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História

O senhor da floresta

História de: Renato Morais de Jesus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Criado na Ilha do Governador, Renato sempre teve interesse pela natureza. Durante a infância, assistia a filmes sobre escoteiros e florestas e passeava de bondinho com os irmãos. Na adolescência, além da separação dos pais aos 14 anos, dedicou-se aos esportes e decidiu que cursaria Engenharia Florestal. Ingressou na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro estudando, enquanto trabalhava em diversos empregos e monitorias, o curso que escolhera desde a adolescência. Após o término, trabalhou no projeto Radam até ser empregado na Floresta do Rio Doce com o objetivo de mapear as fisionomias das florestas fazer um projeto de reflorestamento na reserva de Linhares. Nesse depoimento, Morais de Jesus conta sobre como se tornou “o senhor das florestas”, de como se deu a mudança de paradigma na relação do homem com a floresta na Vale e sobre causos engraçados que o trabalho na reserva lhe proporcionaram.

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História completa

P/1 - Bom, Renato, começar do classicão, eu vou pedir para você falar... A gente vai começar pedir para você falar o seu nome, local e data de nascimento.

 

R - Renato Morais de Jesus, nasci no Rio de Janeiro em 07 de agosto de 1951.

 

P/1 - Os seus pais são do Rio de Janeiro?

 

R - O meu pai é baiano, da cidade de Caravelas e a minha mãe é carioca, Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro.

 

P/1 - E aí, como é que eles se conheceram? O seu pai veio da Bahia para cá, como é que foi?

 

R - O meu pai saiu da cidade dele, foi para uma outra cidade do interior da Bahia e depois veio para o Rio de Janeiro, quando então conheceu a minha mãe.

 

P/1 - Que atividade? O que ele fazia lá Bahia?

 

R - O meu pai, ele na Bahia, ele trabalhava no comércio e veio para o Rio de Janeiro, trabalhou num banco Ribeiro Junqueira, depois foi trabalhando no Banco do Brasil e depois no Banco Central.

 

P/1 - E você tem mais irmãos?

 

R - Nós somos em seis, quer dizer tem mais cinco irmãos; Ronaldo, Renato, Rosângela, Rosane, Rogério e Ricardo. O meu pai era Rui e a minha mãe é Rita.

 

P/1 - Tudo com R. (risos)

 

R - O cachorro era Rex. (risos) A cabrita era Recruta, o coelho Risonho, o gato Risinho, o periquito Roles, tinha Rélis... Não tinha rato lá em casa. (risos)

 

P/1 - Em que bairro você nasceu? E morava, a casa da sua infância?

 

R - Eu nasci... Eu digo para todo mundo que eu nasci na Praia do Flamengo, mas na realidade eu nasci na Praia de Botafogo, mas fui criado na Ilha do Governador.

 

P/1 - E você lembra da sua casa e infância? Como é que era?

 

R - Claro, claro, muito claramente, tá? A Ilha do Governador ainda era um bairro com muita vegetação, muita floresta e, hoje, completamente adulterada, degradada, né? Então, na frente a minha casa tinha uma floresta. A gente brincava, aquela coisa de Polícia e Ladrão e, hoje, o lugar lá a gente pode até brincar de Polícia e Ladrão porque acabou a floresta e, hoje, só tem traficante dá para brincar de Polícia e Ladrãozinho, mas com muito risco. (risos)

 

P/1 - E a sua casa assim, dentro, como que era com tanto filho, pai, mãe?

 

R - Era uma casa... Uma casa grande, tinha quintal, jardim e quintal. Ele tinha uns três quartos e cada um com as suas atribuições. Eu e o mais velho, nós éramos quem tinha que comprar o pão de manhã. Aquela época no Rio de Janeiro tinha problema de leite, pão, tinha que entrar em fila. Então, 4:00, 4:30, cada dia era um, né? 

 

P/1 - Tinha que ir para a fila.

 

R - Tinha que ir para a fila comprar o pão e leite. Fazia feira, tinha galinha, criava galinha, tinha que varrer o galinheiro, dar comida para as galinhas, dar comida para a cabrita, para o coelho, para a cachorrinha. Era atribulado a minha infância e jogava bola na rua. Isso era ótimo, uma coisa que não se vê mais, né?

 

P/1 - E quem que exerceu essa autoridade na sua casa? Seu pai ou a sua mãe?

 

R - Era mais o meu pai. O meu pai era mais... Mais... É bem verdade que, no começo, era muito mais sisudo, mais tarde amoleceu, né? Era bem menor que a gente e não podia falar mais nada. (risos) 

 

P/1 - E você teve algum tipo de educação religiosa?

 

R - Eu era obrigado a ir para a igreja, mas só ia para rezar para o Flamengo ganhar. (risos) Era... Mas, só no começo. Depois, fiz primeira comunhão, mas nada muito sério não, felizmente.

 

P/1 - E algum tipo de formação política, educação política, discutia-se política na sua casa?

 

R - Não, o meu pai era... O meu pai, ele tinha... Ele não gostava de militar, né? E sempre passava aquilo para a gente, que militar, militar, militar, militar, mas acho que não influiu a minhas personalidade e acredito que os meus irmãos também não.

 

P/1 - E a escola? Com quantos anos, você entrou na escola?

 

R - Ah, eu fiz jardim da infância. Era a turma verde, turma azul, depois fiz o primário. Na época tinha o primário, ginásio e lembro muito bem do primário. Eu estudava na Escola Cuba. Fidel Castro foi nessa escola e tinha uma merenda muito boa. A gente ia de bonde para a escola. Quer dizer, foi uma infância maravilhosa. Eu posso dizer que tive infância, né? 

 

P/1 - Você tem lembrança assim, de uma professora que tenha te...

 

R - Ah, tive. Toda pessoa se apaixona por uma ou mais professoras. Eu tive as minhas paixões também, né? 

 

P/1 - Quem foi a primeira paixão?

 

R - Foi a dona professora Dulce (Anili?). 

 

P/1 - Era da primeira série, logo da primeira?

 

R - Foi da primeira série, depois na segunda série primária, né?

 

P/1 - E aí, como é que era a sua turminha de escola? Você tinha amigos?

 

R - Tinha, tinha bastante... Era bem animado. Naquela época, você tinha as facilidades, muita liberdade, não tínhamos medo que hoje tem, que eu fico vendo os medos que os meus filhos... Que eu tenho pelo meus filhos, né? Era muito mais liberto. Então, era muita molecagem e o fato de você... Por exemplo, eu ia de bonde para a escola, era meia hora. Tinha que pegar... Ia de bicicleta até um determinado lugar, deixava na casa de uns amigos do meu pai, ia lá e pegava um bonde. Era meia hora. Quer dizer, era... Aquilo era uma farra, né? Eu lembro que uma coisa que marcava era eu e o meu irmão, nós... Quando o cobrador vinha, cobrava, ele cada um, ele lançava, né? Aperta um negocinho, dava aquela barulhinho e a gente de olho fechado... “Está em quanto agora?” Essa era disputa até chegar à escola. 

 

P/2 - E você falou que você tinha quantos irmãos mesmo?

 

R - Cinco irmãos. 

 

P/2 - Cinco irmãos. Eram todos homens, não?

 

R - Não, quatro homens e duas mulheres. Somos em quatro homens e duas mulheres, né? 

 

P/2 - E você nessa escala...

 

R - Eu era o segundo. Eu sou o Renato, Ronaldo, Renato.

 

P/2 - E aí tinha uma ligação mais forte com esse irmão mais velho, esse mais da mesma faixa etária?

 

R - Ele era um pouco mais assim, acanhado. Na realidade, ele... Eu era até o defensor dele. Eu que saía para... A gente brigava na rua, aquelas brincadeiras de moleque, eu que saía para defendê-lo porque ele era mais... Mais com todos, né? Depois, nasceu. Tinha o Ricardo, é o caçula, já com oito anos de diferença, apesar de que ele parece ser mais velho do que eu. Você olha para ele, todo mundo acha que ele é mais velho do que eu.

 

P/1 - É ele?

 

R - É, é o Ricardo. (risos) Não parece mais velho?

 

P/1 - E na sua juventude? Você praticava esportes, como é que foi?

 

R - Eu jogava muito futebol e, na época da adolescência, eu jogava hockey sobre patins e fiz algumas viagens. E depois, entrei na universidade, era futebol de salão e futebol. Eu jogava... E handebol também. Eu jogava na universidade. Era do time da universidade.

 

P/1 - E como era a juventude? Tinha bailinho...

 

R - O problema é o seguinte: aos 14 anos, com 14 anos, os meus se separaram e isso talvez tenha quebrado um pouco da sequência normal da vida de adolescente, né? Eu comecei a assumir determinadas posturas que talvez tenha me privado um pouco disso. Mas, cheguei ir à bailinho. Era muito tímido. Completamente diferente da pessoa que eu sou hoje. Não me acho tímido, não sou um sem vergonha, mas eu era muito tímido, entendeu? Então, era talvez pela circunstância, mas aos poucos fui... Isso, eu acho que não afetou nem a mim e nem a vida dos meus irmãos. Todos eles são, eu acho, equilibrados, né? 

 

P/1 - E a moda daquele período? O que se usava? O que se vestia?

 

R - Cigarro, né? Cigarro era muito comum, fumar, né? Eu nunca fumei, mas era muito comum. Cuba libre, né? Calça boca de sino que, hoje, está usando novamente. Saint Troupe, né? Era isso. Cabelo grande.

 

P/1 - Existia na sua família uma expectativa para que você seguisse alguma carreira?

 

R - Não, não. O meu pai nunca... Nem em mim e nem nos meus irmãos não teve nenhuma influência. Inclusive, quando eu fui fazer... Quis fazer Engenharia Florestal, não importava para ele. Isso foi interessante do meu pai, a força que o meu pai dava para nós todos, tínhamos que estudar. Tinha que estudar. Isso era... Eu me lembro do primário, eu fazendo cópia para melhorar a letra. Tinha que ter letra bonita. Todos nós fazíamos letra. Eu lembro que eu copiava a crônica do Armando Nogueira no Jornal do Brasil, na Grande Área que ainda existe. Até hoje ainda existe a Grande Área.

 

P/2 - Você copiava inteira?

 

R - Tinha que copiar, né? 

 

P/1 - É o seu pai que passava esse exercício?

 

R - É, passava o exercício para melhorar a letra. Era caligrafia.

 

P/2 - Tinha o caderninho de caligrafia?

 

R - Tem o caderno... Claro.

 

P/2 - Aquele que não pode sair da linha.

 

R - Fiz a mesma coisa com os meus filhos. (risos)

 

P/1 - E por que você escolheu esse curso de Engenharia Florestal?

 

R - Bem, eu até... O meu currículo tem um pouco do meu... Eu fiz um memorial da minha vida, mais em função da... Quer dizer, eu gostava, eu assistia muito filme na televisão daquele “Rei da Polícia Montada” e gostava da... Vamos dizer assim, do habitat, do lugar daquela calma, floresta, isolamento e aquilo foi me cativando.

 

P/1 - Tinha os outros filmes que te influenciaram?

 

R - Tinha Tio Patinhas, revista do Tio Patinhas, do escoteiro, fazia o bem, né? E o cara da Polícia Montada não deixava ninguém estragar a floresta, não deixando caçar, né? E hoje, realmente, isso é o meu papel mesmo. Eu me acho um cara da Polícia Montada, né? Eu moro um tempo na floresta literalmente, dentro da floresta e agora, no final de semana, eu vou para uma outra floresta, essa é a minha propriedade. Quer dizer, eu me acho um cara da floresta. Quer dizer, aí eu fui visitar uma escola, a escola de Engenharia Florestal e gostei do lugar. Então, era bem isso que eu queria fazer. “Eu vou fazer isso.”

 

P/1 - E como é que foi esse período? Foi na UFRJ?

 

R - Foi na UFRRJ, Rural do Rio de Janeiro. 

 

P/1 - Rural do Rio de Janeiro.

 

R - Foi duro porque não é que o meu pai não tinha dinheiro, eu quis fazer o curso sem ter que dar uma despesa para ele. Então, eu fiz o vestibular e no vestibular, eu já fiz uma poupança, né? Porque eu já tinha ido na universidade, pesquisei como é que ia ser a minha vida na universidade. Lá, você teria que morar na universidade, era difícil você ter que ir para o Rio e vim e voltar todo dia. Aí, eu fiz uma poupança e cheguei... Chegando na Rural, não consegui as coisas que eu imaginava que fosse conseguir porque foram dizer que a minha família tinha dinheiro, que eu não merecia a bolsa, aquelas coisas todas, né? E aí, quiseram me dar uma bolsa de empréstimo e eu como não gosto de dívida, falei: “Eu não quero.” Aí, eu estudava no... Eu estudava e fazia comida no meu quarto. Passei os três primeiros anos na faculdade, cozinhando no quarto. Eu comia arroz e ovo.

 

P/1 - Você morava só no alojamento?

 

R - Morava eu e mais três. O quarto era mais quatro, mas as outras pessoas... Quer dizer, eles eram completamente desligados, não ficava... Basicamente, quem ficava mais no quarto era eu, né? 

 

P/1 - Não tinha um vínculo assim...

 

R - Não tinha com as pessoas, mas eles... Um fumava, outro bebia, não sei o quê. Eu ______. O que eu queria? Queria sair o mais rápido possível da faculdade. Aquilo não era bom para mim, que era um sufoco, né? Pô, você duro, então não quero ficar reprovado em nada. Quero passar logo e ir embora disso aqui. Então, foi um sufoco. Nesse aspecto foi um sufoco, mas também de aprendizado, né?

 

P/2 - Você conseguiu concluir em quanto tempo...

 

R - Em quatro anos.

 

P/2 - A graduação?

 

R - Quatro anos. Eu estudava até sábado.

 

P/2 - E teve professores que te marcaram definitivamente no curso?

 

R - Teve dois professores que me marcaram no ponto de vista assim, de pedagógico e ensinamento, né? Um de fisiologia e o outro de ecologia, mas o resto era... A universidade, como tudo no Brasil,eram muito fraquinhos, os professores. Mas, esses professores ensinavam a gente a pensar. O importante era isso. Então, foi fundamental eles na minha formação. Eu acho que pesaram, né?

 

P/2 - Te deram os instrumentos assim?

 

R - É, fazer pensar. O importante é pensar, né?

 

P/1 - Você falou que você acumulou um dinheiro, fez uma poupança para esse período?

 

R - Eu trabalhava no banco, no Banco Nacional. 

 

P/1 - Como é que você fez?

 

R - Eu trabalhava no Banco Nacional e aí eu estudava, eu saía... Rio de Janeiro não é fácil. Eu acordava às 5:30, tinha que pegar no banco às 7:00. Eu trabalhava de manhã e de tarde no banco, justamente para juntar dinheiro. Aí, não almoçava. Eu guardava... Tomava cafezinho. Aí, fazia o cursinho. 18:30, eu saía do banco, às 19:00 eu pegava no cursinho, chegava em casa a noite e assim foi o ano inteiro. E fui guardando, guardando, guardando dinheiro. Deu para ficar, vivi dois anos. Aí, depois, já comecei a fazer estágio remunerado e aí fiz concurso na Universidade de (fundo de turma?) e aí me davam... O que me deu remuneração, né? Mas, foi um sufoco.

 

P/1 - O banco foi o seu primeiro emprego então?

 

R - O banco foi o meu primeiro emprego.

 

P/1 - E o que se aprendia assim, na faculdade de Engenharia Florestal? Quais eram as matérias, a grade curricular?

 

R - Ah, os dois primeiros anos era básico de engenharia. Muito cálculo, desenho, química, física, né? Aí, depois teve a parte profissionalizante.

 

P/1 - E são quais matérias?

 

R - Dendrologia, conhecimento das madeiras, né? Silvimetria que é medição de florestas, ecologia florestal, química de produtos florestais, era uma série de disciplinas, né? 

 

P/1 - Isso em que ano que foi?

 

R - Eu entrei em 1972, saí em 1975.

 

P/1 - Qual que era a discussão ambiental que se fazia nesse momento? Era o ano da primeira Conferência de Meio Ambiente em 1972? De que forma que ele...

 

R - Eu me lembro que uma coisa que marcou, que o Brasil tinha que ser poluído. Desenvolvimento era poluição. Não tinha muita... Na realidade, essas escolas de Engenharia Florestal nasceram não com uma preocupação ambiental, mas sim com a preocupação de produção de biomassa para fazer carvão e celulose. Então, não é o marco de meio ambiente. Inclusive, eu questiono muito hoje ainda as universidades porque eles não tem esse... Agora, começa ter um enfoque ambiental, mas ainda continua formando silvicultor de pinus e eucaliptus, não que eu tenha nada, que eu seja contra pinus e eucaliptus, mas acho que nós temos uma flora riquíssima, nós podemos estudar muito mais a nossa flora, poderíamos estudar muito melhor as nossas florestas, do que seria naquela época. Era permitido desmatar para plantar eucaliptus e pinus. Era legal, não era uma atividade ilegal. Completamente diferente hoje da situação, né? Nós mesmo num processo aí autofágico, destruindo. Nós estávamos comendo o nosso rabo mesmo. Quer dizer, não tinha... Naquele momento não tinha nada de ecologia. Mesmo quando eu vim trabalhar na reserva, as pessoas: “Você é doido! Vai ficar num lugar desse isolado? Isso não tem futuro!”

 

P/1 - Aí, você prestou concurso, fez essa monitoria em qual curso?

 

R - Não, eu fui monitor em silvicultura que é cultura de florestas, né? Aí, é um episódio interessante. Teve um concurso pela universidade para fazer um estágio numa empresa e eu passei nesse concurso e fui fazer o tal estágio. Nesse período de férias, cobraram o relatório da monitoria. Aí, o encarregado, um professor encarregado: “Não, o Renato não vai mandar. O Renato está fazendo um estágio pela universidade. Quando ele voltar, a gente pede o relatório.” Quando eu voltei, me falaram, mas aí já tinham... Eu já tinha perdido a monitoria por não ter entregue o relatório. Aí, eu questionei: “Pô, mas o que é isso?” Fui falar com o diretor do Instituto. Isso é fato mesmo, já passaram tantos anos, eu não ia estar... Aí, o professor: “Não, eu sei que você tem razão, mas eu não vou tirar a força da professora.” “Tá ok.” Aí, abriu um outro concurso de Aerofotonometria e Foto-interpretação, eu fiz o concurso e passei. Mas, também abriu concurso para silvicultura novamente e tinha vaga. Eu fiz o concurso, mas eu fiz para fazer por um colega, fazer a prova no nome dele para ele ser monitor porque ele não tinha grana também, entendeu? (risos) Aí, o cara... Começamos a prova, o professor era... Professor ficou muito de olho em mim, né? E o cara ficou nervoso e entregou a prova. Rasgou: “Ah, eu não vou fazer porcaria nenhuma!” Rasgou. E você quando fazia a prova, você já tinha que botar o nome e eu já estava com a prova com o nome dele. (risos) _________ confusão, eu rasguei a primeira página, simplesmente ela me deu zero, né? Aí, passou um outro colega meu... Que confusão, né? (risos) Ainda tem um pouquinho, tem uma tragédia aí. Na realidade, ela queria botar o namorado dela como professor. Aí, passou um colega que não era o namorado dela. Aí, ela inventou uma prova oral. Aí, evidente que o colega dela, o namorado dela passou. Com quatro dias que o rapaz estava dando monitoria, caiu um fio de alta tensão e o idiota foi ver, morreu na hora. 

 

P/1 - Nossa! O namorado da professora, credo!

 

R - É, o que tomou o meu lugar, entendeu? Então: “Pô, quero ser seu amigo, Renato!” (risos) Não, não queria tanto. Agora, que o cara foi safado, foi porque eu precisava da coisa. Sacanagem que a mulher fez comigo, me tirar, né? 

 

P/2 - E estava habilitado, né?       

 

R - Estava habilitado. Aí, botou o rapaz, com três dias, o cara... Quatro, levou um choque. Morreu, morreu na hora.

 

P/1 - E fora esse, teve algum outro...

 

R - Teve um outro episódio que foi no final do curso. Nós conseguimos uma viagem de graça no Brasil para visitar as empresas de florestas. Aí, nós tínhamos que levar um professor para ser o responsável, era essa a condição para a gente ganhar o dinheiro. Aí, fizeram um concurso lá e ganhou um professor que eu achava que não devia ser. Aí, convenci a minha turma: “Não, leva o camarada, esse aqui.” Foi o camarada que eu quis, foi ser o professor. Aí, ainda vi o cara, era meu amigo. Pô, ficava no meu alojamento, duas vezes dormia lá no meu apartamento, né? E o cara, porra! Brigou comigo na viagem... Brigou não, discutia: “Vai a merda, cara! Pára com essa coisa! _______ professor aqui! Pára com isso!” Eu sei que no final das contas, no final da viagem, ele fez um relatório... Eu já tinha... Só faltava fazer uma prova. Eu ia ser suspenso. Quer dizer, ia ficar reprovado, não ia formar a turma toda, né? Aí, foi feito uma reunião com o diretor do instituto, eu passei isso para ele. Todo mundo passou, aí ele: “Então, eu vou abrir um inquérito e aí a gente vê o que vai acontecer.” E foi aberto inquérito, isso assim naquele... Já no finalzinho do ano, né? Nós fomos na casa desse diretor, chovia no Rio de Janeiro à beça. E para eu achar... Tudo duro, né? E aí achamos. O nome do cara era Hélio Barreto. Batemos na casa, o senhor pode entrar. A mulher atendeu: “Pode entrar, senta aí, está tomando banho.” Aí, o cara chega, não era o Hélio Barreto. Era o outro Hélio também. Batemos na casa errada. (risos) Enfim, foi feito uma reunião e a turma toda ia ser entrevistada, né? E apurar as coisas. Nesse dia, ele marcou às 8:00, foi chegar às 15:00. A casa dele tinha sido assaltada, ele tinha quebrado duas costelas. Aí, não deu tempo para mais nada e fui aprovado. Teve uma coisinha no currículo lá que foi advertido, mas não atrapalhou.

 

P/1 - Entendi. Você tinha assim, alguma expectativa de trabalhar em algum local?

 

R - Tinha..

 

P/1 - Entrar logo no mercado de trabalho?

 

R - Eu queria fazer uma pós-graduação em sensoriamento de recursos... Sensores remotos aplicado a levantamentos de recursos naturais lá em São José dos Campos no Inpe. E a condição precedente era você não ter nenhuma dependência, está no primeiro terço da turma. E eu fui o primeiro da minha turma, fui o único que não tive dependência. Daí, toda essa minha agonia de eu não ficar reprovado, entendeu? Então... Inclusive, teve outras entrevistas, chegou a ter outras oportunidades de emprego, eu sempre dizia inocentemente: “Não, não quero. O meu negócio é fazer isso, quero continuar estudando.” Eu podia ter sido professor porque eu era... Depois, fui monitor de uma outra disciplina, me chamaram, eu não quis. O meu negócio era aqui. Aí, no final de dezembro, eu recebi uma carta do Inpe, dizendo que aquele ano, o Governo Federal por contenção de verbas não ia ter o curso. Aí, eu fiquei...

 

P/2 - Decepcionado.

 

R - ______ : “E aí, e agora, como é que faz?” Aí, eu tinha feito uma entrevista na universidade, pessoal do Radam. Eu trabalhei na Amazônia, no Projeto Radam e eles estavam selecionando quatro pessoas para trabalhar no Radam.

 

P/1 - Eles quem?

 

R - O Radam

 

P/1 - A própria equipe do Radam?

 

R - É, Foi lá, fez... “Olha, vocês me mandam o currículo e a gente vai analisar os melhores currículos.” Então, eu “poxa, eu estou tranquilo, né? Comigo mesmo, poxa!” Eu não tomei nenhuma dependência, pela classificação eu sou o primeiro da turma, né? Fiz estágio, não fiquei nenhuma férias sem fazer estágio e tinha sido monitor de Aerofotonometria e Foto-interpretação que era requisito básico, né? 

 

P/1 - Você pode falar um pouquinho o que é isso?

 

R - O quê?

 

P/1 - Você falou de foto...

 

R - Interpretação. Você pega uma imagem fotográfica e interpreta. Aqui, para que tipo de uso de solo. Aqui tem floresta, aqui uma cidade, aqui tem uma lavoura de café, aqui tem uma de cana de açúcar, aqui é uma mata, rio, aqui não tem mais floresta, entendeu? Eu tinha sido monitor dessa disciplina e o Radam,  o que era o Radam? Levantamento de recursos naturais na Amazônia. Você pagava imagem de radar, interpretava a imagem; é floresta, é cerrado, é mata de várzea. Quer dizer, eu tinha... Eu imaginava com os requisitos. Então, aí nada de me chamarem, nada de me chamarem. Eu falei: “Não é possível.” Aí, eu liguei, liguei para o Radam: “E aí? O que houve?” “Não, nós não vamos mais... Vai ser selecionado pelo currículo não. Vai ser pela indicação dos professores.” (risos) Eu falei: “Eu estou fudido!” “Poxa, eu lamento. Então, eu acho que eu não vou ser chamado.” “Por quê?” “Ah, porque o pessoal da universidade... Briguei muito com os professores, questionei muito.” “Ah, está bom. Qualquer coisa a gente avisa.” E passou um mês e nada. Aí, eu liguei para eles, para o diretor da área de vegetação, eu falei com ele: “Qual é o seu nome?” “Renato de Jesus.” “Olha, você não está nem entre os suplentes.” Eu falei o seguinte: “Dá uma olhada no meu currículo e vê, pô! É uma sacanagem!” Aí, uma semana depois, ele me ligou e fui o primeiro a ser chamado, primeiro a trabalhar no Radam na minha turma. Aí, esse é o meu trabalho profissional mesmo na área de florestas e fiquei na Amazônia.

 

P/2 - Você teve que batalhar e ir atrás, se não...

 

R - É, é aquela coisa, você tem que ir a luta. Nada vem de graça.

 

P/1 - O que esse projeto significava nessa época para o conhecimento... Para o Brasil, para o conhecimento da Amazônia?

 

R - Não se tinha nenhum conhecimento da Amazônia a nível de recursos naturais, né? Então, tinham várias equipes, parte de solos, que hoje até se usa, é uma referência.

 

P/1 - Mas, que era, fazia parte do Projeto Radam?

 

R - Não entendi?

 

P/1 - Essa equipe que fazia reconhecimento de solo, de área era tudo ligado ao Radam?

 

R - Era, era, tudo ao Radam, que era radar na Amazônia. Depois passou a ser Radam Brasil, fez o Brasil inteiro, mas eu entrei na fase da Amazônia.

 

P/1 - Quantas pessoas fizeram parte desse trabalho?

 

R - Mais de... De técnicos eram 80 profissionais, fora equipe de campo porque a gente ia para... Fazia interpretação no escritório, depois ia para a Amazônia. Descia de helicóptero, fazia operação de mar, fazia sobrevoo porque na sua interpretação, você tem dúvida. Não sabe se é floresta, se é cerrado ou se é um contato, ou se é uma área de tensão ecológica. Então, você tirava as dúvidas no sobrevoo. Aí, depois, fazia cheque de campo, para fazer amostragem, levantamento. Cada um na... Então, no helicóptero ia um cara de solo, ia uma pessoa de uso potencial de solo, um geólogo, o engenheiro florestal. Cada um descia, cada um descia para cada lado, fazendo o seu levantamento. Foi uma experiência fantástica para mim. Você imagina um carioca, recém saído da universidade poder conhecer a Amazônia de graça e ganhando. Eu me achava um... Era o máximo.

 

P/2 - E você tinha quantos anos nessa época? 

 

R - 24 para... 25 anos. Zona Franca de Manaus, tudo barato naquela época. Era ótimo. Eu morei em Manaus um mês, pô! Então, foi fantástico. Do ponto de vista de aprendizado foi maravilhoso, né?

 

P/1 - Qual era a tecnologia utilizada?

 

R - Você tinha a imagem que era o primeiro sensor. A imagem de radar que ainda é um recurso muito usado até hoje, né? E depois você fazia o cheque de campo, você descia de helicóptero, ia uma equipe de rapel, abria uma clareira na floresta, helicóptero pousava no chão, tínhamos que sair, tá? A emoção era se a gente ia dormir ou não na selva, né? Se desse tempo para fazer alguma coisa, fazia. Se não tinha que dormir. Então, era muito ruim, tem que dormir na selva, né? 

 

P/1 - E quais são as principais descobertas ou o seu principal trabalho lá assim, que você conseguiu?

 

R - A minha parte era vegetação. O que eu fiz foi o levantamento de recursos naturais. Quer dizer, levantamento de espécies, levantamento de potencial madeireiro, indicação de áreas que deveriam ser preservadas, né? E tipos de uso, se a área tinha que ser transformada numa reserva ou podia ser desmatada, essas coisas, né? Foi feito o mapa de vegetação no Brasil. Saiu o primeiro mapa de vegetação do Brasil, né? Olha lá, parte na divisa com Colômbia ____, um dos autores sou eu. 180 mil quilômetros quadrados para você ter uma idéia. É maior que São Paulo, junta São Paulo... Era uma área enorme. Foi uma experiência fantástica, né?

 

P/1 - Quanto tempo você ficou nesse projeto?

 

R - Fiquei um ano e meio. E aí, em função... Aí, eu queria continuar estudar. Aí, eu pedi para um camarada: “Olha, poxa, vai virar uma rotina isso. Eu queria continuar estudando.” Aí, ficou me enrolando muito, eu consegui um emprego na companhia, fui trabalhar em Belo Horizonte na parte de... Pela minha experiência com imagem, imagem de radar, fotografia aérea, eu estava fazendo as caracterizações do uso do solo, antes de se fazer o reflorestamento. Aí, fiquei oito meses em Belo Horizonte.

 

P/1 - Mas, aonde? Na Docegeo?

 

R - Na Floresta Rio Doce.

 

P/1 - Ah, na Floresta Rio Doce. Na Companhia Floresta Rio Doce.

 

R - Na Floresta Rio Doce. Não era companhia, era Floresta Rio Doce.

 

P/1 - Não era companhia? 

 

R - Chama-se Floresta Rio Doce S.A, que era uma controlada da Vale do Rio Doce.

 

P/1 - Ah, uma controlada.

 

R - É. 

 

P/1 - Como é que foi o convite para você ir para lá?

 

R - Não, o meu pai que conseguiu. O meu pai conhecia as pessoas, mandei o meu currículo, me selecionaram e eu fui, né? Comprei um apartamento em Belo Horizonte e me perguntaram por eu ter tido, segundo ele, uma experiência com floresta tropical, se eu queria trabalhar em Linhares. Foi ótimo. Aí, vim na reserva.

 

P/1 - Mas, assim quais projetos você chegou a participar na Floresta Rio Doce?

 

R - Na Floresta Rio Doce em Belo Horizonte? Na minha parte era caracterização das fisionomias antes de se fazer o projeto de reflorestamento. Você tinha que saber se era floresta, se era campo. Então, você tinha um sensor, a fotografia aérea era o instrumento que nos dava através da interpretação qual era o uso do solo. Se era a floresta, se era campo, se era campo sujo, se era mata de galeria, tudo isso influenciava no curso do projeto, né? Então, você fazia isso por intermédio de fotografia que era uma coisa muito mais rápido. Você não precisava ir no campo. Fazia uma coisa para tirar uma dúvida. Aí, me perguntaram, queria que eu... Vim para a reserva porque eles achavam que eu tinha experiência em floresta tropical. Foi ótimo, “vamos lá.” Eu tinha comprado um apartamento, isso foi numa terça-feira, eu comprei um apartamento em Belo Horizonte, aí na quarta-feira perguntaram, eu na quinta-feira vim.

 

P/1 - Mas, você alugou o apartamento?

 

R - Aluguei o apartamento. Depois vendi o apartamento.                  

 

P/2 - E era muito mais vantajoso para você...

 

R - Economicamente não. Eu não ganhei nada por ter vindo, tá? Mas, era... Era o meu sonho, né? Morar numa floresta, aquela coisa dogmática, né? Então, aí vim. E disseram que eu não ia ficar um mês. Porque eu morei, cheguei entrando querendo morar na reserva. “Você não vai ficar um mês. A casa é mal assombrada.” “Está bom.” Realmente cheguei na casa...

 

P/2 - Não tinha uma infraestrutura assim?

 

R - Não, não tinha. A casa, hoje, se vocês forem ver a casa está completamente diferente. Modifiquei a casa, mas a casa tinha um banheiro só, a entrada era horrível. Bem diferente, né? E tinha mesmo assombração. 

 

P/1 - Conta uma.

 

R - Não, você dormia, via um troço andando. “Que merda é essa?” E sozinho, morava sozinho, né? Assombração não é. O que eu vou fazer? Um dia eu estou deitado, desce e urina em cima de mim. Pô, assombração sacana, né? Está fazendo xixi em cima de mim. Aí, um dia estava chovendo, eu gosto de chuva. Aí, eu fui para a janela... Fui para uma varanda que tinha, aí vi os gambás subindo. Eram os gambás, assombração era os gambás. Aí, descobriu o mistério da assombração, nunca mais teve assombração na casa.

 

P/2 - Até que eram inofensivos essas assombrações.

 

R - Inofensivos, mas realmente o mais fraco, o mais... Pô, sozinho...

 

P/2 - E não tinha nenhuma forma de contato assim...

 

R - Não, o meu grande desafio lá era colocar um telefone. Falei: “Se eu conseguir colocar um telefone falando, estou realizado” porque era difícil. 

 

P/1 - Como é que era um pouco assim, Linhares nessa época? Qual que é a história da reserva?

 

R - Bem...

 

P/1 - Quando que a Vale adquire, como que é um pouco essa história?

 

R - A reserva foi formada para produzir, para ter uma reserva de madeira para ser utilizada na estrada de ferro. A Vale do Rio Doce sabe que você tem uma estrada de ferro aqui em Minas Gerais, Minas e Espírito Santo e, para fazer os dormentes, precisava de madeira. Aí, já se pensava naquela época na duplicação da estrada de ferro. Então, a Vale quis ter uma... Foi comprando propriedades para que ela pudesse ter um estoque de madeira. Começou no início da década de 1950 e até 1966 foi a última compra de terra. Em 1963 foi feito um inventário florestal por um pesquisador da Fauna e que codificou o número de dormentes. Em 1967, cortou-se a primeira área da reserva. 200 hectares e ali, naquele momento, já se via que a estatal era incompetente, estatismo no Brasil era uma incompetência, pois o custo de produção de dormentes dela próprio era muito mais elevado do que ter que comprar o dormente fora. Por isso, com certeza, foi o que salvou a reserva. Nada, eu acredito que não tenha sido nenhuma alma ecológica que tenha salvado a reserva. Foi a incompetência do estatismo que salvou a reserva.

 

P/2 - E essa não exploração, vamos dizer assim, isso antes de você entrar ainda?

 

R - Antes de eu chegar. Quer dizer, eu cheguei na reserva em 1977. Em 1967 fizeram a primeira exploração, cortaram 200 hectares. Viram que era uma besteira cortar madeira, que era muito mais negócio comprar dormente fora. Aí, ficou aquela coisa: “O que faz, o que não faz?” Quando eu cheguei na reserva tinha uma proposta de manejar a floresta, de se cortar a floresta para fazer dormentes, utilização madeireira. Vários, de vários pesquisadores recomendavam que aquilo devia ser cortado para plantar eucalipto e, hoje, gente que se diz ecólogo mesmo. O cara até, as pessoas mudam, né? Mas, várias pessoas disseram e isso está publicado, está escrito, não é verbal, né? Que tinha que cortar aquilo para produzir eucalipto, tanto que eu cheguei na reserva, eu perguntei: “O que eu vim fazer aqui?” Qual é a política da companhia? Ninguém me respondeu. Então, eu fiz uma outra política: “o que eu vou fazer na reserva? Eu vou... Manutenção, eu tenho que preservar a floresta, não posso deixar entrar fogo, nem caçador e eu vou fazer pesquisa. Que tipo de pesquisa? Eu vou conhecer o ecossistema; o que tem... Qual é a flora, qual é a fauna, quais as interações que existem no ecossistema e conhecer as espécies que a minha área de floresta, o que existe aqui, ocorre aqui. Então, isso foi o meu trabalho e essa, até hoje, a nossa política. A empresa adotou isso. Objetivo é preservar e conservar a reserva e desenvolver tecnologia para fazer recuperação ambiental. Embora com o novo gradiente que com auto-sustentabilidade dentro de mais uns... Nos próximos três anos, a reserva vai estar conseguindo a sua auto-sustentabilidade. Ou seja, a Vale não deverá mais colocar dinheiro para manter a reserva, mostrando para a comunidade que meio ambiente é um bom negócio.

 

P/2 - E que tipo de desdobramento assim, de trabalho, vocês fazem dentro da reserva para fomentar... Enfim...

 

P/1 - Espera aí, só voltar um pouco antes, eu vou pegar o gancho, quem que administrava a reserva de Linhares quando você chegou?

 

R - Quando eu cheguei, quem administrava era a Floresta Rio Doce.

 

P/1 - Era vinculado a Floresta Rio Doce.

 

R - Floresta Rio Doce. A propriedade era da Vale e a Floresta Rio Doce era remunerada por fazer essa administração.

 

P/1 - Então, quer dizer, dentro do organograma da... Era vinculada a...

 

R - Floresta.

 

P/1 - A Floresta. E tinha alguma pessoa responsável por fazer isso que você foi fazer lá antes?

 

R - Tinha... Eu cheguei na reserva, tinha 170 funcionários. Eu, com quatro meses, fiquei com 62. Não tinha uma pesquisa implantada, não tinha... Era realmente aquela coisa de estatal mesmo, né? Eu me lembro que eu cheguei na reserva, eu andava _______ e um revólver do lado porque eu mandei muita gente embora, tinha muita... Em Linhares naquela época matavam muita gente, entendeu? 26, 27 anos, o que eu queria era mais, né? Entendeu? Então, hoje, é tranquilo. As pessoas me respeitam, mas no começo foi bravo, muito bravo mesmo.

 

P/1 - Como é que você conseguiu implementar? Foi você que foi implementando essa  política lá dentro? Essa mudança de mentalidade?

 

R - Eu digo sempre que eles esqueceram de mim, entendeu? Aí, eu pude fazer o que eu quis. Me deram... E, uma vez, eu me lembro que eu conversei com um superintendente: “Pô, vocês precisavam ir na reserva. A gente...” “Renato, lá todo mundo vai, diz que é tão bom e eu tenho tanto pepino.” Então, esqueceram a reserva. E, hoje, a reserva é uma grande vitrine para a companhia. Me lembro que a gente vinha brigando para a gente fazer um plano diretor para sair da personalismo, porque era muito Renato, né? Pô, levou 12 anos para fazer o plano diretor. Agora, foi feito o plano diretor. A reserva passou para uma outra gerência na Vale e essa gerência com mais, evidentemente, com mais afinco, mais... Com mais visão, né? Viu que meio ambiente é um bom negócio e apurou a coisa, fizemos o plano diretor e estamos implantando o programa de auto-sustentabilidade, que é um golaço. Isso é um golaço, em termos de Brasil, de América Latina e a nível de preservação e conservação de floresta.

 

P/1 - Hoje, no organograma da empresa, ela é ligada a qual gerência de...

 

R - A gerência de Meio Ambiente no Rio de Janeiro.

 

P/1 - Junto com o Maurício.

 

R - É, o Maurício. O Maurício que é o gestor.

 

P/1 - Desculpa. Peguei esse gancho.

 

P/2 - Lógico. Eu ia perguntar o que vocês, enfim, produzem ou fazem para gerar essa... Esses recursos próprios para a auto-sustentabilidade?

 

R - O programa de auto-sustentabilidade contempla; ecoturismo, nós temos um hotel lá e temos um programa de visitação. É um programa de uso público onde você tem hospedagem e visitação. Depois, tem produção de mudas. Nós temos um viveiro que é o maior viveiro da América Latina com uma capacidade de produção da ordem de 45 milhões de mudas por ano. Se nós... Se só fizesse muda, já pagaria tudo. Quer dizer, _________. Agora não existe consumidor, mas a gente acredita que pelas leis, pela legislação, as pessoas vão ser obrigadas a recuperar, fazer floresta. Existe a parte de projetos. Nós fazemos projetos de recuperação ambiental. Existe a parte de gerenciamento de projetos. Um exemplo disso; Projeto de Revitalização de Tubarão, é um projeto nosso. Nós estamos ajudando no gerenciamento da implantação desse projeto. Nós tomamos conta para a Vale de uma outra unidade de conservação. Nós gerenciamos também, administramos unidade de conservação. Isso tudo se reverte em dinheiro para o instituto que, por sua vez, para a reserva. Quer dizer, existe uma boa gama de alternativas que vão contribuir para essa auto-sustentabilidade. Vamos implementar um programa de cursos na reserva. A pessoa passa lá duas semanas, faz um curso, por exemplo, de produção de mudas de Mata Atlântica, recuperação de áreas ciliares, recuperação de... Formação de floresta de palmito, formação de floresta de ecossistemas de uso múltiplo, arborização urbana com espécies de Mata Atlântica. Quer dizer, hoje, eu tenho um pacote lá de 60 cursos que eu posso dar, só envolvendo Mata Atlântica e Meio Ambiente. A pessoa passa 15 dias, pega essas informações, está usando a nossa hospedagem, está dando dinheiro também. E mais do que isso, nós estamos capacitando mão de obra numa área no Brasil que, infelizmente, é muito carente.

 

P/1 - Quando você foi para lá fazer essa implantação, essa nova mentalidade dentro da reserva, quais foram as principais resistências que você enfrentou por parte do quadro?

 

R - Não, da empresa, eu não tive nenhuma resistência não.

 

P/1 - E do quadro do corpo de empregados?

 

R - Não, porque o cara chega... Você da matriz, parece que ele é... As pessoas são muito mais tímidas, não tive essa... E, na realidade, quando você vai... Uma das primeiras pessoas que eu mandei embora foi o meu chefe de segurança, que era... Diziam que era o bravo, que ameaçava todo mundo, que batia, que fazia, que acontecia, né? Então, eu descobri que o camarada era corrupto, mandei o cara embora, literalmente embora. Então, a partir daí, as pessoas: “Pô, esse cara...” Isso, eu acho que é um lado legal porque o importante na vida é você não ter rabo preso, entendeu? Não ter rabo preso e não fazer sacanagem com ninguém. Então, por exemplo, eu peguei caçador lá de médico para major, coronel da polícia: “Ah, _______ qualquer um lá.” Então, é qualquer um. Entrou na rede, vai embora, vai ser incomodado. Então, isso não gera ódio, até na população externa porque eu não sou um sacana, entendeu? Então, eu não sou... Eu já fui jurado de morte algumas vezes, mas depois a pessoa vê. Hoje, o que as pessoas acham de mim? Que eu sou um grande filha da puta, mas um filho da puta honesto. Eu não permito sacanagem, entendeu? Então, as pessoas me respeitam tranquilamente. Não tem mais aquela coisa assim, de... Hoje, é tranquilo lá, mas eu morava sozinho na casa. Quantas vezes: “Olha, eu estou indo te matar! Vou fazer isso! Olha, vou fazer aquilo! Olha, você vai viajar hoje? Você vai morre com dois tiros. Você vai levar um tiro no peito e quando você estiver caindo, você vai levar outro na cabeça.” Assim, as coisas eram assim, desse nível, né? Porque era um lugar onde as pessoas nasciam, eram crescidos caçando. Aí, você acaba com o negócio de repente e aí? E pegava gente pesada; de deputado, senador. Então, o pessoal... No interior, isso é machismo. “O cara me prendeu, pegou isso, pegou aquilo.” Bom, aquilo é a última coisa para ele, é uma ofensa, né? Então, têm alguns casos complicados.

 

P/1 - E você fez alguma parceria ou algum trabalho junto com alguma ONG, alguma... Com universidade?

 

R - Não, não. Hoje, os nossos trabalhos técnicos científicos são feitos muito com universidades do Brasil e do exterior, tá? ONG e ______ não existe, né? E ONG no Espírito Santo, eu acho uma ou outra pode ter algum valor, mas realmente são muito débeis, né? Muito frágeis.

 

P/1 - E Linhares tinha ou passou a ter alguma relação com o Ibama ou algum órgão governamental?

 

R - Hoje, quem toma conta da reserva do Ibama, somos nós. Quer dizer, primeiro tinha um ciúme muito grande que a Vale fosse tomar conta, “o Renato ia ficar...” . E hoje, o Ibama quer passar tudo para a Vale, entendeu? 

 

P/1 - Quer passar a propriedade ou a administração?

 

R - Para administrar porque é um sucesso, não tem problema de caça, não tem problema de fogo, está tudo controlado. Quer dizer, e mais do que isso, nós não interferimos na administração da reserva. Simplesmente, estamos cumprindo o nosso papel, o objetivo do convênio que é proteção e evitar caçador e fogo. Pronto. E o que é primordial numa reserva, você manter a integridade.

 

P/1 - E você teve apoio assim, da direção da Vale? Como é que foi assim, ao longo das gestões, desde o tempo que você está lá esse tratamento, mas mudou assim ao longo do tempo? 

 

R - Não, é aquilo que eu te falei, né? Não, eu acho... O meu primeiro orçamento, até o ______ que eu coloquei era questionado. Porra, assim também que você vai conquistando, que você vai mostrando trabalho, nada vem de graça. E hoje, a companhia, todo mundo lá gosta, uma coisa que não tem exagero nenhum, tudo tem controle. Não é porque é bonito, que é aquilo, que você tem isso. Nada disso. Continua. É o que eu digo sempre: “O segredo é achar que aqui... Todo dia é o primeiro dia de trabalho.” Agora, em função da projeção que Linhares vem conseguindo, ela tem uma... Naturalmente, tem... A abrangência vai aumentando, todo mundo conhece Linhares, né? E todo mundo. Hoje, é mais fácil você negociar a marca de Linhares. Se você é conhecido, é mais fácil. Quando não é conhecido...

 

P/2 - Tem uma repercussão esse trabalho que vocês fazem aqui em outras áreas? Na Vale, com relação a preservação ambiental?

 

R - Com certeza, com certeza. A reserva, ela é referência não só na Vale, mas... Por exemplo, semana passada, eu estava em São Paulo na Companhia Suzano para fazer um projeto para eles similar ao nosso. Amanhã, eu estou indo a Sepetiba, na área da Ferteco, uma empresa que a Vale comprou, nós vamos fazer o mesmo projeto que nós fizemos em Tubarão, nós temos que fazer lá. Eu estou indo na semana que vem a São Luís para fazer o plano de arborização, estudar o plano de arborização para a cidade de São Luís. Quer dizer, a reserva realmente foi incrustando, mostrando a sua capacidade.

 

P/1 - Mas, então, quer dizer esses projetos são produtos, entre aspas, vendidos pela reserva?

 

R - Vendidos pela reserva, que contribuem para a remuneração, para a auto-sustentabilidade da reserva.

 

P/1 - Mas, vocês recebem dinheiro da Vale?

 

R - Evidente, evidente, por isso. Eu vou fazer esse projeto lá da Ferteco, o valor, eles vão pagar, esse dinheiro vai para a companhia e...

 

P/1 - Mas, a Vale, hoje, dá dinheiro para Linhares?

 

R - Ela dá uma parte, uma outra parte já começa ser usada... Ser originada dos seus recursos.

 

P/1 - E qual que é a meta para não receber mais dinheiro direto da Vale?

 

R - O nosso custeio é da ordem... O nosso custeio, quer dizer, só para manter a reserva, eu devo estar gastando hoje em torno de 250 mil dólares por ano.

 

P/1 - Por ano?

 

R - Dólares, né? Para manter a reserva. Então, isso eu acredito que nos próximos dois anos, a gente consegue com tranquilidade.

 

P/2 - E Renato, eu não sei se você falou, me passou desapercebida, mas as mudas que vocês cultivam e vendem, quem são os...

 

R - A Vale é uma grande consumidora e tem outra série de empresas que compram muda da gente.

 

P/2 - E o instituto, o que é que você mencionou também o instituto...

 

R - O instituto foi criado inicialmente para administrar a reserva de Linhares, mas em função de uma carência que existe na Vale, o instituto hoje, ele está atacando nessa área ambiental em todas as áreas da Vale do Rio Doce. Então, em Itabira, nós já temos frente a parte do instituto, lá que cuida toda a parte de meio ambiente, da parte especificamente de recuperação é o instituto. Carajás, Bahia, tudo é o instituto.

 

P/1 - Isso que eu ia espiar um pouquinho essa relação com Carajás. Carajás é um grande projeto da Vale de construção de um núcleo de preservação da floresta? Qual é a relação, o intercâmbio que teve com Linhares?

 

R - Bem, o último PRAD (Plano de Recuperação de Áreas Degradadas), autorização do PRAD foi feito por nós, de Carajás. Provavelmente, nós vamos contribuir novamente lá com Carajás. Estive várias vezes em Carajás. Foi indo para São Luís, quer dizer, era uma área... Área do Sistema Norte, nós vamos contribuir também na Área do Sistema Norte. Quer dizer, Linhares tem uma expertise em Silvicultura Tropical, em floresta tropical muito grande. Talvez, seja em termos de América Latina, um centro que tem a maior número de informações, de pesquisas.

 

P/1 - Quais são as instalações que você tem lá dentro? Um herbário, um laboratório, como que é?

 

R - Tem uma parte, um laboratório de sementes, tem uma câmara fria seca para armazenamento de semente. Aí, tem as coleções; tem carpoteca, tem xiloteca, sementeca, tem o herbário, tem o insetário, tem o laboratório para a fauna de solo e tem a unidade de produção de mudas, tem posto meteorológico, uma série de coisas que contribuem para o acompanhamento e o estabelecimento de pesquisas, né?

 

P/2 - O que é a xiloteca?

 

R - É coleção de madeiras, exclusivamente da mata de Linhares. Para você ter uma idéia, o herbário... Só o que é pesquisa, aquilo que eu trabalho. Quando eu cheguei na reserva, nós conhecíamos 160 espécies. Hoje, são mais de 2 mil espécies. Destas 2 mil espécies, tem 80 espécies novas que nós que descobrimos essas espécies. Insetário, só de borboleta, tem mais de 1500 espécies novas. Quer dizer, espécies desconhecidas para a Ciência. Aí, você vai, em tudo que você for andando, coisas inéditas ainda, né? Aranhas, sapos, peixes, coisas novas, né? Fizemos um levantamento só da ave fauna, para você ter uma idéia, 5% que ocorre no mundo inteiro ocorre em Linhares. 60% que ocorre no Brasil tem em Linhares. Um pedacinho pequenininho tem 60% da ave fauna do Brasil. Tem 5% da ave fauna do mundo. Tem 25% da fauna de mamíferos do Brasil. Quer dizer, uma relíquia mesmo. Então, cada vez mais, Linhares vai ter mais valor, a grana vai vir mais fácil, né? Quem tem trabalho de recuperação de área degradada igual a da Vale em Linhares? Ninguém tem. O conhecimento que nós temos de espécies de mata atlântica, estou fazendo um livro só espécies da Mata Atlântica, tem informações de 160 espécies. Ninguém tem essas informações.

 

P/1 - Qual é o quadro técnico? Assim, quem faz parte da reserva no cotidiano, além de você? (risos)

 

R - Eu tenho mais um colega, está há um ano e meio comigo. Mas, o problema é que nós temos bastante intercâmbio com outras instituições.

 

P/1 - Mais gente pesquisando assim, classificando, fazendo todo esse trabalho que você falou?

 

R - Ah não, parte botânica, eu tenho contato e um trabalho de graça com mais de 200 especialistas no mundo inteiro. A Renata não é sistemata. A Renata pega o material, manda para o especialista, o especialista, ele é que identifica. Eu não sou especialista em ave, mas vem as pessoas que vão identificando. Eu estou começando a escrever um livro sobre as aves da reserva em Linhares. São quase 400 espécies. Hoje, o conhecimento que se tem de Mata Atlântica, ninguém tem o conhecimento de Mata Atlântica igual ao da Vale em Linhares. É marcante e reconhecido. As pessoas reconhecem isso. 

 

P/1 - E a Vale leva clientes para visitar?

 

R - Está implementando esse programa porque nós melhoramos. Eu sempre achei muito bom, mas agora está excelente o nível de hospedagem. Então, melhorou muito as condições. Então, fica mais fácil, está se realizando muitos cursos, começa a ter essa coisa de levar cliente lá na Vale. O doutor Eliezer que dizia uma coisa muito interessante: “Quando a pessoa não conhece muito as coisas de floresta, de meio ambiente, leva em Carajás. Agora, quando a pessoa entende alguma coisa, leva em Linhares.” 

 

P/2 - E essas pessoas que fazem identificação, enfim esses especialistas para quem você manda os trabalhos, eles também devem ser extremamente interessados porque...

 

R - Muito, muito. Você precisa ver...

 

P/2 - Uma coisa rara e...

 

R - Exatamente. Primeiro, eu mando uma carta de interesse: Olha, eu trabalho numa unidade de conservação no Estado do Espírito Santo, faço uma descrição da reserva, né? E nós estamos com um problema na família Araceae, você tem interesse em receber material dessa família para identificação? Nós fazemos a doação de material botânico, você em troca nos manda a identificação. “Ah, que maravilha! Que bom! Poxa, por favor, mandem para a gente.” Então, isso foi um trabalho mesmo de equipe. Poxa, que foi fundamental para a gente ter o conhecimento. Ninguém tem o conhecimento florístico hoje de uma área como a da Vale porque são 24 anos fazendo coleta de material botânico e, até hoje, descobrindo coisa nova. Muito legal isso e a gente vê o que foi destruído e nós não conhecemos.

 

P/2 - Pois é.

 

R - Quer dizer, até hoje, eu estou descobrindo coisa nova.  

 

P/1 - Os empregados da Vale conhecem a reserva? Sabe que a Vale tem, existe alguma divulgação?

 

R - Tem, a Vale fez bastante divulgação, viu? Eu acho que... E tem um programa muito interessante que é o Vale Viver que, a cada 15 dias, os funcionários levam os seus funcionários... Leva os seus filhos lá. Um programa muito interessante. Vão 100 pessoas a cada 15 dias.

 

P/1 - Mas, só para o pessoal de Vitória?

 

R - É, por enquanto só está iniciando com o programa em Vitória. A cada 15 dias, vão 100 pessoas, entre funcionários e familiares. Um programa super interessante.

 

P/1 - Pensando nesse tempo que você está em Linhares, quais foram os momentos mais críticos vividos por Linhares você acha?

 

R - Não, tem o pessoal... Teve as ameaças de morte. Isso foi... Era uma coisa preocupante. Algumas vezes, você foi jurado de morte, aquela coisa toda e, algumas vezes, um pouco antes da privatização, a questão de orçamento, a minha preocupação porque foi feito uma série de trabalhos, implantei pesquisa, nós aqui com o nosso quadro reduzido de pesquisadores, quer dizer, era eu e mais um, eu tinha mais pesquisa que o órgão de pesquisa do Estado que tinha 70 pesquisadores. Então, a minha preocupação era não ter o dinheiro para manter e eu me lembro que, uma vez, eu fui para a companhia no Rio e o pessoal vai cortar, vai cortar. Eu falei: “Faz o seguinte, não cortem nada. Me manda embora porque se é só para manter, não precisa mais do Renato. Está escrito o que tem que fazer. Agora, seu eu fosse vocês, não perderia tudo isso. Manda o Renato embora, mas não perde essas informações que isso é fundamental, pô!” Daí, aumentaram um pouquinho e esse foi um momento angustiante. Você vê todo um trabalho assim... Quer dizer, eu fui para Linhares, quer dizer, eu tive n oportunidades para sair para ganhar muito mais e eu nunca quis sair porque eu gostei, né? Aí, você aquilo ser tudo destruído. Ia ser horrível para mim, né? Eu ia embora, pelo menos, eu sei que vocês vão salvar aquilo. O pessoal da manutenção não deixa pegar fogo, pronto!

 

P/2 - E mesmo estacionar já era perder porque pelo visto tem uma possibilidade de progressão de trabalhos e...

 

R - É muito natural na vida da gente dar uma parada, mas você não pode chegar e perder o que você fez, pô! Então, era continuar aquilo sem implantar novas pesquisas, mas dar manutenção, colhendo as informações. Era isso que eu queria e era uma briga, né? Infelizmente.

 

P/2 - E foi isso que você conseguiu ou você conseguiu o fomento? 

 

R - Não, eu não sei se fui eu que consegui. A companhia, ela que conseguiu, não é o Renato.

 

P/2 - Sim, sim, claro.   

 

R - A companhia resolveu. Fui para uma reunião: “Olha, manda o Renato embora porque eu não estou aqui defendendo o meu emprego. Estou defendendo que é a manutenção do que foi feito até hoje. Vocês fizeram um tremendo investimento e agora vai largar?”

 

P/2 - E continuou o fomento?

 

R - Continuou, continuou. A companhia manteve e, agora, incrementou, né?

 

P/1 - Com a privatização, quais foram as principais alterações de Linhares depois da privatização?

 

R - Foi extremamente positivo. Primeiro que, na época de estatal, você ia... Muitas pessoas... Ii, porque tinha que atender, aquela coisa de estatal, aquela coisa... “Como é que eu vou ter que colocar aqui para não ferir, né?” Você está entendendo, né? Muitas visitas eram para atender conveniências, né? Hoje não, quem for para a reserva, paga, paga. Tem que pagar.

 

P/1 - Quanto paga? O que paga?

 

R - Depende, depende do que você vai querer. Têm vários programas, né?

 

P/1 - Eu chego lá, vamos supor uma turista comum?

 

R - Aí, você vai ter opção. Você tem esses tipos de hospedagem, o que você quer? Ah, você vai querer fazer o que, um turismo para ver pássaros? Você vai observar pássaros, você vai pagar uma taxa adicional lá de 35 dólares por dia. “Não, eu quero aprender a fazer uma cerca viva?” Você vai pagar o valor. “Eu quero aprender fazer uma recuperação de uma capoeira.” Você vai lá, tem um valorzinho. “Eu quero...”  Aí, têm as coisas que já estão dentro da diária que é a visita a trilha, a trilha numa floresta, a trilha do viveiro, a trilha do pomar, a trilha da coleção das palmeiras. Agora, têm as coisas diferentes, você paga um... Depende do seu programa, depende do seu interesse.

 

P/2 - E as pessoas geralmente vem em grupos assim?

 

R - Vem em grupos, às vezes, vem em duas pessoas.

 

P/1 - E tem o centro de documentação lá informatizado, digitalizado?

 

R - Eu tenho o banco de dados.

 

P/1 - Você tem o banco de dados?

 

R - Banco de dados meu. Quer dizer, meu, que eu fiz lá que não está integrado ao sistema, mas eu acho que é o único acervo técnico informatizado que tem.

 

P/1 - E não está...

 

R - Integrado.

 

P/1 - Ligado...

 

R - Não.  

 

P/1 - No acervo da Vale?

 

R - Não, não, mas têm todos os nossos trabalhos, têm todas as nossas pesquisas, tá? Tem toda referências de que são úteis para o nosso trabalho no dia-a-dia.

 

P/1 - Me fala um pouco, como é que funciona esse núcleo florestal de São Mateus.

 

R - Lá é Floresta Rio Doce, não tem nada a ver com Vale não.

 

P/1 - Eu sei.

 

R - Lá é uma área de reflorestamento com eucaliptus, tem muito pouco de pinus, tá? É isso, é implantação de florestas e manutenção e corte para uso em celulose e carvão vegetal, que está sendo vendido. A Vale está colocando a venda.

 

P/1 - Mas, você que participou disso também?

 

R - Eu, em determinada época do ano, teve um problema lá de roubo, aquelas coisas todas e pediram para eu (acumular?) também. Eu fui lá também, também outra barra pesada porque aí você tem confusão, você começa, tem que mandar um embora, mandar outro embora e aí  

fere.... Um afilhado de alguém, aquela coisa toda. Eu, felizmente, na companhia, todas as pessoas que eu queria mandar embora, eu consegui. Nunca porque é parente, então você... Quando eu cheguei em São Mateus, mandei um ladrãozinho lá embora, disseram: “Ah, mas você já foi para aí para criar caso?” “Olha, eu não pedi para vir. Se não quiser, me tira. Agora, se eu estou aqui, quem manda sou eu. E eu não quero o cara por isso, isso e isso.” Sempre respeitaram as minhas tomadas de decisão. Mas foi pouco tempo.

 

P/1 - E qual é um pouco a história, os motivos da implantação do cinturão verde em Vitória?

 

R - Bem, em 1979, começaram as críticas; muita poeira... Aí, a Vale, timidamente...

 

P/1 - Da comunidade?

 

R - Da comunidade como um todo, né? Começou uma pressão. Aí, a Vale: “Ah, vamos plantar umas mudas.” Aí, tinha um rapaz que tinha trabalhado comigo na floresta: “Ah, por que você não conversa com o Renato?” Aí, vim para cá, sozinho. Arranjamos oito pessoas, começamos a plantar com oito pessoas. Tinha que plantar 30 mil, nós plantamos 200 mil. Aí, eles viram que era muito fácil plantar e que não era caro. Aí, começamos. Qual era o objetivo? Primeiro, amenização paisagística, contenção de poeira, diminuição de ruído, controle de erosão e você, quando você for... Naquela época, se você fosse fazer uma revisão bibliográfica para saber como é que você ia fazer o trabalho, não tinha. Então, foi muito, muito pessoal e eu aprendi. Isso para mim foi maravilhoso porque, até hoje, eu erro, mas certamente eu estou errando menos do que em 1979. Então, eu fui aprendendo. Então, ao longo desses anos todos, nós plantamos 8 milhões de mudas e, hoje, virou uma área, uma tremenda área revegetada de ambiente industrial portuária, né? 

 

P/1 - Como é que funcionava a Serraria da Vale em Cariacica?

 

R - Também eu só fui o pepino, né?

 

P/1 - Se vê que as... (risos)

 

R - Não tinha...

 

P/1 - A gente vai vendo no seu _________, acumulou isso, acumulou mais aquilo.

 

R - É, tinha uma serraria que fazia os dormentes especiais. Os dormentes comuns, a Vale comprava _______. Os especiais, onde tinha ponte, desvio, que eram dormentes de tamanho variável, ela fazia. Ela comprava madeira e fazia. Eu acho que teve problema lá de corrupção, uma bandidagem danada e me chamaram para tomar conta da serraria. Para você ter uma idéia, 95% do custo era matéria-prima, 5%... Então, em madeira era uma coisa muito fácil de você roubar porque você chega, mede, bota para serrar. Só deu isso: “É, porque tinha podre na madeira.” Então, era isso. Então, foi uma coisa assim, de... Foi também barra pesada mesmo porque eu comecei a tomar conta, mandava medir a madeira e serrava imediato. E, o que eu botava? Eu estava comprando pouca madeira, o cara não conferia, né? Aí, os vendedores: “Pô, como é que pode? Eu mandei um volume e estou recebendo menos.” “Então, fica aqui. Você vai ver.” Aí, eu me lembro que um deles: “Ah, vim aqui discutir...” Aí, abriu a bolsa dele tinha um revólver, né? Aí, eu abri a minha também, tinha outro revólver. Sabe aquele jogo parece de poker, cada um mostrando a... Infelizmente, nunca tive problema nenhum, né?

 

P/1 - Você andava armado?

 

R - Andava.

 

P/1 - Anda ainda?

 

R - Não. Hoje, tudo está mais tranquilo.

 

P/1 - Tinha muita pressão dos madeireiros?

 

R - Tinha, porque... E outra coisa, eu... Qualquer empregado meu que recebesse alguma coisa, algum presente, eu mandava embora, porque eles chegavam mesmo; querer arranjar mulher, querer dar presente, entendeu? Todos os presentes que eles davam para mim, eu dava... Tinha uma comunidade pobre, eu dava para os pobres ali. Eu não aceitava nada também, entendeu? Aí, eu saí, saí da serraria... Não, aí eu acumulei também a usina de tratamento de dormentes porque teve um roubo também lá, umas coisas assim, aí tomei conta da usina. Aí, também descobri uma porção de sujeira, um bocado de coisa já. Aí, vieram questionar comigo, eu falei: “Olha...” A minha mulher tinha tido o meu primeiro filho, o meu segundo filho, falei: “A minha mulher pariu, eu estou aqui trabalhando. Vocês não estão satisfeitos, vocês me tiram daqui, porra!” Aí, eu saí. Dois anos depois, pediram para eu voltar novamente. Aí, tive que fazer outra limpeza, tanto na serraria, quanto na usina.

 

P/1 - Aí, você ficou em Linhares só,  Cariciaca, sempre de Linhares.

 

R - É, é, é, sempre de Linhares, fazendo essas coisas.

 

P/1 - E como é que você foi fazendo o aprimoramento dos seus conhecimentos? Você foi fazendo cursos fora, foi a prática,  como é que foi um pouco isso?

 

R - Muito fazendo, aprender fazendo. Acho que a melhor coisa da vida é fazer. “Faça que você aprende.” E viajei muito, né? A companhia me deu essa magnífica possibilidade de... Aquilo que eu falei: “Esqueceram de mim na reserva.” Então, eu pude fazer as pesquisas que eu quis, entendeu? (risos)

 

P/1 - Você pôde ficar pesquisando, fazendo curso?

 

R - É, curso não. Curso, eu não fiz curso. Eu viajei muito, participei muito de seminários, escrevi muito. Então, isso foi me dando... Quer dizer, fui diminuindo as minhas possibilidades de erro, né? Foi ótimo.

 

P/1 - Mas mesmo assim, essa relação com as ONGs veio muitas... Elas procuram contatos, financiamentos para projetos?

 

R - Eles procuram muito contato, muita informação, muita coisa, né? Mas, esse movimento de ONG no Brasil é muito... Ele teve aquele pico e hoje caiu, né? Caiu muito. Tem muita coisa, mas por exemplo, eu sou hoje, eu sou o diretor de uma ONG.

 

P/1 - Qual?

 

R -  Aquela do Sebastião Salgado, do Instituto Terra. Você conhece? Então, eu fiz o projeto, eu sou o diretor de Meio Ambiente, a Vale está ajudando, estamos fazendo... É um projeto diferente. Quer dizer, nós estamos fazendo recuperação e, simultâneo, estamos criando uma escola de Meio Ambiente. Quer dizer, além de fazer, nós estamos ensinando como faz. Então, deve ficar pronto a escola esse ano e já começa a rodar. A recuperação já está fazendo. Então, eu fico vendo aí que há uma... Se gasta muito, se a gente fizesse um pouco do que se gasta com congresso, com seminários, as pessoas fazem muito pouco, realizam muito pouco. Tem muita conversa fiada. Eu sou mais do lado assim, do fazer. Isso, o meu lema: “Se você quer fazer alguma coisa, você dá um jeito. Se você não quer, você dá uma desculpa.” Então, eu fico vendo esse movimento de ONGs aí, olha, o que eu conheço de picaretagem, é impressionante. Claro, que tem ONGs aqui no estado do Espírito Santo que são maravilhosas, mas outras. 

 

P/2 - E essa queda se atribuiu ao quê? Essa queda mais recente?

 

R - É a natureza do homem. O homem, ele pensa nele, exclusivamente nele. O ser humano, ele é muito exclusivista, né? Isso no mundo inteiro, só que aqui não acontece nada. Aí fora, quando descobre, o cara responde, a impunidade é muito grande. 

 

P/1 - Você fez algum tipo de parceria com as comunidades? Assim, você tinha pressão porque tinha gente que queria continuar caçar, desmatar, queimada, você teve que fazer alguma aliança, alguma campanha junto à população, como é que se deu esse contato com as comunidades?

 

R - Não, não. Fizemos alguma coisa, mas foi muito insípida, não foi muito... Foi mais... Eu dizia sempre o seguinte: “Meio ambiente, educação ambiental, você tem três maneiras de fazer; era o amor, que você explica para a criancinha, desde a criança, “olha é importante a floresta porque ela aumenta a infiltração da água, evita erosão, melhora o microclima.” Quer dizer, através da informação, essa é uma forma. A outra é dogmática, né? “Ó, se não fizer isso, você vai ficar broxa, papai do céu vai te castigar, você vai para o inferno.” E a outra é na porrada. Infringiu, vai preso, vai responder processo. Então, essas três coisas foram feitas, tá? Quantas pessoas eu ajudei; quer dizer, o Renato de Jesus, a Vale do Rio Doce, ajudou a fazer florestas, orientar... Quantas pessoas chegam: “Como é que faz isso? Como é que planta? Como que é?” Isso, a gente recebe o dia inteiro, o dia inteiro. Agora, evidentemente, hoje, as pessoas pensam, vêem na Vale do Rio Doce, que a Vale tem que dar alguma coisa. Não, se vocês quiserem mudas, vocês vão comprar a muda. Se não, quem vai bater o pires, sou eu. Eu tenho um programa aqui, eu tenho que dar renda e não sou eu que decido se eu tenho que te dar muda. Eu sou executivo, eu recebo ordem. Se a Vale quiser dar muda, vai comprar mudas de mim e vai te dar. E a Vale tem um programa muito grande de assistência a essas comunidades. Isso aí, é muito interessante.

 

P/1 - Quais são as espécies mais raras que tem lá assim, de ave? O que é de mais raro que tem?

 

R - Hoje, tudo é raro, não tem mais floresta, né? Então, tudo passa a ser raro. Não tem mais nada. Por exemplo, Arpia que é o maior gavião brasileiro lá ainda existe Arpia, né? Porque a primeira vez que se viu um Arpia chocando foi na reserva. Por exemplo, Jacarandá da Bahia, que é a madeira mais cara do mundo, um metro cúbico de jacarandá chegou a custar 10 mil dólares, porra! Lá, se nós fôssemos cortar todo o nosso Jacarandás, teríamos 50 milhões  de dólares. Quer dizer, talvez a única reserva genética de Jacarandá que ainda existe no Brasil. Aí tem Jequitibá rosa, Parajus, Cedro, Macaíba, onde que tem isso mais? Não tem. Então, cada vez mais, fica mais fácil ganhar dinheiro com Linhares porque vira raridade, né? Pode ter certeza, quantas pessoas não conhecem, nunca entraram numa floresta? Em Linhares há essa oportunidade e com conhecimento. Vai ver uma floresta e tem todo um conhecimento, desde o tipo de solo, o tipo de florestas, espécies, interações que existem. É uma coisa magnífica que a Vale fez. Interessante é que... Quer dizer, podia ter cortado Jacarandá. Não cortou. Poderia ter usado a floresta, uso direto, poderia ter cortado, não cortou. E para mim, o grande valor é que é uma floresta em relevo plano, onde a exploração é muito facilitada. O que sobrou de Mata Atlântica, principalmente em São Paulo, foi por inacessibilidade, relevo muito montanhoso e difícil tirar madeira. Então, a nossa floresta hoje... Quer dizer, era só derrubar, encostar o carro e tirar madeira.

 

P/1 - Pensando na sua trajetória na Vale do Rio Doce, quais foram os momentos mais marcantes, os fatos que mais te influenciaram, que mais ficaram guardados na sua lembrança?

 

R - Ah, os momentos mais bacanas foram os vividos dentro da reserva. Sempre, só os da reserva. O resto é o empregado que tinha que fazer as coisas mesmo e eu ganhava para aquilo. Estão precisando de mim, eu ia, como eu vou até hoje, né? Mas, o marcante é a reserva, não sei dizer na reserva...

 

P/1 - O quê?

 

R - É tanta coisa na reserva, né? É uma paixão mesmo. Não tem... É tudo. Você pega o seu amor, o que você tem mais o amor? É tudo, né? É o nariz, é a boca, é a cabeça. Não, é tudo. Então, a reserva é... O momento marcante na companhia é tudo e, agora, é legal porque você vai tendo os conhecimentos porque a pesquisa florestal, você não tem resposta imediata, entendeu? Você vai ter agora. Agora, poxa, eu... Agora, dia 24, fazem 24 anos que eu estou na reserva e cada dia são novas surpresas. Essas coisas que você vai adquirindo. “Poxa, é isso mesmo!” Por exemplo, ver as pessoas copiando as nossas práticas. Isso é um êxtase, né? Isso é o ideal, né? Você fazendo conservação, fazendo recuperação e o vizinho fazendo a mesma coisa. Eu não tenho assim, um momento marcante. São momentos de pressão, que você fica assustado, mas momentos de prazer foram todos os dias, né?

 

P/1 - Tem uma história, assim um causo dentro da reserva, gente se perder...

 

R - Eu estou fazendo um livros de histórias da reserva.

 

P/1 - Conta uns causos aqui para nós?

 

R - Cada funcionário, eu pedi para que escrevesse cinco historinhas, né? Têm umas histórias muito comprometedoras. (risos)

 

P/1 - Conta umas, inéditas, dá uma canja aqui?

 

R - Por eu viver na floresta, todo mundo acha que é o “senhor da floresta”, um cara meio... 

 

P/1 - Você?

 

R - É. Então chegou uma senhora e perguntou se eu tinha feito contatos extraterrestres. Eu falei: “Não.” “E por que não? E como que é a roupa deles?” “Meio marronzinho, igual a da Vale.” “É? E o que eles falavam?” “Eu não posso falar.” Aí, vai as histórias vai indo e as pessoas querem... Porque você mexe muito com a cabeça das pessoas, né? 

 

P/1 - Esse imaginário da floresta.

 

R - Imaginário da floresta, né?

 

P/2 - Virou um mito, um personagem?

 

R - É, impressionante. 

 

P/1 - Conta outra.

 

R - (risos) Interessante, chegou um (PCJ?)... Isso é bom, isso é nova. Ele... Eu já tinha feito a programação, “e amanhã, o que nós vamos fazer?” “Amanhã, 5:00, vocês têm que estar acordado... (risos) “E 5:30 a gente vai para a floresta.” O que é que nós vamos fazer?” “Nós vamos fazer observações ave faunísticas.” “Mas, o que nós vamos ver?” “Você vai ver o pintinho na floresta.” (risos) Aí vai. Tem muitas histórias. Pode deixar que eu vou te mandar um exemplar. Têm histórias de caçador, tem...

 

P/1 - E de caçador, conta uma de caçador.

 

R - Tem um _________ nosso, o caçador ficou tão... Ele ficou tão assustado quando viu a gente, que ele saiu correndo, ele atravessou o rio andando de tão rápido que ele estava. 

 

P/1 - É mesmo?

 

R - É. (risos) Tem essa história. Eu lembro que teve um ministro que foi lá e o cara viu um segurança, conversando comigo o segurança: “Salvino, câmbio Salvino, alguém passou por aí?” Aí, o meu segurança: “Não, o câmbio não passou por aqui.” (risos) Aí vai. São causos mesmo. 

 

P/2 - Um prato cheio para ficar...

 

R - É, tem muita coisa. Não quero matar o livro. Você vai morrer de rir.

 

P/1 - Quais são as perspectivas para Linhares para os próximos anos assim?

 

R - O grande vôo é a auto-sustentabilidade. Eu acho que isso vai ser um exemplo para a sociedade brasileira, mostrar que Meio Ambiente é um bom negócio e acho que fora a auto-sustentabilidade, a oportunidade que ele está dando para as pessoas de saber lidar com o Meio Ambiente, saber lidar com a floresta. A gente, todo mundo fala em floresta, mas eu digo o sempre que “nós temos a síndrome do Chapeuzinho Vermelho.” O que é síndrome do chapeuzinho vermelho?  Que na floresta tem lobo mau, né? Eu digo que “não, floresta aqui só tem Chapeuzinho Vermelho.” Vovó, de vez em quando, aparece alguma. Então, quer dizer, acabar o mito que floresta faz mal. Todo mundo quer floresta, mas você planta floresta, o pessoal quer cortar. Eu me lembro que nós fizemos um trabalho aqui dentro da cidade de Vitória, uma ilha de vegetação, que era um lugar próximo a rodoviária, um lugar muito quente, abandonado. Aí, as pessoas quiseram... Começaram a botar no jornal que tinha assalto dentro da floresta e queriam cortar a floresta. Eu falei: “Poxa vida, então acho que vocês descobriram a razão da criminalidade do país. Vamos cortar tudo que é floresta porque aí acaba a criminalidade. Agora, eu acho que não é por aí. Se eu fosse vocês, eu faria mais floresta, em volta das florestas, a gente colocava alçapão e pegava todos os bandidos.” Felizmente, a floresta está lá. Então, tem essa coisa do assustador, a floresta assusta um pouco e a gente está mostrando que a floresta não é nada disso. A floresta é harmonia, é muita paz e muito importante na vida da gente, né? Exemplos de como lidar e fazer uma agricultura sustentável, como recuperar mata ciliar porque isso é muito importante porque as pessoas não acreditam que isso seja possível. A reserva dá essa chance ao agricultor e não é só o que está escrito. As pessoas acreditam muito naquilo que vêem. Quando você quer vender um carro, você faz um show-room, o carro tem isso, tem aquilo. Então, nós temos hoje um show-room ambiental. Linhares, além do banco genético, além das suas características de conservação, ele é um grande show-room de como viver com a natureza. Então, você tem que ouvindo idéias. A companhia está vivendo de idéias de como ter uma mata ciliar que pode _________, como recuperar uma floresta que está morrendo, como recuperar uma pastagem, como fazer um consórcio de espécies agrícolas com floresta. Quer dizer, vendendo boas idéias, mostrando boas idéias. Isso é importante, né? Hoje, a pessoa que desce, por exemplo, desce a Dutra, aquela é a referência das pessoas que quem nunca viu uma floresta, a referência para aquelas pessoas é aquilo. Aquela degradação, aquela coisa horrível, horrível, ambiente extremamente inóspito, né? Então, Linhares é a chance ____, existe, isso é verdade, ainda existe isso, entendeu? Quer dizer, concomitante a auto-sustentabilidade, eu acho que o grande gol é isso. É a chance de Linhares mostrar para as pessoas o que era e o que pode ser refeito. Nós vimos um filme ao longo desses anos. Qual foi o filme? As árvores saindo de alguns lugares, né? Você passa assim, rapidinho, saíram as árvores. Agora, Linhares pode ser a chance de você rodar o filme ao contrário, né? As árvores voltarem para os seus lugares.

 

P/1 - Fora de Linhares, o que você faz na suas horas de lazer?

 

R - Eu? Eu estou fazendo um spa, construindo... Um dia, eu vou ter que sair da reserva e tenho que estar... Eu sou, virei um homem da floresta mesmo. Então, eu já fiz uma floresta e plantei muito. Você vê como que é estranho, as pessoas da minha comunidade acharam que eu era doido, que eu não plantava nada de comer, só plantava árvore. Você vê como que é a mentalidade das pessoas, né? 

 

P/1 - Você comia? (risos)

 

R - O quê?

 

P/1 - Milho, mandioca.

 

R - Mandioca, eu não como não. (risos)

 

P/1 - E você está construindo um spa?

 

R - Um spa anti-stress com bastante floresta.

 

P/1 - Como é o nome do spa?

 

R - O Diabo em Férias. (risos) Tudo que o diabo faz é bom e é proibido, né? Imagine em férias. (risos)

 

P/1 - E o lazer, fora construir spas? Cinema, nadar, esporte?

 

R - Eu gosto muito de ver jogo do Flamengo, né? Na realidade, eu... Filme, eu vejo alguma coisa, mas a minha vida não tem me permitido , não tem me dado essa chance não.

 

P/1 - Você casou, teve filhos?

 

R - Eu tenho dois filhos, o Lucas e o Pedro. O mais velho está fazendo Engenharia Florestal. Vamos ver.

 

P/1 - Algum mora com você, não?

 

R - O mais velho mora na universidade, o mais novo aqui em Vitória. Quase, eu estou sempre com eles, são uns amores. Não querem porra nenhuma com a vida, né? Estão na maré mansa, mas eu devo ter sido um dia assim também, né? 

 

P/1 - Se você pensando na sua trajetória de vida, se você pudesse mudar alguma coisa, você mudaria?

 

R - Não, eu acho que não. Eu estou de bem com a vida. Estou, estou... Poxa vida! Não tem nada assim que eu queria mudar a trajetória não. Eu estou muito de bem com a vida.

 

P/1 - Quais são os seus principais sonhos?

 

R - Bem, continuar na reserva, fazendo mais coisas, fazendo, fazendo, fazendo, plantando muito mais muda, construir o meu spa, onde eu quero fazer um centro de treinamento também nessa área ambiental, uma clínica de fisioterapia. É mais destinado ao pessoal da melhor idade, né? É isso. Não tem nada de... E amar muito, é bom amar, né? 

 

P/1 - Tem alguma coisa que você queira deixar registrado, que a gente não perguntou? Estela, quer perguntar alguma coisa?

 

P/2 - Eu acho que não.

 

R - É vocês que tem que apertar o gatilho. Eu respondo.

 

P/1 - Alguma coisa que você queira deixar registrado?

 

R - Não, eu acho um agradecimento a Linhares. Só.

 

P/1 - O que você acha de ter participado, ter dado esse projeto, para o projeto Vale Memória, um projeto feito a partir que está resgatando a história de vida dos empregados?

 

R - Eu acho um coadjuvante, uma peça que vocês estão montando. Só isso. Nada assim e se contribuir, eu fico satisfeito.

 

P/1 - E o que você acha do projeto em si, Vale Memória?

 

R - Super, super interessante. Acho que isso é fundamental, tá? Eu me lembro que eu cheguei na reserva não tinha nada para trás, nada escrito e a minha preocupação foi deixar tudo escrito, desde o primeiro dia. Então, se eu sair hoje, eu viajo a beça, se eu morrer, alguma coisa, qualquer continua no lugar. É impessoal. Eu acho que isso é um papel disso que vocês estão resgatando e caracterizando todo um passado, um presente que é fundamental para você, pelo menos, para evitar erros que foram cometidos. Pelo menos, se cumprir isso, já é maravilhoso. Aí...

 

P/1 - Você fez diários? O que você fez? Deixou tudo registrado, tudo que você fez?

 

R - Não, todas as nossas atividades, todos os projetos de pesquisa tem começo, meio e fim, que isso! É impessoal. Qualquer um vai... As matrizes, os catálogos, eu não tenho a chave do computador, eu não tenho. Tem um rapaz, têm duas pessoas que sabem. Quer dizer, não é comigo. Quer dizer, não é para mim e qualquer um que chegar hoje, não tem nada indecifrável. Tudo é linguagem, qualquer um vai e recupera, tá? 

 

P/1 - Bom, foi ótimo a entrevista. Obrigada.

 

R - Não por isso.

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