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História

O requinte do Palacete 1922

História de: Carlos Eduardo Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/04/2021

Sinopse

Carlos Eduardo nasceu em 4 de novembro de 1960. Avôs paternos vieram de Portugal, avós maternos da Itália. Avô trabalhava em uma carvoaria. Carlos cursou Engenharia, Pedagogia, Matemática e Psicologia, dá aulas e atendimentos. Quando criança brincava bastante, jogava futebol, bolinhas de gude. Palacete 1922 100 anos de patrimônio histórico. Vinhos Finos. Projeto de revitalização do centro da cidade. Cardápio variado de época. 

 

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História completa

          Sou Carlos Eduardo Lopes, nascido no dia 4 de novembro de 1960, na cidade de Ribeirão Preto. Meu pai é João Adriano Lopes, e minha mãe é Marli Silva Lopes. O meu pai era da Polícia Militar, bombeiro, e minha mãe era dona de casa. O meu avô paterno, José, veio de Portugal quando era criança e se estabeleceu em Ribeirão Preto. A minha avó materna, Amália, tinha pais italianos.

          Quando eu era criança, Ribeirão Preto era uma cidade pequena. A gente costumava ficar muito nos sítios no final de semana, com aquela comida de sítio, com galinha, porco, verduras... essa era a tradição. A minha rua era asfaltada só até um quarteirão passando a minha casa, porque depois já eram ruas de terra. Tinha muitas casas em que o chão era de solo batido ou mesmo de tijolos. E na maior parte do tempo era futebol a brincadeira preferida, porque a gente fazia campinho, mas também tinha bolinha de gude e aquele esporte que a gente chamava de bets. E era uma época de a gente explorar os lugares, ir atrás de pés de frutas, subir em mangueira, em goiabeira.

          Eu fui pra Escola José Martiniano de Souza, que era conhecida como Industrial, pois é uma escola técnica estadual. De manhã eu tinha o currículo normal do ginásio, à tarde eu tinha aulas de marcenaria. Quando terminei o ginásio, fui pra escola de cadete do exército em Campinas. Aí eu já era suficiente economicamente, porque eu tinha onde morar, eu recebia um salário. Fiquei nessa escola militar por três anos, porque meu pai era militar, e desde criança eu queria ser militar. Mas durante o curso, eu fui vendo que aquilo não era a minha vocação. E como eu tinha facilidade com exatas, gostava de desenhar, falei: “Vou fazer Engenharia, né?” Então, eu prestei vestibular e fui fazer Engenharia Civil na Unicamp, cujo campus era em Limeira.

          Trabalhei como engenheiro e comecei a dar aula à noite, de Matemática, numa escola técnica lá em Limeira. Aí eu consegui um emprego de calculista de estrutura metálica e fui trabalhar numa empresa - voltei para Ribeirão Preto. Depois eu montei uma construtora e consegui um sócio que tinha se formado em Economia, amigo meu de adolescência. Nós começamos a fazer obras particulares, mas eu também continuei dando aula de Matemática. E aí o meu sócio faleceu, mas eu continuei. Tive muitos apertos financeiros por conta disso, pois não sabia administrar. Eu fiz Pedagogia também, porque entrou uma lei que proibia engenheiro de dar aula de Matemática, e fui me envolvendo cada vez mais com a Educação. Ainda fiz também a faculdade de Psicologia, e nos últimos anos eu fiquei dando aula de Filosofia num cursinho, que se chama Centro de Apoio Popular.

          Por conta da Psicologia e da Filosofia, você vai aprendendo o valor do patrimônio de uma cidade. Da mesma forma que uma família é importante pra construir a identidade de uma pessoa, o patrimônio histórico é fundamental pra construção da cidadania. Se não há esse patrimônio histórico, você não consegue construir a cidadania. Eu vi que o patrimônio histórico é esse rosto do cidadão! E quando eu vi essa casa em Ribeirão Preto, que estava à venda, eu percebi um valor imenso nela. Então eu vi que a gente tinha a possibilidade financeira de adquirir a casa e compramos, mas ainda sem saber o que iríamos fazer. Mas foi como se eu tivesse encontrado uma joia ou um quadro de imenso valor.

          O dono da casa, que foi o Jorge Lobato, faleceu em 1965. E ficou um filho dele morando na casa, solteiro, que não casou. Ele faleceu em 1991, e depois a casa ficou fechada até 2015, quando nós a adquirimos. E esse imóvel está numa área de 2 mil metros quadrados no centro de Ribeirão Preto; ou seja, acredito que ele tenha um quarto do valor do que se ele não fosse tombado, se as pessoas pudessem demolir a casa e fazer um prédio. Então, nós compramos a casa e sabíamos que teria um gasto pra restaurar. Fomos procurar, através de uma faculdade de Arquitetura de Ribeirão Preto, um arquiteto da Unicamp, o Marcos Tognon, e aí nós o contratamos. Ele que nos orientou e fez toda a supervisão do restauro. Fizemos também um convênio com a Faculdade de Arquitetura de Ribeirão Preto, no qual eles fizeram todo o levantamento histórico da casa, monitoraram todo o trabalho de restauro e, durante as etapas de restauro, faziam visitas monitoradas. Nós chegamos a ter mais de 1,2 mil pessoas, num sábado, visitando a casa.

          O Jorge Lobato nasceu em Taubaté, era primo do Monteiro Lobato. E aí ele casou com a Ana Junqueira, que era filha do coronel Joaquim Diniz da Cunha Junqueira, um dos homens mais poderosos do país. O Jorge Lobato foi vereador, foi presidente da Câmara Municipal, foi dono da primeira rádio de Ribeirão Preto, a PRA-7 - e a sétima rádio do país -, foi fazendeiro exportador de café... foi muito atuante aqui na cidade. Então ele construiu essa casa. Contratou o maior escritório de arquitetura da época, do Adhemar de Moraes, que era em São Paulo. O projeto é bem parecido com o da Casa das Rosas, na Avenida Paulista. É uma busca de uma arquitetura nacional, brasileira, porque na época tudo era copiado da Europa.

          Meu filho é engenheiro, e a minha filha é arquiteta. Eu e meus filhos, junto da minha segunda esposa, queríamos que a casa tivesse vida e que fosse autossustentável. Foi aí que surgiu a ideia do restaurante: “Bom, então é isto: vamos contar a história de Ribeirão Preto através da comida!” Então, o que nós fizemos? Nós temos a nossa própria horta no restaurante, e cultivamos lá os nossos temperos; nós fazemos o nosso catchup, que é feito de goiaba; nós fazemos o nosso vinagre, da jabuticaba colhida dos pés das jabuticabeiras da casa, e nós fazemos o licor de jabuticaba. Tudo aquilo que é possível fazer ali nós fazemos. Fazemos a massa, molho de tomate, diversas coisas. Pegamos os ingredientes: porco, frango, a carne de boi e peixes ali dos rios da região - nossos ingredientes são simples, não temos nenhum ingrediente importado ou sofisticado, mas os pratos são extremamente contemporâneos e sofisticados.

          Chegamos a entrevistar duas pessoas que trabalharam na casa, pra saber como era o dia a dia e como as comidas eram preparadas na época. O chef de cozinha é o Danilo Sakamoto, que trabalhava em São Paulo, também em um restaurante que funciona num prédio tombado. Inauguramos em novembro de 2019 e ficamos lotados todos os dias, até março de 2020, quando foi fechado por conta da pandemia. Mas lotou. Começou a ter procura de empresas pra fazer eventos, de gente que quer tirar foto, e já teve até gravação de banda de rock. As escolas da região também estavam levando seus alunos pra fazer visita, mas aí tudo isso foi interrompido por conta da pandemia.

          O delivery não funciona para nós. As pessoas gostam de ir até o Palacete, pois elas querem ouvir, conhecer, andar pela casa. Mas muita gente mandou mensagem, ligou, falou: “Não, fica firme, que nós estamos torcendo por vocês”.     

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