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História

O respeito ensina, transforma e salva

História de: Kharen Santos de Paula
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/12/2020

Sinopse

Nascimento em São Paulo. Irmãos. Amigos da escola. Separação dos pais. Relacionamento amoroso. Primeiro trabalho. Trabalho como vendedora. Pai doente. Internação. Abuso sexual em Extrema, Minas Gerais. Aprendizados e transformações. A importância de se respeitar e ser respeitada. Projeto “1000 Mulheres” do SEBRAE. Projeto de casas sustentáveis para pessoas em situação de rua. Projeto para as mulheres vulneráveis venderem seus produtos de maneira online. Pandemia. Sonhos.

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História completa

Meu nome é Kharen, tenho 22 anos, sou de São Paulo capital.

Quando eu sofri um abuso foi em 2018, foi bem numa segunda-feira. Eu lembro que foi em fevereiro, estava tendo Carnaval. Eu estava em Extrema, onde os meus dois irmãos moram.

Ele abaixou o shorts e abusou de mim. Enquanto ele estava abusando de mim eu entrei em desespero, porque era ele abusando de mim, a menina tentando passar a mão em mim, então foi algo que eu falei: "Meu Deus, eu vou morrer. Agora é a hora que eu vou morrer e a minha mãe nunca mais vai me ver”. Aí eu lembro que teve uma hora que eu consegui sair, eu sentei no banco e eu não tava conseguindo saber o que eu iria fazer. Aí veio algo na minha cabeça, que agora eu paro para pensar e meu, foi muito Deus.

Na hora que eu saí eu dei de cara com o segurança. Ele: "Que foi?", eu falei assim: "Só me tira daqui". Aí na hora que ele me tirou, ele foi me levando lá para dentro do parque de eventos, aí eu contei para ele o que aconteceu, e nessa hora eu achei que eu estava contando para alguém que iria me ajudar, e ele simplesmente, tipo, lá no parque de eventos tinham aqueles rapazes que ficam com o som, sabe? Ele me colocou lá e falou assim: "Eu não posso fazer nada por você, fica aqui. Eu preciso voltar ao meu trabalho". E eu lembro que eu estava chorando muito e ele me deixou lá, e eu chorando muito, e todo mundo olhando para minha cara. "Nossa, o que está acontecendo com essa louca?" Todo mundo olhando para minha cara. "Deve ter terminado com o namorado, sei lá". E tipo, eu lembro que eu chorei muito (choro). 

Por muito tempo eu fiquei com medo [de contar], então foi um processo muito longo, eu fui me curar mesmo depois desses anos, depois que eu conheci algumas pessoas e cada um compartilhou a sua história, e foi uma ligação inesperada. Eu estou participando de um projeto que chama (“Evanja Live”?) e eu conheci pessoas de vários lugares e eu criei um laço com algumas pessoas que… Teve um dia que, eu não lembro quem estava muito mal, a gente fez uma ligação e cada um compartilhou a sua história. E a partir desse momento eu falei: "Poxa vida, porque eu… Eu posso falar da minha história para tantas mulheres que sofrem isso, com medo de contar a sua história, com medo de ficar acanhada, eu posso contar a minha história e falar: "Meu, você é forte, seja forte, sabe? Você é guerreira, não deixa ninguém falar que você é menos que isso, não deixa ninguém, nenhuma pessoa falar que você não é capaz". Porque eu lembro que teve um dia que eu estava trabalhando, do nada a menina do caixa virou para mim… Nesse dia eu estava atendendo uma cliente, do nada ela virou para mim e falou assim: "Kharen, tal tal tal pessoa falou que o que aconteceu com você foi por culpa sua", na hora que a cliente virou para trás eu já me alterei e falei assim: "Como assim é culpa minha?" Você acha que alguém quer ser estuprada? Você acha que alguém quer ser abusada? Você quer ser abusada?", e a cliente ficou sem reação. Eu falei assim: "Fala para essa pessoa para ela cuidar da vida dela, porque o que aconteceu comigo não foi por culpa minha". E levou um tempo para eu entender isso, porque acho que quando a gente é abusada, por muito tempo a gente fica achando que o que aconteceu com a gente é culpa nossa, o que… "Poxa, eu não deveria ter feito isso, por isso que aconteceu isso comigo", mas não. A gente tem que entender que não foi culpa nossa, a gente tem que entender que o que aconteceu, como eu posso explicar, nunca vai ser culpa nossa, independente de como a gente estava, independente se a gente tava… Igual fala assim… Direto passa na TV: "Uma menina no funk foi abusada”. “Ah, também estava num baile funk, ó o lugar que ela quer estar”. Mas isso não dá o direito de ninguém encostar a mão nela, independente se ela estava alterada. Acho que os homens, não só os homens, mas as mulheres têm que saber respeitar, sabe? Tem que saber… Fala assim: "Poxa vida…", porque eles têm que parar e pensar assim: "Eu não queria que a minha mãe fosse abusada, que a minha irmã fosse abusada…". Então, porque você vai fazer isso? Então não faça, sabe? Dê valor para as mulheres, por mais que ela seja mulher de programa, independente de qualquer coisa. Ela não vai deixar de ser mulher, não vai deixar de ser menos mulher. Dê valor, respeita! Se a mulher está na rua, com shorts curto, para de ficar chamando ela de "gostosa", para de falar: "Ah, sua linda". A gente se sente mal com isso. Um 'gostosa', eles acham: "ah, é um elogio". Não, não é um elogio. Então é algo que eu acho que os homens, mulheres, todo mundo tem que respeitar, e o que eu falo, e agora entendo que não foi culpa minha. O que eu quero passar para as mulheres é que elas não se sintam assim, sabe? Não se sintam: "Foi culpa minha", não. Não foi culpa sua, em nenhum momento. Não se sinta assim.

Por muito tempo eu não compartilhei isso com ninguém, até que ano passado eu fui para um retiro da Igreja e eu estava tomando muito calmante, eu estava tomando calmante 750mg, eu não conseguia dormir, e nesse retiro eu lembro que eu levei o meu calmante, eu falei: "Vou levar o meu calmante, porque senão eu não vou dormir lá, porque eu só durmo com ele". Chegando lá as meninas não sabiam da minha história, ninguém sabia, eram poucas pessoas… Não é todo mundo da minha família que sabe, então quando eu cheguei nesse retiro, eu lembro que o tema era "Somos Um", foi onde eu pude entender que a gente é só um corpo, independente se a gente se conhece ou não, a gente é uma só pessoa, a gente tem um só propósito. Então eu lembro que nesse dia eu parei de tomar calmante. Foram as primeiras meninas com quem eu compartilhei o que aconteceu comigo, e elas ficaram: "Nossa, você nunca contou isso e você está sempre feliz", "Você nunca compartilhou isso", eu falei assim: "Porque não era a hora ainda de contar, eu ainda estava no processo de cura”. Eu lembro que nesse dia a gente conversou muito, eu lembro que elas me mandaram várias mensagens, tipo "Você está bem?", preocupada mesmo. E foi um processo que demorou dois anos para eu ser curada. Hoje eu olho para trás e eu falo assim: "Tá, o que eu levei de aprendizado?" Eu acho que não foi só um momento triste, mas eu levei algum aprendizado dali. E o aprendizado, que eu falo para as meninas que eu levei foi de não confiar tanto, sabe? Foi não ser tão inocente, não confiar tanto.

 A minha família foi muito importante, eles cuidaram muito de mim, eles conversaram sobre… Então eu acho que, como eu posso dizer, foi quando eu percebi que eu precisava da minha família, que eu precisava dos meus amigos, porque não é só eu querer ficar no meu quarto, trancada, eu precisava deles, eu precisava compartilhar algo com eles, e por muito tempo eu não falei para eles como eu me sentia, eu via muita preocupação deles, sempre que eu saia minha mãe ficava muito preocupada. Eu vi o cuidado deles por mim, eu vi que eu preciso da minha família para ser curada, também.

Agora eu me sinto bem, agora eu posso… Eu falo para as meninas: "Eu quero ajudar essas mulheres que já sofreram abuso para elas entenderem que não é culpa delas", então eu me sinto no dever de ajudar elas.

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