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História

O saber da gente, se a gente morrer, a gente leva, só serve para a gente mesmo

História de: Moacir Nonato da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/01/2021

Sinopse

O amazonense Moacir Nonato da Silva narra sobre sua infância e vida no seringal, descreve animais e hábitos da floresta, aborda sua experiência de trabalho e saída do anafalbetismo e percorre também temas como meio ambiente, empreendedorismo e educação do ponto de vista de morador do interior do Brasil.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Moacir!

R – Boa tarde.


P/1 – Gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento. Começa pelo nome.


R – Moacir Nonato da Silva. Eu moro em Carauari.


P/1 – Mas você nasceu em Carauari, ou em que cidade?


R – Em Eirunepé.


P/1 – Em Eirunepé. E qual é a data em que você nasceu?


R – Eu nasci no dia 1o de outubro de 1965.


P/1 – Vai fazer 30 anos... 40 anos esse ano.


R – 40 anos.


P/1 – E o nome dos seus pais?


R – Januário Nonato da Silva.


P/1 – Perdão, qual é o primeiro nome?


R – Januário Nonato da Silva.


P/1 – E sua mãe?


R – Osmarina Ferreira da Silva.


P/1 – Você lembra o nome dos seus avós?


R – Não, não conheci.


P/1 – Os seus pais trabalhavam em quê?


R – Ele trabalhava, cortava seringa, nessa época.


P/1- Ele está vivo ainda?


R – Não, já morreu.


P/1 – Trabalhava nos seringais?


R -  Era, nos seringais.


P/1 – E sua mãe trabalhava também?


R – Ela trabalhava em casa, ela cuidava da casa.


P/1 – Você tem irmãos?


R – Tenho.


P/1 – Quantos?


R – Seis homens.


P/1 – Seis homens! Todos homens?


R – E quatro mulheres.


P/1 – Ah!


R – Seis homens e quatro mulheres. [risos]


P/1 – Seis homens, mais quatro mulheres. Então dez?


R – Dez.


P/1 – Nessa escala você é qual?


R – Eu sou o terceiro e depois de mim ainda tem mais cinco.


P/1 – Moacir, me conta então, alguém também ajudou a criar você, alguma tia?


R – Ajudou não. Só os meus irmãos mesmo.


P/1 – Só os irmãos mesmo que iam ajudando?


R – É, irmãos próprios que ajudaram desde pequeno.


P/1 – E alguém mais cresceu junto com vocês, com os irmãos, primos?


R – Não. Não tenho nenhum primo.


P/1 – Moacir, como é que era a cidadezinha onde você nasceu, era uma cidade pequena? Como é que ela é?


R – Ela é uma cidade... Ela era pequena, aí quando eu vim a conhecer mesmo eu já morava dentro de um igarapé, sabe, eu já trabalhava. Comecei a trabalhar dentro do igarapé. Quando eu tive o entendimento, já era trabalhando dentro de um igarapé, um centro deserto, que não tinha ninguém no mundo, para a gente ir ver uma pessoa levava um monte de dias.


P/1 – Passava um monte de dias para ver alguém?


R – Um monte de dias para ver alguém. Se a gente precisasse assim, por um acaso, de um médico, um coisa, tinha que embarcar na canoa, andar um dia para poder chegar aonde estava o pessoal que podia dar um remédio, um negócio, sabe? Muito complicado.


P/1 – E como é que vocês brincavam quando vocês eram pequenos?


R – Não brincava, só fazia trabalhar, não tinha brincadeira.


P/1 – Não tinha brincadeira nenhuma?


R – Não tinha, não.


P/1 – Não sobrava tempo?


R – Não, só trabalhava.


P/1 – É?


P/2 – Quantos anos você tinha quando começou a trabalhar?


R – Dez anos. Com dez anos eu comecei a trabalhar, cortar seringa.


P/1 – E menorzinho também, você não se lembra de alguma coisa? Vocês nadavam no rio?


R – Ah, nadar, cair n’água, tomava banho, tomava sim. Igarapé, né? Quando era tardezinha é que a gente chegava, a gente ia lá, fazia aquela zoada, caía n’água.


P/1 – Qual é o rio?


R – Era o Juruá.


P/1 – O Juruá?


R – É, Juruá.


P/1 – A cidade Eirunepé é da região do Juruá?


R – Ela fica antes. Eirunepé e Carauari, ela fica antes Coari, ela é de Juruá mesmo que fica, entre um e outro.


P/1 – E o Juruá é um rio grande? Como é que ele é, conta para a gente.


R – É. O Juruá é um rio grande. O maior rio que tem é o Amazonas, né, mas o Juruá também, de rio pequeno, ele já é um rio muito grande. Ele entra no Solimões até Eirunepé. Onde era o Eirunepé ele ainda passa, né, mas até no Eirunepé a gente conhece. A gente não pode basear direito a longura, né, porque fica muito complicado para a gente.


P/1 – Deixa eu só entender também. O igarapé que vocês nasceram, era dentro de Eirunepé.


R – É, no mesmo município, né?


P/1 – Município de Eirunepé.


R – Eirunepé. Agora, só que nós nascemos lá, nós viemos ser criados mais, mais para baixo, mais para baixo de Eirunepé.


P/1 – E aí era esse igarapé?


R – Era, era o mesmo igarapé, era. Exatamente.


P/1 – E como é que a cidade de Eirunepé?


R – Eu não me lembro direito, porque eu não fui mais lá depois que eu vim de lá, sabe?


P/1 – É?


R – Não me lembro mais como é que é direitinho não. Porque... numa época que eu fui com um pessoal tirar madeira, nós passamos lá poucos dias, uns quatro dias, não deu para a gente olhar tudo, né? Mas uma cidade legal e tudo, uma vista, e na frente bonita.


P/1 – E aí você então começou a trabalhar com dez anos?


R – Com dez anos, é isso aí.


P/1 – Você e seus irmãos. Ou... ?


R – Não, meus irmãos também, todo mundo trabalhava, todo mundo. Nesse tempo não tinha negócio da gente estudar, né, que ninguém tinha escola, não tinha nada nessa época.


P/1 – Você ia com seu pai?


R – Eu ia com papai, ia com meu irmão, mais velho do que eu.


P/1 – E como é que é o trabalho no seringal?


R – É cortar seringas, tirar soro... Porque cortar seringa, naquela época, a gente cortava a seringa e vendia borracha. Você tirava o leite da seringa, defumava e vendia a borracha para poder comprar as coisas, mas a gente não tinha um patrão assim, né?


P/1 – Vocês trabalhavam... Seu pai trabalhava e vocês também, para alguém...


R – Trabalhava para sustentar a própria... Nós mesmos, né, que nós éramos muitos.


P/1 – Para um fazendeiro ali, da... ?


R – Não, para o dono do seringal.


P/1 – Tá. Mas, como é o processo mesmo de tirar a borracha? Corta, faz um... Conta para a gente como é que é?


R – Corta, aí traz o leito para casa, defuma, aí faz a bola, tipo uma bola mesmo, aí...


P/1 – Essa bola, como é que você consegue fazer essa bola? Você corta a ...


R – Corta, tira o leite, traz para casa...


P/1 – Tira o leite, bota num balde...


R – É. Aí traz para casa, aí quando chega em casa a gente coalha, coloca um suco desse... Suco mesmo, que a gente bebe, né, dentro do leite, ele coalha na hora.


P/1 – Suco de quê?


R – Suco mesmo, desses sucos, qualquer suco, morango, assim...


P/1 – Qualquer suco?


R – Qualquer suco.


P/1 – Qualquer suco talha?


R – Suco que tenha daquele pozinho, ele coalha. Aí é que enrola, defuma em cima daquele enrolado. Aí faz a borracha.


P/1 – E aí vocês vendiam já essa borracha para...


R – Já vendia essa borracha... 


P/1 - ...Para o dono do seringal?


R – Do seringal, para poder comprar a alimentação para a gente. A própria comida.


P/1 – E qual era a média de bolas que vocês faziam assim, por semana? Para fazer uma bola...


R – Não, tinha base de fazer por ano, né?


P/1 – Ah, é por ano?


R – Era, porque a gente, a gente ia vendendo, a gente só via o resultado no final. Aí no final do ano: “ Quanto foi... Quantos quilos eu pesei de borracha?”. Aí que ele ia somar lá e ia dar: “Ó, tu pesou “tantos” quilos.” 


P/1 – E quantos quilos dava, mais ou menos?


R – Era uma base de 600 quilos, 700 quilos. Por ano, né?


P/1 – Só do trabalho da família de vocês.


R – Exatamente. Aí ele puxava lá: “Ó, deu “tantos” quilos.” Aí tá, deu tanto, porque que tinha que tirar 20%, né, aí sobre “tanto”. Aí é que a gente ia saber o que sobrou para a gente.


P/1 – E aí você ficou trabalhando então junto com o seu pai durante quanto tempo?


R – Ah, fiquei trabalhando até... Quando meu pai morreu eu tinha 16 anos.


P/1 – E aí você continuou a trabalhar sozinho?


R – Não, continuei trabalhando ainda junto com minha mãe mais dois anos, aí me juntei. Aí já fui tomar conta da minha própria casa, né?


P/1 – Mas sua mãe trabalhava também no seringal?


R – Não, já tinha os outros, ela trabalhava, já tinha os meus outros irmãos, né, que estavam maiores, que ficaram trabalhando para ela, até ela vir embora para Manaus.


P/1 – E aí você foi ter sua casa sozinho?


R – Fui ter minha casa só.


P/1 – Mas você estava casado, como é que é?


R – Não, eu comecei... Eu namorei com uma mulher lá e não deu certo, sabe, aí eu me juntei, fiz uma casa, abandonei, depois construí outra família.


P/1 – Moacir, mas me conta então, como é que foi esse namoro, como é que você namorava, onde é que você ia encontrar, você contou que estava morando no igarapé, onde você ia?


R – Mas... Lá no seringal, lá no barracão.


P/1 – Lá no próprio seringal dava para dar umas paqueradas?


R- É. Exatamente. Lá não faltava menina não, porque todo, naquela época...


P/1 – Outras meninas que trabalhavam também?


R – É, naquela época todo mundo morava lá.


P/1 – E trabalhava e lá, no próprio seringal dava para conhecer outras...


R – Tinha festa.


P/1 – Tinha festa?


R – Tinha.


P/1 – Me conta como é uma festa dessas, como é que é?


R – [risos] A festa é... Tinha festa, tinha um tocador daqueles que tocava sanfona, né? Aí, lá a gente dançava lá e namorava, por causa... Naquele tempo, não tinha negócio de beijar na boca não, era só cheirar, né... [risos]


P/1 – Era a só cheirar [risos]?


R – É. Essa época era.


P/1 – Dar um cheiro, né?


R – É, nessa época, não tinha esse negócio de beijar na boca não [risos.]


P/1 – E aí você deu uns cheiros também, lá pelos bailes...


R – É.


P/1 – O que tocava no baile, Moacir, me conta uma música que canta lá?


R – Lá é forró.


P/1 – É forrozão? É? E você gosta de dançar, gostava de dançar?


R – Gostava? Eu gosto ainda [risos]


P/1 – Gosta ainda de dançar, é?


R – Eu gosto.


P/1 – Então desses aí, você teve então esse primeiro casamento, essa primeira casa que você montou...


R – Foi, que montei com a primeira mulher...


P/1 – Como é o nome...


R – Aí não deu certo, aí eu... Agora eu estou... Construí... Depois é que eu me juntei de novo, construí outra. Aí desmanchei a que eu tinha feito... Construí...


P/1 – Mas com ela teve filho, não?


R – Tive um.


P/1 – Com a primeira teve um filho, como é que é o nome do primeiro filho?


R – Ele não morou comigo, eu não sei o nome dele, eu não alcancei porque ela foi embora, sabe, ela saiu quando estava com nove meses. Na época dela ganhar neném nós nos separamos.


P/1 – E você nem chegou a conhecer?


R – Não. Eu conheço ele por foto, que ele sempre manda foto para mim.


P/1 – Ela foi morar em outro lugar?


R – Ele mora em Manaus.


P/1 – Ah, ela foi morar em Manaus?


R – Ontem eu fui, procurei ele, mas não encontrei.


P/2 – E você não conhece ele pessoalmente?


R – Conheço não, conheço ele só por foto.


P/1 – E a outra moça você conheceu também lá no seringal ?


R – Foi, lá no interior. Essa que é minha esposa.


P/1 – Ela trabalha também?


R – Trabalha. Ela trabalha no serviço de casa mesmo, sabe?


P/1 – Mas quando você conheceu ela, ela também trabalhava no seringal?


R – Trabalhava, morava no seringal.


P/1 – Me conta então como é o nome dela.


R – É Raimunda Gomes da Silva.


P/1 – Você casou com a Raimunda tem quanto tempo, mais ou menos?


R – Já tem 17 anos.


P/1 – 17 anos? 


R – É.


P/1 – E vocês tiveram filhos também?


R – É, mas passou mais de três anos para ela poder ter filho.


P/1 – Mas você casou moço então?


R – É, eu casei novo, eu deixei esse tempo, né? Nesse tempo não tinha negócio de a gente ter idade de casar para casar não, que... Chegava aquela época, né, todo mundo se casava, que não tinha esse negócio...


P/1 – Você se casou então você estava com quantos anos?


R – Ah, eu tinha 15 anos, eu já fiz casa e me juntei, depois deixava, aí mudava de novo...[risos]



P/2 – A primeira vez que você se juntou foi com 15 anos?


R - Com 15 anos [risos].


P/2 – Como é o nome da sua primeira esposa?


R – Era Francisca.


P/2 – Ah, pensei que você não lembrasse!


R – Lembro. Tudinho.


P/2 – E com a Raimunda?


R – Com a Raimunda... A Raimunda, quando eu me juntei com a Raimunda, ela tinha 13 anos.


P/1 – E você?


R – Eu já tinha já 16 para 17.


P/1 – Aí que vocês montaram a casa?


R – Aí nós montamos essa outra casa.


P/1 - Mas a Raimunda também custou a ter filho, porque ela era também muito moça.


R – É, ela era muito nova, é. Nós temos uma filha nossa que nós criamos, sabe, que foi outra mulher que deu para a gente.


P/1 – Me conta essa história direito. Como é que essa outra filha que vocês criam, quem deu para vocês?


R – Foi uma mulher, amiga dela lá. Eu não conhecia ela direito não, essa mulher não. Ela não tinha para quem dar, ela esteve no hospital, não tinha condições de criar essa... Nesse tempo nós não tínhamos, né? Aí ela queria... a minha mulher queria e aí nós fomos... Criamos.


P/1 – Como é o nome?


R – Dela, é Jordana.


P/1 – Aí a Jordana então começou a ser criada por você, antes de vocês terem os seus outros filhos.


R – É, antes de nós termos filhos, mas foi... Na hora que ela nasceu no hospital, nós pegamos ela.


P/1 – Ah, já no hospital?


R – É, na hora que ela nasceu. Já foi aí em Carauari, né, ela nasceu, nós já pegamos. Primeiro hospital que teve aí em Carauari, foi nessa época.


P/1 – E quando você casou com a Raimunda, vocês foram morar perto de Carauari?


R – Perto, toda vida... Quando nós viemos lá de cima, que nós saímos lá do seringal, depois que o meu pai morreu, nós já viemos para cá.


P/1 – Já para perto de Carauari?


R – Para perto de Carauari.


P/1 – Mas ainda é a região do Juruá?


R – Juruá, Carauari é Juruá, dentro de Juruá.


P/1 – Juruá também.


R – É dentro.


P/1 – E aí vocês ficaram morando ali perto...


R – Foi, ficamos morando ali perto de Carauari, aí quando tivemos mais condições nós viemos... Nós morávamos lá no Ueré, aí, quando tivemos mais condições, nós viemos para aí, sabe? O Ueré é um igarapé, afluente do Juruá, sabe? Assim, um igarapé que é afluente mesmo do...  Do próprio outro rio, do Juruá.


P/1 – Como é que é essa vida perto lá do Juruá, que tipo de peixe que tem, o que que vocês pescam... Você gosta de pescar no rio?


R – Gosto, a gente pescava e o produto para a gente pegar era peixe liso, a gente pesca bicho de casco. Você sabe o que é bicho de casco?


P/1 – Como é que é o nome? Bicho...


R – Bicho de casco, tracajá, tartaruga...


P/1 – Não, me conta...


R – Vocês nunca viram não, tartaruga?


P/1 – Eu quero que você me conte tudo isso que eu não conheço. Ainda não tive a chance de ir até lá.


R – Tartaruga é um bicho assim grande, que ele dá... Tem até dele até de 50 quilos, mas a base dele é 35 quilos...


P/1 – Essa é a tartaruga?


R – É.


P/1 – A tartaruga... E o...


R – O tracajá ele é... Ele é assim, uns 8 quilos...


P/1 – Nossa!


R – Maior é de 8 quilos, aí já vai baixando, né, até 5 quilos.


P/1 – E é gostoso?


R – É.


P/1 – Como é que você faz?


R – A gente assa, tira a carne, faz batido no casco, aí agarra e coloca no casco dele mesmo.


P/1 – Como é que é batido no casco?


R – É, às vezes...Quando a gente tira a carne e faz tipo um picadinho, né?


P/1 – Um picadinho? Ai que gostoso!


P/2 – O tracajá parece uma tartaruga pequenininha, né?


R – Exatamente!


P/2 – Ah, então você tirava a carne e fazia no próprio casco.


P/1 – No casco! Ah, isso que eu...


R – Aí fica gostoso.


P/1 – E que mais de peixe assim que você gosta de pescar lá?


R – Tambaqui...


P/1 – Tambaqui é o grande, né?


R – Não, pirarucu é o grandão.


P/1 – Pirarucu que é o grandão.


R – É. Tambaqui é o pequeno.


P/1 – Mas tambaqui é muito gostoso, né?


R – É. Eu estava falando para ela, se ela fosse lá, eu ia...


P/1 – Fazer um...


R – Nós íamos pegar um tambaqui fresquinho para ela, né?


P/1 – É o que você mais gosta; qual é o peixe que você mais gosta?


R – Que eu mais gosto é matrinchã.


P/1 – Matrinchã, é gostoso?


R – É, é gostoso. Mais gostoso que tambaqui.


P/1 – Ele é uma carne... Como é que é a carne dele?


R – É amarela a carne dele, assim, um pouco amarela assim.


P/1 – E ele é grande também?


R - Não, ele é pequeno. O maior dá dois quilos.


P/1 – E que mais que tem de bicho assim, ali por perto, ali pelo seringal?


R - Que eu mais vejo?


P/1 – É.


R – Tem muitos outros tipos de bichos: porco-do-mato também...


P/1 – Porco-do-mato dá para pegar para comer?


R – Dá, é gostoso para a gente comer também.


P/1 – Que mais?


R – Mais?


P/1 – Macaco você vê muito?


R – Macaco a gente vê, mas macaco, depois que eu comecei a trabalhar no Urucu, nunca matei macaco. Eu trabalho no Urucu ajudando um negócio de meio-ambiente, né, e eu tenho pena de matar. Que aquilo é o mesmo que matar um cristão, né, gente?


P/1 – Mas não comia também?


R – Macaco não. Lá... Ninguém ia lá sozinho. [risos] Na nossa casa, comer macaco... Por causa que nunca... Porque _____ _____ trabalha, né, a gente trabalha naquele ritmo que a gente trabalha lá. A gente não matava ele não.


P/1 – E o que mais de bicho você costumava ver ali também perto do seringal?


R – Assim, que eu me lembro... Bicho mesmo, animal... Eu não me lembro mais não.


P/1 – Tudo bem. 


P/2 – Cobra?


P/1 – Cobra aparece muito?


R – Cobra aparece. Mas cobra é uma coisa difícil para a gente ver, né, que ela só vive mais escondida. É complicado para a gente ver cobra, é difícil. Só quando morde mesmo as pessoas. Ninguém vê, porque ela só anda escondida [risos].


P/1 – E lá pelo seringal… Quando você era menor, você tinha medo de se perder, como é que você se localizava?


R – Não, na minha casa.... Tinha medo não.


P/1 – Dá para andar sozinho?


R – Dava. Por causa do sol. O sol, nós fazíamos uso do sol, a gente fazia o relógio da gente pelo sol, e a direção.


P/1 – Como é?


R – Quando a gente saía por aquela luz, se a gente fosse entrar, a gente botava o sol nesse lado, quando a gente voltasse, a gente voltava com ele no outro lado. Aí saía no mesmo lugar. E já tinha base, né?


P/1 – Que bacana!


R – É. Com esse negócio de andar, a natureza...


P/1 – E lá em Carauari, o que move a cidade, o que faz parte da economia da cidade?


R – O que mais ajuda, né?


P/1 – É.


R – Mais saída é peixe... Tudo...


P/1 – É o comércio?


R – É o comércio e o peixe que vem para Manaus, né, que vem muito peixe para cá, de Carauari para Manaus, né, vem a farinha...


P/1 – A farinha também... A produção de farinha.


R – É, vem, vem.... Tudo.


P/1 – Qual é a farinha que vocês gostam de usar lá?


R - Lá é mais aquela amarela, farinha amarela.


P/1 – Não é a farinha d’água não, né?


R – É a farinha d’água.


P/1 – Farinha d’água?


R – É,  que ficava amarela.


P/1 – Então lá vai o peixe todo para Manaus, para o mercado de Manaus?


R – É. A maioria que sobra, porque lá sobra, que é um canto que tem muito, né, aí sobra e a sobra vem para Manaus.


P/1 – Hum, que ótimo!


R – Vem direto no frigorífico. E Carauari também tem mais oportunidade de ter mais dinheiro, porque... Tem Urucu, né, que... 80% do pessoal de Urucu é do Carauari.


P/1 – É de Carauari.


R – Aí por isso que deu... Tudo fica mais fácil, né, para a gente de Carauari; Carauari é uma Cidade do Centro de Juruá, é a Cidade mais onde corre mais dinheiro. Tefé, Coari... Carauari é uma que bate o record, né, porque é onde cai mais dinheiro do Urucu, é lá.


P/1 – Ah é?


T – A maioria do pessoal que trabalha no Urucu é de lá, de Carauari.


P/1 – E Carauari é quanto tempo de Urucu?

R – É 30 minutos.


P/1 – 30 minutos?


P/2 – De avião, né?


R – De avião.


P/1 – Ah, de avião!


R – De avião. Mas só dá para a gente vir de avião, de Urucu, Carauari.


P/1 – Porque a mata é fechada?


R – É! É longe, 30 minutos, né? São trezentos e poucos quilômetros.


P/1 – É bem longe, né?


R – É.


P/1 – E me diz uma coisa, ali, também pela sua região, ali do Juruá, tem índio, alguma tribo ali perto, mais conhecida?


R – Tem, lá tem índio, mas índio manso mesmo...


P/1 - Índio manso.


R – É.


P/1 – Mas como é que eles se chamam?


R – Eles chamam mesmo só caboclo, pessoal chama caboclo, né?


P/1 – Só caboclo?


R – “Ô, caboclo!”, “Caboclo “fulano de tal”.” Mas eles são legais mesmo. 


P/1 – Mas eles continuam morando lá no canto deles, lá na floresta?


R – Continuam morando. Eles têm a aldeia deles.


P/1 – Na aldeia? Você já foi lá visitar?


R – Já! Já fui lá, já fui muitas vezes lá.


P/1 – Qual é a aldeia deles assim, mais próxima?


R – É (Dendu Eré?).


P/1 – (Dendu Eré?)?  E, assim, de planta, você foi desde pequenininho conhecendo também as plantas da região...


R – Conheço.


P/1 -  Como é que você...?


R – Eu conheci desde pequeno mesmo, por causa da minha vida, era só na natureza mesmo, na mata, né? Eu conheço desde de pequeno mesmo, planta.


P/1 – Aí vocês usavam para remédio...


R – Usava.


P/1 – Sua mãe fazia...


R – Chá, colocava casca de molho para que eu estivesse bom no outro dia, para a gente beber também...


P/1 – Casca de quê? Perdão, Moacir!


R – Casca de qualquer árvore que sirva para chá, sabe, de qualquer folha, né? Tem gente que faz o chá da folha, e tem outros que fazem da casca.


P/1 – Qual é o chá mais comum que vocês faziam lá, me diz assim, quando você estava assim, com febre?


R – Com febre?


P/1 – Qual é a folha que vocês... ?


R – Que mais usava, que mais fazíamos, era paracanaúba... Paracanaúba não era da folha, era da casca mesmo, da casca.


P/1 – Da casca da árvore mesmo.


R – É, paracanaúba, saracura...


P/1 – Saracura é para que ê?


R – É para febre, porque ela tem um pouco de amargo e cuida do fígado da gente, né? Aí, então, ela já... Então gente já tomava, que a febre ofende logo o fígado, né? Que achavam que a gente.. acha que é, né? [risos] Aí, já tomava já... Ficava bom mesmo!


P/1 – E é ótimo mesmo.


R – Eu estava falando para ela, tem muito remédio da natureza... Pode ir no Urucu que não dá... Toda hora é gente querendo para trazer, para tirar lá, para beber lá mesmo, né, que se sente bem, com remédio da natureza mesmo.


P/1 – E era tudo também tirado das cascas de árvore, de folha...


R – Da casca, da folha...


P/1 – Isso você foi aprendendo com a tua mãe?


R – Não, eu aprendi mais com papai. Eu fui aprendendo com papai, que o papai conhecia, né? A mamãe nunca “coisou” muito no mato assim não, mas quando eu fui aprendendo com o papai, eu fui... Aprendi com outro meu irmão. Eu tinha um irmão que já sabia mais de... Já sabia, porque já tinha aprendido bem com meu pai, né, aí me ensinou. 


P/1 – E foi passando esses ensinamentos para você.


R – É. Agora, já foi... Passou... de um a gente vai passando para o outro, né, porque...


P/1 – Isso é muito bacana mesmo.


R – É, a gente vai conhecendo aí... Passa uma pessoa, a gente já ensina para aquela, aquela pessoa já ensina para outro, né, e vai ficando...


P/2 – Então, quando vocês eram crianças não existia médico, né?


R – Não, nessa época a gente não tinha negócio de remédio. Mesmo agora...


P/1 – O remédio era a floresta, né?


R – É. Mesmo agora a gente pega muito, né, remédio da natureza.


P/1 – E hoje em dia, mesmo quem não mora perto de floresta, está querendo é esses remédios, né?


R – É, remédio.


P/1 – Você sabe que a gente fica louca também para ter isso...


R – É, verdade.


P/1 – Isso é mais longe para a gente. Mas, Moacir, me conta um pouco mais então, como é que era a sua casa, os seus pais, os seus irmãos, um pouquinho mais de vocês pequenos, se sua mãe cozinhava...?


R – A mamãe cozinhava mesmo, cuidava só da casa, plantava milho, assim, cuidava do...


P/1 – Mandioca?


R – É, dava... Plantio, carpia a roça, esses negócios assim, sabe?


P/1 – Quem mandava mais na casa, seu pai ou sua mãe?


R – Era o papai. Toda vida.


P/1 – Seu pai era muito...?


R – Brabo?


P/1 – Brabo


R – Era não.


P/1 – Não?


R – Era não, era bom, era legal. Não era valente assim, não, ele morou... O tempo que eu conheci ele, todinho, morando junto com minha mãe, nunca brigaram. Por isso que até hoje, eu com minha mulher, eu esse tempo todinho com essa mulher que eu hoje estou, nunca teimei com ela, só por causa disso, que eu nunca vi o papai teimando.


P/1 – Um belo ensinamento.


R – É. 


P/1 – E seus irmãos, vocês ajudavam sua mãe, como é que era?


R – Ajudavam, todo mundo ajudava. Todo mundo trabalhava naquela época. Agora não, hoje em dia, se a gente tiver um irmão ou um filho, ele não quer trabalhar, né, mas nessa época todo mundo trabalhava.


P/1 – E por que você hoje acha que não… Filho não quer trabalhar?


R – Não, porque eu acho que o filho corre mais, porque ele... Hoje em dia a gente bota o filho da gente mais para estudar, né, a gente dá a oportunidade para ele estudar, aí ele fica estudando, não trabalha, só trabalha só... Está junto com os amigos dele e está na aula, né? Aí, se a gente for colocar para trabalhar ele não vai querer, porque já está desacostumado, né?


P/1 – Moacir, e aí você ficou então trabalhando, mesmo depois de casado já com a Raimunda, ainda no seringal, você ficou ainda quanto tempo trabalhando nisso?


R – Rapaz, eu nem sei! Eu acho que eu fiquei bens uns 6 anos ou 7, aí já consegui já vir para Urucu.


P/1 – Como é que foi sua ida para Urucu?


R – Eu fui para Urucu contratado por uma empresa que chamava J. Ramalho, né, fui fazer desmatação para poder fazer a sonda... Você faz desmatação, aí o helicóptero levava o material. Eles montavam lá, aí de lá é que a sonda começava... O helicóptero começava carregar a sonda, depois de montada, que era tudo era floresta, não tinha estrada, né?


P/1 – Então antes de começar o Urucu?


R – É. Quando estava começando.


P/1 - Antes de começar a Petrobras lá?


E – Não, quando estava começando.


P/1 – Então com a Petrobras chegando para montar ainda.


R – É, para montar.


P/1 – E, ainda, então me conta, aí você foi contratado por essa firma...


R – Pela firma, aí fiquei lá. Fiquei lá trabalhando até acharem o primeiro poço, né, que acharam o primeiro poço...


P/1 – Você se lembra disso?


R – Me lembro.


P/1 – Como é que foi?


R – Ah, o pessoal, quando estava furando lá, que saiu o gás, correu todo mundo, né? Que a gente ficou, todo mundo assustado.


P/1 – E sai o gás assim, de esguichar?


R – Sai, porque a pressão é grande.


P/1 – Eu nunca vi. Conta como é que é.


R – A pressão é muito grande, quando a sonda está furando, a pressão é muito grande. O gás que faz subir o petróleo, né, tudo sobe por causa do gás. Aí o gás vem em cima mesmo.


P/1 – E faz barulho?


R – Faz.


P/1 – E aí deu um susto em todo mundo.


R – Susto em todo mundo. Todo mundo colocava aquela máscara com oxigênio para... Com medo de ser um gás venenoso, né? Existia gás venenoso na... A gente achava que tinha gás venenoso, o pessoal tinha medo, só falava nisso. Aí, quando dava uma explosão assim, a gente ficava com medo, né?


P/1 – E aí então teve essa primeira saída do gás...


R – Aí, desde esse tempo, eu fiquei todo tempo trabalhando em Urucu mesmo, aí trabalhei uns quatro anos na sonda, que era negócio de furar assim, furar o poço, aí vim para o viveiro.


P/1 – Viveiro é o quê?


R – O viveiro é só para recuperar o que foi desmatado. Por acaso, a sonda chegava lá, ela desmatava uma área, né? Vamos dizer, uma quadra era desmatada, 100 metros quadrados. Aí nós tirávamos a semente daquela mesma área...


P/1 – Que você tirava...


R – Que nós... Que era tirada a madeira, né, as árvores. Daqueles mesmos tipos das árvores, aí plantava num viveiro, quando estava com 50 centímetros, 60 de altura, aí leva, planta de volta, na mesma área. Para recompor o que foi destruído. Aí eu fiquei no viveiro, eu não saí mais do viveiro.


P/1 – E a parte da... Que você falou, da sonda, você não gostou de trabalhar?


R – Gostei, mas o negócio é que nessa época eu ganhava só um salário, sabe? 


P/1 – Trabalhando na sonda?


R – Sim. Aí, quando voltei para trabalhar no viveiro, aí o meu dinheiro melhorou... Voltei a ganhar dois salários.


P/1 – Que aí tinha que ser alguém que entendesse também, daí conhecesse as...


R – Entendesse, para subir. Porque no tempo que eu cortava seringa e sova, eu aprendi a me subir.


P/1 – Quem te ensinou?


R – Foram os meus irmãos, nós mesmos que começamos a tentar, que nós achávamos que se subisse era melhor. Aí nós mesmos mandamos fazer o material para nós, nós mesmos subimos.


P/1 – Como é que é o material para subir?


R -  É uma espora assim.


P/1 – É feita de quê?


R – É feita de ferro mesmo.


P/1 – De ferro mesmo?


R – É.


P/1 – E aí você sobe na... Qual é a altura de uma árvore que você sobe lá, mais alta?


R – 50 metros...


P/2 – A espora agarra nessa árvore?


R – A espora vai, mas a gente vai com o cinto para cima.


P/1 – Um cinto de borracha?


R – Um cinto... Não, um cinto assim de corda, mas vai todo de braço esticado na árvore, bem segurança, sabe?


P/1 – E quanto tem de altura a árvore, mais ou menos?


R – 50 metros, 35, qualquer altura a gente vai para pegar a seringa.


P/1 – É muito alto né?


R – É alto.


P/1 - E aí desde quando que você sobe então, em uma árvore?


R – Desde que eu comecei... Eu digo que eu tinha uns 12 anos, 13 anos, nós já treinávamos já. Aí, quando foi nessa época que precisou de uma pessoa para subir, não iam contratar uma pessoa de fora, né, que nós já sabíamos, aí...


P/1 – Aí você se apresentou?


R – Aí eu fui, me apresentei, porque eu já sabia, né, e já conhecia, nós sabíamos mesmo. Aí fiquei eu e um amigo, que nós éramos... Tudo éramos nós, que trabalhamos desde de pequenos juntos. Hoje nós somos... Um fica sendo back do outro, né? Quando um sai, o outro fica.


P/1 – Ai, que bom! E que trabalha com você desde pequeno?


R – É, trabalha desde... Fazendo tudo.


P/1 – Lá no seringal?


R – Desde o seringal. Faz muito tempo que nós trabalhamos juntos.


P/1 – Que ótimo!


P/1 – Aí ele é meu back e eu sou o back dele.


P/1 – E, Moacir, me conta uma coisa, qual é assim, uma árvore alta, qual é o nome de uma assim, dessas mais altas?


R – Mais altas, um Angelim.


P/1 – Um Angelim.


R – É, angico é uma árvore muito alta e grossa.


P/1 – De que largura, dá para abraçar, não?


R – Dá não. Com a mão não abraça não. Eh! Ainda é longe, duas pessoas assim ainda não abraçam. É muito grossa.


P/1 – E é muito alta.


R – É alta, é alta e grossa.


P/1 – São as mais altas essas?


R – É, são as mais altas.


P/1 – Diz alguma outra aí que você... Qual é a que você gosta mais, qual a que você acha mais bonita para você?


R – É samaúma.


P/1 – Samaúma, por que você acha...?


R – É linda.


P/1 – Por que que ela é bonita?


R -  Porque ela é grande. Tem dela que dá um metro... Lá em cima, no _____, um metro de ponta, assim. Ela é muito grossa.


P/1 – Muito grossa também?


R – Muito grossa.


P/1 – Essa também não dá para abraçar?


R – Dá não, “eche”! É mais grossa do que esse angico. Mas só que a gente não coleta a semente dela, porque ela fica muito alta, né, ela é alta e a semente dela é no algodão. Ela só faz voar com... Se a gente for atrás de coletar, ela espalha, a gente junta mesmo embaixo, mas, lá em cima, a gente não pode pegar.


P/1 – E  quando ela dá flor, que cor que é?


R – É o algodão. A semente dela já sai no algodão, ela fica vagem, quando ela abre... A flor, eu acho que é aquela vagem, né, quando fica, já abre o algodão, é tipo uma munguba.


P/1 – Uma munguba, é?


R – Uma munguba, é.


P/1 – Munguba é o quê?


R – É uma coisa de... Eu vi até uma ali…[riso]


P/2 – É ?


R – Eu vi até uma aqui, nesse... Ali. Eu vi uma árvore, sabe, eu estive olhando.


P/1 – Aqui no Rio?


R – Sim.


P/1 – Você reconheceu algumas das...?


R – Conheci a (Apoi?), tem um monte!


P/1 – (Apoi?).


R – (Apoi?), não é que, que tem um (apoi?) que serve para remédio para câncer, que o pessoal diz?


P/1 – A é?


R – Mas a senhora não já viu na televisão, no Globo Repórter já passou. Que serve, eu vi aí...


P/2 – Você viu aonde, aqui no ___ ____ ____...


R – Aí sim, deu muitos.


P/2 - ____ ______?


R – Não, aí na estrada mesmo.


P/2 – Ah, tá!


P/1 – Na subida.


R – Na rua. Tem um monte aí. Aquele que tem um tipo igarapé assim, que tinham lá, nessa área...


P/1 -  Você achou essas árvores...Outras mais diferentes também, achou alguma que você não conhecesse?


R – Aqui?


P/1 – É.


R – Não, eu acho que não... Tem nenhuma não, eu acho que eu conheço quase todas.


P/1 – As de lá são mais bonitas? Não tem tão grande quanto lá, né?


R – É, as de lá... Daqui são tudo plantada natural, né, ela não cresce como essa da natureza, né? Que essa da natureza, ela cresce mesmo, porque ela fica “sombrada” e quer pegar o olho do sol... tem que pegar a luz do sol, né, e fica “sombrado” das outras, aí ela cresce muito alto.


P/1 – E aí, deixa eu te perguntar também, quando te contrataram lá para Urucu, te contrataram falando que era Petrobras, como é que era?


R – Não, só é firma contratada mesmo.


P/1 – Não, mas era para trabalhar, já explicaram o que que ia ser em Urucu?


R – O trabalho?


P/1 – É!


R – Já. Quando nós...


P/1 – O que que iam fazer lá...


R – Que ia fazer. Aí nós fomos para fazer a desmatação para a sonda descer, né? Aí depois, quando já estava lá, fui contratado para tirar semente para o viveiro.


P/2 – Mas quando te contrataram assim, para fazer a sonda, o que que eles falaram: “A gente vai fazer a sonda da Petrobras.” 


R – Não.


P/2 - Já tinha isso, não? Era: “A gente vai fazer uma sonda, procurar petróleo.” Era isso?


R – Não, eles falaram assim, quando fui contratado... Quando eu fui contratado para a desmatação, quando saí da desmatação que a empresa contratada... Era a Petrobras contratava que uma empresa, aí a empresa já nos contratava, né?


P/1 – Mas essa empresa que contratou vocês disse para que que era o serviço: Vão desmatar ali para fazer o quê?


R – “Vocês vão desmatar para o pessoal da Petrobras furar lá.” 


P/1 – Ah, tá! E aí você achou que também que era a possibilidade de um emprego diferente.


R – É. Era uma oportunidade para a gente arranjar um emprego, né, para a gente comer. Ficava melhor.


P/2 – Você tinha que idade nessa época?


R – Eu não sei nem a minha idade nessa época não. Eu que eu tinha bem uns 20 e poucos anos, 22.


P/1 – Moacir, e assim, você quis... Você foi procurar esse emprego dessa firma, ou eles te encontraram, como é que foi também? Você estava procurando um outro tipo de emprego?


R – Não.


P/1 – O que que te levou até essa firma?


R – Foram eles mesmos que vieram me procurar. Porque sabia que eu era do interior, era um cara trabalhador. Porque gente do interior, a gente já é diferente do pessoal da cidade, né? Assim querendo dizer diferente, porque o pessoal da cidade, se ele for pegar um material para trabalhar com terçado, uma coisa, um machado, eles não sabem, né? E a gente que mora no interior já sabe.


P/1 – Então, o pessoal dessa firma foi te achar lá ainda em...


R – Carauari, foi em Carauari.


P/1 – Carauari.


R – Ela era... A empresa era de lá mesmo, de Carauari mesmo.


P/1 – Ah, era de lá mesmo! Aí você se interessou?


R – Me interessei, fui... Aí achei bom aí fiquei todo tempo.


P/1 – E era um dinheirinho melhor, também?


R – Era um dinheiro pouco. Naquela época, né, era...


P/1 – Mas era melhor do que estar trabalhando lá no seringal?


R – Era melhor do que estar trabalhando no seringal, porque no seringal, o pessoal, a maioria engana a gente, né? E o pior que nessa época eu não sabia ler, nem escrever, e não sabia de nada, né? Aí ficava mais difícil ainda. Eu comecei a estudar agora, lá no coisa... Ficava mais difícil.


P/1 – Isso eu quero que você me conte também. Mas você achava que o pessoal do seringal então, também, te passava a perna?


R – É, passava a perna, passava mesmo. Eles enganavam a gente, que a gente não sabia de nada. Eles davam o que eles queriam.


P/1 – E tinha que aceitar?


R – Era, que ninguém sabia. Naquela época tudo era difícil mesmo.


P/1 – E aí a possibilidade de ter um outro emprego também pela região era mais difícil?


R – Era mais difícil! Naquela época, que não fosse Urucu... Só se fosse pela prefeitura, né, pela prefeitura.


P/1 – E aí, quando falaram que ia ser para a Petrobras, o que você conhecia da Petrobras, Moacir?


R – Eu só conhecia mesmo o pessoal da Petrobras, que naquela época que eu comecei a trabalhar lá, o pessoal da Petrobras mesmo, eles que trabalhavam junto com... Agora não, né, o pessoal da Petrobras não trabalha mais não, tem feito só mais as empresas contratadas que fazem mais o serviço. Mas naquela época eram eles mesmo que trabalhavam, na sonda mesmo eram eles, né, a gente era ajudante deles mesmos. A gente não era ajudante do pessoal da contratada, a gente era ajudante deles. ____ trabalhava junto com eles mesmos.


P/1 – Mas você já tinha ouvido falar na Petrobras, já sabia o que que era?


R – Já. A gente tinha visto falar.


P/1 – E aí então você começou a trabalhar lá em Urucu, passou um tempo na sonda e foi trabalhar com a parte das sementes...


R- ____ _________ ____.


P/1 – O que eles pediam para você fazer, qual era a orientação: “ Cata semente...”, tem um tipo de semente para colher, para pegar, ou você...?


R - Para pegar. Nós tínhamos em quantidade. Nós tínhamos as qualidades, sabe, as qualidades. Vamos dizer que nós tirássemos... fosse plantar 2000 sementes, né, nós íamos ver que nós colocávamos menos cinco qualidades. Para ficar naquele nível, daquelas que tinham sido tiradas.


P/1 – E qual eram essas principais, você se lembra?


R – Me lembro: biorana; planta eu conheço tudo [riso] Biorana, angico, angelim, visgueiro. Essas plantas eram suficientes, tinham que ser dessas mesmo, que era da mesma... da mesma localidade que a gente tirava, sabe, do mesmo local. 


P/1 – Deixa eu entender um pouco mais o seu trabalho. Aí você sobe e a semente está lá em cima.


R – Lá em cima. 


P/1 – Alguma dessas dá fruto também, como é que é?


R – Dá, dá fruto. Ela dá fruto, sai a semente mesmo, a folha. Ela fica lá, né, chegou: “Tá boa?”, “ Tá!”. A gente olha para cima; tem um binóculo que você olha: “Tá bem?”, “Tá boa. Ela está madura.” Aí coloca a espora, aí sobe, chega lá, coloca o cinto de segurança, aí puxa um podão, aí do podão é que a Senhora vai coletar, a Senhora vai só cortando assim, só aquelas pontinhas. Que não pode cortar galho, aí corta só mesmo... Aí vai caindo e o outro, que é o mateiro, vai juntando no chão.


P/1 – Tem que ser galho menorzinho, por quê?


R – É, porque cortar grosso aí vai... A árvore vai se atrasar. Aí, no outro ano... Porque nós coletamos, aí nós marcamos a árvore. No outro ano, nós coletamos de novo, marca de novo para ver que grossura ela está aumentando, né. “Qual foi a árvore que tu coletou de angico, moço?” A Senhora me perguntar, né. “Esse ano.” Eu digo: “Foi árvore “fulano de tal”.” Que eu sei já qual é ela, né? “Foi árvore “fulano de tal”, eu  coloquei ela ano passado...”


P/1 – Você sabe de cor.


R – Hã?


P/1 – Você sabe de cor. Você conhece todas.


R – É, eu conheço: “Ó, o ano passado eu coletei ______ de “fulano”, esse ano eu  coletei lá de novo. Foi “fulano de tal”.” Então eu sabia qual é, já vai só lá.


P/1 – Depois você toma conta delas assim, como é que você fica também vendo qual que está indo, como é que você...?


R – Passando, quando a gente vai passando, a gente vai vendo como é que elas estão. Você já vai conhecendo, que já conhece.


P/1 – E é fácil ela tomar corpo, ou é mais difícil ela pegar?


R – É difícil, ela custa a crescer. Mas ela custa a crescer quando... tem  até um tamanho, né? Aí quando ela fica já maiorzinha... Quatro metros para cima ela já vai tratando de crescer mais rápido.


P/1 -  Mas para a semente pegar, isso também é difícil?


R – É. Precisa ter... Ih, é um processo muito grande para se...


P/1 – O que que precisa?


R – Quebrar a dormência... Porque tem um tipo de semente que se a Senhora colocar na sementeira lá, para germinar, a Senhora tem que colocar ela no aço, ou então na água quente... Quebrar a dormência, né, que a gente chama.


P/1 – No aço também?


R – É, no aço.


P/1 – No aço como é que é?


R – No aço é como nós chamamos, é colocar na água quente. Vamos dizer que tem uma semente que passa seis meses para ela germinar. Aí com seis meses da germinação dela, ela vai passar seis meses... Se a Senhora quebrar a dormência com água quente, a Senhora, colocar água no fogo e deixar ela ficar com 40 o C ou 50o C de temperatura, a Senhora colocar a semente dentro, ela vai nascer em quatro dias, ou então em três dias. Conforme o tempo que a Senhora vai passar. Aí então quer dizer que a Senhora vai fazer aquela semente nascer mais rápido, né?


P/1 – Se não botar ali ela custa?


R – Ela vai custar mais, que ela vai germinando por conta dela mesmo. Ela vai...


P/1 – Olha só que segredo.


R – Aí nós... A gente quebra a dormência, ela nasce mais rápido..


P/1 – Aí você quebra a dormência...


R - Germina mais rápido. É.


P/1 – E depois ela vai para onde?


R – Aí ela germina, quando ela está com dois centímetros, três centímetros de tamanho, assim, desse tamanho, a gente leva para o saquinho.


P/1 – Para o saquinho é o quê?


R – O saquinho é um saquinho mesmo.


P/1 – Um saquinho, ela com terra.


R – É. Enche de terra, aí leva de lá, tira ela de lá, faz a repicagem, que chama...


P/1 – Repicagem?


R – É, no saquinho. Aí, quando ela está com 50 centímetros para cima, aí que ela vai sair para o campo. É um processo custoso.


P/1 – E você também fica encarregado de acompanhar esse processo todo? 


R – Fico, fico.


P/1 – Não é só pegar a semente...


R – Não, não. Eu trabalho com a semente e trabalho com ela... Das sementeiras, tudo, sabe?


P/1 – Em todo processo, né?


R – Dou quebra de dormência, tudo, eu dependo de tudo. 


P/2 – E, Moacir, dessa quebra de dormência, até você devolver a árvore de novo para a floresta, digamos assim;


R – É.


P/2 – Quanto tempo?


R – Tem umas que levam 6 meses, tem uma que leva 1 ano, conforme o tipo das árvores, que tem uma que cresce bem, já tem outras que crescem mais lento.


P/1 – Qual é a que cresce bem?


R – O angico, a caporana, (guarapari?); esse aí cresce legal, sabe?


P/1 – E a que te dá trabalho?


R – A que cresce mais devagar é copaíba. 


P/1 – Copaíba é a do óleo, né?


R – É. A Senhora sabe qual é.


P/1 – É bom para que o copaíba, o óleo de copaíba, conta para a gente?


R – Copaíba é bom para ferida, para qualquer tipo de dor, garganta; gente que tem problema de garganta, copaíba é bom.


P/1 – Olha só! Se eu morasse perto de você, eu estava todo dia te chateando lá.


R – [risos].


P/1 – Moacir, então me conta, quando é que você começou nessa escola de alfabetização, como foi, conta para a gente como é que você chegou lá.


R – Eu comecei... Eu cheguei no Urucu já: “Rapaz, tu vai ter aula para estudar já!” Estudar para mim, aprender a fazer ao menos o meu nome, porque é ruim, né? Eu ia receber assim, quando eu trabalhei de empregado, eu ia receber, tinha um monte na fila, eu não ia lá receber, com vergonha de melar meus dedos.


P/1 – Você não ia receber...


R – Logo não. Só ia receber quando todo mundo saísse.


P/1 – Quando não tivesse ninguém.


R – É. Aí eu ficava lá de longe. Aí o pessoal todo recebendo, eu não ia para a fila não. Aí quando estava já bem pouquinho, aí que eu entrava na fila. Porque tinha vergonha de melar meu dedo. Aí apareceu... “Eu vou é estudar lá em Urucu.” Aí tinha uma menina lá, que trabalhava lá, ela era “digitadeira”, ela disse: “Eu vou dar aula para vocês, para vocês aprenderem ao menos a fazer o nome de vocês.” Mas ela ganhava nada não, ela ia dar aula só mesmo para... Tinha um “quartozinho” lá : “Tá bom, já pode dar uma estudada.” Comecei a estudar. Estudei 3 dias: “Moacir, que letra é essa?” Aí eu dizia o “o”, eu dizia era “a”, porque eu não sabia mesmo. Aí me mangavam de mim, eu saía, eu digo: “Não vou mais estudar não.”


P/1 – Mas ela estava ensinando para outro, não era só para você?


R – Eram muitos, nós éramos muitos. Nós éramos bem uns 20, essa época, sabe? Ninguém sabia de nada. Tinha uns que já conhecia mais, né, as letras. No rumo não sabia juntar, mas já conhecia. Aí eles ficavam mangando de mim, eu saía. Aí, quando começou a Escola Esperança agora, essa outra, eu digo: “Eu agora vou estudar.” Eu já tinha comprado uma carta de ABC para mim, aí eu já tinha aprendido. Eu tinha rasgado ela, mas eu já tinha aprendido já quase tudo.


P/1 – Sozinho?


R – Sozinho. Eu levava para casa, mostrava para a minha filha, minha filha estudava lá, né, mostrava para ela, ela me ensinava, me ensinava... Quando eu tinha tempo, porque quando eu chegava lá, eu serrava também, sabe, que eu serro com motosserra.


P/1 – Serrava o quê?


R – Serro madeira assim, para vender.


P/1 – Mas aí você serra para quem?


R – Serro para nós mesmos, assim, para as oficinas, fazer móvel, negócio de cadeira, mesa.


P/1 – Tem outras oficinas que compram lá, madeireira compra?


R – Compra. A oficina que compra, que faz só negócio de móvel mesmo, né, Madeireira, só para fazer para a região mesmo, negócio de cadeira, mesa, né? Esse negócio assim elas... Guarda-roupa...


P/1 – E tem muita madeireira?


R – Hã?


P/1 – Tem muita madeireira lá por perto?


R – Tem, oficina tem. É que a oficina é só para fazer negócio do móvel, para dentro da cidade mesmo, sabe, ela não é para importar, por acaso: fazer guarda-roupa, cama, esses negócios assim, sabe? Aí, quando eu não tinha tempo... Tinha vezes que eu ia serrar, quando eu chegava de noite: “- Papai, venha cá que eu vou lidar uma lição.” Pegava a carta de ABC, aí começava a olhar, ai dava um sono. Aí eu dormia. Quando eu cheguei no Urucu, começou a Escola Esperança, eu digo: ”- Vou estudar agora. Agora ninguém vai mais mangar de mim não” Aí hoje... Teve gente que me ensinou e eu já estou ensinando ele.


P/1- Olha só!  Mas me conta direitinho como é que foi esse início do... O pessoal da empresa falou, avisou que ia começar a escola...?


R – Avisou, ele deram... Um bocado deu muito apoio, né, eles deram muito apoio, porque eles diziam: “- Olha, rapaz, vocês têm que estudar porque daqui a um tempo quem for analfabeto, que não souber de nada, aqui no Urucu, não vai entrar mais aqui no Urucu. E vocês são as pessoas que são entendidos, vocês têm a prática de vocês, vocês têm a prática, então vocês têm que se interessar, estudar.” Eles davam todo apoio. Vai ver que a gente estudava, né, agora, só que todo canto tem gente que não se interessa mesmo, né? “- Eu já estou velho, rapaz, não aprendo mais.” Eu dizia também!  “- Rapaz, não vou estudar não, porque eu já estou velho, para que que eu quero estudar, tô para morrer. ” A gente pensa isso.


P/1 – Que está velho o quê!


R – Mas, não é que isso serve! É bom a gente saber. Agora eu... Primeiro é onde é o negócio primeiro, nem numeração, não conhecia. Senhora me mostrasse um número era o mesmo que... Preço de supermercado, eu ia comprar mais minha mulher; a minha mulher não sabe também, ela está estudando, mas ela fica com raiva porque não tem aula, ela ____, 

Dois dias de aula ela já fica com raiva, que sai muito tarde e ela reclama. Aí ela não sabe não, a gente comprava no supermercado, pegava um monte de coisa, não sabia o preço, ficava olhando: “Será que é isso?”, né, que a gente fica... Todo preço é pregado lá, a gente não sabe, aí... Pegava, levava lá para frente, o cara cobrava o que quisesse né, que a gente não sabia. Agora eu levo a calculadora no bolso assim... [risos] Já sabe quanto é que deu a conta, quando chegar lá, o cara puxar dez centavos, eu digo: “Não, amigão, está faltando dez, aqui deu “tanto”, porque que tu botou esse dez?”, né?


P/1 – Agora ninguém te tapeia, né?


R – Graças a Deus!


P/1- Moacir, me conta como foi. A escola fica onde?


R – Ela fica lá no Urucu mesmo.


P/1 – Lá em Urucu mesmo.  


R – Bem pertinho do nosso alojamento.


P/1 – Bem perto do alojamento de vocês. Aí, o horário das aulas é...?


R – Das 7h... Das 7h30 às 9h.


P/1 – Das 7h30 às 9h. Então, depois do trabalho.


R – Depois do trabalho.


P/1 – Como é que é teu turno de trabalho em Urucu?


R – Eu pego 6h, nós pegamos 7h; nós saímos de lá 6h, né, pego o ônibus... às 7h a gente começa a trabalhar. Tem vezes que chega mais cedo lá no canto, porque de lá a gente pega o ônibus para poder chegar lá aonde a gente vai ficar para trabalhar, sabe?


P/1 – Em Urucu?


R – Sim.


P/1 – Você mora em Carauari...


R – Não! Eu moro no Urucu mesmo, mas de Urucu, mesmo a gente pega um ônibus para chegar nos cantos que a gente trabalha.


P/1 – Ah, tá!


R – Por acaso, a Senhora mora aqui, aí a Senhora ia trabalhar lá no outro bairro, né, a Senhora pega o ônibus daqui para lá. Mesmo assim somos nós lá. Nós moramos aqui, mas nós não trabalhávamos mais... Fica melhor, aí a gente pega o ônibus. Aí, quando é 7h, a gente começa. Aí, quando é 11h30 a gente larga, aí pega 13h. Aí, quando é 5h nós largamos, né, vamos para a academia, né, que lá tem academia para nós, sabe? Que nós somos...


P/1- Academia de ginástica?


R – Sim. Aí nós não podemos...


P/1 – Você gosta de fazer?


R – Gosto. Aí nós vamos para a academia. Aí, quando é 7h30, nós saímos da academia. É só tomar banho, jantar, vamos para a aula.


P/1 – Agora, me diz uma coisa aqui, você na academia você tira tudo de letra, porque para quem sobe numa árvore de 50 metros, essa academia é moleza, né?


R – É, mas melhor ficar na academia, porque...


P/1 – Não é não?


R – É, porque eu também faço parte do grupo da brigada, sabe, da brigada, negócio de derrame de óleo...


P/1 - Você faz parte da brigada?


R – Faço. Aí eu faço parte da brigada.


P/1 – Então, você tem estar sempre em forma.


R – É, exatamente. Por isso que nós somos da academia. Petrobras deu tudo, deu roupa, deu calçado, deu tudo para a gente.


P/1 – Também queria te perguntar, você continua como funcionário terceirizado, né, dessa firma, ainda, que te contratou logo no início?


R – Não, não, já estou trabalhando por outro.


P/1 – Então, me conta como foi.


R – Aí é assim, de dois em dois anos, toda firma contratada, de dois em dois anos, naquela época, ela perdia o contrato. Aí, por acaso, ela era contratante, a Senhora estava ___ contrato, ela era outra contratante, ela colocava o mais baixo do que o valor que ela queria, ela que ficava com a Petrobras, né, porque _____ ____ _____ quem cobra mais barato. Aí então, aí já... Eu já saía da sua empresa, recebia uma indenização, já passava para a empresa do dela. Aí ela já perdia para outro, eu já passava para outro, aí ficava todo tempo assim. Urucu é assim, de dois em dois anos, três anos, aí já troca de empresa. Agora, só...


P/1 – E há 17 anos você está assim?


R – É. Agora, só que essa, que essa que eu estou, já estou com quatro anos nela, ela ainda não saiu, porque ela vai passar seis anos, que ela pegou o contrato. Duas vezes, sabe? Ela pegou um contrato de dois anos e pegou outro contrato de quaro anos.


P/1 – Então dá para continuar nela.


R – É, ainda estamos trabalhando nela.


P/1 – Mas lá dentro, o trabalho na Petrobras... A Petrobras que dá roupa...


R – Deu, para academia ela...


P/1 – Não é a firma, é a Petrobras.


R – É, ela mesmo que deu, a Petrobras mesmo que deu. Para a academia, né, porque nós fazemos parte da brigada e nós não ganhamos como brigadista, nós não ganhamos. Nós fazemos parte da brigada, porque nós... Nós ficamos lá para dar um apoio, né, que precisar, assim: deu um derrame de óleo, o igarapé que tem lá. Tudo nós já conhecemos, o igarapé todinho, né, pode ser de noite, pode ser de dia. Qualquer hora a gente resolve, porque a nós já fazemos parte dela e deles mesmo, já conhecemos.


P/1 – E vocês fizeram treinamento para participar da brigada?


R – Fizemos, fizemos e disseram que nós iríamos até aqui para o Rio de Janeiro fazer treinamento aqui também. 


P/1 – E como é que foi o treinamento?


R – O treinamento lá, eles vão lá, faz o curso lá; o curso que eu digo assim, é que eles dão uma palestra, sabe, explicando como é que ele coloca uma barreira, como é que que a gente vai tirar um derrame de óleo grande. Como é que a gente vai fazer, o que é que a gente tem que evitar em um incêndio, né, um negócio, só negócio de segurança mesmo.


P/1 – E aí então você vai para a ginástica, lá para a academia...


R – É.


P/1 – Faz um tempo...


R – Fico lá até 7h30, aí chego, tomo banho e volto para a aula. E chego lá... Tem vezes que eu chego cinco minutos, dez minutos atrasado. Aí tem vezes que eu não janto, porque não dá tempo, né?


P/1 – Vai direto?


R – Vou direto. Só faço chegar, vou direto para a aula. Tem vezes que.... “Rapaz, vamos embora lá! Vamos embora lá na aula.”, “Rapaz, hoje nós não aguentamos não.” Eu digo: “Rapaz, vou ver se eu vou.” Aí eu vou, porque eu... Se a gente perder um dia de aula e perder dois dias de aula, a gente não quer mais vir, né, que a gente, dá preguiça da gente ir. A gente não perdendo toda vez a gente quer ir, né?


P/1 – Quer saber mais, né?


R – É. Quer aprender mais. E agora eu estou mais interessado porque eu já aprendi e tudo. Eu achei que para mim... Quando eu ia fazer meu trabalho no viveiro; porque conta de semente, tudo a Senhora tem que saber, para a Senhora fazer, né, porque a gente não estava dependendo. Quer ver, que eu tinha os meus outros amigos lá que sabiam, dizia: “Rapaz, anota isso daqui para mim.” Nem ligavam para mim, iam embora e eu ficava lá com o papel na mão. Sem saber o que que eu fazia. Aí, agora têm vezes: “Rapaz, Moacir, eu vou te ajudar.”, “Não, não quero que vocês me ajudem mais não, que, de primeiro, vocês não me ajudavam, né, agora vocês querem me ajudar? Agora eu faço o meu trabalho e vocês fazem o de vocês, eu vou fazer o meu.” Porque agora eu sei fazer, no tempo que eu não sabia, eles viraram as costas, iam embora e eu ficava lá, com o papel na mão sem saber o que eu fazia, né? Não sabia anotar, não sabia nada.


P/1 – Não dava para contar quantas.


R – É, contar, anotar e entregar lá, e de tarde entregar. Porque eu, lá no meu trabalho, nós pegamos tudinho, aí, quando é de tarde, é que nós entregamos lá para a nossa chefe, sabe?


P/2 – Ô, Moacir, como é que você fazia o seu trabalho antes de você ser alfabetizado, você guardava, como é que era?


R – O trabalho? Eu guardava só na cabeça, e, de tarde, tinha que dizer: “1500 de um, 2000 da outra". Tinha que ser tudo gravado, porque, para na hora da anotação, né, de tarde, de entrega de cor, guardava tudinho só na cabeça.


P/1 – Era tudo de cabeça.


R – Era. “Nota de cor, “fulano de tal”, semente de “fulano de tal”?”, “2000”, “ Semente de “fulana”?”, “1000 e tantos, 800, 400...” Aí ia indo só...


P/1 – Ô, Moacir, você está há quanto tempo na Escola Esperança?


R – Três anos.


P/1 – Então já está na terceira série?


R – Terceira série. Estou começando na quarta série. Já terminei a terceira.


P/1 – Quando que você percebeu que você estava lendo?


R – Rapaz, quando eu fui ler, foi agora há pouco tempo, eu lia, mas só gaguejando, né? Agora, eu já vi que melhorei mais, que eu comecei ler mais, né? Quando a gente lê mais, a gente melhora mais. Eu não leio muito bem não, mas eu lá em casa, a minha filha, que está na quinta série, ela pega um livro deles, lá da escola, aí: “Papai, eu vou ler essa daqui, essa daqui é sua, essa daqui é minha.” Aí a gente lendo, a gente melhora, né, que a gente...


P/1 – E qual foi a sensação de você pegar seu livro e estar lendo, você sozinho, ou poder fazer suas contas sozinho?


R – É muito bom! É muito bom! É uma alegria, melhor que eu senti muito grande na minha vida. Porque a gente depende da gente mesmo em estar enxergando ali o que a gente está vendo... Porque, em primeiro, se a Senhora me desse um papel desses, fosse para me matar: “Moacir, tu vai morrer em “tal” canto”, eu ia, né, que eu não sabia! Agora, se me der um papel eu olho e digo: “- Isso daqui não vai dar certo, né, a gente já sabe que"... Para a gente é a coisa mais importante da vida da gente, né, porque a gente não deixa para ninguém, a gente leva, porque se a gente tem dinheiro, a gente vai deixar para os outros, né, o dinheiro da gente. Mas o saber da gente, se a gente morrer, a gente leva, só serve para a gente mesmo.


P/1 – É isso aí. 


R – É uma coisa importante, né?


P/1 – E qual foi assim também, na aula, Moacir, qual foi a sua maior dificuldade lá na escola?


R – Que eu achei “mais ruim”?


P/1 – É, o que que você achou mais difícil, foi o quê?


R – Foi desenhar. [risos]


P/1 – Foi desenhar?


R – Desenhar, eu fazia era muito ruim [risos]. A professora pegava na mão da gente, para a gente desenhar...


P/2 – Mas desenhar o quê, as letras?


R – Desenhar, fazer algum desenhozinho.


P/2 – Ah, fazer desenho mesmo.


P/1 – Mais do que fazer as letras.


R – É. As letras não eram muito ruim não, porque nós começamos é na televisão, um vídeo, sabe, na televisão, na fita. Aí, aquele está lá ensinando, ensinando tudinho, ele está fazendo a letra, né, tudo bonitinho lá, a gente vai... Ia só colando por ali, só... Aí já ficava mais fácil. Agora, na hora do desenho... Eu me lembro que eu fiz um tatu... Meu Deus do Céu! Ainda está lá em casa de amostra, o meu caderno, tá lá.


P/1 – E o tatu não parecia um tatu?


R – Parecia... Eu, acostumado com bicho do mato, né, mas não sabia fazer.


P/1 – Mas você queria, que ele ficasse igual ao tatu que você via no mato?


R – É, ao menos parecido, mas não ficou nem parecido. E a professora para me ajudar: “Está bem bonitinho, Moacir, tu está desenhando bem bonitinho!” Mas feio, né? Mas ela anima a gente, que era para a gente não desistir.


P/1 – Você acha que estava feio mesmo, ou você queria um tatu igual ao de verdade, Moacir? Vai ver que ela é que tinha razão.


R – Eu queria ao menos parecido, aí não estava parecendo, aí eu achava que estava muito feio mesmo. [risos]


P/1 – Quantas pessoas têm na sua sala agora, lá da escola? Qual é a média?


R – A base de nós ficar é 20, 25, só na minha sala.


P/1 – E as idades, tem gente da tua idade, tem gente mais velha?


R – Tem gente mais velha, tem mais velha. Tem mais velha do que eu, tem mais novo, e tem mais velho.


P/1 – O mais velho deve ter, mais ou menos, quanto?


R – Tem um acho que até de 52 anos, tem gente lá, estudando lá na minha sala.


P/1 – E o mais novo?


R – O mais novo, tem gente nova, eu acho, de 20, 21. Tem gente nova também.


P/1 – E seus professores, como é que é, é uma professora por sala...?


R – São dois, só numa sala. Na nossa sala são dois.


P/1 – Quais são os nomes dos seus professores?


R – Um é Josué, Cristiane, eles dois. O que é que eu... Desde que eu estude que... Que não é meu período, né? A outra também, a Sandra, foi a primeira minha professora, foi a Sandra, ela mora em Coari, ela foi a primeira professora minha. Ela deu aula para nós bem uns dois ou três anos, ela que sofreu, sabe?[risos] Nós “aperriava”... Nós “aperriava” tanto ela, ela era bem boazinha assim, né, que tem pessoa que dá aula para a gente, é bem boazinha, se não entende, explica, né, o cara não acerta, ela volta de novo, explica de novo. Ela era boa professora. Eles todinhos são bons, mas ela era... Foi a melhor professora. Eu disse para ela que o dia que eu fosse aprender eu ia lá onde ela estava. Outro dia eu fui lá. Eles vieram em Coari, eu digo: “ Rapaz, que estou com vontade de ver a professora.”


P/1 – Queria ver de novo para continuar...


R – Para ela ver, né, que ela passou, ela fez um curso, ela ia para... Parece que ela queria ser enfermeira. Ela foi, sabe, saiu lá do... Aí entrou o professor Josué. Ele é legal também. Explica direito. O negócio é que aqueles modos que eles trabalham... Que nós não trabalhamos assim com, esses outros...


P/1 – Como é que é o modo como você trabalha?


R – O modo que nós trabalhamos é um papel que ele... Que já vem as coisas... vem tudo coisado lá, né, isso já não é nem do Brasil, né, é daí de fora, aqueles modos. Aí, aquilo dali é uma coisa de uma pessoa que tem o primeiro grau, ele não coisa, ele não faz uma coisa da terceira série. É complicado, é um baile de cabeça.


P/1 – É difícil?


R – É. Ichi! Precisa o cara ler e prestar bem atenção para poder responder.


P/1 – São os exercícios, é isso, para vocês?


R – É. Pode pegar um modo daquele, dá... Eu já dei para a nossa chefe lá, que é nossa engenheira, conta... Conta não, que é assim, resposta que ela faz, que ela pensa que é uma coisa, né, ela ensina para a gente fazer, mas é diferente do outro modo que tem, que a professora dá. Porque a professora já ganha um bocado no modo já feito, né, aí ela vai estudando também... Nós estamos estudando, ela estudando também, fazendo os dela lá, para ela poder, quando a gente responder, estar certo. Lá já tem uns já feito, que é para ela poder ir... Que a gente sai respondendo, aí ela olha, que não está do jeito do outro, né? Não está menos parecido a resposta, né?


P/1 – Isso é para exercício de português ou é de matemática?


R – De tudo, mas é mais para português. Matemática é mais fácil.


P/1 – Você acha que matemática é mais fácil, os números?


R – Acho, acho.


P/1 – E quando você começou a fazer conta? 


R – Ah, conta...


P/1 - Já tem quanto tempo?


R – Desde que eu comecei a estudar. A conta que eu...


P/1 – A conta foi mais fácil?


R – A conta que eu achei mais difícil foi de dividir. Mas negócio de parêntese, colchete, chave, “xis”, tudo, eu fui direto, eu não me amarrei em nenhuma não.


P/1 – Isso foi mais fácil que as letras?


R – Foi, mais fácil. A conta para mim é mais fácil. Que a gente sem, né, quando a gente começa, negócio de dividir, que eu achava mais ruim, para dividir. Logo no começo, né, a gente, assim, eu achei meio ruim. Mas depois que eu comecei pegar mais já... Que a gente vai... Depois que vai encaixando tudinho, né, a gente vai aprender pegando mesmo a base... Conta eu não acho muito ruim. Não sei se é porque eu já sou mais acostumado de conta de cabeça, né?


P/1 – E as aulas, você lá na escola, você está na terceira série, tem a quarta, vai até que série?


R – O meu módulo é até eu terminar ele, é 71. 71 módulos daqueles, sabe? Aí termina a quarta série.


P/1 – Aí termina a quarta.



R – É, eu estou no 60.


P/1 – Então você está na terceira, mais ou menos?


R – Eu já estou na quarta, né?


P/1 – Na quarta? Passou para a quarta?


R – É, porque eu estou no 60, né? Aí, quer dizer, que no 60 só falta só... 71, só falta só 11, né?


P/1 – E aí você acaba.


R – Aí, eu terminando, que termino a quarta. Aí já vou pegar já para fazer a quinta série, a quinta e a oitava. Três séries, mas faz tudo de uma vez.


P/1 – E você quer continuar?


R – É. Agora, até computador lá eles deixam a gente pegar, a gente está pegando. Todo dia por semana, a gente tem dois dias na computação, sabe?


P/1 – E você já está...


R – Eu estou lá, eu já sei ligar. No primeiro dia, era o mesmo que galinha comendo milho, era só tchum, tchum, né, que a gente num…[risos] Agora a gente já está com o dedo mais...


P/1 – Treinado?


R – Mais maneiro, né,... Quando ____ um aqui...


P/1 – E você gosta do computador?


R – Ah, de repente dá o horário, a gente fica tão entretido, né, que... Dá o horário, de repente, ninguém nem vê quando dá o horário.


P/1 – É tão bom que passa rápido.


R – É, passa rápido. O cara quer fazer muita coisa, né, e não dá.


P/1 – E o que você gosta de fazer no computador?


R – Coloca aí... Nós escrevemos alguma coisa, que nós queremos escrever mesmo no coisa.... No papel, aí, faz só passar para o computador, faz só botar o papel lá, de jeito...


P/1 – Que bom que você está gostando então!


R – É bom demais. Eu disse para a minha menina: “Minha filha, eu vou comprar um computador para nós, que é para nós também aprendermos, ficar craque.” Porque a gente comprando, em casa todo mundo aprende, né?


P/1 – Pois é, deixa eu saber, você fala da sua filha toda hora. Quantos filhos você tem, Moacir?


R – Seis.


P/1 – Com a Raimunda?


R – Com a Raimunda eu tenho cinco.


P/1 – Cinco, mais...


R – A Jordana, que é...


P/1 – Jordana, que vocês criaram.


R – É, criamos. É seis, com ela.


P/1 – A Jordana hoje está com quantos anos?


R – Está com 14 anos.


P/1 – E suas mais novas?


R – Ela é mais velha de tudinho, ela.


P/1 – Não, pois é, então me diz a idade dos seus filhos e os nomes. Tem a Jordana, depois...


R – A Jaiana, que era irmã da Jordana, que ela tem... Depois que nós pegamos com um ano e pouco, ela... A minha mulher saiu grávida dela, sabe, da Jaiana.


P/1 – E aí tem Jaiana...


R – A Jordana, Jaiana, a Maiana, que nós chama só de Mic, que a gente só chama mais pelo apelido, né [risos]?


P/1 – Chama ela de como?


R – Mic.


P/1 – Mic?


R – Mic, porque ela era gêmea, né, que tinha um filme que era Mic, a Dominique?


P/1 – Ah, tá!


R – Aí tinha um filme, aí botei o nome dela de Mic. Pois é, é a Jordana, Jaiana...


P/2 – A Jaiana tem quantos anos?


R – A Jaiana?


P/2 – É.


R – Tem 13, a Jaiana.


P/2 – Depois vem a Maiana.


R – Aí depois vem a Maiana, que ela tem 10, aí vem a Jordana.... é Jaiana, Jordana...


P/1 – A Maiana.


R – A Maiana, a Joana. A Joana tem seis anos, ou sete. É a mais pequena. Aí vem o Jeferson, e vem o Edu.


P/1 – O Jeferson tem quantos?


R – O Jeferson tem 11.


P/1 – Então tem dois meninos.


R – É. E tem o Edu, o Eduardo. O Eduardo tem um ano e seis meses.


P/1 – É o bebê?


R – Dois anos e seis meses, o Eduardo. É o... Está desse tamanho ele, assim...


P/2 – E todos eles estudam, que dizer...


R – Não, só não o pequenininho, os outros todos estudam. A Jaiana está fazendo a oitava série, agora, a Jordana é que... parece que... Diz que menino que não mama, né, assim, não tem bem...


P/1 – Como é que é?


R – Assim, né, que tem filho, que o pessoal que tem esse dizer do interior: Que essas pessoas que... Menino que não mama assim, na mãe, ele não tem a cabeça boa para estudar. Porque essa minha menina, ela está na quinta série, no mesmo ano da que tem 10 anos, da Mic. E a outra está na oitava série, que é mais nova do que ela, né, que já passou. [risos] A Jaiana nunca repetiu um ano, desde pequena, nunca repetiu um ano.


P/1 – Isso é de um para um, pode ser que daqui a pouco ela pegue gosto e vá mais...


R – Ela está estudando esse ano... O ano passado ela passou.


P/1 – Mas aí elas estudam; você pôs elas na escola desde...


R – Desde quatro anos. Com quatro anos as meninas já estavam tudo estudando, já iam para a escola. Estudando não, riscando, né, eles iam, voltavam. Agora esse meu menino, que tem dois anos e seis meses, ele já quer ir. A mãe dele outro dia comprou um caderninho para ele, ele chora, chora, chora para ir, mais com a irmã dele pequena. 


P/1 – Bonitinho!


R – Ele quer ir, chega lá, sai pegando assim, pega o lápis assim pelo meio, mas só que é riscar tudo, mas ele gosta, ele quer ir. Já tem interesse, de pequenininho...


P/1 – E, Moacir, então, quando você entrou, você passou a trabalhar lá em Urucu, é que você pode por as meninas na escola.


R – Não, elas já estudavam, já estudavam.


P/1 – Já estudavam?


R – Já. Agora, eu não estudava porque eu trabalhava, quando eu chegava, eu ia sair, né, ficava de dormido. Tinha vezes que eu passava só três dias em casa, que era para ver se conseguia mais... Naquele tempo eu ganhava menos, né, para ver se eu conseguia mais dinheiro para casa, que não era muito. Que seis filhos dentro de casa é muita...


P/1 – E elas estudam em escola pública?


R – É. Estudam na escola do governo.


P/1 – Ah, que bom!


R – Só uma que está estudando computação, só uma. Que é pago.


P/1 – É essa que conversa com você, que você toda hora fala dela, que vai estudar com você?


R – É [risos]. É a Maiana. Ela é que é a mais interessada, ela sabe negócio de computação, ela tem dez anos, mas ela... Ela quer aprender tudo, ela.


P/1 – E qual é a que pega o caderno e fica lendo com você?


R – É ela.


P/1 – É ela?


R – “Papai, essa daqui é uma minha, essa daqui é sua, essa aqui é não sei de quem...”[risos] Por ela que ficaram tudo chorando quando eu vim, porque eles tinham medo. Ia me perder, ela disse [risos].


P/1 – Não, mas você vai contar depois para ela, tem muita história para contar.


R – É mesmo, que eu vi que ela... Que essa máquina... Que eu trouxe a máquina... Comprei uma máquina novinha e não vou tirar uma foto com ela. Uma tristeza! Quase 200 reais.


P/1 – Não, vai tirar sim!


R – Vou não, que está esculhambada!


P/2 – Está faltando uma peça.


P/1 – Ah, é?


R - Veio esculhambada, rapaz, dei o meu dinheiro, todo perdido.


P/1 – Será que não dá para trocar?


R – É o coisa, como é, o flash.


P/2 – É o flash que deixou em casa.


R – Que não tem, que não veio. Aí comprei o filme e tudo, mandei o cara colocar lá, que eu não sabia nem colocar, o cara disse: “Ah, rapaz, isso aqui não tira nada não.” Eu falei: “Rapaz, deixe disso, que eu comprei essa máquina agora, bem novinha.”[risos] Ele disse: “Rapaz, está faltando o flash.” Aí foi uma tristeza, né? Não adiantou nada. Comprei o filme, comprei a máquina; a máquina está aí, não vou tirar uma foto para levar.


P/1 – Ora! A gente depois vê como é que a gente pode fazer. Mas trabalhar; você até falou um pouquinho, que às vezes está cansado de trabalhar, estudar. Como é que você tem força, você vai, quer estudar, quer ir para a sua aula...


R – É. Eu vou... Tem dia que a gente vai mesmo, porque a gente precisa ir. Porque se a gente não for, a gente perder um dia, já faz falta, né? Mas tem dia que a gente se “baqueia” mesmo, é difícil.


P/1 – Então você viu que....


R – Vale a pena!


P/1 - Todo esse ensino te fez falta.


R – Faz. Vale a pena o cara se esforçar, o cara se interessar. Mesmo que a gente fique mais cansado, mas a gente indo, vale a pena, porque já melhora mais para a gente mesmo. Porque a gente vai enxergar melhor, a gente vai ter mais conhecimento com as coisas.


P/1 – E o que mudou então, com a tua vida?


R – Mudou muita coisa. Primeiro, mesmo no lugar da gente gastar, melhorou, né, porque a gente já conhece, não tem como gente enganar a gente, né? Se a gente tiver um documento para a gente resolver alguma coisa que a gente vai resolver para a pessoa, próprio, da gente mesmo, a gente já sabe resolver também, né, não precisa a gente “estar” pedindo para ninguém resolver para a gente. Se manda alguma coisa para a gente, se manda uma carta, se a mulher da gente escreve uma carta, a gente não precisa depender de ninguém, dar para ninguém ler. Que, de primeiro, que alguém mandasse algum recado para a gente, a gente ia lá: “Lê isso daqui para mim.” Aí ficavam fazendo galhofada, achando graça. E, agora, a gente mesmo sabe, a gente pega, a gente mesmo olha, né, sabe o que foi que veio. Se vier uma coisa boa a gente guarda, se vier uma coisa ruim a gente rasga, joga fora, não tem quem saiba, né, o segredo da gente. Aí, a gente não sabendo... Isso aí é o mais importante, que eu acho para mim, é por causa disso, porque a gente reconhece mais, né, não depende dos outros.


P/1 – E você falou até de fazer economia. Você acha que isso também...?


R – Ah, ajuda muito! Porque a gente mesmo chega lá, no supermercado, você vê o preço de uma coisa de um jeito, outro já está mais barato, você reconhece, aí vai pega o mais barato, que a gente não vai pegar o caro, que seja a mesma coisa, a gente vai pegar um caro, para pegar o mais barato. Chega no supermercado, entra: “ Rapaz, aqui as coisa estão mais caras.” Enquanto o “fulano de tal” baixa dez centavos, 20, a gente já vai para lá, né, porque a gente sabe tudo, já conhece. Quer dizer que já ajudou mais também, no gasto da gente.


P/1 – Muito bom! E, me diga uma coisa: você falou que fica lá, no alojamento, em Urucu, né, mas sua esposa e suas crianças, elas moram em Carauari. Então você passa quanto tempo em Urucu?


R – 14.


P/1 - E folga?


R – 14.


P/1 – E aí dá também para esses seus dias de folga... o que você gosta de fazer?


R – Lá, quando eu estou lá, só açaí.


P/1 – Só o quê?


R – Faço só açaí. 


P/1 – Só açaí?


R – É, direto fazendo açaí. Eu tiro e faço.


P/1 – Para vender?


R – Para vender, eu vendo.


P/1 – E você faz bem?


R – Eu faço. Eu faço... Eu vendo todo dia 600 litros, 500.


P/1 – Quanto?


R – 600, 500, todo dia.


P/1 – É coisa demais.


R – É, mas eu... Porque eu compro do pessoal e faço e vendo.


P/1 – E você tem uma barraquinha?


R – É, eu tenho uma casinha bem...


P/1 – Tem uma casinha?


R – Bem ajeitadinha, com duas máquinas.


P/1 – Como é que é?


R – Com duas máquinas dentro.


P/1 – Com duas máquinas?


P;1 – E alguém te ajuda?


R – É, eu mais minha mulher. Quando é agora, ela faz, quando eu não estou lá, ela faz.


P/1 – Ai, que bacana!


R – Mais com minha filha. A minha filha estuda de manhã, aí eu... O açaí só chega à tarde, né? De meio-dia em diante é que chega. Aí ela faz, mais minha filha.


P/1 – E vocês vendem açaí lá, com o que, com farinha... conta como é que é?


R – Não, nós vendemos só o açaí puro mesmo.


P/1 – Só ele batido...


R – Só o vinho assim, bem... Tipo uma polpa, né, do açaí. Aí nós vendemos, aí a pessoa...


P/1 – Para tomar na hora, lá.


R – É. A pessoa quiser tomar logo, toma, se não quiser, leva para casa, né, aí lá ele toma com…[risos] Ele que compra farinha, ele que compra, ele mesmo.


P/2 – Mas você compra o que? Moacir, você compra a fruta?


R – O caroço.


P/2 – Ah, você já compra a fruta, aí você tira...


R – O caroço, aí eu tiro a polpa e vendo. Eu estou mandando até para Manaus. Eu mandei para fazer uma amostra, sabe, para ver se o pessoal vai se interessar, que se interessar, vou ficar vendendo para eles.


P/1 – Mandou para Manaus?


R – Para uma fábrica lá, um amigo meu pediu para mandar uma amostra.


P/1 – Tomara que dê certo! Você já mandar o açaí ensacadinho, é isso?


R – É. Já no ponto. Eu mandei já para ele ver assim, sabe?


P/1 – Congela, não?


R – Congela, manda no gelo.


P/1 – Manda no gelo.


R – É, porque todo barco desse que viaja, tem frigorífico. Aí é só colocar no saco, colocar dentro do frigorífico e vai embora. Fica bem geladinho. Do meu jeito.


P/1 – E aí, de Coari para Manaus dá para ir de barco?


R – De Carauari.


P/1 – De Carauari para Manaus dá para ir de barco?


R – Dá.


P/1 – Vai por qual rio?


R – Pelo Juruá. Vem pelo Juruá, até pegar o Solimões e...


P/2 – Seis dias?


P/1 – Sobe o Juruá, Solimões...


R – É, quando vem baixando, descendo, né, quando vai daqui para lá, subindo.


P/1 – Você já foi... Vai várias vezes...


R – Já fui. Vixi! Fui lá muitas vezes.


P/1 – É quanto tempo?


R – É quatro dias de baixada e de... Quatro dias, com quatro noites, de baixada. E de subida seis dias e seis noites. Porque vai parando também.


P/1 – Vai pegando as...


R – Vai entregando as mercadorias para aquelas comunidades maiores, né, parando. Tem vezes que passa duas, três horas só num canto.


P/1 – E me conta uma história assim, desse teu tempo aí, você de sementeiro lá pela floresta, se aconteceu alguma coisa interessante. 


R – Que eu visse?


P/1 – Alguma coisa que tenha assim... Que você ache engraçada. Conta uma história aí.


R – Não aconteceu nada assim, de coisa...


P;1 – Não encontrou nenhum bicho diferente...?


R – Não, só mesmo onça, queixada, eu já topei na mata assim.


P/1 – Onça você já topou na mata?


R – Já, já. Ah. Em Urucu a gente vê direto, elas.


P/1 – E você ficou assustado, dá medo?


R – Dá, quando a gente vê logo, dá medo. Mas depois passa. É que logo que a gente vê, dá medo, depois que a gente vê ela, que...


P/1 – E ela te viu?


R – Viu! Ela rosnou, elas rosnam. A gente vê quase todo dia.


P/1 – Olhou para você?


R – É. Mas o negócio é que eu não ando só não, lá. Eu ando mais outro rapaz, que é o mateiro, sabe? Eu ando só nós dois. Aí nós... Dois, né? Ela olhou para nós, sentou-se assim, ficou bem olhando para nós. Aí ele disse: “Rapaz, será que essa onça vai vir aqui?” Eu digo: “Vem nada!” Ele bateu o terçado assim, da enxada, ela só fez só rosnar assim, botou o dente de fora e foi embora.


P/1 – Mas não pode sair correndo senão ela corre atrás.


R – Não, mas nós não corremos não, ela ficou num canto parada. Mas, de vez em quando, a gente vê ela. Tem dessas que vê a gente, corre, mas tem dela que não corre não. Porque no Urucu ninguém não mata nada de bicho. Aí elas não têm medo da gente não. Se a Senhora vê... A Senhora vê uma anta daquela, bem pertinho, que é do tamanho de um boi, a Senhora vê ela bem pertinho, ela não corre de jeito nenhum, passa bem assim, nem... Que elas não têm medo de ninguém, ninguém não faz nada com elas mesmo.


P/2 – Mas ela é um bicho manso, ou ela morde?


R – Morde. Ela só morde se a gente pegar nela, que ela estiver com raiva.


P/1 – Pode morder?


R – Pode, mas ela atacar assim, atacar a gente sozinho, como onça, ela não ataca não.


P/1 – Tem anta do tamanho de um boi?


R – É.


P/1 – Nossa!


R – Ela é grande.


P/1 – E, Moacir, e de ave assim, o que tem lá, que você gosta?


R – Ah, da onde, da minha cidade? Mutum.


P/1 – É. Ou ali perto de Urucu... Qual é um que você goste, que ache bonito?


R – Que eu ache bonito é o tucano.


P/1 – O tucano, tem muito tucano?


R – Tem tucano, papagaio; papagaio também é bonito. A Senhora conhece papagaio?


P/1 – Conheço.


R – Nós criamos um, um bocado de tempo. Aí, depois, eu comecei trabalhar no Urucu, eu fui, dei para um homem, porque eu tinha pena do bichinho estar preso. Ali era um crime, um cara criar um animal, um monte de tempo deixado preso, o resto da vida dele, eu disse: “Rapaz, eu tenho que soltar esse bicho ou então dar para alguém aí. Eu não quero mais não."


P/1 – E isso tudo você aprendeu trabalhando em Urucu?


R – Foi, porque a gente fica pensando que a gente está...


P/1 – Te ensinaram isso lá, eu não dá para...


R – Porque lá a gente trabalha com meio ambiente, a gente não trabalha para destruir. Então, eu estava destruindo, porque eu estou prendendo um animal, não deixando ele fazer a vida dele, né, não deixando ele fazer a vida dele, ele podendo estar andando, né, está ali preso. Porque um animal estando dentro de casa, ele está preso, é o mesmo que  pegar uma pessoas e botar na cadeia, né? Aí eu digo: “Vamos, temos que dar esse animal para alguém porque eu não vou querer aqui não. Então eu vou soltar ele.” Aí minha mulher foi e deu lá para um parente dela levar.


P/1 – Moacir, e aí toda essa idéia de meio ambiente que você aprendeu então, a partir do trabalhar lá em Urucu, você hoje se dá conta da importância desse seu trabalho? 


R – Dou.


P/1 – O que você acha disso?


R – Eu acho que é muito bom a gente “coisá”, porque a gente preserva muitas coisas da gente. A gente preserva as coisas para a gente, que a gente preserva... Como hoje, eu estava até falando com a Senhora, que eu vinha voando hoje, na hora que eu me acordei de manhã, eu olhando. Eu vi tudo destruído, né, tudo mesmo, tudo limpo, eu digo: “Cadê a natureza, que é para nós, lá?” Porque para lá a Senhora vai voar de avião, a Senhora olha, a Senhora vai ver só mata, a Senhora não vê limpo, né? E aqui, para cá, a gente vê isso tudo limpo. 


P/1 – Sem nada?


R – Sem nada, só uma... ___ lá uma arvorezinha.


P/1 – E isso te assustou?


R – Deus me livre! Deu aquela idéia que daí acaba o mundo, né, até o ar que a gente toma natural, né? E sem a natureza a gente não vai puxar esse ar, né, porque não tem.


(Fim da Fita nr. HV/2005-46-1/2)



P/1 – Moacir, retomando, você pode explicar para a gente de novo, mais uma vez, como é que você sobe, no seu trabalho, nas árvores mais altas e também naquelas mais largas?


R - Coloca a espora, aí, depois que a gente coloca a espora, a gente coloca um cabo, que é um braço comprido, vamos dizer, seis braços, vamos dizer que ele tenha seis braços de tamanho, aí rodeia a árvore, aí então ele vai era amarrado na gente, em volta. E já tem uma ponta amarrada e a outra ponta rodeia a árvore, aí vem, amarra na gente de volta. Ele, geralmente, ele é para cá, para ele não deixar a gente girar para trás, sabe, é como a gente vai andando, como a Senhora vai caminhando, a Senhora vai subindo, como vai caminhando, só pisando, como vai caminhando. A Senhora não sobe assim, com dificuldade não, sabe, sobe como quem vai andando, só pisando, em pé todo tempo. Aí, aquela árvore que for muito grossa, que não dá para... Para o cabo a gente pegou ele assim, de um lado ao outro, assim, para o cabo correr legal, aí a Senhora vai fazendo assim, ó, rodeando ela todo tempo, fazendo pião nela, rodeando e vai embora, até...


P/1 – Sobe no giro?


R – É, no giro. Vai só rodeando, pisando... O cabo vai suspendendo por ele mesmo, tipo um parafuso.


P/1 – E a espora você tem o quê, um sapato com a espora, ou você pode prender a espora num sapato?


R – Ela é presa na bota, ela, ela é presa na bota. Ela é uma coisa feita assim, tipo um arco, é uma volta, né, é feito uma volta, presa aqui, no sapato.


P/1 – Mas não é qualquer um que bota essa espora e sai subindo aí?


R – Não, se não souber, não sobe não.


P/1 – Isso é porque você teve esse treino desde pequeno.


R – É, é, Só que tem que saber. Quem não sabe não consegue subir não.


P/2 – E essa pessoa que sobe é quem, é o sementeiro que você falou, qual é o nome que dá a essa pessoa que sobe? Porque lá embaixo fica o mateiro, né?


R – É, é o trepador.


P/2 – Ah, é o trepador, isso!


R – É


P/2 – É o trepador, aí você vai tirando as coisas da árvore e o mateiro vai pegando.


R – E o mateiro vai pegando, que o mateiro que é o que...


P/1 – E você vai levando uma cestinha nas costas para botar alguma coisa?


R – Não.


P/1 – Não precisa. Ele que pega.


R – É. Quando quer água, que for para passar o dia todo lá em cima, aí solta uma corda, aí ele amarra água, comida, e a gente leva tudo para lá.


P/1 – E você passa o dia inteiro lá em cima?


R – Passo, tem vezes que eu passo.


P/1 – Ah, isso você não me contou! Me conta aí, como é que é o dia inteiro lá em cima?


R – Tem vezes que a gente sobe 6h, 7h do dia, 8h, a gente vai descer só 4h, 2h...


P/2 – Numa mesma árvore?


R – Só numa árvore só. Ah, esse processo aí é devagar, ele.


P/1 – É assim?


R - É, ele é devagar. Coloca o cinto de segurança lá em cima, aí senta bem, que vai tirando de semente em semente, é, a coisa é devagar. Aí, tem muita semente que roda, não cai no chão, né, que ela fica em cima das outras árvores. Aí a gente tem que cortar e... Tem que tirar a cola, tirar muito. Vamos dizer que cortar 100 sementes, vai cair umas 30, né, no chão. O resto vai ficar grudado nas outras árvores.


P/1 – E depois essas sementes podem cair também, com o vento e germinar sozinha.


R – Cair, ela germina por ela mesmo lá, sozinha. Porque a que nós, que nós só tiramos, é aquela chega no chão, né, que fica trepado, fica para lá mesmo.


P/1 – Qual é a sensação de estar lá em cima?


R – É muito bom, a gente vê a coisa muito longe, é bom.


P/1 – Vê muito longe?


R – Vê, é bom, a gente vê a natureza. Tudo certinho. É meio que estar quase num avião. É bom demais!


P/1 - E aí você vê a árvore, árvore, vê o rio, como é que é?


R – Não, vê o rio só se for na beira, mas lá, onde nós trabalha é mais... É cerrado, a gente não  vê o rio, né? A gente fica só mesmo... A gente vê só a mata mesmo, tudo certinha. Vê tudo certinha, vê as outras árvores.


P/1 – Você vê os pássaros?


R – Vê os pássaros, vê tudo.


P/1 – Eles chegam perto para pousar perto de você?


R – Macaco chega, macaco.


P/1 – Chega lá?


R – É, a gente está cortando a fruta, se for uma que eles comem, eles... Eles vão bem pertinho.


P/1 – Eles vão pegar?


R – Vão.


P/1 – Não te atrapalha, não, os macacos?


R - Não, não atrapalha não, que a gente não tem medo deles, né, a gente sabe que eles não vão mexer com a gente. Mas ele vão lá olhar, bem de pertinho. E brabo ainda, tem vez.


P/1 – Mas aí então, passando tanto tempo lá em cima, a comida vai pela cordinha?


R – É, a gente puxa para lá.


P/1 – Faz um lanche lá.


R – É. Almoça lá.


P/1 – Almoça lá. Lá no fresquinho.


R – Aí almoça e faz só soltar as coisas para ir de novo. Continuar trabalhando.


P/2 – Você já teve que entrar na mata à noite, alguma vez?


R – Já.


P/2 – Já, para fazer um trabalho?


R – Sim. Fazer coleta de óleo.


P/2 – Na época do seringal?


R – Não, agora.


P/2 – Agora?


R – Na época do Urucu, mesmo.


P/1 – Você foi fazer coleta?


R – E na época do seringal, só trabalhava... Nós cortávamos seringa só de noite, não era de dia não.


P/1 – Ah, é! Por quê?


R – Porque tinha esse negócio dos pais da gente dizer que de noite dava mais leite do que de dia. Porque de dia o sol era quente, aí o leite que escorria parava rapidinho. Aí de noite, com a frieza da noite, aí custava mais, escorria mais, né, dava mais leite.


P/1 – Olha que interessante!


R – Aí a gente cortava mais era de noite. Saía de casa 1h, 2h da madrugada. Com a poronga.


P/2 – E você não tem medo, assim, da mata, não existe nenhuma lenda, assim, as pessoas não falam: “Olha, você vai encontrar um bicho ali!” Não tem nada assim, na sua comunidade?


R – Não, não. Só que faz medo é a onça, mas a onça não persegue a gente não, porque a gente, andante com lanterna, né, essas coisas, não persegue não. Agora, negócio de alma, tem gente que tem medo, né, mas eu nunca tive medo de alma não. De alma, nunca.


P/1 – E os barulhos de noite?


R – Pois é, o barulho, só o pessoal vê esse negócio de alma, mas eu nunca vi não, eu nunca...


P/1 – Tem uns barulhos esquisitos?


R – Tem, mas eu nunca vi não, eu nunca vi.


P/1 – Mas você já reconhece os barulhos, do que que é?


R – Já, de animal... Todo animal que cantar, eu... 


P/1 – Você reconhece?


R – Eu sei quem é.


P/1 – Sabe imitar um de noite, de lá?


R – Sei não [risos].


P/1 – Que eu não conheço;


R – Imitar eu não sei não.


P/1 – Imita um barulho aí, que dá susto nas pessoas.


R – Eu não sei não, senhora.


P/1 – Para a gente aqui da cidade então, vai dar mais susto ainda.


R – Eu não sei não. Eu sei que vê animal, eu conheço todo grito de todo animal.


P/1 – E você gosta de cantar quando você está lá cima da árvore?


R – Não gosto.


P/1 – Não gosta não?


R – Eu não gosto de cantar muito não, mais de assobiar, mas de cantar...


P/1 – Bom, Moacir, deixa eu ver o que mais, também. Você que também, além da escola, que você passou a frequentar, que fez uma mudança muito grande para você e para a tua vida, você acha que o trabalho também lá em Urucu mudou, o que mudou, o que...?


R – Não, a escola, para mim, mudou muito a minha vida, ajudou muito. Porque mesmo com emprego do Urucu, mas que a gente quiser fazer o próprio negócio da gente, a gente saber, é muito bom, né? Porque, se eu hoje, se eu sair do Urucu, eu quiser montar qualquer coisa para mim, eu monto, já vai depender de mim mesmo, né, não vou depender... Nem dos meus filhos, que eu sei que os meus filhos sabem, né, mas daqui a uns dias meu filhos... Eu posso chamar uma: “Ah, papai...” E eu já vou depender de mim mesmo. Para mim foi importante eu ter estudado e eu ter aprendido o que eu já aprendi e estou continuando estudando. Tem muita gente que diz: “Ah, eu vou estudar, porque não... Pode daqui a uns dias no Urucu não pegaR mais gente que não sabe, eu vou estudar por causa do emprego.” Eu gosto do meu emprego, _______________. Mas eu estudo, não é tanto não é por um emprego, eu estudo porque eu quero mesmo aprender, para mim é importante, porque ajuda muito a gente, né, a vida da gente depende muito.


P/1 – Para a sua barraquinha também de açaí ajudou, né?


R – Deus me livre! Ajuda em todo lugar.


P/1 – Não é só para você comprar, mas para você também vender ?


R – Vender e passar troco, e tudo, né? A gente sabe fazer soma, de repente o cara compra tanto, “Traz aí o caderno!” Soma, de repente, né, tem a calculadora, rapidinho você dá o resultado. Você não sabendo: “Será, quanto é que vai?” E fica pensando. Porque eu compro lá deles, eu compro, aí já faço e já revendo de novo, sabe? Quando eu tiro e compro... Que eu já tenho um pessoal, quando eu não estou lá, ele já tira direto e vem direto para a minha esposa lá. Açaí, sabe? Já fico vendendo.


P/2 – São pessoas da comunidade, de Carauari mesmo?


R – De lá mesmo, da própria cidade mesmo.


P/2 – De Carauari mesmo, que pega...


R – Que pega e já deixa lá em casa.


P/2 – Que vende para você e você está...


P/1 – Eles que coletam também.


R – É, eu já tenho aquele pessoal certo, sabe, aquele tanto de gente já certo.


P/1 – Teu fornecedor.


R – É. Eu já sou o chefe deles [risos] Já ficam trazendo para mim e eu só fico comprando deles. Aí eu já ajudo eles. Eles já me ajudam e eu já ajudo eles. Eu digo para eles, eu digo: “Rapaz, cada um é para ajudar uns aos outros.” Eles já precisam, eu já tenho o dinheirozinho de Urucu, já compro deles, ganho... O meu lucro é pouco, mas, para mim, assim, matar a comida, eu mato lá. Meu dinheiro de Urucu é mais para comprar uma coisa que a gente quer, porque lá em Carauari as coisas são muito difíceis, assim, para a gente conseguir. Para a Senhora conseguir comprar uma televisão boa, a Senhora já vai ter que fazer economia. Porque se a Senhora quiser comprar um coisa de valor, é, em todo canto, mas a gente tem que fazer mais economia para poder conseguir. São caras as coisas. Muito caro.


P/2 – Mas você consegue comprar tudo isso na sua comunidade, ou você tem que vir para Manaus?


R – Não, compro tudo lá. O meu pessoal mora tudo aí em Manaus, mas eu nunca fui comprar nada por aí.


P/1 – Mas Manaus não é mais barato?


R – É mais barato, mas fica muito difícil. O cara tem que depositar dinheiro, né, e botar em recreio e chega lá amassado. Por acaso, vamos dizer que a Senhora compra uma geladeira. Aí a Senhora vai comprar lá em Carauari, vamos dizer que ela custa 900 reais. Se a Senhora for comprar em Manaus por 700, mas a Senhora vai ter que embarcar no recreio, aí quando chega no recreio lá, aí chegou amassado, né: “Ah, amassado não era para ter vindo!” Que sempre de recreio não vai com... Aí lá não, lá a Senhora vai na loja, a Senhora escolhe uma do jeito que a Senhora quer, né, e sem amassado sem nada. Que fica mais fácil, né?


P/1 – É isso mesmo!  


P/2 – E você começou a construir essa sua casa depois que você foi para Urucu?


R – Foi. Essa que eu moro lá, é.


P/1 – Isso que eu queria te perguntar. Eu acho que também, a partir do momento que chegou a Petrobras, qual foi a transformação lá em Carauari?


R – Ah, foi diferente, foi muito!


P/1 – Foi trabalho, o que que mudou?


R – Foi, ajudou... Mudou...


P/1 – Foi trabalho, o que mudou?


R – Ah, mudou, mudou muito e... Até nas...


P/1 – A vida na cidade...


R – E das pessoas também. Porque de primeiro, quando não tinha emprego, a Senhora chegasse na casa de uma pessoa que tivesse uma televisão, era preto e branco, né, e era alguém que tinha. Hoje, a Senhora vai lá, não tem uma pessoa dentro de Carauari, eu acredito, que não tem, porque eu não ando em todas as casas, que tenha uma televisão que seja preto e branca. Todo mundo tem televisão colorida. Porque quase todo mundo já passou nesse processo do Urucu. Porque a pessoa vai para Urucu… “Ó, vou para Urucu, Vou trabalhar só um ano, mas vou comprar uma geladeira, vou comprar um motor, vou comprar com fulano de tal...” Consegue, né, porque aquele dinheiro todo mês tem, ou que faça sol, ou que faça chuva, a gente recebe. Aí já... Quer dizer que já mudou a vida de muita... De quase todo mundo. Que todo mundo já tem a sua cor trazida pelo Urucu.


P/2 – É, você disse que 80% do pessoal de Urucu é de lá.


R – É, é de lá.


P/1 – Então, além de ter mudado assim, também até mudado a vida das pessoas, elas podendo ter uma vida melhor, as coisas melhores, televisão, a cidade mudou de cara também, cresceu, arrumou, o que que aconteceu com Carauari também, porque aí está girando dinheiro? 


R - Mudou a cidade.  cidade está bem ajeitada. Girando dinheiro... 


P/1 – O que mudou na Cidade?


R – Mudou, a cidade é bem ajeitadinha, a cidade de lá.


P/1 – Ficou ajeitadinha?


R – É, está ajeitadinha.


P/1 – Deu para calçar as ruas, fazer tudo direitinho?


R – Hummm! Tudo asfaltadinho. É bem ajeitada a cidade. Já esteve bagunçada, mas agora, esse prefeito que está lá... Ele já está com três mandatos que ele ganha lá. Agora não pode ser mais não, mas ele, ele deixa cidade bem ajeitadinha mesmo. Só o que não liga muito é negócio de médico para o hospital, sabe? O hospital, nós temos um hospital em Carauari, grande, bonito o hospital, é bem bonito mesmo. Mas não tem médico. Não sei por...


P/1 – Isso é que está precisando?


R – É, está precisando de médico, o médico lá... Fica poucos dias, os médicos saem. Não sei porquê é. Ninguém não sabe. Tem sempre um médico, dois... Mas dois médicos que ficam lá.


P/1 – E o que os teus meninos querem estudar?


R – As minhas meninas?


P/1 - É, os meninos são pequenininhos ainda. Das meninas maiores.


R – Eu tenho uma... A minha menina, tenho uma que ela disse que... Uma vai ser professora, vai estudar para ser professora. Agora, a outra vai estudar para ser alguma coisa na vida. Agora, não diz o que é. “Papai, daqui a uns dias, que o Senhor conseguir comprar um computador para mim, o Senhor vai ver, eu vou... dar aula.” O menino dá muito trabalho para ela, para dar aula, sabe? Essa mais...  A que tem dez anos. Essa é interessada. Eu tenho para mim que um dia ela vai ser alguma coisa. Vai dar exemplo, né, para a gente.


P/1 – Ela é muito interessada mesmo.


R – É.


P/1 – Com 10 anos ter assim...


R – Está na quinta série ela, né?


P/1 – É o teu xodó, né?


R – Ah, ela…[risos].


P/1 – Não é teu xodó? Você já falou dela aqui já.


R – Ela só vive... Eu gosto mais de... A gente tem o menino da gente, né, que a gente gosta de todinhos, mas tem um que... Ah, ela chorou para eu não vir! Eu não estou dizendo que ela chorava, que ela não queria que eu viesse não [risos]. Ela estava preocupada. Ontem ela já tinha ligado lá para a mamãe, para ver que eu tinha chegado, como é que eu estava [risos].


P/1 – Ô, Moacir, e você tem algum plano, o que você gostaria que elas fizessem, alguma coisa... O que você espera para elas?


R – Que elas fossem?


P/1 – É.


R – Eu queria que as minhas filhas estudassem, eu dou todo conselho para elas estudar, não se ajuntar, não ainda procurar namorado agora, né, para não ter filho dentro de casa, porque eu queria que elas terminassem os estudos delas, para cada uma delas ficar só.... Uma ser enfermeira, né, ser alguma coisa na vida delas, para depender do dinheiro delas mesmas. Para não ser mandado pelos outros, como eu estou sendo, né, que a gente fica. Ter o emprego da gente próprio. Aí isso eu dou conselho para elas mesmo. Graças a Deus que elas são umas meninas até quietas.


P/1 – Que bom! Tem um pai bom também.


R – São quietas porque eu dou todo conselho, né, que é para ver se ajuda elas.


P/1 – Uma coisa que você aprendeu com o teu pai também, né?


R – É, com a mamãe, que o papai. A mamãe dava muitos conselhos para nós.


P/1 – Moacir, e da própria Amazônia, como é que você vê também, esse lado, da riqueza da Amazônia, do mundo olhando para ela, toda essa riqueza natural, esse meio ambiente formidável, ainda preservado, o que você pensa disso tudo?


R -  O que eu penso é que, eu tenho para mim, que do jeito que estava indo, agora não, que graças a Deus que o Ibama já ajudou muito, né, mas eu tenho para mim que do jeito que estava indo, ia acabar a natureza, por causa que ia ficar...


P/1 - Lá estava muito...


R – Estava, já estava sendo muito... Os madeireiros  já estavam trazendo madeiras já muito para fora, né, eles estavam vendendo... Estavam cortando muitas árvores. Já tinha muita desmatação grande, na própria nossa cidade. Tinha vezes que derrubavam e não tiravam nem a madeira, nem reaproveitava.


P/1 – E nem tinham esse trabalho de...


R – E nem tinha trabalho de nada, né, que...


P/1 – De replantio, de...


R – De replantio nem nada. E não tinha... O Ibama não atuava, né, bem. Agora o Ibama... De primeiro, né, não tinha esse problema tanto, com o Ibama. Agora o Ibama atua, né, proibiu, não tem mais tirador de madeira, não existe mais. O cara ia daqui para lá, de Manaus, vamos dizer, Belém, tirar a madeira lá, leva aquelas madeireiras, botava aquele monte de tora de árvore, trazia pelo o rio, vinha embora.


P/1 – Você chegou a ver isso também?


R – Cheguei!


P/1 – Era muita madeira?


R – Aí trazia muita. Tinha um homem lá, o Raimundo Lobo, que ele trabalhava só com madeira.


P/1 – E tirava era árvore?


R – Tirava, ele contratava o pessoal, o pessoal tirava as árvores, aí vendia para ele, sabe? Então, a pessoa que não tinha emprego, né, mas ajudava as pessoas, mas... Por uma parte ajudava, e destruía pela outra. Que agora, a própria madeira que era para ser distribuída na cidade, ela vem para fora, né?


P/1 – E isso melhorou agora?


R – Melhorou, graças a Deus! Agora não está sendo mais destruído. Aí então, quer dizer que está preservando a própria natureza para a gente mesmo, né, para trazer a saúde para cá, para dentro da cidade. Porque se tiver destruída ela não vai trazer a saúde, porque o ar que vai entrar para dentro da casa da gente, né, a gente já vai sair sem ser natural, né, da natureza. Porque a natureza trás o ar importante para todo mundo.


P/1 – E você continua usando os remédios da floresta?


R – Continuo, eu uso do mesmo jeito.


P/2 – Seus filhos já foram ao médico?


R – Já.


P/2 – Já, né?


R – Já mas eles tomam muito chá também[risos].


P/1 – E você ensina para eles isso que você aprendeu com teu pai?


R – Ensino. Eu tenho uma menina agora, minha menina, Joca, a Jordana, que  nós chamamos Joca, outro dia ela estava com uma dor. Aí:  “Papai, eu estou com uma dor.” “Peraí, que eu já tiro uma folha ali de elixir paragó.” Né, que a gente já…[risos] Fui lá e tirei a folha, fiz um chá, era bem umas nove horas da noite: “Se não melhorar eu vou te levar no hospital.” Aí esfriou o chá, aí dei lá para ela, ela tomou, não demorou uns 20 minutos: “- Não está mais doendo não.” Eu digo: “Ó, como serviu!” [risos] E é mesmo.


P/1 – E essa era folha de quê?


R – De elixir paregórico.


P/1 – A é? Que ótimo!


R – A gente conhece...


P/1 – Mas você já está ensinando qual é a planta, qual é...


R – Ela já conhece, sabe. É, de outra vez ela já vai pegar, né, porque elas já vão conhecendo. Toda vez que a gente vai trazendo para dentro de casa, eles vão conhecendo.


P/1 – Foi assim que você aprendeu?


R – Foi. Que a gente vai aprendendo pelo que a gente vai vendo os outros fazer. Tem muitas vezes que o filho da gente é errado, a gente vê que a gente não é, né, ele erra por ele mesmo. Mas a gente ensinando, a gente ensinando para o filho da gente, muita coisa a gente aprende dentro de casa mesmo. Que os pais da gente fazem, né, a gente... a gente aprende.


P/1 – Tem alguma outra história que você poderia me contar, de lá, que a gente que mora aqui na cidade fica querendo saber essas histórias de lá?


R – Tem não. Eu acho que não tem mais não. Eu já falei tanto [risos].


P/1 – Tem sim, falou nada. Você já contou tanta história boa, agora é que a gente ficou sabendo que você passa lá, tanto tempo em cima da árvore.


R – É, passo mesmo.


P/1 – Dá para dormir lá em cima da árvore, dá para tirar...?


R – Dá não.


P/1 – Isso não dá não, né?


R – Dá não. Dormir não pode não [risos]. Não pode dormir não, lá em cima não.


P/1 -  Não, mas tem um braço, não tem algum tronco que dê para dormir, assim, que seja largo?


R – Tem não, galho que dê para dormir, dá não. Só que tiver...


P/1 – É perigoso.


R – É, não dorme não. Muito arriscado. Agora lá, em cima da árvore lá, eu fiz um curso... Me subindo lá, eu vi até aquela cor, lá, foi na montanha lá, que eu disse que... Que eu tenho coragem de passar ali, que eu disse para a Senhora...


P/2 – É, no Pão de Açúcar. 


R – Eu vi um curso lá, dependendo, quase joguei ele daquela corda ali, sabe? Aí eu vi ali, eu achei importante ali. Eu digo: “Pô, se eu pudesse dar uma descida ali, tsiiii!” Né, que....


P/1 – Ali, no Pão de Açúcar?


R – Sim, achei bonito ali. Aí ela: “Não é que a gente fica achando bonito.” Eu subi numa corda que dava até para a gente passar muito tempo, assim... Muito tempo não, duas horas, três horas, só num canto, só olhando assim, sem poder... Sem perigo nenhum e sem risco nenhum da gente cair. Agora, já dos outros tipos de serviço, a gente passar lá em cima, com cinto de segurança, né, todo amarrado, já fica mais ruim, porque a gente fica mais sufocado, não dá para a gente trabalhar. Aí eu vendo ali, eu achei... Achei bonito.


P/1 – E tem um sonho que você quer realizar?


R - Eu queria, um dia da minha vida ,eu queria melhorar de situação, para não trabalhar de empregado, sabe, para não depender, né, de trabalhar de empregado, ter o meu próprio negócio. Não para ganhar dinheiro, para ganhar dinheiro assim, para comprar tudo. Para ganhar dinheiro que dê para comer, mais a minha família, trabalhar mais maneiro, né, quando eu tiver mais velho. Isso eu digo para elas. A gente trabalhar mais maneiro, para a gente ter o próprio negócio da gente, para a gente ficar ganhando daquela coisa dali, que dê para a gente ir comendo. Vamos dizer: um mês nós gastamos 100 reais, num mês a gente faz 150, sobrou 50, né, nós gastamos 100, aí ficou 50. Quer dizer que aquele mês deu para nós comermos e não faltou nada, aquele dinheiro dá para a gente, que Deus nos livre, com alguma doença, um negócio que a gente... Daí que eu tinha... O meu sonho era... Eu vou fazer isso um dia ainda na minha vida.


P/1 – Ter o seu negócio que dê para viver.


R – Que dê para comer, sem depender de trabalhar assim, de empregado. Que empregado, a gente trabalha de empregado a gente... É bom, mas também a gente depende muito dos outros. Tem vezes que a gente não quer fazer uma coisa e é preciso a gente fazer. A gente tendo o próprio negócio da gente, a gente mesmo faz do jeito que a gente quer.


P/1 – Você é inteligente, você vai conseguir sim, né? Sheila, você quer fazer mais alguma pergunta?


R – Não tem mais não [risos].


P/1 – Eu queria terminar, Moacir, perguntando o que você achou de ter vindo para cá; foi a primeira vez que você saiu lá de...?


R – Foi. Para mim, foi um sonho na minha vida. Ó, importante, foi uma coisa também, que eu achei muito importante. Hoje eu fiquei tão assim, animado de ter visto, né, ter conhecido, porque, por exemplo, o meu sonho... Quem algum dia ia pensar que um cara como eu, que morava no interior, analfabeto, nunca tinha estudado na minha vida, vir a chegar nas condições que eu cheguei, vir aqui, né? Eu fiquei muito, sabe, muito, muito alegre de eu ter vindo. Para mim foi uma coisa importante, uma coisa das importantes da minha vida.


P/1 – Deu para ver o mar?


R – Vi, queria ter provado a água, mas não consegui.


P/1 – Você já tinha visto?


R – Eu nunca tinha visto. Só na televisão, né?


P/1 – Você gostou?


R – Gostei, eu achei lindo. Eu queria ter provado a água, para ver que gosto era que tinha. O meu sonho era dar uma pulada naquela água, ficar só…[risos]


P/1 – É pena você ficar tão pouco tempo. Mas quem sabe que você ainda volta aqui, Moacir.


P/2 – Tem muito tempo. Está muito ruim hoje.


R – É, mas eu achei, eu achei lindo, lindo, lindo, lindo... Para mim foi uma coisa importante, tanto de eu ter comprado a máquina, não conseguir lá, nem uma foto para as minhas filhas. Para elas verem o mar. Eu digo: “Minhas filhas, vou trazer um tanto de fotos para vocês.” Vi, mas não consegui.


P/1 – A gente vê depois como é que a gente dá um jeito. Mas a gente também, agradecer você ter vindo de tão longe, viajado de noite, e estar aqui e estar aqui, dando essa entrevista tão bonita para a gente. Para a gente também foi muito bacana, muito legal mesmo.


R – Valeu, obrigado.


P/1 – Poder contar com você. Muito obrigada.


R – Obrigado também.

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