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História

O rio da vida de uma mulher guerreira

História de: Márcia Viviane de Pontes Queiroz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/06/2011

Sinopse

Márcia Viviane, nascida em 23 de junho de 1961, foi uma criança levada, que sempre falava a verdade. Teve uma infância feliz na cidade pernambucana onde nasceu, Curuau. Após dois anos da morte de seu pai, Márcia perpassa por várias capitais do Brasil, até se estabelecer em São Paulo e se casar com um libanês. Neste momento sua vida muda, a diferença cultural entre os dois era enorme, ela sofreu com abusos de violência doméstica e psicológica. Tiveram três filhas juntos e após se separarem essa mulher guerreira recomeçou a sua vida, enfrentando os traumas que ganhou do relacionamento passado. Márcia desenvolve força e coragem para vencer seus desafios. Como ela diz é uma história de drama com final feliz.

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História completa

 

P/1 _ Eu queria começar você falando seu nome, local e data de nascimento.

 

R _ Eu me chamo Márcia Viviane de Pontes Queiroz. Eu sou pernambucana e nasci em Caruaru em 23 de junho de 1961.

 

P/1 _ Você disse que queria ler uma sinopse que você tinha preparado. Se você quiser ler agora.

 

R _ É só para você conhecer a minha história.  Aí você me ajuda a perguntar. É um drama com final feliz.  “O rio da minha vida. O rio da vida de uma mulher guerreira que veio de uma cidade do interior para uma grande capital, conhece um árabe muçulmano que a convida para jantar e depois a pede em casamento. Nascem três meninas. Se separam antes da última filha nascer e só se reencontram dois anos depois para conhecer essa filha. Fica num hotel. Ela leva as crianças para passear e ele as esconde. Fica só com a roupa do corpo. Ele diz no hotel que não vai pagar e pede para me mandar embora. Eu saio só com a roupa do corpo e uma roupa na bolsa. Estou sem local para morar, sem as minhas três filhas e sem trabalho. E distante cinco mil quilômetros da minha cidade. Levo quase um ano para resgatar as três e assim que eu consigo, fico num dilema: se eu fosse resgatar minhas filhas, aonde eu iria ficar e se eu ficasse com elas, como eu iria trabalhar. Consegui resolver e elas estão comigo até agora. E todos os problemas que eu enfrentei, todas as dificuldades e todos os traumas eu gostaria de relatar.”

 

P/1 _ Márcia. Vamos voltar um pouquinho. No seu nascimento. Como é que chamam os seus pais. De onde eles eram?

 

R _ Eu sou filha de João Artur de Queiroz e Ana Alves Pontes de Queiroz. Eu venho de uma família feliz.  Meus pais eram cursilhistas. Naquela época cursilhistas é quem vivia muito ligado à Igreja. Procuravam dar uma conduta exemplar, davam curso de casais. Somos sete filhos. Eu era a mais velha das mulheres e ainda tinha outro à minha frente. Nós éramos muito amigos dos padres, do bispo. Eles viviam na minha casa. Eu vivia numa família feliz. Meu pai era considerado uma pessoa exemplar. Na época ele já era precursor do que se chama hoje, cesta básica. Ele dava a feira na época a todos os funcionários. Dava café da manhã. Se algum deles bebia, ele dava o salário à esposa. Já cuidando, já se preocupando com eles. Inclusive ele chegou a inventar sapatos. Um sapato chamado, na época semelhante ao corte de cabelo, o pigmaleão. Tamanco, aliás. É um sapato que tem a forma de metade de um copo, como se fosse um círculo. A metade de um círculo embaixo. Foi meu pai que inventou, ele inclusive foi convidado para exportar. Meu pai tem nome de rua na cidade, porque era uma pessoa que distribuía cestas básicas para muita gente, vivia fazendo o bem. E eu tenho muito orgulho de me chamar filha dele, de ser filha dele.

 

P/1 _ Isso em Caruaru. E sua mãe fazia o quê?

 

R _ Minha mãe era uma pessoa muito sábia e acompanhava meu pai em tudo. Inclusive, na época, meu pai gostava muito de beber e a minha mãe fazia que bebia, para o meu pai se preocupar com ela e não beber. Jogava vários copos de uísque pela pia. E cuidava da casa, ajudava em tudo, inclusive criava. Que meu pai era um design, ele fazia desde cintos, os móveis da casa, a roupa que me minha mãe vestia, roupas, cintos, bolsas. Tudo ele criava, até as bandejas da cozinha ele chegou a fazer. Chegou a fazer e minha mãe acompanhava em tudo. Ajudava ele em tudo.

 

P/1 _ E os seus irmãos? Você falou que você tinha um mais velho.

 

R _ Eu tenho um mais velho que se chama Marcos. A gente teve muito conflito na infância. Brigava muito, mas como todo irmão a gente se ama. Então tem o Marcos, que é o mais velho. Tem o Valter. Depois, tem o Aderbal. Tem Cecília. Tem a Niedia. São seis. Marcos, Valter, Aderbal, Cecília, Niedia. Está faltando uma. E Junior, João Artur de Queirós Junior.

 

P/1 _ Como era a casa?

 

R _ Era uma casa grande, bem grande. Tinha uma área que era a fábrica. E a gente tinha o lugar de brincar. Criava.

 

P/1 _ Fala um pouco das brincadeiras de criança?

 

R _ A gente gostava muito de brincar de boneca. Na época de boneca. Inclusive, meu pai esteve em São Paulo, que na época era muito difícil viajar, uns anos atrás. E eu pedi um leque. Ele me deu um leque de presente. Boneca tinha cabelo natural, que era o máximo na época. A gente viajava muito para a praia. Meu pai gostava muito de levar os outros sobrinhos. Era realmente uma família feliz. Vivia passeando, viajando, almoçando fora.

 

P/1 _ E o que você mais gostava de fazer quando era criança? Você lembra?

 

R _ Eu gostava de brincar, mas eu era uma criança um pouco adulta. Minhas amizades eram com os professores, com as pessoas que tinham mais informação a me dar. Eu fui uma criança, que pedi desculpas a minha mãe um dia, quando ela era viva, porque eu fui terrível, fui levadíssima. E eu dizia assim: “Eu vou para tal lugar.” Isso com onze anos. E ela: “Você não vai. Não deve ir.” Eu olhava para ela: “Se a senhora não quiser que eu vá, a senhora me convença do contrário. Porque eu vou e assumo a responsabilidade.” Eu não mentia, eu dizia sempre a verdade. Minhas amizades eram sempre as melhores. E quando saía uma turma, assim, vários primos para ir ao cinema. Pra quem perguntava como é que foi? A mim. Tudo que faziam perguntavam a mim. E por serem cursilhistas, meus pais tinham muitos amigos, tinha várias casas em que a gente passeava e em cada casa tinha um clubinho. Os coroas, que na época chamava os pais, ficavam na cozinha, na sala. E a gente ficava no clubinho bem isolado. Às vezes tinha até piscina. Aí jogava ping-pong. Brincava da brincadeira de uva, pera, maçã, que era beijo, abraço e nem lembro mais o que era. Paquerava, brincava. Era muito gostoso. Além disso, o meu pai gostava de dançar e ele que me ensinou a dançar. Então a gente ia aos bailes e todo baile que tinha eu dançava com ele, dançava com outras pessoas. Inclusive, fazíamos viagens. Vários carros, cinco, seis carros e nesses carros iam os primos. Chegava às vezes numa casa que não tinha teto, não tinha laje. E a gente fazia guerra de travesseiro, melava de pasta um ao outro, e cantava, e fazia brincadeira. Inclusive eu tinha uma tia, tia Julieta. Ela já é falecida. Ela dava tanto apoio às brincadeiras da gente, que às vezes a gente fazia casamentos. Aí tinha as casinhas, que é como se fosse a parte de baixo, como se fosse um sótão e cada família que vinha para o casamento ficava nessas casinhas. Ela fazia bolo confeitado mesmo, fazia roupa. E a gente fazia uma festa enorme para um casamento de boneca. Era um máximo. Aí, vou contar uma trela que eu fiz. Essa tia minha, ela fazia bolos para festas. E eu morei com ela um tempo, então uma vez ela mandou eu entregar um bolo enorme para uma vizinha, era um bolo de uns quinze centímetros de altura, todo confeitado, cheio de uvas em cima. E aí ela mandou eu e minha prima entregar para uma amiga dela. Nós passamos na padaria, pedimos uma faca emprestada, dividimos a metade, comemos a metade do bolo e entregamos o resto.

 

P/1 _ E o que aconteceu?

 

R _ Ela nunca soube. Já faleceu. E outra coisa que a gente fazia. Na época tinha sorveteria, era picolé, era mais picolé e era muito calor no nordeste. E às vezes pegava uma panela ou bacia e ia buscar picolé para as minhas tias e primas. Então, a gente chegava à sorveteria, pegava os picolés e ia chupando tudinho. A gente falava que pingou e chegavam os picolés todos chupados.

 

P/1 _ E na escola? Qual a primeira lembrança da escola?

 

R _ A escola. Eu era uma boa aluna, era obediente, mas eu era muito metida. Eu só fazia amizades com as professoras, não sei. Depois a gente vai ver que não é assim, que não é o correto. Tem-se que reconhecer o meio e viver de acordo com ele, com as colegas. Não era uma pessoa ruim, tinha minhas amigas, mas eu queria aprender mais. Estava na frente. Na época eu gostava de ler, era criança e gostava de ler Platão, filosofia. E aí, eu queria estar perto de quem sabia mais, era assim. Meus pais também.

 

P/1 - Você teve algum professor que te marcou? Ou uma professora?

 

R _ Que eu lembre assim não. Agora no momento que eu lembre não.

 

P/1 _ Como você ia para escola? Você ia caminhando com os seus irmãos?

 

R _ Normalmente íamos juntos. Eram sete irmãos e uma escola. E a escola era próxima da minha casa. O bairro era tranquilo, então todo mundo se conhecia.

 

P/1 _ Como era o bairro e a cidade?

 

R _ Eu morei no bairro Petrópolis em Caruaru, próximo da Feira de Caruaru, que é hoje internacional. Um bairro considerado classe média e a minha casa era grande. Tinha uma visão bonita, o terreno enorme. E a escola ficava a uns três, quatro quarteirões da casa. E às vezes a gente ia caminhar. E uma coisa que a gente gostava de fazer… Próximo da minha casa, tinha um lugar que a gente chamava Conferência. Essa Conferência eram casinhas pequenas para velhinhas. E a gente gostava de visitar as velhinhas e contar histórias para essas velhinhas. Era um momento muito bom. A gente fugia.

 

P/1 - E depois mais para frente. Você já contou que gostava muito de dançar. Que tinha os bailes nas casas desses amigos do seu pai. Depois? O primeiro namorado. Como foi?

 

R _ A gente tinha uma turminha que normalmente ia para o campus da faculdade tocar violão. Às vezes tocava violão na minha casa ou na casa de algum colega e às vezes ia jogar ping-pong, vôlei nas universidades. E eu tive um namoradinho que foi dessa época, não durou muito tempo não, que marcou um momento bom. Mas ainda era muito formal, não podia dizer para ninguém. Depois tive outro que era vizinho nosso, ele às vezes jogava bola lá em casa e quando estava jogando paquerava comigo. Era uma coisa bem sutil, bem leve.

 

P/1 _ Quando você fala que iam jogar bola na universidade, você estava aonde? No colegial?

 

R _ Eu estava antes do colegial, no ginásio. Nessa época éramos sete filhos no colégio Sete de Setembro. Eram sete no Sete. Você perguntou uma coisa de escola e eu lembrei. Eu tenho dificuldade de arrumar isso. Eu era muito danada. Tinha uma professora que dava aula de religião e tratava a gente como se a gente fosse criança. Ela falava como se a gente fosse criança bem pequena.

 

P/1 _ Você já estava no ginásio?

 

R _ Já. Eu não gostava da aula dela. E quando você não gostava da aula de algum professor, essa professora podia te punir e te mandar para a diretoria. E eu já ia direto: “Professora, eu não vou assistir a sua aula, vou ficar na diretoria.” E ia para a diretoria conversar com os diretores. Coitada. Hoje eu peço perdão a ela, professora.

 

P/1 _ Então, depois que você terminou o ginásio? O colegial foi em outra escola?

 

R _ A gente passou do ginásio para o colegial nessa mesma escola. Nessa escola eu tinha um paquerinha na minha sala, foi uma paixão. Ele era apaixonado por mim e eu por ele. E a gente estava sempre junto. E se transformou em amigo. Perdeu os pais, que se suicidaram, então foi uma pessoa que precisou muito de mim. A gente teve um envolvimento bem forte e teve uma época que minha mãe queria forçar a gente se casar. Mas aí, realmente, não deu certo. Não foi bom. E depois a gente acabou perdendo contato, ele seguiu adiante. Eu dei muito apoio para ele se formar como piloto comercial. Ele é piloto comercial. Ele também está casado, tem três filhos. Mas a gente nunca mais se viu. Só falou por telefone.

 

P/1 Depois quando você terminou os estudos, quais eram seus planos? O que foi acontecendo na sua vida? Começou a trabalhar?

 

R _ Com dezoito anos eu comecei a trabalhar, eu estava concluindo a escola. Tem uma fase importante da minha vida. Eu fui trabalhar com um empresário em Caruaru e esse empresário foi quem levantou o Central de Caruaru. O Estádio Central de Caruaru que hoje é conhecido. Era o meu primeiro emprego. E nesse emprego por uma questão de amizade. Esse senhor era amigo dos meus pais. Meu pai havia falecido e aí ele me arrumou trabalho, eu tinha confiança do escritório dele, da esposa, da família. Eu participei de um trabalho muito importante através dele. Ele foi quem reconstruiu o Central. O Central era um campo pequeno, desconhecido. E hoje, ele é conhecido até aqui em São Paulo, no Brasil todo. Ele que deu o pontapé inicial para a reforma do estádio, ampliação do estádio. E quem fazia os contatos era eu. Eu ligava para os amigos, para os clientes, para os afiliados pelo Central de Caruaru. E dizia que eu ia mandar tantos ingressos que ele estava precisando de tanto em dinheiro. E eles iam reclamar com meu chefe: “É maluco, o que eu vou fazer com tanto ingresso?” E mesmo assim, reclamando, eles mandavam o valor dos ingressos e assim se construiu o Central. Um campo bonito, bem no centro da cidade, que era pequeno, desconhecido. Hoje é enorme. E eu participei disso, fiz essa parte, dei minha contribuição para a cidade.

 

P/1 - E você torce pelo Central?

 

R _ Também. Lá eu sou Central.

 

P/1 _ E depois desse seu primeiro emprego.

 

R _ Desse emprego... Eu sempre tive uma facilidade muito grande de falar com as pessoas. Um amigo dele me roubou lá dele. Convidou-me e eu fui trabalhar num armazém em Caruaru. Nesse armazém, eu vendia, ajudava a fazer a documentação da venda de charque, bacalhau, alho. E era um sofrimento, porque eu tinha de multiplicar toda a mercadoria por quatro números. Era uma coisa horrível. Eu errava muito. E o proprietário teve muita paciência comigo. Passei lá quase um ano. Depois saí e fui para Recife. Em Recife, fui morar com uma tia minha num pensionato.

 

P/1 _ Depois desse emprego você resolveu ir para Recife?

 

R _ Ir embora para Recife. Era o caminho natural de quem queria fazer vestibular, quem queria fazer cursinho. Então fui morar em Recife. Primeiro fiquei na casa de uns primos, fui bem recebida. Ajudaram-me bastante. Arranjei um trabalho e aí nesse trabalho... Era um cursinho e através desse cursinho pude me manter. Morei com essa tia minha. Depois, as minhas irmãs foram para Recife também, e através desse trabalho eu pude ajudá-las também no aspecto de estudo. Formaram-se e elas estão bem. E eu passei um tempo em Recife com essa minha tia. Trabalhei nesse cursinho. Passei alguns anos. Não demorei muito em Recife e vim para São Paulo.

 

P/1 _ Aí você decidiu vir para São Paulo?

 

R _ Vim para São Paulo.

 

P/1 _ O que você decidiu fazer aqui?

 

R _ Eu passei num concurso em Recife para o Ministério do Trabalho. Lá eu fiquei em quadragésimo oitavo lugar. Fiz opção para Florianópolis. E em Florianópolis fiquei em quinto lugar. Aí meu pai havia falecido. Vendi um piano que deveria ser meu. Vendi o piano e fui escolher o estado que eu queria morar. Consegui uma passagem de avião de graça, através da Aeronáutica. Logo que eu vim passei um tempo no Rio, encontrei um ex-namorado meu que morava em Saquarema, Bacaxá. Um lugar que era um paraíso.  Ele era um artista plástico de nome. Tudo na chácara era pintado, tinha arte em tudo. E aí ele diz: “Se você quiser ficar aqui comigo, seja bem vinda, mas se você quiser ficar comigo e for embora, não vou aceitar e está acabado.” Fiquei lá uns dias e fui embora. Aí eu fui para o Rio, depois para São Paulo. Depois de São Paulo, fui para Florianópolis para ver se conseguia ficar lá no trabalho. Na época só tinha meia página de jornal de emprego. Então não tinha como ficar lá. Aí eu fui para o Rio Grande do Sul. Também tinha parentes, em toda parte sempre tinha alguém conhecido, um parente. Aí fiquei no Rio Grande do Sul uns dias. Sozinha, passeando. Encontrei os primos meus. Até tinha um paquerinha por lá, mas lá também não tinha emprego. Era muito pouco trabalho. Aí resolvi voltar para São Paulo e fiquei com uma tia minha, que era uma tia, irmã do meu pai. E aí começa a minha jornada em São Paulo.

 

P/1 _ Aí você veio para São Paulo para assumir o cargo neste concurso?

 

R _ Esse concurso eu não consegui ser chamada.

 

P/1 _ Você tinha entrado em Florianópolis em quinto lugar, mas não foi chamada?

 

R _ Demorou muito e não chamaram. E eu voltei para São Paulo. São Paulo tinha emprego.

 

P/1 _ Aí em São Paulo você ficou com a sua tia.

 

R _ Isso. Aí eu fui para São Caetano do Sul. Fui morar em São Caetano do Sul com essa minha tia. E lá em São Caetano, eu arranjei um trabalho numa agência de emprego. Meu trabalho era captar clientes, eu era relações públicas dessa agência. Um time de pessoas simples, bacana. Não conhecia muito São Paulo, apanhei bastante para aprender a andar. Fiz mais a região do ABC. Contei para a minha tia que estava nesse trabalho e assim, assim. Ela não aceitou, porque ela queria que eu ficasse como empregada doméstica dela. Meu pai tinha um padrão de vida bom e eu não vim para ser empregada. Dispus-me a ajudá-la a pagar uma faxineira e ajudar em casa. Ela não aceitou e aí eu fui morar numa pensão. Era uma pensão próxima da Igreja de São Caetano. Eu sempre fui uma pessoa, que amizade para mim é muito importante. “Diga com quem andas e te direi quem és”. Eu sempre soube disso. E eu também já era Rosacruz, da Rosacruz Antiqua. Tem duas Rosacruz: tem a Amorc e a Antiqua. Eu era da Rosacruz Amorc. E eu fiz amizade com uma senhora lá de São Caetano que era da Amorc também. Inclusive, é a ex-mulher do ex-prefeito de São Caetano. Ela me orientou, ajudou muito, morei um tempo com ela. E nessa época comecei a fazer o curso de yoga, na Universidade de Yoga, com o presidente da Uni-Yôga, o DeRose.

 

P/1 _ Quantos anos você tinha? Com quantos anos você saiu de Recife e veio para São Paulo? São Paulo não, para essa sua migração por vários estados.

 

R _ Eu saí de casa eu tinha dezessete anos.  Em São Caetano eu estava com dezessete para dezoito. E aí eu voltei para Recife. Passei um tempo e voltei novamente. Aí foi quando eu fiz essa viagem. Eu tenho a maior dificuldade de arrumar tudo isso. Tanto, que eu tentei escrever e não consegui.

 

P/1 _ Não tem problema. Você estava contando...

 

R _ Eu estava em São Caetano e começo a fazer o curso de yoga, e começo a dar aula de yoga.  Eu era muito querida. Eu não sou calma. Eu sempre fui uma pessoa, digamos ansiosa, agitada, elétrica. Mas dando aulas, eu conheço as técnicas e sei fazer uma pessoa ficar calma. E também sou muito criativa. Então eu tive aula com o DeRose na Uni-Yôga em São Paulo e depois montei uma escola no centro de São Caetano, na Rua João Pessoa, chamava Núcleo Cultural Samyama. Eu dava aulas e tudo. E passei um ano mais ou menos com esse projeto em sociedade com uma colega. E depois desfizemos. E aí, eu fui morar em São Paulo. E aí eu morei num pensionato de Freiras. Eu continuava nesse pensionato e continuava fazendo curso na Uni-Yôga.

 

P/1 _ Lá em São Caetano?

 

R _ Não. Eu saí de São Caetano e fui morar em São Paulo.

 

P/1 _ Mas a Uni-Yôga ficava aonde?

 

R _ A Uni-Yôga fica em São Paulo, era na Alameda Jaú.

 

P/1 _ E o pensionato onde era?

 

R _ O pensionato ficava próximo do metrô Pedro II. Era um pensionato de freiras. Não era um local muito tranquilo, não. Tinha muito cheira cola, mas as freiras me davam certa segurança. Eu estava num ambiente bom. Tinha o café da manhã. Eram pessoas do interior, que estavam em São Paulo trabalhando ou estudando. E eu ia para o metrô com um pouco de medo. Saía cedo e vinha tarde. Então eu pegava um cheira cola e chamava para ir comigo, ia conversando para os outros verem que eu tinha um amigo. E daí cumprimentava e falava com todos eles. Eu ia para esse curso. Continuei nesse curso. Na época que eu era sócia dessa escola de yoga, que eu tinha com outra pessoa, eu cheguei a me cadastrar em algumas empresas, cheguei a fazer algumas propagandas. E uma das propagandas que eu fiz interessantes, é que tinha uma revista, e essa revista era distribuída pelo Anuário das Indústrias da FIESP. E eu cheguei a ser funcionária desse Anuário e essa propaganda que eu fiz da minha escola com a revista dele. Eu mandei alguma informação ou convidei. Eu não me lembro, faz muitos anos. Teve uma época que eles abriram procurando funcionários. Eram cem pessoas para escolher vinte e eu fiquei entre essas vinte. Então, eu fui agente de publicidade vendendo publicidade para o Anuário das Indústrias da FIESP. Esse emprego me abriu muitas portas e eu fui muito feliz. Eu ganhei... Na época, meu último salário era meio carro. Não me lembrava de financiamento, que eu queria comprar a vista e só dava metade. E era muito bom, porque às vezes a gente até brincando dizia que: “Mario Amato mandou um abraço para o Diretor de tal empresa”. Empresas grandes de porte e eu tinha toda infra estrutura, ajuda de custo, gasolina, vale refeição, prêmio, bonificação. Era muito dinheiro. Tudo ganhando esse dinheiro com propaganda. Era muito bom. E eu sofri muito porque eu não conhecia São Paulo, não tinha carro. Chegava na empresa assim, caindo aos pedaços, tudo doía, mas toda feliz da vida, porque estava numa grande empresa. E daí, segui adiante, na minha vida profissional.

 

P/1 _ Nesse momento você estava no pensionato?

 

R _ Eu estava no pensionato quando estava no Anuário? Não. Eu saí e fui morar numa república. Dividi o apartamento com duas ou três pessoas.  Eu tinha certo respeito lá porque eu ganhava mais. E isso era uma delícia. Do Anuário, eu conheci também a Ponte para Liberdade, que é outra instituição filosófica. Fala-se em mestres, cada mestre tem um dia da semana. Saint Germain, Kuthumi. E eu descobri no planalto Paulista. Fiz amizades, frequentei um tempo. E um dia eu estava no metrô. E eu costumava andar sempre fazendo alguma oração ou alguma afirmação. E eu estava com um livrinho de Saint Germain e um homem olhou para mim e disse assim: “Vá nesse endereço. Não anote que não vai dar tempo”. Não posso dizer o endereço, porque não pedi autorização.  E era a casa do pai do Ronnie Von. Lá eu recebi muita ajuda. Aprendi muito e tenho até algumas coisas que foram interessantes. Quando eu cheguei, me apresentei e disse quem tinha me indicado, fui muito bem recebida. Era uma casa linda, enorme, numa região maravilhosa. E as pessoas estavam sentadas em volta de uma mesa com uma jarra branca, transparente e vários copinhos. E me pediram para sentar e eu fiquei em silêncio vendo como era. E as pessoas contavam os seus problemas. A palavra era passada de pessoa para pessoa e tudo era gravado. Às vezes, a pessoa estava no meio e a fita acabava. O pai do Ronnie dizia: “Pare um pouco até a fita voltar. Stop”. Era tudo gravado. E a palavra ia passando. Alguns agradeciam. Alguns contavam algumas coisas boas que conquistaram. E a palavra ia passando de pessoa a pessoa. Às vezes, a pessoa dizia que não queria falar, ficava só ouvindo. Pessoas se emocionavam e foi uma experiência enriquecedora. Depois que terminava, depois que as pessoas falavam, era feito uma prece ecumênica, uma prece espírita, um salmo. Eu não me lembro muito o que falavam, faz muitos anos. E aí sim, se colocava a água no copinho e cada copinho ia passando de pessoa por pessoa. Essa água tinha uma energia boa. Depois essa reunião foi transferida para uma igreja. As pessoas iam também para essa igreja, que era da Rosacruz Antiqua, não é a Amorc. Eu recebi muita informação. Existia uma orientação passada de mestre a discípulo, de forma esotérica, não é para todo mundo. E esse senhor foi para mim a pessoa que mais me orientou, que fez orações por mim quando eu precisava. Eu digo que eu tinha um assessor espiritual e ele era uma dessas pessoas. Aconselhou-me já que eu estava sozinha em São Paulo. Se eu estava indo certo ou se estava indo errada. Sempre consultava e conversava muito para ele. Ele ficava à disposição com o telefone na casa dele. Numa forma de poder ajudar as pessoas ouvindo, dando uma palavra amiga.

 

P/1 _ E essa sua religiosidade vem desde a casa dos seus pais? Seus pais eram também religiosos?

 

R _ Meus pais era muito religiosos.

 

P/1 _ Você estava contando. Você acha que veio daí essa sua formação religiosa?

 

R _ Eu sempre fui muito curiosa.  Quando eu era pequena eu era vidente eu via às vezes pessoas e contava para a minha mãe. Ela dizia que não era nada. Mas eu tinha essa vidência. Sou sensitiva. Que se fala sensitiva. Eu tenho essa necessidade de buscar essa religiosidade. Os meus pais eram muito católicos. Meus tios, minhas tias. Todos viviam em volta do bispo, do padre. E também porque eu queria evoluir como pessoa. Como ser humano.

 

P/1 _ Aí quando você saiu da casa deles, você começou a procurar?

 

R _ Foi uma porta. Aqui em São Paulo tem muito conhecimento, muitas informações. E para você fazer boas amizades o melhor caminho foi por onde eu comecei. Além disso, eu tenho necessidade de buscar esse outro lado espiritual. Eu sinto necessidade. Até uma forma também de aliviar o sofrimento. Ter uma compreensão melhor da vida das pessoas. E eu sempre buscando, eu me considero uma pessoa livre e ecumênica. Nessa minha vida teve muitos terreiros onde eu pisei.

 

P/1 _ Daí você estava contando que você estava trabalhando no Anuário e essa pessoa te conheceu. Você fez o contato com esse senhor e depois?

 

R _ Passei a frequentar a casa deles, as reuniões, as cerimônias de domingo. Inclusive, eles dão vinho. Ia também à Ponte para a Liberdade. A Rosacruz Amorc era mais por correspondência. Então eu frequentei pouco, só fiquei no primeiro grau, não segui adiante. Com relação ao yoga, eu fui conhecendo mais coisas. Através da escola que eu tive em São Caetano eu conheci uma senhora de Santo André - e comecei a dar aulas em Santo André também - era uma pessoa muito sofisticada. Uma professora nata, uma diretora nata, uma pessoa maravilhosa, muito exigente. Uma virginiana, que buscava a perfeição, mas que dava muito valor a minha aula. Na minha aula de yoga eu sempre usei muito a criatividade e eu sempre me coloquei na posição de ser útil, de fazer o bem. E eu sempre tive consciência da responsabilidade de você ter uma pessoa relaxada, com a mente bem aberta, e o bem que você pode fazer para essa pessoa quando ela está nessa condição. Para vocês entenderem, existem exercícios respiratórios, existem movimentos físicos que vão relaxar. A pessoa fica bem relaxada, esse estado que a pessoa consegue ficar chama-se alfa: um estado que está mais ou menos dormindo, mais ou menos acordado. É um estado muito bom para que aconteçam curas. E é um estado onde às vezes acontecem fenômenos mediúnicos. Quando eu coloco uma pessoa em alfa na aula, e a pessoa está naquela posição, eu aproveito para ajudar aquela pessoa a se curar. Então, eu falo de saúde em cada uma das células, átomos e moléculas. Às vezes a pessoa está em depressão. “Alegria. Força. Coragem. Vitalidade”. E as minhas palavras, cada vez que vai tendo aula, a pessoa vai se fortalecendo e se transformando. Então, eu associo uma posição do yoga que se chama virabhadrasana. E essa posição traduzida, porque é uma palavra em sânscrito, que é a língua morta do yoga, da época que veio o yoga, quer dizer herói. Então eu coloco a pessoa na posição do herói, sentada com as pernas mais ou menos cruzadas, e paralelos os joelhos. “Joelho a joelho. Fecha os olhos. Respire. Respiração correta é abdominal, nasal, silenciosa. Você é forte. Você é um guerreiro. Tem muita garra. Existe uma força muito grande dentro de você. Que pode te conduzir. Que vai te ajudar a ser vencedor. Traga essa força para fora. Você é forte. Você é vitorioso”. E aí a pessoa que estava bem relaxada, quando terminava a aula, a pessoa estava num astral, numa harmonia.

 

P/1 _ Você estava falando das suas aulas de yoga. Esse tempo que você estava trabalhando no Anuário você continuou dando aulas? Você nunca parou de dar aulas?

 

R _ Com alguns intervalos de forma diferenciada. Em locais diferentes, eu sempre dei aula. É uma paixão. É uma coisa de querer ser útil. Eu dei aula em Santo André e fiz muitos amigos em Santo André. Em São Paulo também. E mesmo na Uni-Yôga, a gente tinha aula. Tinha aula experimental, tinha hora que você dava aula. No Ipiranga também eu tive aula. Esse era o meu mundo. Eu tinha um lado de vendedora e outro de professora de yoga.

 

P/1 _ Você sempre desenvolveu essas duas atividades.

 

R _ Isso. E lá em Santo André além da aula de yoga, eu também tinha amizade com a diretora da escola e a gente tinha uma assessora espiritual fantástica. Era uma senhora de idade cega, que fazia orações para mim e para a minha amiga, que na época era mãe e às vezes a criança estava inquieta. Às vezes a gente queria conquistar alguma coisa e quem fazia orações para a gente era essa senhora. Tinha também uma senhora que era freira, que tinha saído do convento, era vidente e ela benzia. Ela fazia pratos deliciosos: lasanha, pão. Foi uma fase deliciosa da minha vida. Pegava eu, o marido dessa minha amiga, que inclusive já faleceu, a gente passava na casa dessa senhora freira, comprava lasanha. Passava pela outra senhora cega que fazia orações para a gente, pegava alguns livros, incensos e ia para Santos. E a gente passava final de semana lendo, trocando a leitura, a informação que a gente adquiria com o livro um com o outro, fazia orações juntos. Nossa. Era assim. Um banho de cultura. Foram momentos para mim maravilhosos. E pelo fato de dar aula de yoga, as pessoas elogiavam muito minhas aulas. Eu dei aula em Santo André, em São Caetano, em São Paulo na Secretaria de Ação Social para as assistentes sociais por um período. Dei aula numa Academia junto da escola do pensionato de freiras que eu moravam, em escolas também. Esse período de aulas foi mais até eu casar. Quando eu casei, esse mundo que eu vivia recebeu um stop.

 

P/1 _ Esse teu casamento. Como você conheceu seu marido?

 

R _ Eu era do Anuário das Indústrias e estava num local almoçando. Ele me viu, me achou bonita e me convidou para jantar. Ele não falava bem o português. Ele é árabe. Não falava bem o português e me convidou para jantar. Deu o telefone, mandou o amigo dar o telefone. Eu liguei, marcamos e eu não quis ir, acabei não indo. Estava esperando no hotel. E aí, porque tinha que ser, eu acabo encontrando ele uns três, quatro meses depois na Telefônica. E a gente começou a conversar e daí em quatro dias ele me pediu em casamento. Claro que demorou alguns meses. Fomos nos conhecer e tal. Aí começa minha história de verdade.

 

P/1 _ Você também se apaixonou?

 

R _ Eu vivi uma linda história de amor. Eu ganhava presentes todos os dias. Se eu me atrasava, ele chorava. Mas eu era vendedora, eu vivia visitando empresas. Eu tinha vários cartões na minha bolsa, conhecia muita gente. E para um muçulmano é mesmo que ser uma prostituta, uma mulher que tem esse tipo de vida. Porque lá é completamente diferente. Mas ele queria casar comigo. Na época, eu não sabia que ele queria também o visto e que queria ficar no Brasil. Ele estava vindo da África e começamos a nos conhecer em hotel e tal e acabamos. Não é um casamento, foi uma compra. Aqui no Brasil sim, um casamento. Mas na lei muçulmana é uma compra. Eu fui comprada por cinco mil liras de ouro. Esse dinheiro deveria ter sido pago para casar. E ficou estabelecido que se separasse eu teria cinco mil liras de ouro. Só que nos costumes muçulmanos, se a mulher deixa o homem, ela sai sem nada. Isso pode ser citado em praça pública. Acabou, é dessa maneira, porque a mulher também não recebe herança. Mulher e nada para muçulmano, é a mesma coisa.

 

P/1 _ Quantos anos você tinha?

 

R _ Vinte e quatro. Vinte e quatro para vinte e cinco. Sai do Anuário, foi quando vim a Recife para apresentar minha família a meu marido.

 

P/1 _ Seu pai ainda estava vivo?

 

R _ Não, meu pai já era falecido. Meu pai faleceu quando eu tinha quinze anos. Só tinha a minha mãe agora. Apresentei e tal. A família conheceu. Adorava cozinhar e fazer festas. Gostava de receber as pessoas. E fomos para o Líbano para escolher a cidade, o país que eu queria morar. Fui para o Líbano. Fui para a França. No Líbano, eu não quis ficar, porque não existe vida. Fiquei um ano e quatro meses em Beirute. Meu passeio era ir até a casa de uma amiga vizinha que falava português, e que inclusive, começou um pouco a me ensinar o inglês, eu ficava meia hora e ele já ia me buscar. E ficava na casa da família, uma casa grande, tinha cinco lojas embaixo. Conheci a mãe, que faleceu posteriormente.

 

P/1 _ Quem morava naquela casa? Vocês dois, a mãe dele...

 

R _ A mãe dele e as irmãs. Duas irmãs. O pai. A mãe era casada. E alguns irmãos. E pelo fato de ser brasileira, eu era que tinha mais capricho pela casa, quem cuidava mais. Acabei assumindo a casa. A mãe dele me agradava de todas as maneiras. Inclusive colocaram uma mesa para mim, porque lá não existe mesa. Você come no chão ou numa mesinha pequeninha. Café da manhã ou almoço é uma bandeja bem grande de alumínio. Assim, com mais de um metro, com café, batata, pão. Ou é uma mesinha pequenininha com uma bandeja menor. No chão, normalmente no chão. Então eu tinha uma mesa normal como aqui no Brasil. As refeições eram completamente diferentes das nossas. Inclusive com certa semelhança. Café da manhã não é como aqui, que a gente tem uma diferença da hora do almoço. É mais ou menos quase tudo igual. E sempre com pão, carne, batata. Pode ser no café. Com chá ou coca-cola, que na época tinha. E na hora do almoço quase a mesma coisa mais a carne. E a noite, a mesma coisa. Ou aqueles cremes de babaganuch, aquele de homus. Outro que é feito de berinjela. Babaganuch, é esse. Homus é com grão de bico. E a gente almoçava e os homens iam jogar cartas, ou visitar uma casa ou outra. Tinha luz umas duas ou três vezes por semana. Tinha um motor que fazia um barulho enorme, a gasolina. E quando tinha luz na casa inteira, ia lavar roupa. Vamos fazer tudo. E depois a luz só vinha noite, em determinado momento. Então, a maioria do período era sem energia. Eu queria aprender árabe, mas ele era muito ciumento. Não deixava falar com ninguém. Essa minha amiga quando começava a ensinar inglês, ele puxava e me trazia de volta para casa. Teve até um fato interessante, Jacques Girard estava em campanha em Beirute, eu cheguei a conhecê-lo. Ele era amigo de um dos irmãos do meu ex-marido. Eles tinham restaurante lá na França e trouxeram Jacques Girard. Ele foi apresentado. Então eles vinham. Às vezes faziam almoço. Esse meu cunhado que morava na França, estava em Beirute nesse período, então eles faziam jantares. E aí sim, tinha uma mesa. Mas como eu era mulher, ele me cumprimentava e até me convidava para ficar na mesa, pelo fato de eu ser brasileira. Mas como não tinha nenhuma mulher, ia ser muito diferente, eu preferia ir para o quarto como todas as outras. Faz a comida, serve e vai todo mundo para o quarto. Inclusive, quando eu era casada. Se eu estava no colo do meu marido, estava perto ou se estava abraçando, estava beijando, corria todo mundo da família porque era um escândalo. Eu tinha uma cunhada que tinha acabado de se separar. Tinha já um tempo separada e tinha um rapaz interessado nela. Então eles ficavam conversando distantes. Ela de lenço e o máximo que ele conseguia fazer com ela, era tocar a mão dela quando ia ao banheiro ou ia beber água. Alguma coisa assim. Era um absurdo. Um escândalo. Eu não usava o lenço. E às vezes eu tinha alguns conflitos com meu ex. E a forma que eu encontrei de defender foi conhecendo o sheik. Então eu aprendi a dizer para o sheik, que meu marido estava me maltratando ou fazendo alguma maldade comigo. E aí, o sheik o chamava e metia bronca. Em Beirute, eu também procurava seguir os costumes, não saía de casa, andava de cabeça baixa. Se chegasse algum homem, eu oferecia uma coca-cola ou café. Servia e saía, e deixava-o só. Tinha também outro costume: não se cumprimenta a mulher tocando a mão. Se for muçulmano, põe a mão no peito e fala as palavras dele. Se ele tocar a mão de uma mulher, ele tem que dar esmola, porque ele está sujo. É assim. São os costumes. Então fui conhecendo os costumes. Mas eu tive um momento de glória quando eu conheci o embaixador do Brasil em Beirute. Ele sabendo que eu fui funcionária do Anuário das Indústrias da FIESP, fez um jantar para mim. E foi uma história passar da parte muçulmana para a parte cristã, porque era muito perigoso. Inclusive, uma das vezes que nós estávamos lá fazendo esse percurso, começaram a atirar, com metralhadoras. Tátátátátá. Aquele monte de tiros e aí todo mundo saiu dos carros. Aí a gente precisava esperar para poder passar ou voltar, porque estava com medo. E outra coisa interessante: às vezes, nós íamos de Beirute para Baalbeck, que é a parte que tem as fazendas, as chácaras. E em toda esquina, como é uma cidade que sempre esteve em guerra, nunca deixou de estar, tinha barricadas. E aí, eles param para revistar os carros. E quando eles falavam que tem uma brasileira no carro, o que iam pensar deles, eles deixavam passar. Não precisava revistar, o verdinho tinha toda glória. Era o máximo.

 

P/1 _ Quanto tempo você ficou em Beirute, você viveu em Beirute?

 

R _ Eu fiquei em Beirute quase dois anos. Eu fui para Beirute duas vezes. A intenção era que eu ficasse em Beirute, e ele pudesse ter outras mulheres onde ele quisesse. Já que eu era a principal, eu ficaria morando com os pais deles e ele casaria com quantas quisesse, em outros países. Em outras cidades, como tivesse vontade. Graças a Deus, devido a muitas orações, eu voltei.

 

P/1 _ Quando você fala voltou. Voltou para onde?

 

R _ Voltei para o Brasil. Voltei a morar no Brasil. Ainda fizemos uma tentativa de morar na França. Aí eu vim grávida de Beirute.

 

P/1 _ Do seu primeiro filho?

 

R _ Da minha primeira filha. E a minha primeira filha, quando eu era casada, lá em Beirute, eu tinha acesso. Andava, falava mais ou menos, como todo mundo. Aqui no Brasil, eu vivia em cárcere privado. Não com tanto rigor, mas era assim. Exatamente. Eu não saía de casa, não falava com ninguém, minha família não podia falar comigo. E às vezes, uma vez por mês, eu saía de casa e às vezes ia à praia, na época que eu morei em Olinda com ele, de cabeça baixa e voltava. E mesmo nas viagens, de cabeça baixa. Mesmo na Espanha, quando nós estávamos indo para Beirute ou voltando. Às vezes tinha algum show do próprio hotel, eu não podia olhar para o artista, tinha que ficar ouvindo de cabeça baixa, não podia levantar a cabeça. Não podia olhar homem nenhum, não podia falar com homem. E mesmo aqui no Brasil, quando eu vim para ter essa filha, eu não podia ver minha família. Eu tinha medo de ir ao médico, eu tinha medo do homem que ia olhar a luz, tinha medo do homem que ia marcar a água. De tudo. Porque se ele visse, ele ia me maltratar. Ele me ameaçava, então andava de cabeça baixa, não falava com ninguém. E minha família toda sofria porque queria me ver, ter contato comigo, e não podia. Durante todo esse período, eu quis mostrar que a brasileira pode ser correta, que eu tinha formação. Não era o que ele estava pensando. Mas são costumes, costumes. A mãe dele costumava bater na parede e dizer que a cabeça dele era igual. Ela batia assim e mostrava. E mesmo quando eu estava grávida, nós chegamos a ter um restaurante em Olinda, restaurante grande com playground, apartamento enorme em cima do restaurante. Chegamos a lotar, ele chegou a cozinhar para quase trinta, quarenta pessoas sozinho. Mas mesmo nesse local, eu falava com uma ou outra pessoa. Eu ficava o tempo todo escondida, de cabeça baixa, porque se alguém me achasse simpática e desse boa noite, eu poderia ser maltratada fisicamente, por causa daquilo. Se ele tivesse mais nervoso, ele jogava comida em mim, jogava o que estava na frente. E aí começou o meu dilema. A minha filha até um ano de idade nunca tinha ido num médico. Tudo que ela tinha eu resolvia com massagem, porque eu conheço massagem. Era massagem para febre. Massagem para dor de barriga. Passava a noite fazendo massagem, no dia seguinte, ela defecava bem fedido assim e ficava boa. Conversava com empregado. Conversava com um e outra. Via até que estavam roubando o restaurante e se eu falasse, ele vinha para cima de mim. Então, nesse período que eu comecei a viver trancada, era um ciúme insuportável, eu cheguei a ser socorrida em hospital toda machucada. A minha família toda revoltada, porque não conseguiam falar comigo. Um dia meu irmão foi na minha casa lá em Olinda, armado, para me buscar. E ele ficou revoltado. Até hoje, acho que ele tem revolta de mim, porque não conseguiu me tirar, naquele momento, daquela casa. Eu não deixei. Eu falei, eu vou ficar e só vou sair o dia em que eu sair em harmonia. Sem morrer ninguém, sem matar ninguém. Eu não vou deixar você se prejudicar por minha causa. O erro é meu. Eu tenho que resolver. Ele saiu revoltado. Mas graças a Deus, ele é uma pessoa direita hoje. Não está preso. Não está na cadeia por culpa minha. Nós vivemos lá e depois vendemos esse restaurante. Depois fomos para outro mais simples.

 

P/1 _ Sempre em Olinda?

 

R _ Fomos de Olinda para o centro de Recife. Minha filha nasceu.

 

P/1 _ Sua outra filha?

 

R _ Ainda era essa. E aí eu fui morar na Boa Vista. Aí tem outra história. E na Boa Vista, a minha vizinha ficou amiga minha e se apaixonou pela minha filha, Soraia. Socorreu-me várias vezes dele. E ainda comecei a frequentar centro espírita com ela. Acompanhava ela, ia à Federação e não sei aonde. E às vezes eu ia lá. Era tão sério que às vezes ele me empurrava no chão, eu saía toda ralada. Quebrava o que tinha na frente. E essa senhora passou a cuidar mais da minha filha. Era uma paixão. Parecia que ela era a mãe dela. E eu tinha empregada. Maltratava-me e no dia seguinte pedia perdão. Eu perdoava para viver bem, mas aí o negócio começou a ficar mais sério. E um dia eu tive coragem e fui dar queixa na delegacia. E dei. Ele era tão artista. Ele é tão artista, que ele ficou amigo da delegada. Ele teve um caso com a amiga da delegada. E ele ainda conseguiu pegar a amiga da delegada e levar para o Líbano junto comigo. A intenção era que eu ficasse lá e ele voltasse com ela. Ele tinha negócios com ela e queria mais uma. E mesmo no avião. Ele estava comigo e dava atenção para ela. Eu cheguei a viver momentos de terror assim. De ele exigir que eu aceitasse, que ele casasse com mais uma pessoa.  E eu dizia não. Ele quebrava a casa inteirinha em cima de mim. Chegava jogando copo, comida, quebrava tudo. Tremia. Tremia. Chutava-me de cima a baixo. Eu ajoelhava e pedia a Deus para não ter raiva daquele homem, porque não sabia o que estava fazendo. E eu era tão ingênua, que eu dizia que se eu o amasse direito, ele não ia fazer aquilo comigo. Eu perdoava, procurava ficar bem. E começava de novo. Além desse problema, com esse envolvimento com essa delegada, surge outro. Vamos para Beirute montar negócio. Foi eu, ele e essa pessoa que se tornou sócia dele com pedras. Pedras preciosas para vender em Beirute. Eu deixei a minha filha Soraia com a madrinha. Deixei quase um ano. Porque lá em Beirute, as tias estavam todas de preto, que a mãe tinha morrido. Soraia morria de medo. Ela tinha medo de tudo. Então eu a deixei com a madrinha. E eu vivi um tempo lá em Beirute, quando eu voltei para pegar a minha filha com a madrinha, ela não queria me dar a minha filha.

 

P/1 _ Quem era essa moça?

 

R _ Ela é pernambucana, do centro de Recife. E foi minha vizinha e tornou-se madrinha da minha filha mais velha.

 

P/1 _ Aquela vizinha?

 

R _ Tornou-se madrinha dela, por amizade, convivência. Acabei deixando minha filha com ela. Ela era uma ex-professora. Então ela cozinhava, ela vestia, costurava para minha filha, fazia lição, fazia tudo por essa filha minha. Deu muito trabalho, eu conseguir pegar a minha filha de volta quando eu voltei, já grávida de outra. Eu só me lembro do primeiro parto, do segundo não me lembro, e do último porque foi quando eu voltei. O do meio não lembro. Ah,

Eu estava em Recife. Essa primeira filha ela ficou de madrinha. A segunda ficou de madrinha, a filha dela. Passei um tempo em Recife com ela com minha filha, próximo dela. Nasceu mais outra, que meu marido rejeitou, porque era menina. Porque nos costumes muçulmanos, um casamento só tem futuro, só é feliz, se tiver filho homem. Porque é aquele que vai brigar em tempos de guerra, quem vai proteger a família, quem recebe a herança. Mulher não tem direito a herança. Nem se for a filha mais velha. Recebe a criança. Ela toma conta da herança até a criança crescer, o menino. Até ele crescer e aí ela devolve para o menino. Ela não tem direito a nada. Nasceu essa minha filha. Inclusive, eu coloquei um nome dela para homenagear o pai do meu marido. Tem um nome árabe no meio.

 

P/1 _ Que nome?

 

R _ É Fátima Ainaia. Aliás, estou fazendo confusão. É Fátima Ainaia de Queirós

Eu coloquei o nome da tia, da irmã dele para homenagear a irmã dele, para ele aceitar mais o nascimento de uma filha mulher. A outra foi outra coisa. Teve uma coisa semelhante e outra filha. Aí tem um período que elas estão comigo. A Soraia e a Fátima. Depois eu volto para Beirute com as duas filhas. Não, Soraia fica. Eu volto só com Fátima. E assim. Eu fui exemplo para a família, porque minha filha estava sempre bem cuidada, limpa, perfumada, arrumada. Meu cunhado francês, inclusive, não pegava os outros sobrinhos no colo, mas pegava a minha filha. Até a minha amiga, que era professora lá em Beirute, professora de biologia, ela dizia para os alunos: “Vocês ou tomem banho ou ponham um perfume”. Eles compravam perfume e não tomavam banho. Por exemplo, meu cunhado estava nos visitando, tinha saído da França e estava visitando Beirute. E ele ia ao banheiro e molhava o cabelo e quando chegava à sala, davam os parabéns que ele tinha tomado banho, mas ele não tinha tomado banho, ele molhou o cabelo. Porque o frio era muito grande. Tem luz ou não tem. Tem água ou não tem. E mesmo quando eu estava em Baalbeck, eles acendiam uma espécie de fogareiro no meio da casa, tinha que esquentar a roupa para poder tomar banho. E cheguei a pegar dezessete metros de altura de neve. Abaixo de sete graus de frio.  Eu também passava dois, três dias sem tomar banho porque não aguentava. Era um frio muito grande. Era muito difícil. Era muito sofrido tomar banho. Eu, inclusive cheguei a ficar presa em Baalbeck por causa da neve que não podia atravessar. A gente chegou a atravessar uma montanha a pé. Uma grande montanha para poder conseguir. E agora? Onde estou?

 

P/1 _ Você está em Beirute com a filha.

 

R _ Estou em Beirute com a minha filha. Meu ex marido me deixa algumas vezes em Beirute e viaja para o Brasil. Quando ele não estava, eu tentava aprender inglês com minha amiga que morava do lado. Eu cuidava da casa e aguardava ele voltar. E aí teve um momento que eu fiquei grávida. Eu fiquei grávida em Beirute da última filha, Alessandra.  E eu comecei a ameaçar que “Ou eu voltava para o Brasil ou eu vou morrer. Eu não vou ter filha aqui. Eu vou acabar com a minha vida. Eu não vou ter filha aqui”. Aí ele concorda em voltar para o Brasil. Eu vou para Recife para ter essa última filha e ele fica em São Paulo. Graças a Deus que eu voltei para o Brasil. E foi daí que começou a separação harmoniosa, entre aspas.  Eu vim ter a última filha. Eu fico na casa da minha mãe.

 

P/1 _ Aí você reencontrou sua família?

 

R _ Isso. Eu fiquei na casa da minha mãe porque ele ficou em São Paulo. E eu fiquei sozinha em Recife. Na casa da minha mãe, meus irmãos me recebem bem. Três filhas. Mas eu estou sem dinheiro. Acabada emocionalmente, perturbada, cheia de medo, cheia de traumas. Foram quase cinco anos sem falar, sem sair sozinha, sem falar com homem. Nesse período, meu irmão noiva. Eu só vou para o noivado se não tiver homens estranhos. Eu só vou se tiver só gente da família, se não, eu não vou. Continuei vivendo como muçulmana. Só saio com a empregada ou mais alguém. Eu precisei fazer algumas permutas para comprar berço, as coisas das crianças. Eu não sei se vou continuar com ele ainda, ou não. Eu queria me separar, mas teria de ser uma separação harmoniosa, porque senão ele poderia vir me matar. Ele ameaçava me matar ou tomar os filhos. Inclusive, na documentação consta o meu sobrenome e o sobrenome dele. Eu apanhei muito por isso. Briguei muito por isso. Ele queria colocar só o sobrenome dele. Não queria colocar o meu sobrenome. Já pensando que se acabar, pega os filhos dele e leva embora. Eu me lembro que eu chorei para atravessar a rua sozinha, que eu não sabia mais. Eu precisava começar a minha vida de novo. Meus irmãos se juntaram e alugaram uma casa. Montaram um apartamento para mim com empregada e tudo. Eu arranjei um trabalho lá em Recife, mas não tive sucesso. Eu fui a maior vendedora numa equipe de doze homens, mas não entregaram os produtos, as máquinas que eu tinha vendido e eu saí muito chateada. E fiquei um tempo nesse apartamento. E fui para o médico para me cuidar. Médico homeopata e comecei uma turnê para conseguir ficar bem. Eu chego ao consultório do médico e falo que tenho três filhas. Estou separando. Estou um caco. Vivia com um muçulmano. Não falava com ninguém. Fui maltratada fisicamente por anos e anos a fio. Vivi terror. Era terror o tempo inteiro. Eu preciso ficar bem. E chorando. “Eu não tenho forças. Não tenho coragem para lutar. Não agüento.” Eu lembro que esse médico sentou do meu lado e colocou dois dedos no meu braço assim e fez neurolinguística comigo. E disse: “O que você está precisando para vencer? Imagina que tem tudo numa caixinha”. Eu até imaginei uma caixinha árabe. Uma caixinha com desenhos árabes. “Força. Coragem. Amor. Destino. Imagina que você está conquistando tudo isso e você já tem. Você vai ver essa caixinha com tudo que você quer”. Eu fiz esses exercícios alguns dias. E deu um empurrão, consegui dar uma andada. Daí fui fazer terapia analítica, rogeriana. Esse médico, na época que ele me atendeu, eu não sabia, a esposa dele tinha acabado de ser assassinada. E ele estava sofrendo para conseguir suportar a dor no trabalho. E ele me ajudou e depois eu pude ajudar ele. Aí depois ficamos amigos e ele me contou que tinha perdido a esposa assassinada e que ele precisava se mudar. Ele era meu vizinho, esse médico. Morava na frente do prédio em que eu morava. Coincidência não existe. E aí ele disse para mim que estava desesperado, que queria mudar da casa que ele viveu vinte tantos anos para um apartamento que os filhos não queriam ficar na casa. Aí, nesse período eu montei para ele um relaxamento com música da Enya. Preparei um texto e escrevi assim: “Tomo consciência de que a minha mulher não está nos móveis, não está na casa, mas dentro de mim. Dentro de mim, a força do seu amor e muita gratidão. Tanto ela como eu, queremor ver nossos filhos felizes. E com esse amor eu vou mudar. Vou começar uma vida nova. Vamos ser felizes nesse apartamento. Dentro de mim há a força do seu amor e muita gratidão”. Aí falo mais, mas não me lembro dos detalhes. Sei que ele ficou super feliz com essa fita que eu mandei para ele. Ele também me ajudou bastante. E aí, nesse apartamento que eu fiquei com as minhas três filhas, inclusive com empregada, eu não estava feliz. Eu me sentia como se estivesse recebendo esmolas do meu irmão. Eu sabia que tinha potencial. Chorava e ficava bem. E aí eu comecei a fazer as afirmações da Enya: “Estou num processo de mudanças positivas. Tudo que eu preciso saber vai ser revelado. E tudo que eu preciso vai me ser dado. Eu vou vencer”. E tinha um lago próximo de onde eu morava, muito bonito, que a gente fazia cooper nele, nesse local. E eu ia fazer cooper fazendo essa afirmação. Daí um dia, aparece uma amiga daqui de São Paulo e paga a minha passagem de avião e me dá um emprego com o marido dela. Porque confiava em mim e queria que trabalhasse com ele. Aí eu distribuo os filhos, sob a revolta da família, cada um vai para um lado.

 

P/1 _ Ficaram com quem?

 

R _ A Alessandra e a Fátima ficam com a minha irmã e minha mãe, e a Soraia ficou com a madrinha. E eu vim para São Paulo começar tudo de novo. Alugo um cantinho. Moro num cantinho e começo a trabalhar e a seguir, passei quase um ano... Aí bagunça tudo, porque não sei a sequência bem dessa história.  Eu estou trabalhando, vendendo móveis para as lojas. Visitando São Paulo inteiro, já faz um ano. E minha família faz pressão que eu devo pegar as meninas. Eu pego as meninas e já fazia alguns anos que eu estava separada do meu ex-marido, fazia dois anos. Ele não conhecia a última filha. Quando eu fiquei em Recife, aos poucos a gente foi se afastando. Eu só preciso concluir... Em Recife, enquanto eu estava lá, eu me esqueci de contar, nesse apartamento que eu estava, minha filha teve pneumonia e derrame pleural. Provavelmente sentindo as coisas que eu também sentia: a angústia, a mágoa. Toda dor que eu tinha, insegurança. Ela passou trinta dias internada dentro de um hospital, a Alessandra de um ano. E eu passava o dia inteiro escrevendo naqueles papéis de enxugar a mão. “Minha filha é forte e saudável. Vai vencer. É filha de Deus. É perfeita”. Eu escrevia. “Ela tem saúde. Ela é saudável”. Escrevi e escrevi. Depois que eu terminava de escrever eu fazia massagens em Ale. Punha ela para dormir com massagens. Dormia o dia inteiro e escrevia, e depois, eu ia ajudar as outras mães que estavam com problemas semelhantes. Isso no IMIP, em Recife. Morreram muitas crianças. Morreram umas cinco, seis. Aí eu dava ajuda. Ajudava cada um e depois colocava minha filha para dormir, e graças a Deus eu consegui saída. Ficou bem e tal. Depois essa minha amiga surge e me convida para morar em São Paulo. Sob protestos, deixo Recife e volto para São Paulo.

 

P/1 - A separação mesmo quando se deu? Ele foi ficando lá e você aqui. E ele aceitou a separação.

 

R _ Na distância, a gente foi deixando de se falar, foi se afastando. Provavelmente, ele estava com alguém aqui porque ele nunca me procurou em lugar nenhum. Ficou com alguém em São Paulo. Quando cheguei a São Paulo entrei com separação, pedindo separação a revelia. Passei um tempo com essa minha amiga em São Caetano, inclusive ela é advogada. Essa separação a revelia. Ele não ia ler um jornal. Ele não lê bem em português, que ele é árabe. Quando eu fui ter outro contato com ele, eu já estava separada. E aí me pressionaram para eu buscar as filhas. Então, eu apresento essas três filhas. Apresento essa última filha a ele e ele pressiona que quer voltar. Eu ainda dou uma chance. Nessa época, eu estava na Santa Cecília, num kitzinho. Trabalhava vendendo móveis para lojas. E dei uma chance a ele. Usando o conhecimento que eu aprendi a vida toda, eu consegui fazer, abrir as inscrições para leiloeiro oficial em São Paulo. E consegui ser leiloeira oficial. Nem o próprio pessoal da Junta Comercial sabe como foi que eu consegui. Tinha que ter a vida reta de dez anos para trás. Eu tinha, estava tudo em ordem. Consegui ser nomeada, tomei posse. É uma função de prestígio. É a mesma coisa de um juiz, que é considerado de fé pública, já que recebe os bens do Estado. Só que eu tinha feito rifa, para conseguir ser leiloeira. A fiança era alta. E com a vinda dele para mim ficou um retorno, uma relação. Acabou bagunçando tudo. Inclusive tinha muitas jóias que eu fui perdendo. Ele fez muita coisa errada. Até que eu dei um basta e botei-o para fora e resolvi começar a minha vida só.  Aí eu passo ainda um tempo em São Paulo. Volto para Recife. Volto para Recife e vou morar na frente da madrinha das meninas.

 

P/1 _ Quantos anos elas tinham mais ou menos nessa época?

 

R _ Nove, por aí. Era uma escadinha. Oito, nove e onze. Uma tem dois anos de diferença. Peço exoneração da minha função de leiloeira. Peço não. Continuo leiloeira e vou para Recife. Eu tentei fazer um leilão aqui, mas não tive sucesso. Eu cheguei a fazer um leilão no Bexiga, um leilão de arte, com bufê alemão, tudo chique e tal, dentro da Galeria do Bexiga. Mas não tive retorno financeiro em relação aos custos. Não tinha ainda, como se fala, a maturidade de fazer uma reserva, de ter uma reserva. Aí volto para Recife e vou morar na frente da casa da madrinha das meninas. Eu vivia, ficava de cama e ela assumiu a vida de mãe. Ela vestia, ela dava de comer, a madrinha levava as três para escola. A madrinha fazia as lições. E elas me rejeitavam. Aí meu ex-marido, agora já ex-marido casa em São Paulo. Eu estou em Recife. E ele casa em São Paulo com uma médica. Pede para ver as meninas. Eu fico num hotel em São Paulo, convidada por ele, com tudo pago por ele e por ela. Deixo ele pegar as meninas para ver e ficar com elas. Ele convive com elas algumas vezes e aí ele esconde as três. Primeiro ele me humilha dizendo que eu não tenho dinheiro para dar presentes no Natal. Humilha-me que eu não tenho condições de educá-las. E eu, devido aos problemas emocionais que eu já tinha, as minhas limitações... Não tinha tanto conhecimento quanto eu tenho hoje da parte jurídica. Porque nós estávamos também casados nas leis brasileiras. Ele some. Não paga o hotel.

 

R _ Onde eu estava?

 

P/1 _ Estava no hotel.

 

R _ Eu estou num hotel na Brigadeiro Luís Antônio. Deixo as crianças com ele. Algumas vezes ele traz. Acho que como se tivesse preparando. E num determinado momento, ele não paga mais o hotel.  E é para eu ser mandada embora do hotel. Eu estava com uma roupa na bolsa e outra no corpo. Ele esconde as três e me deixa a ver navios. Aí começa a história. A parte mais difícil. Eu faço parte de uma instituição, que eu não posso falar o nome. Tem apenas uma propaganda: “quando você está pronta, uma força maior te chama”. É essa a propaganda. Eles não fazem propaganda em nenhuma mídia e eu não tenho o direito de falar. Mas nessa instituição que eu faço parte, eu fiz um curso. Eu ganhei um curso de presente de Natal. Esse curso me dá um crachá, que me dá acesso a essa instituição em qualquer lugar do Brasil, hoje, do mundo. Na época, mais do Brasil. E tinha feito o curso, ganho até o curso. Tinha ido para Recife, quando voltei, retomei e fui lá à instituição. E amizade tem um valor muito grande. Respeito. Bondade. Então eu tinha alguns amigos. Inclusive, tinha uma pessoa que me levava. Tem um curso que repete. Quando a gente quer, repete esse curso. E tinha uma amiga que me trazia e me levava para a instituição. Voltava. E aí começou meu desalento, mas sempre tinha alguém que dizia que o seu lugar de chorar é aqui. Quando você tiver com problemas, meu ombro está aqui. Lá dentro tinha um restaurante onde a gente conversava, batia papo. Virava a noite batendo papo. Um empresário me chamou para trabalhar.

 

P/1 _ O que você foi fazer?

 

R _ Eu fui vender mármores e granitos. Eu não tinha roupa. Deram-me um monte de roupa usada. Uma roupa boa, arrumada.

 

P/1 _ E você ficou morando nessa instituição?

 

R _ Então, ainda estava no hotel. Aí arranjei emprego. Uma pessoa me arranjou lugar para morar numa pousada em Pinheiros. Eu comecei a trabalhar fazendo a região de Pinheiros. Meu trabalho era de relações públicas de uma empresa que colocava mármores e granitos em obras, prédios, residências. Então, eu andava Pinheiros inteiro ouvindo barulhinho. Se tinha alguma maquininha, se tinha algum local em obra, e quando tinha obra eu entrava e apresentava a empresa. Pedia para fazer orçamento com a empresa que eu trabalhava. Tive sucesso, coloquei, fiz um cadastro grande de umas trezentas empresas. Visitei muitas, realmente dei uma levantada na empresa desse senhor que me convidou para trabalhar. Ele bancou passagem. Ganhei roupa. E aí entrei com uma ação na justiça para pedir a guarda das crianças, para tomar a guarda das crianças.

 

P/1 _ Elas estavam no Brasil ainda?

 

R _ Estavam no Brasil. Eu vivi um dilema muito grande. Porque se eu pegasse as crianças, onde eu ia ficar com as três. Se eu deixasse com ele, ele iria levar para o Líbano, com certeza. E se eu ficasse com as três, como eu ia trabalhar. E se eu fosse trabalhar como eu ia tomar conta delas. Se eu não trabalhasse, como eu ia sustentar. Daí veio uma grande lição. Hoje, essa lição foi lágrimas de sangue, mas foi uma grande lição. Quando eu estou mal, deprimida, para baixo, os problemas aumentam de tamanho. Quando eu vou ao cinema e relaxo, namoro, transo, passeio, espaireço um pouco, eu fico melhor, e os problemas diminuem de tamanho. Não são os problemas. Eu tive todos eles junto. Casa, moradia, filho. Tudo, tudo junto. Mas eles foram vencidos. Veio e foi vindo. Então consegui esse trabalho. E tinha uma senhora nessa instituição que não gostava de criança, mas ela precisava de uma pessoa para morar com ela um tempo. E aí ela combinou comigo: “Quando você estiver com as três na sala, eu vou para o quarto. Se você estiver no quarto, eu vou para a sala”. E assim foi. Agora eu já teria um lugar para colocar as crianças. Mas disso, se passou quase um ano. Aí eu entrei com a ação. Eu consegui descobrir onde ele morava e a justiça me deu ganho de causa. Uma pessoa dessa instituição disse para mim que eu não fosse sozinha, que eu precisava de ajuda. E eu fui com um amigo muito querido. E deixei-o num lugar escondido, que eu não queria que ele se expusesse e se envolvesse no problema. Até uma das minhas filhas não queria vir. Puxei as três. Saíram chorando e fui morar na casa dessa amiga com as três. Lá em Pinheiros mesmo, tem uma instituição numa igreja chamada Nossa Senhora do Calvário. Lá tem um berçário, digamos assim, para as crianças, na idade que elas estavam que passava o dia inteiro. Pronto. Já deu uma aliviada. Aí vim trabalhar para tentar sustentar e manter as três. Como eu tinha sido leiloeira oficial em São Paulo. Eu tinha um dinheiro, que era fiança de leiloeiro. Eu tentei fazer leilão, mas precisava de infra estrutura. Precisava seguir uma norma. Uma ordem que eu não sabia como e se ia acontecer. Ou não tinha condições financeiras de buscar leilões e bancar. Então resolvi pedir exoneração da função. E aí tinha que sair no Diário Oficial até conseguir tirar o dinheiro. Por milagre, eu consegui. Entrei com a ação através de advogado. Consegui um advogado. Entrou com ação, dizendo que o motivo era guarda e manutenção dos filhos. E a Junta Comercial me deu. Foi unânime em autorizar a minha exoneração. E aí com esse dinheiro eu montei uma casa. Um apartamento no mesmo prédio dessa senhora. Montei uma casa em quinze dias. Comprei um colchão de casal e uma televisão, que eu trouxe na mão. Televisão pequena. Paguei o barzinho da esquina, minhas filhas eram pequenas e não podiam estar andando, e o cara do barzinho ia deixar lá o almoço para as três. Elas ficavam na televisão quando chegavam da escola ou quando estavam em casa. Fui comprando tudo e montando a casa. Graças a Deus sozinha. Elas continuaram estudando. Depois, eu consegui escola próxima de casa. Mas o estrago que esse homem fez, as maldades que esse homem fez comigo foram sem tamanho. Depressão, medo de andar sozinha, medo de ficar sozinha em elevador, medo de estar sozinha dentro de um apartamento, medo de situação nova, traumas, nervoso, descontar nas crianças, bater nelas, já que eu tinha sido maltratada fisicamente... Eu continuava com a minha turnê de procurar ficar bem. Não jogar nelas, para ser uma boa mãe.

 

P/1 _ Depois o que você foi fazendo de profissão, você continuou com esse trabalho? Quando a gente conversou você falou que fez uma série de coisas.

 

R _ Então, aí eu continuei com esse trabalho de mármore. Depois fui trabalhar na Atento como operadora de telemarketing, porque era meio período. Na Atento dei ginástica laboral, fui brigadista. Era muito querida, ajudava todo mundo, era muito útil. Mas não consegui bancar as filhas sozinha. Aí eu comecei pedir ajuda a ele. Eu pedi ajuda a ele. E ele dizia: “Amanhã. Ligue mais tarde. Daqui a pouco eu mando”. “Eu estou passando fome. Não tenho o que comer”. “Daqui a pouco. Depois eu vou aí”. Geladeira seca, vazia. Eu convivia nessa instituição toda elegante, toda arrumada, toda bonita, toda sorridente. Ninguém sabia o que eu estava passando, mas eu passei tanta fome, tanta fome.  Esse período, eu dizia: “Meu Deus. Eu não quero dar minhas filhas. Eu não vou dar. Vou lutar mais um dia. Amanhã ou depois eu vou conseguir”. Eu fazia milagres. Eu consegui ser uma boa vendedora, uma boa funcionária, ter sucesso. Se eu gastava minha energia todinha no supermercado com três reais, cinco reais.

 

P/1 _ E as meninas já eram grandes?

 

R _ Elas já eram grandes e não percebiam nada. Eu as deixava sair, deixava elas irem para as casas das amiguinhas, para não perceber que estava faltando, que não ia ter o que comer em casa. Nesse período ainda, vendi gravata para um amigo em estacionamento à noite. Teve uma época que eu fiquei com dois trabalhos. Escondido de uma empresa arranjei mais outro. Depois, descobriram e uma me mandou embora. Na Atento eu me mantive, mas não dava. Cheguei a trabalhar dois anos. Mas não dava para bancar a comida. Não dava para bancar tudo. Eu não sabia que ele fazia maldade, quando dizia para eu ligar amanhã. “Ligue depois”. Ele mexia com magia. Na época, minhas filhas eram boas alunas.

 

P/1 _ Quantos anos elas têm hoje?

 

R _ Uma tem dezoito, vinte, e vinte e dois.

 

P/1 _ Faz tempo isso.

 

R _ Faz tempo, mas foi muito forte. Era isso que eu queria arrumar e contar.

 

P/1 _ Aí como você resolveu?

 

R _ Então, minha mãe me ajudava.

 

P/1 _ Sua mãe estava em Recife?

 

R _ Minha mãe estava em Recife. Ajudava-me. Eu consegui ter coragem de entrar com ação na justiça e ele foi preso. Pagou pensão. Eu o coloquei na justiça para ser preso umas cinco vezes. Eu comecei a ter um pouco mais de noção de como funcionava tudo. Então, quando saía a ordem de prisão, eu pegava cópia e ia até o delegado e pedia para colocar o meu caso na frente e instruía como ele ia prender. Tinha que dizer que ele era árabe, que mexia com roupa usada ou que mexia com móvel usado. E ele conseguiu prender umas cinco vezes. Ele pagava e eu acertava todas as contas para trás.  E começava de novo. Elas eram pequenas e eu dominava e organizava tudo. Arrumava tudo. Minhas vizinhas todas adoravam as três. Porque elas eram simpáticas, servis, gostavam de abrir a porta do elevador. Quando chegava a época do Halloween, elas distribuíam bilhetinhos no prédio inteirinho e no outro dia, ia com um balde e voltava cheia de doces e chicletes. As minhas vizinhas batiam na minha porta o tempo inteiro: “Eu adoro as suas filhas. Eu fiz essa torta de morango e metade é para elas”. E eu não contava para ninguém o que estava passando. Tinha outra que trabalhava numa pizzaria e dizia: “Sobrou esse monte de massa e eu trouxe para você. Pizza de chocolate, de banana”. Graças a Deus. Era o tempo inteiro. E amigas minhas: “Olha eu estou indo para a Instituição. Deixa eu te levar. Eu não vou para lá, mas estou indo próximo e deixo você lá”. E graças a Deus elas foram crescendo. Minha mãe chegou a pedir, meu apelido é Vivi, que é Márcia Viviane: “Vivi, (minha mãe era viva), me dá uma dessas. Deixa a Ale comigo. Dá uma filha para mim”. “Mãe, esse é o caminho mais fácil, mas esse não é o mais correto. O correto é que eu fique com as minhas filhas”. Aí eu fiz uma turnê também. Turnê em religiões. Eu fui para a Universal, para o Centro Espírita. Primeiro eu fui para o Centro Espírita. Eu fui voluntária do Gasparetto. Eu fui escolhida entre duzentas pessoas. Ele escolheu sete. Eu trabalhei com o Gasparetto. Eu ajudava as pessoas a se curarem fazendo relaxamento, enquanto elas me contavam seus problemas. Por exemplo, a pessoa estava sofrendo. Tinha uma senhora que me marcou. Ela ficou viúva com sete filhos, e ela estava em depressão. Ela ia lá nesse local, na Lucas Orbes. Um trabalhava com cromoterapia. Um com cristais. A maioria era médico. E eu estava no meio como professora de yôga. Então eu colocava a pessoa numa posição relaxada, fazia respirar. “Imagina a energia do sol na sua frente. Deixe esse sol te envolver. Te aquecer. Você é forte. Sinta a alegria. Sinta a coragem. Sinta a fé. Você pode. Você é vencedor”. E a pessoa saía dali. E passados uns meses ela voltava com uma caixa de biscoito, de chocolate para agradecer, que estava bem. E trabalhei no CVV. Fui voluntária também das pessoas. Depois fui para a Universal. Fiquei. Eu passava mal, eu sentia entidades perto de mim. Eu sentia crises de medo. Eu sentia medo antes de sair para trabalhar. E aí eu fazia exercícios. Eu fiz exercícios para apagar todas as situações de maus tratos físicos que eu vivi. Eu tinha aulas de yôga. Mas depois que eu passei tudo isso, eu não conseguia dar aulas com a mesma facilidade. Era um sofrimento. Era uma dor tão grande. Eu queria dar aulas, eu sabia dar aulas. Eu tinha respeito, eu tinha amor. Queria ser útil e não conseguia. Aí, às vezes tinha um aluno, dois, três. As pessoas saiam numa alegria da aula, mas até eu chegar à aula era um sofrimento. Eu já estou concluindo, mas eu queria contar umas coisas.

 

P/1 _ Só uma coisa: depois você casou novamente? Como você conheceu esse marido?

 

R _ Só vou concluir. O casamento é agora, faz pouco tempo. Como eu poderia dar aula de yôga se eu estava arrebentada por dentro? Como eu poderia fazer bem para as pessoas se eu estava um caco? Se o meu emocional estava imprestável? Eu usei neurolinguística, acupuntura, homeopatia, endocrinologia. Tudo que foi possível para eu ficar bem. Mas além desses problemas tinha o lado espiritual, que ele mexia com magia. Mas eu tive algumas alegrias e essas marcaram. Só para concluir, na Atento eu cheguei a dar relaxamento. Eu pedi uma oportunidade. Eu era operadora e dei aulas para os coordenadores. Passei pelos supervisores e os coordenadores. Tinha um local chamada sala de descompressão. E dei aula nessa sala de descompressão para os meus coordenadores. Chefes dos meus chefes. Eles adoraram. Foi um sofrimento para chegar até a aula. Eu tremo. Eu me sinto insegura. Mas quando eu sento e digo que sou professora de yoga, nesse momento é outra Márcia. É outra pessoa aparecendo. Fiz isso na Atento. E fiz isso recentemente numa empresa de telemarketing. Estava como operadora e pedi a supervisora uma oportunidade de apresentar um trabalho. Montei um projeto e ela apresentou para o diretor da empresa. Numa sala fechada com data show. Uma pessoa operando o data show. Eu fazia as pessoas, através de exercícios físicos, jogarem para fora o que estava incomodando. O que estava perturbando. Depois eu fazia respiração e relaxamento para as pessoas relaxarem. Depois eu imaginava um local onde elas pudessem se transportar. Punha uma imagem no data show. Pessoas saíam numa alegria, num bem estar, que o outro diz: “Nossa, que aula maravilhosa! Como você me faz bem. Você parece outra pessoa”. Isso me motivou a continuar procurando o meu bem estar, minha harmonia. Eu confesso que eu ainda sofro para dar aula. Por conta de todos esses problemas que eu passei, de todos esses traumas. Eu atualmente trabalho como corretora de imóveis. Teve um determinado momento que eu tive de entregar esse apartamento onde eu estava. Minha mãe faleceu e recebi uma herança. E até pensei se deveria voltar para Recife. E nesse período dessa transição, eu fiquei numa pousada. E nessa pousada tinha o meu marido atual. Ele estava no quarto ao lado. E a gente passou a conviver. Eu deixei minhas filhas passarem trinta dias de férias em Recife. Elas eram mocinhas, fazia tempo que não viam as tias. Por conta dessa herança foram cuidar da saúde: visão, dentição, passear, conhecer os tios que não viam. E eu fiquei sozinha nessa pousada para decidir o que eu ia fazer, enquanto não liberavam a outra parte do dinheiro. Se eu ia comprar ou locar. Eu não sabia o que ia fazer. Aí eu conheci esse jornalista. Ele é jornalista, radialista, editor. A gente passou a conviver e decidiu que ia morar junto. Nós nos casamos, entre aspas. Ele já era casado. Eu também já era casada. Eu juridicamente e ele também. É bom que saibam: a igreja católica tem um movimento. E esse movimento abraça os casais de segundo relacionamento. É feito um encontro. Esse encontro normalmente é semestral. Nós passamos dois dias. É dada uma benção pela própria Igreja Católica. Convive-se com outras pessoas que são casais de segunda união. Ele participou junto comigo e eu considero que foi um casamento bem mais sério do que qualquer outro. Tanto pela maturidade, como pelo tempo que a gente fica nesse retiro e convivendo com casais que tiveram experiências semelhantes. As três filhas minhas, as três agora estão trabalhando. Elas não têm idéia do que a mãe dela passou para mantê-las. Elas não perceberam. Um tempo atrás eu fui fazer um curso. Era uma oficina de redação com intenção de escrever o meu livro. Contei alguma coisa na frente de uma delas, que estava junto. Ela ficou incomodada que fazia parte da história. E que ela não queria que contasse. Respeitei. São guerreiras. São praticamente auto-suficientes, são alegres. Durante o tempo quando era pequenas, eu procurei colocar bastante afirmação positiva na mente delas. “Filha linda. Filha alegre. Filha forte. Filha inteligente”. E elas são. As três estão trabalhando e eu já vou ser vovó. A minha filha mais velha está grávida de três meses. E é isso. Esta é a minha história.

 

P/1 _ Então. Agora para terminar. Quais são as coisas mais importantes para você?

 

R _ As três coisas mais importantes são as minhas filhas. São as coisas mais importantes. Uma pessoa que marcou muito a minha vida foi o pai do Ronnie Von. Ajudou-me muito. Um livro que ele me deu.

 

P/1 _ Como ele chama?

 

R _ É Doutor José Maria Nogueira. Ele me deu um livro. E esse livro diz que uma pessoa de bem se faz com bons livros, boas amizades e bons exemplos.  E eu procurei seguir. Tem outra coisa que eu queria deixar. Bons livros. Boas amizades. Bons exemplos. Que compreensão é sinal de bondade e de sabedoria. Eu percorri também alguns lugares para identificar o que eu passei e hoje a minha posição é de gratidão ao pai das minhas filhas, aos meus pai pela oportunidade. A minha condição hoje é de compreender, de ajudar, de perdoar. E, sobretudo de agradecer a cada um que me ajudou a chegar até aqui.

 

P/1 _ Márcia, como foi você contar a sua história?

 

R _ É um pouco doloroso, mas eu gostaria que ela tivesse utilidade. Eu venci muitos desafios. Eu fiquei sem nada.  Eu poderia ter me prostituído. Eu poderia ter dado os meus filhos. Eu poderia ter procurado o caminho mais fácil. Mas o correto é o mais difícil. É nele que a gente aprende mais. É nele que a gente desenvolve a força, a coragem.

 

P/1 _ Obrigada Márcia.

 

R _ Obrigada a vocês pela oportunidade.

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