Busca avançada



Criar

História

O São Paulino da Garoa

História de: Manoel Raymundo Paes Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/10/2013

Sinopse

Manoel Raymundo Paes de Almeida tornou-se são-paulino depois de assisti a um jogo da equipe na Chacará da Floresta. Apresenta a "São Paulo da Garoa" e todo o crescimento do SPFC, partindo dos tempos do São Paulo da Floresta, fazendo parte da primeira torcida organizada do São Paulo, a TUSP, até a construção do Morumbi. Deixa subtendido que a construção do estádio não foi apoiada por todos os torcedores na época, que preferiam o dinheiro aplicado em jogares como Pelé.

Sobre a construção e inauguração do Morumbi relembra de Laudo Natel a uma visita do presidente Médici ao estádio.

Tags

História completa

P- Bom. Sr. Manoel gostaríamos de começar esta entrevista pedindo que o senhor nos diga o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R- Manoel Raymundo Paes de Almeida, nascido em Uberaba, no Triângulo Mineiro, em Minas Gerais, em onze de novembro de 1921.

 

P- E os seus pais, o nome deles, por favor.

 

R- Fausto Paes de Almeida e Helena Menezes de Almeida.

 

P- Eles eram mineiros também? Nascidos em Minas?

 

R- Também. Meu pai de Estrela do Sul, terra do diamante. E minha mãe de Uberaba.

 

P- E qual era atividade do seu pai? Profissional?

 

R- Comércio, construções. E eu continuei no mesmo ramo de meu pai.

 

P- E sobre os seus avós? O senhor tem alguma memória deles? Também viviam na mesma cidade?

 

R- O meu avô materno, Manoel Raymundo de Melo Menezes, faleceu minha mãe tinha quatro anos, então eu não o conheci. Ele era médico. A minha avó por parte... Meu avô por parte de pai também eu não conheci. Minha avó eu tenho a lembrança. Ela faleceu em 1930, eu tinha oito, nove anos, eu lembro. E a minha avó por parte de mãe, também eu lembro. A recordação é que ela gostava muito de contar histórias, lia muito. Minha avó materna. É só, meu bem.

 

P- Alguma história que a sua avó lhe contava que...

 

R- Minha avó?

 

P- Que o senhor gostaria de contar pra gente?

 

R- Eu fui educado em colégio católico apostólico romano. Os irmãos maristas. Agora a vovó era espírita, compreendeu? E ela contava histórias dos livros, romances que ela lia, né? Francisco Cândido Xavier, histórias bonitas também, espiritualistas.

 

P- Como é que era um pouco da sua infância em Uberaba? Como é que era...

 

R- A minha infância em Uberaba eu brincava com os meninos, como todo “mulecote”, futebol... Estudava também no Ginásio Arquidiocesano, dos Irmãos Maristas, jogava futebol lá com os companheiros, e minha infância foi como de todo menino, né?

 

P- O senhor tem irmãos?

 

R- Tenho um irmão e duas irmãs. Ambas casadas com médicos e meu irmão trabalha comigo, no mesmo ramo. E eu vim pra São Paulo em 30, estou talvez me adiantando, mas perto de mim morava Lauro Rios, que é engenheiro, cujos irmãos trabalhavam na sede do São Paulo. E ele me convidou pra ir num jogo do São Paulo na Chácara da Floresta, foi assim que eu fiquei são-paulino, conhecendo...

 

P- Mas na infância, o senhor torcia pra que time de futebol?

 

R- Aqui?

 

P- Não, em Uberaba.

 

R- Em Uberaba eu torcia pro Uberaba Esporte Clube, que era o time da cidade, né? Eu torcia pro Uberaba.

 

P- E o senhor jogava futebol?

 

R- Não, meu bem, eu sempre fui míope, sempre usei óculos. Mas no ginásio, com óculos e tudo a gente jogava futebol, a gente brincava, né? Mas se eu tirar o óculos eu não enxergo nada.

 

P- E o senhor tinha preferência de jogar em alguma posição?

 

R- Eu jogava de meia-direita, imagina você. (Risos)

 

P- Bom. A sua vinda pra São Paulo foi por quê? O senhor veio com a família?

 

R- Não, meu pai tinha residência aqui e em Uberaba, né? Ele resolveu trazer a família e eu fui transferido, na metade do ano, em junho, no Ginásio Arquidiocesano. Os Irmãos Maristas me aconselharam ir pro Ginásio Nossa Senhora do Carmo, onde estudava o João Brasil Vita, o prefeito Olavo Setúbal, e outras grandes figuras que passaram lá pelo Ginásio N.S. do Carmo. E eu vim, e aqui continuei os meus estudos, né?

 

P- Então morava com a família em São Paulo?

 

R- Morava. Morava com a minha mãe, meus irmãos na Rua Cardoso de Almeida.

 

P- No bairro de...

 

R- Perdizes.

 

P- Como é que é... O senhor lembra um pouco da sua impressão... O senhor veio de uma cidade menor, o senhor lembra das suas primeiras impressões ao chegar em São Paulo? Como era São Paulo na época que o senhor chegou aqui?

 

R- Numa época completamente diferente de hoje, como você pode imaginar. Época de bonde, né? Você tomava o bonde, aquelas senhoras de chapéu, de luvas tomando o bonde, tinha poucos automóveis. Teatro, você ia ao teatro, ver o Procópio Ferreira, aquelas senhoras às vezes com um chapelão na frente, você atrás não tava vendo direito. Eram os meninos vendendo jornais na rua, Diário da Noite, A Folha, subindo no bonde, pulando do bonde, compreendeu? E essa era São Paulo da garoa, né? A Rua Cardoso de Almeida, um bairro da classe média alta, vamos assim dizer, lampião a gás, compreendeu? De maneira que eu peguei essa época. E que mais que eu queria dizer... Acho que só, né. Já disse tudo desta época.

 

P- O seu pai, ele trabalhava com café?

 

R- Tinha uma torrefação de café. Torrefacão de café, Dom Bosco. Depois ele vendeu e se dedicou só ao ramo de construções.

 

P- E o senhor estudava? Trabalhava?

 

R- Terminado o ginásio, eu comecei a fazer, né, não fiz. O pré-médico, porque na época eu pretendia estudar medicina. Então o curso antes de entrar era o pré-médico. Pra advogado o pré-jurídico, e assim por diante. Eu iniciei o curso pré-médico da Escola Paulista de Medicina, depois interrompi. Conheci uma moça são-paulina, no Pacaembu, e casei-me com essa moça. Hoje sou viúvo. Quer dizer, a minha vida no São Paulo, você vê, até a minha esposa é são-paulina...

 

P- É, o curioso nos depoimentos é que o São Paulo proporcionou muitos casamentos.

 

R- É?

 

P- É. O senhor não é o primeiro. E como foi? O senhor a conheceu na torcida...

 

R- Os pais dela eram são-paulinos e levavam-na no jogo, né, e eu a conheci. No Pacaembu. E me casei. Disse quando terminar a guerra nós casamos. E de fato a guerra terminou em 1945, e eu casei em 1945. E foi por isso que eu larguei os estudos. Estudos superiores. E não me arrependo, não, porque graças a Deus fui muito feliz, tanto nos negócios quanto na família. Tenho três filhos, sou um homem feliz. Triste porque ficou faltando a companheira, né? Faleceu há seis anos.

 

P- Seu Manoel, o senhor disse que foi levado num jogo do São Paulo na Floresta, quantos anos o senhor tinha?

 

R- É. Quando eu vim de Uberaba... Eu tinha nove anos. Porque eu nasci em 21 e isso foi em 30. E logo me entusiasmei pelo São Paulo, entrei de sócio, e quem me propôs como sócio do São Paulo da Floresta... Olha aí, carteirinha, cara de menino...Em 1935, 33, é, 35. Mas eu entrei como sócio. E quem me propôs como sócio foi o grande ás do passado, Artur Friedenreich, que frequentava o Café Caipira que era...

 

P- Eu perdi o início. Como é? O senhor foi indicado...

 

R- Eu entrei como sócio do São Paulo Futebol Clube da Floresta, que é esta carteirinha de sócio... Para entrar como sócio precisava que uma figura, um sócio, ser o proponente. Meu tio tinha um café na Avenida São João, famoso na época, Café Caipira, onde reuniam os desportistas, e o Artur Friedenreich frequentava o café. Então ele assinou minha proposta como proponente e eu fui sócio do São Paulo, da Floresta. O São Paulo da Floresta terminou, se extinguiu em maio de 1935, deixou de existir e fundiu-se com o Clube de Regatas Tietê. Acabou-se o São Paulo da Floresta. Acabou-se o São Paulo dos homens ricos, na época, né? Figuras de grande projeção na sociedade. Infelizmente esse São Paulo acabou. E um grupo de “probetões”, mas de idealistas, chefiados por Monsenhor Dr. Francisco Bastos, figura de destaque no clero, Tenente Porfírio da Paz, Dr. Frederico Antonio Germano Menzen, Jaime Russo, Gumercindo Nascimento de Luca, Francisco Pereira Carneiro... Todos homens pobres, mas idealistas. E queriam ressurgir o São Paulo Futebol Clube. Então este São Paulo de hoje, esta potência, presidida com brilhantismo pelo José Eduardo Mesquita Pimenta, é um clube que teve muita sorte, que sempre teve grandes dirigentes, grandes presidentes. Todos eles. E o Pimenta é o atual presidente, o idealizador deste Memorial que vocês estão gravando, da história do São Paulo Futebol Clube. Eu acho isso é muito importante, porque muitos são-paulinos da nova geração não sabem do sacrifício dessas figuras que eu citei fizeram pelo São Paulo. Sacrificando suas famílias, compreendeu? As famílias concordando com o sacrifício porque viam que era um ideal. O São Paulo é um clube feito de amor. Esteve pra morrer muitas vezes, e o Monsenhor Bastos ia pra imprensa, o General, Tenente Porfírio na época fazia apelos, reunia as classes laboriosas, tinha figuras como lixeiro, eu lembro, profissão humilde, reduziu o leite que comprava pra família pra dar pro São Paulo Futebol Clube. Por isso que eu digo, o clube dos pobretões, mas idealistas. Lutaram, sacrificaram, e em 1938 começou a melhorar porque houve a fusão com o Clube Atlético Estudantes de São Paulo. E nesse ano mesmo o São Paulo quase conquistou o campeonato.

 

P- Foi vice, né?

 

R- Foi vice.

 

P- O senhor assistiu esse jogo?

 

R- Eu fui nesse jogo. Foi num domingo, uma chuva torrencial, e o Mendes marcou um gol do São Paulo, o primeiro gol. E se o São Paulo fosse o vitorioso, teria sido campeão. A partida foi interrompida por causa da chuva e continuaria na terça-feira. Eu fui na terça-feira, cabulei a aula, cabular é faltar à aula, não sei se vocês conhecem essa expressão, cabular. E eu fui ao Parque São Jorge assistir o jogo. Infelizmente um jogador do Corinthians, o Carlito, marcou um gol com a mão, o juiz deu e houve um empate de um a um e com isso o São Paulo foi vice-campeão.

 

P- Carlito, o "mãozinha de ouro".

 

R- É, ficou famoso. Mas futebol é isso mesmo.

 

P- O Senhor... Do São Paulo antigo da Floresta. O senhor viu os primeiros jogos? O senhor lembra da primeira partida ou de um jogo memorável dessa época?

 

R- Lembro. Eu lembro de algumas partidas. Eu assistia todas as partidas. Eu ia...

 

P- O senhor se lembra de um placar, algum jogo que marcou...

 

R- É, tinha o placar, ficava atrás do gol do lado direito... Da Record, a Rádio Record de São Paulo, a maior... Tinha lá o placar, e eu ia aos jogos, lembro do famoso jogo do São Paulo em 31, que ganhou de quatro a zero da Sociedade Esportiva Palestra Itália, hoje a Sociedade Esportiva Palmeiras. Interessante. Em 31, o São Paulo ganhou do Palestra Itália de quatro a zero. O Armandinho fez três gols. Em março de 38, o São Paulo ganhou do Palmeiras de seis a zero. O Armandinho fez três gols. Coincidência, o mesmo jogador, o mesmo atleta, né? Foram as duas maiores derrotas que o Palmeiras sofreu do São Paulo. E esse jogador, Armando do Santos, tanto em 1931 quanto em 1938, já era veterano, marcou três gols. Eu lembro de diversas partidas do São Paulo, tocava sirene, a torcida, né, gritos de guerra. Eu sempre acompanhei...

 

P- Como eram esses gritos de guerra?

 

R- Ein?

 

P- Como é que eram os gritos de guerra?

 

R- Tinha um grito de guerra “Uaiqui Paiqui, Xaiqui Uaiqui, uaiqui paiqui, xaiqui uaiqui, xengô, xengô, ha, ha, ha, São Paulo...” Outro: “Arakan balanbacan, stuverê, stuverá, ma-cam-bê, bê cambecá, rico-reco,rico-rá, há, há, ha, São Paulo, São Paulo...” Aquela turma toda gritando, né? Havia a chamada dos jogadores, quando estavam perfilados para dar o início da partida, então... Aliás ainda é vivo, está velhinho, o João Iaia, tinha uma voz muito boa, ele gritava, por exemplo, vamos dizer... Em 43, o Poy era o goleiro quando o São Paulo foi campeão, Poy! E a torcida toda “Ha!” Fazia chamada. E aí, depois da chamada o juiz dava início da partida, era interessante. E eu comecei também, com outros moços, né, a organizar a primeira torcida uniformizada. A minha carreira, vamos dizer, no São Paulo Futebol Clube, fui eu que organizei com outros companheiros, o atual presidente do Conselho Consultivo, Carlos Ferraz, o Paulo Machado de Carvalho Filho, filho do Dr. Paulo de Carvalho, o, Ruy Mesquita, do Estadão, José Vieira de Carvalho Mesquita, o Juca, falecido, uma figura extraordinária, o Luiz Vieira de Carvalho Mesquita, todos esses moços faziam parte da torcida uniformizada do São Paulo. E nós organizávamos... Tinha o ateliê do Sílvio de Paula Ramos, alegorias para apresentar na partida, eram verdadeiros espetáculos que nós proporcionávamos. Muita gente ia ao futebol pra ver o espetáculo da torcida do São Paulo.

 

P- Que alegorias?

 

R- Diversas. Por exemplo, a bandeira das Nações Unidas, a bandeira do Brasil, o Cristo Redentor com o V da vitória... Isso na época da guerra, né. Fomos convidados até pra ir pro Rio, mas não tinha o Maracanã. Então as nossas alegorias não cabiam no estádio do Fluminense Futebol Clube, nas Laranjeiras.

 

P- Seu Manoel, é creditado então ao senhor, a esse grupo de pessoas, a criação da TUSP, que é a primeira torcida uniformizada do Brasil, não é?

 

R- É.

 

P- Por que essa idéia de existir uma torcida uniformizadas...

 

R- A minha idéia foi vendo revistas universitárias e os espetáculos que os americanos através das revistas davam, fazendo alegorias como figura... O mastro das bandeiras, você vira daqui e dali, forma uma imagem, né. E nós todos éramos fanáticos pelo São Paulo, idealistas, e nos reuníamos separados no estádio... De 40, né, o Estádio do Pacaembu, com cordinha, lugar reservado pra nossa torcida, porque precisava de espaço, né. Depois o Corinthians também proporcionou espetáculos bonitos...

 

P- Tinham meninas na torcida?

 

R- Ein?

 

P- Tinham meninas na torcida?

 

R- Não. Iam meninas, moças, mas na torcida uniformizada não. Eram só rapazes...

 

P- Vocês é que criavam as alegorias, mandavam fazer...

 

R- É... Mandava no ateliê do Sílvio, Sílvio de Paula Ramos, lembro-me como se fosse hoje, em frente ao Teatro Santana. Hoje não existe mais o teatro Santana.

 

P- Quantos vocês eram?

 

R- Ah, devíamos fazer um bloco de uns 300. E quem comandava eram esses elementos que eu citei.

 

P- A TUSP começa em que ano?

 

R- Bom, o estádio do Pacaembu foi inaugurado em 40, né? Ela começa mais ou menos nessa época. Porque na Rua da Moóca também nós tínhamos torcida, mas era pequenininha... Era pequeno o campo da Antárctica Paulista, onde o São Paulo, quando fez a fusão com os Estudantes, mandava os seus jogos. Era um campo pequeno da Rua da Moóca. Depois que inaugurou o Pacaembu o São Paulo conseguiu junto à prefeitura, foi difícil, lutaram muito pra conseguir, que os jogos do São Paulo fossem de mando lá no Pacaembu. E até treino, coisa que hoje é impossível. O São Paulo treinava no Pacaembu.

 

P- O senhor esteve presente na inauguração do Pacaembu?

 

R- Estive. Eu estive presente e vou te dizer mais, eu desfilei com o bloco da torcida uniformizada. Na frente foi a equipe de futebol profissional e a torcida uniformizada, um bloco pequeno, né, desfilando. Então quando eu entrei, nós adentramos ao estádio do Pacaembu e aquela multidão toda aclamando o São Paulo, a bandeira do São Paulo que tinha as cores da bandeira paulista, e na tribuna de honra o Dr. Adhemar de Barros, que era o governador, ou interventor, não lembro, se era o interventor ou governador. Mas não importa. Mas ao lado dele o presidente da República, o Dr. Getúlio Vargas. Então foi o clube mais ovacionado, mais aplaudido. E o Dr. Getúlio Vargas perguntou ao Dr. Adhemar de Barros: "Qual o nome desse clube?" E o Dr. Adhemar disse "é o São Paulo futebol Clube, é o mais querido da cidade". Daí o "clube mais querido da cidade". Agora, é verdade, o São Paulo tem uma grande torcida, mas é verdade também... Eu tenho essa impressão, que foi uma reação dos paulistas todos, que ainda tinham aquela mágoa do Dr. Getúlio Vargas, a Revolução de 32, isso tudo provocou, acredito. Mas foi bom pra nós porque logo depois foi confirmado, através de um concurso, que o São Paulo era o mais querido da cidade mesmo.

 

P- E quer dizer então que quando inaugura o Pacaembu fica o grande palco pra manifestação das torcidas.

 

R- Das torcidas maiores.

 

P- E a TUSP cresceu.

 

R- Cresceu. Mas era uma equipe... Não quero desfazer de torcidas uniformizadas, de uma maneira geral, hoje, eram mais disciplinados. Quer dizer, você podia ir pro campo tranquilamente, não saíam brigas nem nada. De maneira que era um tempo bom. Hoje há muita briga, muita violência nas torcidas, mesmo uniformizadas. Isso não havia naquele tempo.

 

P- Como é que era feita a concentração antes dos jogos: a torcida levava a sua camisa...

 

R- Cada um levava sua camisa, compreendeu? E vou te dizer mais; ele não se ofende, mas ele até conta, por isso vou revelar: O Otto Aires de Abreu que foi juiz de futebol, hoje ele é conselheiro do São Paulo. Ele carregava o saco, um saco grande, onde punha as camisas todas depois do jogo. Eram camisas grossas, naquele tempo, de maneira que com o calor era uma coisa horrível, mas todo mundo usava. E cada um levava pra sua casa. E alguns não levavam então o Otto levava. Ele conta até hoje. Então ele fazia parte da torcida. Mas aí começou cada vez mais, e eu naturalmente acompanhando a vida do São Paulo, que eu sempre acompanhei com muito entusiasmo, era muito amigo daqueles fundadores do clube... Porque eu tinha 14 anos quando esse São Paulo surgiu. E eu, sócio, acompanhei a vida do São Paulo sempre com muito entusiasmo, e com a guerra o Tenente Porfírio da Paz foi promovido a capitão, e o Exército o mandou pro Rio Grande do Norte. Ele era o Diretor Social do São Paulo. Então eu o substituí, ou por outra, eu ocupei o posto, porque ele era insubstituível. Ele depois voltou. E eu fui Diretor Social do São Paulo durante muito tempo, e o clube sempre lutou com muita dificuldade no seu início, então precisava de receitas aleatórias para ajudar o clube. Então eu organizei, com o professor Walter Costa, que foi jogador do São Paulo. Foi um homem diferenciado, professor inteligente. Organizamos a primeira quermesse, festas juninas do São Paulo, com parque de diversões, pedíamos prendas aos conselheiros, homenageávamos os clubes. E isso dava pra... Os parques de diversões tinham os jogos, jogos até proibidos, entre aspas. Permitidos porque eram de parque de diversões, e o São Paulo com isso ganhou um dinheiro que ajudava as suas despesas. Era a época ainda do clube do...

 

P- De que época o senhor está falando?

 

R- Estou falando, meu bem, de 1947, 48. Já no Canindé. O presidente do São Paulo, quando o São Paulo adquiriu o Canindé... Foi adquirido, foi comprado. Muita gente fala que o São Paulo, na guerra, tomou conta daquele clube que pertencia aos alemães. Não foi bem assim não. A área toda pertencia ao Senhor Vanucci, que vendeu ao São Paulo Futebol Clube. E o Dr. Décio Pedroso era o presidente. Lançou nessa época, ele queria construir o estádio, lançou nessa época o título de sócio proprietário... Eu acho que eu trouxe. Aqui, ó, carteirinha vermelha. De maneira que eu sempre acompanhei a vida do clube.

 

P- Essas quermesses eram feitas ali no gramado mesmo?

 

R- No Canindé. Tinha uma área boa, viu? Nós fizemos um galpão, e nesse galpão colocamos mesas, tinha churrascaria, me lembro até hoje do churraqueiro, chamava-se Godofredo, compreendeu? E tinha um palanque onde tinha leiloeiro, que era até o conselheiro do São Paulo, Jorge Anchit, e fazia leilões de prendas que eram oferecidas.

 

P- Isso era uma forma de arrecadação de verbas pro clube?

 

R- De arrecadação pro clube. Porque nós todos sempre trabalhamos pro São Paulo com aquele entusiasmo, como se fosse pra nós. Sabíamos que o clube precisava, né? Se não fosse essa dedicação, não minha, dessas figuras que eu salientei, talvez o São Paulo não tivesse hoje o que tem. E depois, grandes dirigentes, grandes presidentes, sempre continuaram aquilo... E o Cícero, por exemplo, pra citar um presidente só... Porque o São Paulo teve a felicidade de ter grandes presidentes, mas o Cícero Pompeu de Toledo teve a coragem de iniciar a construção desse estádio monumental que vocês todos conhecem, que é o Estádio Cícero Pompeu de Toledo. Um homem de uma fibra extraordinária e de uma coragem fantástica. Porque sem nada, nada, ele teve a coragem de iniciar a construção do estádio vendendo cadeiras cativas. Quer dizer, os desportistas de todos os clubes, não só o são-paulino, acreditavam nos homens que dirigiam o São Paulo, e por isso compravam cadeiras cativas. E a Antárctica teve, foi o primeiro dinheiro que o São Paulo recebeu. Sem fazer nada a Antárctica acreditou no São Paulo. E fez um contrato de publicidade pra cinco anos, imagina, quando inaugurasse o estádio. Dando adiantado cinco milhões de cruzeiros, que foi o início da construção. E o Cícero imediatamente aplicou na cavação dos tubulões que sustentariam aquela obra monumental.

 

P- Senhor Manoel, essa idéia da construção do grande estádio começa com o Cícero ou não, antes disso já se comentava assim: “Ah, queremos construir...”

 

R- O Dr. Décio Pedroso, como eu disse, e vou te dizer mais: o São Paulo, pobretão, sem nada, em 37, imagina, não tinha nada, nem campo pra treinar. Numa reunião, nós precisamos construir o estádio, imagina você. O Dr. Décio Pedroso teve a iniciativa de fazer um estádio, até fez umas arquibancadas no Canindé, vendendo esses títulos de sócio proprietário. Mas ficou nisso. Depois o São Paulo vendeu o Canindé, grandes dificuldades pra pagar a dívida, foi quando o Cícero convidou o Laudo Natel pra ser o tesoureiro do São Paulo, com o Luiz Silveira. Os dois eram companheiros no Bradesco. E o Laudo viu que a situação do clube era terrivelmente sufocante, e a única maneira era vender o Canindé pra liquidar e começar uma vida nova sem aquelas preocupações, né. E o Wadi Saddi, grande figura também na história do São Paulo, comprou. Parece que por 12.500 contos. O padrão monetário muda sempre, de modo que a gente... E depois ele vendeu pro Luiz Portes Monteiro, pra Portuguesa, que construiu o estádio da Ilha da Madeira, que hoje não é mais da Madeira, até este mês agora. Mas o São Paulo... O Cícero e a sua equipe, com auxílio de outros desportistas, conseguiram... Em todo loteamento, há uma área reservada pra prefeitura, praças, ruas, e o prefeito de São Paulo era o Dr. Armando de Arruda Pereira. Então, esses, eu não vou citar nomes porque eu cometeria uma injustiça. Citei o Cícero, mas tinha diversos outros. Eles conseguiram com o prefeito que aquela área reservada pra prefeitura fosse doada pro São Paulo, porque ali era um deserto e seria um antro para os marginais se localizar. E com uma argumentação inteligente e o prefeito concordou. Então doou pro São Paulo aquela área. Aricanduva, que era proprietário do terreno, doou também uma parte. E outra o São Paulo comprou. Hoje o São Paulo tem lá uma área de 154 mil m2. E se iniciou a construção do estádio, em 1952, com missa campal, o filho do presidente Washington Luiz plantou o jequitibá, aquele terreno vazio, um mato danado né. E isso tudo...

 

P- A missa foi celebrada pelo Monsenhor Bastos?

 

R- Pelo Monsenhor Bastos. A primeira missa no estádio. Ele era um dos fundadores do clube, uns dos homens mais entusiastas, uma figura extraordinária a quem o São Paulo muito deve. E conseguiu... O Cícero fez um concurso, diversos engenheiros apresentaram seus projetos, tinha até o projeto de um russo com o estádio coberto, foi vitorioso o do Villanova Artigas, já falecido, considerado um dos grandes arquitetos de São Paulo. Então aí começou a venda de cadeiras cativas e as concorrências... Vendia dez mil contos e então já fazia dez mil contos... A aplicar, e o time maior foi campeão em 57 e eu era o Diretor de Futebol. Mas depois as cobranças... Porque a torcida, porque todo torcedor é apaixonado, né? Ele quer time, quer o que o clube monte esquadrão. E o São Paulo teve o bom senso de aplicar no estádio, e todos aqueles que criticaram hoje aplaudem. Porque era época, a era do Pelé. Mesmo que o São Paulo o contratasse não adiantaria nada. E conseguimos construir esse estádio fantástico com o auxílio de outros dedicados são-paulinos. Eu citei o Cícero porque...

 

P- Teriam muitos outros.

 

R- É. Muitos companheiros. Muitos.

 

P- Seu Manoel, o senhor lembra aquela campanha da venda das cadeiras cativas, que vocês criaram um personagem lá, o Sentadinho de Oliveira?

 

R- Lembro. Lembro das críticas. Tinha um jornal especializado aqui, O Esporte, era o nome do jornal. Fazia a crítica que o São Paulo ia inaugurar o estádio no ano 2.000, né? É esse que você está citando?

 

P- Não, eu tô citando a campanha, que vocês criaram um personagem, que era uma campanha muito criativa.

 

R- O Oswaldo Moles, o Oswaldo Moles foi o chefe dessa campanha de publicidade do São Paulo para a venda de cadeiras cativas no São Paulo, na primeira fase. Não fomos muito felizes. O Oswaldo Moles pediu pro Cícero Pompeu de Toledo se dava licença para que o Mario Nabil, que foi um profissional de São Paulo, administrador da comissão pró-estádio, trabalhasse com ele. O Oswaldo Moles, vocês devem conhecer, foi uma grande figura da publicidade aqui em São Paulo. E foi feliz nessa campanha, criaram diversos personagens. O Oswaldo Moles era um homem inteligentíssimo, o ramo dele era esse, né? E o Mário era um rapaz competente, uma equipe de corretores muito grande. Salientando sempre o Poy, que foi o campeão de venda de cadeiras cativas, ganhou muito dinheiro, honestamente, vendendo, era um jogador excepcional, tinha muita penetração e isso facilitou pra nós. Mas o São Paulo teve o bom senso, nunca de desviar dinheiro da cadeira cativa pra contratação de jogador. Se desviasse, não teria feito o estádio. Mas foi muito criticado. O Laudo e o Cícero foram muito criticados, na época, na ocasião. Queremos time de futebol, que que adianta vocês fazerem um estádio muito grande, enorme, não vai ninguém, porque isso, porque aquilo... É a paixão. Mas a razão tem que prevalecer para o administrador.

 

P- Seu Manoel, vamos fazer o fim do primeiro tempo...

 

R- Tem o segundo?

 

P- A gente dá um descansozinho, sai deste calor aqui.

 

P- Seu Raimundo, então quer dizer o senhor vai crescendo dentro do clube? Era chefe de torcida e então em 56 o senhor já era Diretor de Futebol?

 

R - É, o Cícero como presidente me escolheu como Diretor de Futebol em 1956. E o São Paulo nesse ano, se não fosse a infelicidade do nosso goleiro, um argentino chamado Bonelli, o São Paulo teria sido campeão. Perdeu a final com o Santos Futebol Clube, gols...

 

P- Mas foi o quê? Foi frango?

 

R- É, é o que eu posso falar. Vamos admitir que tenha sido frango, né, infelicidade, né. Mas ele nunca mais jogou no São Paulo. E o São Paulo perdeu. Em 57 o São Paulo, já construindo o estádio, graças a Deus conseguiu o título. E o Zizinho foi uma das figuras de destaque que nós fomos... O Feola foi buscar no Rio emprestado, ele era jogador do Bangu na época, e o patrono do Bangu, Guilherme Silveira Filho, o Vicente Feola, muito amigo dele, conseguiu o empréstimo. E o Zizinho foi uma das grandes figuras daquele ataque formidável que o São Paulo tinha. O Maurinho, Amauri, Gino, Zizinho e Canhoteiro, outro jogador excepcional, o maior ponta que eu já vi jogar. E o São Paulo, na partida final contra o Corinthians, conseguiu vencer por três a um e foi campeão em 57. Em 58 foi vice-campeão, 59 terceiro lugar, e o Santos, nessas épocas todas foi o campeão na forma excepcional. De maneira que eu fiquei como Diretor de Futebol do São Paulo durante seis, oito anos, época de muito sacrifício, muita luta. Porque a torcida toda se revoltava que o time não ganhava título, só ganhou em 57, queria jogadores, e nós sabíamos que não adiantava contratar porque não tínhamos dinheiro, tirar dinheiro do estádio pra contratar não valia a pena, nós nunca fizemos isso. Mas o São Paulo nunca decepcionou, sua equipe sempre com bons jogadores. Não conseguiu título, e o título só vai pra uma equipe, e todos querem esse título. E aqui no Brasil ninguém reconhece o vice-campeonato, terceiro lugar, não interessa, interessa ser campeão, né. E... Pode perguntar.

 

P- Quer dizer, nos anos 60 o time já não conseguiu tantos títulos, mas a gente tem a lembrança de dois jogadores que faziam muitos gols pro São Paulo, que eram o Pagão e o Babá.

 

R- O Pagão era um jogador excepcional, já em fim de carreira, mas um jogador excepcional, fora de série, e veio pro São Paulo. Era do Santos de Pelé, e Babá que veio do Guarani de Campinas, centro-avante. De fato dois, grandes jogadores. E o São Paulo contratou na mesma ocasião, Nelsinho e Babá. Nelsinho era um jogador que hoje parece que está trabalhando no São Paulo, nas equipes inferiores, parece que juvenil ou infantil. Mas no São Paulo ele não foi feliz. E era a grande estrela do Guarani. E o Babá era o artilheiro centro-avante. Agora o Pagão era um jogador mais cerebral, jogador de uma técnica apurada, marcava os seus gols. Mas artilheiro, artilheiro, acho que ele não era artilheiro. Ele era mais organizador. Marcava os gols, né? Inclusive num jogo São Paulo e Santos, que o São Paulo ganhou de quatro a um. O Santos saiu de campo, né, ele tinha vindo do Santos, foi uma das grandes figuras do São Paulo. O Santos então...

 

P- E em 1955 o São Paulo ganhou a Pequena Taça do Mundo em Caracas... O senhor lembra deste evento?

 

R- Era o Diretor de Futebol o Marcel Klazcko, compreendeu? Me parece que foi a primeira conquista internacional do São Paulo. Mas eu não estive lá nesse jogo. Mas sei que conseguiu. A primeira partida internacional do São Paulo foi contra o Libertad do Paraguai. O São Paulo ganhou do Palmeiras, ganhou do Vasco, ganhou de todo mundo, o São Paulo pequeno... E o São Paulo conseguiu vencer por três a dois o Libertad do Paraguai. Agora esse torneio que você falou, o São Paulo foi campeão. Era o Diretor de Futebol Marcel Klazcko, uma figura também de grande projeção no São Paulo.

 

P- Em 63 o São Paulo ganhou novamente esse torneio em Caracas, a Pequena Taça do Mundo. O senhor se lembra dessa época, em 63?

 

R- Lembro, o Belini jogava, e... Até me trouxeram um quadro, esse quadro acho que tá no meu escritório, se vocês quiserem posso emprestar, com o distintivo de todos os clubes, colorido esse quadro, dos participantes do torneio, e o São Paulo campeão. Mas eu não lembro de detalhes, não. A minha memória, eu tinha uma memória fotográfica. Hoje, ainda ontem eu fui ao médico e ele disse que a cirurgia, eu fui operado em dezembro, uma operação grande do coração, e ele disse que a anestesia, oito horas, diminuiu a oxigenação. Então diminui. Além da idade, que eu estou com 72 anos, mas não pra ter a memória... Eu já estou esquecendo as coisas, eu não esquecia. Minha memória era fotográfica. Hoje, infelizmente...

 

P- Mas aqui o senhor está provando o contrário, sua memória está muito boa.

 

R- Ele já me fez duas perguntas da Pequena Taça do Mundo, se fosse antigamente eu dava até a escalação da equipe, tudo direitinho. E hoje eu não tenho.

 

P- Mas olha: O Feola, o senhor lembra o convívio com ele?

 

R- Lembro muito.

 

P- Como é que era?

 

R- O Feola, Dona Joaninha, senhora dele, as enteadas, Elga e Neide... O Feola era uma figura excepcional. Um homem de uma bondade, e muita gente achava ele mole, não tinha nada disso. Ficava ali sentado no hotel com os jogadores, fingia que tava dormindo, ele tava vendo tudo. Agora, era de uma bondade excepcional. Administrador do São Paulo durante muito tempo, a crises, todo time, todo quadro de futebol tem períodos que vai mal. Então era sempre requisitado o Vicente Feola, ele era técnico diplomado. Depois, ele voltava pra administração do clube. Sossegava, arrumava aquilo, mas era um homem fantástico, todo mundo gostava do Feola.

 

P- Quer dizer, o Feola e o Paulo Machado de Carvalho foram pessoas que tiveram uma participação fundamental na primeira Copa do Mundo que o Brasil ganha, né?

 

R- E também vamos lembrar de uma outra figura, né, esquecida, mas que foi o São Paulo que lançou. O professor João Carvalhaes, psicólogo. Este senhor na conquista do São Paulo em 57 foi uma das figuras proeminentes. No jogo decisivo ele chegou pra mim e disse: "Seu Manoel Raymundo, fulano de tal não está em condições de jogar". Fazia testes, né, confidenciais. O Bella Gutman, que era treinador do São Paulo, húngaro, eu chamei ele e falei, expus a situação. E ele não gostava do futebol desse jogador que ele teria que colocar na equipe. Disse pra mim, não sou testa dura! Ele era húngaro. E pôs esse moço, esse moço foi a maior figura em campo. Então ele jogou e foi a maior figura em campo porque o Professor Carvalhaes viu que aquele que ia jogar tava numa tremedeira danada, um nervosismo danado. Então foi de grande influência. O Dr. Paulo de Carvalho, com o plano que organizou com o Flávio Iazeti, o Paulo Planet Buarque e outros, requisitaram o Professor Carvalhaes como psicólogo da Copa do Mundo de 58. E ele foi como psicólogo da seleção. De maneira que ele também... E o Feola era o treinador. Tinha até um dentista, que era o contador de anedota, o Dr. Mário Filho. E foi uma conquista extraordinária. O Dr. Paulo de Carvalho foi uma das grandes figuras também do São Paulo Futebol Clube. O "Marechal da Vitória" antes foi diretor de futebol do São Paulo, foi duas vezes presidente do São Paulo.

 

P- Bem, e o senhor vice-presidente. Como aconteceu?

 

R- Eu deixei o Departamento de Futebol porque já estava há muito tempo. Por minha vontade tinha deixado antes. Mas dentro daquele plano que o Laudo traçou, o Diretor de Futebol era a figura mais combatida, evidentemente, o time não sendo campeão, e todo mundo... Como hoje acontece em qualquer clube. E eu fui me sacrificando, levando as bordoadas, né. Mas chega um ponto que a gente não aguenta mais. Eu aguentei muito. Eu falei: "ó Laudo, agora, quem vai se desgastar, quem vai sofrer é você. Então convida uma outra pessoa pro meu lugar". Insisti com ele e ele atendeu a minha solicitação. Terminou o mandato dele e foi reeleito, então nessa reeleição ele me convidou, acho que foi em 64, para vice-presidente. E pro Departamento de Futebol foi o Dr. Henri Couri Aidar, nessa época. E eu fiquei como vice-presidente. E o vice-presidente, como você sabe, é uma figura pra substituir eventualmente o presidente. Mas eu tinha muita afinidade com o Laudo, eu o ajudava em tudo o que ele precisasse, e aconteceu dele ter que substituir o governador de São Paulo, que havia sido cassado, então eu assumi a presidência, né, com a equipe que ele tinha formado, não modifiquei nada. E tive sorte.

 

P- Em que ano foi isso?

 

R- Isso foi em 66.

 

P- E o senhor ficou nesse cargo até...

 

R- Fiquei eventualmente. Quer dizer, o presidente eleito foi o Laudo. Eu era o vice então assumi, porque ele foi pro governo do estado, e eu fiquei um ano. Mandato de dois anos, fiquei um ano.

 

P- Nesse um ano, o que o senhor se recorda, o que o senhor fez?

 

R- Eu me recordo que o Departamento de Futebol era constituído pelo Paulo Planet Buarque, pelo Júlio Brisola e pelo Wadi Saddi. E o Paulo Planet Buarque se entusiasmou pra trazer um grande jogador do Rio de Janeiro, da seleção do Brasil, o Didi, figura famosa. Vocês devem lembrar da Copa do Mundo. E foi ao Rio. Didi já era veterano. O São Paulo sempre teve sorte com jogadores veteranos, né. O Leônidas veio pro São Paulo já com 28 anos, não era tão velho, mas... O Sastre veio com 30 anos, falaram que ia ser um desastre e foi um sucesso. Jogador argentino excepcional. O Didi, a perspectiva é que fosse reeditar o Zizinho, não foi feliz aqui no São Paulo. Agora o Paulo Planet Buarque foi eleito deputado, e o governador Sodré o convidou pra ser líder, então ele deixou o Departamento de Futebol. O Júlio Brisola viajou, então ficou só o Wadi Saddi. Isso em 58. E o Wadi foi eleito pela crônica como Diretor de Futebol do São Paulo no ato. Eram três. Porque você põe três, nunca dá certo, porque um dá entrevista, o outro fica enciumado, né? Felizmente no São Paulo não existe isso. Foi acho que em 58, 68. O que marcou também, não como vice-presidente. Como vice-presidente eu continuei também as obras do estádio, não interrompi, tive tranquilo, a diretoria muito boa, colaborando sempre comigo. De maneira que eu não tenho nada que marcasse, a não ser esse episódio da trinca do Departamento de Futebol que saiu. Agora, em 57 sim, eu lembro com muita saudade, o São Paulo conquistou um título de campeão, o último em plena construção do estádio, até chegar agora que é título todo dia, né? A torcida tá mal acostumada, eu acho que foi a época mais feliz do São Paulo em conquista de título foi na administração do Dr. José Eduardo Mesquita Pimenta. Presidente pé-quente. Presidente pé-quente não, pé-quente porque ele trabalha né? Porque ninguém ganha nada olhando, e tem uma equipe boa. Acho que no futebol eu não lembro mais nada, a não ser que você me ajude fazendo pergunta.

 

P- Inauguração do Morumbi, em 1960, o jogo com o Sporting.

 

R- Em 1960. O Sporting de Lisboa. São Paulo ganhou de um a zero, gol do Peixinho. Na segunda partida, o São Paulo jogou com o Nacional de Montevidéu. E o Palmeiras emprestou o Julinho, o ponta direita famoso, que chegou à seleção brasileira, e o Djalma Santos, o lateral direito. E o Corinthians emprestou o Almir. Eles jogaram a segunda partida contra o Nacional. São Paulo ganhou de três a zero. Na primeira partida, uma chuva torrencial, estádio cheio, parcialmente inaugurado porque não tava pronto. O governador do estado era o Carvalho Pinto. E aquela chuva terrível, uma parte do povo até invadiu o gramado, né, porque tava superlotado e a chuva, em vez de fugir, eles foram pro campo, tava molhado mesmo... Eu lembro muito desse jogo. Foi em 1960, setembro de 1960. Agora a inauguração do estádio pronto foi em 1970, 25 de janeiro de 1970, data da fundação de São Paulo. Justamente a primeira partida que o São Paulo jogou foi em 25 de janeiro de 1936. Este eu lembro. São Paulo ganhou de três a dois da Portuguesa Santista um quadrinho. O São Paulo pobre, né, King, Rui e Picareta; Lopes, José e Segôa, Antoninho, Gabardo, Gutierres e Carás e Paulinho. Ganhamos de três a dois, jogo no Parque Antártica, da Portuguesa Santista. Depois teve a revanche em Santos no estádio de lá, São Paulo ganhou de quatro a dois. E esse primeiro jogo quase que não se realiza. Porque havia a Secretaria de Educação, precisava de licença e não quiseram dar licença pro São Paulo, e o jogo marcado pro dia 25 de janeiro, aí o Tenente Porfírio foi na Avenida Paulista, tinha parada, e o governador era o Armando Sales de Oliveira, e ele pediu. O Dr. Armando Sales de Oliveira falou pro Cantídio, era o médico, secretário da saúde, “eu gostaria que o São Paulo jogasse hoje”. Eu gostaria era uma ordem que ele estava dando. O Dr. Cantídio tirou do bolso o receituário dele, era médico, e deu autorização pra que fossem abertos os portões do Parque Antártica. Era a primeira partida do São Paulo. Você vê que já no primeiro jogo essa turma, esses heroicos são-paulinos tiveram dificuldade até pra primeira partida.

 

P- E o senhor tava lá com 15, 16 anos.

 

R- Ah, minha filha, com 12 anos eu já estava na Floresta assistindo jogos do São Paulo. Eu era fanático pelo São Paulo. Acompanhava o São Paulo a qualquer lugar.

 

P- O senhor ia aos jogos.

 

R- Ah, todos, não faltava um. Até setembro.

 

P- Pro exterior...

 

R- Só não ia pro exterior. Quando ia pra Europa eu convidava um conselheiro do São Paulo pra ir no meu lugar. Nunca fui. Sempre convidei. Agora, quando ia pra Botucatu, pra Mogi das Cruzes, aí eu ia.

 

P- Por quê?

 

R- Porque eu achava...

 

P- Não gosta de andar de avião?

 

R- Não, ando de avião. É que era uma homenagem que eu prestava aos conselheiros do clube. Porque eu como diretor do Departamento de Futebol era evidente que eu teria direito sempre de ir. Como o presidente do clube tem, né? Mas eu preferia ceder o meu lugar. Não por receio de avião, nada, que eu fui muitas vezes, mas sempre tive por hábito isso, compreendeu? Questão de escrúpulo, não sei.

 

P- Vamos lembrar então o jogo que inaugurou definitivamente o Morumbi em 1970.

 

R- Foi com Futebol Clube do Porto, né, clube português. Foi em 1970.

 

P- O senhor se recorda alguma coisa, o placar, os jogadores...

 

R- Eu acho que o time do São Paulo, eu não sei se foi em 70 ou 60... A equipe do São Paulo eu sei que ganhou de três a zero. Agora não lembro da escalação da equipe não.

 

P- De alguma coisa que chamou a sua atenção nesse jogo? O Morumbi completamente lotado...

 

R- A emoção da inauguração do estádio, né? A chegada do presidente da República, o General Emílio Garrastazu Médici, que era pra chegar de helicóptero, nós preparamos o heliporto pra ele no São Paulo e tal... Mas naquela época, então, despistaram aqueles batedores tudo, então ele chegou de automóvel. Lembro que no discurso que ele fez, o presidente Médici, ele disse que no Brasil, se houvessem figuras como o Laudo Natel, que era o construtor daquela obra gigantesca, que foi o Cícero, o Laudo continuou, e outros desportistas, inúmeros que colaboraram, o país não seria subdesenvolvido como é. Você vê, pessoas como o Laudo na presidência do São Paulo. Então eu lembro disso, que foi no intervalo do jogo, na tribuna de honra, aqueles desportistas todos presentes, marcou muito essa frase do presidente.

 

P- Em 1970, como é que foi a emoção de... Inaugurou o campeonato com o Zezé Moreira, né? Foi no Morumbi...

 

R- Pois é, meu filho, acontece que nós, o Laudo sempre falou e teve sorte... Porque isso de montar time, falar que vai, depois que nós inaugurarmos o estádio nós vamos conquistar o campeonato. E teve sorte. Em 70 foi campeão, em 71 foi campeão. O Zezé Moreira veio, foi no meu escritório que ele foi contratado, veio do Rio, conversamos muito, acertamos tudo, e ele, outra figura, o irmão dele também havia sido treinador do São Paulo. Mas completamente diferente, temperamento, tudo. E o Zezé Moreira foi muito feliz em São Paulo. Foi campeão em 70, em 71 também. Quer dizer, o Laudo teve sorte. Falou a coisa e aconteceu, mas podia não ter acontecido.

 

P- Mas o São Paulo tinha um timaço.

 

R- Terminou, inaugurou o estádio... Tinha uma grande equipe, né? Indiscutivelmente. Contratou naquela ocasião Pedro Rocha, o Gerson e outros bons jogadores. Fizemos um carnê, o Paulistão, e com esse dinheiro foram contratados esses jogadores. Porque pra terminar o estádio, o que ajudou foi o carnê que o São Paulo lançou com a autorização do Minstério da Fazenda. Porque se não fosse... Foi a única ajuda que eu acho que o São Paulo teve, mas ajuda de autorização do Ministério da Fazenda, que o ministro era o Antônio Delfim Neto, que havia sido secretário do Laudo aqui, na Fazenda, era o ministro da fazenda. Então ele autorizou, e o São Paulo fez, prestou contas, né, e o secretário da Receita quando o São Paulo deu, era o Maílson da Nóbrega, que há pouco tempo era o ministro da Fazenda também. De maneira que a história do São Paulo tem esses fatos interessantes, essa... e alegres. A inauguração no mesmo ano que conquista o título, quer dizer, a sorte também, né. Precisa ter sorte. Mas tem que trabalhar. E é o que acontece com essa gente são-paulina. São trabalhadores e graças a Deus têm tido sorte.

 

P- E o São Paulo... Como é que era a família do senhor? Porque com essa atividade toda o senhor não devia parar muito em casa, né?

 

R- Não, minha senhora, como eu contei pra vocês, era são-paulina. Eu a conheci no São Paulo. De maneira que havia essa compreensão, né? Porque eu parava pouco mesmo em casa. Eu dedicava mais ao São Paulo, era o prolongamento do meu lar, vamos dizer assim. Mas pra isso eu sacrifiquei a minha família, sacrifiquei os meus negócios, mas não me arrependo. Em 70 eu falei: “Eu vou deixar, em 70 não quero saber mais”. Ela: “Não acredito”. Eu falei: “Vou”... E em 70 deixei mesmo, compreendeu? Quer dizer, continuo são-paulino, continuo amigo de todos, graças a Deus. No São Paulo eu só encontrei boas relações...

 

P- Qual foi pra o senhor a essência, o significado de ter começado no São Paulo como um chefe de torcida e ter chegado à presidência do clube? Isso era um sonho que o senhor tinha? Pensava sobre isso?

 

R- Não, eu nunca pensei em cargos na diretoria do São Paulo. Nunca pensei. Eu como estudante, naquela época, “molecote”, aquela turma toda de companheiros, universitários a maioria, aquele entusiasmo da mocidade, a gente organizava aquela torcida, aquilo tudo era festa pra nós. Tinha um jogo em Santos, naquele tempo não tinha ônibus, nada, era pela São Paulo Railway, então nós organizávamos as caravanas, ia lá na Estação da Luz e eles davam desconto, depois de 100 pessoas, por exemplo tinha um desconto... Esse desconto nós dávamos para todos os que viajavam, os torcedores, isso tudo era motivo de festa e de alegria pra nós, e não de sacrifício.

 

P- Seu Raymundo parece que... Conta pra gente um pouco porque o senhor está desde os 12 anos... Este envolvimento total se houvesse definição: O que significa ser são-paulino?

 

R- Geraldo José de Almeida foi um locutor esportivo famoso aqui no Brasil, são-paulino. Ele dizia: "Por mercê de Deus, eu sou são-paulino" em todos os discursos dele. E eu repito. Por mercê de Deus. Porque ser são-paulino pra mim é uma alegria muito grande, como aquilo que vocês fazem, fazem tão bem porque sentem prazer, sentem alegria no que vocês estão fazendo. Eu encontrei no São Paulo Futebol Clube a minha alegria do desporto, porque o São Paulo, no futebol, na era do Dr. Décio Pedroso, no Canindé, o São Paulo foi campeão de bola ao cesto, foi campeão de xadrez, boxe com o Éder Jofre, e em diversas atividades o São Paulo se destacou. Agora, com isso também onerou o clube, né? Que ocasionou essa série de problemas que eu já relatei pra vocês, de dificuldades financeiras. Agora eu comecei menino, chegando aqui a minha diversão era ir aos jogos do São Paulo, inclusive jogo noturno. Eu era moleque ainda, eu lembro. O São Paulo jogou... Da inauguração dos refletores do Pacaembu, também. O São Paulo jogou com o América, jogo que o São Paulo devia ganhar e... Todo mundo achava que o São Paulo ia ganhar e perdeu de seis a cinco. Imagina você, meia dúzia a cinco. Futebol tem isso, esses desgostos que você sofre. Um jogo com o XV de Jaú no Pacaembu o São Paulo perdeu de quatro a zero, mas faz parte do desporto. Agora, definir pra você como é que eu definiria, eu não sei, compreendeu? Eu acho que foi uma graça de Deus eu ser são-paulino, sofri muito com o São Paulo, mas quem é que não sofre. E as alegrias. É melhor a gente olhar a parte de alegria, que foram muitas, porque, uma pessoa, você vai olhar os defeitos dessa pessoa, não, é melhor você olhar as qualidade, né, que de repente nós todos temos, então, vamos ver as qualidades. O São Paulo é um clube de uma qualidade fantástica.

 

P- Quais são as grandes alegrias? Não vamos contar todas, só umas três.

 

R- Do São Paulo? Ter sido fundado por esse grupo heróico, porque se não fosse esse grupo São Paulo não existiria. Ser amigo dessa gente humilde, mas que lutou, sacrificou, não só sua saúde como o bolso, o Dr. Menzen, as poucas reservas que tinha foram pro São Paulo, o sócio número 1 do São Paulo. Então é uma alegria você ter amigos como esses que dignificaram os postos que ocuparam do São Paulo, honraram. Outra grande alegria foi a conquista, eu eventualmente era o Diretor de Futebol em 57, outra grande alegria foi a inauguração do estádio, que eu graças a Deus tive a felicidade de comparecer. De maneira que as alegrias no São Paulo são muitas, inclusive hoje com essas conquistas que o clube tem obtido, apesar de eu não comparecer aos estádios...

 

P- Mas o senhor viu algum mundial pela TV?

 

R- Vi, pela TV eu vi. Inclusive domingo eu vi o taipe do jogo com o Palmeiras. Ganhou, eu assisto. Perdeu, eu não quero nem ver, pra não me aborrecer.

 

P- Então pra gente finalizar eu gostaria de fazer uma pergunta pro senhor. O senhor fez aqui uma reflexão, uma avaliação de toda a sua trajetória de vida, né. O senhor aos 72 anos ainda gostaria de realizar algum sonho que não foi realizado durante este período?

 

R- Não, eu não tenho mais sonho, minha filha, não tenho mesmo. Eu dou graças a Deus por tudo o que Deus me deu, inclusive ser são-paulino, agora estar me recuperando dessa cirurgia que poucos acreditavam que eu fosse feliz, porque hoje é comum a cirurgia de coração, mas meu caso era muito grave, não era ponte de safena só. Então Deus me deu essa felicidade. O São Paulo tá indo muito bem... Meu sonho, minha filha, é ver a família são-paulina unida, todos trabalhando, mas não de boca, com atitudes, com atos, compreendeu? Todos. Todo o São Paulo Futebol Clube. Haver compreensão de todo são-paulino, compreendeu? Um olhar só as qualidades, não vamos ver defeitos, porque se só for ver defeito de todo mundo não há nunca... Isso que eu desejo. Meu sonho, com toda a sinceridade, é ver a família reunida, sem briga, mas não de prosa, de falar, ah, tá feita a união, não. De atos, de atitudes. É isso que eu desejo pro São Paulo. Acho que o São Paulo vai indo muito bem, mas sempre é interessante que haja harmonia, que haja compreensão, por isso que o meu sonho é ver o São Paulo assim. Vai muito bem o São Paulo com vitórias e conquistas de títulos. Mas politicamente, o que eu desejo é isso. São todas figuras excepcionais, se há uma, duas, três, quatro facções não sei, mas todos são homens muito bons, então entre eles precisa haver compreensão. É o que eu desejo para o nosso, para o meu clube, o São Paulo Futebol Clube.

 

P- Seu Raymundo, o senhor que foi um homem que criou torcida e tudo mais, que recado, que mensagem o senhor daria pros torcedores uniformizados de hoje?

 

R- O recado que eu daria que tudo evoluiu e muita coisa não... Evolução. As torcidas, de uma maneira geral, mas tenho que falar do São Paulo, precisa haver mais disciplina, pra ajudar o desporto. Com brigas, com agressões, com bombas, só pode atrasar o progresso do desporto. Muita gente deixa de ir ao futebol hoje de medo. Vou, vai ter uma agressão, vão soltar uma bomba... Então eu acho que essa torcida devia olhar pra trás, o São Paulo sempre foi pioneiro, e ver o que era a torcida do São Paulo. Disciplinada, ordeira, não estou dizendo que hoje é o São Paulo, são todas as torcidas, mas do São Paulo também. A gente tem que ser sincero, tem acontecido episódios que eu lamento e que eu desejo que não se repitam mais. É isso. O apelo que eu faço é que haja disciplina, haja mais compostura em alguns elementos, não vamos generalizar. Mas um ou dois que provocam a bagunça já começa a generalizar. É isso que eu desejo.

 

P- Só mais uma perguntinha: o senhor assistiu vários jogadores, vários times do São Paulo. Como é que hoje se o senhor tivesse que escalar um time de todos os tempos, como é que o senhor escalaria o time do São Paulo? De todos os jogadores que o senhor já viu jogar pelo clube.

 

R- É difícil responder a essa pergunta. O São Paulo teve goleiros excepcionais, né? Da velha guarda, o Jurandir foi da seleção do Brasil, o Gijo, que faleceu há pouco tempo, foi um grande guardião, o Poy, excepcional jogador; o De Sordi, lateral direito do São Paulo, campeão do mundo, o Mauro, o Belini, então Mauro e Belini no mesmo nível, os dois eram da seleção do Brasil; o Dino, jogador excepcional que o Bella Gutmam transformou de meia em médio volante, foi preciso um trabalho junto ao Dino pra que ele concordasse em se transformar em médio volante. E o Gutman dizia, eu transformei o Lindon, um jogador sueco do Milan, que ele trabalhou no Milan, no maior médio volante da Itália. E o Dino se tornou o maior médio volante do Brasil. Quarto zagueiro o São Paulo teve no passado o Zarur, o Dias, que ainda trabalha no São Paulo, era médio volante, o Brandão transformou em quarto zagueiro, jogador excepcional apesar da estatura pequena. Lateral esquerdo, o São Paulo teve grandes, o Orozimbo, Argemiro... Olha, minha filha, é difícil você formar. O São Paulo teve... Atacantes, Luizinho, que faleceu há pouco tempo, um ponta extraordinário. O Ademar de Brito, o Artur Friedenreich, o Leônidas da Silva, eu vi o Artur Friedenreich jogar na Floresta, o Leônidas da Silva "o diamente negro", jogador fora de série, o Remo, o Canhoteiro, o maior ponta que houve... Então, eu falei uma equipe. Mas é difícil, porque tem outros que mereciam terem sido escalados por mim. Obrigados a vocês.

 

P- Sr. Raymundo o senhor quer fazer mais algum comentário final?

 

R- Quero agradecer a vocês, é um privilégio estar aqui conversando a respeito do meu clube, né? E citar fatos do meu conhecimento, e muitos eu já não recordo mais, mas eu fiz questão de chamar a atenção dessa nova geração, desse grupo heroico, porque se não fossem eles, o São Paulo não existiria e houve sacrifícios dessa gente, pobres, mas que levantaram o clube. Essa é que é a grande verdade. E esses outros moços estão continuando essa obra gigantesca. Tem muitos jogadores da antiga geração lá atuando também, inclusive ocupando cargos importantes no clube. O que é muito bonito... Mas eu sou favorável à renovação. É o meu caso. Dei meu lugar a outros, e vamos em frente.

 

P- Muito obrigado.

 

R- Obrigado a vocês.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+