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História

O resgate da memória de Medicina

História de: Walmore Pereira de Siqueira Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/07/2020

Sinopse

Infância com a família. Estudos em medicina. Contato com o mundo. Trajetória como médico. Trabalho de acessibilidade. Posição de vice-presidente da Unicred.

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História completa

P/1 – Tudo bem? Boa tarde, doutor Walmore, nós vamos começar com o senhor falando o seu nome completo, local e data de nascimento. 

 

R – Boa tarde. Meu nome é Walmore Pereira de Siqueira Junior. Eu nasci em Blumenau, Santa Catarina, em 21 de março de 1953.

 

P/1 – Qual a sua atividade ou função atual na Unimed?

 

R – Eu, no momento, eu tenho função mais no sistema Unicred, eu sou vice-presidente da Unicred de Blumenau. Tenho uma carreira no cooperativismo, provavelmente nós vamos conversar.

 

P/1 – Sim. 

 

R – Mas atualmente eu exerço na Unicred.

 

P/1 – Certo. O nome dos seus pais?

 

R – Walmore Pereira de Siqueira e Ilca Maria __________ Siqueira.

 

P/1 – E qual é, ou era, a atividade profissional deles?

 

R – O meu pai foi militar até 1965, depois ele fez Administração de Empresas, ele fez pós-graduação na Getúlio Vargas e foi diretor administrativo da Eletrosul, uma empresa de energia elétrica do sistema Eletros do Brasil. Morou no Rio e em Blumenau. Minha mãe sempre foi dona de casa.

 

P/1 – E a origem da sua família, qual é?

 

R – A minha mãe tem uma origem alemã, o meu pai uma origem portuguesa, o meu pai era carioca, na época era tenente do exército, foi servir em Blumenau, conheceu minha mãe e se casaram em Blumenau. 

 

P/1 – E tem irmãos?

 

R – Eu tenho uma irmã, tinha mais um irmão, ele faleceu num acidente em 1977. Atualmente tenho uma irmã.

 

P/1 – Agora vamos voltar um pouquinho lá pro tempo da infância. Você lembra a casa que morava, como era, como era o dia a dia?

 

R – Eu lembro sim. A casa em que eu morava, porque a minha infância ela se centra muito em Blumenau, porque na ocasião nós morávamos na casa dos meus avós maternos, que era um castelo muito bonito, numa região muito bonita, então aquilo me fixou muito na minha imagem. Posteriormente o meu pai foi transferido ao Rio de Janeiro, então nós moramos dois anos no Rio de Janeiro, no Leblon, foi um período muito bom também de praia, embora meu pai tivesse muito ausente em função dos cursos que ele tinha que realizar naquela ocasião. Mas foi um período muito, muito rico também porque tive uma convivência um pouco com os meus avós paternos, naquela época a distancia era muito grande Blumenau, Rio de Janeiro, os aviões DC-3 e coisa assim era coisa difícil. Então nesse período eu me aproximei um pouco mais do meu lado paterno, porque sempre fui muito mais ligado ao lado materno.

 

P/1 – E lembra, assim, como era o dia a dia da casa?

 

R – O dia a dia sim porque como a minha casa era muito central em Blumenau era tudo muito próximo, o meu colégio era 300 metros da minha casa, o nosso campinho de futebol era praticamente do lado da casa. Então foi uma infância muito rica porque a gente     vivia na rua, na época não tinha televisão, certo? A gente não tinha televisão, então era jogos, brincadeiras tudo na rua, a gente tinha que ser puxado, tinha que ser gritado pra voltar pra casa, né? A nossa vida era, tínhamos um grupo grande de pessoas convivendo, então foi uma infância muito rica porque tínhamos contato com a natureza, essa coisa das estações: “ah, agora a fruta é goiaba, agora a jabuticaba” e assim por diante. Então não tinha problemas de segurança, não tinha nada disso, né? Militei um período no escotismo também, então aprendíamos a acampar, tínhamos um contato muito grande com a natureza, isso foi uma coisa, assim, que marcou muito a minha infância.

 

P/1 – E das brincadeiras, assim, tinha algumas preferidas?

 

R – Não, basicamente a gente ficava muito centrado em campo de futebol, a gente jogava, embora fosse um péssimo jogador, mas eu era persistente. E centrava muito em futebol e brincadeiras normais de infância de 12, 13 anos de idade, né, mas nada assim que marcou muito, não tem nada específico não. 

 

P/1 – E essa cidade naquela época como era?

 

R – A cidade era pacata, calma, mas uma cidade progressista, Blumenau tem uma colonização alemã, é uma tradição de colonização alemã, então é uma cidade que sempre foi muito de vanguarda, né, desde questões, por exemplo, as leis trabalhistas um dos primeiros lugares a ser implantado foi em Blumenau na indústria têxtil, abraçou logo essa idéia. Então era uma cidade que tinha muita, prosperava muito a riqueza, não é? E uma convivência alemã. Essa é uma outra coisa que me marcou na infância, porque na minha infância tinha os alemães tradicionais, os meus amigos, os alemães, com famílias alemãs. A maioria falava alemão, eu não sei por que cargas d’água não me foi ensinado o alemão, embora a minha mãe fale o alemão, eu não aprendi o alemão. Mas existia lá naquela época uma dicotomia católica e protestante, os luteranos, né? E havia inclusive uma divisão, quase como se fosse uma guerra santa na época, “aquele é luterano, aquele é católico”. Mas nada, assim, que marcasse muito, mas era uma coisa que chama a atenção pros dias de hoje e naquela época existia.

 

P/1 – E os estudos? Como foi, quando iniciou?

 

R – Os estudos eu comecei em Blumenau, eu fiz parte do primário em Blumenau, depois estudei no Rio de Janeiro durante dois anos. Voltamos a Blumenau, eu estudei mais dois anos em Blumenau, aí fomos morar em Tubarão, em função disso, dessas movimentações que meu pai fazia, a gente acompanhava. Moramos em Tubarão, aí meus pais foram para o Rio de Janeiro e eu optei por ficar em Florianópolis, onde já tava na faculdade eu não quis acompanhá-los pro Rio de Janeiro. Então essa que foi assim uma parte da minha infância e juventude. 

 

P/1 – Pra lá e pra cá.

 

R – Pra lá e pra cá.

 

P/1 – [RISOS]. E lembra de algum professor que marcou nessa fase?

 

R – Basicamente as minhas formações foram em colégios de padres. Olha faz muito tempo assim, me marcou, por exemplo, um professor de matemática que era um padre alemão, nome Clemente, que tinha uma didática horrível, mas ele amedrontava tanto todo mundo que todo mundo acabava tirando nota boa mas era um péssimo professor, ninguém gostava dele, mal falava o português, pronunciava muito mal as palavras, falava, tinha um jeito alemão de falar. Mas marcou por isso, por ser um péssimo professor, mas pela rigidez dele e todo mundo tinha que estudar, aprender, me tornei um bom matemático. 

 

P/1- E matéria, quais as que você gostava mais?

 

R – Engraçado, a ciência lógica sempre me apaixonou muito, eu sempre fui muito bom em matemática e física, e as ciências biológicas, que é a área onde eu atuo nunca me teve, nunca tive uma, nenhum clamor. Então, a ciência exata pra mim, a lógica pra mim sempre foi a melhor, eu me dava muito melhor, eu não tinha, era péssimo em criatividade, por exemplo. Na época no colégio nós tínhamos trabalhos manuais, tínhamos que fazer desenho e coisa assim, era um horror pra mim, isso era um sufoco eu não sabia como conviver, porque não dependia de um estudo porque, por exemplo, eu decorar uma tabuada dependia de mim, agora eu pintar uma casa dependia de criatividade que pra mim foi difícil isso aí. 

 

P/1 – E de modo geral era bom aluno?

 

R – Sempre fui um bom aluno, todo mundo. Sempre fui um CDF [cabeça de ferro] desde o primário até o final da faculdade, nunca tive problemas de reprovação, sempre fui um aluno, um aluno exemplar, hoje o pessoal chama de um CDF. Era um CDF mesmo, mas sempre gostei de estudar, mas sempre soube dosar isso muito bem entre um estudo e o meu brinquedo. Por exemplo, eu preferia estudar durante o ano e ter umas férias tranquilas já no final de novembro e já entrar de férias e ficar quase três meses de férias, do que ter segunda época, na época tinha essas coisas, questão de aprovação, fazer prova final. Então eu nunca tive esse problema de prova final eu sempre já passava direto. 

 

P/1 – E tem alguma lembrança marcante, assim, da fase da escola?

 

R – Da fase da escola basicamente não, o terceiro científico eu fiz em Florianópolis porque eu tinha – científico a gente falava, agora não existe mais isso, né? O científico então, ou o segundo grau, eu concluí em Florianópolis, que era onde eu ia fazer o vestibular e lá na época a gente já fazia o cursinho junto. E fiz numa escola pública, foi a primeira escola, a segunda escola pública que eu estudei, no Instituto Estadual de Educação em Florianópolis que me deu uma formação maravilhosa, eu passei no vestibular numa classificação fantástica e... Então foi interessante porque eu também estava morando numa cidade diferente, meus pais na ocasião moravam em Florianópolis, em Tubarão, eu morava em Florianópolis, são cidades de 150 quilômetros de distância, mas que na época também era longe isso, levava quase três horas e meia de ônibus pra se chegar na cidade. Então, marcou esse fato de você estudar numa escola pública e ter um preparo muito bom. Então é uma coisa que me marcou. 

 

P/1 – E a época da adolescência, assim?

 

R – A época da adolescência eu passei mais em Tubarão. Foi muito boa também. Foi uma transição em que meu pai chegou lá pelo Exército e saiu do Exército pra trabalhar nessa empresa de energia elétrica, na época fazia a energia elétrica pelo carvão, chamava-se Sotel [Sociedade Técnica de Eletricidade]. Então foi uma transição muito boa, Tubarão era uma cidade também bem menor que Blumenau, mais atrasada que Blumenau ainda porque ela dependeu muito do ciclo do carvão, e o ciclo do carvão já estava acabando. Então a cidade ainda estava em transformação. Mas em compensação a gente teve lá uma turma muito, muito forte, muito amiga, nós éramos em 30, 40 homens e meninas e a gente tinha festas todo dia na casa de um, na casa de outro, nos clubes, então foi um período muito bom. Diga-se de passagem era uma terra de mulher muito bonita e muito simpática, de povo muito acolhedor, marcou  bastante também. 

 

P/1 – E a escola da carreira, o quê que influenciou?

 

R – A escolha da carreira eu fui até o segundo grau pensando em fazer ou engenharia ou medicina, eu não tinha uma base. Aí fiz o famoso teste vocacional, onde é que eu vou fazer? E deu uma coisa bárbara, deu 53% pra medicina e 47 pra engenharia. Ou seja, não me ajudou em nada. Mas na época engenharia tinha estacionado, a engenharia você só tinha três opções: ou elétrica, ou civil ou mecânica, né? Não existia o leque hoje que tem engenharia com automação. Meu Deus, hoje a engenharia tem mais de 25, 30 opções, na época eram três e eu não me via engenheiro de nenhuma dessas áreas. Construir prédio não era coisa que eu não gostava de desenho, só me aproximava matemática e o cálculo. Então optei pela medicina.

 

P/1 – E como foi assim, a faculdade?

 

R – A faculdade eu fiz na UniverCIDade Federal de Santa Catarina, e na época nós tivemos um problema que se instalou em Santa Catarina a chamada Reforma Universitária, onde você passava não em Medicina, você passava em Ciências Biológicas, e durante um ano e meio você ia fazendo créditos e, depois, desse um ano e meio teria uma classificação, e os classificados que escolhiam, né, assim por diante, os 50 primeiros e assim por diante. É óbvio que o curso mais concorrido era medicina porque as Ciências Biológicas englobava Medicina, Odontologia, Enfermagem e Bioquímica, Farmácia e Bioquímica. Então, é óbvio que este um ano e meio foi uma guerra encarniçada, quer dizer, era um querendo derrubar o outro. Então foi um período ruim, início da faculdade, mas depois quando deu a escolha foi um período muito bom. Florianópolis é uma ótima cidade, tem as suas praias maravilhosas, então, quem vem de uma cidade do interior e vai pra uma capital com essa praia e com essa pujança, a faculdade foi uma festa, festa maravilhosa, muito boa. E também nós tivemos algumas inovações, a minha turma foi permitido que o sexto ano da faculdade a gente fizesse fora, e eu fiz um concurso aqui em São Paulo fui aprovado, e fiz já o meu sexto ano aqui no Hospital do Servidor Público Estadual, ali na Francisco Morato, ali no Ibirapuera, que também foi muito bom, me deu muita bagagem. E fomos a primeira turma que conseguiu isso, ninguém podia conseguir todo mundo tinha que fazer o seu sexto ano na sua faculdade. Nós saímos em oito ou dez colegas e foi muito bom, foi muito bom o sexto ano que eu fiz porque me deu uma base pra mim poder fazer a reCIDência médica. Me formei em Florianópolis, ganhei medalha de ouro como melhor aluno da turma, ou seja, o CDF do primário continua o CDF da faculdade. Prestei concurso pra reCIDência médica e fui aprovado no Incor [Instituto do coração] da USP, eu fiz um ano de clínica médica na USP e dois anos de cardiologia na USP.

 

P/1 – A sua especialidade, então, é cardiologia?

 

R – A minha especialidade inicialmente é cardiologia, voltei a Blumenau como cardiologista e trabalhei como cardiologista durante 15 anos. E aí me tive uma vontade de voltar a estudar, e aí me candidatei e fui aprovado para fazer um curso nos Estados Unidos, no Johns Hopkins Hospital, em Baltimore, Maryland, um dos melhores hospitais, posso dizer, do mundo pela sua bagagem científica e pela sua produção científica em toda a sua história. É um hospital que marca a sua história na medicina dos Estados Unidos e do mundo inteiro. E lá eu fiz uma pós-graduação de geriatria, fiquei oito meses nesse hospital me aperfeiçoando em geriatria. Então hoje eu milito na área de cardiologia e geriatria, muito mais, cada vez mais na área de geriatria, embora não possa esquecer os 20 anos em que eu fiz cardiologia. 

 

P/1 – A gente pulou um pouquinho, mas eu vou voltar assim.

 

R – Sem problema.

 

P/1 – [RISOS]. Primeiro dia de trabalho, assim, lembra?

 

R – O primeiro dia de trabalho o seguinte: como eu fiz no Hospital das Clínicas na USP, me deu uma bagagem e um conhecimento médico fantástico. Você imagina, por exemplo, nós aqui dava o plantão aqui no pronto socorro, nós atendíamos, meu Deus, numa noite 100, 120, 150 pessoas, era um volume muito, muito grande. Então quando eu chego na  minha cidade, em Blumenau, uma cidade pacata, pequena, na época com 180 mil habitantes inverte a coisa. Então eu tava altamente preparado numa cidade que tinha já algum recurso médico, sem dúvida nenhuma, mas eu tinha um preparo muito, muito bom. Então o meu primeiro dia do hospital foi um plantão. E nesse plantão eu chegando lá chega uma parada cardíaca, um indivíduo com 42 anos de idade, tava jogando carta até de madrugada, teve um mal estar, sete horas da manhã chega lá. E eu fui atender o paciente, fiz a entubação traquial, fiz a massagem, a cardio-pressão, todo o procedimento que se faz nessa situação. E deixou todo mundo perplexo porque antigamente quem fazia entubação traquial era o anestesista, quem impulsionava a subclávia era o cirurgião geral, ou seja, esse tipo de atendimento era feito por vários profissionais que tinham que ser chamados em casa pra vir fazer e eu fiz tudo aquilo com uma simplicidade enorme, e aquilo deu um impacto muito positivo no pessoal de enfermagem que avisou os médicos tipo assim: “chegou um cara bom aí, vamos olhar pra ele”. Então, a partir dali eu também entrei com mais confiança, ou seja, eu vi que o meu aprendizado no Hospital das Clínicas eu também podia por em prática, não era só teoria e prática de um hospital universitário, onde você tem toda uma estrutura de professores, assim por diante, eu já estava habilitado a ir pro mercado de trabalho. Então o que me deu muita confiança, e eu também fui convidado para um grupo de cardiologia, então não comecei sozinho, já tinha cinco, seis colegas nesse grupo que me abraçaram e me deram toda a força pra eu seguir a minha carreira.

 

P/1 – E aí foi hospital que você trabalhava?

 

R – Bom, na época o hospital Santa Isabel que era o maior hospital de Blumenau e da região, era o hospital que drenava todos os 50 municípios ao redor de Blumenau drenavam pra esse hospital, era um hospital de grande porte. Então eu tinha acesso a essa estrutura hospitalar que era muito forte. Tradicionalmente na cidade os médicos tinham os seus consultórios dentro do hospital. Eu, desde o começo, tive uma cisma com isso e optei por fazer meu consultório fora do hospital, alugamos uma casa, praticamente na frente do hospital e ali montamos a nossa clínica que foi a primeira clínica de cardiologia no interior do Estado, só existia uma em Florianópolis e a nossa em Blumenau. Com essa característica, nós já éramos cinco, seis cardiologistas fazendo metodologia diagnóstica, então foi muito forte isso. Isso também foi uma revolução no meio médico da cidade porque tinha aquele conservadorismo do consultório dentro do hospital, e nós não, nós optamos “queremos fazer fora” e dali foi desde o começo já com sucesso.

 

P/1 – E o seu ingresso na Unimed, como que foi?

 

R – O meu ingresso na Unimed foi pela liderança que a gente sempre teve dentro do hospital, eu fui chamado a participar do Conselho de Administração em 1988. Aqui eu quero registrar que a Unimed Blumenau ela foi fundada inicialmente como se fosse uma extensão da associação médica, várias Unimed’s dos Brasil foram a mesma, foi a mesma situação, tanto que o preCIDente da associação médica acumulava a preCIDência  da Unimed. E é óbvio que a gestão dele foi muito ruim, que as pessoas não entendiam que essa questão: Unimed Empresa, achavam que a Unimed era mais um grêmio associativo, tipo uma associação médica. E o que aconteceu? Ele deixou tudo nas mãos de um gerente que fez uma gestão péssima e a cooperativa fechou depois de dois, três anos com um prejuízo fenomenal. E aí nós fizemos todo um movimento de retirada dessa diretora e saneamento da cooperativa. E nessa ocasião nós tivemos que trabalhar praticamente um ano e meio de graça porque tínhamos uns cinco ou seis mil usuários na cidade que não tinham culpa de uma gestão temerária, e trabalhamos de graça e reerguemos a cooperativa. E nesse grupo que tava reerguendo a cooperativa eu já fazia parte, embora eu não fosse da primeira administração, mas eu já participava desse grupo. E aí numa eleição eu fui convidado a participar do conselho, como Conselheiro de Administração, e aí eu tomei contato com a Unimed. Já no segundo ano participei de uma convenção nacional em Salvador e comecei, vamos dizer assim, a conhecer um pouco mais do cooperativismo, não só Unimed, mas cooperativismo de uma maneira geral. Lógico, começamos a estudar e aí começou toda a minha carreira.

 

P/1 – E na Unimed como foi assim, os cargos?

 

R – Bom, inicialmente então, de 1988. De 1986, desculpa, a 1990 eu participei do Conselho de Administração e pela liderança que a gente exercia, eu fui indicado pra ser o próximo preCIDente, sucedendo a administração anterior, ou seja, como se fosse uma continuidade, né, do trabalho que a administração anterior  estava fazendo, e eu fui para a preCIDência. Então, cheguei a preCIDência na Unimed em 1990, de 1990-1994 fiz o meu primeiro mandato, de 1994 a 1998 nós repetimos o mandato, a nossa Unimed permite a reeleição, já permitia, desde sempre permitia a reeleição e eu fui reeleito. Num primeiro mandato nós tínhamos vários municípios centrados dentro da Unimed Blumenau. Então num primeiro mandato fundamos uma Singular, que foi a Singular de Rio do Sul que pertencia a Blumenau, lá era que a gente chamava de um escritório seccional. E no segundo mandato mais uma Singular saiu da Unimed Blumenau que foi a Unimed de Brusque. Ou seja, quando eu cheguei na Unimed, em 1990, nós tínhamos cerca de 25 a 30 mil clientes, num primeiro mandato nós aumentamos isso pra 140 mil clientes, ou seja, tínhamos uma hegemonia total na região. E depois, com a saída dessas duas cidades, nós recuamos e ficamos na faixa de 90 a 90 mil clientes. Nesse período meu de Unimed a gente fez uma integração muito grande no sistema cooperativista, não só de trabalho médico, mas com as cooperativas agrícolas, com as cooperativas também de crédito, na época não existia Unicred ainda, mas já existiam cooperativas de crédito. Fizemos cooperativas de, tinham as cooperativas de administração também, então fizemos uma grande ligação do sistema cooperativista mostrando a importância da cooperativa, e que o cooperativismo de trabalho não tinha nenhuma diferença do cooperativismo agrícola, né, no sentido dos problemas que o cooperativismo enseje, então isso a gente fez na minha gestão. E a nossa gestão se caracterizou muito pelo empreendedorismo, né, nós inicialmente tínhamos duas salas comerciais na cidade, muito pequenas, depois foram aumentando, tivemos que alugar mais uma sala pra o setor de contas quando essas auditorias começaram a aumentar. Até que optamos por comprar uma sede, uma sede grande com cerca de três mil metros quadrados, polêmica, a assembléia gerou polêmica, você mostrar pro cooperado que é importante uma sede que uma empresa. Mas conseguimos aprovação sempre unânime, sempre unânime, compramos uma sede que é hoje ainda a sede da Unimed Blumenau, reformamos, foi uma compra boa em questão de preço, era uma empresa, era uma firma têxtil que estava numa situação econômica difícil, então tivemos um bom preço. E ali o que a gente fundou a sede unificamos, porque no final quando veio essa sede nós estávamos com mais ou menos dez ou doze salas comerciais em três prédios diferentes e estava na iminência de ir pra uma quarta, quarto prédio, ou seja, tava uma bagunça, você interligar todos esses sistemas na época não existia a questão da internet, as ligações, era tudo via telefone, fax, era uma confusão enorme. Então a sede serviu pra essa unificação. Nesse período meu do mandato, que pra mim é difícil separar o primeiro do segundo mandato, eu vou falar dos oito anos que a gente teve lá. Nós também fundamos uma série de empresas cooperativistas. Fundamos a Usimed de Blumenau, foi a primeira de Santa Catarina, que era uma cooperativa de usuários, uma idéia do doutor Edmundo Castilho que acreditava na ocasião que nós poderíamos cooperativar os clientes da Unimed e a Usimed oferecer serviços que a Unimed estava impedida de fazer. A idéia foi muito interessante, nós lançamos na ocasião um plano medicamento inédito, ou seja, o indivíduo comprava, ele contribuía com um Real por mês ele tinha direito a 30% de desconto em medicamento quando as farmácias eram altamente carterizadas, nós chegamos com esse desconto lá foi um “bafafá” na cidade, ou seja, ações judiciais querendo derrubar a Usimed, que ela não podia ter farmácia, que era dos médicos e tal. Conseguimos levar tudo isso com muita tranquilidade, e a Usimed foi um marco na cidade. Através da Usimed nós podíamos, por exemplo, oferecer serviços de psicologia, fonoaudiologia, odontologia, não é? Então nós complementávamos muito os serviços que a Unimed oferecia. Fundamos também a primeira Unicred de Santa Catarina, não é? Isso aí o doutor Ernesto Gazieiro me ajudou muito nessa questão porque chamamos o doutor lá de Casca pra vir nos ajudar, agora estou com dificuldade de me lembrar o nome dele, mas que basicamente introduziu o cooperativismo de crédito no sistema foi ele, fez uma palestra e a partir dali nós fundamos a primeira a Unicred. A Unimed pagou a cota capital dos seus cooperados, não é? Com o giro dela ela foi crescendo, crescendo, se tornou uma empresa forte também. Quando eu saí da Unimed Blumenau nós criamos uma cooperativa de segundo grau chamado Intermed que era sócia à Usimed de Blumenau, na ocasião eu era o preCIDente, a Unicred e a Unimed. E essa empresa, a Intermed, ela criou o Hospital Dia, criou o SOS Unimed e o Home Care. Na ocasião a Unimed Blumenau estava sendo pressionada muito por um hospital privado com relação a taxas e custos, ou seja, estava elevando demais os custos. E nós vimos que um hospital dia ia amenizar, e aí aconteceu um fato que eu preciso voltar: quando eu cheguei nos Estados Unidos eu fui na semana seguinte que eu tava no hospital, lá no Johns Hopkins, nós fomos dar alta para uma mulher que tinha feito uma mastectomia, era uma cardiopata, diabética, que fez uma mastectomia, vamos supor, na quinta e na sexta-feira de manhã nós estávamos dando alta. Na ocasião uma mastectomia ficava internado no hospital de cinco a seis dias, com dreno, coisa assim, e aquilo foi um impacto pra mim enorme. Quer dizer, não só a mastectomia em sim, mas uma paciente cardiopata, hipertensa e diabética fazer isso dentro de um hospital dia que já tinha aquele conceito de day hospital foi um impacto muito grande. E aí eu comecei a perguntar, fui falar com os administradores desse hospital dia e vi que ali tinha, nós podíamos dar uma complexidade muito grande. E voltando a Blumenau então eu trouxe a ideia, ou seja, aquele hospital está nos pressionando muito então vamos dar um chute na canela dele, vamos fazer um hospital dia de excelente qualidade, com uma vocação muito grande para o médico cooperado e para o cliente. Os hospitais na ocasião, por exemplo, assim, a sala de conforto médico dos hospitais era a coisa mais horrível do mundo, quente, a bolacha seca, uma água quente. Nós fizemos o hospital dia com um baita daquele dum café daqueles que nós chamamos de café colonial com cinco tipos de torta, ar condicionado, refrigerante a vontade. Eu cheguei a ousar a propor aos cirurgiões que a gente tivesse a massagista lá pra amaciar o ego e tudo do cirurgião, mas aí acharam que era um pouco de exagero. Mas de qualquer maneira fizemos com essa vocação e pro cliente um ambiente sem cheiro, com música ambiente, fone individual, o indivíduo quando fosse pra sala cirúrgica ele escolhia entre qual é a música que ele queria quando tava anestesiado, se fosse fazer uma anestesia geral, se fosse fazer uma anestesia de bloqueio raquia ou peridural ele ter o seu fone de ouvido. Os apartamentos maravilhosos, os funcionários falando baixo, ou seja, uma visão muito, muito forte do cliente. E desbancamos o hospital, realmente foi um sucesso desde o começo o hospital dia da Unimed. E possibilitou que a Unimed começasse a negociar, por quê? Porque nós dávamos pra Unimed o recall de custos. Olha, se o hospital diz lá que custa tanto uma cirurgia eu posso dizer pra ele que custa menos tanto. Então aquilo foi um marco na cidade. Lógico que tudo isso não se faz assim só com flores, há os que são contra, acharam que não devia e coisa assim. Hoje é um sucesso, a questão de uma semana. Duplicaram a capacidade, inauguraram mais, duplicaram as salas cirúrgicas e os apartamentos. 

Quero contar outro fato desse hospital dia que também é marcante. Blumenau é uma cidade de enchente, 1983 metade da cidade ficou debaixo d’água. A minha clínica, no segundo andar da minha clínica entrou um metro de água. Aparelhos de eletro, computador, tudo, tudo ficou embaixo d’água. Então quando nós fomos fazer o hospital dia nós tínhamos essa idéia: “nós temos que ter cuidado com a enchente”. E na ocasião, do lado do shopping center, do primeiro shopping center da cidade tinha um centro financeiro que tinha lá 30 ou 40 salas vagas e fomos lá e pegamos dentro desse shopping. Então mais um ponto pra gente porque lançamos um conceito de hospital dia dentro, ou ao lado de um shopping center, com toda essa idéia voltada pro cliente e pro médico cooperado que ajudou nesse sucesso aí que a gente tá fazendo. Eu tô falando muito, acho que eu tô, tem que interromper pras perguntas, né?

 

P/1 – Não, não, nenhum problema porque realmente eu tinha perguntado quais funções, né, que ocupou. Aí depois...

 

R – Bom, aí em 1998 eu saí (TOSSE). Desculpa. Da Unimed Blumenau e fui indicado pela Unimed Blumenau vice-preCIDente da Federação das Unimed’s de Santa Catarina, que foi então onde eu participei de uma cooperativa de segundo grau que pra mim foi assim um prêmio, porque quando você está numa cooperativa de primeiro grau, Unimed Singular, você vive muito o dia a dia, ou seja, o médico que lá que foi retido o horário dele, ele telefone e xinga. A secretária do médico que não foi liberada a cirurgia dele na hora que ele precisava e assim por diante você tem que dar ouvido, coisa assim. A fulana que quer um emprego lá dentro de auditora porque não tem, porque não dá pra todo mundo, ou seja, então você tem esse tipo de visão. Quando você chega na Federação, é uma cooperativa de segundo grau, e aí não é diferente, você tem que lidar com preCIDentes de Unimed’s, né, você tem outro tipo de preocupação completamente diferente. E foi um aprendizado extremamente proveitoso pra mim porque em função de ela, de nós termos Singulares em todo Estado de Santa Catarina, e o nosso compromisso era conhecer todas as Singulares de Santa Catarina, se eu não me engano 23, nós visitamos todas as Singulares. Então eu posso dizer hoje, sem vaidade, que o meu nome é conhecido no Estado inteiro, no Estado de Santa Catarina todo, norte, sul, leste, oeste. Por exemplo, a cidade mais longe, São Miguel do Oeste é cerca de 15 horas de carro do litoral, então, você ter um nome lá é um orgulho, eu jamais como cardiologista, por mais conhecimento que eu tenho, por mais capacidade que eu tenho eu não teria capacidade de ter esse tipo de capilarização e o sistema me propiciou isso aí. Nós conhecemos todas as Singulares, então foi muito proveitoso isso, e dividimos funções. Na minha vice-preCIDência eu fiquei encarregado do setor de vendas e do setor de marketing que me fez então também conhecer uma nova área e uma atuação um pouco diferente. Nós conseguimos, dentro da Federação, algumas coisas que eu reputo de extrema importância: nós conseguimos unificar a marca, unificar o slogan, unificar brindes, unificar a nossa, nós criamos uma comissão estadual de marketing, porque na verdade, na ocasião o sistema era uma bagunça, né, um utilizava uma cor, o outro utiliza “aqui tem Unimed” outro utilizava o slogan que achava mais bonito, foi criado lá dentro da sua Singular. E nós conseguimos mostrar através do convencimento de que uma marca forte ela tem que ter identidade, ou seja, você – e todo mundo utiliza o mesmo clichê de McDonald’s e Coca-Cola que ele é igual em toda parte do mundo – e nós conseguimos incutir isso nas pessoas e conseguimos fazer isso. O outro aspecto era o seguinte: sempre que se queria fazer uma campanha de marketing ou de venda, ou qualquer coisa, ou aparecer na mídia nenhuma Singular queria botar a mão no dinheiro e sempre era um problema, ou seja, você contratava uma agência, fazia um plano, toda aquela sequência quando chegava na hora de pagar, “ah eu pago, não pago, não pago” era aquela confusão. Esse comitê de marketing então teve uma idéia genial, nós combinamos que a partir de uma determinada data, por exemplo, dia primeiro de agosto todos os planos de saúde vão aumentar cerca de, se eu não me engano foi cerca de três reais, e vamos fazer o seguinte, vamos partilhar esse dinheiro: a metade, 50% desse dinheiro vai pra essa nossa comissão estadual e 50% fica para a Singular. Esse valor que pequeno, que todo mundo acha assim três Reais não dá impacto, em questão de seis meses nós tínhamos em caixa mais de 500 mil reais. Ou seja, aí podíamos começar a fazer as campanhas que a gente sempre queria e não precisar mais passar o chapéu pra todo mundo. Esse dinheiro ele era auto-sustentável porque o cliente ia pagando, exceto que saía, mas sempre entra clientes novos. E nós conseguimos com isso aparecer em todas as mídias, televisão, rádio, outdoor, e deu uma oxigenada muito grande em todo o sistema. Junto com isso nós participamos da comissão nacional de marketing, aqui junto com o Almir Gentil, aqui existia CIU [comissão interestadual Unimed], onde nós passamos a participar também das questões nacionais do marketing nacional trazendo o nosso conhecimento, que a gente tava fazendo em Santa Catarina e ouvindo também gente do Brasil inteiro, que também foi uma outra grande oportunidade que eu tive de participar do sistema nacional.

 

P/1 – A sua região lá ela tem, assim, alguma peculiaridade que a torna distinta das outras?

 

R – O que eu acho é o seguinte: Santa Catarina tem algumas peculiaridades interessantes, primeiro que a capital não é a maior cidade do Estado, certo? Joinville é a maior cidade do Estado, segundo todas as federações de Unimed são nas capitais, em Santa Catarina é no interior, é em Joinville. As Singulares são mais ou menos, tem Singulares grandes, tem Singulares pequenas é óbvio, mas convivem com uma harmonia muito boa. O sistema político dentro da  cooperativa nunca contaminou a parte administrativa de decisões. Então eu creio que esta peculiaridade, ou seja, eu posso discordar da posição A ou B, mas uma vez votada estamos todos juntos. Isso em geral prevaleceu no nosso estado, ou prevalece no nosso estado. Então eu creio que isso é uma diferenciação de algumas regiões do sistema, não conheço todas, conheço grande parte, mas é o que dá às vezes um pouco de diferenciação.

 

P/1 – Você falou que parece que são 23 Singulares, é isso?

 

R – São 23 Singulares.

 

P/1 – E quais as mais importantes?

 

R – Das grandes cidades naturalmente. As Singulares mais importantes é Florianópolis, hoje a primeira do Estado, depois Blumenau e Joinville, são as maiores cooperativas que se situariam na faixa acima de 80 mil clientes. E na faixa a partir daí existem mais oito ou dez, eu chamaria de Singulares médias, na faixa entre 35 mil e 60 mil clientes, e temos mais ou menos umas dez singulares com na faixa até 20 mil clientes.

 

P/1 – E projetos de responsabilidade social, quais os mais importantes?

 

R – Bom, isso é verdade. Bom, isso é uma outra coisa também, “a gente começamos” a implantar responsabilidade social. Na época que tava na Federação tinha lá o Almir Gentil, Almir Gentil que já falava na ocasião muito sobre a responsabilidade social, e aquilo acho que impregnou na idéia de todo mundo e nós começamos também os primeiros trabalhos de responsabilidade social. Florianópolis, o Almir na época era preCIDente da Unimed de Florianópolis, já tinha uma identidade muito grande com responsabilidade social, vários trabalhos já implantados, e as idéias do Almir trouxeram pra gente várias idéias e nós implantamos alguns modelos de responsabilidade social. Na ocasião nós tínhamos a nossa grande estrela do tênis que era o Guga, Guga Kuerten, né, nós abraçamos a causa do tênis e fizemos um tênis comunitário. Quê que era isso? Nós, a Singular fazia, contratava um professor e nós pegávamos alunos das escolas públicas e levava-os para passar, para ter aulas de tênis. Então lá eles batiam tênis, era feito um dia de brincadeira e naturalmente já se selecionava pessoas ou crianças com potencial de tênis. Então esse projeto do tênis ele foi adotado em várias cidades, é um projeto que nos orgulha bastante, e tá indo com bastante, já tá, foi adotado em várias Singulares. Então nós não conseguimos na responsabilidade social um modelo único, cada um tem adaptado a sua, o seu tipo de modelo, por exemplo, nós em Blumenau, nós implantamos sobre forma de responsabilidade social, não é responsabilidade social mais, todo aluno da escola no seu período de escola ele tinha um atendimento de urgência, emergência bancado pela Unimed. Ou seja, qualquer criança da escola pública ou privada que tivesse sei lá um corte, uma queda, uma ambulância da Unimed ia lá, pegava, levava ao hospital, fazia o primeiro atendimento, né, depois internava, lógico precisava internar, ou coisa assim, seguia o que ela tinha direito. Então nós implantamos isso na cidade e fizemos disso, inclusive, um case de responsabilidade social que foi mostrado pelo Brasil inteiro e a Unimed Blumenau, meu Deus, ganhou mais de 10, 15 prêmios com esse case que depois foi aprimorado, ou seja, depois começou-se a se ver que não adiantava só fazer o atendimento, implantaram a semelhança dos Cipas [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes] das fábricas, as comissões de prevenção do acidente na escola e fazem uma gincana com participação de cinco, seis mil crianças, é um grande sucesso. Ou seja, aquele atendimento de urgência inicial se transformou num caso de responsabilidade social muito interessante também e que já foi adotado também por várias Singulares.

 

P/1 – A educação ela é vista como um dos princípios básicos do cooperativismo, né, como que você avalia essa questão na sua região e dentro do sistema Unimed?

 

R – Nós desde que estávamos já no conselho de administração da Federação, quando não éramos ainda da diretoria, nós fizemos um curso para os dirigentes, então nós instituímos um curso para o dirigente de cooperativa que era feito em seis módulos, e a gente escolhia normalmente as cidades até pra esse grupo se deslocar para as várias cidades. O quê que fez esse curso? Esse curso nos deu embasamento teórico e nos deu a convivência entre os dirigentes das Singulares do estado. Então com isso formou uma elite pensante de cooperativismo. Esse curso de dirigente inclusive depois ele foi levado a Singular, ou seja, o que inicialmente fazia só os dirigentes, ou seja, aqueles eleitos para administrar a cooperativa chegou a base, foi oferecido aos cooperados, é um sucesso, praticamente, naturalmente foi um pouco enxuto mas todas as Singulares hoje tem esse curso de cooperativismo. Eu acho que cooperativismo a parte educativa ela é fundamental porque nenhum profissional tem a idéia ou sabe cooperativar. Ou seja, apesar de você ensinar, falar, todo mundo ter o discurso, mas na prática o cooperativismo, ou a pessoa entender o cooperativismo e praticar o cooperativismo é muito difícil, porque alguém tem que ceder pra que o outro também possa ganhar, e entre esse ceder e o outro ganhar, esse não pode ceder demais e aquele também não pode ganhar demais. E você encontra esse equilíbrio muitas vezes é difícil. Quando você tem embasamento teórico a coisa fica mais fácil porque você fala uma ação X a pessoa já mentaliza isso, quando a pessoa não tem essa idéia já fica um pouco mais difícil. Por exemplo, eu vejo algumas profissões que tem muita dificuldade pra colocar isso, eu tentei, por exemplo, implantar em Blumenau uma cooperativa de psicólogos, tentei três vezes desisti porque na assembléia de constituição eles já brigavam e não tinha e não ia pra frente. Ou seja, eu não sei, eu acho que a gente devia até ousar mais, eu sei que se fala muito da UniverCIDade do Cooperativismo que já existe uma no Rio Grande do Sul, mas talvez a gente tivesse que levar o cooperativismo para as escolas, começar quem sabe no segundo grau a dar noções de cooperativismo e você começar a pegar líderes cooperativistas e começar a dar essa idéia. Porque o cooperativismo exige uma liderança, não tem só embasamento teórico a pessoa tem que ser um líder pra ele botar as idéias em ação e o líder você pode treinar, você pode, mas ele também tem uma coisa inata. Então se você começasse no segundo grau talvez a gente conseguisse mais gente. Que eu acho que é outra grande dificuldade que eu vejo no cooperativismo é a sua renovação, ou seja, quando você vê as mesmas pessoas se repetirem muitas vezes nos mesmo cargos isso me dá um pouco de medo, e não adianta o discurso fácil de que não tem pessoas competentes pra isso, eu não concordo com isso, eu acho que se não tem pessoas competentes, vamos formas essas pessoas competentes. E eu não consegui fazer na minha gestão na Federação, mas assim que eu saí no primeiro ano na Federação nós fizemos um curso de novas lideranças em Santa Catarina que tinha algumas premissas básicas: o indivíduo tinha que ser menos de 35 anos de idade, por quê? Porque normalmente no cooperativismo a gente chama quem? Um amigo, um conhecido, um indivíduo que tá aqui do lado, uma pessoa que se destaca numa função, mas isso não é fundamental, não é básico, às vezes só o indivíduo ser honesto não é o principal, ele tem que ter mais coisas junto, e as vezes você faz escolhas erradas em função disso, esse curso ele dava esse tipo de habilitação. Então com muito orgulho eu posso dizer que eu plantei a semente, já se formou a primeira turma em Santa Catarina que, inclusive, fez o seu estágio final em Mondragón na Espanha e na Suécia, que são cooperativismos muito fortes, e desse grupo se formaram grupos de, se eu não me engano o primeiro grupo formou-se 30 novos dirigentes que já estão sendo inclusive preCIDentes ou participando de conselho de administração de novas Singulares. Ou seja, nós já começamos a fazer essa renovação com essa preocupação de despertar novas lideranças.

 

P/1 – E quais foram as principais mudanças no sistema após a criação da ANS [Agência Nacional de Saúde Suplementar]?

 

R – Eu vivenciei pouco porque a questão da ANS ela tava, quando eu tava na Federação ela estava sendo, iniciando a sua regulamentação. Então eu creio que ela por um lado ela foi necessária porque, embora, o sistema Unimed era um sistema sério existe picareta trabalhando com saúde a torta e a direita. Se nós tivemos laboratório farmacêutico que colocou farinha em pílula anticoncepcional, então, você imagina gente querendo ganhar dinheiro em saúde. Aqui em São Paulo então aconteceram horrores de planos de saúde que foram verdadeiras arapucas pra ganhar dinheiro, tirar dinheiro das pessoas. Então eu creio que a ANS deu esse lado interessante de você separar “olha, esse é picareta tá fora, não vai ter mais muita chance no mercado, vão durar um pouco de tempo aí, mas vão cair fora”. Mas em compensação ela teve que ouvir demais os direitos do consumidor, não é, no sentido daquela ânsia de você dar tudo, mas a ANS tem que entender que pra você dar tudo tem um custo. Ou seja, aquele plano que dava desde uma sutura no pé a um transplante de fígado ou coração tem que alguém pagar a conta e isso a ANS não tava preparada. Então criou uma questão de conflito que não havia necesCIDade disso aí, hoje o sistema suplementar de saúde ele é básico, não só no Brasil como no mundo inteiro, eu conheci a medicina americana lá eles tem muito mais gente no SUS [Sistema Único de Saúde] do que nós aqui. Então nessa questão a ANS foi extremamente nociva. E o outro aspecto é que o sistema de saúde é o único sistema regulamentado no país, ou seja, os seus aumentos dependem de autorização governamental, ou seja, você pode subir tudo na vida mas não pode subir o teu plano. Absurdo! Então a ANS teve o seu contraponto. E agora tô vivenciando um problema maior que essa nova (DIS ?), essa de solicitação de exame aí com o médico cooperado que eu não posso concordar, aquilo é um absurdo, é uma excrescência, você querer legislar no meu consultório médico onde eu tenho que informar a doença do meu paciente numa folha de papel do qual eu me recuso de qualquer maneira. Se o médico tem até hoje a sua aura e o respeito da população, me lembro a pouco tempo saiu uma estatística aí de quais são as profissões mais confiáveis era bombeiro e médico em primeiro lugar ali, não sei se médico ou bombeiro, bombeiro também tem uma ação comunitária muito grande. Mas isso deve a essa questão de sigilo, eu quero saber o médico que vai defender essa questão de colocar o CID [Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde], se ele colocaria CID do seu paciente com AIDS [Síndrome da Imunodeficiência Adquirida] do seu paciente ali na frente, porque colocar o CID de um hipertenso, um diabético pode ser uma coisa extremamente tranquila que é uma, são coisas relativamente comuns, mas você dizer que o seu cidadão ali na frente que ele tem AIDS, tem sífilis, é esquizofrênico aí eu quero ver, na hora que ele transformar público isso e essa informação puder ser utilizada isso vai causa um dano a classe muito grande. Eu pessoalmente me recuso, não coloco o CID, uso o CID de consulta médica. Ou seja, mais uma vez a ANS intervindo no consultório médico de uma maneira que eu considero acintosa e desnecessária porque duvido que eles vão processar essas informações. Só na Unimed Blumenau são cerca de 45 a 55 mil consultas por mês, isso dá um volume de 700 mil consultas por ano, Blumenau, não há sistema de informática pra processar essas informações, não há maluco nenhum que vá olhar aquilo ali e vá tirar proveito desse tipo de coisa. Ou seja, você começa a colocar uma burocracia dentro de um consultório médico à toa, quem já viu essa ficha, o que você tem que preencher é um absurdo!

 

P/1 – Bom, e depois que você saiu da Federação você foi pra Unicred, é isso?

 

R – Não. 

 

P/1 – Não?

 

R – O problema é o seguinte: o dirigente ele vive uma fase de euforia porque enquanto ele é dirigente ele tem uma séria de situações que o transformam em um cidadão diferente, ou seja, eu na Federação tava hoje em Joinville, depois de amanhã em São Paulo, depois de amanhã em Belo Horizonte, depois de amanhã Chapecó. E é óbvio que você deixa alguma coisa pra trás. Número um: o teu consultório médico. Junto com o número um: a tua família. Tua mulher, teus filhos, de vez em quando numa viagem dessas você leva junto, mas não é sempre. Então o que aconteceu? Nesse período que eu estava na Federação a minha clínica me trouxe problemas enormes, porque é óbvio quando você saiu você abre espaço e alguém ocupa, isso é uma lei física natural. Então o meu consultório teve uma quede fenomenal.  E aí eu achava que a minha meta no cooperativismo, a minha participação no cooperativismo já tava tipo missão cumprida e me dediquei de corpo e alma ao meu consultório, ou seja, entrei de cabeça na minha clínica e posso dizer com orgulho que cerca de quatro anos depois eu consegui recuperar o patamar que eu tinha deixado antes de assumir a Federação. Então vai aqui uma estatística pro dirigente que vai voltar ao seu consultório: você vai levar quatro a cinco anos pra recuperar aquilo que você deixou, não é? É óbvio que nesse período outras se criam e se vão. Então eu tive que abraçar a minha clínica e fiquei de corpo e alma na minha clínica, mas tinha um sentimento do seguinte: apesar de eu ter sido o fundador e o primeiro presidente da Unicred de Blumenau eu tive um cargo honorífico, porque como a Unicred estava sendo criada eu acumulava o cargo de presidente das duas por facilidade de assinatura de fichas, de coisas assim, e na verdade superintendente a Unicred é que tocava a parte dela. Isso era tudo gratuito, eu não cobrava nada porque era uma empresa que tava começando. Então eu nunca pude militar no cooperativismo de crédito, foi o único segmento que eu não tinha participado. E me surgiu a vontade, e também a oportunidade, que me foi dada pelo presidente da Unicred Blumenau, doutor Gilson Candido, me convidou pra ser o seu vice e trazer a minha experiência do cooperativismo médico para o cooperativismo de crédito. O que muito me honrou e nós começamos o cooperativismo de crédito em junho do ano passado.

 

P/1 – E aí tá dando pra compatibilizar...

 

R – Tá dando pra compatibilizar...

 

P/1 – A carreira?

 

R – Sim porque o cooperativismo de crédito ele tem algumas particularidades um pouco diferentes do cooperativismo de trabalho. A principal que eu diria o seguinte: apesar dos lucros maravilhosos que a cooperativa de crédito tem ela trabalha num nível assim muito difícil entre receita e despesa. Ou seja, apesar de uma cooperativa dar no final do ano dois, três, cinco milhões de lucro, simplesmente com intermediação financeira, a margem que você tem ela é mínima, você trabalha com uma equipe básica e o dirigente tá envolvido no dia a dia da cooperativa. Ou seja, lá eu lido com crédito, concede crédito pra um, não concede pra outro, bom pagador, mau pagador, e você participa dessa decisão. É diferente, numa Unimed você já tem várias instâncias de decisão, você tem um gerente dessa área, um gerente daquela área que ocupam esse espaço. Então é muito diferente a situação de uma e de outra, embora, eu sempre digo o seguinte: “os problemas são iguais”. Ou seja, o cooperado que dá problema na Unimed também dá na Unicred e assim por diante, ou seja, é tudo a mesma, a mesma base. Então na Unicred Blumenau ela não há necessidade de eu fazer viagens, então fazermos viagens são raras, sei lá eu uma vez a cada dois meses que você tem que ir pontualmente aqui ou ali, então eu não preciso abdicar do meu consultório. O meu tempo de dedicação a cooperativa também é cerca de duas horas ao dia, não é, e o horário eu escolho, não é, não há necessidade, por exemplo, o colega da Unimed ele tem que tá lá a disposição do cooperado, então lá eu também estou a disposição do cooperado, mas dentro desse horário a gente é plenamente factível. Outro aspecto é que a Unicred se abriu, não é mais só do médico é toda a área de saúde, então tem enfermeiro, fisioterapeuta, bioquímico, farmacêutico e agora, inclusive, abrimos pra contabilistas, então você lida também com outras áreas. Então não atrapalha muito o meu consultório médico.

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente da Unicred, o que faz a Unicred.

 

R – Bom, a Unicred é todo um, é um cooperativismo de crédito onde você tem aplicadores e tomadores, ou seja, o pessoal que tem muito dinheiro deixa lá a disposição, tem uma remuneração por colocar esse dinheiro a disposição pago pelo tomador. Na verdade é uma instituição financeira a semelhança de um banco que tem todas as regras de um banco, nós somos regidos pelo Banco Central, temos que seguir as normas do Banco Central, essa é outra diferença, por exemplo, da Unimed, embora as Unimed’s tenham hoje a ANS elas tem certa liberdade, na Unicred não tem, o Banco Central diz isso não há dizer “ah eu vou fazer dessa maneira, vou fazer daquela” não tem, tem que seguir a norma porque se não o Banco Central não aprova, não aprovando você não opera, se não opera é multa e multas altas. Então esse sistema fez com que nós trouxéssemos um dinheiro enorme que ia para os bancos para o sistema de crédito. Então o ano passado, por exemplo, a Unicred Blumenau lucrou dois milhões e 600 mil que estariam nos bancos, fora o que ela distribuiu durante o ano aos seus cooperados na forma de juros para o aplicador e para o tomador em juros baixos. Um exemplo típico: o cheque especial, por exemplo, que na praça oscila de 5 a 6%, na Unicred ele chega a três e meio, quase a metade. São valores expressivos de diferença, então ela tem essa felicidade. Hoje o sistema movimenta bilhão de Reais, ou seja, era um dinheiro que estaria no sistema bancário e está com a gente, não é? Nós estamos hoje financiando aparelhos médicos, estamos, vamos começar, inclusive, a financiar compra de apartamento, de casa para o médico, já temos um plano de previdência privada que sempre foi o anseio do médico. O plano de previdência privada Precaver em Santa Catarina é um sucesso, começou a cerca de dois anos já tem mais de 30 milhões de ativos e sempre foi o problema do médico, o médico sempre nunca teve a previdência uma coisa forte e agora ele tá vendo que vai ter que começar desde cedo, já tô fazendo pras minhas filhas já desde o começo, elas vão poder ter uma aposentadoria digna sem precisar da aposentadoria estatal.

 

P/1 – E como você vê o mercado das cooperativas de crédito no Brasil np geral?

 

R – Eu vejo o mercado com muito risco, por quê? Porque o sistema bancário é muito forte e tem muito poder. Então eu acho que ele tem um nicho mas ele vai ter que sofrer algumas mudanças. O sistema Unicred ele foi construído um pouco diferente do sistema Unimed e os dois se olhassem um pouco mais talvez pudessem aproveitar o que há de bom em cada um. Um exemplo, por exemplo, em Blumenau onde hoje tem três Singulares Unimed’s, só tem uma Unicred. Ou seja, você evita três conselhos de administração, três gerentes e assim por diante. Ou seja, você tinha três unidades de custo por uma só. E estamos achando que isso é pouco, talvez uma ou mais três ou quatro Singulares vão ter que abrir mão e se fundirem ou serem incorporadas. Há uma tendência do Brasil de seguir os juros mundial de queda. Isso, queda de juros, indica queda de rentabilidade, isso coloca o sistema um pouco em, vamos dizer assim, em jogo. Mas eu creio que a criatividade e as pessoas entendendo vão movimentar o sistema sem maior problema.

 

P/1 – Falando um pouquinho de futuro e da Fundação Unimed, né? Que papel você acha que a Fundação Unimed representa numa perspectiva de futuro?

 

R – Eu acho que a Fundação Unimed seria o braço educativo do sistema cooperativo. Ela tem uma formação forte, tem um quadro profissional muito bom, já tem uma história, já tem uma bagagem que ela pode ensinar todo o sistema. Eu creio que a Fundação Unimed teria que se aproximar de todo o sistema Unimed, tá, e ser esse braço educativo contando a história como eu creio seja essa que a gente tá contando aqui hoje, mas também auxiliando na formação de novos cooperados, reciclando a idéia dos cooperados, porque eu creio até que se ela começar e conseguir com a sua credibilidade e com o nome que tem a Unimed em todo o sistema quem sabe, por exemplo, nós podemos ousar dizer que a gente consiga falar de cooperativismo em escolas, colocar isso em currículo de todas as escolas e de todas as faculdades com isso nós fomentaríamos o cooperativismo na cabeça de mais pessoas, e com isso nós poderíamos fortalecer mais o cooperativismo. Por exemplo, eu hoje sempre dou preferência a qualquer cooperativa: táxi eu só ando com cooperativa, se eu vou no supermercado e aqui eu tenho um produto de cooperativa eu pego de cooperativa, por quê? Porque as cooperativas em princípio são honestas, são direitas. Porque ela não tem o seu vislumbre inicial no lucro, o lucro é uma consequência do seu trabalho, então eu sempre dou preferência a cooperativa e já faço isso há anos por conhecer o cooperativismo. Agora, se como eu 100 mil, 500 mil, cinco milhões fizessem nós amanhã poderíamos, quem sabe, ser um partido, podíamos ser um partido cooperativista, por que não? Quem sabe nós poderíamos ser uma terceira via porque hoje a esquerda morreu, não tem mais, o discurso comunista acabou, tá aí o “fora Bush” aí que é uma idiotice, uma burrice, acabou esse discurso de esquerda e de direita e que não conseguiram melhorar nada, continuamos com a pobreza, continuamos com a miséria e com a desigualdade social. No cooperativismo você consegue igualar mais as coisas, você consegue dar mais chance as pessoas, você consegue introduzir mais as pessoas. Então eu creio que o cooperativismo poderia ser a terceira via que o Tony Blair falou, a questão de, sei lá eu quatro, cinco anos atrás, quem sabe o cooperativismo não poderia ser essa terceira via, não é? Nós também, por exemplo, eu conheço a OIT [Organização Internacional das Cooperativas] que o Roberto Rodrigues aqui foi presidente da Organização Internacional das Cooperativas, já falou, um palestrante fantástico, ele sabe, ele tem uma visão de cooperativismo muito forte. Por exemplo, se nós pudéssemos unir as cooperativas do Brasil, da América Latina, quase do mundo nós seríamos uma potência, nós poderíamos transformar quem sabe o mundo porque o cooperativismo ele consegue distribuir muito melhor do que qualquer outra forma, por quê? Porque o cooperado exerce o seu direito básico que é o voto, ou seja, um cooperado um voto. Esse princípio do cooperativismo singular ele é extremamente importante em toda vida. 

 

P/1 – E projetos de futuro do sistema Unimed, você conhece?

 

R – Do sistema Unimed eu tô um pouco afastado, o que eu conheço é de conversa com colegas, é de, é mais assim não mais como um dirigente, vamos dizer mais como um cooperado.

 

P/1 – A sua visão, então, de futuro qual seria?

 

R – A minha visão de futuro eu acho que. Agora eu vou falar mais como um cooperado porque é seguinte: embora o dirigente muitas vezes continue sendo um cooperado, quando ele fica mais tempo militando como dirigente o problema do dia a dia do cooperado fica um pouco desfocado pra ele, por quê? Porque ele fica mais informado da auditoria, da receita e da despesa e assim por diante. E o cooperado na ponta é que vive o problema do dia a dia. Então eu creio que o sistema cooperativo ele vai ter que passar por uma reciclagem, ou seja, ele nos serviu até agora. É ótimo, é bom. Agora, vou dar um exemplo da minha cidade porque é onde da minha região onde eu mais conheço, você tem quatro cooperativas singulares num raio de 200 quilômetros, certo? Então, Rio do Sul, Blumenau, Brusque, Itajaí que tem quatro conselhos de administração, quatro comitês de ética, quatro gerentes, ou seja, você tem quatro unidades de custo, será que se você unisse tudo numa só você não conseguiria dar mais dinheiro ao cooperado? São questionamentos que eu faço. Eu não tenho dúvida em afirmar que sim, por quê? Porque no nosso período na Federação nós administramos oito cooperativas singulares pequenas que conseguem pagar duas vezes mais do que as Unimed’s grandes pagam pela consulta médica, por exemplo, pelo ato médico. Então eu acho que o cooperativismo médico vai ter que reciclar um pouco, como ele foi feito serviu, mas ele vai ter que trazer algo novo. O quê que tá acontecendo na ponta? Na ponta o honorário médico tá defasado, ele não tá mais conseguindo pagar os custos que o médico tem no dia a dia, na minha cidade que é pequena tá se fechando todo mês consultório médico, por quê? Porque o médico não tá conseguindo arcar com esse custo. Eu entendo toda a sistemática que tem num pagamento de uma consulta, de um ato médico, mas quando nós criamos a cooperativa ela tinha uma finalidade básica: dar trabalho a um preço, vamos dizer assim, muito bom. Nós chegamos a pagar durante anos em Blumenau um preço muito próximo da consulta particular do médico, por exemplo, hoje já está defasada em 300%, ou seja, a minha consulta particular ela é três vezes e meio mais do que uma consulta da Unimed. Então essa distância eu creio que é um risco. E não adianta a gente ficar só no discurso do cooperativismo, ou você parte para uma ação ou vai acontecer algum movimento de você tentar buscar a sua saída. Que aí é que acho que os dirigentes vão ter que ter a criatividade de criar algo novo, criar um novo dentro do sistema do que aquilo foi criado.

 

P/1 – Que lições você acha que pode trazer do passado para o futuro?

 

R – As lições do passado que eu creio seriam mais o seguinte: nós temos que trazer a idéia do cooperativismo já desde o segundo grau, se não no segundo grau começar a atingir as faculdades pra gente poder ensinar as questões do cooperativismo, em todos os sentidos. Nós temos que entender que existe um mercado de trabalho que tá cada vez mais sendo açodado por inúmeros médicos que estão se formando pelas várias faculdades que estão sendo criadas. E temos que manter uma satisfação do cliente no atendimento médico com um custo da medicina crescente cada vez mais não só no Brasil, no mundo inteiro. A tecnologia médica é fator de inflação inclusive nos Estados Unidos e na Europa. Eu creio que o passado, a história ela formatou um gigante, hoje a Unimed ela é vista pro mundo inteiro como um exemplo. Então nós construímos uma história, conseguimos comprovar que o médico é bom não só no atendimento do cliente mas ele pode criar uma empresa sólida, confiável e de prestígio, prestígio em todos os sentidos. Aí somos o top of mine da Folha, meu Deus, o segundo colocado está a anos luz de distancia, não é? Então nós conseguimos comprovar isso aí. Agora, temos o desafio de ter que começar a, por exemplo, influenciar a política de saúde, nacional de saúde, não sermos olhado como um vilão, quem tá querendo tirar A ou B, não, (TOSSE) mas nos respeitarem e creio que isso vai formatar alguma coisa diferente. Eu divaguei um pouco.

 

P/1 – Tudo bem. Quais foram os principais desafios que você enfrentou na Unimed?

 

R – Os principais desafios eu creio que eu mais senti é quando você tem uma idéia, que ela é para o bem comum, você convencer as pessoas de que aquela idéia é boa. É engraçado porque mesmo a idéia sendo boa a desconfiança com que as pessoas te olham ou colocam uma coisa difícil. Eu sempre conto a questão de quando nós fomos comprar as sedes da Unimed Blumenau, então nós fizemos uma assembléia, fizemos toda uma exposição de motivos, nós mostramos, nós fotografamos as salas, os prédios onde estavam, quer dizer, a bagunça que era a Unimed e a necesCIDade de a gente ter que unificar a sede, comprar uma sede. Deliberamos sobre, discutimos sobre isso durante quase duas horas, botamos em votação foi aprovado por unanimidade. Mas quando termina a assembléia você sai, vai conversar, tem uma pessoa assim que chega: “mas vem cá será que nós vamos precisar mesmo comprar essa sede? Será que a gente não podia, assim, comprar uma sedezinha pequena e ir crescendo?” Aí eu gelei, eu digo: “mas meu Deus do céu! Nós debatemos por duas horas, tu tiveste oportunidade de falar qualquer, tu tá me perguntando ainda? Então, pô, eu falei em inglês! Eu falei sueco, porque não é possível, pô tu vir com essa conversa agora pra mim!” Aí já me alterei e já comecei a falar alto, esse cara não gosta de mim até hoje e com toda a razão. Então é isso que eu acho que é a maior dificuldade, você colocar isso aqui. Eu falei do Hospital Dia que nós tínhamos o foco no médico cooperado e o cliente, e falei daquele café que nós dávamos pro médico, me fizeram convocar uma assembléia geral porque achavam que o médico estava tendo um tratamento nababesco. Vou dar em números pra vocês entenderem: esse café colonial ele custava exatamente 35 Reais por dia, então multiplica por cinco, multiplica por 20 dias, ou seja, 700 Reais por mês, era esse café colonial nababesco. E eu tive que dizer pro pessoal que, “meu Deus do céu! Nós não podemos pagar para o médico cooperado 700 Reais, então, nós somos uma porcaria!” Mas tive que fazer uma assembléia geral pra mostrar essa questão, né? Então são situações difíceis, o inusitado que acontece, né, eu me lembro também que nós fomos numa reunião da Federação, uma cidade que era distante seis horas e meia da sede da Federação em Joinville, pegamos tempestade, tal, era uma reunião com uma Singular pequena. Pô, chegamos dez minutos atrasados, entramos na sala um cara se levanta assim: “vocês estão atrasados, estão atrasados” eu digo “pô, é uma sensibilidade assim maravilhosa, quer dizer, nós andamos 350 quilômetros, chegamos lá tudo meio bolado, tá entendo, pra uma reunião e um cara cobrando dez minutos de atrasado”. Ou seja, esse inusitado do cooperativismo é uma coisa engraçada. Agora, em compensação ele me dá uma coisa maravilhosa que é você saber lidar com o contraditório, ou seja, na cooperativa ninguém é certo, ninguém é errado, todo mundo é certo, todo mundo pode tá errado. Ou seja, uma pessoa chegar e implantar uma idéia e alguém dizer “eu discordo”, eu tenho que entender isso com a maior humildade e entender que ele pode estar certo, que eu não sou o dono da razão, e que eu tenho que dar direito e a voz pra ele, e isso pra mim impregnou com muita tranquilidade. Hoje o contraditório pra mim é a coisa mais normal do mundo, ou seja, eu apresento uma idéia uma pessoa diz “eu não concordo” antigamente eu ficava com uma raiva, vontade de avançar no pescoço. Hoje não, “diz que não, mas por que não? Vamos lá, fala, defenda a tua idéia” isso serviu inclusive pra minha vida profissional, ou seja, quando eu proponho a um cliente meu, no meu escritório “você vai ter que fazer uma cirurgia do coração” ele diz que não, antigamente eu tentava de toda a maneira dizer que “não, você tem que operar”, hoje não, “olha ótimo, tudo bem, vou continuar tratando”, volto a insistir, defendo a minha idéia mas não querendo impor mais a minha idéia, entendendo que ele também tem o direito de dizer não. E esse contraditório a gente aprende no cooperativismo.

 

P/1 – E o que você considera a sua principal realização na Unimed?

 

R – Bom, eu não gosto muito de relembrar fatos, por exemplo, assim, eu tenho placas hoje com o nome em vários, várias estruturas que a gente criou. Tive a felicidade porque isso não foi só eu, eu aqui estou representando várias pessoas, não é? Eu teria que relembrar porque quando eu estou aqui falando eu tô falando em nome de vários cooperados porque nunca fiz o movimento sozinho, eu era o cabeça, o presidente que tem a sua responsabilidade, não há dúvida está no estatuto mas foram várias pessoas. O que pra mim foi mais importante “foi as pessoas”. Então trabalhar com médicos de todas as matizes, especialidades, conhecimentos e com os funcionários, os funcionários das cooperativas são seres excepcionais, são pessoas de outro mundo. Eu encontrei em todas as cooperativas onde eu trabalhei pessoas de altíssimo quilate. Então o que mais me enriqueceu foi em primeiro lugar conhecer pessoas, pessoas que me enriqueceram, que me acrescentaram, que me trouxeram uma bagagem de vida fantástica e que me ajudaram a chegar onde eu cheguei. E o segundo lugar foi conhecer profundamente o cooperativismo, eu posso dizer hoje que eu sou, sem falsa modéstia, eu sou um doutor em cooperativismo. Doutor no sentido que conheço profundamente desde a sua base, tá certo? Desde a sua fundação, a sua evolução ao longo do tempo e isso foi que me enriqueceu profundamente. 

 

P/1 – O que você considera que mais mudou na Unimed ao longo da sua trajetória?

 

R – O que mais mudou na Unimed foi a sua grandiosidade e, depois, a sua penetração na comunidade. Unimed é sinônimo de credibilidade. Vou dar um exemplo típico: nós lançamos em Blumenau, porque quando a gente criou a Usimed, lógico, o nome já foi proposital, estava linkado com a Unimed. Então nós criamos o plano medicamente, e o plano medicamento ele fazia o seguinte, eu já falei aqui antes, ele cobrava um Real da pessoa, ela ia na farmácia ela tinha 30% de desconto numa relação de cerca 150 medicamentos. Nós mandamos para os usuários do plano, do plano pessoa física, mandamos pra cerca de 23 mil pessoas a proposta desse plano. Pasmem! 21 mil adeririam no primeiro mês. Lógico, fizemos uma estratégia de marketing muito interessante, mas aquilo foi um choque, a empresa que foi contratada, a empresa de publicidade que foi contratada pra isso fez um case que ganhou um prêmio, inclusive, porque isso nunca, nunca se teve uma resposta tão grande. Então isso eu tô dando só um exemplo, demonstração do nome Unimed. O nome Unimed hoje é de uma credibilidade a toda prova, se amanhã um dirigente disser “o capim cura tal” o pessoal vai comer, não tenho dúvida disso porque é uma credibilidade assim fenomenal, é uma coisa que emociona. Hoje o Top of Mine mostra isso, né? Quando você faz a pergunta tá aí, o nome Unimed solta com toda intensidade.

 

P/1 – Você poderia nos contar algum caso pitoresco que aconteceu ao longo desses anos?

 

R – Eu sou muito ruim pra me lembrar esse tipo de coisa, não tenho a verve de contar causos. Eu, a gente vivenciou muitos casos pitorescos, mas assim especificamente eu vou dizer com sinceridade eu não tenho, agora no momento não me solta nada não. Vou deixar, olha, o Almir Gentil vai ter muitos casos pra contar aqui. 

 

P/1 – Tá bom.

 

R – E ele tem toda uma verve especial, ele vai enriquecer o Museu sem dúvida nenhuma.

 

P/1 – E na sua carreira médica, quais foram assim, teve algum fato mais marcante?

 

R – Engraçado, eu sou um pouco iconoclasta, eu acho assim que quando eu fiz um trabalho e ele se realizou eu não fico apegado, e acho que você fazer bem um trabalho é uma obrigação, não é mérito. Então, por exemplo, pessoalmente eu não gosto de homenagem, “ah, vamos homenagear o fulano que fez aquilo”, porque aquilo pra mim já é uma coisa implícita, eu acho que acabou, ou seja, eu fiz aquilo, aquilo acabou. Agora, o quê que me deixa satisfeito? O que deixa satisfeito foi aquilo que já falei antes, por exemplo, hoje o meu nome Walmore ele é conhecido não só no Estado de Santo Catarina, eu ouso dizer  em várias partes do Brasil porque ao longo desse tempo nós militamos aqui na Unimed do Brasil nós fizemos amigos no Nordeste, em Minas, Rio Grande do Sul, né? Então, hoje que a gente já tá afastado algum tempo eu passo por pessoas que cumprimentam eu nem sei mais da onde é, como eu conheci, mas o nome da gente tornou conhecido nacionalmente. Isso pra mim é uma coisa também que me enriquece, me deixa até, me estimula a vaidade, ou seja, eu fiquei satisfeito com esse tipo de conhecimento, de conhecer, coisa assim. Que a pessoa normal, vamos dizer, não vai conseguir e foi através do cooperativismo que eu consegui isso aí, então eu me sinto gratificado. Ou seja, todo aquele trabalho que eu tive me gratificou dessa maneira, mais no sentido de eu conhecer pessoas, isso me deixou extremamente feliz. 

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho agora da sua família.

 

R – Sim. 

 

P/1 – O seu estado civil?

 

R – Eu sou casado com a Mirela, Mirela Menezes, uma família de Florianópolis, de jornalistas, não é? O irmão da Mirela hoje é um jornalista muito conhecido em Florianópolis, Cacau Menezes. E nos casamos em Florianópolis e fomos morar em Blumenau. Florianópolis tem chamado de Manézinho. O Manézinho de Blumenau foi uma loucura, porque a Mirela com toda a sua verve de ilhéu, a sua brincadeira. Florianópolis tem a fama de botar apelido nas pessoas e coisa assim, chegar numa cidade onde todo mundo é cintura dura, Blumenau não tem carnaval pessoal, se você quer fugir do carnaval, não quer nem ouvir nenhum apito vá a Blumenau, nem guarda apita. Blumenau trabalha segunda e terça de carnaval, Blumenau trabalha...

 

P/2 – Não tem a Oktoberfest lá?

 

R – Tem a Oktoberfest, foi criado a partir de 1983.

 

P/1 – É o carnaval. [RISOS]

 

R – É, aqui é o carnaval do alemão. E aí o alemão se transforma, é engraçado isso. Mas onde, por exemplo, esse carnaval eu tava em Blumenau, tava saindo na sexta-feira, não tinha nada, cidade normal e tal. Eu ando vou até Florianópolis. Florianópolis aquela ferveção, gente na rua já fantasiado, e já gente com cerveja na mão, então é engraçado. Então a Mirela veio pra Blumenau, viu esse pessoal cintura dura, mas se deu maravilhosamente bem, já conquistou todas as pessoas e foi muito engraçado. Inclusive nós fomos, a primeira vez que a gente saiu foi numa festa, convidado de alguns amigos, chegamos lá o pessoal só falando em alemão. Os primeiros dez minutos foi um horror, ela não fala, eu também não falo nada alemão até que daqui a pouco um disse uma palavra em português eu peguei uma deixa falei “agora fica, agora ninguém me solta mais, começamos a falar em português e foi embora”. Então a Mirela veio comigo para Blumenau, viemos em 1980, nunca perdemos as raízes com Florianópolis porque embora eu tenha nascido em Blumenau, vivi muito pouco tempo em Blumenau cinco ou seis anos da minha vida, o restante eu vivi fora. Mas revi vários amigos, tenho familiares da minha mãe em Blumenau, quando eu cheguei em Blumenau minha avó era viva ainda, nos acolheu muito bem. Então a cidade é muito amigável, depois que você entende o jeito do alemão você se sente em casa, são pessoas extremamente positivas que lhe acolhem e acolhem bem.  E eu me senti, foi muito bom a gente ter ido lá porque também ficamos, criamos a nossa identidade com Blumenau. Em seguida nasceram depois as minhas filhas, primeiro tive a minha filha Maria Eduarda e em seguida Maria Gabriela, elas com um ano e seis meses de diferença entre elas. Maria Eduarda nasceu no dia 29 de setembro, e a Maria Gabriela no dia 31 de janeiro, a Maria Eduarda em 2002 e a Maria Gabriela em 2004. Então lá tivemos nossas filhas e fizeram toda a sua formação escolar em Blumenau. Elas foram comigo pros Estados Unidos, Mirela e as minhas filhas. Eu saí e fui pros Estados Unidos e fomos juntos, então, também foi muito gratificante porque nós ficamos muito juntos, todos nós batalhando, elas tendo que estudar nas escolas públicas americanas, eu indo pro hospital todo dia, a Mirela foi fazer um curso numa universidade americana, um curso de língua na universidade americana. Então foi um momento muito mágico, muito bom porque uniu novamente a família, nós estávamos num país estranho, né, com todas as dificuldades que se tem num outro país, foi muito bom pra gente.

 

P/1 – E o que mais você gosta de fazer nas horas de lazer?

 

R – Nas horas de lazer eu gosto de praia, então nós temos apartamento em Florianópolis, eu sou, quando eu posso tô sempre na praia, Blumenau tem o Balneário Camboriú que é próximo, mas a gente optou por ter o nosso apartamento em Florianópolis em função do meu pai e minha mãe mora em Florianópolis e a mãe da Mirela mora em Florianópolis, o pai da Mirela também morava, mas faleceu. Então nós temos, o que eu mais gosto é praia. E o segundo que eu mais gosto é viajar, eu viajo muito, eu viajei grande parte do que eu ganhei na minha profissão eu fiz em viagem, gastei em viagem, investi em viagem. Investi, não gastei, investi em viagem porque sempre fui com as minhas filhas junto, então isso criou uma união familiar muito grande e conhecemos boa parte do mundo, nos enriquecemos culturalmente e nos deu uma bagagem cultural muito boa. Blumenau também foi muito importante por ser uma cidade pequena nós almoçamos todo dia juntos, temos uma rotina familiar que a gente almoça todo dia ao meio dia e meia. Há 20 e poucos anos então criamos uma família com laços muito fortes de amizade, de sentimento, de amor entre nós. E consegui que inclusive através disso, porque, por exemplo, normalmente é uma fase muito difícil filho querer seguir a carreira do pai, uma filha minha se formou em Medicina agora no ano passado, e agora nesse ano a outra filha se formou em Psicologia, ou seja, também vai lidar com a área da saúde, então eu consegui passar a idéia de que é uma profissão boa, profissão onde você se realiza, você pode ajudar o próximo, isso também me gratificou bastante.

 

P/1 – Agora vamos passar para uma avaliação final, tá? Como você vê a atuação da Unimed no Brasil?

 

R – Eu vejo a atuação da Unimed no Brasil extremamente profícua porque o cisma que houve de criação da, de outra confederação, né, que agora finalmente se uniram praticamente, prática não, se uniram, foi extremamente, acho que isso foi uma felicidade muito grande dos dirigentes que abdicaram de suas vaidades e unificaram o sistema porque não tinha o mínimo de sentido de você ter duas confederações. Acho que a Unimed consegue levar o nome do cooperativismo médico pra todo o Brasil, todos os Estados do Brasil tem a sua representação. Acho que a Unimed do Brasil tem, inclusive, já começou uma representação política no Congresso e nas Assembléias dos Estados. Ou seja, o cooperativismo médico tem uma forma de se expressar, já tem canais de se expressar e eu creio que ela tem uma atuação extremamente proveitosa.

 

P/1 – E na sua opinião como a sociedade vê a Unimed?

 

R – De várias formas. As pessoas que estão mais envolvidas com a Unimed entende ela enquanto cooperativa. Nas cidades pequenas eu acho que é mais fácil entender a Unimed enquanto cooperativa porque o cooperativismo agrícola é muito forte nas cidades pequenas. Nas capitais eu creio  que a Unimed é muito mais vista como um plano de saúde em que dá uma assistência médica pra quem quer fugir do SUS, né, quer sair da rede pública que tá, tem as suas dificuldades ele tem um plano de saúde confiável, de qualidade e com uma rede de atendimento nacional. Eu creio que essa é a visão que o cliente tem. Mas em todos os lugares, quer cidade pequena ou grande tem idéia de que é uma empresa forte, séria e honesta. 

 

P/1 – E qual o diferencial da Unimed pros outros planos de saúde?

 

R – Sem dúvida nenhuma o cooperativismo. O cooperativismo é a base e é isso que ele tem como total diferença. Ou seja, a Unimed não vai mercadejar saúde, ou seja, embora não sejamos hipócritas de dizer que o lucro não é uma parte fundamental em qualquer empresa ela não é primordial. É diferente de eu ser dono de uma empresa de saúde de qualquer nome, Amil, Golden Cross me interessa o dinheiro pra abastecer o meu jato, o da Unimed não. O da Unimed, em princípio, ela tem que ter a visão do seu cooperado que é o dono e tem que ter a visão do cliente e isso só uma cooperativa tem, nenhuma empresa de saúde vai ter isso aí. Isso inclusive é o que eu acho que nenhuma empresa estrangeira entrou no Brasil, por ser a Unimed tão forte como é, e por ter uma regulamentação da ANS tão pesada que ninguém entra aqui, ninguém quer vir, mas os que tentaram quebraram, quebraram a cara.

 

P/1 – E qual o fato mais marcante que você já presenciou na Unimed ao longo desses anos?

 

R – Um fato marcante, engraçado pra gente foi quando o Bradesco veio a Blumenau e entrou com tudo. Joinville vivenciou na história do corporativismo médico uma situação a parte, ou seja, um hospital pressionou os médicos lá para atendimento ao Bradesco, os médicos fizeram uma greve, se recusaram a atender e o superintende do Bradesco lotou um avião aqui em São Paulo e aterrissou ou em Joinville cheio de médicos, se eu não me engano chegaram 120 médicos na cidade e isso foi filmado, saiu em rede de televisão, não é? Foi notícia nacional. E a Unimed Joinville que era a maior Unimed do Estado na ocasião com 150, 160 mil clientes, fortíssima na cidade de Joinville perdeu de cara 50% dos seus clientes. Aquilo foi uma revolução além do que trouxe 120 médicos novos na cidade completamente desconhecidos de qualquer situação. E já sabíamos que em seguida eles iriam para Blumenau, por serem cidades semelhantes na sua formação cultural, na sua formação industrial. Embora Joinville tenha mais formação industrial pesada, e Blumenau mais indústria têxtil. A indústria têxtil também Joinville era forte. E sabíamos que eles viriam a Blumenau. E nós tentamos de toda forma uma convivência pacífica porque essa situação do Bradesco em Joinville criou traumas na classe médica de tal maneira o seguinte: “ah, você atende o Bradesco eu não falo contigo, você não frequenta a minha casa, você não vai no meu  clube” e a recíproca é verdadeira “você é da Unimed você não vem aqui, você não vai lá” e assim por diante. E a gente achava que tinha uma maneira de você contornar isso aí e eu tentei em algumas maneiras conversar com o superintendente do Bradesco, na ocasião que era um ex-chefe da SUSEP [Superintendência de Seguros Privados], agora me foge o nome dele, pra tentar “olha, como a gente faz uma forma harmoniosa, vamos fazer o seguinte, não vá garganta da gente, você tem aqui hoje em Blumenau uma gama de clientes que você pode pegar, acho que a concorrência normal ela é salutar” e assim por diante. E o cara numa prepotência disse: “olha, não quero saber de nada, assim assado” falei: “ah, é assim? Então é o contrário, então tu é que vai ver o que vai ser, o que nós vamos tocar em cima de vocês e nós vamos com tudo, e você vai ver o seguinte, você não vai crescer aqui dentro, nós não vamos permitir que você cresça”. “Duvido, vocês não tem peito pra isso, eu vou fazer o mesmo eu venho de Joinville”. “Joinville não vai dar porque aqui não tem nem aeroporto, vais posar em Navegantes, vai ser feio pra ti!” Bom, e fizemos uma situação que foi inédita do cooperativismo, nós criamos a figura do médico credenciado por quê? Porque na ocasião nós tínhamos muito forte a bandeira do cooperativismo que dizia o seguinte: você só pode atender a Unimed, se você atender outro convênio você estará ferindo as leis cooperativistas. E o indivíduo que atendia outro convênio era expulso, era sumariamente expulso da Unimed. E nós numa forma criativa, criamos a figura desse médico que eu falei credenciado. O que esse médico fazia? Esse médico duma maneira pedia a sua saída da Unimed e nós permitíamos a ele que ele continuasse atendendo a Unimed e pudesse atender os planos de saúde que ele quisesse. Foi uma maneira hipócrita? Foi, foi porque algumas pessoas foram pressionadas a fazerem isso, não fizeram isso porque queriam. Ou um grupo de médicos as pressionava fazer isso, alguns hospitais pressionava a fazer isso. Mas com isso eu tirei o discurso do Bradesco do monopólio, porque onde eles entraram eles diziam “não, porque a Unimed é monopolista”, eu dizia: “negativo, aqui em Blumenau pode atender o convênio que quiser, não tem problema nenhum, ele sai da Unimed, ele continua atendendo a Unimed e os convênios que quiser”. E foi fantástico, fantástico porque esse cidadão do Bradesco tinha me dito que em cerca de um ano eles teriam 60 mil clientes, tá certo? E no final de dois eles só tinham 20 mil clientes que era onde o Bradesco tinha participação acionária que eram duas indústrias fortes na cidade, a Castem e Creme, duas indústrias têxteis muito fortes na cidade onde eles tinham participação acionária, ou seja, eles tinham o poder acionário que eles podiam exigir que a fábrica X tivesse a Unimed como...

 

P/2 – O Bradesco...

 

R – O Bradesco como...

 

P/2 – Como conveniado.

 

R - Como conveniado. E no final de dois anos eles ficaram só nos seus 20 mil clientes. Então foi uma baita duma vitória que a gente teve. Lógico, foi com algum trauma? Foi. Mas um trauma pequeno em função do que aconteceu na cidade, ou seja, nós olhamos o que aconteceu naquela cidade, não vamos repetir aqui, fizemos toda essa estrutura e conseguimos bloquear o concorrente. Hoje o Bradesco é traço na cidade de Blumenau, tem lá ainda os seus clientes, é até bom que tenha serve como o diferencial, não é? Isso foi um fato que me marcou.

 

P/2 – Essa idéia surgiu de vocês? Porque hoje a Unimed trabalha assim, né?

 

R – Essa idéia surgiu da gente, surgiu da gente porque naquela ocasião não era permitido, certo? Os estatutos das Unimed’s eram extremamente amarrados. Eu inclusive em Blumenau na minha gestão tive que expulsar um médico que era o gerente da Golden Cross local, eu tive que intimá-lo a sair, foi uma situação extremamente desagradável, o rapaz me pedia “pô, mas eu não quero sair” e eu dizia “mas eu sou obrigado, você tá aqui, você está aqui tem o estatuto que não permite e tal”.  E essa figura do médico credenciado foi uma inovação. Uma inovação fantástica e que permitiu esse tipo de situação, inclusive foi engraçado porque num primeiro momento o pessoal que ficou só com Unimed se sentiu prejudicado e aí queriam que eu punisse o pessoal que foi credenciado, e num primeiro momento nós atendemos os apelos e falamos o seguinte: “não, o credenciado vai ganhar a consulta menos 20%, a título de taxa de administração”. Pô, o CRM [Conselho Regional de Medicina] veio em cima da gente na mesma hora “muda isso que se não vocês vão ser processados, vão caçar o CRM de vocês” e aí mudamos. E as pessoas entenderam que, ou seja, num primeiro momento isso deu um bafafá enorme, mas as coisas foram se acomodando, se acomodando e se criou um grupo misto e de cooperados só iniciais. Depois com a evolução das situações mudou essas decisões e essa questão fechada do cooperativismo não existe mais hoje em Blumenau, você pode atender praticamente quem quiser.

 

P/1 – Na sua opinião, qual a importância da Unimed pro cooperativismo brasileiro, pra história?

 

R – Bom, ela é um modelo, ela é um modelo, né? Porque por exemplo, o cooperativismo brasileiro sempre foi assentado nas cooperativas agrícolas que sempre, desculpe a expressão, “mamou nas tetas do governo”. O cooperativismo agrícola durante muitos e muitos anos vivia das benesses do governo, “ah, a minha safra se quebrou, eu tive um financiamento, não quero pagar” e assim por diante. E nós desde o começo tínhamos auto-gestão, ou seja, o cooperativismo médico nunca precisou do governo, muito pelo contrário, quando o governo não atrapalha é muito bom. Quando o governo não vem, pô, a gente tava maravilhosamente bem. Foi só o governo entrar nos atrapalhou, entende? Então nós conseguimos mostrar ao cooperativismo como um todo, o cooperativismo brasileiro, que existe condições sim de você criar um cooperativismo sério, urbano e rural também, não deixa de ser, mas com competência, tá?

 

P/1 – Quer retomar? Falar mais um pouquinho?

 

R – Não, tava bom.

 

P/1 – Tava bom? Bom, quais foram os maiores aprendizados de vida que obteve trabalhando na Unimed?

 

R – Bom, a Unimed possibilitou que eu exercesse a capacidade de um administrador, ou seja, administrei dinheiro e pessoas. Dinheiro porque poxa, a Unimed Blumenau no meu segundo mandato ela era entre as 20 empresas mais ricas da cidade de faturamento, ou seja, quando que um médico vai trabalhar numa empresa que fatura cinco, seis milhões por mês? Isso é uma coisa fantástica, quer dizer, me propiciou esse tipo de coisa. E me propiciou novos conhecimentos, por exemplo, assim, pra mim hoje analisar um balanço é a coisa mais natural do mundo, entrega um balanço pro médico pra você ver o quê que é, não vai saber nada do que é isso, eu sei direitinho o quê que é um balanço. Eu sei a importância de uma auditoria. Então enriqueceu a minha vida, ela possibilitou com que eu crescesse não só na medicina, mas todo o meu conhecimento geral aumentou, cheguei a ousar a fazer uma pós de gestão empresarial.

 

P/1 – O que é ser Unimed?

 

R – Ser Unimed é ter o cooperativismo no seu sangue, na sua veia, ou seja, eu sou cooperativa, sou cooperativista e tô com ele sempre em qualquer situação.

 

P/1 – O que você acha da Unimed comemorar o seus 40 anos de vida por meio desse projeto de memória?

 

R – Eu parabenizo a Unimed por essa situação. Eu sempre tinha essa crítica, por quê? Porque os dirigentes passam na Unimed, eles fazem a sua história e são completamente esquecidos. E nós temos exemplo na Unimed Blumenau, na Unimed do estado, sendo que seguramente na Unimed do Brasil. Ou seja, uma empresa pra ser forte ela tem que ter história, a sua história tem que ser contada, contada, escrita, pra quê? Pra aqueles que nos sucedam entendam o porquê que aconteceu. Eu vou dar um exemplo: no meu segundo mandato houve uma entrada muito grande de novos cooperados que numa determinada assembléia queriam rediscutir uma decisão tomada há seis anos atrás. Na ocasião nós optamos por não pagar um imposto, as cooperativas sempre tinham brigas com relação a determinados tipos de impostos e aí se levantou uma celeuma naquela assembléia de se discutir uma decisão já tomada a seis anos atrás. Por quê? Porque não conheciam nada da história dessa cooperativa. Então eu acho que esse projeto vai dar o resgate, vai proporcionar, vai possibilitar que pessoas como eu venham aqui contar a sua história, e que essa história possa em algum momento servir de exemplo, de inspiração e quem sabe de transformação de pessoas como foi comigo porque o cooperativismo me transformou, me fez uma pessoa melhor, me fez uma pessoa mais solidária, me fez uma pessoa em crescimento, em constante crescimento, e me fez uma pessoa conhecendo uma área nova, uma área diferente, né, de administração de pessoas e de idéias. Então esse projeto vai resgatar isso aí, vai resgatar, vai construir a nossa memória e vai deixar isso registrado, vai possibilitar que gerações daqui a 50, 100 anos conheçam essa história, evoluam com essa historia e tenham um exemplo dessa história.

 

P/1 – Tem alguma coisa que a gente não perguntou que você gostaria de colocar?

 

R – Não, eu estou extremamente satisfeito eu quero só agradecer enormemente a oportunidade de estar aqui, hoje eu me sinto envaidecido. Envaidecido porque eu consegui registrar a história, a minha história, a nossa história no cooperativismo. O quê que acontece? Quando você sai e você deixou obras você virou uma placa, você virou um nome e esse nome nem sempre é relembrado, ele não precisa ser relembrando. E aqui não, aqui eu vou ter a minha memória resgatada, eu vou ter a minha memória para sempre e quem sabe até eu nos meus momentos, nos meus delírios eu venha consultar, eu venha ver essas memórias, eu venha olhar essas memórias, eu venha me emocionar com essas memórias porque elas vão me trazer recordações, em tal data eu fiz isso, em tal data eu fiz aquilo. Então, hoje o meu sentimento aqui é de gratidão, de gratidão e de, pelo convite de tá aqui, de poder falar o que eu pude falar aqui com vocês.

 

P/1 – Então em nome da Unimed e do Museu da Pessoa a gente agradece a sua entrevista, obrigada.

 

R – Muito obrigado, muito obrigado.

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