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História

O resgate das raízes japonesas

História de: Luzia Akiko Takauthi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2020

Sinopse

Nascimento em São Paulo. Descendência japonesa. Bairro Imirim. Faculdade de Administração. Viagem para o Japão. Mudança de país. Resgate de origens. Dezoito anos no Japão. Trabalhos em fábricas. Volta para o Brasil. Depressão. Projeto “1000 Mulheres”. Aulas de japonês. Pandemia. Sonhos.

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História completa

Meu nome é Luzia Akiko Takauthi. Eu nasci em cinco de janeiro de 1968, na cidade de São Paulo.

 

Eu fiz a Faculdade de Administração, gostei muito, queria fazer uma pós-graduação, acabei não fazendo e acabei indo para o Japão para trabalhar e lá fiquei, dezoito anos mais ou menos.

 

Uma prima viu emprego no Japão através de uma agência de empregos, lá no bairro da Liberdade, e me comunicou, me contou que estava pretendendo ir para o Japão e perguntou se eu não queria ir junto. E eu fiquei com medo, porque apesar de ser descendente de japoneses, é outro país, outra cultura e não é tão perto, é do outro lado do mundo, né? Então eu resolvi ir também. Aí em pouco tempo providenciei a passagem, negociei já o emprego e já sai do Brasil com tudo arranjado, desde o emprego à moradia e aí nós fomos em agosto de 96 para o Japão.

 

Eu sabia bem pouco [de japonês], sabia algumas palavras, mas não falar fluentemente. E ler algumas coisas também, pouco. Senti muita dificuldade quando cheguei lá, porque eu me sentia como se eu não tivesse braços, nem pernas, pelo simples fato de não falar. E eu tinha medo de falar qualquer coisa errada, pela cultura deles ser diferente e de alguma forma... eu ofender ou me passar por mal-educada. Foi bem difícil.

 

Olha, depois de um ano que eu só chorava e não tinha muitos amigos, pela falta de comunicação também, uma amiga que já estava no Japão há mais tempo com a família, mas em outra província, e que conversava comigo por telefone sempre, me deu a ideia de ir para onde ela estava. E aí eu saí do hotel onde estava trabalhando e fui para outra cidade para trabalhar em fábrica. E aí ficou mais fácil, porque eu morando com brasileiros, descendentes de japoneses, mas brasileiros que falavam o mesmo idioma e eram conhecidos, ficou mais fácil. E aí eu consegui estudar nas minhas folgas. Fazia aulas de japonês com ela também que me ensinava e aí começou a melhorar a minha comunicação. Aprendi a falar pelo menos o básico. 

 

 E aí eu fiquei bastante tempo nessa fábrica, depois mudei para outra de componentes eletrônicos e ai o meu idioma foi melhorando mais e então nessa fábrica de componentes eletrônicos foi a que fiquei mais tempo trabalhando. Comecei a ler… quando entrei nessa fábrica já falava mais o japonês, já escrevia mais e comecei como… na parte de inspeção na parte de componentes eletrônicos. Trabalha com microscópio e pinça. O meu uniforme era como se fosse um astronauta, só os olhos para fora. Tinha que cobrir tudo, porque não podia ter nem um tipo de pó, nem pelinho de roupa, pois poderia estragar o componente eletrônico. Eu comecei do zero ali, nas primeiras funções, nas partes de embalagens e depois com o tempo eu fui aprendendo mais japonês, tanto para escrever como para me comunicar e aí passei à parte de chefia, de inspeção e treinamento. E aí eu ensinava o serviço para os brasileiros que estavam chegando para trabalhar pela primeira vez no Japão. Então eu fazia a tradução, ensinava o trabalho, fazia aquele período de treinamento todo. Fiquei bastante tempo nessa parte de treinamento lá.

 

Cada vez que eu ia aprendendo mais a dominar o idioma e me acostumando mais com a rotina do Japão, eu aprendi a gostar do Japão. E eu entrei numa rotina de trabalho, de passeios durante a folga e aquela tranquilidade de você conseguir comprar tudo que você quer, porque você trabalha e você consegue comprar tudo. E a gente não usa cartão de crédito, talão de cheque, você recebe dinheiro do seu salário na conta bancária e consegue comprar desde uma TV até um carro em um instantinho. Não é aqui que você economiza anos e anos e ainda fica parcelando. Lá você compra tudo, é muito confortável. Só precisa ter o cuidado de não gastar tudo, de economizar, senão você vive que nem no Brasil, vive para trabalhar e gastar, não guarda. Agora se você tiver o objetivo de guardar todo mês um valor e comprar suas coisinhas, você vive confortavelmente. E aí já me situei no Japão e aí foi ficando… De um ano passou para três… pra cinco… e ficou dezoito. E nesses dezoito anos eu voltei três vezes para o Brasil a passeio. Ficava três meses, dois meses, depois retornava.

 

E aí com o tempo você vai fazendo um grupo de amigos, eu comecei a namorar, cheguei a ficar noiva… mas aí, no fim, depois de dezoito anos vim embora, porque os meus pais têm uma certa idade, não podem ficar sozinhos assim, só com meu irmão, e os pais sempre precisam de filha. Pelo menos na família oriental é assim, a filha cuida mais dos pais do que o filho, então eu voltei para ficar com eles.

 

E eu não sou estrangeira no Brasil, mas eu me sentia, e aí eu lembro que eu ficava sem pátria, porque no Japão eu sentia falta do jeito do brasileiro, da comida do Brasil, das pequenas coisas que tem aqui de… a gente sente falta de salgadinhos, de Fandangos, de Sonho de Valsa, de Bis, desses docinhos de boteco, do pãozinho francês… e quando a gente está aqui a gente sente falta da tranquilidade, do ônibus e do metrô que chega no horário certinho… 

 

Mas lá no Japão era muito corrido, e isso com o tempo, dez anos, doze anos, você vai ficando meio perturbada mentalmente. Foi por isso que eu achei que eu precisava de umas férias e que as férias no Brasil ia resolver, mas não era só cansaço, só estafa, era já problema de cansaço mental, doença mental. E ai minhas psicólogas, minhas tias, que também trabalham na parte médica, falaram que era depressão, que eu devia ficar um tempo no Brasil e descansar. E aí eu desfiz de tudo no Japão, entreguei apartamento e foi aquela mudança radical. E ao invés de melhorar logo que fiz tudo isso, piorou, porque eu desmanchei meu apartamento, despachei umas coisas para o Brasil, terminou o noivado e aí é ruim. Você chega aqui e fica meio perdida. Não sabe o que vai fazer, como vai fazer… e parece que tudo que você fez naqueles dezoito anos, foi em vão. Você fica com essa impressão.

 

E no centro espírita eu comecei a fazer amizade, comecei a fazer trabalho voluntariado e foi pelo centro espírita que eu tomei conhecimento desse projeto do Sebrae, porque tinha um cartaz ali que ia ter um curso de uma semana para futuros empreendedores, voltado para “1000 Mulheres Empreendedoras” e eu fui. 

 

Pelo centro… algumas mulheres foram e ai foi onde eu comecei a conhecer outras pessoas e outros projetos, outros… ter outros sonhos. Voltei a realidade de que talvez seja possível fazer alguma coisa no Brasil, que era hora de sair daquele meu mundinho confortável, na minha zona de conforto e colocar algumas coisas em prática, voltar a estudar o japonês.

 

No caso do projeto “1000 Mulheres”, o meu grupo não foi o vencedor, mas ele foi muito bem-visto ali. Chamou a atenção de muitos investidores. E a gente começou a fazer algumas entrevistas com algumas mulheres que seriam… fariam parte do nosso projeto. Tinham alguns investidores interessados, mas aí chegou a pandemia e tudo ficou paralisado; e aí a gente está esperando para ver o que vai acontecer nos próximos anos, ou até no ano de 2021. A gente ainda tem esperança.

 

O Sebrae me fez isso, o centro espírita me fez isso, me fez voltar a sonhar e ter esperanças de que alguma coisa de bom vai acontecer. Pode não ser hoje, pode ser que não seja amanhã, mas se a gente batalhar, uma hora acontece. Cair do céu não vai, a gente tem que batalhar, com certeza, e correr atrás, buscar as pessoas preparadas para ajudar a gente.

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