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História

O segredo da vitória é lutar

História de: Arthur Pucciariello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/05/2020

Sinopse

Pai argentino, mãe nasceu em Santos. Avós italianos. Pai trabalhou de agricultura e depois comércio. Infância feliz: futebol, convivência com os irmãos. Colégio marista, onde aprendeu ensinamentos para vida toda. Gosto pela leitura desde da infância. Padrinho e madrinha eram apaixonados por Direito, o que determinou sua escolha profissional. Fez Direito na USP e foi trabalhar na Procuradoria e com direito comercial. Entrou na Votorantim em 1956.

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História completa

P/1 – Boa tarde, senhor Arthur. A primeira coisa que gostaria de saber era o seu nome completo, a data do seu nascimento e o local do seu nascimento.



R – Boa tarde. Meu nome é Arthur Pucciariello, eu nasci em Santos, em 29 de maio de 1925.



P/1 – Doutor Arthur, como é que se chamam seus pais?



R – Meu pai se chamava José Pucciariello e minha mãe se chamava Angelina Cármino.



P/1 – De onde eles são?



R – Meu pai nasceu no mar e o primeiro lugar que ele tocou foi a Argentina e ele passou a ser argentino. Mamãe nasceu na minha cidade de Santos.



P/1 – E os seus avós?



R – Tudo italianos.



P/1 – Estavam vindo para o Brasil, mais ou menos… ?



R – Tudo italianos. Vieram com aquela grande fornada de imigração ainda no fim do outro século. Não do outro, do outro do outro, pois hoje mudamos de século a pouco tempo. E é assim.



P/1 – E o que os pais do senhor faziam?



R – O meu pai trabalhou na terra, como bom imigrante. Minha mãe ajudou muito e aí ele foi, passou a se dedicar ao comércio e morreu comerciando, porque gostava.



P/1 – Os seus pais sempre viveram em Santos ou eles saíram de Santos?



R – Não. Viveram, podemos falar quase que sempre, porque moraram em São Paulo, mas por pouco tempo. Graças a Deus que se mudaram logo, porque era exatamente do lado de onde hoje tem a catedral. E era um tal de pim pim, pim pim, noite e dia que ninguém dormia. A obra de cantaria foi toda feita onde está a catedral. A Catedral de São Paulo.



P/1 – E como é que era Santos? Qual a memória que o senhor tem de Santos, quando o senhor era criança?



R – Olha, Santos! Que ninguém aqui fique chateado, é a melhor terra do mundo. Passa o Rio de Janeiro, tranquilamente. É a melhor terra que existe para você viver e gozar o tempo. É uma terra, não é só porque eu nasci, outros amigos grandes meus nasceram lá. Ela sempre foi muito agradável. Não era para a nossa geração belicosa, isso é muito importante. Todo o pessoal da nossa idade, todos que estudaram lá, como maristas, comigo, nós sempre fomos muito bem recebidos em Santos. Talvez hoje continue exatamente como era, porque quem vai para lá não quer sair. 



P/1 – O que o senhor se lembra mais da paisagem santista?



R – Olha, é difícil esquecer, por exemplo, as ondas quando o mar está calmo; e é mais difícil ainda esquecer quando o mar está bravo, porque aí você vê justamente a pujança do oceano querendo brigar. Ele sempre perde, até o momento em que o oceano resolve tomar conta de tudo e aí vai até os trilhos dos bondes e até onde passam os ônibus. Mas isso é raro, só acontece uma vez a cada cinco, seis anos. Aquelas grandes marés. O francês fala: (La marrecage. La marrecage or dui?). É aquele negócio, você já deve ter visto isso. A água vai, sobe de repente, vem a onda, não dá confiança para ninguém e do mesmo jeito que vem, ela vai embora. Isso acontece em Santos. É raro, mas acontece.



P/1 – Como é que era o cotidiano da casa do senhor?



R – Você se refere com meu pai, minha mãe e meus irmãos?

 

 

P/1 – Isso, a infância, o cotidiano da infância.



R – Ah, era agradabilíssimo.



P/1 – O que vocês faziam, o que tinha?



R – Brincávamos, jogávamos futebol. Um irmão meu teve mania de criar coelho e teve coelho em casa que você não podia mais comer coelho (risos). E tinha tanto coelho, principalmente durante a guerra que foi uma época difícil até para conseguir pão. Então, nós nos divertíamos muito. A minha irmandade foi… Nós éramos realmente, como se diz, fraternos, né. E você? Posso fazer também a pergunta? Não pode… 



P/2 – Quantos irmãos eram, doutor?



R – Heim? Posso fazer no dedo e você conta?



P/2 – Pode.



R – José, Domingos, Afonso, Amália, Leon, Arthur, Amália Vicentina. Éramos sete, conta de mentiroso. E olha, ainda faltaram quatro, pois nós queríamos fazer um time de futebol e ainda tem o juiz (risos). Ela ri.



P/1 – Doutor Arthur, o senhor estava falando da sua infância e o senhor tocou na guerra, né? Ou seja, o que o senhor se lembra do período de guerra, o que te marcou mais nesse período?



R – O período de guerra foi uma coisa interessante, porque, veja bem, eu me formei em quinto ano em 1942, e em 1942 foi exatamente começaram a vir as chamadas. O que é que aconteceu? Se eu queria um emprego e não tinha emprego, porque todos tinham medo que você dando o emprego, se fosse convocado tivesse que servir, eles teriam que pagar alguma coisa. Então, você, a geração… Eu falei a guerra, não sei o porquê, mas isso é interessante saber, porque quando houve a guerra todo indivíduo que estivesse assim, mais ou menos, em condições de servir, ele não era, porque ele ia ser um peso para o coitado que ia tê-lo aos seus serviços, né. Bom, isso aí aconteceu. Pergunte para a sua família, para o seu pai, seu avô que eles vão contar direitinho. Não se conseguia emprego. Então, aconteceu uma coisa muito interessante e brilhante: muitos começaram então a trabalhar, a despender as próprias forças sem depender de um patrão. Tinha quem fazia uma série de coisas, como… Ia ao mercado, comprava frutas a granel e vendia a picado. Compreendem? Um modo de ter uma atividade, né.



P/1 – E continuando, qual a memória que o senhor tem da sua infância? Aquilo que o senhor guarda saudade?



R – A memória que eu tenho da minha infância é uma grande saudade, porque eu fui um garoto extremamente feliz e muito feliz. Tudo para mim era agradável, era o futebol, era ver o tênis, que eu não conseguia jogar tênis direito. Era o bola ao cesto, que naquela ocasião começou. E eu frequentava muito o Santos, o Santos Futebol Clube. Eu morava em frente.



P/1 – E a escola, como é que foi o período escolar?



R – Magnífico, eu fui sempre um garoto… Olha, Deus me ajudou, porque tudo que você está falando, eu estou gravando. Daqui a pouco se você quiser, eu vou competir com a máquina e ela vai falhar alguma coisa e eu não vou. Então, eu me lembro bem mesmo de todos os que foram meus companheiros no… Eu fui aluno marista, estudei no Grupo Escolar e depois fui aluno marista. Agradeço muito aos professores maristas, porque me deram uma base muito sólida, principalmente para enfrentar as coisas adversas. Coisas adversas você sabe qual é, né: a morte. A morte de a, a morte de b, essa eu sempre considerei algo muito adverso e aprendi a saber que é uma das coisas mais naturais. Como o nascimento é uma coisa…



P/2 – Mas, seria o quê? Eles lhe davam uma educação religiosa?



R – Muito boa. Sim, a senhora põe no dedo alguma coisa, porque todos achavam que o irmão marista obrigava você a ser católico apostólico romano. Nunca obrigaram. Aqueles que não quisessem ficar na sala podiam pedir licença e sair. Isso durante cinco anos, porque naquela época o bacharelado tinha cinco anos. Eu tenho uma boa memória porque eles ensinaram a gente a viver como deviam. Aliás, no grupo escolar também eu tive professores excelentes. Grupo Escolar Barnabé. Alguém aí levou o meu… Pensei que alguém ia querer usar, até fiz por escrito e não ficariam me perguntando. O papel sumiu! Foi você que apanhou?



P/1 – Sim, foi, mas essa é a ideia.



R – Ele é o cremenoso, que comeu todo o creme.  



P/2 – Mas só uma perguntinha para meu esclarecimento.



R – Diga.



P/2 – Dentro dos ensinamentos filosóficos que o senhor terá aprendido com os maristas, já que não estava preso a uma religião, enfim, eram mais filosóficos, por que o senhor se lembra tanto, o senhor já repetiu lá fora, repetiu aqui, a aceitação da morte?



R – Veja bem, nós sempre estudamos as coisas mais naturais da vida. Em casa conversava-se sobre as coisas naturais, e o nascimento e a morte são uma coisa natural. Eu não sei o porquê essa conversa fomos ter, mas é que a senhora tocou qualquer coisa no assunto e eu falo demais.



P/2 – Eu também.



R – Mas não fique assustada, não, que a senhora vai passar, que nem a minha avó, os 100 anos.



P/2 – Não, eu queria saber a orientação marista que o senhor recebeu.



R – Os irmãos maristas, eles eram absolutamente normais. O que nós tínhamos a mais é que nós tínhamos que ler, todos, não digo que todos a mesma coisa, mas sempre um de nós, tinha a hora de catecismo. Então, você tinha que ler o evangelho, o evangelho daquele dia ou do domingo passado e você teria que… Não lê-lo outra vez, você teria que falar interpretando o que estava escrito e aquilo que você pensava. Eu achei isso extremamente valioso. A senhora, se pensar isso duas vezes, a senhora lê o evangelho, não fala mais nada e depois fica pensando naquilo que está escrito e a senhora vai ver que coisa interessante.



P/2 – Essas orientações que o senhor recebeu lhe serviram para a vida toda, serviram para… ?



R – Estão servindo. Estão servindo inclusive, se não tivessem nos compenetrado, eu, provavelmente, com o gênio que eu tive, eu poderia estar achando ruim e, no entanto, eu estou gostando como uma tertúlia, uma conversa agradável.



P/2 – O senhor, por exemplo, bate com a orientação da Votorantim, a família Votorantim, é que ela tem uns traços, ditos aqui em entrevista, de personalidade… 



R – Se é para saber bem como é que é a família Votorantim, não deixa de bater um papo com o doutor Antônio Ermírio de Moraes, o doutor Antônio. É agradabilíssimo. Você vai dizer: “Mas esse homem é assim?” Ele é realmente daquele jeito que você vê.



P/2 – Desculpe a interrupção, eu já… 



P/1 – Tá.



R – Não, você fez a pergunta, tem o direito a ter uma resposta. Aliás, eu tenho a obrigação de respondê-la.



P/2 – Muito obrigado.



P/1 – Doutor Arthur, como era o cotidiano na escola?



R – Tira o doutor.



P/1 – Desculpe. Arthur, como era o cotidiano escolar?



R – O primário?



P/1 – Isso.



R – Eu vou contar. O grupo escolar na minha época, eu não sei, hoje, se é assim, mas ele era agradabilíssimo porque você ia lá, bom… O Grupo Escolar Barnabé. Eu ia lá, às vezes, eu tinha que ir um pouco antes, porque o meu pessoal precisava fazer algo e não tinha onde eu ficar ou não queriam que eu ficasse com os outros, então me levavam para o Grupo. Eu ia para o Grupo Escolar e eu sumia, ninguém mais me encontrava, porque eu sabia onde era a biblioteca e tinha uma biblioteca infantil. Lembra esses livrinhos, aquela coleção de historinhas? Ah, eu li todos, praticamente, porque eu sumia, né. O diretor gostava disso, chamava-se Celso da Cunha Alves, esse senhor que era o diretor. Era professor e diretor. Olha, a infância da minha época deve muito ao professor Celso, porque ele gostava que se você chegasse mais cedo, fosse a biblioteca ler esses livrinhos de história fininhos. Você deve ter visto, porque a coleção existe ainda hoje, essa coleção.



P/1 – Eu já vi várias vezes essas historinhas.



R – Não teve essa felicidade? Histórias antigas traduzidas, às vezes, do francês.



P/1 – Eu já li várias. E como é que começou o gosto pela leitura? Da onde vem, o senhor foi alfabetizado em casa ou tudo aconteceu na escola?



R – Eu fui alfabetizado em casa também. Eu quando fui para o Grupo eu já sabia ler e escrever. Porque meu padrinho e minha madrinha estavam junto comigo. Eu tive crupe e eu morava do lado do médico, então meu padrinho e minha madrinha falaram o seguinte: “Deixa ele comigo que qualquer coisa nós podemos ir ao médico”. O médico era Gerônimo Latércio e Carlos Napoleão Latércio. Eu morava no 33 e eles eram do 25, então qualquer coisa… E eu fiquei, essa parte de doente lá em casa do meu padrinho e minha madrinha, porque eram vizinhos. Então, acontece que era a única criança nesse caso na residência e eles resolveram o meu problema e o deles. Começavam a contar história e dizer: “Aqui está escrito história, então escreve história como você está vendo”. Então eu copiava, né. Aí eu perguntava: “Mas eu estou falando história, mas o ‘i’ está depois”. Eles inventaram um método com essa história e eu garotinho já lia.



P/1 – O senhor se lembra disso?



P/2 – Crupe era mortal, nessa época?



R – Quem?



P/2 – Crupe.



R – A crupe era mortal, matava muitos, menos aquele cujo médico abriu aqui. Olha, quer ver? Não está escrito crupe, mas isso foi aberto para poder respirar, porque mesmo aqui as vias ficavam fechadas. Eu quis saber, porque eu tinha um corte aqui e não tinha aqui. Então, me explicaram tudo isso que eu estou dizendo. Então, abriam aqui, entrava o oxigênio… Naquela época, hoje não. Hoje está bem diferente. Você vai a um hospital e as máquinas te salvam e te levam para frente até você ter uma revolta interna contra a doença. E você sempre ganha da doença. Quando você lutar com a doença, você sempre ganha porque o segredo da vitória é lutar. Então você quer ver? O cortinho do crupe ainda está aqui.



P/1 – Arthur, terminada então a primeira fase… 



R – Mas não vai pôr isso aí no… Morreu muita gente, ah, morreu. Morreu muita criança, também adultos morreram. Teve a febre amarela. Teve a febre amarela que foi em Santos, aliás não foi só Santos, né. Todo lugar que estava sujeito à água, pantanoso, houve a febre amarela, porque era exatamente o campo para o Anopheles fazer a sua familinha e depois vir comer o nosso sangue.



P/1 – E teve outras epidemias que você se lembra?



R – É, a que eu me lembro… Eu me lembrei, falei da febre amarela, falei do crupe porque a crupe pegava a criançada, então era o tal negócio: você não podia ficar junto, porque toda vez que uma criança ficava doente, vinha sempre um velho e dizia: “Não fica junto, porque isso se pega!” Pegando ou não pegando, os pais faziam o isolamento, isolavam, mas nem todo caso de doença é para falar em isolamento.



P/1 – E na sua família você foi o único que teve o crupe?



R – Ah, sim. Graças a Deus. Graças a Deus e para eles também porque eles continuaram jogando futebol e eu tinha que ficar ali paradinho, olhando…



P/1 – E quanto tempo…



R – Mas eu não peguei o, não peguei o… Eu tive um princípio, mas não tive o crupe propriamente dito. É que como entope, então eles fizeram esse pequeno corte para respirar. Sei lá, eu não sei quanto tempo. Eu sei que fizeram, está aqui, para respirar. Se entupir você tinha um, algo para subsidiar. Isso é fácil, isso em qualquer lugar faz. É bom você aprender porque as coisas acontecem, hein.



P/1 – Verdade. E terminado o primeiro ciclo, ou seja, a primeira fase do grupo escolar, você foi para aquilo que é…



R – Para o Ginásio Santista.



P/1 – Para o Ginásio Santista. E como é que foi a relação… ?



R – Ah, muito boa porque tinha que fazer um exame. Os padres maristas queriam saber se você estava em condições, apesar de ter recebido o diploma ou certificado do primário, que você estava em condições de acompanhar o que se chama a grade. Fez a grade A, B, C, D, ali começa pelo F, estou dando um exemplo. E eles faziam um pequeno exame de admissão, mas era muito simples, né. Era muito simples, não era nada exagerado, eu me lembro bem. Eles queriam saber quanto era quatro vezes três, dividido por dois. Você dizia: “Quatro vezes três, doze. Dividido por dois, seis. Doze dividido por dois dá seis”.



P/1 – Certo. E aí…



R – Só que eles queriam que você fizesse a continha. Os professores nunca foram bobinhos, eles queriam que você dissesse que o resultado era esse, mas faziam…



P/1 – Tinha que mostrar o caminho.



R – Mas mostrar o caminho. Então, tinha uma professora lá, chamava-se Carmem Colasso Queirós Fonseca. Você veja que ela era minha professora no segundo ano, Carmem Colasso Queirós Fonseca, então ela dizia: “Eu quero ver toda a historinha do número, que se der só o resultado 26 e for 26, eu vou dar zero, porque você viu do moleque do lado.” (Risos). Coisas assim, e acontecia mesmo, viu? Mas isso aí não é para gravar, não. Isso aí… Está perguntando da minha infância, você vai ouvir cada coisa.



P/1 – (Risos). E Arthur, foi nesse período que você começou a definir o seu interesse por Direito ou houve algum fato mais lá na frente que… ?



R – Não, em minha casa aconteceu… O Direito era o seguinte: eu falei para você do padrinho e madrinha que ficaram comigo, porque antes era o médico. Acontece que o meu padrinho era um apaixonado pelo Direito. Ele se dava com o Dino Bueno, com o filho do Dino Bueno que era o Dias Bueno e ele me levava, eu ia para a casa deles e ficava aquela discussão e eu ficava ouvindo e era apaixonante mesmo. Eu não entendia nada, a grande verdade, do que eles falavam, não é? Eu não entendia, tem palavras que eu depois eu ficava perguntando, mas aí eu deturpava a palavra, porque eu era uma criança. Mas era gostoso ouvir aquela tertúlia, era gostosa também. 



P/1 – E aí terminado o ginásio você já foi para o colegial?



R – Terminado o ginásio, eu tinha que me preparar para uma faculdade e a minha ideia era estudar Direito, porque embora eles não fossem advogados, eles estavam enfiados no Direito até aqui, não é? Porque hoje tem mais advogado do que a necessidade de conhecer, trabalhar e levar o Direito para frente. Basta lhe dizer, o meu número da ordem é 7181. Você sabe qual é número da ordem hoje? 386, 420 mil. É impressionante. Então, o que ocorre? Naquela ocasião tinha menos, mas aqueles eram obrigados realmente a saber e eram respeitadíssimos. Era gozado, viu? Era divertido. Eu ainda me lembro, eu era pequeno, o cara ia para o Fórum de casaca (risos). Imagina! Estou contando uma historinha de 70 anos atrás, mas que eu me lembrava, né.



P/1 – Ótimo. E aí você começou a se preparar, você fez algum curso para… ?



R – Tudo, eu ficava olhando. Evidentemente que eu fiz um primário que as professoras todas exigiam de mim, graças ao bom Deus, e eu sabia. Então, eu pude ir para frente. Eu fui ao ginásio, tinha que fazer o Ginásio Santista, você tinha que fazer um exame de admissão. Eu não fiz curso de admissão. Eu fui lá, eu nem sabia que tinha um curso de admissão e tinha. Eu conversei lá com o velho: “Você topa? É só 50 mil réis mesmo e quem paga sou eu”. Cinquenta mil réis era a taxa de matrícula. Eu fiz e passei, então não teve problema. Eu fiz cinco anos. Quando terminei os cinco anos passou a ser só quatro e você, sobrava um. Aí é que veio a grande dificuldade, porque você não encontrava emprego, porque eu precisava de um emprego para sobreviver e passar a estudar de noite. Emprego eu não consegui, mas depois eu consegui estudar de noite.



P/1 – E aí você entrou na USP [Universidade de São Paulo] em que ano?



R – Eu fiz exame na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e fiquei… Cadê o papel? Você ainda está aí com o meu papel? Pus até a data aí?



P/1 – Não, mas não precisa de data.



R – Eu nem pensei. Eu tenho a data lá, certa.



P/1 – Mas como é que foi o exame, era muito rígido?



R – Era rígido. Eles tinham que fazer rígido, porque era a única faculdade da Universidade de São Paulo, de Direito. Depois é que veio a Católica e vieram outras. Isso deve ser de conhecimento que havia só aquela bendita Faculdade do Largo de São Francisco. Então, você tinha gente de todo o estado de São Paulo e cuíca do Brasil. O cuíca aí, leia-se quiçá, viu? E quiçá do Brasil (risos). E vinham para São Paulo. Acontece que vinham, como dizia o Miguel Reale: “Vinha gente que sabia plantar muito bem batatinha, mas que tinha dificuldade em escrever e compreender”. Isso ele fazia para obrigar a turma a estudar, né. Na verdade, eu tive muita sorte. Agora, exame para entrar era duro, porque quem examinava… Você tinha que fazer latim obrigatoriamente e latim você fazia com um professor rígido. Tinha que fazer ou francês ou inglês, obrigatoriamente, lendo o texto e traduzindo, então você tinha que saber ou francês ou inglês, era optativo. Agora, latim não era optativo, você tinha que saber. E português. O português era interessante, porque se você gostasse da História do, da História do Português, aí você fazia tranquilamente, porque os professores perguntavam, por exemplo: “Eu estou lendo aqui ‘Natércia’. Natércia lembra você o que?” Então, o camarada se desse a resposta, ele já sabia, né. Ela lembrava o que? Era um anagrama de Catarina, ou de outros nomes, outros nomes tinham, né. Então, o cara já via que o indivíduo conhecia, tinha estudado português, aí não tinha maior problema, não. Agora, era muita gente. Era gente de todo o estado de São Paulo e fora de São Paulo.



P/1 – E como era o cotidiano durante esses anos de estudos na Faculdade de Direito, que é uma faculdade absolutamente… ?



R – Ah, delicioso. Porque você tem que ser silente na aula. Acabava a aula, o bedel… Você era jovem, brincava, corria. Os diretores tinham lá uma sala para a gente tomar café, café com leite. Era agradável.



P/2 – Era uma época romântica na faculdade, não era?



R – Houve a época romântica mesmo. Tanto que você entra na faculdade e vê quais eram os vultos que eram cultuados. Castro Alves era um deles. Você encontra lá. Está escrito: “Mares, verdes mares bravios de minha terra natal”. Então, está ali em bronze, já estava… E a faculdade, olha, vou te contar, andou muito depressa os cinco anos. Andou muito depressa, era uma delícia.



P/1 – O senhor fazia parte de movimento estudantil, de todas as discussões?



R – Quando precisasse, sim. Por exemplo: vinha com aquelas histórias daqueles leros comunistas, nós tínhamos um grupinho que resolvia o lero comunista. Pegava o comunista que estava fazendo história e não deixava a gente estudar, fechavam no banheiro e jogavam a chave no poço do elevador (risos). Ah, mas fizeram tantas vezes. Hoje isso é gente importante, não posso nem dizer o nome. É o que fazia, essas coisas. Então…



P/2 – Esses que ficaram presos no banheiro?



R – Teve, teve sim. Você soube da história que prenderam o cara no banheiro? Teve muitas histórias divertidas, na faculdade. Uma delas foi roubar os perus de um professor, lá.



P/1 – Como é que foi essa?



R – Tinha uns perus e roubaram os perus, mas todo mundo comeu peru. Você já ouviu falar da peruada? A peruada começou com essa bendita história (risos). E os perus eram do professor. Pegaram os perus e assaram, não é. Tem uns troços divertidos, mas era de noite isso aí, né,



P/2 – Tinha já, aquela: “Quando se sente no peito aquela…”



R – “Quando se sente no peito bater a heróica pancada, deixa-se a folha dobrada e vai-se a luta morrer”. É bonito isso aí.



P/2 – É romântico isso.



R – É, isso é. É romântico e também não deve ser visto bem bem assim, porque não é brincadeira. Nem todo mundo pode fechar.



P/1 – E como era a relação do senhor com os professores na faculdade? Quais foram os grandes professores que o senhor teve que inspirou muito?

 

 

R – Interessante. O professor, dificilmente você tinha um professor que andasse com A, B ou C, mas os professores da minha época eram extremamente acessíveis e faziam questão que se você tivesse dificuldade que dissesse para eles. Um deles ainda hoje é do mesmo jeito, embora bem velhinho, Gofredo da Silva Telles. Filho, não é o velho, porque o velho já foi há muitos anos. O Gordinho, ele dizia: “Eu hoje não vou para casa, estou esperando vocês que eu quero que vocês saibam isso.” O outro que era um ótimo professor, esse de Penal, era o José Soares de Melo. E outro, Honório Monteiro, por exemplo. Honório Monteiro, ele era deputado, pegava o avião ou o trem e vinha para dar aula. Então, ele dava aula para o pessoal e pegava o trem e ia embora, porque era tudo no Rio de Janeiro. Então, eles eram dedicados. (Ele era deputado?) Era deputado, mas a aula ele estava presente. Todos eles eram assim. O Miguel Reale foi extraordinário, porque o Miguel Reale, quando nós entramos, ele era reitor da Universidade. Então, ele fazia: ele, reitoria, ele era o reitor da Universidade, ele despachava o que era da reitoria lá no Largo, mas de tarde ele não tinha aula e ia para lá, para a reitoria. E dava aula de Introdução à Ciência do Direito. Introdução à Ciência do Direito é a chave que abre a porta para o grande mundo do Direito. E ele dava. E depois no quinto ano ele voltava novamente com os alunos para dar a matéria de que ele gostava. E ficava, olha, você não ouvia uma… Se tivesse mosca com coragem de voar ali você não ouvia uma…



P/2 – E qual era essa matéria que ele gostava tanto?



R – Ele deu Introdução à Ciência do Direito e aquela que ele adorava, chama-se Filosofia do Direito. Que se não me engano, esses inteligentes tiraram isso do curriculum. Você vai me dizer: “O que que interessa saber a Filosofia do Direito?” Saber a Filosofia do Direito é saber, porque há o Direito. O Diretor não foi feito só para ter Direito. É para servir você, servir a ele, servir a mim e servir aos desesperados, aos que mais necessitam, do mesmo jeito que serve aqueles que não necessitam. Isso é Filosofia do Direito. Mais alguma coisa? Eu respondo!



P/1 – E aí o senhor, terminado o curso, o senhor acabou se especializando em qual área do Direito?



R – Olha, eu acabei me especializando naquela em que eu ia ganhar mais dinheiro, o Direito Comercial. Porque o Direito Comercial,  é fácil você explicar para ela o que você tem que fazer para montar uma sociedade anônima. Então, já começa a entrar o que é sociedade, por que anônima?: “É escondida, anônima?” Então, você tem que explicar que não é escondida, é anônima por uma série de circunstâncias. E assim por diante. Não é difícil, não. O segredo é estudar no princípio, porque você aí já enfia isso na cabeça e depois você só fica desenvolvendo o que vai aparecendo.



P/1 – E aí, terminado o curso de Direito, o senhor já foi atuar profissionalmente dentro da área da… ?



R – Eu precisava receber dinheiro para pagar minha pensão, então, eu precisava de uma atividade e eu encontrei essa atividade no Estado. Foi você que perguntou para mim, né. Eu fiz um exame de praticante de datilógrafo.



P/1 – E como era isso?

 

R – Ah, disseram: “A prova é daqui a dez dias”. Então, tinha a Escola de Datilografia Remington. Você não conhece, mas nós que temos uma certa idade, sabíamos. O gozado é que era em cima daquela casa na Rua Direita, que embaixo vendia instrumentos musicais. Todos os que estavam lá acabaram aprendendo direitinho, mas também acabaram aprendendo instrumentos musicais (risos).



P/1 – (Risos).



R – É, são coisas até para rir mesmo, como você está rindo (risos). E para mim não teve… Olha, eu fui uma abençoado de Deus. Espero continuar.



P/1 – Você morava em qual pensão aqui em São Paulo?



R – Eu morei? Eu morei num frege tremendo, ali perto da Faculdade e perto de onde eu trabalhava, na Procuradoria, né. Você saía, descia a avenida, quando chegava ali perto da árvore dos enforcados, conheceu a árvore dos enforcados?



P/1 – Não.



R – Conheceu a… (Sussurro) (Risos). 



P/1 – (Risos).



R – Conheceu a Igreja da Vela?



P/1 – Ah, a Igreja da Vela eu sei o que é.



R – Está melhorando. Então, eu vinha por ali a pé. A minha pensão era perto da Faculdade e perto de onde eu trabalhava, porque ficava bem colocada. Então, eu vinha a pé e voltava, sem problemas.



P/1 – E então como foi aquele trabalho que você foi fazer de datilógrafo?

 

R – Eu aprendi datilografia e aí eu vim saber que precisava de datilógrafos na Procuradoria. Eu fui lá e disse que eu tinha terminado um curso, que eu não era bom, e teve uma senhora lá extremamente agradável: “O senhor suporta fazer uma pequena prova?” “Pois não!” Pois ali (e tre?), porque eles ensinavam um tal de método Remington, então de cara você não via as teclas, mas você tinha que aprender, não é? A,b,c,d,e,f para não tirar ela… Você também datilografa assim?

 

 

P/2 – Agora deve ser tudo diferente.



R – Porque o teclado continua o mesmo.



P/1 – Universal, né?



P/2 – Mas eu acho que isso daí era bem mais antigo.



R – Você quer ver? Olha aqui uma carta que eu vou escrever. Você quer mandar uma carta para mim: “T-t-e-mos-a-hon-ra-de-co-um-ni-car-lhe que foi re-pro-va-do” (risos). Estás bom, vá…



P/1 – (Risos).



P/2 – (Risos). Aí o senhor aproveitou para estudar piano na sala lá em baixo?



R – Ah, mas aí… Fica quieta que eu tenho uma raiva de não ter estudado piano, porque eu adoro Brahms. Hoje eu vou ouvir Brahms lá no… Lá na Sala São Paulo. Oh, procurar meus dois ingressos, quer dizer eu já compro inteirinho.

 


P/1 – Não, isso é editado. Depois como é que foi desenvolvimento profissional do senhor até chegar ao Grupo Votorantim?



R – Olha, eu fui para a Procuradoria, eu te contei, porque eu sendo funcionário público eu não podia mover ação contra o Estado e nem defender, mas eu podia advogar, desde que não fosse contra o Estado. Então, o que eu fiz? Qual é coisa que você não precisa brigar contra o Estado? É Direito Comercial. Não há litígio contra o Estado. Se houver, aí pega um advogado que brigue com o Estado, mas em geral não tem, porque o problema é de código, entendeu? Você quer montar, por exemplo, uma sociedade anônima. Você tem que ver. Pega o Código, diz que é preciso isto, isto, isto e aquilo e é só seguir aquilo, porque se você não seguir a Junta Comercial não vai aprovar. Então, é uma coisa que é fácil. Eu peguei o mais fácil e o mais difícil ainda é o Direito Penal.



P/1 – Aí o senhor ficou na Procuradoria?



R – Até o dia que me chegaram e disseram o seguinte, a coisa foi interessante, porque eu fiquei na Procuradoria e depois o Marri Junior queria uma pessoa que não fosse advogado do Estado, mas conhecesse o Direito para ficar com ele, e eu fui com o Marri. E o Marri era um sujeito extraordinário, uma inteligência tremenda. E ele dava o conhecimento dele para você. Isso eu fiquei e aprendi, quer dizer, quando ele saía ou tinha licença ou qualquer coisa, eu voltava para o meu lugar na Procuradoria. Neste lugar, um belo dia, chegou um senhor que se chama Aquino, chamava-se, infelizmente morreu. Disse: “Arthur, eu tenho um cunhado advogado que quer alguém como você. Como você é. É o meu cunhado Renato Italianetti”. E, já começa esse Renato Italianetti, eu preferia que fosse Renato Talharini. Aí começou essa brincadeira e ele disse: “Não, vai conversar com ele, porque aqui você está ganhando muito pouco. Você aqui está ganhando muito pouco. Você gosta, eu sei, você gosta do que faz, mas vá que você vai ter melhora”. E lá fui eu. Sabe quem era o Renato Italinetti? Era o advogado chefe do Grupo Votorantim.



P/1 – E aí?



R – E aí ele disse: “Eu não posso garantir nada, porque quem diz quem fica aqui se chama José Ermínio de Moraes”. O pai: “Ele diz quem fica. E o que ele disse para mim, ele quer quem venha aqui fique. Se aparenta que é bom, que fique três meses para provar que é bom e se sabe só alguma coisa, fica 15 dias e manda embora”. “E quanto é que eu vou ganhar?” Ele lá deu um valor. “Olha, você vai entrar… ” Veja bem, eu ganhava um conto e duzentos: “Você vai ganhar de início, 12 contos e depois quando ficar efetivado, você vai receber 15 contos por mês”. Ainda era conto. Bom, aí eu olhei: “Bom, eu já estive olhando a tua vida, Arthur. Você ficou aqui esse tempo todo, você não tirou licença prêmio, você não gozou férias”. Naquela época, você podia acumular férias para depois você transferir e pegar em dobro: “Então, você faz o seguinte: você fica ganhando aqui, você vai ganhar como se estivesse trabalhando, porque você vai ganhar como se você estivesse trabalhando, mas você vai se afastar, porque você está gozando a licença prêmio, essas coisas todas que tinha”. Parece que agora não tem mais: “E assim, você vai se desenvolver fora do Estado, da Procuradoria”. E lá fui eu trabalhar com o Renato Italianetti, que era o advogado chefe do Grupo Votorantim e aqui estamos nós.



P/2 – E aí entrou no Grupo Votorantim. Qual foi a sua impressão quando entrou?



R – Ótima. Porque eu trabalhava com os humildes. A Procuradoria Judiciária é um trabalho extremamente nobre. A Procuradoria de Assistência Judiciária é um trabalho extremamente nobre. A pessoa é despejada, não tem jeito de… Então, ela vai lá na Procuradoria que lhe arranja um advogado que podia ser eu, podia ser outro…



P/2 – Ah, dentro da Votorantim?



R – Não, estou falando na Procuradoria Judiciária, onde eu estava. Agora, na Votorantim já foi diferente. Ele disse: “O Renato está querendo um alguém como você, vai lá”. E eu fui. Fui porque eu tinha dois anos para gozar sem trabalhar. Acabei de contar para você que eu fiquei esse tempão todo e eu não tirei férias. Porque como eu ia tirar férias, se eu tinha que ir para a faculdade? Esse já era uma pergunta, né. Bom, e com isso eu fiquei fora um ano, ganhando o meu ordenado, porque era da lei. Não, hoje não pode mais. Não, hoje não pode. Hoje o cara prescreve o Direito. Naquela época, a prescrição era de cinco anos e para passar cinco anos… Então, eu realmente recebi como se estivesse trabalhando, mas estava gozando minhas licenças prêmios. E com isso trabalhei lá na Votorantim e quando uma bela hora chegou o rapaz para me pagar, no fim do mês e me deu 16 contos. Eu falei: “Túlio, você está errado! Eu não fui contratado por 16 contos, eu fui contratado por 12 contos”. Ele virou-se para mim e ficou rindo: “Ué, o que você está rindo, seu Túlio?” “É que eu recebi uma ordem há quatro dias, do doutor Moraes, que era para efetivar você. Então, além de você receber esse dinheiro, traga a sua carteira para ser anotada aqui a sua admissão”. É assim que eu entrei para o Grupo Votorantim. Agora, eu não te disse que Deus sempre me ajudou? Não te falei no início? Confia que ele, ele te atende. Ele te atende. E, estamos aí. Estamos, com isso eu cheguei a 73 anos. E com 73 anos eu tive que me afastar.



P/2 – Como aposentado.



R – Como aposentado.



P/2 – Mas, conta para nós como é que foi a sua primeira impressão na Votorantim?



R – Magnífica! Mas veja só: o meu colega de sala chamava-se José Calmon de Souza Teixeira, sujeito extraordinário. O outro, chamava-se Paulo Pimentel, tão extraordinário que saiu dali para ser governador no Paraná. Era uma turma magnífica, que conhecia Direito brincando. O outro era um gordão que ficava assim na máquina e virava para mim e dizia: “Arthur, fica do meu lado para aprender. Viu? Porque eu vou embora daqui, estou cansado de escrever a mesma coisa”. Nuno dos Santos Barcelos. Infelizmente, ele teve que pedir para sair, ele devia saber que estava doente e ele teve uma doença grave e faleceu. Mas ele me ensinou muito. Quer dizer, se eu te conto que eu tinha colegas na Votorantim que me ensinavam… Bom, tinha um outro extraordinário, que esse era o advogado doutor Paulo. O doutor Paulo era o… O doutor Moraes uma coisa que queria era com ele, né. 



P/2 – Doutor Paulo do que, o senhor se lembra?



R – É, eu estou querendo me lembrar, daqui a pouco eu me lembro. Ele, ele ensinava a gente: “Não vai por esse caminho. Entra com esse. Esse aqui é mais próprio. Você vai levar uma paulada na primeira instância, mas você vai ganhar tranquilamente na segunda instância”. Quer dizer, é difícil você encontrar um colega que já é um senhor e te ensina assim, te dá muita confiança.



P/2 – Com certeza.



R – Você sabe quantos casos eu perdi, como advogado? Um. Um. Sabe, fazendo advocacia de graça para um dos meus chefes, perdi. Perdi, porque ele fez um acordo, era um despejo e ele acabou fazendo um acordo que eu fui com a contestação, aquela coisa toda e, ele já tinha feito o acordo. Então, eu considerei ter perdido essa ação. Mas tudo isso passou. Depois se acertou.



P/2 – Que casos é que pintavam lá, durante o trabalho, na Votorantim?



R – Ali era um… Os casos na Votorantim eram uns casos gozados, não é. Tinha, por exemplo, uma multa, porque a municipalidade dia que a Votorantim sujava o rio e mandou parar, esse é um caso gozado, mandou que as unidades parassem. Eu fui chamado de madrugada, tocou o telefone, lá peguei eu meu móvel e fui para lá e olhei assim do lado da ponte. Você conhece Sorocaba?



P/1 – Conheço.



R – Tem um rio, você atravessa, do outro lado já tem o trem e essa coisa toda. E eu ficava vendo que vinha cocô. Ah, pomba! Que fábrica é essa? Ela fabrica cocô?



P/1 – (Risos).



P/2 – (Risos). Que fábrica era essa?



R – Era uma fábrica lá. A outra? A nossa? Não, a nossa era uma fábrica que fazia papel.



P/2 – Tá. Era a Votocel?



R – Aham!



P/2 – Era a Votocel?



R – Vá tomar banho.



P/2 – Acertei.



R – É mesmo. Era uma unidade da Votocel. Era aquela que o Matias dirigia. O Matias. Você conheceu ele? Você sabe da Votocel, deve ter conhecido o Matias. Você não conheceu. O Matias é que dirigia aquela fábrica. Conclusão, eu vi aquilo: Mas vá ter empregado, fazendo tanto cocô! Não era. Aquele cocô que saia dali era da cidade e a prefeitura em vez, isto fazem 40 anos, ela em vez de pegar aquilo, já naquela ocasião podiam tratar aquilo, ela resolveu tirar o corpo e dizer que era uma das unidades do nosso grupo que estava fazendo isso. Aí, eu não tive dúvida. Sai de lá, peguei um fotógrafo, mandei o fotógrafo tirar um monte de fotografias, e ele tirou. E aqueles que saíam não era da nossa fábrica, nossa fábrica era para lá, era para outro lado completamente diferente. Eu não criei escândalo. Eu apenas contei para o pessoal nosso, daquela ocasião, e eles disseram: “Não, Arthur, faça o que você tem que fazer. Você tem esses elementos, toca para frente.” Eu não tive dúvida, fui ao prefeito, né. E fui ao secretário que tinha mandado paralisar a fábrica e falei: “O problema é de vocês. Eu tenho isso aqui e vou para os jornais e estou com a petição pronta para embargar o que os senhores estão fazendo.” Isso que eu estou te contando, vai uns 30 anos, meu Deus do céu! Ele olhou e disse: “É o grande mal da cidade. É, um grande mal.” Aí chamou um senhor: “Recolhe todas essas intimações, porque quem devia não jogar era a cidade e não dizer que não foi.” A coisa era gozada. As únicas fábricas que faziam o tratamento do cocô eram fábricas do grupo Votorantim. E era mesmo. Até aquela estrada de ferro que era nossa, diziam que era de lá. Não. Então, isso que você queria que eu contasse, um caso gozado? Esse foi. E por quê? Porque você para atravessar aquela bendita ponte para o outro lado, você tinha que ficar na fila. Naquela época, tinha guarda civil. E era um guarda civil que abria e fechava o sinaleiro e eu sempre era o cara que ficava lá atrás olhando até abrir o sinaleiro. E é por isso que para ver o tal do sinaleiro, eu via que daquele lugar ali, vinha aquele detrito e do outro também. Então, quando aconteceu o negócio, peguei um fotógrafo, e foi pim, pim, pim, pim, tira aí, põe aí, olha esse negócio todo e, imediatamente, eu fui lá na parte da saúde e imediatamente: "Não, isso aqui é erro da fiscalização que não quis pedir para nós arrumarmos a situação." Parece que é fácil. Tem que fazer uma caixa que decanta. O cara lá explicou. No fim eles arrumaram, mas veio uma intimação para parar tudo.



P/2 – Tem mais casos assim interessantes?



R – Não, eu só tive esse. Dessa coisa? Do cocô jogar no rio?



P/2 – Não, não. Casos _______



R – Espera aí! Não vai me fazer nadar no… (risos).



P/1 – (Risos).



P/2 – Mas casos marcantes, assim, porque advogado sempre tem um monte de casos para contar, né?



R – Não, eu só… Veja bem, um advogado, ele tem o sigilo profissional. Você não ouvirá nada em que eu vou passar o sigilo profissional, mas esses que são divertidos, esse que eu te contei agora, o do cocô, esse eu posso falar porque é o tipo da piada e não era.



P/1 – Vai continuar?



R – Acabou?



P/2 – Não.



R – Muito prazer. Marina, não é?



P/1 – Não.



P/2 – Você está com pressa de ir embora?



R – Não. É que você disse que era para esperar meia hora. Foi o que você falou. E o cara vai embora. E eu moro longe.



P/1 – Mas aí, deixa eu falar.



R – Vai, qual é o problema.



P/1 – Aí, como é que foi a sua trajetória dentro do grupo Votorantim? O senhor entrou, vai trabalhar no escritório…



R – Eu trabalhei no escritório, começaram a mandar para mim os casos conforme… Por exemplo, o Paulo Pimentel resolveu casar com a filha do Lunardelli e abriu um buraco lá, não que viesse outro, eu tive que pegar mais serviço; então o Paulinho casou e saiu. Casou e entrou para a política, foi ser governador do Paraná e nunca mais se viu o Paulinho. Zezé, por sua vez, a família dele era de banqueiro e deram-lhe a diretoria e a presidência de um banco. Chegou uma hora que estava lá na sala eu e o Nuno. Aí nós nos acertamos.



P/2 – O seu departamento jurídico atendia a que setores?



R – Todos.



P/2 – Todos? Da Votorantim?



R – Todos. Sim, senhor. Sim, senhora, desculpe. Um belo dia eles resolveram criar um departamento jurídico só na Companhia Nitro Química Brasileira.



P/2 – Até que época atendeu a todos?



R – Olha, foi muito tempo! Acho que nem anotei naquele papel que eu fiz, porque isso aí é de somenos importância, porque é uma ordem de cima dizendo: “Eu quero que crie em São Miguel Paulista um corpo jurídico, que está tendo problemas que nós não queremos nem que se criem.” A única pessoal que vinha falar, assim tranquilamente, era o velho José Ermírio.



P/2 – O senhor tinha um relacionamento com ele? Pessoal e profissional?



R – Com o doutor José Ermírio de Moraes? Só um. Toda vez que eu entrava ele tirava o relógio, olhava o relógio e guardava o relógio (risos).



P/1 – (Risos).



R – E eu não sabia quem era esse homem.



P/2 – (Risos).



P/1 – E como é que o senhor descobriu?



R – E um dia entrou uma pessoa e conversando comigo, conversando com o Zezé, eu disse: “Quem é aquele gordo ali que toda vez que me olha, ele pega o relógio e olha?” (Risos). Ele virou-se para mim e deu uma risada, disse: “É o pai dele.” Era o pai do doutor Antônio, que era o José Ermírio de Moraes, o velho. Esse é um caso gozado, né?



P/2 – Nossa! Esse é riquíssimo. 



R – Aham!



P/2 – Muito rico.



R – É gozado, né? É o pai dele, é o pai dele e o Antônio (risos).



P/1 – (Risos).



P/2 – (Risos).



R – E realmente ele olhava, sim. Eu não estava fora da hora, eu estava antes da hora, porque a minha mulher, nessa ocasião, ela é engenheira e era diretora, naquela ocasião, do DR na parte de solo. Então, ela me deixava ali antes das oito. Na realidade, ela me deixava lá às sete e vinte, e sete e vinte o doutor Moraes já estava lá.



P/2 – Lá, onde?



R – Lá na rua… Tem o nome de um árabe…



P/2 – Riskallah



R – Riskallah Jorge? Acho que era Riskallah Jorge. Não.

 

 

P2 — Isso, isso.



R – Acho que era Riskallah Jorge. Aqui era a Riskallah Jorge e aqui a Prestes Maia. Ele saiu do elevador: “Quem é esse senhor que toda vez que eu entro no elevador ele pega o relógio e olha para mim?” e “É o pai dele.” Era o doutor Antônio, e quá, ri. Fiquei arrependido depois. E com isso eu fiquei, fizemos uma amizade, né.



P/1 – E como era o seu relacionamento…



R – Acabou, né?



P/1 – Não.



P/2 – Espera. O senhor criou uma amizade com quem? Com o doutor Antônio?



R – Com todos. Eu fiquei amigo de todos. É difícil não ser meu amigo, porque eu brinco muito.



P/2 – Desculpe. Dá para perceber. O senhor é uma pessoa muito legal, brilhante.



P/1 – E como é que você conheceu o doutor Antônio?



R – O doutor Antônio Ermírio de Moraes?



P/1 – Isso. O doutor José?



R – Foi a primeira vez que eu tive contato com ele foi nessa aí que aconteceu com o pai dele.



P/1 – Ah, sim.



R – Foi a primeira vez.



P/1 – E a partir daí houve toda uma…



R – Ah, aí você sabe, a gente fica trabalhando e chama um, um tem um negócio e quer que você veja e acabou.



P/1 – Aí o senhor vai para a Nitro Química e como foi para o senhor sair desse cotidiano que o senhor trabalhava com todas as empresas e assumir o Departamento Jurídico da Nitro Química?



R – Acontece o seguinte: a Nitro Química é um mundo diferente. Ela tinha o seu Departamento de Águas, o Departamento de Tratamento de Águas, o Departamento de Despejo de Águas, aqui ela fazia e faz nitrofluor, aqui ela faz A, B, C, D. Então, a Nitro Química em si, ela é uma cidade. Quando eu entrei, ela tinha nove mil e tanto operários. Depois ela foi melhorando as técnicas, melhorando as máquinas e reduziu-se, mesmo porque os operários ficavam velhos e queriam ir embora. Os empregados que sabiam, queriam ir embora. E você tinha dificuldade de formar outros. Então, o que eu fiz? Eu fiz que toda a molecada estudasse no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] e aprendesse. A Nitro montou, olha, ela tinha uma escolinha do Senai, oh, extraordinária. E a primeira obrigação do aluno do Senai era aprender a fazer sua caixa para ter todas as ferramentas. Mas aí, onde é que eu vou ter as ferramentas? Você vai fazer a sua ferramenta. Não quero saber de história, se você não quer, você vai para outro lugar. E assim se desenvolveu. Tivemos, enquanto eu estive lá, também não tenho mais nada que pôr, eu saí de lá, mas ficaram ótimos profissionais, esses do Senai. Nesse tipo dessa brincadeira, você faça sua caixa, faça sua ferramenta, você tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. Eles tinham um chefe. Só que eu tinha que dizer: “Vá lá que o cara está batendo papo. Isso aqui é para trabalhar. O cara está na privada.” Por que ele está na privada? Porque a turma foge. Ninguém vai achar ruim o cara estar na privada. Tá lá o camarada. Espera aí! Deu tudo problema e, olha, ficaram e são ótimos profissionais, esses todos que estudaram no Senai da Nitro Química. Pelo menos da última vez que eu passei por lá estava tudo funcionando direitinho.



P/1 – Aí o senhor permaneceu na Nitro Química até se aposentar ou o senhor… ?



R – Até me aposentar, sim, senhor. Meu último dia de trabalho na Nitro Química, eu não sei qual foi, mas vou te dar. Está escrito aqui. Está escrito aqui. A onde eu não sei.



P/1 –Tudo bem. Se o senhor não sabe…



R – Não, mas eu queria te dar. Você fez uma pergunta e merece uma resposta. (Pausa). Meu último dia de trabalho foi 10 de dezembro de 1996. Meu primeiro dia de trabalho foi 6 de janeiro de 1956. 

 

 

P/1 – E nesses anos todos de Votorantim… ?

 

R – Ah! Foi uma delícia. Eu trabalhei que nem um doido. Não tinha nada de esperar. Uma maravilha. Graças ao bom Deus tudo deu certo.

 

P/1 – E quais são os valores, assim, que o senhor conquistou na Votorantim que o senhor acabou levando para a sua vida?

 

R – Puxa! Nunca pensei! Nunca pensei porque eu vou te dar, mas você vai dizer isso é utópico. Você entrou no meu círculo de admiração, porque eu gostei de suas perguntas. Então, saber o que você vai me pedir é um valor respeitabilíssimo. Ela também. Ela está quietinha, você precisa ver que eu leio a mente dela. Eu não deixo ela fazer a pergunta, porque se ela fizer a pergunta eu me embaralho. Então, eu levo ela no tapa. Qual é a outra pergunta? Já passou?

 

P/1 – Já. A gente já está se encaminhando. E se o senhor fosse fazer um balanço desses anos todos que o senhor ficou no grupo Votorantim, o que o senhor diria?

 

R – Eu aprendi muito. Eu não dei só. Eu também aprendi muito. Eu aprendi uma coisa muito interessante. É extremamente vida isso que eu vou contar: Arthur, você está passando dos 70 anos, você merece um descanso e uma reparação a todo esse trabalho. Eu sei que você trabalha, está trabalhando e quer continuar trabalhando, mas não deve ser assim, que um dia vai dar um problema qualquer e você tem toda razão. Eu agi mal? Agi certo. Foi mais um serviço que eu prestei ao grupo não ficando lá um velho. Não ficando um santo de altar que tem aquela barba branca comprida olhando para baixo e não consegue fazer xixi. Certo?

 

P/1 – Doutor Arthur, o que o senhor faz atualmente?

 

R – Escrevo, com outros nomes. Leio, encho a paciência da coitada da Lilinha, minha mulher.

 

P/2 – Mas o senhor escreve o que, desculpe, que tipo de… ?

 

R – O que me passa pela cabeça. Não vê nada em meu nome.

 

P/2 – Artigos, livros ou… ?

 

R – Não vê nada em meu nome. Eu escrevo porque eu gosto de passar a ideia que eu tenho para o papel, tá?

 

P/1 – É sempre assim?

 

R – Proibido outra pergunta. Qual o nome, com que nome, aonde. Proibido. Em alemão, (fer potali?) Ele sabe o que é (fer potale?)

 

P/1 – (Risos).

 

P/2 – Eu também.



R – Ia.



P/2 – Pelo menos pelo contexto, eu tenho que saber.



P/2 – E hoje qual é o seu maior sonho?



R – O meu maior sonho? Estar aqui com vocês batendo papo. Agradável, né. Pensei que eu viesse aqui para trabalhar.



P/2 – Para sofrer, né?



R – Não. É papo, papo agradável.



P/1 – E o que o senhor acha de, por exemplo, aos 85 anos o grupo Votorantim organizou este projeto de recuperação da memória?



R – É tão importante que eu estou aqui. Podia dizer não, não quero ir. Eu cozinhei para não vir até que você mandou uma carta, que eu fiquei envergonhado de dizer não a esta carta. Ela está aqui: “FAX para Arthur Pucciariello. Sou Marina D’Andrea, jornalista do Museu da Pessoa, contratada da Votorantim para levantar a história do grupo.” Acredito que foi você que mandou e que disse que era meu conselho para atender, você não é a Marina? Seu telefone não é 38855887?



P/2 – Sou eu.



R – Sabe que nós moramos no mesmo prédio? Sabe que o meu telefone é 3885 (risos)?



P/2 – Eu sei que nós estamos pertinho.



R – 5464 que coisa (risos)! E está isso aí. Está a resposta. Foi dada.



P/1 – E o que o senhor achou de ter participado deste depoimento?



R – Ah, nunca falei tanto na minha vida e nunca ninguém me falou… Minha mulher já tinha dito: “Fica quieto, Arthur, já não aguento mais ouvir você.” Com essa conversa você me levou para o altar: “Fica quieto que nós vamos fazer cinquenta anos daqui a alguns dias.”



P/1 – Você tocou num ponto, é só uma curiosidade. Como foi que você conheceu sua esposa, que você falou nela durante toda a entrevista? 



R – Brigando com a irmã dela.



P/1 – Como assim?



R – Briguei com a irmã dela, ela veio defender a irmã, eu falei: “Você fica quieta, baixinha.” (Risos).



P/1 – Mas você estava brigando com a irmã dela por quê? Era briga de trabalho?



R – Nem eu, nem a irmã dela sabemos porque estávamos brigando. Ah! Já me lembro. Ela estava com um chapéu verde, desse tamanho, e então, lá em Santos eu disse para ela: “Você usa um chapéu com uma aba desse tamanho para se esconder? Se esconder de que? Qual foi o crime que você cometeu?” Ela respondeu: “Conhecer você.” Oh! Oh! Oh! (Risos).



P/1 – (Risos).



R – Aí veio a minha esposa, batemos um papo: “Não, a minha irmã é mesmo assim.” E hoje vou levar ela para ver o…



P/2 – É a mesma.



P/1 – É a cunhada (risos). 



R – Vou levar. É a tal que vai de vermelho e fez a minha mulher mudar a roupa. Tirar o vermelho e pôr o preto.



P/1 – Doutor Arthur, estamos chegando ao fim dessa entrevista, eu quero agradecer, em nome do grupo Votorantim, pela sua presença, em nome do Instituto Museu da Pessoa…



R – Não, disponha.



P/1 – E em nome da nossa equipe.



R – Um dia quando você tiver um trabalho desse Instituto manda para mim.



P/1 – Claro.



R – Eu… Pode mandar, eu leio e devolvo. Eu tenho raiva de guardar o livro dos outros. Menos um do (Flávio Ravalho?) que eu escondi dele até hoje. Muito bem feito.



P/1 – Ele já veio dar entrevista aqui.



R – Ele já fez. Ele te contou que ele fez um Memorial para o início do desenvolvimento de uma história a respeito da Nitro Química?



P/1 – Hum, hum. Ele me falou de um livro, que ele começou a escrever…



R – Estou te falando isso agora, porque você falou que ele já esteve aqui. Você esteve com o melhor homem que eu já conheci em matéria de trabalho, de honradez e de palavra. E, olha! Posso falar, tranquilamente, com você porque desde que eu saí da empresa, nunca mais falei com ele, quer dizer, estou dando um juízo de valor. Nunca mais! Então, vem um e diz: "Ah, você falou com o Fábio?" Eu não, deixa ele lá. Deixa ele lá que ele tem problemas, que eu sei que ele tem problemas com a esposa que ficou doente. Deixa ele em paz, porque eu só vou encher a paciência. Eu não vou procurá-lo, que é para ele ter a paz. E ele também não me procura para que eu tenha a paz, mas hoje eu li um trabalho do Fábio. Muito bonito. Muito bonito. Se chama: Um memorial para o ingresso e desenvolvimento da história da Companhia Nitro Química Brasileira. Tem esse pequeno título, mas o trabalho é dele. Ainda hoje. Peguei, abri, que beleza de trabalho. O Fábio já fez aqui?



P/1 – Fez.



R – Você o entrevistou? 



P/1 – Eu entrevistei.



R – Gostou?



P/1 – Gostei.



R – Você gostou das respostas dele? Precisas, né?



P/1 – Precisas. Precisas, um homem…



R –  Bacana, né?



P/1 – Bacana.



R – É mesmo.



P/1 – Muito obrigado pela sua presença.



P/2 – Muito obrigado. Cuidado, cuidado com o microfone.



R – Eu ia dizer Auf Wiedersehen!



P/2 – Não, mas tudo bem é que o senhor está preso…



R – Sei, pode tirar.



P/2 – No microfone.



R – Eu posso ir embora?



P/1 – Pode.



R – Não precisa dizer até logo para ninguém?




--- FIM DA ENTREVISTA ---

 

Dúvidas

 

La marrecage. La marrecage or dui

Ele era deputado

Fer potali

Fer potale

Flávio Ravalho

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