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História

"O riso é anestésico"

História de: Davi de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2021

Sinopse

Origem da família e infância em Caxias do Sul (RS). História da mãe, seus pais, promessas e seu nascimento. Deixando a escola e trabalho na adolescência. Ingressando no exército, implicações e o desafio de organizar uma festa junina. Período internado no hospital e os palhaços que mudaram sua vida. Morte do pai e se provando para os irmãos como ator. Escola de teatro, problemas e carreira de palhaço no hospital. Participação no Natal Luz, conhecendo a esposa e o nascimento dos filhos. Amor pela mãe e orgulho para ela. Leilão da casa e loteria. Fundação dos Médicos do Sorriso e momentos marcantes.

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História completa

P1 - Boa noite, Davi, tudo bem?

R - Boa noite. Tudo bom? Tudo ótimo. 

P1 - Então, pra começar, eu vou pedir que você me diga o seu nome completo, a sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.

R - O meu nome é Davi de Souza. Nasci no dia 22 de outubro de 1974, na cidade de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul.

P1 - Qual o nome dos seus pais, Davi?

R - Ruth Silva de Souza e João Batista de Souza.

P1 - Você tem irmãos?

R - Tenho quatro irmãos. O Antônio, que é o mais velho, o Paulo, a Eliana e a Carla.

P1 - Certo. E o que os seus pais faziam? Qual a atividade dos seus pais?

R - A minha mãe foi doméstica, por um longo período. Depois veio a ser do lar. Então, ela intercalava doméstica e os cuidados da casa, então ela tinha esses dois... O meu pai, por um tempo, antes de eu nascer, vendia panela e vendia mel, pra poder se virar. Depois ele virou motorista. Aí, até eu me conhecer adulto, ele foi motorista de mesma empresa. Foram quase quarenta anos na mesma empresa.

P1 - E você se recorda da casa onde você passou a sua infância, Davi?

R - Muito! Recordo cem por cento. A gente morava numa casa que dividíamos com três famílias. Então, com muito suor, eles conseguiram. A gente morava, a gente chamava de “casinha velha”. Era uma casinha de chão batido, sem soalho, assoalho de terra, mesmo. E aí o meu pai, o meu tio e a minha tia resolveram juntar e, com muito esforço, fazer uma casa de dois andares. E essa casa, na parte de cima, era dividida por uma parede. Então, um lado tinha a família do meu tio e da minha tia e, do outro lado, a nossa casa. Então, no segundo andar, duas famílias. E embaixo morava a nossa tia Isabel. Então, todo o porão era dela e em cima, a gente tinha dividido. Mas era muito pequeno. Hoje seria uma quitinete, para uma família de cinco crianças e mais dois adultos. Então, eram cinco crianças de um lado [e] cinco crianças do outro. Então, só na parte de cima eram dez crianças. Então, tu imagina a loucura que foi a minha infância. Então, era uma casa, uma infância muito boa, assim, que eu tive. Assim, de muitas lembranças.

P1 - Do que você gostava mais de brincar, nessa época?

R - Cara, eu... Como a gente... O nome do nosso bairro é Floresta. Então, era um bairro muito próximo de uma floresta que tinha. Então, a gente brincava muito de Tarzan. A gente brincava muito de aventura, né, de subir em árvore. De coisas perigosas, assim. Porque tinha, atrás da minha casa passava um córrego que, antigamente, era um rio. Mas depois virou onde passava o esgoto, né, da cidade. Então, ele virou... E quando dava enchente, aquilo vinha muita coisa ali. Então, como a gente não tinha muita grana, a gente ficava pescando as coisas que vinham boiando pela enchente, sabe? Então, a gente conseguiu bola, um baú. Eu me lembro uma vez [que] a gente conseguiu resgatar um baú cheio de gibi. Então, eram coisas, assim, que é uma infância diferente. Então, a gente ficava ali, pegando os brinquedos que vinham pela enchente, assim. Então, um negócio arriscado, porque cai dentro daquilo ali, já era. Então, brincávamos disso também. E essas brincadeiras também, que hoje não existem mais, de se pegar, brincar de se esconder. Então, jogar bola. Nossa, jogar bola era um passatempo que eu tinha, assim, porque o meu sonho era ser jogador de futebol, também, como todo menino, né, quando é criança. Então, essas eram as minhas brincadeiras, além do teatro. Então, eu já fazia teatro desde pequenininho. Então, isso é uma coisa que eu tenho muito dentro de mim, que eu gostava de fazer as pessoas darem risada, desde pequeno. Então, isso era uma das minhas características.

P1 - E você gostava de ouvir histórias quando era criança? Alguém te contava histórias?

R - Sim. A minha mãe. A Dona Ruth era uma pessoa que me encantava demais, né, quando ela contava as histórias e inventava algumas histórias. A minha tia, né, como foi atriz, então ela contava as peças de teatro que ela montou. E aquilo me enchia os olhos, né, assim, eu escutando ela falar. E eu digo até hoje, né: a minha tia que me botou essa sementinha do teatro. Porque eu venho de uma mãe que era muito criativa, também, que contava muitas histórias, de uma tia que era atriz e de um tio que era músico. Então, algumas referências, assim. Então, escutei muita história, quando eu era criança, me ajudou muito. 

P1 - A sua família era mesmo de Caxias do Sul? Ou tinham vindo de alguma outra parte do Rio Grande do Sul, ou de outro estado?

R - O meu pai é caxiense. A história da nossa família é um pouco... Eu gostaria muito de, um dia, tentar fazer esse resgate. Mas o pai era de Caxias. A minha mãe veio de Porto Alegre, em função da minha tia, que casou com o meu tio. E aí a minha mãe casou com o meu pai, que era irmão do meu tio. Então, a minha tia apresentou a irmã pro cunhado, que é irmão do meu tio. Então, ficou uma família, os primos-irmãos, ali. E que vieram de fora, mas originalmente é caxiense. Só a minha mãe que veio de Porto Alegre, assim. Foi criada num orfanato em Porto Alegre. Também tem uma história muito linda, também, dela, assim. Mas o resto, todos caxienses, assim.

P1 - E conta, então, a história da sua mãe. Você disse que é uma história muito linda. Pode contar pra gente. 

R - A mãe, quando ela nasceu, tinha uma irmãzinha. Ela tinha outros irmãos e tinha uma mais nova, que é a minha tia Bete. E, no parto, a mãe dela faleceu. E como o meu avô não tinha condições, naquela época, eles pegavam as crianças e levavam pra um orfanato. Então, foi o que aconteceu com a mãe. Aí ela foi morar num orfanato. E depois foi passando, de família em família, até ela ir pra um convento de freiras, também. Então, ela sofreu muito nesse mundo, assim, porque ela não tinha um lugar, um porto seguro, sabe? Então, como o meu avô casou quatro vezes, então ele tinha uma coisa muito de... E aí teve filho aqui, teve filho ali. Então, elas nunca tiveram, assim, uma família, né, como tu pode dizer: “pai, mãe, Natal”. A minha mãe conta que nunca teve Natal, né, assim, de comemorar. Então... E aí ela sofreu muito. Até que ela conheceu o meu pai e aí as coisas começaram a mudar na vida dela. Então, até então, mudar no sentido de encontrar alguém, mas o sofrimento também veio junto com isso, entendeu? Porque, como eles... o meu pai era uma pessoa bem humilde. Pobres. Não tinham dinheiro. A minha mãe também não. E aí eles tinham essa dificuldade, mas tinham uma vontade muito grande de ficar junto. Logo que eles se conheceram, a minha mãe já engravidou. Então, já veio o meu irmão mais velho. Aí depois veio mais um irmão, que é o Jeferson, que eu não falei. Aí, do Jeferson, veio o Paulo. Aí veio a Eliana. E, nisso tudo, eles, o pai buscando condições de poder se virar. Eu me lembro que a mãe conta que eles passavam o final de ano, às vezes o Natal era com o cuscuz, né, que era isso que tinha pra comer, então, ou bolacha Maria. Fazia uma bolacha Maria com Ki-Suco, que era o Natal, que... Eu não cheguei a pegar essa época, assim. Então, são coisas assim. E a minha história, né, se envolve um pouco nisso porque, quando a mãe estava já com os quatro filhos, né, o meu irmão Antônio é de 1965 e teve aquele surto de poliomielite no Brasil e ele foi infectado com poliomielite. E ele perdeu o movimento das pernas e, desde pequenininho, não conseguia mais andar. Ficou paralítico. E tinha um irmão mais novo, que é o Jeferson, que deu encefalite nele e ele ficou uma criança vegetativa. Ele não... A encefalite inflama a medula. O líquido que passa na medula inflama o encéfalo. E ele demorou muito pra ir no médico e acabou que ele não conseguiu vencer a doença e ele acabou ficando, né, uma criança, ali, que a mãe tinha que fazer tudo por ele, né, assim. E o Paulo, uma criança mais que estava bem ali, enfim. E a Eliana, que tinha um ano e oito meses. E aí, no meio de tudo isso, a mãe engravida. E em 1974 o meu irmão veio a óbito, com sete anos, né, o Jeferson. E quando ele veio a óbito, mãe meio que se desesperou. Porque eu, eu, eu... A mãe sempre falava pra gente: “Nunca imagine a dor de uma mãe que perde um filho”. E ela contava que foi algo, assim, que doeu muito, assim, ela não conseguia mais... E foi no médico e o doutor disse pra ela: “Olha, Dona Ruth, você está de cinco meses. Se você não se cuidar, você vai perder mais um filho. Então, você precisa reagir”. E aí, por mim, ela voltou a reagir, porque eu estava ali na barriga dela. Então, eu tenho uma ligação, hoje, muito forte com a questão de velório, com a questão de morte, porque eu estava no ventre dela, quando ela passou por tudo isso, entendeu? Do luto, do meu irmão. E aí, o Davi vem ao mundo, pra mudar a visão dessa família, sabe? Pra dar um bálsamo de alegria. Porque uma criança, recém-nascida, traz uma esperança. Então, a mãe entendeu um recado, que Deus tirou um, mas deu outro presente pra ela. Não comparando um com outro, mas ela entendeu que ela precisava cuidar de mim. Porque ela tinha algo muito especial nas mãos dela, assim. E eu vim em outubro. Libriano. Então, eu sou um libriano bem nato, assim, de paixão, de cuidar, de ser criativo, de gostar das artes, de gostar do que é belo, né, de saber cuidar da mulher. Então, eu aprendi a cuidar da mulher, desde criança. Então, por ter uma mãe assim, né, que me ensinou isso. E, no meio disso, o meu irmão, o meu pai faz uma promessa pra Nossa Senhora do Caravaggio. E ele sai com o meu irmão nas costas, de Caxias do Sul até Farroupilha, a pé. E ele chega no santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, solta o meu irmão e o meu irmão começa a caminhar, na frente da igreja. Então, isso - foi a minha tia, os meus tios, foram todos, a família - foi um dos milagres que aconteceram na minha família, assim, que são milagres reais, assim, que a gente fala. Porque, às vezes, a gente está conversando e foi um relato de todo mundo, que foi algo incrível, assim, de a criança levantar e sair andando, na frente da igreja, assim. Então, a gente sempre teve muita fé. É uma família de muita fé, assim, de acreditar demais. A gente escutava uma coisa, sempre eu escutei uma coisa da minha mãe, que a minha avó falava que, quando estavam as coisas ruins, ela parava e dizia: “Calma, Deus dará”. Bem coisa de vó, assim: “Deus dará”. Então, acredita, que as coisas vão melhorar. Nada é tão ruim, que não vai piorar. Então, tu tem que acreditar que as coisas vão melhorar. Não pode pensar no negativo. Tem que sempre buscar o positivo, mesmo com as coisas dando tudo errado, assim. Então, eu cresci nesse meio. Então, a história da Dona Ruth passa por isso, entendeu? Por ser uma mãe que cuidou de cinco filhos, que perdeu um filho, que teve o maninho que tinha esse problema, que graças a Deus, depois conseguiu... Ele ficou com uma perna mais curta que a outra, mas ele, depois, fez tudo. Hoje é um artista plástico, super renomado. E a Dona Ruth, uma guerreira, assim, que segurou muita... Como toda mulher brasileira. A minha mãe é uma mãe brasileira, assim. É uma mãe brasileira, uma mãe que trabalhava, uma mãe que ajudava em casa. Uma mãe que ensinou os filhos homens, que não existe a diferença [entre] menino e menina, que você tem que ter os mesmos valores. Se a minha irmã lava a louça e limpa o chão, eu sou menino, eu também tenho que limpar a louça e limpar o chão. Porque antigamente tinha uma coisa: as mulheres limpam a casa e os guris jogam bola, vão se divertir. E isso era muito forte na minha família. E a minha mãe disse: “Não, aqui em casa é diferente. Aqui em casa eles vão aprender a fazer o que as gurias sabem”. Então, a nossa mãe ensinou a gente a costurar, ensinou a gente a bordar, ensinou a gente a fazer crochê, mesmo chorando de raiva com aquelas agulhas na mão, assim e ali. E ela dizia: “Um dia vocês vão agradecer, vão me agradecer por isso”. E, realmente. Quando eu fui morar sozinho, eu nunca precisei de ninguém, né, porque eu sabia. A minha mãe me ensinou a cozinhar com sete anos. Sete anos, eu e a minha irmã, a gente já se virava em casa. Porque os meus irmãos estudavam, ela ia trabalhar e eu... A Eliana com oito anos e eu com sete, a gente que fazia o almoço. Porque o pai chegava ao meio-dia e a mãe trabalhava fora, numa casa de família, o dia inteiro. Então, a gente meio que aprendeu com essa mulher, né, o quanto que tu tem que olhar hoje pra uma mulher e agradecer. Então, foi o que a gente aprendeu, né, muito, com ela. O meu pai tinha um lema que em mulher não se bate. Então, mesmo as minhas irmãs aprontando, ele nunca encostou um dedo nas minhas irmãs e nem na minha mãe. Então, eu tinha essa escola em casa. Então, eu aprendi que não pode bater em mulher, né, porque eu vi o exemplo dele. As gurias aprontavam, tudo, ele dizia: “Ruth, conversa com elas, porque eu não vou me meter nisso”, entendeu? Então, eu tive dois, o “seu” João e dona Ruth, que foram incríveis, assim. A história do circo também, ela vem porque o meu pai tentou fugir com o circo, né, quando era jovem. E foi ele e a minha tia. Conseguiram fugir, mas o meu avô acabou pegando-os, foi atrás deles e os pegou e não os deixou irem embora com o circo. Ele acabou criando um trauma, que ele tomou uma surra muito grande, ficou com marca no corpo. E aí ele criou esse trauma, assim, mas sempre teve uma grande vontade de ser artista. E eu fui meio que crescendo, com todos esses pedacinhos desse quebra-cabeça, que foram fazendo o Davi. Um pouquinho do meu pai, que era de circo, que gostava de tocar, que gostava de música. E tinha o meu tio Roma, que era músico. Que tinha a minha tia, que era atriz. Que tinha a minha mãe, que contava histórias, que era também super criativa. Então, dentro de tudo isso que eu fui me moldando, né, assim. Então, esse é o Davi, né, que veio se moldando. E essa é a história da Dona Ruth. Dona Ruth, quando eu tinha catorze anos, eu tive, me deu encefalite, a mesma doença que matou o meu irmão. E aí, a minha mãe entrou em desespero, porque ela já tinha perdido um. Então, acabou que, graças a Deus, eu consegui dar a volta. Essa também, eu vou deixar um aparte, que essa é uma outra história que eu tenho que contar pra vocês. Que essa é uma história de um filme, assim, que um dia eu ainda quero escrever, que é a minha estada no hospital, com catorze anos, com encefalite. Depois que eu saí do hospital, a minha mãe tem um derrame, um AVC. Quando ela estava no clube de mães. E estoura um coágulo no cérebro. E aí o meu pai chega em casa e diz: “Olha, a mãe de vocês, o médico falou que de hoje ela não passa. Que ela tem um por cento. Tem um outro coágulo que eles vão operar, mas está pra se romper. E ela não vai passar de hoje”. E eu até conto no meu espetáculo, que eu me lembro que eu - entrou toda a família chorando, desesperada - disse: “Eu não vou chorar, porque eu sei que a minha mãe vai voltar pra casa”. Então, eu tinha uma fé muito grande que a Dona Ruth ia dar a volta por cima. Ela ficou uns sessenta dias no hospital. Fez a cirurgia, o doutor tirou o coágulo, mas ele disse: “Ela não vai mais falar e ela não vai mais andar, porque a gente mexeu lá dentro do cérebro. Infelizmente, vocês têm a mãe de vocês, mas é isso”. E ela volta pra casa como um bebê recém-nascido: careca, magrinha, não falava e não andava. E aí, eu e a minha irmã Eliana - que os meus irmãos mais velhos já não moravam mais com a gente - que cuidou dela, assim, eu e a Eliana, com muito amor e carinho. E eu conto que ali eu aprendi que a palavra impossível não existe. Porque todo mundo dizia que era impossível da minha mãe falar, que era impossível dela voltar a andar, que era impossível. E a Dona Ruth ensinou a não desistir. Ela caía da cama. Ela fazia esforço, até que a gente conseguiu fazê-la dar os primeiros passos. Depois de dois anos, a minha mãe estava entrando (choro) no clube de mães pra receber o prêmio de Mãe Destaque em Caxias do Sul, caminhando e andando, sem nenhuma sequela. Então, ela mostrou que, se tu acredita e tu busca isso e não desiste, o milagre acontece. Esse foi mais um milagre que aconteceu na minha família. Mesmo o médico dizendo, o neurologista dizendo que isso era impossível. E o dia que ela entrou no consultório dele, que eu estava junto, ele dizia: “Dona Ruth, fala comigo”. E ele ficava olhando pra minha mãe, ele dizia assim: “Eu ainda não acredito no que eu estou vendo. Eu não acredito no que aconteceu, porque isso não era pra acontecer. Eu não sei como que a senhora está aqui na minha frente, andando e falando”. E a Dona Ruth não ficou com nenhuma sequela, nem em fala, nem em movimento nenhum, entende? E a Dona Ruth mostrou que abriram a cabeça dela, fizeram tudo o que tinham que fazer e ela disse: “Estou aqui. E não é agora que vão me levar”. E ela contava uma coisa pra mim, como a gente era muito ligado, eu, a Eliana e ela, a gente era muito parceiros, ela falava que ela não ia morrer, enquanto ela não conhecesse o meu filho. E ela disse: “Um dia, tu vai casar e tu vai ter filho e eu só vou partir desse mundo, o dia que eu conhecer o meu neto. Mas tem que ser o teu filho”. Então, a gente sempre teve isso na cabeça. E, quando eu nasci, o meu nome era pra ser Miguel, tá? Porque eu nasci com problema de rim. Eu fiquei uns sete dias sem fazer xixi, no hospital, fiquei internado. Nasci, já fiquei internado. Então, olha quanta coisa que essa mulher passou. Tipo: ela já tinha perdido um filho, daí nasce o outro já com um problema no rim. E ela ali. E ela prometeu pra São Miguel Arcanjo que, se eu curasse do rim, se eu voltasse a fazer xixi, ela ia colocar o meu nome de Miguel. E, no sétimo dia, eu fiz um xixizão, assim, que a minha irmã estava na mesma caminha que eu. E a minha mãe conta que lavou a minha irmã, escorreu pelo chão, assim. E aí ela agradeceu São Miguel Arcanjo. E falou pro meu pai: “João, agora vai lá batizar o Miguel”. E o meu pai foi. No meio do caminho o meu pai ficou pensando, assim: “Miguel? Ah, mas é que eu tenho um amigo que o nome dele é Miguel e o apelido dele é Miguelito. Eu não quero que o meu filho seja chamado de Miguelito. Vou botar Davi”. (risos) E ele volta pro hospital e diz: “Ah, é Davi”, “Mas João, eu fiz a promessa”, “Mas é que o meu amigo lá é Miguelito, tal. E eu não gosto. Não queria que o meu filho fosse chamado com esse apelido”. E aí eu virei Davi. Então, essa é uma das histórias do meu nome. Eu tenho uma música minha. Eu posso cantar.

P1 - Pode.

R - “Nasci dia vinte e dois de outubro

De sorriso fácil e coração puro

Vim à terra pra alegrar essa família

Nasci, mas não foi tudo tão bem assim

É. Essa criança tinha problema no rim

Não podia fazer xixi e no hospital teve que dormir

Mais uns dias, mais uns dias por ali

E Dona Ruth e seu João,

Com alegria e aperto no coração

Meu nome era pra ser Miguel

Isso, minha mãe prometeu ao céu

Mas meu pai não gostou

E no cartório, ele mudou

No final das contas, virei Davi

Davi de Souza, eu sou

Uma criança brincalhona

Por vezes, também chorona

Mas que adorava confusão

Eu era o irmão caçula, tinha as minhas regalias

Às vezes, apanhava

Às vezes, sorria

Mas, com certeza, todo dia

Todo dia agradecia

A vida era linda demais

Com os olhos que eu a via

E, depois de alguns anos,

Mais uma irmã nascia”

Esse é um resumo da minha vida. (risos)

P1 - Então, vamos fazer o seguinte: eu quero entrar um pouquinho ainda na sua infância.

R - Pode entrar. 

P1 - Qual é a primeira lembrança que você tem, de ir pra escola, Davi? 

R - A primeira lembrança de ir pra escola, é eu estar no prezinho e eu ver todas aquelas crianças chorando e eu não entender o porquê elas estavam chorando desesperadas, pra estar ali na sala de aula. Eu me lembro que eu estava naquelas mesinhas, com um guarda-pozinho xadrez e eu ficava olhando, assim, porque eu me despedi da minha mãe, sentei e fiquei ali esperando a aula. E aquele desespero das crianças, ali. Então, esse foi o meu primeiro susto, assim, de não entender o porquê que elas estavam tão desesperadas. Então, eu meio que fiquei com medo da escola, porque eu não sabia o que (risos) eu digo: “Se estão chorando assim, o que deve ser esse negócio aqui.” E aí eu me lembro que eu quis chorar também. Porque a criança, né, é aquela vibe que vai contagiando, né, e tal. E aí eu lembro que eu me segurei. Eu não chorei, porque eu fiquei com vergonha. Porque a minha mãe já tinha ido embora, daí eu disse: “Bah! Agora não tem nem pra quem eu fazer manha.” Então, essa foi a minha primeira lembrança. E lembro muito de ir com a minha irmã, pra escola. A gente é um ano de diferença, um ano e pouco de diferença. Então, da nossa parceria, né, de ir sozinho pra escola. Ficava a um quilômetro de casa, um quilômetro e meio, então a gente... Da merenda. Ah, a merenda da escola era muito bom também, isso é uma lembrança muito boa, assim. Do quanto eu era impertinente, xarope. Em termos de ser questionador, né, assim, curioso. Então, isso são coisas, assim, que eu me lembro, assim, da minha escola. Muita coisa eu vivi ali, a escola. Nossa, aprendi, aprontei. Meu Deus, tem que resumir, senão... Mas ali, na escola, que eu começo a fazer teatro. Na escola, que eu descubro que aquilo é legal, que aquilo é gostoso. Ali que eu aprendo a ter paixão pela educação artística. Então, eu desenhava muito bem porque, como o meu irmão era desenhista, eu, desde pequenininho, ficava olhando o meu irmão Antônio desenhar. E ele me ensinou os traços, me ensinava as coisas. E eu já tinha, meio, o dom. E aquilo me facilitava. Eu, inclusive, ajudava, fazia os meus trabalhos e fazia o dos colegas, assim. Então, de montar teatro, de escrever peça de teatro. Isso, pequenininho. Ali, na primeira, segunda série, eu já conseguia coordenar. Hoje eu sei o que eu fazia, porque eu sou hoje diretor de teatro, estudei pra isso. Mas isso eu já fazia desde criança: produção, direção, assistente de direção, roteiro, entende? E isso me ajudou a ser uma criança muito mais descontraída. Nunca tive medo de falar em público. Então, eu sempre fui meio que puxava a fila. Tipo tem que fazer alguma coisa: “Ah, pede pro Davi, que ele vai lá, ele é cara de pau, ele fala com a professora”. (risos) Então, era positivo e negativo, ao mesmo tempo. Porque muitas vezes eu tinha que sair da sala, porque eu enfrentava as professoras, pra buscar os direitos da turma. E aí, o que acontecia? Ah, é tu que é o que está fazendo as coisas. E nisso, os meus colegas pulavam fora e eu ficava sozinho. E aí acabava indo lá assinar ficha, ou ter que sair pra fora da sala. Então... Mas eu sempre fui um revolucionário. Desde pequenininho, assim, muito questionador, assim, um político. Se eu não fosse artista, acho que eu seria um bom político, um bom advogado, também, assim. Então, especificamente, assim, de infância eu acho que é isso. Eu guardo uma lembrança, assim, de uma peça de teatro que fiz, que pra mim foi a mais forte, que foi em 1982. E a gente estava fazendo uma peça. A professora deu trabalho sobre meio ambiente. E eu comecei a pesquisar. E eu vi que tinha muita queimada e muito desmatamento. Olha bem, na Amazônia, tá? Em 1982. E eu fiz um espetáculo de teatro, que eu fazia um - parece bem atual, tá, mas não é – lenhador, que se infiltrou numa madeireira, que estava derrubando a floresta, ilegalmente. Olha a cabeça da criança, né, ali, com oito, nove anos, eu escrevi esse texto. E eu me lembro que eu estava com uma motosserra na mão, assim e falava, no final, eu dizia: “O que a natureza leva milhões de anos pra construir, o homem leva minutos pra destruir”. E aí eu me negava a cortar as árvores e jogava no chão, a motosserra, assim, como forma de protesto, assim. Então, o espetáculo finalizava assim, com essa cena forte, eu com a motosserra. A gente achou uma motosserra velha, né, que eu pudesse jogar no chão. Então, joguei. E aí a gente ganhou a nota máxima, tal. E hoje a gente vê o que está acontecendo com o desmatamento, com tudo o que está acontecendo hoje, 2021. Eu estou falando de 1982. Uma criança de nove anos já via isso acontecer. Se eu estou falando sobre isso é porque já estava na televisão, tu já ouvia na rádio. Então, como a gente deixou de cuidar do nosso Brasil. Da nossa floresta. Então, isso foi uma coisa que me marcou muito, assim. Porque hoje, eu ainda vejo, eu digo: “Nossa, eu fiz uma peça e eu vejo isso tudo acontecer”. E infelizmente, né, a gente está aí numa falta de cuidado com o nosso país. Infelizmente. Então, essa é uma lembrança bem forte, minha, assim. Quer uma outra, de aprontar, assim? 

P1 - Por favor, pode falar.

R - Então, como eu era muito curioso, assim, eu tinha uma coragem de fazer as coisas. Daí estava eu e o meu primo Elias. A gente estava na fila da refeição. E tinha um extintor de incêndio bem na entrada do refeitório, assim. E o meu primo duvidou que eu apertava aquele negócio. E eu peguei a mangueirinha, ele segurou a mangueirinha virada pra dentro do refeitório e eu fui lá e disse: “Ah, tu quer ver?”, tirei o pino e ‘tchhhhh’. Quando eu apertei, aquilo travou e encheu o refeitório de fumaça branca, aquele pó químico. A criançada tudo saindo tossindo de dentro, as cozinheiras, aquela loucura toda, assim. E nós, assim, tipo, sabe aquela cara de criança que: “Meu Deus, eu não sabia que eu ia fazer isso”, sabe? Aí a professora, só não fomos expulsos, ali, porque ela viu que foi na curiosidade, que não foi na maldade. Não foi na “ahhhhhhh”, foi não por ser ruim, mas sim por ser metido e curioso. De ser ousado, né, então eu acabei fazendo. Essa foi uma lembrança, assim, que eu lembro também. Eu não conto pros meus filhos, pra eles não seguirem o exemplo. (risos)

P1 - E, chegando nos seus catorze anos, você teve essa questão da encefalite. Então, você estava, provavelmente, finalizando o seu ensino fundamental. Como foi, digamos assim, esse período? A entrada no ensino médio, depois? Porque você deve ter tido um tempo pra voltar, né, estar apto pra estudar, enfim. Conta um pouco desse período pra gente. 

R - Eu lembro assim, que depois que eu saí do hospital, que eu fiquei muito tempo no hospital... Depois, se tu quiser, eu conto essa parte do hospital. Eu vou te contar o pós-hospital, né, período que eu saio do hospital. Eu volto pra escola. E eu queria dar um presente pra minha mãe. Eu me lembro que eu me esforcei muito, assim, pra passar de ano, assim. Então, eu tentei me recuperar. E eu me lembro que o dia que saiu o boletim que eu tinha passado, eu saí correndo da escola, até em casa, assim, sem parar, assim. Voando, assim, pra mostrar pra mãe que eu tinha passado de ano. Naquele ano tão difícil, que foi pra mim, né, em função da encefalite, tal. E, então, aí depois, eu entro pra quinta série. Eu já estava com quinze anos. Porque eu acabei rodando na terceira e na quarta série, tá? Tive, duas vezes eu rodei. Porque eu tinha essa coisa de ser questionador. Então, as professoras não gostavam, porque eu era muito metido. Então, eu questionava. Elas diziam: “Ah, isso ou aquilo”. Eu dizia: “Tá. Mas por que isso é assim?”, “Ai, menino, mas por que tu não cala a boca? Tu não vê que tu está...”, “Não, mas eu quero saber porquê”, “Sai da aula”. E eu acabava me revoltando e não queria estudar. E aí eu acabava me auto prejudicando, né, assim, enfim. E aí, na quinta série, depois que a minha mãe passou, ali, aquele período que ela teve o AVC, eu resolvi parar de estudar, com quinze anos. E o meu pai é daqueles senhores antigos que... O meu pai, acho que ele nunca ouviu falar em universidade na vida dele. O meu pai era semianalfabeto. Ele sabia escrever algumas coisas, escrever o nome dele, assim, mas ele lia muito pouco. Ele não estudou, né, nunca esteve numa escola. Então, o que ele aprendeu foi da vida, assim. Então, aí o meu pai disse: “Bom, se tu não quer mais estudar. Tu já sabe ler e escrever. Tu já sabe se virar. Tu, então, vamos trabalhar. Vai trabalhar”. E aí comecei a trabalhar. Realmente com a CLT. Fiz a carteira de trabalho. E aí fui em busca de emprego, pra tentar, pelo menos, ajudar em casa. Aí fui trabalhar numa empresa de materiais elétricos, na Imatron, e eu fiquei 29 dias. Eu entrei pra trabalhar junto com o meu primo, que acho que foi o meu grande erro, porque a gente era muito parceiro, desde a escola, então a gente sempre aprontava junto. E fomos trabalhar na mesma empresa. Imagina os dois loucos. E eu me lembro que eu também questionava o salário, que eu achava que era pouco, que a gente tinha que ganhar mais. Então, tu vê, eu tinha 29 dias... (risos) Não, eu tinha quinze dias de empresa, eu já estava questionando o salário, que eu achava que tinha que ganhar mais. E enfrentava os chefes, porque eu não gostava da forma que eles nos tratavam. Tipo, gritando: “Seu boca aberta, tu não vê que isso aqui não bota desse jeito? Essas placas não são assim”. E eu dizia: “Bom, se tu gritar comigo, eu não vou mais fazer”. Aí ele dizia: “Se tu não fazer, eu vou te botar pra rua”. Eu digo: “Então, me bota pra rua”. Eu enfrentava. Eu era muito assim, sabe, meio que batia de frente com eles. E até que um dia esse chefe me encheu tanto o saco, que a empresa ia receber uns japoneses. Como eles faziam placa de circuito, ia vir uns japoneses visitar a empresa, pra importar o material, tal. E, nesse dia, eu aprontei. Deixei uma mesa com os reatores em cima. E quando eles vieram, eu fiz de conta que bati, derrubei tudo aquilo no chão, nos pés do japonês. Imagina, que eles são super organizados, sabe? E eles viram aquilo e ficaram com o olho arregalado, assim. E o meu patrão disse: “Ai, desculpa”, com o intérprete ali, tal. Juntaram as coisas do chão. E nesse dia que me botaram pra rua. Aí, (risos) esse dia, ele só disse assim: “Não. Deu. Chama esse guri”. Aí ele me disse: “Ó. Tu é um guri bom, mas tu ainda não está com idade pra trabalhar. Tu tem outra cabeça. Tu quer só jogar bola. Tu quer fazer...”. Eu disse: “Não, é que eu não aceito as coisas que vocês estão colocando pra gente”. E aí ele, tá, me mandou embora. Só que eu trabalhei, nesse período, eu fazia o horário normal, às oito horas e fazia serão até às onze da noite. Sempre. Todos os dias. 29 dias, eu fiz 29 dia de serão. Porque tinha o meu primo, os meus amigos, ali, que eram alguns, conhecidos da empresa e a gente ficava até às onze da noite. Só que, quando eu fui fazer o acerto, eu fui fazer o acerto, tal e aí o meu pai olhou, disse, aí eu disse: “Pai, isso aqui está errado”. Daí ele disse: “Por quê?”. Eu disse: “Porque aqui na folha está que eu fazia o serão só até as dez. Eu não fazia até as dez. Eu sempre trabalhei até as onze. O senhor lembra a hora que eu chegava? Sempre quinze pra meia-noite”. O pai disse: “É verdade”. E aí, o cara da contabilidade disse: “Não. Se está aqui, está certo”. Eu digo: “Não, não está certo”, ligaram pro patrão. Veio ele, lá: “Não, não sei o quê”. Eu digo: “Cara, eu sempre trabalhei até às onze da noite”, “Não, mas é que tal”. O que estava acontecendo? Eles não estavam pagando o adicional noturno, que depois das dez horas, tu paga o adicional noturno. Então, eles não queriam, não estavam me pagando. Então, se eu não visse aquilo... O que aconteceu? O Davi político. Fui na empresa, cheguei lá, chamei todos os meus colegas e disse: “Ó, a empresa está passando vocês pra trás. Se eu fosse vocês, eu fazia uma greve agora mesmo”. Daí eles: “Como assim?”, tal. Eu digo: “Pega a folha de pagamento de vocês e olha se o pagamento não está, do serão, até as dez. Vocês estão perdendo uma hora”. Tu acredita que tinha funcionária que já estava há seis anos na empresa, nunca tinha recebido o adicional noturno? Então, eu dei um desfalque na empresa, assim, que eles queriam o meu couro. Porque... E aí, todo mundo começou a entrar na Justiça, pedindo a sua hora a mais, que sempre trabalhou, entendeu? Então, eu me sinto, assim, um justiceiro, porque eu consegui descobrir uma sujeira que eles estavam fazendo. E acabou que isso ficou, né, marcado, assim, lá na empresa. Depois disso, começaram a... Hoje eu me dou muito bem com os donos, né, da empresa, mas isso ficou registrado lá e marcado na história, né, que aquele menino de quinze anos foi lá e questionou isso e conseguiu ajudar os outros colegas também, né, então... E depois disso, eu fui trabalhar, daí o meu pai disse assim - como eu não dei certo ali -: “Tu quer saber de uma coisa? Tu vai trabalhar na funilaria”, onde o meu pai trabalhava, de motorista. E aí eu fui trabalhar na funilaria, com os meus quinze anos, ali. Daí fiquei até o Exército. Na funilaria, eu entrei pra ajudar a fazer calha, botar calha em telhado. Mas eu, por ser já com a mente artista, eu não tinha essa coisa de cuidado, sabe? Porque é um trabalho muito perigoso. Então, meu pai sabia que eu era meio louco, porque eu já tinha caído do telhado, duas vezes, por descuido. Então, uma vez, ele estava arrumando a antena, né, que nós, de 1974, a gente é do tempo de ir lá fora e começar a mexer na antena, tirar os fantasmas da tevê: “Não, vai pro lado. Não. Não sei o quê. Vem pra cá”. E aí, o pai grita: “Davi, me traz o alicate”  e eu subo, fui lá no telhado. A gente morava no segundo andar. E o pai diz assim: “Não pisa no meio da telha - telha de Brasilit -, pisa nos parafusos e me traz aqui”. O que o Davi fez? Pisou no meio da telha: fui parar na cozinha da minha mãe. Então, atravessei o forro da casa, atravessei o negócio, rasguei as costas nas telhas. Assim, me abriu as costas, as pontas da telha. E o meu pai disse: “Tu nunca mais vai me...”. E a segunda vez, eu estava ajudando-o, também, a colocar as algerosas em cima de um telhadinho que a gente tinha. E tinha um ninho de marimbondo bem na cumeeira, assim. E o pai disse: “Cuida, que tem os marimbondos ali”. E tinha uma janelinha que a gente entrava por essa janelinha, do sótão. E o pai disse: “Me alcança a algerosa”. Quando eu viro a algerosa, eu dou no ninho de marimbondo e aquilo cai. E os marimbondos grudam em mim, no meu pai. Aí ele pula pela janela e me joga pra dentro da janela. E ele pula. Como a janelinha era pequenininha, ele ralou toda a canela, porque ele pulou e aquilo raspou. Mas aquele homem ficou todo embolotado, queria o meu coro. Então, acabei não apanhando dele, porque eu já tinha tomado tanta picada de marimbondo, que ele ficou com pena. Ele disse: “Bem feito. Não vou te surrar. Mas agora, tu está aí, ó, todo cheio... Como é que tu vai me fazer uma... Eu ainda te falei, Davi, [se] cuida com os marimbondos”. Uma criança. Criança, parece que faz o que tu quer que não faça. Então, aí eu fui pra funilaria. E ali, até que um dia, eu também quase caí do telhado, daí o meu pai disse: “Não”. Falou pro meu patrão: “Marcos, esse guri vai se matar. O Davi já quase se matou, quando era criança. Então, eu não quero mais que tu o mande botar calha fora. Ele vai ser, se tu quiser, ele pode ser o telefonista aqui da funilaria”. Aí eu virei o telefonista, que daí (risos) não tinha perigo nenhum. Era só atender o telefone e anotar os recados. Foi aonde salvou a minha vida. Mas, não satisfeito, eu fui, um dia, fazer uma caixa pra mim. E eu estou com a furadeira e segurando o pegador da caixa, assim, pra fazer um furo. E a furadeira escapa e me atravessa o dedo. E eu desligo a furadeira e fico com aquela broca atravessada no dedo, assim. E aí eu chego pro meu patrão: “Marcos, eu me machuquei”. E aí ele olhou, assim: “Meu Deus do céu! E agora? O que a gente vai fazer?”. E chega o meu pai. Chegou com a caminhonete, estacionou. E meu pai, muita gente vai se identificar, é daqueles antigos, que não tem choro. “Ah, mas como é que tu vai fazer isso? Mas tu é um boca aberta, mesmo. Mas como é... Eu já falei que é perigoso, porque tu sabe que a furadeira, tu tem que fazer um furinho, que não sei o quê”. E ele foi falando comigo e foi me levando, assim. E eu fui indo junto, meio que, tipo: ele vai tirar a broca e vai me levar pro hospital. Ele liga a furadeira na tomada e ‘vrrrmmm’. ‘Drrrrrr’. E tira a furadeira. A liga e arranca do meu... Wu quase desmaiei de dor, assim. Ele disse: “Agora, vamos pro hospital. Agora eu já tirei”. Eu digo: “Pai, mas era só o senhor tirar”. Ele disse: “Não, não. Isso aí é pra ti aprender”. Então, aprendi na... (risos) O “véio” era assim. Então, aprendi. E aí foi me dando mijada, bronca, né, da funilaria até o hospital, sem pena. Tipo: porque ele viu que eu não ia morrer. Ninguém morre pelo dedo. Então, ele sabia que era só um... Atravessou, né, a furadeira. Mas, enfim, então, só algumas histórias, assim, que eu conto, que o teatro salvou a minha vida. Porque senão, eu não sei o que ia acontecer comigo, né, se continuasse como funileiro. Aí, com dezoito anos, eu fui pro quartel. E aí não sei o que tu gostaria, agora.

P1 - Não. Pode falar sobre esse seu período no Exército. E aí, depois, a gente volta, pra comentar sobre o que aconteceu depois, como você chegou a voltar ao teatro. Porque eu não sei se você teve, se você continuava, durante o período da funilaria, se você continuava fazendo teatro. Ou se você parou. 

R - Na funilaria, não, ali eu parei, porque eu saí da escola. Então, eu não tinha mais esse contato com teatro, mas eu queria, tinha essa vontade de ser artista. Porque os meus tios... O meu tio tocava num conjunto musical, que ensaiava lá em casa. E a minha tia era atriz. Então, eu tinha aquilo muito perto de mim, assim. Então, a arte, sempre... Eu deixava de jogar bola pra ficar assistindo o ensaio de música do meu tio, né, com o conjunto dele. É um conjunto de chorinho que ele tinha. E aí, na funilaria, eu fazia escultura de alumínio, fazia essas coisas. Eles tinham um santo lá pendurado, aí eu ia lá, reformava o santo, pintava. Então, eu sempre querendo fazer coisas da arte. Até que, quando eu estava na funilaria... Daí eu fui pro quartel, né, servir o Exército. E, no Exército também eu sofri demais. Eu não sei, a gente pode falar de política, aqui? Pode.

P1 - A história é da sua vida, você conta do jeito que você quiser.

R - Perfeito. O meu irmão foi um dos que fundou o PT aqui em Caxias do Sul. Ele era um dos cabeças, assim, o meu irmão Antônio. Então, eu sempre fui doutrinado, desde criança, com uma cabeça mais de esquerda mesmo, assim, que era a coisa do questionador. Então, ele sempre me ensinou a ser politizado, entendeu? E, quando eu entro no Exército, eu entrei porque o meu pai queria muito que um filho servisse o quartel. O meu irmão Antônio não serviu por causa da questão da poliomielite. E o Paulo não serviu, porque ele ficou o dia inteiro batendo com uma madeira no joelho, até o joelho inchar e ele ir pro médico e o médico engessar a perna dele. Ele disse que tinha torcido, rompido o ligamento. Naquela época lá, não tinha ressonância, nada dessas coisas que tem hoje, modernas. O engessaram. Ele foi pro quartel, foi liberado. Só pra não pegar o quartel, ele fez isso. E como o meu tio já tinha um filho que tinha servido o quartel, um dia eu vi o meu pai falando, assim: “Bah, o Davi é a minha única, a minha última esperança, de um dia servir o Exército, porque é uma coisa que eu queria fazer e não consegui”. E eu disse: “Puxa. Lá vai o Davi ser cobaia”. Então, eu fui, voluntário. Só que, quando eles pegaram a minha ficha, eu era filiado ao PT. E aí, eles, eu me lembro que eles me botaram numa sala... Isso em 1993, tá? Isso realmente aconteceu. Isso é uma coisa que eu falo e não tenho medo de... Me mandaram pra uma outra sala. Quando eu cheguei nessa outra sala, tinha mais quatro colegas meus. E a gente: “Ué, mas por que a gente está aqui, se a gente era voluntário?”, tal. E, quando a gente foi conversando, a gente viu que dois eram o PT e dois eram o PCdoB. E aí a gente: “Será que é por causa disso que eles tiraram a gente?”. Mas eles não falavam pra gente. E nós fomos fazer uma entrevista com o capitão Robson. E o capitão Robson começa a fazer pergunta: “Tu já participou de passeata?”, “Sim”, “Tu já participou de greve?”, “Sim”, “Tu já foi de movimento estudantil?”, “Sim”. Quando a gente respondeu, beleza. “Então vocês, realmente...”. Aí ele me fez essa pergunta: “Tá. E se tiver... E se caso tu entrar? Entrou pro quartel. Vamos fazer uma hipótese, aqui. Tu está no quartel, dá um problema no Brasil. Tu sabe que a gente já passou por isso”. A gente só fazia... Acho que a ditadura acabou em 1984, ou em 1982? Não me lembro.

P1 - 1984, 1985. 

R - É. Então, tu pensa que é dez anos depois. É pouco tempo. Eu servi o quartel dez anos depois de uma ditadura. Então, ele veio e me questionou: “Tá. E se acontece alguma coisa, tal e tu está servindo o quartel? E tem o teu irmão, alguém parente teu lá na frente, o que tu vai fazer? Tu vai seguir as fileiras do Exército, ou tu vai...”. Eu disse pra ele: “Eu viro contra vocês. Contra a minha família, eu jamais vou lutar contra a minha família”. Ele disse: “Mas tu está servindo o quartel”. Eu digo: “Eu entrego a arma na hora”. Juro por Deus, eu disse isso na cara dele: “E vou pro lado deles”. Ele: “É. Realmente, só tenho que te agradecer. Pode ir pra outra sala”. (risos) E aí, me mandou pra outra sala. Ok. Eu estou na fila pra pegar a terceira, que é a carteira pra dispensa, pra não servir mais o quartel. Eu era o último da fila. Aí eu me lembro do tenente entrando, saindo assim, no final do pavilhão, no quartel e grita: “O último vem. Pega as coisas e vem, tu vai servir o quartel”. E eu meio que fiquei assim, tipo: “Será que...?”, “É tu, bisonho. Vamos”. Já naquele jeito, né, de militar: “Vamos, rapaz, vem”. E aí eu fui, peguei as minhas coisas: “Tá. Mas eu estou sendo...”, “Não. Tu não vai mais. Um menino caiu e se machucou. E tu vai entrar no lugar dele”. E aí eu servi. Só que eu servi com um rótulo: ‘soldadinho do PT’. Eu era conhecido, quando eles me levavam pra fazer campo, que a gente vai fazer como se fosse na guerra mesmo, a gente chama de campo. Então, é a simulação de guerra. Então, eu pagava. O que os meus colegas pagavam uma, eu pagava três. Tipo: tu fazia uma instrução, chegava lá no final, exausto, eles diziam: “Ah, é o Souza. E aí, Souza? Só vai sair daqui quando tu pedir água. Gente, ó o ‘soldadinho do PT’ aqui. Vamos lá”. Só que eu sempre fui criado com muita gana. E eu dizia: “Vocês não vão me ver pedir. Eu vou desmaiar aqui, mas eu não vou chamar a mãe, não vou pedir arrego. Mas de jeito nenhum”. E eu paguei o pão que o bicho ruim amassou, assim, lá na mão deles, assim. Mas não desisti. Eu aguentei até o final do campo, eles tentando me derrubar [a] todo momento. Todo momento, eles vinham tentando me derrubar. E eu, cada vez ia ficando mais forte. Então, o que me munia? A vontade de mostrar que eu era capaz. Porque se eles eram... Por eu ser de esquerda, eu não era menos que eles, entendeu? Então, eles faziam isso, pra tentar provar que eu não tinha capacidade de estar ali. E aquilo me dava muita força, cada vez mais força, mais força. Até no dia que a gente saiu, que era quase Farroupilha a Caxias, eram quase vinte, vinte e cinco quilômetros. Imagina, tu fica sete dias sem comer, passando todos os perrengues. E ainda tem que ir a pé. E aí eu me lembro que o tenente... O sargento Sérgio chegou pra mim: “Então, Souza. Tu não deu o braço a torcer. A gente achou que tu não ia aguentar e tu está aqui, firme. Muitos que a gente achou que iam estar aqui, desistiram. Dezesseis, na nossa turma de oitenta, pediram arrego e foram embora. Não aguentaram. Tu aguentou. Mas tem uma última prova”. E ele pega uma pedra desse tamanho e enfia na minha mochila. Então, além de todo o peso, do cansaço, eu ainda tive que levar uma pedra dentro da minha mochila, por vinte e cinco quilômetros, até Caxias do Sul. E ele disse: “Com certeza, no meio do caminho, tu vai pedir água. Tu vai pedir arrego. E tu vai desistir”. E ali eu aguentei de novo, segurei firme até o final, não desisti. Então, a partir disso, eles começaram a me respeitar. Assim, em termos de liderança, de ser guerreiro, de não desistir. E eu entrei pro Pelopes, Pelotão de Operações Especiais do quartel. E eles descobriram que eu tinha uma habilidade muito grande, que era atirar. Então, eu atirava muito bem de fuzil. E eu fiquei como atirador de elite do Pelopes. Isso é uma história bem interessante. Em 1994, não sei se vocês lembram, teve a mudança da moeda, o real. Implantado o real no Brasil e tal. E o Exército que fez a segurança de todos os Bancos, aqui de Caxias. Todos os Bancos, era a gente que ficava cuidando do dinheiro. Não era nem polícia, era o Exército, tá? E aí, uma vez, no Banco do Brasil, eu fui falar com um sargento, o Banco lotado. Aí eu fui falar com o tenente, que era um tenente carioca, ele tinha colocado dois... Um posto errado. Tipo, era o P7 em cima e o P13, embaixo. Ele botou o P7 embaixo e o P13 em cima. E eu só comentei: “Tenente, eu acho que o senhor se enganou”. E eu era soldado antigo, tá? Eu estava servindo por mais um ano. Então, eu quis seguir - olha, eu fui louco da cabeça - a carreira de militar, quis seguir a carreira. E aí, ele vem e me dá um esporro. O Banco cheio, as filas, assim e ele vem: “Seu soldadinho de merda. Quem é tu pra me falar isso? Quem que tu está pensando...”. E ele vem e fica a meio palmo da minha cara, assim, gritando comigo, assim. E o Banco assim, tudo, assim. E eu peguei e o empurrei. Eu digo: “Não chega mais perto”. E aí ele veio e botou a mão no meu peito: "Que tu está falando, soldado?”. Quando ele botou a mão no meu peito, eu dei uma coronhada nele com o fuzil. Aí ele caiu no chão e já pegou na arma, né, na coisa, e eu já fui pra cima. E aí vem o tenente Paganela, grita com nós dois, que ele era mais antigo que ele: “O que está acontecendo aqui?”. Pá. “Os dois, parou agora. Souza, solta o fuzil, vai pra viatura, tal, não sei o que. Vem pra cá, que eu vou conversar contigo, tenente”. E aí eu fui. No caminho, todo mundo me dizendo, né, os que me levaram preso - eu já fui preso. Eu já saí preso, do Banco: “Tu vai ser expulso do quartel, porque tu bateu num sargento num lugar público. Então, não tem, nada vai te salvar”. Mas, como eu te falei, eu nasci com fé. Eu sempre acreditei que eu nasci diferente, a luz sempre brilhou diferente pra mim. E eu disse: “Não vou ser expulso”. Aí eu cheguei e fui falar com o meu comandante. Porque tu chega lá, tu tem que ir pro comandante, que era o tenente Marsiglia. E o pai dele era general em Brasília, uma coisa assim. E o tenente Marsiglia senta comigo e pede: “O que aconteceu? Me fala a verdade”. E eu contei pra ele, digo: “Ó, tenente, tal”. Ele disse: “Olha, eu tinha feito a mesma coisa, porque eu não vou muito com a cara desse fulano. Então, tu fez... Só que não tem o que eu fazer. Tu vai ser expulso, porque tu agrediu. Mas espera um pouquinho aí, eu vou lá falar com o comandante”. Aí ele saiu, foi falar com o comandante. Eu fiquei na sala dele, esperando. Pouquinho ele volta, ele diz: “Davi, tem uma coisa. Só tem um jeito de tu não ser expulso. Tu vai ficar detido 45 dias no quartel, tu não pode sair. Tu pode fazer tudo. Não é cadeia, mas tu vai estar no quartel. Tu não pode sair do quartel. 45 dias de punição. E você vai ter que organizar uma festa junina aberta à comunidade de Caxias. A organização é tua. Tu vai dizer o que precisa, o que vai ser feito, quantas pessoas vão”. Eu nunca tinha feito isso na minha vida. E eu disse pra ele: “Tá”. Eu não tinha outra opção. Eu tinha que aceitar aquilo. Então, eu brinco que é a minha primeira produção. Hoje eu trabalho com produção de eventos. A minha primeira produção de um grande evento foi no Exército, fazendo uma festa junina pra cinco mil pessoas. Então, a gente pegou os caminhões, fez caminhão, as barraquinhas, né, de pescaria, de tudo. Cara, foi assim, ó... E foi a única que teve até hoje, no Exército de Caxias do Sul. Pra cinco mil pessoas. Então, foi... Eu me lembro que eles ganharam muito dinheiro. E aí tem um fato muito engraçado, assim, que eu estava indo e um sargento me chamou a atenção: “Souza, aonde é que tu vai?", não sei o quê. Eu digo: “Não. O tenente Marsiglia me chamou, que ele está vendo as coisas da festa junina”, “Não. Não. Não. Não. Tu vai vir aqui, limpar o banheiro da bateria”. Eu digo: “Não, mas é que o tenente me chamou” “Não, tu vai limpar”. Ele achou que eu estava mentindo. Eu disse: “Tá”. Aí estou eu lá, limpando o banheiro, o tenente: “Ô, Souza, o tenente Marsiglia está lá”. Eu digo: “Não, mas é que eu não posso ir, que o sargento...”. E ele era muito, muito... Ele não gostava, né, quando ele era confrontado, o tenente Marsiglia. E ele vai lá no banheiro: “Souza, eu não mandei tu ir lá pra me ajudar?” Eu digo: “Não, mas é que o sargento disse que era pra eu limpar aqui”, “Que sargento? Como assim?”. Eu digo: “Sim, foi ele que mandou”, “Chama o sargento agora aqui”. Aí o sargento chega: “Não, mas é que eu falei pro Souza”, “Posição de sentido pra falar comigo” e o sargento assim. “Vai. Vai”. E aí assim: “O que foi? Agora, fala”, “Não, é que o Souza estava lá embaixo”, “O que ele te falou?”, “Ele disse que...”, “Não era pra estar lá comigo?”, “Era”, “Então, você vai limpar o banheiro agora. Souza, vem comigo”. Esse sargento tinha ódio de mim, até o dia que eu saí do quartel. Ele me olhava, ele queria me matar, lá dentro. E eu fui tomar caipira e contar o dinheiro que tinha dado ali na festa junina, que esse dinheiro eles usaram pra destinar, pra ajudar as casas que estavam precisando, a Apae, né, as entidades de Caxias do Sul, que a gente destinou. Toda a verba que o quartel arrecadou nesse dia, foi destinado pras entidades de Caxias do Sul. E aí ele mandou fazer um churrasquinho. Então, estava eu ali com o comandante, tomando caipira, comendo churrasco e contando dinheiro. Então, aquilo, pra mim, foi meio surreal. E ele disse: “Tu te livrou de ser expulso, porque foi um sucesso a festa junina. Tu está de parabéns” e tal. Então, eu tinha as costas quentes. Então, esse sargento não podia fazer nada comigo, porque o tenente era muito mais, patente muito maior que a dele e filho de general. E aí, o que acontece? Em 1994, o Itamar Franco vem visitar a Festa da Uva. Quem faz, um dos pelotões que faz a segurança do Itamar Franco é o Pelopes, que é o Pelotão de Operações Especiais do Exército. E eles começaram a fazer a estratégia de onde os militares iriam ficar, pra proteção do presidente. E eles me deixaram com um fuzil, com mira, bem na frente. Eu ia ficar na frente do palanque oficial, em cima de um prédio que tem na catedral do Centro de Caxias. Quando eles se deram conta que era o Souza, o ‘soldadinho do PT’ que ia estar ali: “‘Nãnãnãnã’. Souza, desculpa, mas é que a gente tem medo. Vá que te dê alguma coisa na tua cabeça, tu queira matar o presidente?”. Juro, gente, sério. Eu fiquei detido dentro do Exército. Enquanto o Itamar Franco esteve com os pés em Caxias do Sul, eu não pude sair do Exército. Isso é real, tá? É real. Eu fiquei lá no quartel, esperando. Claro, ficamos lá, eles usaram como uma equipe de plantão. Que nada! Me deixaram lá, porque ficaram com medo, né, que eu fosse fazer qualquer... Imagina que eu... Eu ia só dar na perna dele, mas não ia matar. (risos) Estou brincando. Então, essa é uma das histórias. Aí, depois, eu me encrenquei com outro cabo, o Edilson, que a gente tinha muitos atritos e tal. E aí acabei que eu não quis mais ficar no Exército, porque eu vi que aquilo não era pra mim. E eu falei pro meu pai: “Pai, estou saindo. Não quero mais saber disso”. E tinha a campanha do Lula. Não sei se vocês lembram, tinha a campanha do Lula 1994, que ele foi, acho que a primeira candidatura do Lula presidente. E eu estava no Centro de Caxias do Sul, com o abrigo do quartel, fazendo panfletagem, né, lá no Centro de Caxias. E pra ti sair do Exército, eu não sei se as pessoas sabem, você tem que pegar a assinatura de todos os sargentos, pra ti poder se liberar. Aí, quando tu pega a assinatura de todos, tu tem que ir lá no adjunto e ele te dá o documento de liberação, que agora tu é civil. E faltava - é tanta história, que parece mentira, mas é real - uma assinatura. E eu estou lá no Centro, o sargento Fiorezzi vem, eu sinto um cara me juntar pelo braço, me arrastar: “Vem comigo”. Eu olho, é o sargento Fiorezzi. Ele disse: “Vem. Tu está preso, agora. Tu não pode fazer isso. Tu ainda é, tu é milico. Tu não pode fazer isso”. E foi me arrastando. Eu digo: “Não, espera aí”. E consegui me desvencilhar com ele, na Praça Dante Alighieri. E corri. Eu digo: “O que eu faço, agora, meu Deus? Táxi”, peguei um táxi. Eu disse: “Eu tenho que chegar antes que ele, no Exército, porque senão eu vou ser expulso”. Peguei um táxi e voei - era umas três da tarde - com o táxi pro quartel. Cheguei lá no quartel, com a minha folhinha, fui lá no meu armário, peguei a minha folhinha. Saí desesperado atrás do sargento, o último sargento assinou. Fui lá no adjunto, entreguei pro adjunto. Quando eu estou saindo, o sargento Fiorezzi chegando de carro. E ele chega, já para o carro e vem pra cima de mim: “Parou! Para, soldado. Para, soldado!”. Eu digo: “Desculpa, eu não sou mais soldado. Agora eu sou civil”. E ele disse: “Eu não acredito, Souza. Tu escapou?”. Eu digo: “É. Escapei”. Aí ele disse: “Mas tu é muito cara de pau. Tá. Então, vamos fazer assim, ó: tu quer, tu é de esquerda? Ok, pode ser de esquerda, mas não usa o abrigo do Exército, porque não fica bem pra gente. Não fica bem um cara do Exército lá, estar panfletando”, tal, não sei o quê. Eu digo: “Tá, tudo bem. Eu vou aceitar”. Depois eu nem queria mais usar mesmo, o abrigo e tal. Enfim, virou... Essa foi uma das histórias da minha saída do Exército. Foi uma saída quase dramática, mas eu saí e voltei pra funilaria. E aí, outras histórias aconteceram. Então, tu quer que eu conte aquela parte?

P1 - Qual parte? Você tinha falado do hospital antes.

R - É. Do hospital. Que ele tem uma ligação muito forte com essa segunda parte da minha vida. Quando eu tive encefalite, eu fui lá e fiz todos os exames. Eu acordei vomitando, com muita dor de cabeça. E a minha mãe disse: “João, vamos levar esse guri pro hospital, que ele não está bem”. Chego no hospital, começo a fazer uma bateria de exames, tal, me dão medicação. Por volta de três da tarde, eu estou bem, eu me recupero muito bem. E eu, uma criança de catorze anos, cheia de energia: “Mãe, vamos pra casa. Eu estou bem”. Daí ela: “Tu está bem mesmo, Davi?”. Eu digo: “Sim. Sim. Vamos pra casa, vamos pra casa. Eu estou bem”. Daí ela me olhou, disse assim: “Tu vai fazer um negócio”. Eu disse: “O que, mãe?”, “Tu vai falar que tu ainda está com dor de cabeça”. Eu disse: “Mãe, mas eu estou bem. Eu não estou com dor de cabeça”, “Fala, faz isso que a mãe está te pedindo. Alguma coisa está dizendo aqui dentro, que é pra ti fazer isso”. Eu disse: “Tá, tudo bem. Falo”. Aí chega o doutor: “E aí? Como é que está?”, não sei o quê. “Bah, ainda estou com dor de cabeça”, “Ainda está com dor de cabeça?”. Eu disse: “Sim”. Daí ele disse: “Nossa! Eu vou chamar o Doutor Gobato que é neurologista, que ele que é o plantonista hoje aqui do hospital”. E aí vem o doutor Gobato, começa a fazer eu movimentar os meus braços. E ele começa a notar que eu estava com os braços rígidos, como se eu tivesse segurando, assim. E eu não estava, eu digo: “Ué, o que tem, que eu não estou conseguindo mexer os meus braços?”. E ele tentou encostar os meus joelhos no peito, também, as minhas pernas já estavam duras. E ele me sentou na cama e disse: “Encosta o teu queixo no peito”. Eu fazia assim, tentava e não conseguia. E ele virou pra equipe e disse assim: “Interna esse menino, agora. Ele está com meningite”. E aí sai, aquela loucura, todo mundo correndo e tal. E aí, a minha mãe vem e diz: “Viu como a mãe tinha razão?”. Então, a minha mãe salvou a minha vida nesse momento, porque ela pediu pra eu falar que estava com dor de cabeça. Porque a minha mãe vem e diz: “A mãe está indo em casa, buscar umas mudas de roupa e já volta, com o teu pai”. Era fevereiro, estava muito quente nesse dia. Começou a dar uma viração [de tempo] em Caxias do Sul e começou a vir um temporal. E eram nove horas da noite e nada do meu pai e da minha mãe aparecerem no hospital. E eu ali sozinho. Um temporal lá fora, o hospital sem luz, cai a luz do hospital. Aí eles me dão um medicamento pra dormir. Durmo. Me acordo meia-noite, no meio de um corredor, sendo levado pra um outro exame. Sem pai, sem mãe, sem nada, ali. Vou lá, faço o exame, que é aquele de tirar água da espinha, que é a tal da punção, que depois que eu descobri porque eles me enfiaram um tufo de gaze na boca, porque eu achei que era pra não gritar, não, mas era pra morder, por causa da dor. Porque é uma dor, quem já fez, é uma dor terrível, de tirar água da espinha. Então, eles te enfiam uma agulha de vinte centímetros na tua medula e tiram aquela aguinha, que passa na tua coluna, assim, pra ver como está a infecção. E isso foi horrível. Sou levado pro quarto, umas três, quatro da manhã. Quando eu chego no meu quarto, eu ficava no meio, assim, no meu leito e tinha outras duas camas, na esquerda e na direita. Eu cheguei no quarto, estavam fazendo massagem cardíaca num senhor, na minha esquerda. Aí me lembro, só puxaram aquela cortininha. E não conseguiram - ele estava tendo uma parada - dar a volta, ele veio a óbito. Seis da manhã, o paciente da minha direita também passa mal e vem a óbito. E eu digo: “Cara, morreu esse, morreu esse. O próximo sou eu. Eu estou na fila aqui, já pra morrer.”. E a minha mãe não aparecia. E aí, sete da manhã, a minha mãe vem e fala: “Davi, desculpa. A gente não veio porque deu o temporal, alagou todo o bairro Floresta e nós ficamos ilhados. Não conseguimos sair de casa”. Então, a mãe não tinha como sair. “Nem os Bombeiros conseguiram pegar a gente, porque estava tudo alagado”. A gente morava no segundo andar. A minha prima, que morava embaixo, ali, a minha tia, perdeu todos os móveis, porque alagou tudo. Então, não tinha... E, naquela época, não tinha ônibus. Não tinha telefone. Se fosse hoje, tu tem um celular, tem… Mas não é nada, né? Quem tinha telefone, naquela época? Imagina. E estou eu, lá, sozinho no hospital. Aí logo o doutor veio, pra dar o diagnóstico e ele fala: “O Davi não está com meningite. Ele está com encefalite”. E aí a minha mãe entrou em desespero. E o doutor disse: “Olha, a única coisa que eu tenho pra dizer é que a senhora salvou a vida dele. Porque, provavelmente, se ele tivesse ido pra casa, ele ia ficar ilhado também. E essa é uma doença que, a cada minuto, se prolifera muito rápido. Cada minuto que passa é um risco de vida que tu vai colocando a criança”. Aí a minha mãe falou do meu irmão, porque deu aquilo nele, que demorou muito pra ele ir pro hospital, o meu irmão Jeferson. Quando ele foi pro hospital, ele já não tinha mais como salvar, entendeu? Então, por isso que ele ficou vegetativo, né e acabou perdendo todos os movimentos e a consciência. E aí, a partir dali, interna, na minha esquerda, o Chico, um paciente de trinta e três anos. Gente boa pra caramba, brincalhão. E aí ele fala, ele já chega e diz assim: “Ó, vim tirar férias aqui no hospital, porque quando eu...”. Minha mãe pediu: “Tá. Mas tu está super bem. Tu é um rapaz saudável”. Ele disse: “Não, Dona Ruth, é que quando eu fico com fome, me dá ânsia de vômito. Então, eu estou aqui pra descobrir por que eu tenho isso”. Então, ele não tinha nem soro, nem nada, ele estava ali só pra fazer uma bateria de exame. E, na minha direita, interna o Metralha, um senhor de meia idade, cinquenta anos, que tinha problema de colesterol, problema de coração. Então, essas duas figuras mudaram a forma de eu ver o mundo. Eles não deixavam nem... Eles me protegiam, eles cuidavam de mim. Eles não deixavam a minha mãe dormir no hospital, porque eles diziam: “Dona Ruth, pra que a senhora vai ficar aqui, se nós dois estamos aqui? O que o baixinho precisar, a gente o atende. Então, a senhora não precisa dormir aqui, ficar passando dificuldade. Deixa que a gente cuida”. E eles viraram os meus protetores ali, entende? Então, vivi muita história com esses dois. Até que um dia - eu tenho duas histórias bem fortes com os dois - o soro sai da minha mão e eu chamo o enfermeiro que estava de plantão. Era umas três da manhã, madrugada. E ele vem com mau humor, assim, me tratando que nem um bicho, assim: “É, porque tu não para quieto, por isso que sai o soro”, tal. E eu com aquela mão inchada, parecia que tinha um “cupcake” na mão, assim. E ele começa a fuçar, procurando a veia. Em vez de tirar e procurar um outro lugar, ele começou a fuçar ali. Eu disse: “Cara, tu está me machucando”. E ele: “Não, porque tu ainda é chorão. Ainda fica chorando”, tal. Eu digo: “Não”. E começou a escorrer o sangue, assim. E, nisso, o Chico acorda. O Chico acordou e veio: “Baixinho, o que está acontecendo?” Eu disse: “Chico, ele está me machucando”. E O Chico olha, assim: “Cara, tu não está vendo que está saindo sangue? Tu está machucando-o”. O enfermeiro bota a mão no peito do Chico e diz: “Não te mete no meu trabalho”. Eu brinco que foi a última vez que eu vi o enfermeiro na minha vida, porque o Chico deu uma gravata nele e os dois começaram a brigar dentro do quarto. E aí, o Chico o arrasta pelo pescoço, sai pelo quarto. O Metralha acorda no meio daquela guerra mundial, assim, sem saber o que estava acontecendo. Aí veio o médico de plantão. Traz o enfermeiro. O médico vem e olha. Eu tenho a cicatriz até hoje, aqui em cima. O doutor vê que ele rasgou a minha veia. Como ele virou a agulha de um lado pro outro, ele conseguiu rasgar a minha veia. O doutor manda: “Pega as tuas coisas e vai embora, agora!”. Mandou ele embora, naquele momento, do hospital. E eu brinco, né, que o Chico, naquele momento, vira o meu herói, porque foi o cara que me salvou ali. E ele e o Metralha eram dois palhaços. Depois, quando eu, estudando o palhaço, descobri que eu já tinha, Deus já me deu um presente: duas figuras, Brando e Augusto, né, que é o inteligente e o bobalhão, né, o paspalho. Que é sempre a figura dos palhaços. O Gordo e o Magro. Tu vê o Gordo, o Magro é o paspalhão, né, que sempre perde. Mas é mais esperto do que o Gordo, que se acha esperto. Então, tinha o Metralha e o Chico, que eram os dois que me divertiam demais. E aí, um dia, eu fazia uma medicação muito forte, assim, que aquilo doía demais, assim, eu sentia aquele medicamento rasgando a minha veia. E eu sempre mordia uma gaze nesse momento, por causa da dor, assim. E os dois começaram a fazer palhaçada na minha frente, eu comecei a dar gargalhada, dar gargalhada, me divertindo com aqueles dois e falo pra enfermeira: “Tá. Pode fazer a medicação, que agora eu estou preparado”. E elas: “Davi, a gente já fez”, “Como assim?”. Elas: “Tu estava tão entretido, dando risada do Chico e do Metralha, que tu não sentiu dor”. E, depois desse dia, todos os dias que eu ia fazer esse medicamento, o Chico e o Metralha tinham que mudar o seu repertório e fazer. E cada brincadeira que eles faziam, eu sentia que a dor ia embora, eu não sentia mais dor. Era incrível, me anestesiava, eu não sentia dor. E esses dois marcaram a minha vida. Eu saio do hospital. Três meses depois, eu recebo uma notícia da esposa do Chico, que descobriram que ele estava com um tumor no cérebro. Aquela ânsia de vômito era em função disso. Só que, naquela época do hospital, se eles tivessem descoberto, tinham salvado a vida dele. Como ele esperou, o tumor se espalhou na cabeça. E ele, depois de três meses, no quarto mês, veio a óbito. Então, eu acabei perdendo esse grande amigo, que eu tive no hospital. E, depois de um ano, o Metralha foi fazer companhia pro Chico, também em função de uma parada cardíaca. Até porque (risos) a esposa dele, levava Xis pra ele. Então, ele estava em dieta restrita e a esposa dele - eu não sei se ela queria matar, ou se amava ele. Não sei. Até hoje eu não descobri – levava Xis pra ele comer. O Xis, aqui, a gente chama, é aquele hambúrguer, né, gorduroso, tal. Eu dizia: “Metralha, mas não sei o quê” “Mas é o que é bom da vida, o bom da vida é gostoso”, ele dizia assim. E comia aquilo ali e, enfim, morreu feliz. Então, esses dois me ensinaram. Depois, estudando palhaço, aí vem os Médicos do Sorriso. Eu descubro que o curso que eu trouxe pra Caxias do Sul, da Ana Wuo, aí de Campinas, que estudou no Hospital Boldrini, fez o doutorado em Palhaço de Hospital, dentro do Hospital Boldrini. Eu trago essa mulher pra Caxias, pra dar um curso de palhaço. O primeiro curso de palhaço da cidade. O primeiro a estudar palhaço em Caxias do Sul, fui eu que trouxe pra cá. Eu pensei: “Se eu pegar a Ana, o que eu aprendi com o Chico e com o Metralha, que o riso é cura, que o riso é anestésico porque realmente aconteceu comigo - o Doutor Saudável, que é uma outra história que depois eu conto -; eu vou criar um grupo de hospital, de palhaço de hospital. E aí nasce os Médicos do Sorriso, que a Cpfl é nossa parceira também, patrocinando esse projeto, que já há dezessete anos a gente está fazendo esse trabalho aqui em Caxias. Então, essa é a minha história do hospital. Uma história que vira um filme. Porque um dia, eles me tiram do quarto e me levam pro isolamento, porque eles acham que a minha doença é contagiosa. O meu médico sai pra um congresso. E não sei quem é que mistura a minha ficha e me leva pro isolamento. No que me leva pro isolamento, eu fico quatro dias no isolamento. O isolamento é o oitavo andar do Hospital Pompeia, onde ficam as pessoas que têm doença infecciosa, as pessoas que são malucas, assim, né, lá no oitavo andar. Então, todo mundo tem medo do oitavo andar. O que aconteceu? Tudo o que eu tinha recuperado foi à estaca zero. A minha doença voltou com tudo. E a minha mãe lutando, né e dizendo pra eles: “Gente, está errado. O meu filho não é contagioso”, tal. E eles não conseguiam contato com o doutor Gobato, por telefone, porque ele estava num congresso. E não tinha como ter esse contato que a gente tem hoje, né, muito mais fácil. O que aconteceu? O Metralha e o Chico fizeram uma greve e congestionaram o meu leito, a minha cama. Eles trancaram a minha cama, pra ninguém ser internado nela, porque eles diziam: “Não. O baixinho tem que voltar”. Olha, chamaram a diretoria do hospital, tudo. Eles: “Não, ninguém interna aqui”. Botaram... Aí pediram pra minha mãe trazer corda, papel higiênico, eles botaram um monte de coisa e enosaram pra ninguém internar ali. Até que o meu médico volta do congresso e chega lá e dá um esporro em todo mundo: “Vocês estão loucos da cabeça”. Aí ele chega lá, vai me examinar e vê que tudo o que eu tinha recuperado, eu tinha voltado quase à estaca zero. Porque, claro, eu me afundei de novo, numa depressão. E aí ele disse: “Não. Vamos levar”. Só que quando eu chego no meu quarto, que eles estão me levando na maca, tem uma festa surpresa me esperando, feita pelas enfermeiras e pelo Chico e pelo Metralha. Então, eu chego lá, tem papel higiênico com o meu nome, todo mundo lá. A minha mãe tinha levado uma torta, um bolo, pra comemorar a minha volta pro leito, assim. Então, eu tenho uma lembrança muito gostosa de hospital. Por isso que hoje eu faço Palhaço de Hospital. Porque essa lembrança, pra mim, é tão pura. Ela é uma lembrança tão incrível, de ver o Chico juntar os outros pacientes, de noite, pra fazer uma roda de piada. Então, como ele era muito comediante, ele começava a contar piada e aí ele começava a instigar os outros pacientes, a cada um contar piada. E aquilo virava uma festa, com as enfermeiras chegando, com todo mundo contando piada, assim. E eu ali, catorze aninhos, no meio. Porque era o único adolescente, ali, no meio de adultos. Não era uma ala de crianças. No Hospital Pompeia, não tinha ala de criança, tu internava com adulto, né, não tinha essa coisa, assim. Então, por isso que eu conto, assim, o hospital, esse período no hospital, pra mim, foi incrível. O dia que eles fizeram uma guerra de travesseiro dentro do quarto, pra me alegrar e acabaram rasgando o travesseiro, voou pena pra tudo que é lado. E eles, pra não levarem ‘mijada’, a minha mãe teve que juntar todas as penas, enfiar numa sacola e levar pra casa. E aí, então, são histórias, assim, que eu tenho, que são muito, que são guardadas aqui no peito, assim, sabe? Então, eu gosto muito desse período, porque foi uma recuperação, eu consegui me curar da encefalite e conhecer dois anjos da guarda, que me protegeram e vivem até hoje comigo, assim. O nome do meu palhaço é Chico, em homenagem ao Chico. Então, o nome é Chico Lebocó, né, por causa do Chico. E tive um outro colega que botou de Metralha. Então, pra homenagear essas duas figuras, assim, que iluminaram a minha vida, sabe? Então, esse é um período muito importante da minha história, que eu não posso deixar de fora.

P2 - Davi, você podia contar um pouco pra gente, como você fez Artes Cênicas e criou, também, o Médicos do Sorriso?

R - Sim. O teatro, como eu falei, é desde criança, dentro de mim, essa vontade de ser artista. Depois que eu saí do Exército, eu fui um dia com um amigo meu, do lado da minha escola, visitar uma prima dele. E ela estudava à noite, no Abramo Pezzi, onde eu estudava. E tinha um cara ali, que estava cheio de uma pilha de textos, assim, de folhas de papel. E eu perguntei pra ele o que era. E ele me disse: “Ah, isso aqui são textos de teatro”. Eu digo: “Nossa!” Ali me bateu de novo aquela: “Teatro? Nossa!”. Me veio muita coisa na cabeça, assim. Eu voltei lá na infância. Eu voltei na escola. Eu voltei na minha tia. Muita coisa. Eu disse: “Como é que faz, pra fazer esse negócio de teatro?”. Ele disse: “Olha, amanhã eu vou estar fazendo um teste, pra um espetáculo que eu estou montando. Se tu quiser vir”. Daí eu disse: “Mas como é um teste de teatro?” Ele disse: “Não. Tu vem, eu te dou um perfil de cada personagem e tu vai improvisar em cima disso”, “Tá, mas o que é improvisar?”, “Tu vai criar um personagem ali, na hora. E tu vai fazendo. Tal”. E eu disse: “Tá. Esse negócio de improvisar, eu já faço, entendeu? Na minha vida, com a minha mãe, brincando. Tal”. Então, eu já, meio que eu já... Eu só não sabia os nomes, mas eu já fazia essas coisas, de criar personagem, tal. Eu disse: “Eu vou fazer esse teste”. No sábado, na manhã, lá estava eu, nove horas da manhã, esperando lá pra fazer o teste. Aí, ali ele me chamou e me deu quatro perfis de personagens pra fazer: um pai de família, um homossexual, um político e um policial. Então, eu fui e fiz, assim, com maestria, porque eu fui buscar na minha memória, as pessoas que tinham esse perfil e meio que fui as interpretando, assim, ali, pra ele. E ele amou, tal. No final, ele disse: “Olha, eu vou te fazer uma pergunta: tu gostaria de ser artista e viver de teatro, profissionalmente?”. Eu digo: “Cara, é o que eu mais quero. Nossa! Adoraria”. Ele disse: “Então, o papel é teu. Nós vamos pra Venâncio Aires - que é uma cidade do Taffarel, né, do goleiro -, que é lá que eu estou montando o espetáculo. Então, eu te espero domingo, às 11 horas, na rodoviária, pra gente pegar o ônibus e ir pra Venâncio Aires, pra ti conhecer o grupo de teatro”. Eu digo: “Beleza, então”. Não tinha telefone, não existia. A comunicação era tu marcar um lugar. Tipo: “Ah, eu te encontro em tal lugar, tal hora”. Então, isso que a gente fez. Fui pra casa, feliz da vida: “Mãe, passei no teste. Vou ser artista, que nem a minha tia Bete. E vou ser ator. E agora eu vou realizar o meu sonho”, tal. Eu saí do quartel, ainda com a quinta série, tá? Eu já estava com vinte e três anos, ali, vinte e dois, ainda não tinha voltado a estudar. E feliz da vida. Só que resolvi festejar. E fui sair de noite. Fui dormir umas cinco da manhã. Feliz da vida, com um sorriso, né, de orelha a orelha, assim, tipo: “Ah, às onze horas, meu sonho vai começar”. E dormi. E eu me acordei meio-dia, desesperado: “Meu Deus do céu, mãe! Eu perdi a chance da minha vida. Eu tinha que estar na rodoviária, às onze horas. O que eu faço? E agora? A minha vida, o meu sonho, vai tudo por água abaixo”. Mãe é mãe. Elas são as mulheres mais sábias do mundo. Ela, com muita calma, ela disse: “Davi, não era pra acontecer. A vida é assim. Nada acontece por acaso. Calma. Se não era pra ti, é porque não era pra ti viajar. Então, relaxa, não te apavora. Se for pra ti ser artista, as coisas vão acontecer”. E mais uma vez ela tinha razão. Um ano depois, eu estou num ônibus, vejo um cara panfleteando: “Olha, curso de teatro. Curso de teatro”. Quando ele me entrega um panfleto, ele me olha e diz: “Eu não acredito que é tu”. E era o mesmo diretor que queria me levar pra Venâncio Aires. Ele disse: “Agora tu vai ser obrigado a fazer o curso de teatro comigo, porque eu fiquei plantado na rodoviária, até quase uma da tarde, te esperando. E tu não apareceu. E tu me deixou lá. E um ano atrás eu estou atrás de ti, ainda. E não sabia mais onde tu morava, nem nada teu. Então, agora tu vai fazer meu curso. Agora, tu não...”. Aí eu fui fazer o curso com ele. Quando eu fiz a primeira aula de teatro, propriamente dito, né, tudo se encaixou na minha vida. Eu disse: “É isso. Essa é a minha vida. É isso que eu quero. Eu procurei tanto e é isso, é aqui que eu me encontro, com essas pessoas que falam a mesma língua que eu, essas pessoas que bebem da mesma fonte”. E eu quis viver da arte, a partir daquele momento. Só que o Rodrigo era um cara muito inconsequente, de conseguir as coisas, mas ele não era muito de concretizar o que ele prometia, entendeu? Então, eu passei por alguns perrengues, assim, dele falar: “Bah, vamos lá, que eu vendi uma apresentação nossa”. Aí eu chegar lá, é num bailão. Imagina tu fazer teatro e as pessoas dançando o baile ali, nem bola pra ti, no palco lá, desesperado. Então, eu passei por algumas situações assim. E até que um dia, eu fazendo uma peça de teatro, que era “O Bêbado e o Mendigo”, eu fazia o mendigo e ele fazia o bêbado. Eu fazia o bêbado e ele fazia o mendigo, desculpa. Tinha uma parte que ele entrava e eu vinha pelo meio do público, cambaleando, assim. Quase apanhei algumas vezes, porque eles achavam, realmente, que eu era um bêbado, ali, tal. Só que o meu bêbado começou a brilhar mais que ele. E ele começou a me tirar texto, tirar texto, tirar texto. Como ele era o diretor, né, ele tirava texto e botava pra ele. E eu meio que senti, eu digo: “Eu acho que ele está me excluindo”. Até que um dia, lá em Vila Oliva, eu estou preparado pra entrar em cena, eu vi que ele começou a peça e ele já deu o texto final. E ele não me deixou entrar em cena, porque as pessoas estavam aplaudindo-o. Ali, naquele dia, a gente brigou. Eu disse pra ele: “Eu não sou otário pra ficar ali de dois de paus e tu não me deixar subir”. Ele: “Ah, mas é porque o tempo tinha acabado”. Eu digo: “Cara, tu cortou a peça pela metade. Como é que o tempo... Eu não quero mais saber dessa coisa de teatro”. Eu peguei carona com um caminhoneiro e vim embora pra Caxias. Vila Oliva é uma outra cidade que fica aqui, no interior de Caxias. Vim embora e disse: “Não quero mais saber de teatro. Esse negócio aí não é pra mim” e fui fazer Artes Plásticas. Fui ser artista plástico, com o meu irmão. Fui estudar na mesma escola de Artes Plásticas que o meu irmão estava. Fui aprender a pintar, pintura a óleo, escultura e tudo o mais. Na primeira semana, eu estou lá, na segunda semana, eu vou descer as escadas, um cartaz: curso de teatro. Eu digo: “Eu não acredito que esse negócio está me perseguindo”. Peguei o telefone, liguei e fui conhecer a escola de teatro. Cheguei lá, a dona... Fiquei uma meia hora: “Vou embora ou não vou embora?” O coração batia. Eu escutava que eles estavam ensaiando uma peça. Então, eu ficava mais nervoso ainda, com vergonha de bater. Até que me deu coragem. ‘Pa’, ‘pa’, ‘pa’. Bati na porta. E aquela porta se abriu. E, graças a Deus, nunca mais se fechou pra mim. Essa diretora me recebeu, eu entrei e ela disse: “Espera um momentinho, que a gente está ensaiando”. Por ironia e obra do destino, uma atriz tinha faltado nesse ensaio. E ela pediu pra eu ler o texto, no lugar da menina. E o texto era um papel masculino, de um nono. Aqui em Caxias, a gente chama de nono, né, o vovô. O nono. Os italianos chamam de nono. O nono ‘seu’ Gaspar, um velho, um senhor de setenta anos. E eu só pedi como é que era a característica dele. “Ah, é um vovozinho meio caduco, muito mal-humorado e italiano. E eu entrei dando texto: “‘Ma Dio, Madonna, ma porco Dio, ma’ que está me acontecendo?”. Quando eu fiz isso, o grupo de teatro parou, assim, ficou congelado. E eu disse: “Ai, desculpa, gente. Eu fiz alguma coisa de errado?”. Eles: “Não, não, não. Vai, continua. Continua, continua”. Aí, no final do ensaio, a diretora veio falar comigo, ela disse: “Olha, a gente gostaria de saber se tu não quer ficar com o papel, porque, nossa, a gente adorou a tua atuação. E a menina acabou de ligar, diz que não vai mais poder participar do espetáculo. E falta um mês pra gente participar de um festival de teatro. Então, a gente precisa muito de um ator. Tu quer? Aí tu vem pra escola de teatro e já entra pra um grupo semiprofissional”. Eu digo: “Tá. Vamos embora”. Aí eu aceitei. Um mês depois, eu ganhava o meu primeiro prêmio de melhor ator coadjuvante, com o personagem Seu Gaspar. E ali eu descobri que essa é a minha vida. Então, eu não parei mais de fazer. Em 1998, eu estava já estudando, mergulhado nessa escola de teatro. Eu já não queria mais trabalhar de funileiro. Eu só queria fazer teatro. Então, eu comecei a faltar muito no trabalho, tal. E meu pai ficou doente. Eu me lembro que eu estava numa apresentação, lá no Shopping Iguatemi, que eu fazia iluminação e me ligaram dizendo que o meu pai não estava bem. E aí eu fui pra casa. O levei pro hospital. Ele internou nesse dia. E eu fiquei treze dias com o meu pai no hospital. Esses treze dias foram os treze dias mais fantásticos, que eu, realmente, conheci o meu pai, porque a gente ficou muito próximo. Eu dormi embaixo do leito dele, embaixo da cama, no chão, assim. Porque (choro) eu não queria [ir] embora. (choro) Porque eu sabia que, se eu fosse embora, ele ia morrer. E a minha mãe dizia: “Davi, vai pra casa”. Eu dizia: “Mãe, eu não posso ir. Porque nós temos uma ligação. Eu sei que, se eu for embora, o meu pai vai morrer”. Ela: “Não fala isso”, “Eu sei o que eu estou dizendo. Eu estou falando pra senhora”. Aí o meu pai, deu diverticulite nele, que é aquele inflamação no intestino, e ele foi pra cirurgia. E, antes dele ir, a gente conversou muito. E eu disse pra ele: “Pai, eu quero muito ser artista, porque é o meu sonho”. Ele disse: “Davi, não desiste do teu sonho. Porque eu abri mão de muito sonho que eu tinha. Eu tinha o sonho de ser artista de circo, eu não consegui. Eu tinha sonho de ser músico, de tocar numa banda, eu não consegui. E eu virei motorista. E eu não quero que tu seja um frustrado, que nem eu. Vai em busca do teu sonho”. E eu disse: “Ah, pai. Eu ainda quero que o senhor me assista”... minto: “Ainda quero lhe orgulhar muito”. E aí eu fui... Ele fez a cirurgia e eu fiquei ali, na sala de espera. E é uma história que os meus irmãos souberam só depois. E eu tinha um negócio, assim, eu dizia: “Eu tenho que ir lá. Eu tenho que ir lá onde o meu pai está sendo operado”. Alguma coisa me dizia que eu tinha que ir lá. Aí eu falei pro cara, o vigia da portaria do hospital, eu digo: “Cara, eu preciso ir no banheiro”. Aí ele: “Ah, o banheiro é ali”. Eu burlei e fui até onde o meu pai estava sendo operado. Quando eu chego na porta, eles estavam saindo com o meu pai, fazendo massagem cardíaca, com aquele balãozinho. E ele... Entraram com ele numa outra sala, acho que era UTI, tal. E eu fiquei chocado com aquela imagem. E eu disse: “Como é que eu vou chegar lá na sala de espera e contar isso pra minha mãe? E contar pros meus irmãos, que eu vi o meu pai saindo agora, da sala de cirurgia, eles tentando reanimá-lo?”. Então, eu fiquei com aquilo na minha cabeça. Eu cheguei e a minha mãe disse: “Davi”. Mãe, né, mãe não tem jeito. Ela: “O que... Parece que tu viu uma assombração. Tu está pálido”. Eu disse: “Não, mãe. É que eu estou meio enjoado, não estou bem”. Eu meio que não quis contar, né, tal. Aí eles falaram, vieram ali e disseram que o pai estava em coma e que não adiantava a família ficar ali. Foi o único momento que eu saí. A minha escola de teatro ficava a umas três quadras do hospital. Aí eu disse: “Ah, eu vou lá dar uma espairecida. Eu vou lá na escola de teatro”. Eu cheguei na escola de teatro, o telefone tocou. Era a minha irmã, avisando que o meu pai tinha falecido. E ali, depois desse dia, eu tomei coragem, assim, que eu não queria mais fazer outra coisa, eu ia viver da arte. Meus irmãos me cobraram muito, meus irmãos mais velhos, o Maninho e o Paulo, que eles estavam trabalhando. Eles queriam que eu ajudasse em casa, porque o pai tinha morrido, a mãe morava comigo e eu tinha que ajudar, botar dinheiro e tal. E eu dizia: “Gente, eu não vou desistir. Eu já desisti de ser jogador, porque vocês faziam ‘buylling’ comigo, porque diziam que eu era raquítico, que eu era muito pequenininho, que eu nunca ia ser jogador de futebol. Então, vocês me jogavam pra baixo. Agora, vocês não vão me tirar esse sonho, porque agora eu estou adulto. Agora eu vou continuar e vou ser artista, sim”. E eu me lembro que um dia eu estava com um prato de comida, assim, na mão e o meu irmão veio e deu um tapa. O prato voou, assim. E eu respirei fundo, porque eu sabia, se eu botasse a mão nele, eu matava a minha mãe também, porque ela não ia aguentar ver dois irmãos se pegando. Aí eu juntei a comida. E eu disse pro meu irmão: “Um dia, eu ainda vou te ajudar com o dinheiro do teatro. Tu guarda isso pra ti”. Chorando, assim. E aí juntei a comida, tal. E aí a minha mãe disse, minha irmã Eliana disse: “Davi, pode fazer teatro, que eu vou ajudar. Eu vou te ajudar com o meu salário. Eu vou te ajudar a pagar a escola”. E a minha mãe disse: “Agora, eu vou ter a aposentadoria do teu pai. Eu também vou te ajudar”. Eu disse: “Não, gente. Eu não vou aceitar isso. Eu vou pagar vocês. Eu vou começar a fazer animação”. E aí eu comecei a fazer animação de palhaço pra festa de aniversário, que é onde eu conseguia ganhar dinheiro. E eu via que me dava muito bem, as pessoas gostavam muito do meu palhaço. Então, eu já fui meio visionário. Quando eu estava no Exército, eu comprei uma fita-cassete com um curso de balão, de escultura em balcão, de bichinho. E eu fui o primeiro a trazer isso pra Caxias do Sul. E eu fiz esse curso, quando eu nem sonhava em ser palhaço de festa infantil. Quando eu falei lá na escola de teatro, que eu sabia fazer essas esculturas, nossa, a dona disse: “Nossa, isso vai ser um sucesso”. E eu comecei a fazer muita festinha infantil, assim. E era o que eu conseguia me virar. Eu me lembro que eu ganhava quarenta e cinco reais por festa infantil, porque o resto ficava pra escola. Porque ela tirava o que eu tinha que pagar. Então, teve mês que eu passei com quarenta e cinco pilas, assim, pra não pedir dinheiro pra minha mãe e pra minha irmã porque, às vezes, eu ficava com vergonha, enfim. Sei que consegui mergulhar dentro da escola de teatro. Eu entrei como aluno, dois anos depois, eu era sócio da escola. Por quê? A funilaria que eu trabalhava, que o meu pai trabalhava, foi à falência. Então, isso foi o que matou o meu pai. O meu pai morreu de desgosto, porque o meu pai era aquele velho que gostava de trabalhar, ele não [se] importava. E quando tiraram o trabalho dele, ele definhou. Ele não sabia mais o que... ele não foi preparado pra se aposentar, entendeu? Que é o que acontece com muito senhor, que trabalha a vida inteira dentro de uma empresa e as pessoas não preparam a cabeça. “Tá, mas quando eu sair...”, ele só sabe fazer aquilo. Ele acorda de manhã, às cinco; às seis ele já vai tomar café, ele está lá na empresa. E depois que acaba isso... Então, é uma coisa que as pessoas têm que... Se estiver escutando essa história, preparem as pessoas pra aposentadoria, né, psicologicamente. Elas têm que entender que aquilo não é pra sempre, entendeu? Pra que elas mereçam a aposentadoria, que a aposentadoria não seja um empecilho, pra que elas não possam desfrutar disso. E eu conheço muita gente que aconteceu isso, assim, que dá depressão pós-emprego, sabe, pós-trabalho, pós-aposentadoria. Então, eu tinha, como a funilaria foi à falência, depois, eu acho que já fazia uns seis anos, saiu a concordata e eu ganhei cinco mil reais de acerto. Dois e meio, com dois mil e meio, eu comprei um Chevette vermelho, que eu precisava de um carro. Com os outros dois e meio, eu comprei quinze por cento da escola de teatro, que a dona estava abrindo quinze por cento da escola e aí eu virei sócio, assim, sabe? Então, pra mim foi muito orgulho, assim, tipo, eu começar como aluno, depois virar palhaço, depois ser dono e coordenador. Daí virei coordenador da escola. Acabei me apaixonando pela dona, a gente acabou ficando noivo. Então, tive toda essa história também. Aprendi muito com ela, porque ela era quinze anos mais velha que eu. Então, aprendi demais com ela, tudo. Tudo o que eu sei, hoje, de produção, de teatro, aprendi muito com ela. Mas é como a gente fala, né: o amor e o ódio andam de mãos dadas. É um fio de navalha. Qualquer pisão fora o que ama, pode estar te apedrejando depois. Então, quando eu decidi que eu não queria ser o Davi, porque eu era conhecido em Caxias do Sul, como o “Davi da fulana”: “Ah, tu que é o Davi da fulana?”. E eu queria ser o Davi, entendeu? Porque eu tinha o meu potencial também, pra ser o Davi. E aí eu não quis mais ficar com ela. Ela não gostou disso e começou a meio que me perseguir e tal. Até que eu não aguentei mais. Aí a gente chegou num acordo de eu sair da escola. E, enfim, acabou-se o sonho. Eu fui, saí com uma mão na frente, a outra atrás. Saí, eu me lembro, com uma malinha, com os figurinos que eram meus. E aí comecei a ganhar dinheiro fazendo as minhas animações. Fui morar numa quitinete e recomeçar a minha vida do zero. Dormia no chão. Lavava a louça na pia do banheiro do quitinete. Até que um dia eu recebo um recado que era pra eu devolver os figurinos, que eu tinha roubado os figurinos da escola. E eram figurinos meus, dos meus personagens. E eu disse: “Tudo bem”. Fui lá, levei a mala com todas as minhas coisas: “Está aqui. Isso são figurinos. Isso, você está dizendo que é teu. Mas o que eu criei é meu. Isso ninguém tira de mim. Os meus personagens, fui eu que criei. Esses sãos os meus”. E eu saio dali, vou pra uma costureira. Eu não tinha dinheiro. E mandei fazer os figurinos. Disse pra ela: “Olha, eu não tenho grana, mas se tu puder fazer os figurinos pra mim, eu vou te pagar. Logo vai pintar uns trabalhos. E eu vou fazer”. E aí começou a aparecer. O que aconteceu? Quando eu saí da escola, as empresas ligavam e pediam: “Não, a gente quer o Davi”, “Não. Mas ele não trabalha mais com a gente”, “Não. Se não for ele, eu não quero outro”. E aí, aconteceu isso com a Unimed. A Unimed ligou, disse: “Olha, a gente quer”. Porque eu que fazia, todas as animações da Unimed, eu fazia. Se tu me contrata pra fazer três horas de animação, eu fazia três horas de animação. Eu fazia palhaço, eu fazia… Eu não parava, entendeu? Enquanto os meus colegas eram preguiçosos, ficavam ali entregando balão. Então, digamos, né, tu me contrata pra entregar balão da Unimed, foi aonde eu conquistei a Unimed. Então, estava eu e um outro palhaço. Aí ele ia entregando balão. E eu disse: “Cara, isso aqui é muito chato. Eu vou ter que criar um negócio, aqui”. Aí eram todos balões verdes, da Unimed. Aí as crianças vinham, eu dizia: “Vamos lá. Eu troco um sorriso por um balão. Tu me dá o sorriso, eu te dou o balão”. Aí as crianças sorriam, ganhavam um balão. Aí, uma outra brincadeira que eu fiz nesse dia, no “shopping”, foi o meu primeiro trabalho com a Unimed, eu dizia: “Você quer o balão verde, ou o verde?”. Eram todos verdes. Aí as crianças olhavam: “Mas são todos verdes”. Eu digo: “Não. Mas, se tu olhar bem, um é mais verde que o outro”, “Ah, então eu quero mais verde”. Daí eu pegava, enrolava e dava o mesmo, entendeu? Então, começou a criar uma história, assim. E a Unimed se apaixonou por mim. E quando eu saí da escola, a Unimed vai atrás de mim e diz: “Davi, a gente quer te contratar, porque a gente tem uma mascote da Unimed que a gente quer lançar, que é o Doutor Saudável. É um boneco, né e tu vai estar dentro”. Nessa época, eu já estava formado em Artes Cênicas. E eu dizia: “Gente, eu vou ser - um ator formado - um boneco?”. Só que eu estava sem dinheiro, morando numa quitinete. E eu disse: “Eu preciso dar um passo pra trás, porque eu preciso desse dinheiro”. E a Unimed queria assinar um contrato comigo. Porque, com medo da outra escola… E aí eu assinei o meu contrato, pra fazer 53 horas do Doutor Saudável no hospital e em todas as empresas que a Unimed tinha parceria. O Doutor Saudável fez tanto sucesso, que eu comecei a ganhar três mil por mês, só de Doutor Saudável. Então, já pagava o meu aluguel, ainda sobrava uma grana pra eu investir em outras coisas. E eu digo: “Cara, meu Deus”. E virei palestrante da Unimed, com o boneco. Aí eu fiz um boneco alemão, né, que era o Doutor Saudável da Unimed, ele vinha, falava. E as pessoas amavam, né, assim. E elas achavam que era um alemão que tinha embaixo. Era um negão. Estou eu lá. Quando eu tirava a cabeça: “Gente, mas é um pretinho!”. Eu escutei muitas vezes isso. Quando eu tirava a cabeça: “Nossa, mas é um pretinho!”, sabe? Então, tem um pouquinho de racismo aí. Mas tudo bem. Meio velado, mas tudo bem. E aí eu comecei a fazer o Doutor Saudável. E, a partir dali, a minha vida começou a melhorar. E eu comecei a investir numa empresa de produção. Abri a minha produtora. Aí, 2014, eu abri uma escola de teatro no Centro de Caxias do Sul. E olha a coincidência: quando eu chego na janela dessa escola de teatro, depois que eu aluguei, deixei-a toda pronta, eu cheguei na janela, eu disse: “Gente, eu já vim nesse lugar. Eu já estive aqui, nesse lugar”. Sabe quando te dá aquele “déjà vu”? E não era a sala onde eu fiz o meu primeiro curso de teatro, com o meu primeiro diretor? Eu aluguei e abri a minha escola de teatro no mesmo lugar que eu fiz a minha primeira aula de teatro. Sem saber, assim. Foi muito louco, o destino. Aí abri essa escola de teatro. Fui fazer um espetáculo em Bento Gonçalves, na Fenavinho, que era um espetáculo gigantesco, que ia vir todo o pessoal de Parintins, pra fazer esse espetáculo do Boi-Bumbá. E eles estavam precisando de atores. E eu saí de Caxias do Sul, fui pra Bento. Eu comecei com um personagem, finalizei com onze personagens, porque eu ia substituindo quem ia saindo. E o diretor foi muito com a minha cara e ele ia me jogando: “Davi, vai”. Até que um dia, eu conto sempre essa história, que faltou o tenor, o tenor que cantava as músicas italianas do espetáculo. E o pessoal de Parintins têm uma técnica muito grande de mexer, de movimentar os leões, os tigres, as cobras. Então, tinha um braço mecânico, que levava o tenor até o público. E ele ia cantando. E esse braço puxava, então ficava a dez metros de altura, aquilo vinha, assim, tal. E o tal do tenor não foi, se perdeu no caminho. E o diretor ______ (áudio falhou). “Cara, eu não canto italiano”. Ele: “Se vira. Improvisa. Só não pode ficar vazio”. E aí, o que eu fazia? E eu comecei a fazer performance. E eu cantava aquelas músicas italianas. Só que, quando chegava na frente do público, eu passava a mão na frente, pra ninguém ver que não era eu. Quando eu estava longe, mexia a boca: uar uar uar. Dublava. Acabou que o diretor disse: “Davi, o papel é teu. Tu vai pegar as canções [e] vai escutar em casa. É isso o que eu quero. Porque o outro é muito duro, ele fica ali e eu não quero isso. Eu quero alguém que nem tu: performático”. Então, ganho o papel do tenor. Um ano depois, eles montaram a "Ópera do Vinho". E o próximo diretor disse: “Cara, tu tem jeito pra ser diretor. Tu quer ser meu assistente de direção?”. Aí eu assumo como assistente de direção. Foi a primeira vez que eu ganho 22 mil e quinhentos de cachê. Então, quando eu ganhei os 22 mil e quinhentos, eu digo: “Gente do céu! Eu estou ganhando vinte...”. Quando ele falou 22, eu nem acreditei. Enfim, também foi um sucesso. O Rubinho, que era o diretor de Bento, foi chamado pra dirigir o Natal Luz de Gramado. E ele tinha direito a mais quatro diretores. E um dos quatro diretores me chama: “Davi, vem pra Gramado, eu preciso falar contigo. Tatata, tatata”. Chego em Gramado, sento assim, ele: “Olha, vocês vão ser os novos diretores do Natal Luz”. É que pra nós, aqui, o Natal Luz é muito gigante. Ele é conhecido no Brasil inteiro. Mas pra nós, assim, pra quem faz arte, tu estar no Natal Luz, é como tu estar lá, dirigindo uma escola de samba, no Rio de Janeiro, entendeu? É o mesmo status. E quando ele me disse que eu ia ser diretor do grande desfile de Natal e da parada de Natal, eu digo, sabe quando tu te acha incapaz? E eu fiquei com muita vontade de dizer não e correr dali. Eu disse: “Gente, eu vou fracassar. Eu nunca dirigi seiscentas pessoas numa pista. Eu nunca dirigi tanta gente. Meu Deus do céu, isso aqui é gigante demais”. Eu aceitei. Foi um sucesso! O cachê era de deixar a boca caída, assim, sabe? Que eu nunca vi na minha frente, uma proposta tão… Tanto que eu disse: “Bah”. Eu comecei a fazer conta e dividir com os meus colegas. Não. Era só pra mim. Era o meu cachê, era aquele. Então, pobre é pobre. (risos) Já (risos) comecei a fazer a conta: “Tá, mas espera aí. Esse valor, vai ser tanto pra ela, tanto pra ela”. Não. Era tudo pra mim, né, assim. Com esse dinheiro, eu comprei, dei entrada nessa casa que eu moro aqui. Dei entrada na casa. E aí a minha vida começou a aparecer um monte de coisa. Conheci a minha esposa no Natal Luz de Gramado. Minha esposa era bailarina de um outro espetáculo. Eu vou lá assistir um ensaio. E, quando eu subo no palco pra falar com uma atriz que era do meu espetáculo, do desfile, tem uma mocinha falando com ela. (risos) Tinha uma mocinha falando com ela. E eu brinquei com ela, porque a Bruna estava com metade do rosto maquiado, assim, eu acho que eu brinquei que ela parecia um dálmata, tal, alguma coisa assim, sabe? Super romântico. E a gente ficou muito amigo. Ela me fez _____ e eu acabei ficando com uma amiga dela, ali do espetáculo. E um ano depois a gente se encontra num espetáculo em Porto Alegre. Aleatoriamente, nos encontramos, nos demos o primeiro beijo. Começamos a namorar no dia 12 de outubro, o Dia da Criança, né, algo bem significativo. E um mês depois, ela já estava grávida, sem saber. Janeiro, ela descobriu que estava grávida. Eu já estava com a casa comprada. Ninguém sabia, nem a minha mãe, era uma surpresa pra todo mundo. E aí, o Miguelzinho já estava vindo na... Aí eu disse pra Bruna: “Eu preciso fechar um ciclo que ficou aberto lá, quando eu nasci”. E aí eu disse: “Eu vou botar o nome de Miguel, porque foi o que a minha mãe prometeu”. E a minha mãe estava viva. Então, a mãe, quando soube que ia ter um neto meu, enlouqueceu, ela disse: “Nossa, eu estou muito feliz, porque eu sempre quis ter um neto teu. Eu queria muito pegar no colo, esse menininho”, tal, não sei o quê. E o Miguel nasceu em 2013. Ele fez um ano em agosto de 2014. E aí, o shopping me convida pra abrir um teatro, no Shopping Caxias do Sul. Uma amiga minha me convidou: “Davi, eu vou te dar um desafio. A gente tem uma sala. Quer abrir um teatro aqui no shopping?”. Eu disse: “Cara, eu aceito esse desafio. Vamos fazer”. E aí o meu compadre, o Miguel, o Miguel Ângelo - os Miguel. Miguel, não. Os Miguéis da minha vida - me ajudou a montar o teatro, como ele entende de marcenaria, montamos o palco, fizemos o nosso teatro. No dia da inauguração, naquela semana de inauguração, eu soube que a minha mãe ia ter que fazer uma cirurgia de risco, cardíaca. Ia estar internada no dia da inauguração, ia estar internada. Eu disse: “Ah, gente, eu não acredito, sabe? Agora que eu vou conquistar o meu sonho, de abrir o meu teatro e a minha mãe não está bem”, sabe? Aí a mãe manda um recado: “Não, pode inaugurar que a mãe está bem. A mãe está bem” e tal. Aí fomos pra inauguração. E eu estava recepcionando as pessoas na porta do teatro. (choro) Quando eu olho pro corredor, está vindo a minha mãe com a minha irmã. O doutor a tinha liberado pra ela ir na estreia do espetáculo, na estreia do teatro. Nossa, aquilo, eu não acreditava. Eu dizia: “Meu Deus, é a minha mãe! Mãe, o que a senhora está fazendo aqui? A senhora é maluca?”. Daí ela disse: “Eu não podia perder a chance de ver a tua conquista”. (choro) E aí eu fui pro palco e comecei a… E agradeci. Disse: “Gente, eu queria agradecer muito a minha mãe. Ela vai fazer uma cirurgia daqui cinco dias, uma cirurgia bem séria. Eu queria pedir que todo mundo mandasse, a aplaudisse e mandasse uma energia _______ (áudio falhou) assim: “Me dá aqui esse microfone”. Minha mãe nunca falou na vida, em público, assim: “Me dá aqui esse microfone”. E eu fui lá e entreguei. E ela dá um testemunho, falando de mim, que foi o mais lindo que eu já tive na minha vida, de alguém falando de mim, assim. Ela disse tudo o que eu nunca tinha ouvido dela. Cinco dias depois, ela fez a cirurgia. E ela não resistiu, né, à cirurgia e veio a óbito. Então, foi como se ela estivesse ali se despedindo, sabe? Naquele dia, no teatro, ela foi lá pra dizer tudo o que ela queria me falar. Ela tinha conhecido o meu filho, porque foi o ciclo. Foi aquilo que ela disse: “Eu só vou morrer, depois que eu conhecer o teu filho”. Quando o Miguel fez um ano, ela, logo depois, vai pra um plano superior, assim. Então, a partir dali, eu começo a declinar também, na minha vida. Eu não consigo mais levar a minha vida profissional, nem pessoal, nem artística. Eu me abalo demais com a morte da minha mãe, começo a ter problemas. Eu volto a ter asma, volto a ter problemas de asma. Volto a ter problemas de saúde e começa tudo a dar errado. Eu não consigo mais pagar as prestações da minha casa. A minha casa vai a leilão. Eu com dois filhos. O Heitor já tinha nascido, sabe? Logo depois, o Heitor… A Bruna engravidou do Heitor. E aí eu não sabia mais o que fazer. 2018, eu estava perdido no mundo. Estava perdido, assim, sem pai, nem mãe, eu disse: “O que eu faço da minha vida?”. Aí, Gramado novamente me chama, pra trabalhar de novo lá no Natal Luz, pra fazer a parada de Páscoa, pra ganhar cinco mil, pra fazer todo o espetáculo. Três meses de trabalho. E eu aceitei, porque eu precisava botar meu nome em Gramado de novo. Eu disse: “Eu preciso botar a minha marca, de novo, lá”. E a minha amiga, agradeço demais a Cris, que acreditou em mim e eu fui pra Gramado. A Cris e o Nestor, que era o diretor. Fui pra Gramado. E foi um sucesso a parada de Páscoa. No final do ano, eles me dão a parada de Natal. Aí eu já ganho 95 mil. O cachê já vai de cinco mil pra 95. Aí, em vez de eu pegar todo esse valor, a gente faz um carro alegórico, que chama "A Roda Sinfônica". A gente faz uma roda maluca, que gira e toca e vem músico dentro dela, tocando. E aquilo vai parar no Fantástico, vai pro Jornal Nacional, vai pro Brasil inteiro e todo mundo queria ver "A Roda Sinfônica". Eu ganho, no outro ano, o desfile de Natal. Ganho o desfile de Natal. E eu conto aqui, né, já que é pra contar a minha história, eu estava, nesse meio tempo, muito ralado financeiramente, sabe? Muito. Muito de muito, assim. E eu sempre dizia para minha esposa, assim: “Cara, eu vou jogar na loteria, eu vou ganhar. Eu vou ganhar. Um dia eu ainda vou”, tal. E a gente estava assim, a Caixa Econômica já fazendo pressão pra levar a casa. Eu chego lá no Banco do Brasil, pra sacar um dinheiro. Eu me lembro que eu saquei 165 e tinha que ir no mercado. Aí eu peguei o meu carro. Faltava tipo oito pras sete. Fecha - a lotérica do shopping, o mesmo shopping que eu tinha o teatro - às sete horas. Aí eu pego o meu carro, digo: “Ah, vou jogar. Vou lá jogar na Lotofácil” e peguei o meu carro. Tinha um acidente na esquina antes do shopping, tinha um acidente. Eu digo: "Putz, eu preciso”. E aí, quem eu vejo? A minha ex-sócia, dona da escola. Olha os enigmas, assim, a vida me dando. Aí eu consigo, ela ficou trancada e o meu carro conseguiu passar. Ela não conseguiu e eu passei. E corri. Eu lembro que cheguei no shopping, era tipo três pras sete. Aí a menina pegou os meus números, assim, ela disse: “Tá. Vamos fazer o seguinte: eu vou jogá-los antes, pra dar tempo, senão tu... Vai fechar às sete horas, eu não consigo passar”. E eu disse pra ela: “Joga os 165”. Eu botei todo o meu dinheiro, 165 reais. Aí eu fui dormir. Cinco da manhã, eu me acordo, assim, me dá um estalo, assim. Era de uma segunda pra terça, me acordo cinco da manhã, assim. A minha esposa olhou: “Tu vai contar?”. Eu digo: “Sim, é minha história. Eu tenho que contar”. Aí eu me acordei cinco da manhã e vim nesse lugar onde eu estou, aqui, pra conferir os números e comecei a conferir um cartão, dois cartões. Aí teve um que eu comecei, um, dois, três, quatro, cinco, seis, eu acertei os quinze números. Eu fiquei, assim, digo: “Não. Gente, será que eu estou louco? Será que eu não sei o quê?”. Aí, não tinha coragem de levantar e ir lá chamar a minha esposa e tal. Aí tive coragem, eu disse: “Bruna, vem cá. Olha um negócio aqui, pelo amor de Deus”. Aí a minha esposa olhou e conferiu, ela disse: “Ah, amor, a gente ganhou”. Aí eu fiquei assim, eu digo: “Meu Deus do céu, eu não acredito. Eu não acredito!”. A gente foi olhar, aí tinha um ganhador de Goiânia e um de Caxias. Aí, eu tinha ganho um milhão e 168. Eu ganhei na Loto fácil, um milhão e 168. E aquilo, eu disse: “Deus, obrigado”. Nossa, a gente se ajoelhou, gritou, pulou, assim, ficou muito feliz, porque Deus foi muito bom pra nós. Aí consegui… A minha casa estava a leilão. E eu fui na Caixa Econômica. E, por coincidência, era o mesmo gerente que me vendeu a casa, ele tinha voltado pra Caixa. Ele tinha saído, ido pra fora do Rio Grande do Sul, né, que a Caixa manda, né, o gerente, eles 'picam' de lugar. E ele tinha voltado. E o pai dele que era o corretor, que me vendeu a casa. Ó, o mundo é muito louco comigo. Por isso que eu te disse: “A minha vida é um filme”. Aí eu chego lá, o André diz assim: “Bah, Davi, é difícil. Por mais que tu tenha o dinheiro agora, não é assim pra tirar a casa do leilão. Tu vai ter que... Tu não conhece alguém?”. Tal, não sei o quê. Porque o valor que ela estava no leilão era muito mais alto do que ela valia. Eles superfaturaram, entendeu? E aí ele disse assim: “Tu não conhece ninguém da Caixa Econômica?”. Aí eu disse: “Cara, não tem”. Aí ele disse: “Bah, tu tinha que conhecer o deus”. Deus é o superintendente-mor. Aí eu disse pra ele: “Cara, eu fiz o ano passado, uma palestra em Porto Alegre, pra Caixa Econômica Federal, em função da Copa do Mundo”. Aí eu disse pra ele: “Eu conheço esse fulano aqui”. Aí ele olhou, ele disse: “Davi, esse é Deus. Eu não acredito” Tu conhece o superintendente”. Eu digo: “É esse o superintendente?”, “Sim”. Aí eu mandei um whats pro cara: “Fulano, olha, estou aqui na Caixa Econômica. Minha casa está assim, assim, assim, assim”. Ele me responde: “Oi, Davi. Bah, claro que eu lembro de ti, não sei o quê. Faz o seguinte: cinco minutos, minha secretária te liga”. Aí eu estou aqui em casa, ela me ligou. Aí eu saí de lá, da Caixa. Deixou tudo... Ela disse: “Davi, está tudo certo. Agora, é só tu depositar o dinheiro”, aí eles conseguiram botar o valor real. Porque senão eu não tinha, nem o dinheiro da Lotofácil daria pra eu comprar a minha casa. Porque ela já estava, como ela fazia quatro anos que ela já estava a leilão, foi juros sobre juros, sobre juros, entendeu? Então, nem a Lotofácil dava certo. Aí eu consegui baixar. E aí eu bati o martelo com ela, aqui, nesse lugar aqui, aonde eu estou falando contigo. Nisso, a Bruna entra, diz: “Davi, tem um casal aí na frente, quer falar contigo”. Eu vou lá na frente, era um casal querendo comprar a casa. Aí eu disse pra eles: “Olha, acabei de fechar o negócio”. Aí mostrei a mensagem, com a secretária. Nem tinha comprado, ainda estava lá dentro, mas eu dei um ______. Aí eles: “Ah, não. Ah, que bom que comprou a casa”, tal. Eu digo: “Cara, passei por uma situação bem difícil, mas agora a casa é nossa”. E, graças a Deus, o desfile foi um sucesso, depois, do Natal Luz. Aí assumo, assumi a direção do desfile de Natal. Foi um sucesso. Estávamos nos preparando prum ano fantástico, 2020, com vários contratos pra fazer Natal, em outras cidades no Brasil. E o Covid vem e diz: “Espera. Segura a onda”. Então, se não fosse o Natal Luz e não fosse esse prêmio, eu, com certeza, hoje, não estaria mais trabalhando com teatro, porque, em 2020, eu fiz dois eventos. Então, foi muito difícil. Foi um ano bem difícil. Mas eu agradeço muito, assim, a tantas pessoas que me fizeram, entendeu? À Dona Ruth, a meu pai. Meus irmãos, que depois reconheceram que eu tinha talento, que era isso mesmo. Hoje, a minha irmã mais nova é atriz também. Trabalha comigo, trabalha no grupo Médicos do Sorriso. A minha sobrinha é artista de circo, né, então... a minha esposa é bailarina. Os meus filhos amam a arte. Então, hoje a gente conseguiu, do meu grupo Médicos do Sorriso, já ramificou, já abriu mais de seis a oito grupos de teatro em Caxias, oriundos do meu grupo, entendeu? Então, eu sou pai de muita gente em Caxias do Sul. Eu já descobri muito talento. Tem um menino que é muito famoso hoje, que é o Caciano Kuffel. Ele tem mais de um milhão, quase dois milhões de seguidores. Ele é bem conhecido. Depois, se tu colocar ali: Caciano Kuffel, ele fala poesias e tal, então ele explodiu no Brasil inteiro. E foi um menino que eu conheci fazendo mágica, num evento. Eu disse: “Cara, tu é muito bom. Eu quero que tu seja dos Médicos do Sorriso”. E aí ele veio pro Médicos do Sorriso. E hoje eu o vejo conhecido no Brasil inteiro. Já ganhou prêmio, já se apresentou em grandes palcos aí, fazendo “stand up comedy”. E aí eu fico assim, eu digo: “Nossa”, tão orgulhoso de ver tanta gente que a gente fez brilhar. E que bom que eu acreditei na arte, que bom que eu não desisti. E o meu recado é esse: eu acho que a fé... na minha família, aconteceu muitos, muitos acontecimentos de milagres. E que a fé, realmente, quando tu acredita em algo, não importa a religião que tu esteja, inclusive pode ser até ateu, mas se tu acreditar em algo, com certeza aquela algo vai acontecer, entende? Então, hoje, graças a Deus, essa casa é nossa, sabe? A gente está com a vida, graças a Deus, tranquila. Não tem mais aquele pavor, aquele desespero. Temos um nome no mercado. Temos grandes empresas que a gente trabalha. Estou fechando o Natal, possivelmente Rio de Janeiro, alguma coisa em São Paulo. Então, a gente está levando o nosso, também, trabalho ali, que o Natal Luz nos deu. Porque hoje tu chega, é outra coisa, né, tu chegar com o currículo, tu falar: “Olha, eu sou, já fui diretor do Natal Luz de Gramado, em duas gestões”. Então, isso abre portas. Então, eu estou muito feliz. Eu estou com um grande projeto pra 2022. Ainda não assinei, mas possivelmente eu seja o diretor da Surdolimpíadas, que vai ser no Brasil, em 2022. Ela foi, a última vez, na Turquia. E agora, em 2022, ela vai ser, a sede, Caxias do Sul e eu fui convidado pra ser o diretor do espetáculo. Então, eu estou com esse trabalho gigante nas minhas mãos. Pra entregar esse projeto daqui a quinze dias. Então, pra bater, realmente o martelo e aí eles anunciarem que eu vou ser o diretor artístico do espetáculo. E vamos lá. A gente está sempre positivo, sabe? Eu vou dormir agradecendo. E eu acordo agradecendo. Por mais que o dia seja ruim, por mais que as coisas não fechem, por mais que um orçamento não seja aprovado, vamos lá. Eu acho que, quanto mais tu agradece, mais coisas boas a vida vai te dando, entendeu? Então, é assim que eu vou levando a minha vida. E esse é o recado que eu deixo, pra quem escutar a minha história. E, se alguém quiser seguir essa carreira, se inspirar, não vai com medo. Se joga mesmo. Porque aí você conquista as coisas. E é isso que deixo de recado pra qualquer profissão. Se você vai pela metade, a vida vai te encarar pela metade. Se você se jogar por inteiro, por mais difícil que seja, ela vai te abraçar, logo ali na frente, por inteiro, também. Então... Falei mais do que tu perguntou.

P2 - Você pode falar como é que se iniciou, mesmo, o Médicos do Sorriso?

R - Boa. E aí, o que aconteceu? Eu fui fazer uma terapia de vidas passadas. Depois que eu já tinha feto o curso da Ana Wou, depois que eu já tinha feito o Doutor Saudável. Isso em 2003, fui fazer essa terapia de vidas passadas. Final do ano de 2003. E aí eu contei pra ela, toda essa história que eu estou contando pra vocês, na terapia, eu contei. E ela disse assim: “Davi...”. Aí eu me lembro... Olha as coincidências! No caminho, eu achei um pôster dos Doutores da Alegria, que tinha uns vinte palhaços, assim, vestidos de jaleco. Quando eu vi aquilo, eu me enlouqueci. Porque já tinha a Ana Wou, que era uma referência. Aí eu disse: “Cara, os Doutores da Alegria! Sim. A Ana falou deles”, tal, eu digo: “Olha a vida te dando o ‘spoiler’ aí.” Aí eu fui pra lá e contei: “Bah, não sei o quê”. Daí ela disse: “Davi, tu não precisa fazer regressão. Tu precisa fazer um projeto igual esse, dos Doutores da Alegria”. Marivania, né, o nome da terapeuta. Aí eu disse pra ela: “Cara, tu me deu uma coragem. É isso que eu vou fazer”. Aí eu saí dali e comecei a pensar num nome. Me lembro que eu vim pra casa, comecei a escrever numa agenda, vários nomes, vários nomes, vários nomes, até que veio Médicos do Sorriso. Aí eu gostei do som: Médicos do Sorriso. Lanço os Médicos do Sorriso em 2004. Daí em janeiro, eu vou pra São Paulo, fazer um curso aí em Juquitiba, interior de São Paulo. Aí em Juquitiba, no Solar da Mímica. Fiz um curso intensivo, né, que é um retiro de palhaço, pra me preparar mais ainda. E voltei pra Caxias com isso na cabeça: "Eu vou lançar os Médicos do Sorriso”. Aí, em fevereiro eu lanço os Médicos do Sorriso. A Unimed, levo o projeto pra Unimed. Aí o Doutor Lima, que é um humanista, né, a gente fala, médico humanista faz a grande, faz a diferença na vida da gente. E aí o Doutor Lima, quando leu o projeto, ele disse: “Eu quero isso na medicina preventiva. Isso aqui tem tudo a ver com a Unimed, tem tudo a ver com o projeto que eu tenho aqui, nas minhas mãos”. E aí a gente usa uma frase do Doutor Lima até hoje, que os Médicos do Sorriso são a cara alegre de um trabalho sério. E ali nasce os Médicos do Sorriso, em 2004. Ficamos 2004 e 2005, treinando no pronto atendimento, fazendo uma preparação pra entrar pro hospital, que ele ia inaugurar em 2005, o Hospital da Unimed. Nos preparamos pra atender crianças. Quando ele inaugurou o Hospital da Unimed, ele só foi para adultos. E aí a gente ficou com o negócio na mão: “Tá. Como é que nós vamos fazer agora? Palhaço pra adulto?”, porque não tinha. Até 2004, não existia esse projeto específico para adultos. Atendia adultos, mas ele era direcionado pra criança. Os Doutores da Alegria são assim. Até no documentário deles, eles falam, assim, que muitas vezes pra adultos não funciona, porque o adulto é mais cético, a criança já viaja mais. E a gente aceitou esse convite, de atuar no Hospital da Unimed. Me deram uma semana: “Tu tem uma semana” - os doutores, lá, os diretores do hospital falaram: “Vocês têm uma semana pra mostrar e pra mostrar o resultado, aqui no hospital”. Aí eu me lembro bem que um disse assim: “Mas não vai funcionar. Isso aqui é Caxias do Sul. Aqui, o gringo quer lavoro, quer trabalho. Vocês vão entrar de palhaço no quarto, eles vão correr com vocês. Mas qual adulto que vai querer receber palhaço?”. Um dos médicos falou isso. E a gente disse: “Então, tá. Desafio dado”. Uma semana, a gente conquistou uma parte do hospital. Ah, tá, mais uma semana, outra semana. Em um mês, a gente já estava atuando em todo o hospital, inclusive na UTI. E ali a gente não parou mais. Aí a gente continuou. E ficamos oito anos na Unimed. Desses dezessete anos, oito anos foi dentro do Hospital da Unimed. E foi muito legal também. A Unimed foi uma patrocinadora exclusiva, né, sem projeto de lei. Eles patrocinavam direto, né, os Médicos do Sorriso. Mas a gente tinha um grande sonho, de ir pra um hospital público. Porque uma coisa é tu trabalhar num hospital privado, que ele é outro nível, são outros tipos de pessoas, entendeu? E a gente queria ir pro hospital público, que é onde eu vim, entendeu? Da onde eu vim, é meu chão, entendeu? E a gente conseguiu abrir as portas do Hospital Geral, aqui em Caxias do Sul, que atende toda a região nordeste e da pessoa de menos condição, à que tem mais condição. E eu confesso pra vocês, foi mágico. Mágico. Mágico. Mágico, lindo demais, assim. A gente poder atender criança, sabe? A gente poder entrar no leito, jogar com a criança, brincar com ela. Ver aquele sorriso. Vê-la, espontânea. Espontânea de correr contigo no quarto, de pedir pra ti voltar. Então, sabe, porque a criança é muito sincera. Então, muitos desafios, assim, de pa, pa, pa: “Posso entrar?”, “Não! Não pode, não pode!”. Tchum. Tu fecha a porta. Aí tu: pa, pa, pa. “É só um pouquinho”, “Não, nana”. Aí começa nessa brincadeira, até que a criança começa a rir e te permite entrar no mundo dela. Então, a gente sempre fala que a gente respeita muito, quando tu bate na porta, abre e a criança diz não, é não. A gente sai, dá uns minutos e volta. Se ela repete “não” por três vezes, aí tu não entra mais. Então, o nosso teste é três vezes. Se, na terceira vez, ela deu um sorriso e brincou, é sinal que ela cedeu. Se ela firmou “não”, a gente desiste. Aí são três tentativas e... Só que cria na cabeça dela: “Tá. Remédio, eu digo não, não tem como, eles vêm e me aplicam injeção, eles me dão remédio pra eu tomar. Mas os palhaços, eu mandei embora e eles foram embora”, entende? Então, cria na cabeça delas, também, essa dúvida, sabe? Assim: “Tá, mas eles não vieram”. E aí, muitos casos da criança questionar: “Mãe, eu mandei embora e ele foi embora. Chama eles”, sabe? Meio que tipo: “Nossa! Eu não queria ter mandado. E eles foram embora mesmo”. E ainda, muitas vezes, a mãe vem no corredor, vinha, chamava: “Ô, vem. Ele quer ver vocês”. Então, o contato visual de longe, a gente vai conquistando. É um namoro, até a criança se soltar. Então, foi uma experiência incrível. Aí o projeto não parou mais. A gente teve a felicidade de estar, também, passando por um momento difícil, de não conseguir patrocínio. E a Ana, que á a nossa captadora, falar, disse: “Olha, eu tenho uma empresa que entende, conhece, trabalha com humanização, trabalha com essa nova visão de projetos. E o projeto de vocês encaixa perfeitamente no projeto que eles estão buscando, que é a Cpfl”. E ela disse: “Tu pode fazer uma reunião com a Camila?” Eu digo: “Posso”. Na primeira reunião, a Camila já disse: “É isso. A gente quer vocês”, entendeu? “Esse projeto é maravilhoso”. E aí contei algumas histórias pra ela, de situações que a gente vivenciou e coisas que a gente virou o jogo, sabe? Se tu quiser, eu conto uma aqui, pra vocês entenderem o que é o poder. Uma delas, é um senhor, que a gente chegou no posto de enfermagem e a gente escutava uns gritos, mas eram uns gritos tão doídos, que me dava um negócio dentro de mim, assim: “Gente, o que está acontecendo?”. Daí ela disse: “Não. é que ele amputou o pé. E ele está sentindo muita dor. E já foi dado morfina. Só que, quando a pessoa amputa um membro, ela ainda fica com aquela sensação de estar com o membro. E a dor é insuportável. Então, ele vai ter que... ele vai ficar o dia inteiro assim”. E eu disse: “E não tem o que fazer?”. Ela disse: “Não. A gente dá morfina. Dá, mas ele vai aguentar essa dor. Mas é isso”. E eu disse: “Bah”. Aí falei pro meu colega, eu estava com o Rudi, eu disse: “Vamos entrar lá?” E elas: “Não, não, não. Não tem como. Não dá, não dá, não dá. Ele está com muita dor. Não, não vamos liberar vocês”. Porque a gente sempre pergunta quartos que a gente pode entrar ou não, tá? Então, a gente tem esse... Só que, às vezes, a gente burla, tá? Como foi nesse dia. Elas falaram que não, só que alguma coisa dentro de mim dizia que sim: “Entra. Entra. Entra”. E aí eu falei pro meu amigo: “Distraí-las”. Elas entraram e nós dois entramos no quarto. Quando a gente entrou no quarto, esse senhor olha pra gente e diz: “Pelo amor de Deus, me tira a minha dor. Tira a minha dor”. Imagina, dois palhaços se olhando, assim, tipo: “E agora? O que a gente faz?” Eu não sei se vocês conhecem aquelas maquininhas de encher balão, que elas parecem uma bombinha, assim. Não sei o que me deu na hora, eu puxei aquele negócio, eu disse: “Eu tenho uma máquina que tira a dor. Eu vou tirar a dor do senhor”. Eu ia no pé dele, no pé amputado e eu sugava o ar e ia correndo na janela e jogava a dor fora. Sugava no pé dele. E o meu colega pegou a outra maquininha e começou a fazer a mesma coisa. Teve um momento que eu estou vindo de um lado e ele vindo do outro, eu e o meu colega e nós dois nos batemos. E aí eu fiz de conta que a dor pegou nele. E ele começou a sentir a dor do vovozinho. Aí eu sugava a dor do peito dele e ia jogar. Daqui a pouquinho ele vinha, enfiava a dor, pegava na minha bunda, nas minhas costas. Então, essa dor passou por todo o nosso corpo. Quando a gente olha pra cama, esse senhorzinho está gargalhando, mas dando risada de se dobrar na cama. E a enfermeira entra, assim: “O que vocês estão fazendo?” E ele disse: “Eles tiraram a minha dor. Eles são maravilhosos”, não sei o quê. E elogiou. Daí elas falavam assim: “Eu não estou acreditando. Gente, vocês são mágicos, pelo amor de Deus”. Tá, a gente saiu dali. Como a gente faz muitos leitos e cada vez é uma ala, às vezes, tem vezes que o paciente vai embora e tu acaba não fazendo a segunda visita, entendeu? Ele ganha alta antes da nossa segunda visita. Só que esse senhor, não. Ele só mudou de leito. Eu fui pra um outro quarto, quando eu entro no outro quarto, eu vejo que alguém grita comigo, assim: “Ele! É ele, filha. É ele!” E eu fiz assim: parei na parede, assim, de palhaço, assim: “Meu Deus, o que eu fiz?”. Aí esse senhor, ele tinha uns oitenta e cinco anos, dizia assim, pra filha: “Filha, ele tem uma maquininha que tira a dor, minha filha, ele tem uma maquininha”. E aí eu digo: “Sim”. Aí eu olhei o pezinho dele, eu digo: “É”. Aí eu puxei o negocinho. “Filha, é esse negócio. Tu acredita? Esse negócio tira, tirou a minha dor, minha filha”. Quando a gente fala que o idoso volta a ser criança, ele acreditou que aquele brinquedo tirou a dor dele. E a filha dele foi e eu olhei pra ela, tipo: “Não estraga o sonho”. Ela ia falar: “Pai, o senhor está maluco. Aquilo ali é um brinquedinho", não sei o quê. E eu olhei pra ela, assim, tipo, o meu olho disse: “Não fala nada”. E aí eu disse: “Realmente, isso aqui é um esse negócio importado. Realmente, isso aqui tira a dor, tal. Quando o senhor precisar...”. Eu peguei a maquininha, dei de presente. Eu disse: “Ó, estou dando pra sua filha essa maquininha. Se o senhor sentir outra dor, eu vou mostrar como é que faz, ó. Tu suga, vai na janela e joga a dor fora”. E dei pra ele, de presente. Saí sem a minha máquina de balão. Mas, com certeza, esse vovozinho foi pra casa com essa máquina e acho que, se ele teve dor, se ela fez aquilo, realmente ela tirou a dor dele. Então, eu acho que essa história ilustra o que é a vida de um palhaço dentro de um hospital, o que a gente faz. O quanto que o riso é anestésico. O quanto que o riso cura. O quanto que uma pessoa que tem bom humor, se recupera muito mais rápido do que uma pessoa que está lá angustiada, que a família não visita, que chega lá no paciente e olha: “Hmm, tá feio. Bah”, sabe? A pessoa vai visitar a pessoa e já olha, eu como paciente, eu já digo: “Bah, eu estou mal, porque olha a cara do fulano me olhando”. Então, é uma coisa que eu digo: quem for visitar pessoas no hospital, leve coisas positivas. Vai lá, conta piada. Vai lá, conta de sonhos, conta de vida, conta de coisas que ela pode conquistar, de viagens que ela vai fazer. Tira ela daquele mundo de hospital. O que ela não quer ouvir é coisa de hospital, porque ela já está ali. Então, tu tem que ir lá e tirar, que é o que a gente faz. A gente vai lá e transforma [o] quarto numa pizzaria. A gente transforma o quarto numa corretora de imóveis. A gente transforma o quarto num hotel. Então, esse fica o meu recadinho, assim. Assim que nasceu os Médicos. Então, são dezessete anos que a gente vem atuando dentro do hospital e fazendo a diferença, aí, na vida de muita gente. Mas eles fazem mais a diferença nas nossas, do que nós nas deles, assim.

P1 - Então, eu estou voltando, aqui. Estava aqui, ouvindo toda a história. É incrível o que você estava contando. E a gente vai partir pro bloco final de perguntas. E esse bloco é um bloco mais pessoal, seu mesmo, tá? Primeiramente, quais são as coisas mais importantes pra você, hoje em dia?

R - Família. Primeira coisa é a minha família. Os filhos. Que ser pai é algo tão mágico. Essa semana, eu passei por muitas emoções, que foi a primeira vez que eu recebi uma homenagem, que eu fazia pro meu pai, sendo pai, recebendo dos meus filhos. Porque o ano passado eles começaram a estudar,  teve a Covid e eles ficaram em casa. Então, no Dia dos Pais, eu não tive. Esse ano, eles voltaram pra escola. E ontem eu fui lá receber a homenagem do Dia dos Pais e me lavei. Então, ser pai é importantíssimo. Ser marido e cuidar da minha esposa, respeitar a minha esposa, é uma outra importância muito grande, que eu levo, porque eu sou o exemplo pra dois meninos que estão crescendo dentro de casa. E que vão ter uma referência de homem que respeita a mulher, de homem que cuida da mulher. De homem que não quer a mulher pra trabalhar, que quer mulher pra fazer, entende, que vê o pai lavando o chão, o banheiro, fazendo comida, entendeu? Que vê o pai fazendo as tarefas de casa, a mesma coisa que a mãe faz, entendeu? Então, essa é a referência que eu quero dar. Então, essas são as primeiras importâncias pra minha vida. Os meus irmãos também, que eu gosto de dar muita atenção pra eles. Os Médicos do Sorriso, que é um projeto que é meu bebê. É o meu filhote, que já não é mais do Davi, ele já é um projeto do mundo, entendeu? É muito legal que eu sei que daqui a sessenta anos, ele vai estar. E o Davi não estando mais aqui, o projeto dos Médicos do Sorriso vai estar, porque ele já é um projeto consolidado. Então, é um filho que tu deixa no mundo. E a outra importância, eu acho que é poder estar vivendo, assim, de uma forma muito justa e plena, sabe? Poder deitar a cabeça no travesseiro sem medo ou sem peso de consciência que tu fez mal, ou deixou de fazer isso ou fez aquilo pra alguém, entendeu? Então, eu acho que é isso. As coisas mais importantes, assim: família, irmão, o projeto Médicos do Sorriso e a minha carreira. Assim, acho que isso que me faz, hoje, ser o Davi que eu sou.

P1 - E quais são os seus sonhos pro futuro, Davi?

R - Ter a maior empresa de Natal do Brasil, que eu amo Natal. Natal, pra mim, é paixão. Eu amo! Aprendi, no Natal Luz, o quanto que ver o brilho no olho das pessoas e o encontro das famílias que o Natal é isso. Ele é o encontro de famílias. Por mais que seja, na minha época, um pacote de bolacha champanhe e uma garrafa de suco. Mas a família está ali, entendeu, que é o mais importante. Não é aquela mesa farta e a família está toda brigando, entendeu? Está numa mansão, com tudo e um odiando o outro, um querendo a herança do outro, um querendo puxar o tapete do outro. Na simplicidade. E, por mais que eu venha a ser milionário e conquistar mais coisas da minha vida, a essência eu jamais vou perder. Então, eu acho que eu busco isso, sabe? Busco ter uma empresa, a maior empresa de Natal do Brasil. E consolidar ainda mais a minha carreira de ator. Eu a deixei um pouquinho pra trás, pra cuidar da família. Quando eu perdi a minha mãe, eu estava muito focado, tinha alguns espetáculos que eu queria ter colocado, ter feito, não consegui. Então, agora é isso, é me focar na minha carreira. E focar na nossa empresa. Que eu coloquei: se não fosse a pandemia, eu tinha colocado uma meta, até 2022, a gente já seria a maior empresa de eventos de Natal do Brasil. Mas o Covid fez eu jogar pra 2024. Então, 2024, a minha meta é ter a maior empresa, a maior produtora de eventos de Natal do Brasil, pra shoppings, pra cidades. Então, tudo o que eu aprendi no Natal Luz de Gramado, eu quero levar isso pra outras cidades, pra outros rincões. E fazer a empresa. E, nisso, dar trabalho pra muito artista, sabe? E eu sou, em Caxias do Sul, o que paga melhor. O melhor cachê, talvez, do estado do Rio Grande do Sul, é o meu. O artista que vem, às vezes, do Rio de Janeiro e São Paulo, que às vezes vem pra cá e vem trabalhar comigo, eles não acreditam. Porque: “Nossa, em São Paulo, Rio, eu receberia duzentos por esse evento. Tu está me pagando seiscentos”, entendeu? Por quê? Porque antes de tudo, eu sou ator. Então, eu jamais vou querer ficar rico nas costas do Genivaldo. Tu ir fazer um evento onde eu estou ganhando seis mil, eu tiro 4500 e te pago duzentos, entendeu? E os outros são custos. Eu não vou me sentir bem, porque eu sei que aquilo não está sendo justo. Porque é tu que está botando a cara lá, entende? Eu transformei o Natal Luz, por ser assim. Quando eu chego no Natal Luz, o Natal Luz gastava, de cachê, seiscentos mil, pra cachê de todo mundo. Na minha gestão, 2019, nós gastamos, de cachê pra elenco, um milhão e seiscentos. Porque é o justo. Porque, se tu paga mais de um milhão pra luz, som, pra cenário, tu vai pagar mais de um milhão, sim, porque é o artista que bota a cara. E foi assim que eu mudei a cabeça dos diretores do Natal Luz, os que pagam, né, os gestores, que eu expliquei pra eles: “Se você não tiver um artista feliz, você vai ter um espetáculo triste”. E quando o meu espetáculo acontecia, as pessoas vinham e perguntavam: “Davi, o que tu fez com esse elenco? Porque as pessoas têm uma energia em cena, que elas desfilam com uma gana!” Eu disse: “A única coisa que eu dei foi valor. Eu as valorizei, que é o que elas merecem”. Então, é isso que eu quero. Esse é o meu grande sonho: fazer mais e mais artistas viverem da arte. Ah, e eu tenho um outro sonho, que é abrir um hotel de artista. Um hotel onde eu possa cobrar cinquenta reais e esse artista possa ficar ali. E tipo: essa galera de rua, sabe, que eu vejo no sinal, malabarista. Eu já tirei dois do sinal, tá? Eu já consegui resgatar dois, que eu vi que os caras eram muito bons e eu cheguei, fiz uma proposta de trabalho. Aí eles: “Bah, sério que tu vai pagar?”, “Sério. Mas tu vai ter que tomar banho e fazer a barba. E usar os meu figurinos”. E aí, um deles é um chileno, que é o Côte, hoje, ele é bem famoso no mundo inteiro. Côte. E ele sai de Caxias do Sul com o dinheiro que ele conquistou, fazendo os meus eventos. Ele volta pro Chile. Eu vou me encontrar com ele num festival de palhaço, em Florianópolis. E ele me olha e diz: “Davi, eu não acredito! Davi, tu não sabe o que tu fez. Tu mudou a minha vida. Porque, com o dinheiro, eu fui pro Chile e montei um espetáculo, que hoje é referência no mundo inteiro”, o espetáculo dele. Acho que é “La Máquina”, uma coisa assim. E ele era, ele estava como “o cara”, né, no festival, assim. Então, eu queria muito abrir um hotel de artistas de rua. E tenho outro projeto, que é um circo de rua. Pegar todos esses artistas de rua e dizer: “Ó, vocês vão pro meu hotel. Eu vou... Vocês vão ensaiar três meses. E nós vamos montar um circo de rua, com todos os números que vocês fazem na sinaleira” e a gente levar essas... não sei se tu lembra aquele, que eu acho que foi lá nos Estados Unidos, que eles fizeram, que eram os cantores de rua. Que eles faziam as músicas e eles começaram a juntar os artistas. E tem um nome, né, esse grupo. Fez um sucesso grande, assim. Que eles pegaram todos os artistas de rua e começaram a fazer clipes com a mesma música e eles tocando, cada um num lugar, um instrumento. E com os artista de rua dos Estados Unidos, aqui do Brasil e começaram a juntar essas pessoas. Meu sonho é juntar essa galera e dar oportunidades. Acho que o artista precisa de oportunidades. É isso que eu sonho fazer. E a minha esposa tem a mesma vibe, assim. Tanto que a nossa casa nunca está sozinha, tá, Genivaldo. Se vocês quiserem... Ó, Grazi, Genivaldo, qual é o... Quem está mais aqui?

P1 - Alison.

R - O Alison. Se quiserem, quando vierem pra Caxias, a minha casa está de portas abertas. Agora, a gente teve a Ana, que ficou aqui em casa. Já teve Jota. Já teve o... Ai, meu Deus, é uma gama de artistas. Galera que vem pra cá, para aqui em casa, entendeu? E aqui, a gente gosta. Os meus filhos são criados com um monte de artista, aqui em casa. E esse é o nosso sonho, assim, de... O meu escritório, que é embaixo, que eu fiz todo um escritório, já virou casa de artista. Eu já desmontei todo o escritório, pra botar dois artistas, morar ali embaixo. Eles vieram de São Paulo, morar em Caxias e também não tinham grana pra alugar um apê. E aí a gente transformou todo o escritório num apartamento. E aí eles moraram ali, até conseguir condições de poder ir pro seu apartamento. Hoje, olha bem, um deles é diretor da Snowland, aquele evento de neve que tem em Gramado, sabe, a Snowland? Se você botar na internet, você vai ver, que é o único do Brasil, que é um parque de neve. Então, hoje, o... Como é que é o nome? Gente, eu estou com problema de memória. Aqui, o tio da Bruna… O Júlio! O Julio, hoje, é diretor da Snowland, entende? Então, fico muito feliz, assim, que as pessoas estão... A gente ajuda e elas vão se virando, assim. Esse é o meu sonho.

P1 - Então, vamos pra última pergunta, Davi.

R - Tu viu que eu falo muito.

P1 - Não tem problema. As histórias são todas muito interessantes. Vale a pena ouvir. Como foi pra você, hoje, contar a história da sua vida pra gente?

R - Ai, cara, eu vou te falar. Se falar pra vocês, assim, que é um grande prazer, assim. Eu tenho muito prazer de falar da onde eu vim, o que eu passei. E muito emocionante, meu Deus. Eu chorei demais. Revivi coisas que fazia tempo que, por mais que eu estava fazendo o espetáculo “Veja o Mundo com Outros Olhos”, mas aqui eu falei de coisas que eu não falo no espetáculo. Vocês conseguiram mexer comigo e fazer a minha memória voltar a ser criança, voltar aquele momento, voltar sensações que eu vivi, os desafios que a vida me colocou. E poder ser exemplo pra essas figuras, sabe? Então, eu acho que isso, pra mim, é o que mais... O que vocês fizeram pra mim, na verdade, contar a minha história não foi um presente... Foi um presente pra mim, poder compartilhar. E eu amo muito escutar histórias, entendeu? Então, poder estar num projeto como esse, de uma empresa que acredita em projetos como o de vocês, como os Médicos do Sorriso, histórias que vão inspirar outras pessoas, poxa, eu estou muito feliz, muito orgulhoso, que eu sei que não é qualquer um que hoje está no projeto. E eu sei que um dia os meus filhos vão poder acessar ali, vão ver a história do pai deles ali. Os netos deles. E isso vai ficar.

P1 - Exatamente. Agora, a sua história vai se tornar, né, parte do acervo de um museu.

R - Nossa!

P1 - Pra que seus filhos, pra que você, pra que sua esposa, pra quem você quiser, possa acessar e possa ouvir a sua história.

R - Nossa, eu estou muito feliz. Muito feliz.

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