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História

O samba e as noites paulistanas

História de: Fernando Duarte do Amaral
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/09/2003

Sinopse

A história do senhor Fernando Duarte do Amaral é um retrato do centro de São Paulo na época em que o samba paulistano reinava, assim como os salões de baile. Nascido em 1933, senhor Fernando passou uma infância pobre e começou a trabalhar cedo. Da loja de móveis passou para uma fábrica de caixas e, posteriormente, na maior parte de sua vida, trabalhou em dois lugares ao mesmo tempo: no Fórum João Mendes, onde começou como ascensorista, e no Paulistano da Glória, uma casa de shows e escola de samba, onde aconteciam bailes de samba e gafieira. As histórias sobre estes dois empregos descrevem como era a vida e as relações sociais no centro da cidade de São Paulo , principalmente nas décadas de 1960 e 1970. A vida em meio a advogados e juízes contrapunha-se à vida de trabalho no bar e nas festas de samba, em meio a artistas sonsagrados.   

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História completa

P/3 – A gente vai começar a entrevista pedindo para o senhor falar de novo o nome completo do senhor.

R – Fernando Duarte do Amaral.

P/3 – E aonde o senhor nasceu?

R – Nasci aqui em São Paulo, no Bom Retiro.

P/3 – Que dia?

R – Dia 27 de fevereiro de 1933.

P/3 – 1933. E o nome dos pais do senhor?

R – Meu pai, Joaquim Duarte do Amaral, e Ondina Duarte do Amaral. 

P/3 – O que eles faziam, seu Fernando?

R – Meu pai era funcionário lá da Cavalaria. 

P/3 – Ah, é?

R – Da Força Pública. Minha mãe era dona de casa. 

P/3 – E ele trabalhava ali no quartel, ali no Bom Retiro?

R – Ele trabalhava no Bom Retiro, no quartel. Não, no... Na Estação da Luz.

P/3 – Na Luz, ali?

R – É, na Estação da Luz. Rua Jorge Miranda.

P/3 – Ah, tá!

P/1 – Não era no quartel Tobias de Aguiar não, né? 

R – Não, não.

P/3 – Era um pouco para frente?

R - Um pouco mais para frente.

P/3 - E o que o senhor lembra do Bom Retiro quando o senhor era criança? O senhor morou lá muito tempo?

R - Ah não, logo que eu nasci, fiquei pouco tempo, e aí eu vim para a Vila Mariana, Vila Clementino, rua Doutor Bacelar. Aí depois fui para a Praça… antigamente era a Chácara Inglesa. Fui para a Chácara Inglesa, rua Correia de Leme, Avenida Bosque [da Saúde]. Aí, quando foi em 1949, fomos para o Jabaquara e estou até hoje, morando lá no Jabaquara. Só em uma casa, estou há trinta anos, na Cidade Varga.

P/3 - Mas e aqui na Vila Mariana, qual foi o lugar que o senhor passou mais tempo, assim, da infância?

R - Ah, foi para o lado do Jabaquara.

P/3 - Foi lá?

R - É.

P/3 - Como é que era o bairro lá?

R - Bom, lá não tinha condução, tinha bonde. O bonde só chegava até a Igreja São Judas Tadeu e depois, dali tinha que ir embora a pé.

P/3 - Não tinha ônibus?

R - Não. Aí depois, que puseram esse ônibus, Jabaquara 12. Mas também não adiantou porque quando chovia, ele ia... ele vinha recolhendo mais para trás, porque era muito barro. 

P/3 - Ãn?

R - Então ia recolhendo. Aí, depois puseram um tal de "Papa Fila", que saía em volta do Fórum novo, na Praça da Sé. Aí continuamos, depois tinha uma lotação aí, tinha uma lotação que saía aqui da Praça João Mendes. E o tipo de lotação era... o carro era grande, era o Galaxie e cabia dez pessoas.

P/3 - É mesmo?

R - É. Era enorme, né? Para fazer a lotação, e aí levava até o ponto final do Jabaquara.

P/3 - Que legal.

P/1 - E depois, tinha que andar a pé?

R - É, mas eram poucos minutos, né? Não chegava a quinze minutos, daí onde eu morava para chegar até... descendo da lotação para ir até em casa. Era uns quinze minutos, mais ou menos.

P/1 - E era longe para o seu pai trabalhar?

R - Não, porque nós estávamos sempre acostumado, né? Porque melhorou, porque quando tinha a condução era isso. Melhorou agora, depois que começou o metrô, mas antes não era. Porque era ônibus, né? E ele fardado, então tinha mais acesso, né? Porque eu descia aqui, na Praça João Mendes, que era no tempo do bonde, que ele fazia um balão aqui na Praça João Mendes, perto da Santa Tereza. Depois tinha um ônibus que continuava, indo para lá. Se não ia a pé até a rua São Bento, aí pegava o bonde. Tinha um bonde ao lado da São Bento, ia até a Jorge Miranda, na Avenida Tiradentes, na Estação da  Luz.

P/3 - Agora, o senhor andou de bonde?

R - Andei de bonde por muito tempo.

P/3 - Você gostava?

R - Eu gostava. Queria passar carona, por causa do tempo da escola, né? Então, passava carona. Tinha um bonde pequeno, que nós tratávamos por “cara dura” e tinha um grande. O grande era vinte centavo, duzentos réis, né? E o pequeno era um tostão. Então, nós preferíamos passar carona no grande, porque quando chegava na escola, escola Marechal Floriano, que é aqui na Domingos de Morais, depois lá vendia uns pastéis, três pastéis por vinte centavos. Então nós queríamos passar a carona já nesses vinte centavos, porque era quando vinha para cá, que aí sempre tinha aquele lanche na hora do recreio.

P/1 - Tinha um lanche gostoso? (risos)

R - É, uns pasteizinhos, né?

P/3 - Que legal! E a casa do senhor? Como é que ela era, descreve para a gente o que o senhor lembra.

R - Quando eu morava na Chácara Inglesa, era casa de madeira e a minha mãe não gostava que falava que era casa de madeira. Era casa de... Não, nós falávamos que era um barracão. E ela não gostava que falava barracão: “Aqui é uma casa de madeira”. Depois, o teto era de zinco e quando chovia, que era aquela chuva de pedra, fazia aquele barulho.

P/3 - Nossa! (risos) E aqui no Jabaquara?

R - No Jabaquara, eu já morei em umas casinhas já de... casinhas boas, né? Graças à Deus. E hoje eu estou numa casa boa, estou nessa casa há trinta anos, porque consegui pelo Estado. Foi muito difícil também, na época, para conseguir essa casa. Aí, depois eu fiquei um ano sem poder pagar, mas como nós tínhamos um juiz... porque eu trabalhava com um juiz e a irmã dele era diretora lá do IPESP, então eu fui conversar com ela, falar que eu queria entregar, mas ela disse: “Não, nós vamos pagar um mês, um mês vencido, aí depois se você puder paga o outro...” E assim nós íamos indo... Graças à Deus acertamos tudo, já estou com a escritura pronta e estamos na casa até hoje.

P/3 - Ah, que legal. 

P/1 - Mas, o senhor disse que era do IPESP?

R - Do IPESP, a casa.

P/1 - Era o que? Um financiamento?

R - Um financiamento que nós tínhamos. Podia fazer um financiamento, né? Eu tinha que mostrar... apresentar a minha renda, mas como a minha renda não chegava, não alcançava o empréstimo, eu tinha que arrumar uma pessoa que morasse com a gente. Então, pusemos o nome de um cunhado meu para ficar… para alcançar o empréstimo, né? Para comprar a casa.

P/1 - Então, quantas pessoas que moravam na casa?

R - Quanto tempo?

P/1 - Não, quantas pessoas moravam na casa?

R - Quando nós compramos era só eu e a minha... Não, mas já...Quando compramos, já era quatro pessoas. Fui eu, a minha patroa e as minhas duas filhas, quando nós compramos essa casa.

P/1 - Então, nós já passamos a sua infância?

R - Ah, já.

P/3 - A casa dele.

R - É, a minha casa.

P/3 - E a casa da infância, vocês eram em onze irmãos?

R - Não, nós éramos irmãos, mas morávamos na Doutor Bacelar naquela época, rua Doutor Bacelar, na Vila Clementino quando nós éramos onze irmãos. Aí, foi falecendo, falecendo, hoje em dia, nós estamos em dois. Eu e a minha irmã. 

P/3 - O senhor é o que número nesses onze? O primeiro, é o último?

R - Ah, eu acho que dos homens, eu era o último. Não, eu era o penúltimo, porque morreu um mais velho que eu...

P/3 - Quantos homens tinham, quantas mulheres?

R - Eu acho que tinha umas quatro... umas quatro mulheres e uns seis homens. Sete homens, quer dizer. 

P/3 - E assim, dentro da casa tinha divisão de tarefa para as mulheres ajudarem a mãe, para os homens…?

R - Não, não. É que era tudo pobre, né? Naquela época, nós áramos pequenos, então... Mamãe saía para lavar um pouco de roupa, né? Para ver se ajudava dentro de casa, porque o que o meu pai ganhava quando era na cavalaria... O meu pai trabalhava em três lugares. Ele trabalhava de táxi, quando era a folga dele e o motorista do carro ia render ele na cavalaria, então ele pegava o táxi e trabalhava; depois, fim de semana, ele ia fazer uma folga de um guarda também, guarda noturno que trabalhava no depósito da Antártica, em frente à Igreja São Judas Tadeu. Então ele trabalhou sempre em três serviços, que era para ver se dava conta do sustento da casa.

P/3 - O depósito é lá no Jabaquara?

R - É no Jabaquara. Agora não tem mais. Agora é no começo da Imigrantes, ali em frente a Igreja São Judas Tadeu.

P/3 - Ah, que legal.

P/1 - E os filhos trabalhavam? Algum filho trabalhava?

R - Não.

P/1 - Ninguém?

R - Fazia assim, um biquinho, trabalhava em loja, mas não ganhava aquele suficiente. Era uma mixaria, que eu não sei nem como é que fala da quantidade que era, né? 

P/1 - E a escola, como é que era? Todo mundo saía para a escola?

R - Frequentava escola. Eu frequentei a escola Marechal Floriano, como era muito “triste”, eu fui até... Como é que diz? Que eu fui mandado embora, como é que fala? 

P/3 - Foi expulso?

R - Fui expulso. 

P/3 - O senhor era muito “triste”?

R - Era sim.

P/3 - O que o senhor aprontava? (risos)

R - Eu aprontava muita arte. Porque eu não gostava também de tomar injeção, vacina, arrancar dente, então como eu era o maior da classe... Então, quando ia para mostrar os dentes, para ver se precisa arrancar, eu passava na porta e fugia. Aí tinha um colega que levava os meu materiais, que morava lá perto de casa. E também, quando era para tomar injeção, vacina, passava... Eu era o maior da classe, então eu sempre era o último, e quando passava assim, perto da porta, eu...

P/3 - Caía fora. (risos)

R - Daí depois, de manhã, no outro dia, eu já recebia aquela bronca, né? E eu não parava, né? Não queria tomar injeção. Aí eu fui, mas sem ninguém ficar sabendo, e me matriculei também, numa escola ali, na Avenida Bosque da Saúde... Agora eu não lembro o nome da escola.

P/3 - O senhor se matriculou escondido?

R - Escondido.

P/3 - Por quê?

R - Não, como era... como eu tinha sido mandado [embora da escola], não pediram informação. Então eu mesmo fui lá, me matriculei; mas também, eu não fiquei muito tempo. Também já juntei a minha malinha e voltei para casa.

P/3 - E seu Fernando, quando que o senhor começou a trabalhar? O senhor tinha quantos anos, mais ou menos?

R - Comecei a trabalhar com onze anos numa loja de móveis, aqui na rua Vergueiro, esquina da... Onde tem o Pão de Açúcar hoje. Que ali tem uma loja de móveis… Que desce lá pra... Não é zoológico. Biológico.

P/3 - Ah, Instituto Biológico.

R - É, que tem aquela avenida enorme que saía até lá embaixo, né? Eu trabalhei ali no...

P/  - Rodrigues Alves?

R - É, rua Rodrigues Alves, que tinha o bonde também. Aquele bonde camarão também, que quando ele descia... isso aí quando descia, dava para assustar, né?

P/3 - Descia a toda?

R - A toda. Aí tinha que soltar um pouco de areia no trilho, que era para poder segurar as rodas.

P/3 - Nossa! Que medo. (risos)

R - E como.

P/3 - Era bom?

R - Não, dava medo. Porque você via que ele fazia muito assim, que era para soltar, e não segurava, então ele ia soltando areia, para ver se trancava um pouco as rodas.

P/3 - E o senhor trabalhava na loja. O que o senhor fazia na loja de móveis?

R - Era mais para tirar o pó e coisinhas pequenininhas assim, era para entregar em casa, na mão mesmo. Cadeirinha, banco, pequenas coisas, né? Então, depois daí, eu fiquei... eu acho que uns quatro anos. Depois com quinze anos eu vim trabalhar em uma cartonagem, aqui na Vergueiro. Eu trabalhei também muitos anos aí, entre dez, quinze anos. Aí depois, eu...

P/1 - Como que é esse serviço de cartonagem?

R - Na cartonagem eu era grampeador... Fazia essas caixas de sapato, né? Fazia essas caixas, depois quando fazia um, era... Juntava bastante, porque não tinha muito menino,eles não queriam pegar menino. Quando a gente juntava aquele monte de caixa, parava um pouco a máquina, que era para pôr uma caixa dentro da outra, para depois grampear as tampa.

P/1 - E para que seriam essas caixas?

R - Essas caixas eram para sapato. Tanto para sapato, pois tinha umas caixas também que costurava, que era para... de papelão, tanto de papelão do lado, que fazia as caixas que iam servir assim, para pôr sabão, do tempo do sabão Minerva.

P/3 - Fazia caixa do sabão Minerva?

R - É, fazia umas caixas de papelão, ia para a fábrica, depois na fábrica eu “desabria” a caixa e montava a caixa para pôr sabão Minerva.

P/3 - Olha!

P/1 - O senhor lembra que loja de sapatos comprava as caixas?

R - Era bastante, que também a fábrica era... Uma sapataria que tem uma loja aqui... Uma fábrica que tinha aqui em baixo na... No Lava-pés. Era Quá Quá, a fábrica chamava Quá Quá, né? Também foi nessa época assim, uns tempos atrás. Depois, aí vim conhecer a minha patroa aqui na loja... nessa fábrica. Aí começamos a namorar e trabalhamos juntos para cá. Aí foi para a outra fábrica, trabalhamos juntos. Depois, quando eu fui... Aí, ela mudou, foi para o Jabaquara. Logo depois fui eu. Continuamos namorando...

P/3 - E casaram?

R - É.

P/3 - Ela trabalhava na fábrica também?

R - Também trabalhava na fábrica. Ela era passadeira, que passava a cola na tábua para depois colar os papéis. Ela passava a cola na tábua, colava os papéis e punha assim, e a moça ia fechando uns tipos de caixa, também com aquelas fitas de papel.

P/3 - E onde que vocês saíam para namorar?

R - Não, mas nós trabalhávamos já... Nós gostávamos de trabalhar sábado e domingo, porque era extra, então o patrão pagava para nós. Depois aí ele levava a turma para casa, que ele morava na Praça da Árvore hoje em dia. Depois ele nos levava até em casa, que eu e ela estávamos morando pra lá já. Então nós gostávamos de ir trabalhar de sábado e domingo. De domingo até o meio dia, depois sábado o dia todo, né? Porque ele pagava na hora, entrava aquele "troquinho"...

P/3 - Pagava na hora?

R - Pagava na hora, porque era hora extra. Aquele pouquinho já ajudava em casa que era para comprar o pão... O pão, o leite... Era difícil naquela época, né?

P/3 - E vocês casaram na Igreja?

R - Casamos na Igreja, graças à Deus. Na Igreja São Judas Tadeu...

P/1 - Vocês são devotos de São Judas? Não?

R - Não, eu sou devoto mais de Cosme e Damião, né? Quando eu fiquei doente, eu fiz um pedido para ele e alcancei. Porque eu não queria passar por uma cirurgia, né? Tinha estourado a minha úlcera e eu fiquei com medo de ir para a mesa de cirurgia, para ser cortado. Então, eu falei... eu fiz o pedido para Cosme e Damião: se ele me ajudasse, enquanto estivesse em vida, eu compraria os doces e ia distribuir. E nos primeiros dias, eu estava fazendo... muitos anos atrás eu fazia as festas em casa, de Cosme e Damião, né?

P/3 - Ah, é?

R - É.

P/3 - Como que era essa festa?

R - Porque tinha uns colega aí, do Fórum, que eles também recebiam o guia deles, então eles também tinham esse dom para fazer a festa. Então, nós fazíamos. Quando era de tardezinha, todo mundo já vinha com o seu banho tomado, trazia roupa, que tinha que tomar uns dois banhos, banhos de defesa, né? Aí, trocava a roupa e quando era seis horas já começava a festa, eles já recebiam o guia, eu cambonava um dos rapazes, um dos guias. E depois que terminava, aí então distribuía os saquinhos de doce e uma guaraná. Que naquela época ainda dava para comprar guaraná, né? E eu alcancei a Graça, então...

P/1 - Mas, era uma cerimônia de Umbanda?

R - De Umbanda.

P/1 -  O senhor ainda é umbandista?

R - Eu frequento.

P/1 - E todo ano o senhor faz a festa de Cosme e Damião?

R - Eu faço. Agora, de uns tempos para cá, nós estamos indo em Santos, no dia doze de... agora, dia doze de outubro, que é Dia das Crianças, né? Então, no começo quando nós estávamos lá em Santos, lá em Peruíbe, nós fazíamos essa festa e nos primeiros dias... Porque era tão chato, ninguém fazia e ninguém sabia de nada. Então, nós pegávamos e comprávamos os doces, e saíamos com sacola, ia dando doce, assim, para as crianças. Depois, daí então, nós começamos... Eu disse: “Bom, a partir de agora, como nós estamos conhecidos aqui em Peruíbe, então nós vamos fazer o bolo, fazer o saquinho de doce, fazer um balde de suco e o sanduíche de salsicha, cachorro-quente para as crianças. Agora nós fazemos sempre no dia doze de outubro, lá embaixo em Peruíbe.

P/1 - Isso aí, o senhor está pagando uma promessa?

R - É, pagando uma promessa. Para dar doces para as crianças mais pobre, né? 

P/1 - E quando o senhor teve úlcera, o senhor tinha que idade?

R - Quando eu fiz esse pedido? Eu era solteiro... Não, era casado, mas não tinha ainda minha filha. É isso. Faz uns 40 anos atrás, que estourou a minha úlcera, porque inclusive, eu falei para a minha patroa: “Eu não comi fígado, eu não comi beterraba e saiu aqueles pedaços...” Eu fiquei assustado. Aí, o meu cunhado veio, me levou no Pronto-Socorro, aqui no Hospital Modelo, aí na Tamandaré. Então ele me trouxe aí, o médico me examinou, e o ambulatório era na frente, né? Examinou, e disse: “O senhor vai ter que ficar internado, urgente.” Aí acabou de assustar. Eu fiquei com medo e disse: “Doutor, não dá para eu ir em casa pegar o meu chinelo, pegar a minha roupinha, minha escova de dente?” Depois, na frente, aí eu lembrei do tempo da escola, que eu ficava atrás e fugia. (risos) E disse: “Será que esse é um professor também, que tá junto comigo aqui?”. Depois, na frente, chegou lá, falou: “Faz uma ficha de internação para esse moço, urgente. Ele tem que deitar imediatamente.” Aí eu fiquei só chorando, chorando, chorando. Aí eu fui medir a pressão, nervoso, a pressão foi lá em cima. Aí puseram na cadeira de rodas, já tinham arrumado o quarto, né? Que é tipo apartamento. Aí então, “Aí que o senhor vai ficar”... Ficou o meu cunhado e eu, andando para lá e para cá, nervoso e chorando. E olhava assim pela janela, para o lado do necrotério, e eu via muita gente lá. Eu disse: “Será que eu vou sair daqui e vou para lá?” Aí que eu chorava mais. Aí, veio a enfermeira, bateu, meu cunhado pegou e falou: “Pode entrar.” Aí, quando a enfermeira entrou, falou “Senhor Fernando, era para o senhor deitar urgente.” Eu disse: “Não, eu não estou querendo.” “Não, deita lá.” Pegou já eu, suspendeu a roupa de cama, já pôs eu deitado lá, já tinha vindo com a caixa de remédios, trouxe aqueles remédios para mim. Aí, eu tomei, foi melhorando, melhorando... Eu já tinha feito o pedido. Quando o médico veio fazer a visita, com aqueles remédios que eu já tinha tomado, daquela hora, que era mais ou menos umas duas horas da tarde... daí quando ele veio fazer a visita, no dia seguinte, eu já estava bem melhor, dos remédios, né? E pedindo a ajuda, né? Porque eu não queria passar por uma cirurgia, então graças à Deus...

P/3 - Aí ele liberou o senhor?

R - Não, eu fui melhorando, melhorando, mas tinha que ficar, que era para... melhorar, para tirar a chapa assim, que era para mostrar direito como é que estava.

P/3 - Aí não precisou ser operado?

R - Graças à Deus, não precisou.

P/3 - Ai que beleza!

R - Graças à Deus.

P/1 - O senhor tinha quantos anos?

R - Eu tinha... acho que uns trinta... Uns vinte e sete anos. É, porque casadinho de novo... casei com vinte e dois, não via a hora de casar. (risos)

P/1 - Aí o senhor me disse que tinha trabalhado aqui, como funcionário público, né? No Fórum?

R - No Fórum, em cinquenta e... No fim de 1956. 

P/1 - Aí, o senhor entrou nesse ano aqui?

R - No Fórum? Em 1956 eu entrei no Fórum, em 1956. Aí, então, como eu estava trabalhando no bar, então aí eu comecei no bar e no Fórum. Daí depois, naquele bar onde estão os meninos.. Aí depois o meu patrão, falecido, Deus que ponha no lugar que merecer, né? Falou: “Fernando, quanto você ganha aqui?” Eu disse: “Eu ganho X.” O senhor não quer já vir amanhã e eu pago a mais?” Eu disse: “Não, para não deixar o outro patrão na mão...” Isso foi numa terça-feira, eu disse: “...então deixa para sábado, né? Eu aviso ele, venho na quinta e na sexta. Depois sábado...” Quando foi no sábado, eu já entrei para trabalhar  no Paulistano. Aí, eu fiquei lá um...

P/1 - Ah, espera aí, o senhor está falando de trabalhar no Paulistano?

R - É, porque eu trabalhava no Fórum. No Fórum eu entrei em 1956, no fim de 1956. Aí, eu trabalhei trinta e sete anos no Fórum.

P/1 - Mas aí, o senhor sempre fazia o quê no Fórum?

R - Eu, quando entrei, era servente. E como meu falecido... o meu sogro era ascensorista, chefe dos ascensoristas, daí depois de três meses, ele me arrumou para passar como ascensorista. Aí eu fiquei como ascensorista, diversas... Muitos anos. Aí depois... Eles gritavam comigo, eu não aceito que ninguém grite comigo, aí andei querendo pegar uns lá, né? Aí quando foi... uns vinte e dois anos para cá, foi instalado o Tribunal da Alçada Criminal, aí mandaram trezentos mau elementos, mas como eu fiquei sabendo que era tudo mau elemento... então tinha trinta dias de prazo para tomar posse, para pôr “ciente”. Aí foi no último dia para pôr “ciente”, no último dia quando eu vim para tomar posse no Tribunal de Alçada Criminal... aí tem um colega que já era diretor da Alçada Criminal, que tinha sido instalado há pouco tempo naquela época. Então, veio um diretor com uma diretora, e eu, como educado, mandei a diretora entrar, depois o diretor e depois esse colega entrar. Aí, veio esse diretor e disse: “Que esse negão veio fazer aqui?” Eu disse: “Eta.” Eu falei para o colega, que era moreno também: “Fala para ele que a única coisa que ele pode fazer comigo é me mandar de volta, porque não vai fazer nada. E ele não me conhece não. porque se ele falar mais uma vez “que esse negão”... Mas ele era tão bom. Era o modo dele...

P/3 - De falar.

R - De falar, mas gostei dele, depois de uns cinco dias. Você tinha que ver, não tinha pessoa melhor do que esse diretor.

P/3 - É mesmo?

R - Graças à Deus.

P/1 - Mas como é que você escapou de ser mandado embora? Você disse que tinha mandado trezentos...

R - Não, mas ao mesmo tempo mandava para os outros tribunais, né? Para instalar, porque precisava de funcionário. Que estava instalando... então não tinha feito o...

P/3 - O concurso?

R - Não tinham feito o concurso, então pediram umas pessoas emprestadas lá. Então já deram dadas, né? 

P/3 - Quem eles não queriam.

R- É. Então nesse tempo, uns quinze, vinte anos, quem ficou lá todo esse tempo, vinte e dois anos, só foi eu. 

P/3 - É mesmo?

R - Só eu. Só eu que estou lá, que é dessa época, dos trezentos maus elementos, né? (risos)

P/1 - E o senhor ficou fazendo o quê nesses vinte e dois anos?

R - Aí, quando eu vim, puseram... nós trata assim, carro das malas, né? Que é para pegar os processos e levar na casa de juiz. De juiz, e o telegrama que vem pra desembargador... Negócio de aniversário, que foi promovido também... Então a gente saía para levar. Então era mais na casa de juiz. Naquela época, nós tínhamos vinte e cinco juízes e tinha duas peruas. Uma fazia um bairro e outra fazia outro bairro. Então nós fazíamos mais era a Zona Sul, porque eles moravam todos no Morumbi. Então, nós tratava... Quem vai para a favela judiciária, né? Que era tudo juiz, então era a favela judiciária, que a gente entregava. Às vezes outro trocava, porque tinha o Primeiro Tribunal de Alçada Civil, tinha o Segundo Tribunal de Alçada Civil, mas às vezes colocavam um papel, falando que era para entregar, aí eu disse: “Não, pode deixar que a gente leva lá.” Aí, entregava os papéis e depois dava o canhoto assinado pela pessoa que tinha recebido. Graças à Deus não houve erro.

P/1 - E essa história dos trezentos mau elementos, era aqui na João Mendes?

R - Na João Mendes.

P/1 - E o da Clóvis Soares?

R - Era na Clóvis o Tribunal de Justiça, o velho. Depois veio para cá, para a João Mendes, aqui na praça João Mendes.

P/1 - E aquele mudou de lá?

R - Não, ficou lá. Ainda continua. Mas é que foram instaladas umas Varas Civil... Antigamente, funcionava até o décimo segundo andar. Aí agora então já está pra  vinte e sete andares e todos os vinte e sete estão sendo ocupados por funcionário. É juiz, diretoria, enfermaria, sala de lanche para os juiz, refeitório para o juiz. Tem vinte e sete andares, que funcionam nesse Fórum João Mendes.  

P/1 - Espera um pouco, deixa eu ver se entendi. O prédio que você está falando é do Fórum novo?

R - Do Fórum novo. É que eu vim para cá, eu trabalhei...

P/1 - E de Alçada é o outro lugar?

R - O de Alçada, funcionava nesse novo, o Tribunal de Alçada Criminal, funcionava no décimo terceiro e décimo quarto.

P/1 - Tudo no mesmo prédio?

R - Tudo no mesmo prédio. Agora funcionam as Varas dos juízes... criminal, e o Segundo Tribunal Civil funciona também, no décimo sétimo e décimo oitavo andar.

P/1 - E qual é a sua impressão de trabalhar no meio de juiz, advogado, tudo, como é que é? 

R - Eu não sei como é que tem que explicar, viu? Porque tinha que trabalhar de paletó e gravata e era uma coisa que eu não gostava. Então, os primeiros dias, eu vinha de casa de paletó e gravata, e eles davam também o uniforme e era “TJ” que tinha assim no... quando era ascensorista, né? Como a minha cunhada era bordadeira, então eu tirei aquilo e ela fez, bordou no pano “TJ”, Então na hora que eu chegava no Tribunal, já punha. Depois, aí já deixava o paletó, já deixava o sapato, uma camisa com gravata… e só vinha de esporte e de chinelo.

P/3 - Você se arrumava lá?

R - Ah, sim.

P/1 - E vocês ganhavam bem?

R - Não, senhora. 

P/1 - Não? Mas não era importante trabalhar lá dentro?

R - Ganhava muito pouco. Mas era importante porque chegava no fim do mês, o dinheiro era certo, né? Chega no fim do mês, está ali. E no começo tinha a tesouraria. Era quase que nem fábrica, formava aquela fila para receber o envelope, né? Formava aquela fila na tesouraria, aí a tesouraria recebia fulano de tal, pegava o envelope. Já tinha quando era para descontar alguma coisinha, descontava porque nós éramos de cooperativa... porque a gente andava meio mal de situação, então comprava alguma coisinha na cooperativa pra levar para casa. Quando era casadinho, novo.

P/1 - Quem era os mais simpáticos, os juízes, os advogados? Quem é? O pessoal que vinha de fora?

R - Antigamente, nessa época, todos eles eram amigos da gente. Conversavam, brincavam. Que nem, quando era festa do dia 8 de dezembro, juiz ia, ia advogado, ia desembargador, todo mundo misturado com funcionário. Não tinha nada de “doutor, fulano”, não tinha nada sobre isso, né? Então eles faziam uma lista, cada cartório fazia uma lista, né? Que era para ver se arrecadava alguma coisa do advogado que era para comprar. Então tinha advogado que era da Antarctica, aí ele dizia: “Bom, eu mando a quantidade que for preciso da Antarctica”. Naquela época. Aquele que era o advogado de umas padarias, “eu mando pão.” E assim, nós recebíamos tudo de graça, para fazer a festa. E o juiz com a gente, vinha junto, advogado, promotor, desembargador, mas depois, foi indo, foi indo, e eles já não conversavam mais com a gente. Que nem, a mocidade agora então... Inclusive, tinha uns aí, que eu era ascensorista, quando passa perto, eu fico daquele jeito, já cresce o meu peito. “Não vai falar nada que se não leva no peito”. (risos) Porque teve uma vez que sumiu uma arma, aí eu estava trabalhando na sala, porque eu trabalhava no corredor e depois uns cinco dias passei para uma sala, porque um rapaz foi para encarregado, que limpava a sala. Então passei a limpar sala. Aí, depois de uns tempos, sumiu um revólver, mas ninguém sabia que tinha sumido esse revólver. Aí, quando a pessoa terminou o processo e veio para retirar o revólver, estava faltando, não tinha baixa no livro. Então, o escrivão chamou o chefe, o diretor da limpeza, disse: “Sumiu um revólver e todo mundo desse andar tem que ir para o DEIC. Eu disse: “Pelo amor de Deus”. 

P/1 - Fazer o que?

R - Ir para o DEIC.

P/1 - O DEIC.

R - O DEIC, lá na Brigadeiro Tobias. Aí eu fiquei com medo, porque eu sabia... Fiquei com medo porque ali a gente apanhava, né? Aí eu fiquei com medo. Quando chegou os funcionários, nós já estávamos todos prontos, esperando a perua do lado do Corpo de Bombeiros ali, que era para subir na perua e já ir fazer... passar pelo DEIC, aí, veio o escrivão e falou: “Ah, não precisa não, porque o filho do desembargador pegou o revólver e esqueceu de dar baixa.” E não veio pedir desculpa. E aquilo ficou comigo, porque eu sou triste, você sabe? Aí, quando nós passamos na Caixa, na Caixa Econômica, que antigamente dava para dentro do Fórum, e a porta era assim... quando eu via que era ele, ou eu diminuía o passo, ou se não eu apertava o passo, porque eu queria passar na frente dele. Ele que passasse, tentasse passar que eu levaria no peito. Eu era triste.

P/3 - O senhor brigou muito já?

R - Não, só discutia assim. Brigar, não. Se gritava comigo, eu ficava... Desfazer de mim, eu ficava muito bravo.

P/1 - O senhor começou no tribunal em que ano?

R - Em cinquenta... No fim de 1956, comecinho de 1957.

P/1 - Como é que era o bairro nessa época?

R - Não tinha Bradesco... Aí, nesse lugar que é o Bradesco estão... Formando o Bradesco também, era um buraco enorme e tinha só tapume.

P/1 - No Bradesco?

R - É, no Bradesco, na Liberdade ali, no comecinho. Não tinha isso aí. E...

P/1 - E a Praça João Mendes, era muito movimentada?

R - A Praça João Mendes, nessa época, era muito movimentada. A Santa Tereza, que é a padaria hoje em dia, que era a Santa Tereza, ela não fechava, ficava a noite toda e não tinha problema da gente andar na Liberdade, aqui na rua da Glória, tudo, de madrugada, qualquer hora podia andar, não tinha problema nenhum. 

P/1 - Em que momento, o senhor vai trabalhar no Paulistano da Glória?

R - E?

P/1 - No Paulistano? Quando foi que o senhor foi trabalhar lá?

R - Quando eu trabalhava?

P/1 - Em que ano o senhor começou no Paulistano?

R - Ah, em 1956.

P/1 - Também?

R - 1956...

P/1 - As duas coisas?

R - É, porque eu estava trabalhando no bar, fora, aí o patrão, seu Geraldo... O falecido Geraldo Muraca, perguntou quanto eu ganhava. Então ele pediu, se eu quisesse ir ele pagaria mais. Eu disse: “Mas, eu não vou sair daqui, agora, né?” Depois de uns quatro dias, aí eu fui trabalhar no Paulistano, ganhando mais, e trabalhando no Fórum.

P/1 - É, mas o senhor estava trabalhando no bar?

R - Trabalhava no bar, do lado aqui... Onde estão aqueles meninos... Um que a senhora foi procurar ele, né? Então trabalhava ali, depois o patrão, dono do Paulistano, perguntou se eu queria... Devido ao meu jeito...

P/1 - Mas, escuta seu Fernando, o senhor trabalhava no bar que horas? Dos meninos?

R - Das duas horas. Das duas horas até fechar, que eu saía uma hora.

P/1 - Do Fórum?

R - Do Fórum. Eu saía à uma hora. Ficava de plantão...

P/1 - Uma hora da tarde?

R - Eu saía à uma hora da tarde, que eu entrava às seis, das seis à uma. Depois, às duas horas eu entrava no bar. Aí, quando eu mudei melhorou um pouco, quando eu fui trabalhar no Paulistano, né? 

P/1 - Aí, o seu Muraca que convidou o senhor?

R - É, o seu Muraca me convidou, fui trabalhar.

P/1 - O que o senhor veio fazer no Paulistano?

R - No Paulistano era para trabalhar no balcão de bebida, de refrigerante e cerveja, só.

P/1 - Conta como é que era a vida no Paulistano?

R - Naquela época, a vida no Paulistano era muito boa. Porque a pessoa não precisava nem tirar ficha para vim beber, porque era tudo amigo. E eram sempre aquelas mesmas pessoas, de terça à quinta, sexta, sábado e domingo. Então era sempre aquela pessoa que vinha, dizia “Ah, depois eu tiro.”  Então, nós tínhamos confiança nas pessoas, né? Eu que tinha, porque eu era o responsável.

P/1 - Sempre as mesmas pessoas como?

R - Os frequentadores.

P/1 - Ah, tá, tá.

P/3 - Eram os mesmos?

R - Sempre os frequentadores eram os mesmos.

P/3 - E o Paulistano nessa época, o que ele era? Era uma casa de show...

R - Ah, tinha muito show. É...

P/3 - Tinha escola de samba?

R - Era... Paulistano da Glória, né? Era Paulistano da Glória porque era Escola de Samba da Glória... Paulistano da Glória, a Escola, né? Aí tinha muito show de sábado, de quinta-feira, vinham muitos artistas aí.

P/1 - Tipo quem, mais ou menos?

R - Inclusive, estão aí as fotografias. Eu não marquei o nome, mas tem umas pessoas que eu estava mostrando lá no bar, que lembraram. Aquele que eu mais lembro é o Noite Ilustrada, né? O Noite Ilustrada era o...

P/1 - Ele ia cantar lá?  

R -Ia cantar, fazer show. Mas antes de fazer show, a gente começava a jogar palitinho, para ver quem pagava o conhaque. Ele falava que ele estava com um pouco de pigarro, então era para pagar o conhaque. Então nós jogávamos antes dele fazer o show, nós jogávamos lá umas cinco, seis vezes, o palitinho. Se ele perdia, ele pagava, se eu perdia, eu pagava. Nós tomávamos bastante conhaque. (risos) Aí, quando eu perdia, ficava ruim, porque quando ele estava cantando, que ele já estava de saída para cá, porque ele tinha que largar o microfone e já correr, aí então ele falava: “Seu Fernando lá do bar está fazendo aniversário e a festa é por conta dele.” Quando vinha aquele enxame, eu abria a porta, fechava a porta e saía para o meio do salão também. Aí formava aquele barulhão também. E eu falava: “Você é triste, né, Noite?” E ele dava risada. Assim. 

P/1 - Mas, só para contar a história. O Paulistano, em 1956, ele tinha um cordão que saía no carnaval?

R - Tinha, sim senhora.

P/1 - Como é que chamava o cordão?

R - Paulistano da Glória. É, Paulistano da Glória, cordão Paulistano da Glória. 

P/1 - Como é que era, o senhor lembra como é que saía?

R - No começo tinha muita baiana. Essas pessoas de idade, as baianas, depois tinha a comissão de frente e tinha os músicos todos que tocava. Tinha bastante gente.

P/1 - Isso aí era no carnaval?

R - No carnaval.

P/1 - Na rua?

R - Na rua. Formava... Fechava ali perto e então formava aquele cordão. Depois, aqui em baixo do viaduto, que ficavam os ônibus, então descia tudo a pé aqui e aí subia no ônibus para ir na avenida São João, naquela época, para desfilar. Antigamente era na avenida São João.

P/1 - Desfilava mesmo?

R - Desfilava.

P/1 - Mas não era muito grande. Era um cordão pequeno?

R - Não, era grande. 

P/1 - Era grande?

R - Tinha mais de umas duzentas pessoas.

P/1 - E como é que eram as alas? Tinha ala também?

R - Tinha diversas alas, mas agora assim, eu também não lembro. Tinha diversas alas.

P/1 - Mas esse o cordão, começou cordão e depois veio a escola de samba?

R - Depois veio a escola de samba.

P/1 - Aí que tinha a ala das baianas?

R - Aí que tinha a...

P/1 - E antes de virar escola de samba, quando era só cordão, como era?

R - Cordão era com mais pessoas de idade também. Formava aquela moçada e as pessoas de idade e os senhores assim, que nem, grandão era para ser a comissão de frente. Então, como eu gostava muito de roupa branca e gosto, graças à Deus, então eu só ia para tirar medida, mas eu não saía porque tinha vergonha. Então eu tirava a medida para pegar a sandália, o sapato, a camisa e a calça. Aí assinava ali o recebimento. Aí eu saía... como eu sabia que eles vinham para cá, então eu ia tomar cerveja até aquele horário que eles saíam, né? Aí, eu pegava e vinha, “Mas você não foi desfilar?” “Perdi a hora.” E assim eu estava sempre perdendo a hora, esperando eles saírem. 

P/1 - Você não queria sair?

R - Não... Eu não tenho jeito, assim, para desfilar. Só depois... vou ser franco, depois que eu bebesse umas três, talvez eu podia desfilar. Umas três, né? (risos) Antigamente, nós tratava tomar umas três Penha-Lapa, que era grande, né? A caipira... 

P/3 - Cerveja?

R - Não, a caipira.

P/3 - Chamava Penha-Lapa? (risos)

R - Chamava Penha-Lapa. Então hoje em dia nós trata Jabaquara-Tucuruvi, porque aí aumentou o tamanho do copo, né? 

P/3 - Que é a linha norte-sul.

R - É.

P/3 - Do metrô.

R - Agora é. 

P/3 - Jabaquara-Tucuruvi.

R - Porque aumentou o tipo do copo, né?

P/3 - Copão.

R - Copo grande.

P/3 - Ai, que bacana.

R - Aí, eu falava: “Se eu tomasse assim, umas três Penha-Lapa, dava para sair.” Mas eu não tomava porque eu tinha que trabalhar. Eu tomava, mas não tinha vontade também, de sair não.

P/3 - O seu Fernando, agora o pessoal chega no bar e pede um Jabaquara-Tucuruvi?

R - Eu peço.

P/3 - Assim mesmo? 

R - É.

P/3 - “Dá um Jabaquara...

R - Vem coada e com uma pedrinha de gelo, aí já vinha um…

P/1 - Ah, pede hoje em dia isso?

R - Nós falamos, né? Aí a gente fala: “Dá um aí para firmar.” Aí já dá um daqueles copão americano, uma espremida, já cheio, com uma pedrinha de gelo. Isso é para firmar. Se tiver firme, então já pede uma Jabaquara-Tucuruvi.

P/1 - Mas, o que o senhor fazia lá dentro? No que o senhor trabalhava tanto?

R -  No Paulistano? Eu trabalhava no bar de bebida. Depois, na hora que os artistas terminavam de cantar, eu já estava bem alegre, né? Então as moças vinham, que vinham, em cima. Então eu pegava na mão deles, assim, e saía correndo. Porque elas não estavam esperando, chegavam bem na porta assim, então eles largavam o microfone na mão de outro e então, a gente...

P/1 - Tirava ele de lá?

R - Tirava ele de lá, por causa das mulheres. Porque as moças também agarravam e ficavam tudo em cima, beijavam, apertavam. E eles ficavam um pouco com medo naquela época, né? Mesmo assim...

P/1 - Mas, o senhor lembra... O Geraldo Filme, o senhor conheceu?

R - Conheci.

P/1 - Conta do Geraldo Filme.

R - O Geraldo Filme, conheci ele no Paulistano, que ele foi sambista e tudo, e ele gostava de fazer um abatimento, porque ele era muito conhecido no Paulistano, dos patrão, então ele trazia a turma da faculdade e pagava meia para poder entrar. Pagava meia, depois entrava... Quando era aniversário, que era sexta e sábado… Na sexta então, quando tinha aniversário vinha um e falava: “Deixa dez mesas para mim.” Então aquelas dez mesas, eu falava para o garçom. E aí eles vinham, um pagava meia e os dez, quinze que chegassem com o aniversariante não pagavam, ganhavam aquilo como brinde. Depois ele falava, dava ordem: “O que a mesa pedir, pode deixar que depois eu pago.”

P/3 - O Geraldo fazia isso?

R - É, o Geraldo  pro aniversariante, né?

P/1 - Mas, que faculdade? ele não fazia faculdade.

R - Não, não. Ele estava na faculdade...

P/1 - De que?

R - Não, ele ficava ali por causa dos estudantes, né?

P/1 - De direito?

R - De direito, no Largo São Francisco.

P/3 - Eram amigos? 

R - É. Porque quando tinha festa, ele que levava o conjunto para tocar lá. Quando tinha alguma festa, um aniversariante, que fazia uma despedida, quando se formava. Ele que levava, então ele pegou muito conhecimento com as pessoas.

P/1 - Ele não se apresentava? Ele não cantava?

R - Cantava, cantava. Tem um samba que é... da Bela Vista, que ele canta até hoje... Canta até hoje... ele faleceu, Deus que ponha no lugar que merecer. Ele cantava na Bela Vista, no cordão...

P/1 - Que música, o senhor lembra?

R - Ah...

P/1 - Sabe cantar?

R - Eu? Não, senhora.

P/1 - Não.

P/3 - Aquela do Bexiga que ele...

R - Aquela do Bexiga.

P/3 - “Quem nunca viu o samba...”

R - É, “quem nunca viu o samba amanhecer, vai para o Bexiga para ver.” E ficava mesmo, por lá, chegando ali seis horas, tava que tava, pegando no breu. E a italianada gostava também, naquela época. Agora, depois de uns tempos, que veio umas pessoas de idade já...

P/3 - Junto com o Geraldo, tinham outros sambistas que vinham, que o senhor lembra?

R - Lembro.

P/3 - De quem que o senhor lembra assim?

R - Batista de Souza, que morava aqui na Liberdade, na rua da Glória, aqui em baixo. Vinha, também cantava aí, dava aquelas canjas, né? Tanto um como outro. E quando veio para cantar... Um que é falecido, que esteve preso? Um cantor... esqueço o nome dele. E ele cantava... Dava o microfone para o Batista de Souza, que o Batista de Souza, que sentava ali, também cantava, e começava a chorar por causa das músicas, tudo. Eram umas músicas que cantava antigamente, e machucava, porque você entendia e dava para você ouvir, né? Era interessante.

P/1 - Era um cantor?

R - É, era um cantor...

P/1 - Antigo esse cantor?

R - Antigo, que foi preso com droga... Ele morreu agora, tem pouco tempo.

P/3 - Baden Powell?

R - Como?

P/3 - Baden Powell?

R - Não, não.

P/1 - Simonal?

R - Não, não. Também não. Esse era branco, magro...

P/3 - Raul Seixas?

R - Também não. (risos) Cantava muito bolero.

P/1 - Bolero?

R - É. 

P/1 - Mas... Tinha muita gente famosa na casa?

R - Ia, porque naquela época ia. Que na época, tinha que ir de paletó e gravata, né? E o sapato bem limpinho, tinha até dois engraxates na porta, que era para... E eu alugava gravata, porque às vezes, a pessoa vinha, né? Sem gravata. Então eu alugava gravata. Era uma mixaria. Como... eu não cobrava nem... assim, cobrava um para devolver, né? Deixava pra lá, porque “se devolver, está bom”. Aí devolvia, se não esquecia, ia embora para casa. No dia seguinte, trazia para o próximo baile...

P/1 - Mas as pessoas iam assim, todo dia, ou iam em festas que o Paulistano dava?

R - Não, tem outros frequentadores, muitos advogados, que sabiam que eu era ascensorista e sabia que eu frequentava aí, né? Então eu falava: “Esses aí, quando chegar, não precisam pagar.” Tem pessoas que não gostam de pagar, porque o que eles gastam lá dentro, eles gastam muito mais. Então entrava já ali, já pagava uma cerveja para mim, e ficava conversando, “Vamos tomar uma cerveja.” Depois virava para o whisky. Eles queriam mais era cerveja, e eu fazia também a minha caipira também, do lado do balcão, assim. Ou se não, pedia para esses meninos que estão hoje em dia, eles faziam a caipira lá, batiam dois litros de pinga no liquidificador, coavam, davam para mim, então levava para...

P/1 - Os meninos do bar ali?

R - É, do bar ali. Agora, esses que estão aí. 

P/1 - Como é que chama aquele bar?

R - Eu não tenho lembrança, a senhora sabe? 

P/1 - Mas me diga uma coisa, não tinha seguranças dentro do Paulistano?

R - Não, naquela época não precisava. 

P/1 - Não tinha briga?

R - Não, só tinha... tinha do tempo da guarda civil, que era obrigado. Tinha dois guardas civis, mas era tudo amigo, tanto os guardas civis... E a frequência também era boa, não tinha briga.

P/1 - E nem tinha baixaria?

R - Não, não. Não tinha também.

P/1 - E as mulheres, eram...

R - Bom elas também, queriam mostrar bem a roupa delas, porque eram mais empregadas domésticas, então elas vinham tudo... Quando era sábado, sexta-feira e domingo vinham tudo impecáveis, né? 

P/1 - Não eram garotas de programa?

R - Não, não. Não, senhora.

P/1 - Agora, dentro de... Chamava de uma gafieira, o nome da época?

R - Tinha, era de terça-feira, era gafieira...

P/1 - Gafieira era em um dia só?

R - Era em um dia por semana. 

P/1 - O que tocava na gafieira?

R - Era mais assim, mais samba, né? Esse samba mesmo... eu não sei como é que se diz isso, esse tipo de samba. Era um samba mesmo... que era para dançar. E era sapato bico fino, bem engraxado, jogava parafina no chão...

P/3 - Para não escorregar?

R - Não, para escorregar mesmo.

P/3 - Para escorregar?

R - Parafina, fubá, vela, quando não tinha mais parafina... O zelador esquecia, então pegava um maço de vela e passava  no ralador de queijo e aí num instante formava uma porção de vela ralada, e jogava assim. Então, ficava...

P/1 - Era um conjunto que tocava? Sempre o mesmo?

R - É... O músico mesmo que ficou lá, ficou, eu acho que uns vinte anos, ou mais.

P/1 - No conjunto?  

R - No conjunto. Depois mudou. Aí ele morreu, ficou para outro, mas tinha esses conjuntos de pagode também, né? Mas o conjunto ficou lá muitos anos. Até agora, ele... Antes de terminar, o conjunto estava...

P/1 - Você lembra o nome do conjunto?

R - Era "Ben e o seu Conjunto". Era o dono do conjunto, era...

P/1 - Esse que ficou bastante tempo?

R - É, esse que ficou bastante tempo. Esse de agora, que era Pedrinho e o seu Conjunto, que ficou mais do que o primeiro porque o primeiro já era antigo, né? Ficou, eu acho uns 30 anos, depois esse aí também...

P/1 - Agora, quando não era o dia da gafieira... Gafieira era na terça?

R - Terça-feira.

P/1 - Qual era a diferença entre o dia da gafieira e dia que não era gafieira?

R - Qual o dia que era melhor?

P/1 - Não. Qual é a diferença?

R - Porque aí eram umas músicas mais selecionadas, né? Na quinta-feira, sexta-feira...

P/3 - Bolero.

R - É, bolero. E na sexta-feira também, já corria um pouco de gafieira também, né?   P/1 - Corria?

R - É, porque o pessoal gostava. Depois, naquela época, o lencinho na mão também. Porque um dos patrões não deixavam dançar sem o lenço, para pôr nas costas da moça, assim, da dama. Se não tivesse lenço, ele...

P/1 - Batia no ombro? Ele dizia que não?

R - Não, que não podia. Já sabia a regra da casa, né? 

P/1 - O que mais era regra da casa?

R - Era de paletó e gravata, sapato limpo e de lencinho... Lenço, para poder dançar com a dama.

P/1 - Então, não podia “dar tábua”, né?

R - Não, não. Porque “dar a tábua”, aí podia ficar até pior, né? 

P/1 - O que acontecia?

R - Brigava, né? Todo mundo brigava, ou se não largava, vinha chamar um dos diretores, o dono da casa, para chamar da moça a atenção e a moça então, às vezes ficava até suspensa, né? Uns dois bailes. 

P/1 - Mas, era o que? Era um sistema de sócios, uma sociedade?

R - Eram três sócios. 

P/1 - Não, quem ia tantas vezes lá...

R - Não, não, era ingresso. Agora, os sócios que a gente saía na escola de samba, como não tinha carteirinha, que nem eu tenho, né? (Sr. Fernando mostrando a carteirinha). Então pagava meia, ou se não nem pagava naquela época. Entrava...

P/1 - Não tinha aquela coisa dos estatutos da gafieira? Não pode dar umbigada, não tinha umas coisas assim?

R - Não, não tinha esse estatuto não.

P/3 - O senhor é sócio-fundador. Oh, que beleza. O senhor participou da fundação?

R - No começo, né? 

P/3 - Como é que foi isso? Vocês juntaram, conversaram?

R - Foram fazer o... Precisava de bastante sócio, porque era para fazer inscrição na...

P/3 - Na Liga?

R - É, na Liga. Então, aí entrei como sócio, mas funcionário também entrou como sócio-funcionário… o… entraram como sócio, porque não pagava nada. Então, foi assim.

P/1 - Quem foram realmente, junto com o senhor, os fundadores do Paulistano? Um fala que um, outro que é outro...

R - É... O Bituxa Muraca, o Juca... agora, eu não lembro o sobrenome dele. Depois, Geraldo, também Muraca. Eram três sócios. E esse último, Geraldo Muraca, era sócio de três salões. Era desse aqui, do Lílas e do Metropolitano, que é na avenida Jabaquara, na estação Saúde.

P/1 - Falando do Lílas, como é que era esse? Onde era?

R - O Lílas foi um baile muito bom. Quem frequentava mais eram as pessoa brancas, né? Não frequentavam muito, as pessoas de cor. E o de cor, quando frequentava também, ia bem vestido. Não era que ... Era regulado, né? Estando bem vestido entrava, porque as pessoas que estavam ali, era seu fulano, seu ciclano, beltrano... Depois, de domingo que ficava bom, a matinê, porque ia muitas portuguesas que trabalhavam na feira no sábado e no domingo de manhã. Como na segunda-feira era folga, então no domingo ficava assim, o movimento.

P/3 - Ai que delícia.

R - Eu trabalhava também lá no balcão, porque, às vezes, eu ficava nervoso nesse salão aqui. Aí, para ele não me mandar embora, para não deixar eu sair, ele me mandava ficar no outro, um ano, dois anos. Aí, eu ficava nervoso eles me mandavam para cá. Depois ele mandava ir lá para tomar conta do salão. Ele que tomava conta de quinta, sexta, sábado e domingo.

P/1 - De qual?

R - Do Metropolitano. Aí, depois na terça-feira, ele ia para lá para fazer a conta... Eu, como trabalhava no Fórum, saía à uma da tarde, eu ia para lá para fazer a conta, porque eu não sei escrever direito, mas via a conta. Na hora que o outro sócio dele dava aqueles ingressos para poder vender, o troco, né? Eu via ali para marcar e eu fazia um sinalzinho no troco que foi depois, aí quando recolhia também, eu ia lá junto, fazia, depois conferia alí com ele e aí fazia uma assinatura. Depois, batia; “estava certo”, “estava certo”. 

P/1 - Quer dizer, o senhor trabalhava em três casas, né?

R - Eu trabalhei nas três casas...

P/1 - Paulistano, Lílas, e no...

R - Metropolitano.

P/1 - Esse Lílas, onde é que ficava?

R - Ficava na rua Alberto Simas, ali atrás da Caixa Econômica, na Clóvis Bevilacqua.

P/1 - Não existe mais?

R - Senhora?

P/1 - Não existe mais?

R - Não, não senhora. Também, porque já fechou, porque foi morrendo os sócios, né? Aí o último que ficou, ficou muito ruim, morreu. Depois, o outro também, perdeu a vista, ainda está vivo até agora. Foi vendendo porque tinha as filhas, mas eram de menor. Ele disse: “Então eu entrego a minha parte porque eu não estou enxergando, para não passar nervoso.”

P/1 - Como é que era esse salão Lílas?

R - O Lílas era... era no andar de cima, tinha o saguão, depois subia uma escada... Era no andar de cima. 

P/1 - Eles tocavam outro tipo de música?

R - Ah, aquelas músicas já eram mais diferentes do Paulistano da Glória, né? Era um outro tipo de música, né? 

P/1 - Agora, o Paulistano era samba mesmo?

R - Samba. Paulistano sempre foi samba. 

P/1 - O que mais tinha de regra no Paulistano? Por exemplo: engraxar sapato, gravata, lenço na mão, não podia “dar tábua” e o que mais?

R - Não podia entrar “quente”, né? Podia ficar “quente” lá dentro, né? Mas entrar “quente” não… (risos) 

P/3 - Que aí já nem entrava?

R - Nem entrava. Quando ia pagar, já estava entrando, que ficava assim, né? Aí os dois ali, o patrão e o outro que recebia, que era para dar porte de arma, para revistar, então ele falava: “Não pode entrar. Deixa para amanhã que é melhor.” Agora… porque, se ele ficasse bravo: “É, mas não estou sujo, estou com sapato limpo, vê o colarinho da minha camisa, está limpo.” Aí então, começava a insistir: “mas você está um pouquinho ‘quente’ e você sabe que não pode entrar ‘quente’.” Aí conversava, conversava com ele, ele ia embora, ou ficava ali no bar, ou senão ficava no bar de cima. Depois ia embora e no dia seguinte ele vinha direitinho. Aí o patrão até deixava ele entrar sem pagar. E também, ia melhorando, não chegava mais de fogo.

P/1 - Tinha uma educação.

R - É, educação. A gente explicava… O que não podia era uma pessoa ficar brava, mas a gente explicava...

P/1 - Quem eram essas pessoas que ficavam na porta, tomando conta da educação?

R - É que explicava, né? Tanto o patrão e o outro que ia dar porte de arma. O patrão recebia os ingressos, cortava e jogava na urna, aí o outro era só para revistar. Então quando chegava uma pessoa para comprar ingresso, que estava meio “quente”, aí o patrão falava: “Vai lá avisar ele, fala que não pode entrar.”

P/1 - Esse patrão, quem era mesmo?

R - Era o que ficava mais na porta... Era o seu Bituxa e um pouco também, depois o seu Juca, era o patrício.

P/1 - Como é que o Paulistano se dava com o pessoal do bairro? Como é que era a relação deles com o bairro?

R - Era muito boa. 

P/1 - Como assim?

R - De conversar, de cumprimentar, e não tinha de vizinhança, porque tinha umas moradias mesmo, não tinha ninguém assim, que viesse reclamar... Ah, só teve uma vez que reclamou, um delegado da Praça da Liberdade, veio reclamar aí. Daqueles delegados coroa mesmo, enjoado. Pôs o pijama e o paletó preto e chamou a polícia para vir com ele e mostrar como fazia barulho. Aí, levaram um dos patrão até o apartamento dele, até é o prédio, para ver como é que saía o som. E dava o mesmo som. Aí mandaram fazer uma reforma enorme, então não saía mais o som para fora. 

P/1 - Mas as casas que tinha na rua da Glória, não reclamavam?

R - Não, ninguém reclamava. Só houve essa reclamação, mas foi de um delegado, mas também acho que por intermédio da... dos prédio, dos inquilinos do prédio, né? Eu acho que falavam para ele. Era o único delegado que, naquela época, esse delegado, doutor Cobra, era triste, então reclamavam para ele. Aí, depois ele veio aí. Pôs aquele... De pijama, de chinelo e de capote, então deve ser alguma coisa importante. A pessoa ficava assim... (risos)

P/1 - E o trânsito, como é que ficava com tanto carro de madrugada?

R - O trânsito não atrapalhava, tinha trânsito a noite toda e tinha bastante carro de praça, que era amigo. Às vezes ele entrava para tomar uma cerveja lá dentro, preferia entrar, tomar uma cerveja, duas cervejas, deixava o carro lá para esperar a vez dele, do que ele entrar no salão. Então deixava para ele tomar uma cerveja lá porque aí viam que ele estava a serviço, que ele não ia dançar. Só para ver mesmo, já tratava das pessoas assim: “Tô aí fora, se quiser depois, aí desce, me avisa.” Aí vinha antes de terminar o baile, para ver se ele já estava de saída... “Se você sair antes do baile, você sai e volta, porque eu vou aguardar.” Então nós ficávamos na porta com as pessoas que esperavam... Porque sempre era bom arrumar um motorista conhecido para levar. Está certo que não tinha tanto Passat como tem hoje, mas procurava uma pessoa amiga, conhecida.

P/1 - Não tinha assalto?

R - Não, graças à Deus não...

P/1 - Era difícil?

R - Era difícil.

P/1 - Dava para andar, por exemplo: você saía tarde desse serviço...

R - Saía. Podia andar aqui na Liberdade, que não tinha problema. Subia que eu pegava... descia na Conselheiro Furtado o meu ônibus. Nós tratamos ele de negreiro, né? Ele subia ali, para depois subir aqui para a Liberdade, então eu pegava...

P/1 - Negreiro?

R - Negreiro, que é da madrugada. Nós tratamos ele de negreiro, né? 

P/1 - Por que negreiro?

R - Porque é o que funciona só a noite, né? Esse ônibus é o negreiro, que nós tratamos. Hoje ainda existe de Santana mas, depois que termina ônibus, o metrô Santana, aí sai de lá meia noite e vem “catando”. Depois o ônibus fica rodando até às quatro horas da madrugada e faz o caminho que faz o metrô. Ele faz o caminho por cima, como faz o metrô. 

P/1 - Mas, olha, você já botou o metrô na história? Mas, e antes do metrô? 

R - O que?

P/1 - O Paulistano... Quando que fechou?

R - Ah, o Paulistano fechou agora...

P/1 - Há quanto tempo?

R - Uns dois anos, mais ou menos?

P/1 - Ah, tá.

R - Dois anos, fechou de uma vez mesmo, porque a pessoa não estava aguentando, ele estava com muita conta, né? Porque a senhora sabe, a gente que tem uma certa idade, passar uma responsabilidade para os filhos não é que nem a gente que... Sabe? Porque a moça que tomou conta era nova e ela só queria se embelezar. E o dinheiro que entrava, não era para pagar...

P/3 - As contas.

R - As contas. Foi indo, foi indo...

P/1 - Mas ela o que? Ela comprou o Paulistano?

R - Não, era do falecido pai dela. Porque como o pai faleceu, então ficou para ela, aí quando viu que ela também queria assim... Então, quando o sócio, que ficou sócio com o pai dela, viu que ela era desse jeito, então disse: “Não quero nada de você.” Passou tudo para ela, “Não quero dinheiro, não quero nada.” Passou. E então cresceu, né? Cresceu, aí foi gastando dinheiro, gastando dinheiro, depois não tinha...

P/1 - Como é o nome dela?

R - Iii, agora no momento, eu não lembro, a senhora sabe?

P/1 - E agora, aquela garagem que está lá, o que é? Alguém comprou o Paulistano para fazer a garagem?

R - Não, não. Parece que é alugada a garagem.

P/1 - E o terreno ainda é dessa moça?

R - Não, não. O terreno é de uma senhora, de um casal já, de idosos. Não cheguei a conhecer, mas eu fiquei sabendo...

P/1 - Sempre foi dela, dessa senhora?

R – Era de um casal que era o dono, então… ela não pôde pagar o que devia também, das prestações, aluguel do prédio, então ela foi despejada.

P/1 – Agora, me diz uma coisa, o senhor trabalhava no Fórum? 

R – Trabalhava no Fórum. 

P/1 – Depois, à noite no Paulistano. E o senhor dormia que horas? 

R – Às quatro horas. Eu estava acostumado. Vai indo, vai indo, depois tinha horas que eu chorava de manhã, né? Quando eu sentava na cama para calçar, por a meia e calçar o sapato, eu ficava assim, né? E chorando. Disse: “Até quando eu vou viver essa vida?” Mas eu estava precisando, então tinha que fazer essa vida muitos anos.

P/1 – Você saía às quatro horas do Paulistano, ia para a casa no Jabaquara...

R – Para o Jabaquara...

P/1 – Chegava às seis horas?

R – Não, não, quatro e meia da manhã, quinze para as cinco.

P/1 – E dormia uma hora?

R – Uma hora. Menos às vezes, mas estava já acostumado. Mas no começo é que foi triste.

P/1 – E de tarde, como é que era?

R – De tarde?

P/1 – É. Você ia dormir uma hora, aí vinha para trabalhar no Fórum, e a tarde o que é que você fazia?

R – Ah, eu ficava no estacionamento que tem em frente ali, jogando palitinho, comendo churrasco porque... Porque fazendo, eu fazendo movimento não sinto canseira. Eu sinto canseira se eu ficar parado. E a gente parado cansa muito mais também, né? E andando para lá e para cá, então eu vinha, ficava jogando palitinho até uma certa hora, depois tinha um advogado, e um japonês também, que morava ao meu lado, quando era dez horas eu falava: “Chega Fernando, vamos embora?” “Vamos embora”. Então ficava até esperando também, já essas duas caronas, que levava até a porta de casa.

P/1 – Escuta, antes do metrô e depois do metrô, da construção do metrô, que mudanças teve no bairro? Você sabe me dizer? O que você sentiu de diferença? Ou durante a construção do metrô...

R – Bom, durante a construção do metrô foi um pouquinho difícil para o bairro, porque aí começou a encher com muito tapume e tinha que passar em lugar estreito, assim. E naquele tempo ainda não era tão perigoso também, passar no meio do tapume e entre a parede, que dava para passar. Mas foi indo, foi indo, depois aí já não dava mais para passar também, que já estava havendo... Quando formou aqui a Praça da Sé. Aí, já era um perigo...

P/1 – Por que, qual era o perigo?

R – Por causa de ladrão, né? Aí já começou ladrão.

P/1 – Ah, começou ladrão!

R – É. Por causa que ficou escuro e com aquele tapume enorme para tampar aquela estação ali embaixo.

P/1 – Da Liberdade?

R – Não, da Praça da Sé, em frente à Catedral.

P/1 – Ah, tá. E quando foi aqui na Liberdade?

R – Na Liberdade também era tapume. Era um buraco enorme e era tapume, porque punham um tapume perto da calçada, depois entrava assim, beirando a parede a gente passava. Mas naquele tempo não tinha tanto ladrão como tem hoje, porque se encontrar no caminho... Porque hoje em dia... Antigamente dava, né? “Pode passar o senhor; não, pode passar a senhora”. Pronto. Mas agora, encontrar... Se você vai andando em um trilho, assim, na rua mesmo, de madrugada, você vê uma pessoa, você não sabe se você volta ou se continua. Você volta, olha para trás, vem vindo outra pessoa, pronto: “êta, meu Deus do céu”. Mas dá aquela friagem na barriga de medo, né? 

P/1 – É. Então, aí a noite já foi mudando, né?

R – Foi, a noite já foi mudando.

P/1 – Foi por causa do metrô que foi mudando?

R – Foi também. Por causa que teve lugar que era muito estreito para poder passar, né? 

P/1 – Aí começou a ficar perigoso?

R – Aí ficou perigoso.

P/1 – O metrô matou o samba da noite, então?

R – Não, não matou. Porque descia na Praça João Mendes, aí era o ponto de referência, porque era o bonde, tinha o bonde que vinha aí, depois o bonde ali no... Ali perto do Mappin, que vinha da Vila Madalena também. O bonde vinha até ali. Depois a turma podia passar, que é na Rua Direita, antigamente, que era só para as pessoas de cor a Rua Direita. Formava aquele paredão assim, para as moças passarem na frente e tudo.

P/1 – Na Rua Direita?

R – Na Rua Direita. Antigamente...

P/1 – Que ano isso?

R – Isso aí também, acho que uns trinta anos atrás, viu?

P/1 – Ah, mas era de pessoa de cor, era para fazer passeio?

R – Era. Depois tinha aqui também, na Praça da Liberdade, aqui onde tem os engraxates, que aí também nós tratávamos a conta da praia... porque aí onde ia ter festa na sexta, encontrava todo mundo aí. Depois, no sábado, quem podia vir na matinê, de manhã, depois que saía do serviço, à uma, às duas horas, então encontrava assim, para ver onde que tinha festa. Depois, na segunda-feira, ficava assim na Liberdade que era para saber o que aconteceu nas festas, como foi, se a festa era boa. Aquelas festinhas americanas, né? As moças levavam um pratinho e os moços pagavam ingresso, né? Naquela época era bom. 

P/1 – O senhor falou qualquer coisa dos engraxates. Engraxates de que praça? 

R – Aqui da Praça da Liberdade mesmo. Subindo assim... Subindo a Rua da Glória, ao lado esquerdo tem uns engraxates. Ali, que tem aquela lanchonete enorme ali na esquina.

P/1 – O senhor diria que a Liberdade era um bairro boêmio, antes do metrô?

R – Era, era. Porque tinha muita lanchonete por ali, a gente frequentava tudo, que nem aquele restaurante que tem... Terraço Itália. Era antigo ali, né? Antigamente o movimento era no Terraço Itália, que ainda era mais em conta. Mas foi indo, foi indo, e a pessoa mais ou menos não está podendo entrar lá, porque eles “enfiam a faca”.

P/1 – Interessante isso!

R – É. 

P/1 – Aquele pessoal do Paulistano sumiu, ninguém mais viu?

R – Sumiu. Quem está mais aí é só eu.

P/1 – É?

R – Só eu que venho, não veio mais ninguém. Às vezes encontro, assim, pelo centro da cidade, ou no bairro, às vezes encontro quando vou para algum bar lá no centro, você ainda encontra algum assim, mas está difícil de encontrar uma daquelas pessoas da antiga.

P/1 – E depois que terminaram de fazer o metrô e ficou tudo arrumadinho, como foi que mudou o bairro? Melhorou, piorou?

R – Ah, melhorou. Mas porque aí descia tudo na Liberdade, vinha o pessoal de longe, de metrô, e descia na Liberdade. Então descia aquele bando de gente, aquela porção de gente que já vinha para o Paulistano. Porque antigamente, no começo aí, formava aquela fila para poder comprar ingresso.

P/1 – Ah, é?

R – É, formava aquela fila. E terça-feira de carnaval, a fila ia até lá em cima, passava do bar, de onde que eu estava, ali. Virava a esquina lá, de terça-feira, tanto a matinê como à noite, ficava enorme. Então aí como punha duas caixas, então, ficava uma fila para lá, uma fila para cá e a fila também descia aqui para a Rua da Glória, que vinha quase até aqui em baixo. Que aí punha duas caixas para receber, né? Que era para ir mais depressa. 

P/1 – Que tipo de gente frequentava o Paulistano? Como é que eram as pessoas?

R – Eram umas pessoas... Era mais pessoa de cor e simples, né? Quando vinha do interior, primeiro salão que vinha era o Paulistano da Glória. Porque por intermédio, quem conhecia um dos colegas aqui que frequentavam... “Onde que tem um bailinho assim, para a gente passar umas horas agradáveis à noite, assim?” Então era o Paulistano da Glória. E aí foi indo, foi indo e melhorou.

P/1 – Não tinha também uma dupla de jornalistas que frequentavam?

R – Não.

P/1 – Nas sextas-feiras?

R – Na sexta-feira sim, por causa que era cliente da faculdade, que tinha também formandos jornalistas que vinham também para conversar, fazer entrevista com alguma pessoa, sobre salão, baile. 

P/3 – O senhor lembra a primeira vez que o senhor andou de metrô?

R – Não tenho lembrança não, viu?

P/3 – O que o senhor sentiu... 

R – Posso ter sentido o que ainda, às vezes, eu sinto. Conforme eu vou pegar, sinto uma friagem assim na barriga. Pode ser, acho... Essa já vem vindo há muito tempo junto comigo, né? (risos)

P/1 – O senhor tem medo do metrô?

R – Não, não é medo, mas parece que dá uma coisa. E quando o metrô também… a gente está dentro do metrô e dá aquele breque, a gente assusta, porque tem horas que ele dá um breque, se a senhora não estiver segura, avança em cima da outra pessoa do lado. Aí dá medo, quando ele pára muito tempo, assim, na parede. Já aconteceu uma vez comigo, mas estava cheio, tinha umas trinta pessoas no vagão, então, para não desesperar eu disse “calma que nós paramos na parede”, e aquela fumaça. E teve uma senhora que ficou com medo. Então eu abri a porta, forcei a borracha: “Mas, não estou aguentando, não estou aguentando porque...”, aquela correria, mas era o terceiro vagão como quem vem do bairro para a cidade, e estavam vindo todos dos seis vagões da frente, e correndo para trás.

P/3 – Pelo túnel?

R – Pelo túnel. A lateral ali, pelo túnel. E a gente passava a mão para segurar aquilo no ferro, você tinha que ver como que você ficava. Mas aqui, assim, ficava aquela poeira, que formou a sujeira, e uma sujeira preta. Mas ficou... Deu o que fazer para sair da mão. Aí, porque ficaram com medo, começaram a gritar, gritar, eu disse: “Também não vou dar uma de herói, porque também estou com medo, mas não quero mostrar porque todo mundo fica com medo e mostra e aí torna-se pior”. Então eu dei uma batidinha ali na caixinha, puxei o ferrinho, prendi embaixo, a porta... Depois para sair assim, porque o pessoal vinha correndo, passava na gente assim batendo, e a gente batia no vagão e voltava...

P/3 – E conseguia sair.

R – Para subir aqui para a Liberdade afora, até esvaziar. Aí depois veio, encostou ela na Estação Ana Rosa, que ali que tem um para desembocar assim, quando acontece qualquer coisa assim na linha. Aí, o vagão vai recolhido para lá.

P/3 – Nossa, que chato, né?

R – Só estando dentro para ver o medo. (risos)

P/1 – Mas foi a única vez?

R – Foi a única vez, que aconteceu comigo... Não, duas vezes. Uma vez a mãe deixou a menina entrar, e o menino pôs a mão para fora e a mãe ficou. E a criança gritando, não estava apertando, mas como ficou gritando, então, para não ir muito distante o metrô eu também quebrei, puxei, aí o guarda veio, os seguranças já vieram correndo, falaram “o que foi que aconteceu?”, “O menino ficou com a mão para fora. Então, ele gritando, gritando, não sei se estava apertando ou se já tinha passado na parede as mãos dele, e a mãe ficou na Estação Conceição”...

P/3 – Aonde?

R – Largo Ana Rosa. Aí então eles já comunicaram para lá, que já tinham pego o menino, que não tinha problema, o que aconteceu... porque a mulher também desesperou. Mas foi a mãe que foi culpada, porque tem que segurar. Eu seguro meus netos até hoje, com dezenove anos e a minha neta com dez. Seguro na mão e ponho na frente, porque se me empurrarem nós vamos juntos, nós dois, que aí entra mais depressa. Mas tem pessoa que não tem noção, deixa a criança entrar e fica brincando. Quando fica brincando assim na plataforma e, às vezes, a pessoa lá de cima está vendo, começa a recomendar... Mas a mãe não está nem aí. Então eu viro as costas porque às vezes a criança chega até a passar a faixa amarela e olha assim para ver se está mio... Aí eu viro as costas, digo: “Bom, eu não quero passar nervoso”.  Porque a mãe, que é a mãe, ou o pai, que é o pai, não estão nem aí, né?

P/3 – Seu Fernando, assim, aqui na Liberdade, o que o senhor mais gosta aqui do bairro?

R – Eu trabalhei em uma lanchonete pegado à Igreja dos Enforcados, muito tempo também, depois trabalhava no salão, no Metropolitano, então frequentava dia e noite, ficava sempre na Liberdade, aqui. A casa de vela Santa Rita que tem uns colegas daquela época também, de uns vinte e cinco, trinta anos atrás...

P/3 – Que trabalham lá?

R – Trabalham na... São três sócios que eram dessa época mesmo, trinta anos atrás, que já nós éramos conhecidos. Então quando não tem o que fazer eu vou lá na casa de vela, fico conversando com eles, depois eu falo: “Vamos tomar um café?” Então saíamos e íamos tomar café, que era um meio de sair dali. Depois então, quando chegar ali cada um toma o que quiser, né? (risos)

P/3 – Bom, seu Fernando, deixa eu perguntar uma coisa assim: o senhor sabe por que aqui chama Liberdade? 

R – Não.

P/3 – O senhor tem alguma ideia?

R – Não tenho. 

P/3 – E da Igreja dos Enforcados?

R – Disse que... é a Igreja dos Enforcados porque parece que foi enforcada uma pessoa, por isso que puseram o nome dessa igreja. Mas não tenho bem afirmativa não. 

P/1 – O senhor trabalhou lá perto? Como é que é o movimento lá nos Enforcados, na igreja?

R – Ah, de segunda-feira era um movimento enorme. Até hoje mesmo, de segunda-feira, quando é a primeira segunda-feira do mês ou a última segunda-feira do mês, que aí então vem bastante gente, para acender vela, para fazer a sua prece, né? 

P/1 – Não, mas espera aí que são duas igrejas...

R – Não, falei essa daí da Liberdade, depois a outra é lá embaixo.

P/1 – Embaixo?

R – É. Aquela também, tinha pessoas que também acendiam muitas velas ali embaixo. 

P/1 – Que a das Almas, que é aqui?

R – É, a das Almas é aqui, na Liberdade.

P/1 – E a dos Enforcados é lá embaixo?

R – A dos Enforcados é lá embaixo. 

P/1 – E o senhor conhece alguma história interessante, de gente que vinha acender vela?

R – Não, não tenho não.

P/1 – Nem em uma, nem em outra?

R – Não. 

P/1 – E como que é a sua convivência com os orientais aqui do bairro? 

R – Ah, é muito pouco, viu?

P/1 – Não convive?

R – Não, não tenho convivência não. É porque dois ou três, que são daquele tempo também, do Paulistano da Glória, que eles entravam aí, ou então ficavam ali, como eu tinha falado, em frente ao estacionamento, jogando palitinho. Então, era dois, três... 

P/1 – Mas japonês ia para o Paulistano da Glória?

R – Entrava.

P/1 – Muitos?

R – Muitos. Porque naquela época... Tinha uns que saia na escola de samba também, muitos japoneses. Depois, foram também quando fundou lá o Maloca da Zona Sul. A maioria de lá mais era japonês; japonês, japonesa, tudo que saia na escola de samba lá.

P/1 – E a comunidade negra aqui é muito grande?

R - A comunidade, pelo que eu vejo, parece que sim.

P/1 – E já era grande?

R – Não, não era não. De um tempo para cá é que parece que está crescendo.

P/1 – É?

R – É. 

P/1 – O senhor conhece as pessoas?

R – Conheço aí uma meia dúzia de pessoas, mas não convivo com elas. Conheço porque às vezes eu vejo eles em um debate ou se não pelo jornal, né? Conheço, mas não convivi com eles.

P/3 – A gente tá acabando agora. (risos) Se o fosse pensar assim... pra onde o senhor quisesse que tivesse metrô?

R - Não entendi.

P/3 - Tem muito lugar em São Paulo que ainda não tem metrô, né?  Onde o senhor acha que deveria ter, deveria chegar metrô?

R - Ah, para o lado de Santo Amaro. Santo Amaro e o outro lugar… Esticasse também o da Vila Madalena, que a gente como conhece um pouco mais pra lá da Vila Madalena, até onde que vai o metrô, né? Então ir esticando… Igual, o do Corinthians também, que esticasse até São Miguel… Porque a minha irmã mora pra lá, né? Então de vez em quando eu vou e desço na Tatuapé, aí eu pego o ônibus no Tatuapé, até São Miguel, alí perto da garagem grande, uma hora de ônibus. Agora, se esticasse o metrô, né? Já ia mais rápido.  

P/3 - Ia rapidinho…

R- É. 

P/3 - E senhor Fernando, assim, pessoalmente, qual é o sonho que o senhor gostaria de realizar?

R - É ter um barzinho pra eu “tocar”. 

P/3 - Para o senhor mesmo?

R - Para mim mesmo. Porque como eu conheço, eu até ficaria tão contente se eu passasse a escritura ou fosse arrendar o barzinho… E ficasse tão contente que se eu caísse duro, assim, dentro do que era meu, eu ia sossegado. Pro céu ou pra terra, né? Minha vontade… Porque como eu trabalhei muito tempo em lanchonete e bar, eu sei como é que tem que fazer as coisas, né? A comida… Que nem, quando eu trabalhava aqui na Liberdade, então quando era tempo de frio vinha aquela turma do Correios para tomar uma caipira e comer… uma sopa. Era uma sopa de feijão, com macarrão padre nosso, daqueles grandes né? Que o feijão até entrava dentro do macarrão. Então era uma linguiça e uma cumbuca, e eles vinham. Mas era, porque era sexta-feira, a pessoa fica mesmo na continuação, né? Então eu falava com o patrão e ele: “Vê aí, o que você quiser fazer.” Ele deixava na minha mão. Então eu fazia aquela comida pra ele, para a turma, aí ele ficava contente, porque ele sabia que entrava dinheiro. Começava na caipira “vamos tomar uma caipira, né? Hoje o tempo tá bom, vamos tomar uma caipira”, depois era cerveja e depois pediam comida, uma sopa. Mas era só mais sopa, né? E quando pediam uma porção de churrasco, que era para bulir com quem ia passando ou com quem estava do lado de fora, aí quando tava bem, mal passada, né? Jogava um pouco de vinagre, aí subia aquele cheiro, chamava atenção, “ah, dá para fazer um igual aí?”. Na hora. Esse é o meu sonho, de ter um barzinho, uma lanchonete...

P/3 - Tá joia, senhor Fernando.  

R - ...Mas se Deus quiser, ainda vou conseguir. Eu sou novo, sessenta e sete anos.

P/3 - É mesmo. 

P/1 - Tem a vida pela frente ainda. 

R- Ah, graças a Deus.

P/3 - Obrigada pela entrevista. 

P/1 - Obrigada.

R - Não querem dar só uma olhada nas fotografias? 

P/3 - A gente vai.

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