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História

O samba, o teatro e uma fábula interracial

História de: Haroldo Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/10/2012

Sinopse

Em seu depoimento, Haroldo Costa relembra o falecimento da mãe e sua infância em Maceió, na casa dos avós e a influência da tia; a escola, brincadeiras, danças, músicas folclóricas na infância e as boas memórias do período do natal. Aos 10 anos, muda-se para o Rio de Janeiro, onde mora com o pai na Lapa, momento marcado pelas ondas do rádio: irmãs Batista, Francisco Alves, Jornal de Modinhas, o carnaval carioca. Haroldo fala sobre as escolas que frequentou, a militância na UME (União municipal dos estudantes), seu envolvimento no movimento estudantil secundarista, o Teatro Experimental do Negro e a importância desta manifestação artística negra na época. Ele recorda a primeira peça em que trabalhou: O filho pródigo, de Lucio Cardoso, conta sobre a experiência como diretor artístico e sua excursão de 5 anos pela Europa e América do Sul, período em que estudou antropologia na Sorbonne. Haroldo fala sobre o convite que recebeu para participar da peça Orfeu Negro e o papel de Jesus na peça O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Em Suburbia, Haroldo interpreta o personagem Aloysio.

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História completa

Eu nasci dia 13 de maio, mas meu pai me registrou dia 21 e o escrivão marcou 21. Mas eu repudio o 21. Eu tinha dois anos quando minha mãe faleceu, e não tenho maiores detalhes sobre ela, a não ser que era muito bonita. Meu pai se mudou para Maceió, onde a família paterna estava. Meu avô, minha avó e minha tia Isabel Costa, que é a grande figura na minha vida. Foi ela que me alfabetizou, me abriu os olhos pra uma série de coisas.

A gente morava na zona urbana de Maceió, em uma rua muito bonita. A minha tia tinha uma escola que funcionava dentro de casa e ela dava aula às alunas porque não tinha homem, e eu ficava à parte, no corredor, e estudava ali. O que marca mesmo, e muito, é o calendário festivo de Maceió, o calendário folclórico. Isso pra mim foi um aprendizado inesquecível porque ali eu via Reizados, Guerreiros, Maracatu, Pastoris, Chegança, Quilombo, que são todas as danças regionais de Alagoas. E tinha a parte gastronômica que era própria dessas datas.

Tudo isso, pra uma criança em formação, deixa um resíduo muito grande. Meu avô achou que eu já tava na idade de voltar pro Rio. Pra mim foi um desencanto, eu chorei 48 horas. Minha tia também chorou, todo mundo chorava. Mas eu vim pro Rio, não tinha outro jeito. E a rua que a gente morava, a Joaquim Silva, era uma rua realmente muito interessante. Pra começar, não tinha edifícios, eram só casas. E tinha a famosa escadinha da Lapa, que hoje virou obra de arte, que um cara começou a fazer pintura no degrau e ficou até uma atração turística. E ali era o nosso playground. No carnaval tinha um bloco da rua, o meu pai era do bloco, um dos que ajudavam. Eles saíam na Rua Joaquim Silva, davam a volta pelos Arcos, e depois voltava pela Rua do Passeio. Era muito animado. As rádios tocavam sem parar as músicas de carnaval. Fora isso tinha o Jornal de Modinhas, que era um jornal que saía todas as semanas e anunciava as músicas. Todo mundo sabia o repertório de carnaval.

Estudei no Pedro II e foi um colégio realmente fundamental, fiz política estudantil, fui presidente do Grêmio Científico e Literário. E a Guerra terminou em 45 e veio a chamada redemocratização. E eu comecei a frequentar a UNE, como delegado do Grêmio do Pedro II. E terminei sendo presidente da AMES, e fiz parte da comissão fundadora da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. E a UNE era um celeiro muito vivo. Acontecia muita coisa lá. Tinha o Teatro Universitário, o Balé da Juventude, e apareceu o Teatro Experimental do Negro, fundado pelo Abdias Nascimento. Alguém deu para o meu pai um panfleto que falava sobre curso de alfabetização de adultos no Teatro Experimental do Negro, que era dado na UNE. Meu pai me deu esse panfleto: “Vai lá pra dar uma força pros demais”. Eu fui. E realmente, no Salão Nobre da UNE, três vezes por semana, tinha aula de alfabetização para as empregadas domésticas, para o pessoal que trabalhava em empregos como mecânicos... No salão de cima, o curso acontecia. No salão de baixo, o teatro ensaiava. Um belo dia eu tô lá ajudando a ensinar, e eis que alguém aparece e me chama para ler o papel de um personagem da peça que estava sendo montada. O ator não apareceu, e me chamaram para ler o papel. Eu li e fiquei com ele. Era o Peregrino. A peça foi O Filho Pródigo, de Lúcio Cardoso.

Eu comecei a vivenciar o teatro e fui aprendendo. O meu pai foi da Frente Negra Brasileira, já tinha militado nessa área da valorização do negro, da cultura negra, mas ele nunca fez proselitismo disso comigo. Na verdade eu fui descobrir por acaso. E o Teatro Experimental do Negro, nessa época, foi exatamente no início, foi uma organização que muitas pessoas levaram pra um lado de revanchismo, achando que era um teatro racista ao contrário, e não era nada disso. Na verdade, o Teatro Experimental foi uma reação àquele momento que a gente vivia, teatralmente falando. Nessa época os teatros funcionavam de terça a domingo, tinha elenco espalhado pelo Rio de Janeiro todo, Companhias... E o que você via? Não tinha negro em peça nenhuma. Quando tinha era uma coisa circunstancial, era parte do cenário. E o Teatro Experimental do Negro fez outras ações paralelas. Fez o seminário do qual participou Alberto Guerreiro Ramos, um grande sociólogo, que publicou um livro chamado A Patologia do Branco Brasileiro. Ele levou o psicodrama, porque era preciso desintrojetar os complexos, porque grande parte do pessoal já tinha sofrido do complexo. Ser negro era um estigma. Não era uma circunstância racial, era um estigma.

Além do psicodrama, fizemos também o concurso do Cristo Negro, a Rainha das Mulatas e um jornal chamado Quilombo. E o Abdias capitaneou isso. Nós fundamos um grupo chamado Grupo dos Novos. A gente achava que o Teatro Experimental estava muito pesado, só os clássicos. E a gente queria fazer uma coisa mais sacudida... Eu escrevi um texto na época, “Rapsódia de Ébano”, que seria a história de um antropólogo francês que vinha ao Brasil e era ciceroneado por um jovem negro que fazia uma viagem introspectiva, mostrando desde a chegada dos navios negreiros. E a gente começou a montar isso, e a coisa progrediu. Nós mudamos de Grupo dos Novos pra Teatro Folclórico Brasileiro. Todo mundo autodidata.

E o teatro ficou ideologicamente forte, tinha uma ideologia, nós sabíamos o que queríamos, e com isso as pessoas foram chegando. A gente fez uma turnê pelo estado de São Paulo que foi a nossa maioridade artística. Porque cada dia era um teatro diferente, cada dia a gente fazia o espetáculo em condições adversas. E essa foi a marca da nossa vida como companhia de teatro, a gente fez os piores e os melhores teatros do mundo. Quando nós estávamos no Teatro Odeon apareceu um cara pra ver o espetáculo, um inglês, empresário, que estava tomando conhecimento de grupos para o festival de Londres. E conversou pra gente ir. Mas antes tinha uma grande turnê pela América do Sul. Inteira.

Mudamos o nome para Brasiliana porque o empresário chegou a conclusão que Teatro Folclórico Brasileiro dava uma conotação muito acadêmica, e o nosso espetáculo se baseava nos fatos folclóricos e transformava isso em dança. O nosso compromisso era pegar a matéria bruta do folclore. E a Brasiliana viajou 25 países pelo mundo inteiro, durante cinco anos. O Vinícius de Moraes resolveu fazer uma feijoada de despedida, que nós íamos pra Holanda. E no decorrer da feijoada, uma hora ele me chamou e disse: “Eu quero te mostrar uma coisa”, e me levou lá para o escritório dele e me mostrou o primeiro ato do Orfeu da Conceição, que tinha sido premiado no IV Centenário de São Paulo. Eu deixei a feijoada pra lá e comecei a ler.

Realmente eu fiquei encantado porque era muito bonito. Eu falei: “Vinícius, isso é uma beleza”. “Pois é, vamos ver se alguém dia a gente consegue montar isso!” O Fala, Crioulo é um livro que nasceu logo depois da extinção do AI-5. Porque sempre me incomodou esse papo de democracia racial, essas coisas que têm oficialmente e que não corresponde à verdade. Inclusive eu usei a palavra ‘crioulo’ de propósito pra desmistificar esse negócio. Crioulo não é uma palavra pejorativa, ao contrário, etimologicamente falando crioulo é o negro nascido no Brasil. Eu peguei uma série de pessoas, algumas conhecidas, a maioria não, que no mais tem um pivete, uma prostituta, tem tudo. Era pra dar um espectro. E saiu o Fala, crioulo. Eu lembro que eu costumava dizer que quando tinha o anúncio de uma novela de época, os atores negros faziam assim: “Opa! Vai ter lugar, nem que seja no pelourinho!” Porque normalmente não tem, é exceção.

O juiz, o farmacêutico, o médico negro, é uma coisa muito distante da realidade, quando a realidade é outra. Então acho que Suburbia, focaliza o que eu chamei de uma fábula interracial. Suburbia vai mostrar pela primeira vez, que eu me lembro, um núcleo de família negra. Em geral tem o negro, mas ninguém sabe quem é o pai, não tem filho, avô, neto, tá solto lá. É um ET. Esse não. È um núcleo onde tem pai, mãe, genro, filho, neto, tem o núcleo. E o que o Aloysio tem do Haroldo é o seguinte: o amor à música. Ele é uma pessoa pacífica, mas muito firme nas suas convicções. Amável, que criou aquela filharada toda com muito carinho.

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