda do Rio, diretora do Souza Leão, que era uma escola da inteligência carioca, onde vários... Eu me lembro de, nessa Escola Souza Leão, que a Nana, vários cantores famosos iam visitar a gente nessa escola. Mas a minha mãe naquela época era só, entre parênteses, dona de casa, mas na realidade uma criadora de uma escola nova. 

Os filhos dos operários já tinham uma situação financeira muito difícil, diferente da minha. Eles ficavam com medo de entrar numa escola de vanguarda, que todo mundo vivia fantasiado, fazendo coisas completamente fora do normal das escolas padrões e não conseguirem emprego. Por incrível que pareça, esses meninos que estudaram comigo foram os melhores, foram os que tiveram os melhores empregos quando cresceram, mas naquela época a mamãe botava recados nas padarias, nos açougues e poucos viam e estudaram numa escola, na época, louca, né? 

E Leda Pellegrini, que eu chamo de meu Paulo Freire, ela está viva, graças a Deus, até hoje; veio a ser considerada uma das grandes pedagogas brasileiras, hoje. A carreira dela começou lá em Bangu, com a gente. Ela dormia na minha casa, porque ela morava em Laranjeiras, era muito longe. Era uma pessoa extremamente criativa e ela, junto com a minha mãe, fizeram essa escola decolar até o primário - naquela época chamava primário, né? Quando acabou o primário, eu tive que mudar, daí é uma outra história. Mas, enfim, até o primário eu vivi numa escola vanguarda, nos anos cinquenta, em Bangu. Algo incrível, né? 

(09:46) P/1 - Falando sobre essa sua vida escolar, então você passou o primário na escola que a sua mãe fundou - uma escola experimental, uma escola bem diferente. Quando você saiu do primário e teve que ir pra outra escola, essa escola era longe? Como é que foi essa sua adaptação?

R - Ótima essa tua pergunta. Eu tinha que sair de Bangu, porque lá não ia conseguir fazer um ginasial - na época, ginasial - de qualidade e Bangu já foi um esforço pra fazer um primário, né? Eu fui morar com os meus tios. Meu tio era médico e minha tia Leonor escrevia novelas com o Gilberto Braga, era… Escreveu o Dono do Mundo, enfim, todas essas novelas famosas foi minha tia que escreveu, junto com o Gilberto. O Gilberto amava essa minha tia. 

Eu tive muita sorte na vida, porque esse casal… Na época tinha repressão da ditadura militar. Eles abrigavam refugiados políticos, dormiam lá na casa deles;  vendo meus pais, meu pai que tinha aquela coisa alemã de horário, sete horas na cama ou, sabe, acorda de manhã… Quando chegou na casa da minha tia, estavam lá famosos, como por exemplo, eu me lembro do Jô Soares; Jô Soares frequentava a casa da minha tia. Eu ia dormir meia-noite, uma vida assim, boêmia. 

No início, com onze anos de idade, eu vivia durante a semana. Eu acompanhei a Dona Leda Pellegrini - que eu falo que é meu Paulo Freire, até hoje está viva, maravilhosa - ela foi ser diretora do Colégio Souza Leão, então eu fui para o Colégio Souza Leão e tive que morar - não dava pra ir e voltar de Bangu todos os dias – “exilada”, entre aspas, na casa dos meus tios. E era assim: eu ficava tão... Tinha sentimentos misturados, porque os meus tios percebiam... Eu tenho uma prima da minha idade, a Fernanda e um primo Maurício, meu primo que era mais velho, mas a minha prima tinha a mesma idade e eles não queriam fazer diferença entre a filha e a sobrinha. Às vezes, eu até sentia que eles cometiam uma certa injustiça com a própria filha, porque eles sabiam que eu estava longe dos meus pais, então tudo que eu fazia era lindo, a redação que eu fazia era linda e isso despertava muito ciúmes na filha real, biológica, deles. Não me lembro - eu morei uns cinco anos com a tia Leonor e o tio Maurício - de uma repreensão, nada; eu era livre. Voltava pra Bangu no final de semana, pra ficar com meus pais, e voltava pra aquela rotina. Enfim, eu vivia em dois mundos, nessa época. 

(12:34) P/1 - E em relação à escola, você sentiu muita diferença também, em relação à escola anterior?

R - Genivaldo, sim. O espírito da escola é o mesmo. Claro que a escola, em Bangu, era artesanal, feita pela minha mãe, nos anos cinquenta, né? E o Souza Leão, assim… Por exemplo: André Lara Resende, que criou o Plano Real, foi meu colega de turma. A inteligência brasileira estava lá naquela escola, então, o espírito da inovação… Tinha aula de música, de teatro; eu me lembro que eu fui a Antígone, numa peça de teatro e o André era o Creonte, que era, enfim, o malvado da história. Era uma... É como se fosse uma escola ampliada da que eu tive em Bangu, só que eu tinha um padrão… Por mais que meu pai ganhasse razoavelmente, era uma escola muito cara. Meus irmãos entraram como bolsistas e a Doutora Maria de Lourdes Souza Leão, que foi a fundadora da escola… A Leda trabalhava lá, me considerava muito, porque eu comecei a perceber que, pelos meus irmãos não pagarem a escolaridade, eu tinha que ser a melhor aluna da escola. E eu paguei um preço alto, porque foi como se eu estivesse carregando meus irmãos juntos. A história da Antígona, tragédia grega de horror, tem alguma coisa a ver com isso; acho que está tudo interrelacionado. Sincronicidade, vida é uma sincronicidade só, não é à toa que nós dois estamos conversando hoje. 

Ao mesmo tempo que eu me sentia privilegiada de estar no mesmo DNA de criatividade, de inovação, eu tinha um professor de Português que chegava, acendia um fósforo e dizia: "Falem sobre o fogo". Tinha [isso] naquela época e cada um falava o que queria. Um dia ele disse pro André: "Você é a razão, Vera, você é a paixão, conversem". O André virou pra mim e falou: "Você é a única coisa que está fora de mim". A gente tinha raciocínios elaborados. Só que quando eu era criança eu me sentia muito mais lúdica, solta em Bangu; lá eu me sentia primeiro desajeitada, porque eu era muito magra, botar aparelho nos dentes, depois vim a operar o nariz, porque eu tive que... O meu nariz não era adequado pro meu rosto, era uma época que eu me sentia muito frágil internamente. Eu me joguei nos estudos, então tinha momentos de alegria nessa escola e momentos de muita pressão psicológica em cima de mim.

(15:17) P/1 - Você tinha comentado sobre essas aulas de Português. Você tinha alguma matéria preferida?

R - Era redação. Eu adorava e era o professor Fernando, até hoje eu me lembro dele, porque ele era, obviamente, totalmente fora da caixa. Eu convivi, graças a Deus, com vários loucos, porque normopatia, pra mim, é a pior doença que existe. A loucura me fascina - a loucura no bom sentido, pensar fora da caixa. O professor Fernando, acho que eu era até um pouquinho apaixonada por ele, porque ele vinha com inovações, sabe? Era um pouco... O ambiente tinha uma mistura de repressão, o Souza Leão, com criação, porque naquela época, quando o professor entrava, a gente tinha que levantar e [quando] o professor saía você levantava também, era uma reverência. Imagina hoje em dia os alunos de escola pública ou particular levantar para o professor! Você tinha que ter uma reverência e aí mostrava uma intimidade que também não era tão íntima assim, algo ambíguo ficava no ar. Então, apesar de eu adorar o professor Fernando, de eu adorar Português, escrever redação - daqui a pouco eu vou me lembrar de uma curtinha que eu fiz, que fez muito sucesso - não era o ambiente relaxado de Bangu, Genivaldo. Era uma coisa que eu falava assim: "Caramba, se eu pisar na bola, tô perdida, tenho que andar na trilha".

(16:46) P/1 - E você quer comentar sobre essa sua redação agora? Você se lembra dela?

R - Então, assim: " Abre pro belo, bela. Grande no pequeno. Alma em flor, alma de flor". É isso.

(17:02) P/1 - Nossa! (risos) A gente espera isso de alguém um pouco mais velho, né? Então, realmente, você...

R - Eu tinha doze anos. Tive uma sensação de que a alma e a natureza andavam juntas, então eu fiz quatro linhas, assim... É isso que eu falei antes: eu tinha a sensação que a alma era uma flor e que está tudo interligado, a natureza e a alma e também não sabia que essa redação ia ter sucesso, não. Tinha isso de bom, que você podia se expor na redação, né? Foi isso.

(17:40) P/1 - E, passando pro seu ensino médio - na época era colegial?

R - Científico, que você podia aceitar uma área biomédica, mas científico e clássico. Eu também fui pra outro colégio de vanguarda, parece que me empurraram pra vanguarda, fui pro André Maurois. Na verdade, o André Maurois era um colégio de vanguarda, de ponta e uma experiência totalmente diferente, porque era uma escola pública. Eu vinha duma escola feita pela minha mãe, outra privada, caríssima, e fui, entrei. Caí na real, porque daí eu fui estudar com o povão, com todo mundo. No Souza Leão as pessoas vinham e eu tinha vergonha que a minha mãe não tinha dinheiro pra comprar a blusa da escola. Então, ISL, o I ia pra cá, o S caía, o L subia… Eu não podia comprar numa loja, ela que bordava. Tinha coisas que não me entravam bem e as pessoas todas com carros, sei lá, Mercedes, num sei que tipo de carro que tinha na época; o carro da minha mãe era um Veramax, não me lembro mais como era o nome, um carro mais simples e ela vinha buscar, quando ela podia, a gente na escola. Eu ficava com vergonha, porque eu sabia que os meus colegas eram muito mais ricos e, naquela época, eu achava que eu era menos. Hoje em dia, os valores trocaram totalmente. 

No André Maurois eu fui cair com pessoas de classe média, classe média baixa, de todas as classes sociais e era um colégio também de vanguarda, como eu falei e que valorizava muito a criatividade, o novo. Em vez de escolher o científico, porque eu estava com vontade de fazer Medicina... Aliás, eu queria fazer Psicologia, mas me convenceram, na época - eu morava com o tio médico, né? - que Psicologia era uma profissão de segunda categoria, que tinha que ser psicanalista. O mínimo que eu tinha que ser era psicanalista, médica; pra isso tinha que fazer científico e não o clássico. Mas aí, como eu estava sentindo que o meu coração era mais pras Humanas, em direção das Ciências Humanas e não pra Ciências Exatas, lá fui eu pro clássico e também, de novo, o Português. As redações eram o que me encantavam e eu sentia que eu era muito respeitada nessa área. 

Foi uma época diferente, mas que tinha um alívio. Eu não precisava pegar meus irmãos nas costas, em termos de pagar mensalidade, porque era escola pública. Eu estudava à noite… Ah, essa época foi ótima, porque eu sempre vivi uma vida de princesa camponesa, né? Morava em Bangu e o meu pai era o diretor da fábrica, então tinha guarda, babá. Já me incomodava muito a desigualdade social, desde pequena. Como eu tinha muito brinquedo, eu comecei a dar os brinquedos pra todos os vizinhos. A minha babá ficou com muita raiva de mim um dia, ela falou assim: "Vera, você vai dar os brinquedos? Então eu vou dar todos, que é pra você sentir o que é ficar sem brinquedo". Eu não liguei a mínima, porque eu sabia que eu ia ganhar mais, então aquela desigualdade social já começou a me marcar, na infância. 

Na adolescência, operei o nariz, daí me senti ótima, porque me senti mais bonita, saí daquela fase de adolescente que sempre se sente mal. Eu me sentia péssima, com aparelho nos dentes, magérrima; fiz cirurgia com o Pitanguy, nessa época. E meus pais jogavam golfe no Itanhangá Golf Club, então só coisa boa, eu estudava à noite e durante o dia jogava golfe. Imagina, aos dezesseis anos, jogando golfe durante o dia inteiro! Corria atrás da bola, adorava jogar golfe, adorava a natureza de novo. O esporte me fascinava porque dava uma certa disciplina, flexibilidade no corpo, mas eu adorava a natureza. Só que, de novo, era uma loucura, porque o golfe é um esporte de elite e de noite eu estudava com os plebeus, com o povão. 

Mas foi uma fase mais relaxada, até a loucura acontecer, que foi a entrada pro vestibular de Medicina. Mas nesse período foi um ahhhh, de respirar de novo; saí do Souza Leão, em que eu tinha que ser a melhor aluna da escola. Eu me lembro um dia que um professor… Eu tirei uma nota um pouco abaixo. "A Vera está decaindo". Eu falei: "Caramba, meu Deus". Quer dizer: eu tinha que tirar sempre nove, sei lá, dez, pra manter. No André Maurois eu podia ser eu e aí de novo, no outro cenário, a princesa camponesa.

(22:38) P/1 - E no que isso te modificou? Você já estava na adolescência; como seus gostos foram mudando? O que esse contato com a escola pública te trouxe de novidade, digamos assim?

R - Na verdade, a escola não me marcou tanto assim, como me marcou no primário e o Souza Leão. A escola era muito fácil, ninguém cobrava nada, a gente passava, eu gostava de redação. O que me marcou foi justamente a cirurgia plástica que eu fiz. 

Eu morava na [Rua] Tonelero, em Copacabana; a família já estava toda reunida de novo, porque a minha mãe deu um basta no meu pai e falou: "Olha, não moro mais afastada dos meus filhos". O chefão da fábrica Bangu, o Silveira, que era primo da minha mãe, deixou meu pai sair de Bangu e morar em Copacabana, então, meus irmãos e eu nos reunimos de novo em Copacabana. E um dia… Eu jogava golfe, como falei, ia pra escola pública e estava voltando, chegava em casa às dez horas da noite, onze horas. Imagina, ia ser assaltada hoje em dia, né? Mas passei por um botequim e alguém falou assim: "Mas que nariz!" 

Cheguei em casa e tinha uma sopa. Eu comecei a chorar em cima da sopa. Meu pai chegou junto de mim e falou: "Minha filha, o que aconteceu?" Eu nunca vou ser grata o suficiente, eu contei a história e ele falou assim: "Você vai ser operada logo. Eu vou com a sua tia”. Minha tia Leonor já tinha operado o nariz - na família todo mundo tinha nariz grande. A minha tia já tinha operado com o Pitanguy e eu fui operada. Foi uma liberação, no sentido que eu comecei a me achar bonita, aí comecei a ter namorado, sabe? Eu me lembro muito mais da parte afetiva dessa época, né, da sexualidade, do que a escola em si, graça ao meu pai e (risos) ao Pitanguy.

(24:34) P/1 - E me conta, então, como foi essa questão do vestibular? Porque você fez o clássico, não fez o científico.

R - Olha que loucura, Genivaldo, olha que loucura. A minha tia decidiu por mim e pela Fernanda, minha prima, que morava junto comigo no Edifício Embaixador, em Copacabana, na Avenida Atlântica: "Não, não, vocês duas vão ser médicas". E eu, como não sabia, falava: "Ah, mas eu gosto de Psicologia." "Psicologia não é uma profissão, você vai ser médica". Aí tudo bem, então vamos encarar, eu e Fernanda. Fernanda também não estava nada animada, mas lembro até hoje. Estamos com 71 anos e as duas trabalham, cada uma numa área. 

Acabamos nos encontrando na Medicina, mas naquela época eu comecei a frequentar o curso Miguel Couto Bahiense. Chegava às cinco horas da manhã pra pegar lugar - era um curso pré-vestibular pago - pra poder conseguir vaga nas primeiras fileiras da sala, porque senão eu não entendia direito. Imagina, sei lá, devia ter uns setenta alunos, por aí. Se eu sentasse lá atrás - eu já não sabia o que era carbono - eu não... Eu escrevia tudo, anotava tudo. O professor falava, eu anotava e até um professor reclamou: "Você anota demais, minha filha". Eu continuei anotando. 

Então, o vestibular... Era assim: duzentos candidatos pra uma vaga e eu tinha que passar numa universidade pública. Meu pai também continuava… Tinha cinquenta e poucos, não tinha casa própria nessa época e também não tinha carro próprio, apesar de ter sido diretor da fábrica. Era uma coisa muito impressionante. Ele só mudou de vida quando o contrataram pra ir pra outra empresa no Nordeste, aí o dono da fábrica entendeu o valor do meu pai. Tinha motorista e aí, de repente, da noite pro dia, nós mudamos de vida financeira, mas nessa época, com muita contenção financeira, eu tinha que passar pra universidade pública, não podia me dar o direito de passar na privada. 

Eu me lembro… Vou contar o final dessa história, que eu estudei feito uma louca. Eu botava no teto, na porta da casa, equações de química, física óptica, tudo o que você pode imaginar eu estudava. Dormia no apostilão - apostilão eram vestibulares passados - e chorava, dizia: "Caramba, esse negócio não é pra mim. Eu não vou passar nunca". Até o dia que veio o resultado. Fui chamada por um dos donos do curso e pouquíssimos, acho que uns quatro da minha turma passaram, e eu passei. Quando eu passei, fui pra casa chorando. Pensei assim: "Caramba, eu vou ser atropelada. Eu vou passar pra faculdade, mas vou morrer antes”. E passei um ano chorando. 

No primeiro ano eu fui a última turma da Praia Vermelha, da UFRJ, que foi uma das primeiras faculdades de Medicina do Brasil. Oswaldo Cruz, Paulo Niemeyer, todos os médicos famosos foram da UFRJ. Eu passei o primeiro ano da faculdade chorando e as pessoas falavam assim: "Você está chorando, você passou!". O preço foi tão alto! Comecei a fazer terapia também e o meu terapeuta dizia: "Você passou, mas a que preço?" Enfim, acho que a vida mostrou que valeu.

(28:02) P/1 - E como foi essa sua adaptação? Você passou um ano chorando, ainda inconformada, ainda fragilizada pelo esforço, mas como foi esse período que você fez Medicina?

R - Muito estranho. Vou te contar por que, vários sentimentos. De novo eu estava junto do povão, isso era óbvio. [Estávamos] em plena ditadura militar. Tinha sempre um caguete lá atrás… Não sei como vocês chamam, eu me lembro da palavra caguete, não sei se é a palavra que entrega a idade, enfim, era um cara que ia te delatar se você falasse alguma coisa que fosse fora de louvar a ditadura. Então, eu sabia que... Eu não participava nessa época de movimentos políticos, mas sabia que podia ser presa a qualquer momento, do nada, e tinha, eu e o meu marido, colegas presos, torturados, colegas mortos, jogados de avião, aquela loucura. O pano de fundo era a ditadura militar, aquela coisa de conversar. 

Segundo, que a gente era dividido - eram mais de trezentos e vinte alunos por turma - por letras; eu, como Vera, ficava junto com a Sueli, Tiagos da vida, com essa turma. E tinha uma elite médica, que eram os filhos dos médicos famosos do Rio de Janeiro e do Brasil: Paulo Niemeyer, os médicos famosos, filho do Clementino Fraga, que virou diretor da UFRJ, enfim, o tal do Fundão, então perguntavam assim: "Quem é seu pai?” “Meu pai é engenheiro", aí eu já não valia nada. Enfim, eu sentia uma outra coisa: eu comecei a perceber que eu era classificada por castas, aquela que não tem pedigree, não tem. Meu tio era médico, mas não era um médico famoso, era meu tio, né? Tinha um laboratório naquela época, um cara genial, o cara mais humano que já conheci na vida, mas não era um Niemeyer da vida, um Clementino Fraga, então eu já era desvalorizada. Eu me lembro até que o Sérgio Abramoff, um colega meu de turma que eu gostava muito… Eu tirei oito na prova de biofísica; ele falou: "Vera, você não vai terminar o curso de Medicina, oito não é o suficiente". De novo a pressão de estudo em cima de mim, falei: "Meu Deus, que carma!" De novo essa pressão em cima. Mas eu não tinha outra opção, eu estudava de sete da manhã às cinco da tarde na faculdade, fora quando chegava em casa. Eu não me lembro de um dia que tenha faltado um professor, a escola pública era assim e… Por exemplo, acho que em biofísica - o professor Solero, não me lembro exatamente - ou bioquímica as referências de livro eram em alemão. Falei: "Caramba, além de estudar biofísica ou bioquímica, eu vou ter que estudar alemão, pra poder...”. Era muito a onda, como se… Assim: a onda do Souza Leão foi grande; essa era um tsunami, a cada ano que passava, passar de ano, eu e minha prima combinávamos: "Vamos fechar a faculdade? Vamos parar e vamos fazer outra coisa". Mas na minha geração não tinha essa história de parar, hoje em dia o jovem para com toda a tranquilidade e muda, né? Na minha geração não tinha essa opção, você começou, vai que vai, estava preso. 

Apesar de me sentir esnobada pelos meus colegas tops de lá, os que estavam lá, no top de linha da faculdade, eu percebia que eu dava conta, tinha sido treinada pela vida pra dar conta desse desafio e que eu ia me formar. Não só eu ia me formar, como ia me formar com notas muito boas e assim aconteceu, eu me formei com notas excelentes. E hoje em dia, como é a vida, né? Desses trezentos e vinte alunos, tem uns dois ou três mais conhecidos pela carreira que seguiram e eu tô entre esses três. Muita gente que me esnobava, hoje em dia me convida pra festas e etc e tal e aquilo ficou meio marcado em mim. Eu entendo, não quero guardar ressentimento nenhum e nem rancor, não tenho idade, mas eu não tenho vontade de participar de festas de grupos que eu fui tão agredida, pelo simples fato de eu não ter família medica famosa. Até tinha o meu bisavô, que era deputado federal, amigo de Pedro Ernesto, mas bisavô não contava.

(32:36) P/1 - E, depois que você se formou, você foi fazer especialização? Conta um pouco como foi isso. 

R - No terceiro ano da faculdade - eu tive alguns namorados, mas nada de sério - eu conheci o meu marido atual; eu sou casada há mais de 45 anos, desde 1975. Enfim, faz as contas por mim aí, pra eu não errar. Eu casei e me formei em 1975 e, quando eu casei… Eu me formei em 1975, mas eu conheci o Paulo em 1972. No terceiro ano da faculdade a minha vida começou a ficar mais animada, porque não era só dissecar cadáveres, ir pra Santa Casa de Misericórdia… Eu passei por todos os hospitais públicos que você pode imaginar no Rio de Janeiro: Santa Casa, Moncorvo Filho, São Francisco de Assis. Pra mim era, ao mesmo tempo… De novo eu me sentia um peixe fora d'água, porque eu percebia que não era a doença que me interessava, era a pessoa por trás da doença. E também foi no terceiro ano, o terceiro ano foi um ano abençoado, porque eu conheci o Abram Eksterman, o Perestrello e o Júlio de Mello. O Perestrello foi o médico que trouxe a psicossomática pro Brasil. A psicossomática é uma área da medicina que estuda o paciente por trás da doença: "Por que aquela pessoa infartou? Como é a vida amorosa dela? Como é que é a vida financeira?" Enfim, porque naquela época a pessoa e a doença... Até hoje, as faculdades de medicina não se interessam, apesar de ter cursos de psicologia médica; o fundamental é o histopatológico, o corpo. A relação entre as evoluções e o adoecer não é - hoje em dia está ficando cada vez mais publicada em artigos médicos - vista com cuidado, mas eu tive a sorte de ter os papas da psicossomática brasileira na faculdade de medicina da UFRJ, no terceiro ano. Quando conheci, eu fui participar de grupos pra história do paciente, com o Perestrello e com médicos famosos. Eu falei: "É isso que eu quero da vida. Quando eu me formar, é por essa linha que eu quero". 

Eu comecei a ter uma vida afetiva e com amigos, viajar final de semana, acampava, a minha vida começou a ficar leve de novo, apesar de ter que estudar bastante medicina. Mas depois de tudo o que eu tinha passado, o pior já tinha acontecido. Daí por diante eu tive um apoio afetivo do Paulo e tinha o apoio de vários amigos. A gente, na época das dunas da Gal, ia no Posto 9 e ficava sete horas na praia. Praia cura tudo, né? Chegava às onze e ficava até escurecer na praia. Era Caetano Veloso, Gilberto Gil, essas pessoas frequentavam essa área e depois eu fui ser vizinha do Tom Jobim. 

Eu estava começando a viver uma época mais balanceada em termos emocionais, como se a vida me trouxesse o lado positivo. Vizinha do Tom Jobim não é pra qualquer um não, foi uma... Isso depois que eu casei, em 1975. Fui morar na Peri e o Tom morava na minha frente. E você sabe… Estranho, né, Genivaldo, porque o sucesso é uma coisa tão terrível no nosso país, que o Tom já era o maior maestro do planeta! Ele fazia a música Urubu e o chamavam de americanófilo, porque ele passava seis meses em Nova York pra sustentar a família inteira que ele sustentava. Ele reclamava comigo: "Cara, eu faço Urubu e me chamam de americanófilo". É estranha essa cultura brasileira, eu não sou americanófila não, mas os Estados Unidos têm uma reverência - não importa se você é japonês, brasileiro - a quem, de certa forma, entrega para a sociedade alguma coisa e a sociedade brasileira, pelo que eu conheço, não é assim. 

(36:46) P/1 - E me conta: você foi trabalhar no Hospital da Lagoa nesse período?  Você participou da fundação do setor de medicina psicossomática. 

R - Antes disso eu vou te contar: no primeiro emprego eu fiz dois concursos, pra clínica geral e pra perícia, no Méier. Fui trabalhar no Méier, como médica perita. No sistema capitalista, quanto mais benefício você negar para os pobres, mais valorizado você é como médico. Imagina a minha cabeça, vendo uma cardiopata na minha frente; eu dava benefício e o meu chefe tirava, ele queria ganhar pontos junto ao chefe dele. Ao mesmo tempo tinha pessoas que não trabalhavam e queriam se encostar e, quando eu negava o benefício, o paciente: "Doutora Vera, eu sei onde a senhora estacionou o seu carro, pensa bem se a senhora não me der o benefício.” Eu era ameaçada de morte, eu chegava em casa e chorava. 

Fui trabalhar também com hipertensos, na Praça da Bandeira. Um dia, chego pra trabalhar com paciente hipertenso, antes de entrar pro Hospital da Lagoa e a assistente social falou: "Vera, seu nome vai sair no jornal." Eu falei: "Meus Deus, quem que eu matei, dessa vez? O que eu fiz?" Nunca imaginei que era um paciente que eu tratei e que foi num jornal pequeno do bairro e me elogiou: "Agradeço a Doutora Vera, que controlou a minha pressão, pelo afeto, pelo carinho." 

Eu já sabia que eu queria trabalhar no Hospital da Lagoa. Naquela época você tinha que ter recomendações e meu pai conhecia o Ministro Reinhold Stephanes, que era curitibano como ele. Eu peguei o jornal, fui ao ministro e falei assim: "Olha, eu quero ir embora. Quero trabalhar no Hospital da Lagoa, um hospital de referência do Rio de Janeiro, quero ir pra lá". Tinha vaga e o ministro nem falou comigo: "Tem vaga na Lagoa. A doutora foi elogiada no jornal, está transferida". Eu fui transferida pra Lagoa, que era o meu sonho. E lá na Lagoa, eu quis trabalhar… Cheguei pro meu chefe de clínica, que depois virou diretor do hospital e levei uma carta de recomendação, porque eu já era conhecida como a pessoa que entendia de psicossomática. Eu falei: "Luiz Carlos…" Ele disse: "Doutora, onde é que a senhora mora?", falei: "Na Rua Peri, 299." Ele falou: "Em frente da minha casa, não". Eu fui morar em frente ao meu chefe e do lado do Tom Jobim. Eu falei: "Pois é, eu não posso fazer nada, eu moro em frente à sua casa". Eu morava num apartamento pequeno, ele morava num casarão, ele e o Tom. Aí começou. É isso. 

Aí eu falei: "Doutor Luiz Carlos, eu queria tanto fundar um setor de medicina psicossomática no hospital." "Doutora, a senhora é muito jovem. A senhora vai ralar, vai pro ambulatório, atender trinta pacientes por dia." Lá fui eu pro ambulatório. Fiquei atendendo trinta pacientes por manhã. Tinha horas que eu falava: "Jesus!" Porque era desde tumor cerebral até, enfim, pneumonia, sífilis, resfriado. Tinha de tudo. Eu recorria aos meus colegas de várias especialidades, porque eu tinha medo de matar os pacientes. Já que eu não gostava tanto de medicina clínica, eu falei: "Meu Deus, o que é isso, trabalhar num hospital!" Na época era INAMPS, o SUS se chamava INAMPS e de novo pauleira: seis horas da manhã até duas da tarde. Entra aqui o paciente, sai ali, aquele esquema de SUS, naquela época muito difícil. 

E aí chegou um momento que houve um complô: a vizinha ficou minha amiga, a vizinha do Tom, do Luiz Carlos, então ela gritava assim: "Luiz Carlos, funda o setor que a Vera quer, funda, Luiz Carlos". Foi tanta pressão, que um dia ele me chamou pra jantar na casa dele e falou: "Me explica o que você quer fundar". Eu expliquei; na semana seguinte… Ele já era diretor do hospital, baixou o decreto e eu fundei o primeiro setor de medicina psicossomática de hospitais públicos, porque tinha setor de medicina psicossomática nos hospitais-escolas, como Santa Casa, que ensinam os residentes, mas no SUS, no INAMPS não tinha isso e eu fundei. Aí a minha alma ficou em casa, porque eu comecei a perceber que eu estava fazendo, depois de muita luta, de todos esses vestibulares de medicina, ralar como clínica geral etc… Fiz um ano de especialização em nefrologia; odiei nefrologia, porque tinha que lidar mais com máquina do que com paciente, me interessava o paciente e não a máquina, enfim, mas fiz muita hemodiálise, uma loucura, teve um momento que eu falei assim: “Caramba, eu tô fazendo planos". Então, o que eu fazia? Eu reunia médicos, eles traziam as informações técnicas, raio x - naquela época não tinha esses exames de imagem todos que tem - hemograma, todos os exames de sangue e eu fazia a mesma anamnese, mas do ponto de vista pessoal, contato, conversava com o paciente, sabia da vida dele. É como o Museu da Pessoa, eu contava o porquê que aquele paciente acabou tendo tuberculose, a tuberculose era a ponta do iceberg, por trás tinha: morava num lugar horrível, sem janela, pegava condução de uma forma que levava três horas pra chegar no trabalho, enfim, os determinantes sociais do adoecer. Isso me encantava. 

Eu morei em Londres, nessa época e aconteceu outra coisa incrível, porque daí eu fui estudar o Michael Balint, que escreveu O Médico, o Paciente e a Doença e ele espalhou grupos _______ no mundo inteiro, que é justamente ampliar a visão do médico, colocando a pessoa no centro. E eu fui fazer um curso na clínica Tavistock. Na clínica Tavistock eu conheci a Anna Freud. Um dia eu fui chamada pra uma sessão… Desculpe, Tavistock é onde o Balint trabalhou. Foi na Hampshire Clinic, eu fui fazer um curso na Hampshire Clinic e aí foi um caso de uma criança e tinha uma senhora na minha frente, que mexia com colar, assim.. De repente, os dois moderadores da sessão falaram: "What do you think about it?” “O que você pensa, Miss Freud?" Eu falei: "Caramba, eu tô sentada atrás da filha do Freud". Não tinha celular, eu queria tirar um selfie com ela, mas não tinha nada, né, eu não podia fazer nada, eu só podia ficar... Eu cheguei pulando em casa e falei: "Paulo, eu passei de uma sessão com a filha do Freud". Enfim, tudo isso que eu aprendi eu levei, depois da minha estadia em Londres e apliquei no Hospital da Lagoa, na psicossomática.

(43:36) P/1 - E quais os resultados você viu nisso, Vera?

R - Quais o quê?

(43:43) P/1 - Os resultados que você viu na aplicação, como isso aconteceu? Como você comprovou que funciona?

R - Ótima pergunta! Vou te dar um exemplo: tenho uma amiga que até hoje trabalha, num lugar, não vou te contar, mas é cardiologista, uma cardiologista excelente. Nós fizemos uma dupla, ela como cardiologista e eu como pessoa entendida na história do paciente, nos grupos de hipertensos. A gente pegava os pacientes mais graves, hipertensos, a Silvinha medicava com diuréticos, anti-hipertensivos, a medicação tradicional e eu, naquela época, tinha feito outro curso, nos Estados Unidos, com o inventor da bioenergética, que foi discípulo do Reich. Ele aprendeu a linguagem corporal que, se você não tiver flexibilidade corporal, isso te leva, é uma das razões de hipertensão e diversas outras. Eu comecei a fazer exercícios físicos e também acompanhava a vida de cada paciente do grupo de hipertensos. 

Nós fomos chamadas, eu e a Silvia, pra apresentar os resultados desse trabalho, num congresso de cardiologia e os resultados foram impactantes. Nós escrevemos, apresentamos. Para te dar um exemplo: a secretária do chefe da cardiologia tomava cinco medicações e tinha 22 por doze de pressão; a pressão dela não abaixava com as cinco medicações. Depois de um ano dessa terapia, vamos dizer, integrada, medicamentosa e a pessoa do doente sendo trabalhada, ela passou pra um ansiolítico e nunca mais teve pico hipertensivo. É só pra você entender como é necessária essa junção de forças.

(45:29) P/1 - Eu queria que você comentasse um pouco sobre a fundação do Instituto Saúde Criança, que agora é Instituto Dara, de onde veio essa ideia?

R - Nossa, é o seguinte: eu tenho duas filhas, Marina e Laura. Uma mora em Londres hoje, a outra mora - na época tinham dez e treze anos - em Brasília. Na fase da infância eu não tinha coragem, como chefe do setor de psicossomática… No setor tinha psiquiatras, musicoterapeutas, psicólogas, clínicos gerais. Eu era chefe de um grupo de profissionais, mas eu trabalhava com adultos. Naquela época era a época que iniciou a Aids, então era uma loucura, a gente tinha que lidar com paciente terminal a todo momento, pra diminuir a dor, pra aconchegar o paciente. Fui fazer dez anos trabalhando com adultos - dos vinte que eu trabalhei na Lagoa, dez eu trabalhei com adultos. Eu falei: "Com duas filhas em casa, pequenas, eu não tenho coragem de entrar na pediatria. Eu tenho que cuidar das minhas filhas, pra sobreviver". Mas quando a infância acabou, Laura tinha dez e Marina tinha treze, eu falei: "Não, não dá mais pra eu fugir". 

O setor que as crianças ficam, às vezes, internadas um ano, com casos graves, de câncer, enfim, graves, com sessões de quimioterapia [é] o tipo do lugar onde a psicossomática mais valia, né? É o lugar que a gente tem que entrar, aconchegar a mãe, ouvir a mãe, pra mãe estar forte o suficiente, pra dar conta de lidar com o filho doente e com outros filhos também. Eu fui pra pediatria e comecei a ouvir… Eu falo muito em mães, porque poucas famílias... Você sabe que no Hospital da Lagoa, a maior parte dos pacientes que se internaram lá -e até hoje é assim - são de famílias muito vulneráveis, das favelas, dos subúrbios, e é um hospital de ponta. Naquela época que eu entrei estava muito bem, hoje em dia foi decaindo muito a saúde pública, como você sabe, sucateada. O SUS é um sistema maravilhoso, mas foi sucateado e o que aconteceu? Eu comecei a ver que as mães ficavam desoladas e  comecei a atender dois casos que me marcaram muito. Eu fui chamada por um colega que ia iniciar, o Harold, quimioterapia em uma criança com câncer renal. Falou: "Vera, me apoia, pra essa criança aceitar e pra mãe aceitar o tratamento". Eu fui lá, conversei com a mãe. A mãe tinha onze filhos, ela era de outro estado, morava num subúrbio, na casa de uma parente, pra fazer quimioterapia no Hospital da Lagoa, que era hospital de referência. Eu comecei a conversar com a mãe e vi que a mãe tinha muito mais sabedoria e flexibilidade do que eu, porque eu estava... Uma coisa era a persona médica, outra coisa era o ser humano por trás. Eu olhando o drama daquela mãe, eu estava completamente fragilizada, eu dizia: "Eu não tô apta a lidar com tanta dor". Eu fazia um eletrocardiograma em mim mesma uma vez por semana, porque eu achava: "Eu vou infartar, é dor demais", mas aí eu perguntei, falei: "Não, pelo amor de Deus, se esse setor existe, eu tenho que enfrentar essa dor." 

[Ela disse:] "Doutora, já entendi, já falei sobre minha vida com a senhora. A senhora tem um pano pra me arrumar?" "Um pano?" "É, porque eu não tenho dinheiro pra comprar casaco pro meu filho e eu venho duas horas de ônibus pra chegar aqui pra quimioterapia e ele gripado, o Doutor Harold vai interromper a quimioterapia". Eu entendi que o pano que ela estava me pedindo era um casaco, naquele choque eu consegui o casaco. No dia seguinte eu fui chamada, porque uma criança tinha sido internada, tinha havido uma iatrogenia médica e tinham colocado o soro de uma forma que a mão da criança tinha necrosado. A criança foi pro Hospital da Lagoa pra amputar a mão e eu fui chamada pra amparar a criança e a mãe no momento da amputação. De novo eu falei: "Meu Deus, onde eu fui me meter?” Mas, enfim, não dá pra recuar. E aí, eu conversando com a mãe: "Olha, mas..." Expliquei todos os procedimentos médicos, como ia ser a cirurgia, como é que ela tinha que tomar cuidados com a assepsia depois do ato, contei tudo. Ouvi, a criança tinha uns cinco anos de idade, com a criança eu me lembro que eu nem... Falei um pouco que ela ia passar por procedimentos, mas pedi a mãe pra conversar com a criança sobre isso. De repente, a mãe olhou pra mim e disse: "Doutora Vera, eu já entendi, não precisa me explicar mais nada, não. A senhora tem um emprego pra me arrumar? Minha patroa me demitiu, eu vou sair daqui pra rua". Eu tinha acabado de esquiar com meu marido e minhas filhas, meu marido era diretor da IBM, e a mãe ia sair do hospital e ia pra rua, e o filho com a mão amputada. Eu comecei a parar e conversar - eu tinha muitos amigos na pediatria. Eu falei: "Odilon, o que é isso? A gente vai amputar essa mão, essa criança não tem uma prótese. Vai infeccionar, vai voltar a internar". 

No dia seguinte veio a Priscila, que tinha tido pneumonia. A gente tratou, a equipe médica era de excelente qualidade. Priscila teve alta. Três meses depois ela vinha de novo, com outra infecção. Eu comecei a perceber que tinha um círculo vicioso: a miséria, internação, reinternação e morte. As crianças voltavam, por mais que elas fossem bem tratadas. E conversando com o chefe da pediatra, Odilon Arantes, ele falou: "Vera, o ato médico não se completa. Não é só aqui na pediatria do Hospital da Lagoa, que é um serviço de ponta do Brasil. É no mundo inteiro assim: o ato médico não se completa." 

Eu comecei a pensar: "Meu Deus, eu não vou ficar quieta", daí uma enfermeira falou assim: "Doutora Vera, a senhora já trabalhou como clínica geral, depois a senhora trabalhou com psicossomática. O que a senhora é agora? Irmã de caridade?" Eu falei: "Não me pergunta, porque eu não sei quem eu sou, eu tô completamente perdida". Eu sou canceriana, conversei com a minha mãe. "Mãe, pelo amor de Deus. Eu tenho que fazer um negócio que eu não sei o que é, fora do hospital: amparar as famílias no momento da alta pra cair, diminuir o número de reinternações hospitalares, pras crianças não sofrerem tanto, pra cuidar dos aspectos determinantes sociais do adoecer. Isso é, pobreza". E aí não sabia, mas hoje em dia eu sei: um terço das mortes que acontecem diariamente no planeta estão relacionadas à pobreza. Doenças facilmente curáveis a baixo custo - tuberculose, infecção intestinal, gastroenterite, tudo que poderia ser tratado a baixo custo - para no hospital e no cemitério. 

Comecei convocando um grupo de voluntários, rifei um lençol no playground onde eu morava na Barra - já tinha saído da Peri, morava na Barra. Juntei cinquenta profissionais e pessoas da sociedade civil e comecei. O Parque Lage é um parque no Rio, do lado do Hospital da Lagoa. Eu trabalhava de manhã com as famílias e dizia pra mãe quando ela tinha alta e eu percebia que era muito vulnerável: "Vai lá no Parque Lage, que nós vamos te ajudar". 

Na época que as organizações sociais estavam começando, a Doutora Ruth Cardoso, o setor cidadão estava começando a pulsar, eu comecei a... Eu estava numas cavalariças, literalmente onde ficavam os cavalos no Parque Lage. Era uma médica que queria acabar com a pobreza no mundo, em resumo era isso, com vinte voluntários, Exército de Brancaleone, mas começou a dar certo. Por exemplo: vinha uma criança, uma adolescente - eu nunca vou esquecer disso - com uma imunodeficiência. Ela precisava de Intraglobin, que é um remédio caríssimo; a mãe não tinha dinheiro pra comprar, nem a associação. Eu liguei pra indústria farmacêutica. Enfim, se eles vissem onde eu estava, nas estrebarias, jamais entregariam o remédio, mas entregaram e a menina que tinha tido dezenove pneumonias nunca mais se internou. E comecei a fazer um vídeo, falei: "Vou fazer um vídeo do que a gente faz aqui nessas cavalarias, porque eu tenho que provar o impacto disso". Daí o editor do vídeo, o Pessanha, que era editor do Fantástico, ele falou... Eu falei: "Olha, eu não tenho dinheiro pra pagar, vai ter que fazer de graça." "A doutora trabalha onde?" "No Hospital da Lagoa." "Ah, o meu pai foi salvo lá, vou editar de graça". Editou o vídeo, uma semana depois estava a Fátima Bernardes, nas cavalariças, me entrevistando. E lá nas cavalariças, com alguns resultados positivos e doentes já vindo da Rodoviária Novo Rio: "É aqui que dão curso profissionalizante, remédio, cuidam de pobre? E a gente dizendo: "A porta de entrada é o Hospital da Lagoa, você não pode vir de qualquer lugar, porque nós não temos dinheiro". 

Comecei a rifar - tem um filme Quem se Importa, da Mara Mourão, que aparece esse pedaço da minha vida - objetos da minha casa. As minhas filhas diziam: "Mãe, o meu tênis Reebok não" e fechavam, porque elas sabiam que o tênis Reebok ia virar Alfaré, que é um leite caríssimo. O Paulo chegava de viagem: "Cadê o relógio de parede?" “Virou quimioterápico”. E os meus amigos começaram a fugir, porque eles sabiam que eu queria o dinheiro deles ou eles, pra serem voluntários. Eu me lembro, eu ia de manhã pro escritório, de branco, voltava… Uma amiga que tinha confecção de retalhos… Sobrava alguns retalhos, a gente pesava e vendia. Eu falei: “Eu enlouqueci, porque eu já não era uma médica tradicional e agora eu tô pesando retalhos num estábulo. Onde eu vou parar, com essa situação?" 

Bom, como o esforço precede a graça, eu fui conversar com o João Cláudio, que era um médico que tinha um posto na Rocinha, pegava paciente pobre."O João entende de pobreza e tem dinheiro internacional, eu vou atrás dele". Falei: "João, eu preciso fazer um treco que eu não sei o que é, mas eu preciso organizar um mutirão, ajudar. Nós somos um bando de loucos ajudando um bando de miseráveis, mas a gente tem que ter estrutura, eu não sei como estruturar." Ele disse: "Vera, vai procurar a Ashoka, uma organização que apoia". 

Eu passei nove meses de entrevistas, queriam saber tudo. Veio um _______ , um entrevistador lá do exterior. Chegou uma hora que eu fiquei com raiva da Ashoka, falei: "Vocês não acreditam em mim? Eu também não acredito neles". Aí vira o Bill Drayton pra mim, que é o Gandhi vivo planetário, me entrevistar. Quando ele me entrevistou, eu passei e ganhei a bolsa da Ashoka, que era 650 dólares. Como eu precisava do dinheiro - eu fui voluntária por doze anos - o único budget do Dara eram os seiscentos e cinquenta dólares. E aí nós começamos. 

Nós éramos um grupo muito organizado, sempre fomos, né e começamos a colocar em pastas, tudo, até que eu comecei a pegar conselheiros famosos e ricos: a Vivi Nabuco, que é uma pessoa maravilhosa, dona do Banco Icatu; a Cristina Gouveia Vieira, que era mulher do presidente da indústria do Rio de Janeiro, botei conselheiros ricos e generosos, não só ricos, mas pessoas bastante generosas e amorosas, pra me abrir caminhos. Eu pensava: "Não posso continuar nessas cavalariças", porque nós éramos auditados desde o início. Uma vez uma auditora toda chique, com uma maleta, chegou lá e caiu um pedaço do telhado da cavalariça em cima dela. As nossas casas eram iguais as casas das famílias. Eu pegava o prontuário do Dara e puxava, porque a goteira pingava, era assim no prontuário Dara das famílias - na época era Renascer. 

Quando eu fui eleita fellow da Ashoka, eu comecei a viajar mundo. Virei, como diz o Eugênio Scannavino, que é do Saúde e Alegria, uma mendiga internacional. Falei: "Aqui no Brasil ninguém acredita nessas coisas. Eu tenho que viajar, ir pra fora do país, pra fazer palestra”. E aí eu fiz 54 palestras em dezesseis países, arrecadando fundos. Mas com esse dinheiro vindo a conta-gotas, aconteceu um milagre, que foi o seguinte: o que me movia era a sincronicidade. Por exemplo: faltava, pra terminar o mês como se fosse hoje quinhentos e quarenta reais; não tinha de onde tirar, eu já tinha vendido o que eu podia da minha casa, então uma voluntária na Suíça fazia um jogo de futebol e enviava quinhentos e quarenta reais, exatamente o que faltava para o orçamento, caramba! 

Aí o Betinho, o Herbert de Souza, que fez o maior movimento… Eu fui no Betinho e ele começou a fazer propaganda da gente. Quando ele fez sessenta anos, ele falou assim: "Doem para essa organização, porque cada real..." - não sei qual era a moeda na época, 1994, não sei se era cruzado novo ou real – “... doado vai pras famílias mais necessitadas”.  Começaram a vir pessoas de outros hospitais públicos copiar o modelo, eu falei: "Vocês vieram copiar o quê? Cartolina? Porque eu não tenho modelo estabelecido.” Tinha setor de administração, setor de captação, setor de atendimento e a gente dividia. 

Até que um dia a Ashoka me convidou pra falar em Comandatuba, num retreat da Mckinsey, onde tinha duzentos consultores da Mckinsey e lá fui eu falar. Levei um triângulo - na realidade, não era nem Powerpoint, eram transparências – de problemas: não temos sede, não temos dinheiro e precisamos organizar a metodologia. Eu fui a última a falar, tinha gente do Laramara aí de São Paulo, várias pessoas falando. Falei: "Caramba, ninguém vai me prestar atenção". Quando eu falei, os duzentos empreendedores levantaram e aplaudiram de pé e fiquei assim... Eu tinha ímã de geladeira, que as mães faziam pra vender. De noite, tomando cerveja no hotel chiquérrimo que eu fui, eu falei assim: "A senhora tem ímã de geladeira pra me dar?” Pedi ímã de geladeira em Comandatuba, no ano que a Lady Di morreu, não esqueço. E o Paulo, que sempre me levou pro exterior através das viagens, foi como meu convidado, então, no avião eu dizia assim: "Come bem o sanduiche, porque eu tô pagando, viu?" Ele não acreditou que eu estivesse pagando alguma coisa pra ele, mandou a secretária dele da IBM ligar pra alguém, pra Mckinsey, pra saber se realmente o voo dele estava pago. Aí eu fiquei perturbando ele a viagem inteira: "Come, que eu tô pagando". 

No dia seguinte, na piscina, um dos donos da McKinsey, Frederico Oliveira, sentou do meu lado. Falou assim: "Vera, eu vou te ajudar". Eu não tinha ideia do que ia fazer: ele me deu cinco mil horas pro bono de consulta da Mckinsey. A Mckinsey ficou dentro do Parque da Lage com a gente quatro anos. Se fosse, sei lá, a Ambev, a Ambev tem dinheiro, mas uma empresa menor, eu jamais teria dinheiro pra pagar o que eles deram e eles conseguiram, vamos dizer, criar critérios pra comprovar o sucesso da metodologia. Nesse momento, eu vi o André Lara Resende, que eu te contei que foi meu colega de turma, era presidente do BNDES; falei: “O André está com dinheiro, eu vou lá." Bati e falei: "Eu preciso de dinheiro a fundo perdido, porque eu não tenho como pagar"  - e tinha essa rubrica no BNDES: dinheiro a fundo perdido. Ele me deu quinhentos mil dólares - quinhentos mil reais, porque era um pra um, na época. Também perturbei o Paulo: "Olha, Paulo, você está casado com uma Demi Moore! Eu sou meio milhão de dólares, hein! Então, por favor, cuida bem do seu patrimônio". E aí fiquei brincando. 

Juntou a Mckinsey com o BNDES e aí a instituição deu um salto de profissionalização. Começou a vir um círculo virtuoso do Dara: eu fui eleita fellow da Ashoka, fellow da Avina, a Schwab Foundation me mandou pra Davos e, enfim, ganhei o prêmio Skoll, dado pelo Robert Redford, que ajudou a levar a metodologia pra seis estados brasileiros e viramos política pública em BH. 

Eu tô falando por alto, mas não foi tão fácil. 1600 voluntários criaram. A força do Dara, da tecnologia, hoje está no mundo porque a gente não o criou num escritório, num laboratório. Ouvindo a quem a gente servia, a gente foi criando um plano de ação familiar, pra que a família saísse da miséria. Eu vou ter que falar rápido o que é o Dara? É da miséria à dignidade, para sempre. É claro que isso não acontece com cem por cento das famílias, tem famílias assistencialistas, que continuam numa vida abaixo da linha da pobreza, porém grande parte dessas famílias saem da linha da pobreza e começam a empreender e gerar recursos pra manter. Elas não viram classe média, classe média alta, mas elas geram recursos e têm a autoestima, vamos dizer, bem mais forte do que quando elas entraram, pra levar a vida adiante. Se eu tivesse que ressaltar um algo importante de comprovação, porque não dizer: "Ah, o projeto é lindo", nós somos considerados pela NGO Advisor, uma revista, uma instituição suíça, por critérios de transparência, impacto social, poder de replicação... Que mais? E governança, a melhor ONG da América Latina por nove anos consecutivos e a 21ª melhor do mundo, com orçamento de cinco milhões e meio de reais, que não é nada, comparado com Médicos Sem Fronteiras etc. 

Isso foi feito não por minha causa. A causa, eu não conheço dor maior do que família pobre, com filho doente. Teve uma mãe na pediatria que me disse uma coisa que eu não vou esquecer: o filho estava com um câncer grave e ela não tinha dinheiro pra comprar analgésico pra criança e ela: "Doutora Vera, eu quero que meu filho morra e se eu pudesse morrer no lugar dele eu morria, mas eu não posso, eu não aguento mais vê-lo sofrer". Então, a causa do Dara… Eu brincava assim: "Se eu fosse o Kofi Annan - na época era o Secretário Geral das Nações Unidas - eu ia começar com essa causa: famílias vulneráveis, em geral da raça negra, com filhos doentes. Essa é a pior dor do mundo". E na vida, cuidado com o que você sonha, porque acontece: eu acabei falando num painel junto com o Kofi Annan, na Skoll Foundation. E em resumo é isso, agora vou deixar você falar.

(01:04:41) P/1 - Imagina, a palavra é sua. (risos) Mas me conta um pouco de como vocês... Você disse que vocês começaram da prática, então vocês foram observando casos reais e disso foi saindo uma linha de atuação pra ajudar essas famílias. Atualmente, quais são as ações que vocês tomam, de uma forma geral? Alguns exemplos. 

R - Eu vou te dizer como a gente está. Hoje a gente está baseado numa casa que era um antigo colégio, uma sede muito bonita. Venha nos visitar no Rio, aqui no Colégio Princesa Isabel. E o que acontece, as famílias vêm de onde? Antigamente vinham só do Hospital da Lagoa, hoje em dia vêm do Novo Rio; do Hospital da Lagoa; do CRAS, que é Centro de Referência em Assistência Social; de escolas públicas; e da Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda. Eu não posso cuidar dos pobres em geral, porque eu não tenho dinheiro pra isso, né? 

Quando eu tenho que falar rápido, a gente é um Bolsa Família com porta de saída. O que acontece com a família? A família entra e é feito um diagnóstico baseado em cinco áreas: desempenho de saúde… Saúde não é hospitalocêntrica, saúde não é isso que eu aprendi na faculdade só. Saúde é acesso à educação, é moradia salubre - nós vamos falar sobre isso. O projeto é assim, moradia saudável. Saúde é um ambiente psicológico harmonioso dentro de casa, saúde é renda e saúde é cidadania. 

Então, a gente trabalha em cinco áreas: saúde, educação, moradia, renda e cidadania. Chegou a família desses locais que eu te falei, a gente faz um diagnóstico abrangente e começa a ver com o chefe de família - em geral, a mulher, a avó ou a mãe, às vezes o pai - em que estágio de vida essa família está, quais são os problemas mais prementes? É a moradia, ela vai desabar na próxima chuva? Então, a moradia é urgente. Não, é a violência doméstica? O pai quer matar a mulher? Então, o atendimento psicológico é urgente. Na primeira consulta a gente começa a criar, cocriar; o certo não é uma coisa assim: "Eu vou mandar você fazer o que você tem que fazer". Não, a gente começa a estimular a família e dizer: "Tá bom, entendi os seus problemas, mas quais são os mais graves? Por onde você quer começar? Quais são as soluções? Você sabe, você entende muito mais da sua vida do que eu. Você está no Dara, você vai ser muito apoiado durante dois anos, mas quem vai solucionar a sua vida é você. Nós vamos te amparar, pra que você caminhe". Então, por exemplo: os filhos estão fora da escola, não estão vacinados e vamos dizer que a mãe não gera renda, então a gente começa a perguntar: "Tá bom, você está ganhando zero, está vivendo do Bolsa Família, que não é suficiente. Quais são seus talentos?" "Ah, eu gosto de cozinhar. Ah, eu gosto de consertar ar-condicionado". Tem cursos internos dentro do Dara e tem cursos externos, a gente paga. No programa do André Trigueiro, Cidade e Soluções, [tem] uma mãe que resolveu consertar ar-condicionado. O filho vivia internando, parou de internar e ela, hoje em dia, toca a vida dela. 

Foca no positivo da família e diz: “Até mês que vem, quando você voltar aqui presencialmente, você vai receber muita comunicação via WhatsApp” - porque isso a pandemia nos ensinou, que muita coisa pode, todos têm WhatsApp e se comunicam – “então você vai receber muita informação, mas vamos pactuar o que é que você vai ter que trazer dessas áreas que você focou como principais, na sua vida”. É como se fosse um dever de casa, quando ela volta. 

Não é que a gente obrigue, é que às vezes ela teve um outro filho doente, que foi parar no CTI e ela não conseguiu fazer nada e tudo bem, vai ficar pro outro mês o dever de casa, mas ela percebe que ela tem que vincular com o Dara e nós somos… Eu costumo dizer que nós somos um Obama. A mãe chega arrasada, a gente fala assim: "Essa mãe não vai melhorar nunca, meu Deus!" Mas a gente olha pra mãe, assim... A gente que eu falo é a equipe técnica: assistentes sociais, psicólogas, médicos, nutricionistas, advogadas, engenheiros e voluntários - tem 120 voluntários, trinta na área de atendimento direto, que fazem um acompanhamento olho no olho, pra se aprofundar e criar um vínculo com aquela família. 

A cada mês você vai vendo os progressos dessa família e é emocionante, porque a gente fez uma pesquisa com as famílias: o que era saúde, para elas? O que elas falaram? "Saúde é oportunidade". Nunca imaginei que saúde fosse oportunidade, mas elas só precisam de uma oportunidade, isso que o Dara dá. Então, a gente acompanha, mensalmente, durante dois anos, essas cinco áreas - depois vou chegar na moradia - e nós temos critérios muito claros pra poder dar alta pra família, em relação a saúde. Crianças com câncer, câncer é uma doença crônica, mas se ela está clinicamente estável, ela vai ter alta, porque tem outra que vai entrar. A criança tem que estar ou curada, ou com a doença crônica controlada. Em relação à renda tem que ter, ganhar um salário-mínimo, alguém da família, mas um quarto de salário mínimo por cada integrante da família. Em relação à escola, tem que estar todos os filhos na escola. Em relação a cidadania, os documentos básicos: certidão de nascimento, carteira profissional, benefícios. Elas têm benefícios que elas não sabem que têm, porque pobreza não é só falta de dinheiro, é falta de informação. E moradia, a moradia tem que ser minimamente digna - não vou entrar em detalhes, mas nós temos os critérios do que significa minimamente digna. 

É muito bonito o momento da alta porque, no momento da alta, eu chego a chorar até hoje, trinta anos depois. Eu tô na sede, quando eu não tô trabalhando através de Zoom; a mãe, no momento da alta, tem toda a equipe de voluntários de funcionários, tem um sino, ela toca o sino e ela conta a história dela. Conta como ela entrou e como ela saiu e a equipe toda do Dara aplaude. É o momento de uma celebração, você não tem ideia do que é.

(01:11:26) P/1 - Bom, então realmente vocês têm um acompanhamento. Tem muito a ver com aquilo que você disse sobre psicossomática, a questão de que são várias áreas, não é somente uma questão de saúde clínica, digamos assim. Então, vocês vêm esses cinco itens básicos da vida das famílias. Eu queria que você... Vou comentar um pouquinho também, que vocês tiveram no ano passado um projeto junto com a Vedacit, o projeto Moradia, no qual alguns, não só algumas moradias, mas também alguns equipamentos públicos como bibliotecas tiveram reformas feitas também.

R - Eu vou te falar: a Vedacit é um parceiro bastante estratégico porque, de todos os projetos, de todas as cinco áreas, me encanta a moradia. Só pra te dar um exemplo anterior à Vedacit: uma vez a gente fez uma reforma - porque desde o início do Dara a gente faz reformas, antigamente eram outras organizações que apoiavam com recursos a reforma da casa das famílias, mas eu me lembro um dia que uma mãe teve uma casa reformada. Ela não saía da sede, ela chorava e dava volta em torno da sede e eu parei pra perguntar: "Mas o que está acontecendo?", porque ela tinha que pegar o ônibus pra voltar pra casa: "Doutora, a senhora não sabe. Eu não caibo dentro de mim, de tão feliz que eu tô de ter uma casa. Agora eu tenho uma mesa, a família senta junto, a senhora não tem ideia do que foi feito, a reforma da minha casa trouxe a minha vida". Ela queria falar do bem-estar psicológico, ela não tinha palavras pra falar isso, mas ela queria falar da harmonia familiar, que quando a gente fala de reforma de casa, parece algo concreto só, mas é algo, é um bem intangível. E a Vedacit, foi muito importante essa parceria e é muito importante, foi e eu espero que continue sendo, apesar de que com a pandemia a gente teve que reformar poucas casas. Reformamos uma casa com a Vedacit, a gente espera reformar mil com a Vedacit, porque a pandemia dificulta muito a obra, principalmente no Rio de Janeiro, que foi um epicentro de covid. Há uns meses estava terrível. Expor funcionários, a própria família, fazer obra em locais, era algo que os médicos da instituição, entre eles eu, a gente não deixava, vamos dizer, fazer em grande quantidade. 

Mas como é que é feita essa... Primeiro, quais são os critérios pra eleger uma família pra reforma? Todas querem a reforma de casa. A gente explica desde o início: o esforço precede a graça. A família que não vincula, por exemplo, não entende o que é o Dara, que tem lá como se o Dara fosse um supermercado, pra pegar remédio e comida e não começa a fazer uma transformação interna, virar protagonista da própria vida, não recebe a moradia, porque a gente entende... O Dara não é um projeto assistencialista, é um projeto que facilita o protagonismo individual, promove saúde e desenvolvimento humano e, pra ter desenvolvimento humano, é preciso uma força, não só dos funcionários e voluntários do Dara, mas uma força do beneficiado. 

Uma das críticas ao Bolsa Família é isso: que a pessoa se acomoda etc. Na verdade, eu sou a favor do Bolsa Família, vamos deixar claro, mas eu acho que tem que ir além em alguns casos, tem que haver uma promoção de desenvolvimento humano mesmo. Então, com a Vedacit, em primeiro lugar: o que as famílias precisam mais? De reparos elétricos - eu tô com uma colinha aqui e tô lendo - infiltração, saneamento, água, esgoto, esses são os problemas mais básicos. Chegam crianças com pneumonia, com asma, voltam pra casa e as paredes todas infiltradas; é óbvio que elas vão voltar a ser reinternadas. Então, como é que é feito o processo com a Vedacit e dentro do Dara? As famílias, como a gente quer sempre que a família vire protagonista, vai fazer um orçamento e a gente quer fomentar o mercado local. Ela vai fazer três orçamentos dos materiais de construção, das vendas que têm ao lado da casa dela, vai envolver a comunidade - vizinho, parentes; tem parente que é pedreiro, tem um vizinho que é pintor – essas pessoas, pra fazer a reforma. A Vedacit vai entrar com recursos financeiros. Por exemplo: pagou uma casa, ficou linda e espero que muito mais casas aconteçam, a família ficou emocionada com o que a Vedacit fez porque, sem os recursos da Vedacit, a gente não tem dinheiro no Dara. Vamos dizer, o mais caro de tudo que a gente faz é a reforma da casa, você imagina reformar uma casa. 

Qual é a contrapartida do Dara, em relação aos recursos que a Vedacit dá pra cada família, da reforma? Primeiro é avaliado pelos arquitetos voluntários e os engenheiros voluntários que vão com a assistente social na casa da família e vão entender se aquela reforma que a família está querendo é fundamental. Às vezes a família quer, sei lá, mais um jardim em frente, quer fazer mais um terraço. A gente não pode fazer isso, a gente tem que fazer uma reforma estruturante pra qualidade de vida, a gente explica isso pra família. Então, o engenheiro atua, o arquiteto faz a planta. Esse é o papel do Dara. A família traz três orçamentos, a área administrativa do Dara bate o martelo e diz: "Você pode comprar". E, com o dinheiro da Vedacit, viabiliza a reforma da moradia. 

Eu só tenho a agradecer à Vedacit. Espero que essa parceria seja longa, porque os governos, em geral, fazem o quê? Um novo conjunto habitacional, então tira a família do ecossistema - Cidade de Deus aqui no Rio, São Paulo deve ter vários exemplos - tira a família do local onde ela tem a mãe, a sogra, todo o ecossistema de amparo e a bota no conjunto habitacional, onde a criminalidade é altíssima. Eu sou muito favorável a respeitar o ecossistema psicológico e familiar e fazer uma reforma na casa, naquele local. Então, essa parceria de organizações sociais - eu não gosto do nome ONG e também não gosto do terceiro setor - setor cidadão, organizações sociais, e empresas como a Vedacit são extremamente valiosas e elas têm que ser não só ampliadas, como tem que ser levadas adiante através dos casos. 

A gente documenta muito bem, uma coisa que o Dara sabe fazer é documentar. A gente documenta a casa antes, tira fotos, durante a reforma tira fotos, pro patrocinador ter um retorno, porque ele vê o estado de miséria e precariedade que aquela família vive e vê o final da moradia e muitas vezes a gente grava a voz da família falando o que resultou aquela reforma.

(01:18:58) P/1 - Bom, então, por questões de tempo, a gente vai abreviar um pouquinho aqui as perguntas, mas agora vão ser perguntas finais e perguntas um pouco mais pessoais, Vera, tá bom?

R - Posso falar uma coisa?

(01:19:13) P/1 - Diga.

R - Teve uma coisa que saiu no New York Times sobre o Dara. As organizações sociais têm, muitas vezes, um impacto de curto prazo. Diminui as reinternações ou, se é uma organização ambiental, planta cinco mil árvores na Amazônia, mas impacto de longo prazo não tem. 

Eu não consegui fazer parceria com organizações, faculdades nacionais, mas por sincronicidade da vida eu fiz uma parceria… A White Martins, a nossa maior patrocinadora pagou, a gente fez uma parceria com a Georgetown University. O que eles provaram? Eu ficava muito preocupada, nesses cinco anos, com as altas do Dara; como é que a família volta pra miséria? 

Os pesquisadores vieram ao Brasil, durante três anos; [são] professores de políticas públicas de Georgetown. Escolheram um grupo aleatoriamente, um grupo controle de cento e poucas famílias e acompanharam - famílias que tiveram alta, por cinco anos, após a alta do programa do Dara. E, pra nossa surpresa, em cinco anos pós alta, a renda da família dobra, cai em 86% as reinternações hospitalares. 26% das famílias tinha casa própria, em cinco anos pós-alta 50% têm casa própria. Essa pesquisa que eles chamam de long term impact, impacto de longo prazo, foi publicada no New York Times. Então, quer dizer: a metodologia está mais que comprovada e também mostra que a gente fez uma mudança sistêmica no paradigma de saúde. Saúde, como você falou, não é só hospitalocêntrica, saúde tem que levar em conta os determinantes sociais e psicológicos do adoecer. 

(01:21:06) P/1 - Está certo. Então, vou partir pras últimas perguntas rapidinhas, né? Primeiramente, o que é mais importante pra você hoje em dia, Vera?

R - Afeto, ações familiares de afeto. Família você sabe que não é fácil, né? A minha, então, é siciliana, a gente... Mas o afeto predomina na minha família. As brigas acontecem. 

Afeto com aqueles amigos que você sabe que você não precisa ser uma persona, eles te amam do jeito que você é, com o seu lado luz e com o seu lado sombra. A  prioridade, pra mim, hoje em dia, são relações em que a minha alma se sente em casa, sejam familiares, sejam amigos próximos.

(01:21:54) P/1 - E como é, pra você, ser mãe, Vera?

R - Ah, foi o maior milagre da minha vida, porque até hoje eu acho que gravidez... Minha filha mais jovem está grávida do meu... Deve nascer um homem; só tinha mulher, três netas mulheres, agora vai nascer o Pedrinho. 

Ver a minha filha grávida é como se eu fizesse uma... Eu revivo o fato de eu ter sido mãe da Marina e da Laura. Eu acho que tudo o que eu fiz na vida foi pela alegria, foi celebração de ter tido duas filhas saudáveis, privilegiadas, num contexto privilegiado. Ser mãe é o maior milagre da existência. Você conceber, depois de nove meses, um ser e esse ser nascer com personalidades diferentes [é] um milagre, acho que é o maior milagre da Terra. Ser mãe, pra mim… Eu era uma mãe… Pra você ter ideia: eu ia pra janela quando a Marina nasceu e pedia silêncio pros carros não buzinarem, olha a loucura que eu entrei! Eu queria um silêncio absoluto, porque a Marina tinha nascido. Então, ser mãe é algo sagrado, que me inspirou a minha vida toda.

(01:23:06) P/1 - E quais são os seus sonhos pro futuro, Vera?

R - Equilíbrio, porque todo empreendedor social que eu conheço e eu conheço muitos, são workaholics. Usam o empreendimento que criaram, abusam porque, de certa forma, o sucesso… Não dá pra dizer que você não entra, de vez em quando, em egotrip. Eu leio muitos livros sagrados como Bhagavad Gita, como a Bíblia, como espiritismo, pra entender que tudo isso, o que você conquista... Primeiro [que] ninguém conquista nada sozinho, é sempre uma conquista coletiva e segundo, que a impermanência é uma lei, a gente vai, em algum momento eu vou passar para outro plano da existência. Então, eu quero pegar a vida mais leve, aguentar... 

O meu livro, que vai se chamar - vai ser lançado agora, dia quatro de novembro - A Cobertura do Mundo, mudando corações e mentes, fala de como a gente saiu da rifa de um lençol. Esse projeto, o DNA do Dara, está em quatro continentes, a gente atendeu 75 mil pessoas diretamente e mais de um milhão foram beneficiadas. Então, de certa forma, a gente está cobrindo um pouquinho o mundo, numa coisa que começou numa cavalariça. 

Os meus planos pro futuro são paz interior e saúde, porque o último capítulo do livro é O preço do sucesso, você paga um preço, você é atacado. O Tom Jobim foi atacado, imagina eu! Então, você paga um preço. A opinião dos outros é dos outros, não é sua, porque você vira um alvo de inveja, de fofocas etc. Isso é muito complexo de lidar, mas quando você começa a entender que você é um canal… Eu acho que,  na verdade, eu sou um canal, eu sou um espírito que habita um corpo e esse espírito é imortal. Eu tô fazendo um determinado transitório, uma determinada missão, mas isso vai continuar, eu espero que nos próximos quinhentos anos. 

A minha ambição pro futuro é saúde mental e física e harmonia, tanto com as pessoas, como com o cosmos em geral. Eu acredito em leis cósmicas e quando você fica muito orgulhoso ou fica, ao contrário, muito deprimido, você não avança do ponto de vista espiritual, do ponto de vista do bem-estar, pra quem não acredita em espírito, do ponto de bem-estar. Então, o que eu quero pra mim, o que eu desejo pra mim e pra humanidade é algo que está muito escasso hoje em dia, é bem-estar.

(01:26:03) P/1 - Então, vamos pra última pergunta, Vera: o que você achou de contar a sua história hoje, pra gente?

R - Nossa, é um presente. Primeiro, você conduziu… Eu vou ter que te elogiar. Por favor, lembre que você é canal também; não leve pra pessoa, vou te elogiar, porque eu já participei de várias entrevistas ao longo da vida e o entrevistador facilita ou dificulta, então o seu body language, o seu olhar me trouxe felicidade no contar, porque eu vi você vibrar, vi você curioso, isso me traz vontade de dar o melhor que eu posso pra você, que está me entrevistando, claro, pro Museu da Pessoa, pra Karen, que eu adoro. Então, eu me senti acolhida por vocês, eu me senti... Como é que eu posso te dizer? 

A Isabel Allende tem uma frase que eu adoro, que eu falo muito nas minhas palestras e a Karen certamente é a rainha disso, porque ela criou o Museu da Pessoa: "Nada é mais forte do que uma história verdadeira". Não importa se é o lixeiro. Eu valorizo as pessoas pelo grau de desenvolvimento que elas atingiram, não pela profissão, pelos títulos, pelos prêmios, por nada. Eu acho que dar uma entrevista e contar como a Isabel Allende fala, a força de uma história verdadeira… O que eu te contei aconteceu, pode ser falado enfaticamente, mas a história que você ouviu pacientemente é verdadeira e eu acredito que essa história abre caminhos pras pessoas mostrarem a própria luz, sabe? Porque muita gente diz: "Ah, eu não gosto de aparecer, eu sou humilde", tem uma falsa humildade. Quer a humildade de verdade? Mostra o talento. Ninguém é melhor que ninguém, né? É o princípio da equanimidade, mas quando você esconde o seu talento, você não faz bem nenhum a ninguém e quando você mostra, você abre avenidas pra milhões de pessoas mostrarem os seus talentos. Então, essa entrevista foi um prazer, me trouxe bem-estar, que é o que eu tô procurando agora.

(01:28:18) P/1 - Então, pessoalmente, Vera e também em nome do Museu da Pessoa, eu agradeço muito a sua entrevista, foi incrível, a nossa conversa de hoje, muito obrigado.

R - Obrigada a todos vocês, Grazielle, todos, tá? Vocês foram, são ótimos e foi muito prazeroso, realmente foi prazeroso. Até me estendi, desculpe, porque, coitado, não podia nem perguntar, porque eu saio falando, né? Emendo uma primeira e vou que vou, mas é porque eu me empolgo com a história. Não é nem com a minha pessoa, é com a história do Dara, porque é uma história totalmente improvável. Não sei se vocês viram O Exército de Brancaleone, que é da minha geração, era um exército totalmente caindo aos pedaços, que veio a ser um exército poderoso. Então, nós fomos e nós somos, nós do Dara, 1600 voluntários que passaram esses trinta anos [como] um exército de Brancaleone, com um problema enorme na frente, que é a pobreza, mas a gente caminha, passo a passo, de forma orgânica. Eu só tenho a agradecer a vocês.




Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+