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História

O rei do gado

História de: Alexandrino Garcia Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2004

Sinopse

Alexandrino nasceu em Uberlândia em agosto de 1958. Filho e neto dos donos da CTBC (Companhia de Telecomunicações do Brasil Central), passou a infância "fazendo bagunça" na empresa. Foi aprendendo, assim, toda a engenharia dos telefones, montando até alguns sozinho. Com dezesseis anos, após a morte de seu pai, Alexandrino vai fazer um intercâmbio nos Estados Unidos, em Michigan, fase importante para a sua formação. Quando volta, começa a ser o assistente de seu tio Luiz, com quem aprende como administrar um negócio, além dos dois compartilharem um espírito aventureiro, que os levou a algumas "presepadas". Um tempo depois, desliga-se da CTBC e começa a investir na Fazenda Bela Vista, comprando parte dela. Se apaixona pela "roça" e vira responsável pela produção de gado leiteiro, tomando conhecimento das raças de gado e etc. Seu sonho é conseguir criar sua própria raça de gado leiteiro, que se adeque plenamente ao ambiente de sua fazenda. 

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História completa

P/1 – Boa tarde Alex.

R – Boa tarde.

P/1 – Obrigado por ter aceito nosso convite. Eu queria começar perguntando o básico: o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

R – Meu nome é Alexandrino Garcia Neto. Eu sou natural de Uberlândia. E eu nasci em seis do oito de 1958.

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

R – Meu pai é Valter Garcia e a minha mãe é Estela Maris Vasconcelos Garcia.

P/1 – O seus avós você conheceu? Os seus avós maternos e paternos?

R – Eu conheci a minha avó materna. Conheço a minha avó materna. Está viva até hoje. E tive o prazer de conviver com o meu avô e minha avó, meus avós paternos. Dona Maria e seu Alexandrino. 

P/1 – Embora eu saiba eu sou obrigado a lhe perguntar: qual era a atividade do seu pai?

R – Meu pai era comerciante e diretor financeira da CTBC.

P/1 – E esse comércio, como é que se regulava esse comércio?

R – Ele tinha uma revenda da Ford, que chamava Intermáquinas. Que ficava situado ali na Praça Tubal Vilela. Ele começou a atividade em 1954 e foi até 1974 sob a administração dele. E de 1974 até 1990 mais ou menos ficou sob a administração da minha mãe. 

P/1 – Certo.

R – Com o falecimento do meu pai em 1974.

P/1 – A sua casa, você tem irmãos? São _____

R – Eu tenho uma irmã, a Carmem Sílvia. 

P/1 – E os dois na casa tinham uma, como é que era a convivência dessa casa? Descreve a sua casa de infância como é que era?

R – Nós tínhamos, na minha infância eu não tenho o que reclamar. Minha infância foi muito boa. É, eu tive uma convivência muito pacífica com a minha irmã. Nós  não éramos de entrar em atrito apesar de ser normal entre crianças estar sempre entrando em atrito com os irmãos. Nós nunca tivemos esse problema. E tive uma educação eu posso dizer até que privilegiada. Porque a minha mãe teve muita paciência com a gente. Então ela preparou nós dois para um futuro, pode-se dizer um futuro incerto. Nós estávamos, nós fomos preparados para ter tanto uma vida é, uma vida cheia de, uma vida mais privilegiada, como para viver mais humildemente se fosse preciso. Tanto que eu no meu curso primário eu frequentei Grupo Escolar. Eu não fui para a escola particular nem nada. Para poder conviver com pessoas de outras classes, poder ver as dificuldades das pessoas. Agora a minha irmã já teve uma educação mais centrada no Colégio Nossa Senhora. Uma coisa muito mais pela época que era normal as mulheres irem para colégio de freiras, né?

P/1 – E a sua primeira escola qual foi?

R – O Grupo Escolar Bom Jesus.

P – Como é que era esse grupo, a sua primeira professora? Você tem lembrança desse tempo?

R – Ah, eu sei que era muito bom. E uma coisa que me marcou muito, coisa interessante, assim pitoresca é que eu era chegado na sopa que tinha no recreio, tá? Uma sopa de legumes e inclusive meu pai sempre trazia coisa da fazenda para a gente poder contribuir, né? E eu tenho uma lembrança gostosa dos meus professores. A dona Sheila. A dona Eliane. Eu não me recordo agora o nome da diretora do grupo mas também é uma pessoa super compreensiva. Eu me considero uma pessoa de sorte. Porque eu sempre fui cercado de pessoas compreensivas. Eu sempre, sempre que eu cometi meus deslizes eu sempre tive alguém para chegar e conversar comigo. Não em termos de recriminar. Mas para me explicar o que é que estava acontecendo. Porque é que não podia ser  daquele jeito. Ou porque é que tinha de ser de um outro jeito. Então é onde eu te falo que a minha infância eu tenho só lembranças boas. Só coisas boas. Porque eu sempre fui cercado de gente boa.

P/1 – Como é que era Uberlândia nessa tua meninice? Como é que era essa cidade? Como é que era a sua rua, a sua brincadeira? Essas coisas?

R – A cidade acabava um quarteirão para baixo da minha casa. Porque eu moro ali na perto da antiga praça da Prefeitura. Então na Barão de Camargo já acabava a cidade. Na Rondon Pacheco era um córrego e a gente descia para brincar no córrego, né? E brincadeiras de criança. A Praça Tubal Vilela ainda era no centro da cidade, ainda era a praça central. A estrada de ferro ainda passava na João Naves. Tinha a cancela que fechava a Cesário Alvim. Que sempre que a gente ia para a granja passar os fins de semana com o vovô e a vovó, é um fato interessante, né? Coisa para menino que a gente ia passando aí fechava a cancela e passava o trem. E então a cidade era bem pequena. Uberlândia teve um desenvolvimento nesses últimos 25, 30 anos que só quem morou aqui, quem acompanhou para poder acreditar no tanto que a cidade cresceu nesses últimos tempos.

P/1 – E como é que era a garotada lá? Os teus colegas, a brincadeira de rua? O que é que vocês faziam?

R – A gente era basicamente a turma da rua, né, os vizinhos. E tinha bastante menino, tinha bastante moleque na minha rua. E a gente queria ir para clube. Porque toda criança, todo adolescente, todo moleque gosta de ir para clube. Nadar e brincar. E o papai era um pouco rigoroso e não gostava que a gente saísse muito de dentro de casa. Ele gostava da gente mais debaixo da asa dele ali, debaixo da supervisão. Então: “Para que é que vocês querem ir para clube?” “Ah, não. Porque clube tem piscina, tem espaço e tal.” Aí ele construiu uma piscina para a gente não precisar ir para clube. Então geralmente a tarde, eu estudava de manhã, era o pessoal da rua todo estudava de manhã. Todo mundo mais ou menos na mesma faixa de idade. Eu estudava de manhã, à tarde a gente passava a tarde brincando na piscina e a noite a gente ia para a praça da Prefeitura. A Clarimundo Carneiro, né? A gente ia lá para a praça da Prefeitura brincar de carimbada, andar de bicicleta. E ali a gente ficava até nove, nove e meia, porque dez horas já que estar de banho tomado, pronto para dormir. Porque no outro dia seis e meia tinha que acordar para ir para a escola cedo.

P/1 – Certo. Essa, esse tipo de controle que seu pai exercia era um pouco resultado do tipo de atividade que ele tinha? 

R – É, ele era bastante controlador. A atividade dele como um controlador financeiro ele acabava passando isso para a gente em casa também. De sempre seguir horários e ter hora para tudo. Hora para brincar, hora para estudar, hora de ir para a escola. E atividades sociais. E a gente sempre tinha que acompanhar. Ele era um pouco rígido.

P/1 – E no trato como é que ele era? Na relação mesmo de pai e filho?

R – Como é que eu posso te explicar? Porque o papai ele era uma pessoa, por ele ser um financista, por ele ser um financeiro, ele não tinha muita paciência com menino, com criança. Então ele sempre dizia que: “Eu vou curtir meus filhos depois dos catorze, quinze anos. Antes dos catorze, quinze anos menino não pergunta. Menino acompanha.” Então quando eu comecei a ter um processo de amizade mais pessoal, mais íntima com o meu pai – fora de uma relação de pai e filho,  que seria já passando para uma relação de amigo – nós tivemos um tempo curto de convivência. Foi uma convivência gostosa que a gente viajou, nós fomos a pescarias. Porque todo ano, todo mês de setembro ele ia pescar no Pantanal. E eu tive a oportunidade de ir umas duas vezes com ele para pescar, inclusive na última pescaria que ele foi. Eu tive o prazer de ir com ele, de ter a presença dele já como amigo. Não como pai.

P/1 – Como é que era esse tempo na beirada do rio? Como é que era o seu pai fora da cidade, fora do trabalho preocupado com a linha o anzol e o peixe?

R – Era uma outra pessoa. Ele era extrovertido, brincalhão e com bastante amigos. A turma dele de pescaria era dez, doze pessoas. E ali sempre com uma cervejinha gelada e um churrasquinho. E a hora de pescar, isso não deixava né? A hora de pescar era hora de pescar. A hora de parar de pescar, a hora que começou a ficar perigoso vamos parar de pescar. Isso ele nunca deixou de ter. apesar de estar descontraído, estar em um ambiente mais de brincadeira, de descontração mas ele nunca deixou de ter os seus horários, né?

P/1 – Sei. Era dado a histórias de pescador, não? Ou era mais comedido ______?

R – Não, ele era mais comedido. As história de pescador dele geralmente era verdade. (riso) 

P/1 – (riso) 

R – Mas ele, para você ter uma idéia da organização dele que todo mundo que vai acampar você leva uma barraca e um colchonete. Ele tinha a barraca, ele tinha a cama de, uma cama de campanha que ele levava. Ele levava um gerador, porque ele gostava de escutar, tinha um noticiário. Porque não tinha jornal nem televisão na época, né? Então ele, eu não, acho que era Rádio Tupi.

P/1 – Grande Jornal Falado Tupi?

R – Grande Jornal Falado Tupi, é. Ele não deixava de escutar o jornal da Tupi toda noite. Então ele levava o geradorzinho dele para poder tocar o radinho para poder escutar o jornal. E tinha os engradados onde ele colocava o fogão dele. Tinha uma cômoda com, eu lembro direitinho: eram seis gavetas pequenas e duas gavetas grandes. Ali a minha mãe acomodava toda a roupa dele. As camisas em uma gaveta, as calças na  outra. Meias e cuecas, shorts. E nas gavetas grandes, roupa de cama. Então ele era todo organizado, sabe? (riso) Ele levava as coisas dele toda arrumadinha. Apesar de estar em um ambiente descontraído mas ele tinha as coisinha dele tudo organizada, né?

P/1 – E a companheirada quando via essa cena _______? (riso) 

R – Essa parafernália toda era motivo de gozação, né? (riso) Todo mundo pegava no pé dele. Mas no final todo mundo já era acostumado. Já deixava um espaço assim, meia carroceria de caminhão para carregar as coisas dela.

P/1 – Nessa idas para lá como é que era o transporte, de caminhão?

R – É, eles iam em um caminhão levando a  tralha mais pesada. E o papai ia na caminhonete. Ele tinha uma C-14 cabine dupla. E ali ele levava uma caixa frigorífica, que já era feita sob medida, com um motor elétrico e um motor a gasolina. E a caixa frigorífica você abria ela por cima. Ela era bem ampla, para poder colocar os peixes. E do lado de fora na caixa tinha duas portinhas que era o lugar de colocar a cerveja. Para ter a cervejinha sempre gelada. Sempre no ponto, né? E no restante da traseira da caminhonete ele levava os pertences pessoais dele ali. Coisas que ele iria usar nos dois, três dias de viagem, né? 

P/1 – Sim.

R – Porque às vezes se arrastava até uma semana para chegar no Pantanal.

P/1 – E quanto durava a temporada lá?

R – Geralmente eles ficavam um mês. E era todo mês de setembro. Tanto que a canoa dele chamava: “Quando setembro vier.” 

P/1 – Ah, o nome da música.

R – É. E era o nome da canoa. E todo dia 1/9 começava os preparativos e no máximo no dia cinco a turma estava saindo. E saiam de lá no dia 30 e até 5/10 que é a data de nascimento da minha irmã, né? Então ele fazia o possível para estar antes do dia 5/10 aqui em Uberlândia de volta em casa, para poder participar do aniversário da minha irmã. Mas era religioso essa pescaria de setembro.

P/1 – Antes dessa fase que você já começa a acompanhá-lo, nessas duas vezes que você foi acompanhá-lo, como é que era o teu pai chegando em casa depois de uma temporada dessa? Você e sua irmã, garotos, meninos?

R – Era a maior festa, porque ele trazia pele de bicho que eles caçavam. Teve uma vez que ele trouxe um couro de pirarucu com quase dois metros de tamanho. Uma coisa assim que a gente nem imaginava. Todo mundo pequeno e aquela, aquele couro daquele tamanho. Com as escamas grandes. E trazia muito peixe, trazia artefato indígena para a gente conhecer. E mesmo porque ele gostava, né?

P/1 – Hum, hum.

R – E minha mãe sempre foi chegada a enfeites e bibelôs. Essas coisas assim para enfeitar a casa. Então ele sempre fazia questão de trazer alguma coisinha de lembrança da pescaria mas que a minha mãe pudesse aproveitar para enfeitar a casa. Ele não trazia para ficar guardado. Era realmente para ficar a vista.

P/1 – Certo. E seu avô nessa história toda? Seu avô e seu pai eram muito, eles eram parte de um tripé, né? Que seu tio Luiz era ________

R  - É, o tio Luiz ele entra na história um pouco mais tarde. Porque no começo da CTBC, não no comecinho, mais para a frente na época que eu já me lembro. De 1964, 1965 por aí assim. O tio Luiz foi para a Suécia para fazer especialização em Telecomunicação. E o papai ficou como braço direito do vovô. E foi onde ele assumiu a, praticamente a vice-presidência e a diretoria financeira da CTBC. E com o trabalho todo dele dentro da CTBC ele fez praticamente o berço do grupo. Porque ele preparou CTBC junto com o vovô. Ele saneou a CTBC deixando capital e tudo para poder iniciar o grupo. Só que ele não teve oportunidade de ver o grupo ser, ser feito o grupo, né? Porque quando ele morreu ainda estava em um processo de formação do grupo e o grupo só foi formado uns dois anos depois que ele morreu.

P/1 – E na realidade nos tempos, digamos, nos tempos heróicos da CTBC a retaguarda de recursos estava na Intermáquinas e na Irmãos Garcia.

R – E na Irmãos Garcia. 

P/1 – Era isso que um pouco sustentava aquela aventura visionária do seu avô, né? Porque...

R – É, mais voltado para o Irmãos Garcia e para a CTBC. A Intermáquinas era mais um negócio particular do meu pai que não se comunicava como a CTBC e o Irmãos Garcia se comunicavam. Porque o vovô dava expediente na CTBC e no Irmãos Garcia. E o papai dava expediente na Intermáquinas e na CTBC. Ele passava o período da manhã na Intermáquinas e o período da tarde na CTBC. E o tio Luiz quando voltou da Suécia ele voltou como diretor técnico. Ele cuidava mais da área técnica. E com o falecimento do papai ele começou a se preparar para além da área técnica se voltar para a área administrativa, né? 

P/1 – Certo. E seu avô, hein? Quer dizer, não só falando como neto, mas falando também, afinal de contas você tem o nome dele, né? Mas a personalidade, essa figura, essa pessoa, esse empreendedor. Como é que ele era?

R – Nos negócios eu tenho pouco para te falar porque eu era menino. Eu era muito menino. E eu vivia levando bronca. Porque eu ia para a CTBC e aprontava a maior bagunça, né?

P/1 – Como era isso?

R – Porque eu queria, eu chegava dentro da CTBC aquilo para mim era um playground. 

P/1 – (risos) 

R – Era um parque de diversão. E então eu chegava no DG, e o DG era todo manual. Não tinha nada eletrônico. Parafernália toda de computador que nem tem hoje. Era tudo feito manualmente. Então no DG tinha umas chavinhas que você ela tinha várias cores. Então tipo assim: a chavinha branca é um telefone com defeito. Então estava lá no buraquinho que correspondia ao número daquele telefone com defeito. A chavinha vermelha era falta de pagamento. O outro é bloqueado por pedido do assinante, sabe? Então cada chavinha tinha uma cor que queria dizer alguma coisa. E o meu passatempo predileto era trocar aquelas chavinhas de lugar. (riso) 

P/1 – (risos) Meu Deus do céu.

R – Então eu entrava no DG e saía mudando aquilo. Não tinha a mínima idéia do que é que eu estava fazendo. Aquilo era uma arte de criança que eu não tinha idéia. E depois eu parti para o meu lado de inventor. Eu comecei a recolher peças velhas e dar trabalho para o pessoal da oficina. Porque eu monopolizava uma, um, uma pessoa que estava consertando um telefone, consertando uma mesa de telefonista para pode montar telefones antigos para mim. E ali eu montava mil telefones. Fazia enxerto de um telefone no outro, e no final das contas funcionava.

P/1 – Funcionava?

R – Funcionava. E...

P/1 – E o seu Sebastião que era o chefe da oficina como é que ele encarava tudo isso?

R – Ah, o Sebastião sempre foi uma, o Tião era uma moça, né? Não sei se era ou se é. Não tive mais contato com ele.

P/1 – Está vivo. Forte e sadio.

R – Ah, fico satisfeito em saber disso. Mas o Sebastião sempre teve uma paciência salomônica, né? E com toda, além da paciência a sabedoria que ele tinha. Uma sabedoria nata. Que é uma coisa que não foi aprendida em escola, nem nada. Foi no decorrer da vida. Então é uma coisa que você me perguntou, né? Do relacionamento com o vovô. O Sebastião ele veio quase a complementar com um lado que eu dou muito valor na vida que é você procurar o autoconhecimento. Você ser um autodidata. Então se você gosta de alguma coisa, começa a aproximar. Começa a saber como é que faz, sabe? Não fica muito preso em teoria. Vamos fazer um negócio na prática. Vamos pegar no chifre do boi ali. E vamos soldar uma peça com outra e no final das contas ver o que é que vai acontecer. Então esse espírito assim de você sempre partir para tentar fazer alguma coisa por conta própria isso foi me passado pelo vovô e pelo Sebastião. 

P/1 – Hum, hum.

R – E o Sebastião eu tive contato com ele até, até quando? Até 1990. Que foi quando eu mudei para São Paulo. E ele sempre na maior paciência fazendo as coisas para mim. Nunca me recriminou. Sempre naquele espírito de me explicar, me ensinar como é que as coisas eram feitas. Que não é bem por aí. Não é desse jeito. Se você quer fazer alguma coisa manual, um serviço manual você não pode ter pressa. Você não pode fazer nas coxas. Você tem que ter um planejamento. Que peça que vai encaixar onde. Que movimento aquilo vai ter, que serventia. Para que você vai por. E escolher as coisas certas para colocar nos lugares certos. 

P/1 – Sabedoria mesmo.

R – É, uma escola de vida.

P/1 – Certo. O seu avô tinha veleidades com você? Achava que você poderia seguir carreira na oficina? Ter, no sentido assim de ver o neto dele, o segundo neto dele...

R – É o primeiro.

P/1 - ...primeiro neto, né?

R – É.

P/1 – Tão interessado em, claro o primeiro neto. É o seu nome. Tão interessado em aprender essas coisas.

R – Na verdade ele me deixava livre, desde que eu não estivesse trocando as chavinhas do DG. (risos) 

P/1 – Nunca ninguém descobriu essa arte não?

R – Descobriu, porque só eu que tinha essa liberdade. Porque a gente, eu tenho uma diferença muito grande para o Luiz Alexandre que é o próximo, o segundo neto, né? Então nós temos quase quinze anos de diferença. 

P/1 – Hum, hum.

R – E então eu era sozinho nessa brincadeira. Quando acontecia alguma coisa errada que não era deslize de funcionário, que era coisa grande, ah, podia saber que foi o Alex que fez.

P/1 – (risos) 

R – E o vovô sempre me dava bronca, mas a bronca era no bom sentido. Uma bronca me esclarecendo porque é que eu não podia fazer aquilo. E sempre com o espírito capitalista. Que aquilo trazia prejuízo para a empresa. Porque você ia deixar o cliente descontente. Porque a pessoa que não tinha nada a ver ia ter um telefone bloqueado. E até descobrir o por que é que aquele telefone estava bloqueado ia demandar um tempo. E a pessoa ia deixar de gerar impulso que ia deixar de gerar dinheiro. Não ia ter caixa. Então sempre incutindo esse lado mais capitalista mais explicado. Nunca no escuro. Sempre bem às claras. 

P/1 – E já vinha a bronca com uma lição na esteira.

R – Isso.

P/1 – E na verdade, quer dizer, no seu desenvolvimento escolar você tinha alguma intenção de estar no negócio de seu avô? Isso te encantava de alguma forma ou era apenas um playground como você havia mencionado?

R – Não, era na verdade era um playground. Ali para mim eu não via como um local de trabalho. Ali para mim era uma extensão da minha casa. O que? Eu conhecia todo mundo como se diz: do diretor presidente até o porteiro, faxineiro. Eu tinha contato com todo mundo. Então era uma extensão da minha casa. Uma extensão do quintal da minha casa. Tanto a Intermáquinas que eu chegava e pegava peça de motor de um carro passava para a outra bancada do outro mecânico. Que fazia a maior confusão com os motores desmontados trocando as peças. E devagarzinho eu fui tendo noção de mecânica, dentro da Intermáquinas. Fui tendo noção de eletroeletrônica dentro da CTBC. E tendo livre acesso ali dentro eu sei praticamente todos as etapas que se precisa para se fazer um telefone falar. Como vovô gostava de dizer: “Eu já subi em poste, já desci dentro de buraco para fazer a emenda de fio. Já acompanhei o processo todo.” Eu não ficava só dentro da CTBC. Às vezes eu saía passeando de caminhão junto com o pessoal que ia fazer algum serviço e nessas eu não deixava de ficar envolvido no serviço, né?

P/1 – Claro.

R – E menino muito ativo eu não queria ficar à toa. Eu queria fazer alguma coisa. Então eles me botavam para descascar fiozinho, lixar alguma coisa para fazer uma solda. Então eu estava sempre em contato com o serviço, né? Então o meu playground não deixava de ser um certo aprendizado. 

P/1 – Claro. Afora o seu Sebastião Gomes você identifica alguma outra pessoa que tivesse sido assim um mestre para você? Que tivesse te ensinado?

R – Uma pessoa que me deu uma alavancada boa nesse processo todo foi quando eu passei para o departamento de Transporte da CTBC. Que eu passei a ter um contato mais estreito com o Zé Leonardo. Então o Zé Leonardo foi uma figura que teve, deu bastante contribuição para a minha formação.

P/1 – E como é que ele era na relação de trabalho? Como é que era o,...

R – O Zé Leonardo sempre foi linha dura. Ele não dava muita moleza não. Brincava na hora que, de fazer uma brincadeira, alguma coisa, mas na maior parte do tempo era mais linha dura.

P/1 – Hum, hum. Certo. Como é que se deu o seu ingresso na Companhia? Quer dizer, quando é que você deixou de ser apenas aquele menino que brincava por ali e passou a ser um funcionário então da Companhia?

R – Quando é, foi mais por uma questão de idade. Quando eu atingi aí meus dezesseis. Não, com dezesseis eu fui para os Estados Unidos. Voltei com dezessete. Meus dezoito anos mais ou menos. Que eu comecei a trabalhar com o Luiz. Eu trabalhava, eu era assessor direto dele. Então eu saía de manhã cedo passava na casa dele. Eu já tinha meu carro. Então eu pegava meu carro e passava na casa dele. N vezes eu cheguei na casa dele ele ainda estava dormindo e eu ficava ali monitorando o telefone para não atrapalhar. Seis e meia da manhã, quinze para as sete. E: “O doutor Luiz está ocupado no momento. Não pode falar e tal.” Mas na verdade ele estava descansando. E eu não me senti no direito de chegar e bater na porta do quarto dele. Porque se ele estava dormindo era porque ele estava cansado. Então eu na, no papel ali de, pode-se dizer de assessor dele, eu tinha que preservar. para ele começar o dia de bom humor. Que precisava, né? (risos) Que eu não queria aguentar ninguém bravo. Ninguém com humor alterado. Então eu fazia o possível para ele ficar de bom humor. E quando as reuniões começavam a ficar mais quentes um pouco eu já procurava a menina da copa. Já pedia para trazer um copo de leite gelado para ele. Que sempre foi uma coisa que ele gostou e que quando ele estava nervoso era uma pausa, né? Que aí ele parava para tomar aquele leite e refletia. Então eu já, devagarzinho eu fui pegando as manhas para o poder acalmar a fera. E a gente sempre teve uma convivência muito boa. 

P/1 – Como é que foi essa trajetória anterior um pouco que a gente acabou dando um salto involuntário. Mas dessa sua formação escolar. Quer dizer, você saiu desse Grupo, depois continuou estudando aqui mesmo em Uberlândia?

R – Aqui mesmo. Eu passei para o, fiz o, na época era do primeiro ao quarto ano primário. Depois tinha o ginásio. Aí eu fiz o ginásio no colégio estadual. Eu fiz a primeira e segunda série do ginásio no Liceu. E o terceiro e quarto ano eu fiz no Instituto, né? No Colégio Estadual ali na Praça Tubal Vilela. Depois meu colegial eu fiz no Cursinho Galileu. Fiz os três anos de colegial.

P/1 – Já com a perspectiva humanidades, exatas? Já tinha alguma coisa mais ou menos desenhada?

R – Eu sempre tive vontade de fazer Direito. Embora a minha habilidade manual tanto de mecânica como para eletroeletrônica conflitasse um pouco com essa vontade minha. Mas eu nunca gostei, pelo tipo de criação e tudo, eu nunca gostei de ver pessoas sendo destratadas. Pessoas sendo maltratadas. Pessoas tendo seu direito tirado, sabe? Então eu achava que se eu fizesse Direito eu ia conseguir corrigir o mundo. Que se não o mundo global, a terra, pelo menos o meu mundo. Quem me cercava ali que eu poderia ser útil nesse sentido. E quando eu falo meu mundo eu falo do diretor presidente ao faxineiro. 

P/1 – Hum, hum.

R – Que eu nunca tive, eu nunca fiz diferença entre as pessoas. Eu respeito do mesmo jeito que eu respeitava o meu avô como diretor presidente eu respeitava o seu Carloto faxineiro do mesmo jeito. Sempre com o mesmo carinho, o mesmo tempo disponível.

P/1 – E essa trajetória, quer dizer, dessa sua ida aos Estados Unidos que você havia mencionado...

R – Isso. Eu estava, eu tinha passado do primeiro colegial para o segundo colegial. Aí eu interrompi meus estudos que foi justamente quando papai morreu. Aí eu passei o ano de 1975 nos Estados Unidos estudando.

P/1 – Aonde?

R – Eu morei no estado de Michigan em uma cidade que se chama Grand Rapids. Tive a sorte de ter uma família muito boa. Um pessoal como eu, graças a Deus eu sempre dei sorte nesse ponto. Um pessoal muito paciencioso. Tanto que eu agradeço a eles um pouco da minha formação e o inglês que eu falo hoje. Que foi em virtude da paciência deles. Que sempre que eu falava alguma coisa errada eles faziam questão de me corrigir. E sempre que eu não sabia uma palavra, que eu pedia uma ajuda para eles, invés dele me ensinar a palavra ele começava a me dar sinônimos. Até eu conseguir chegar na palavra por mim mesmo. Então é aonde hoje eu tenho um vocabulário maior porque, além da palavra propriamente dita, eu conheço vários sinônimos da palavra. 

P/1 – E acaba aprendendo a pensar no idioma, né?

R – E acaba aprendendo a pensar. É, tanto que uma passagem pitoresca que a mamãe foi passar o mês de julho comigo lá e aproveitar e pegar o meu aniversário também que é na primeira semana de agosto. Então a gente não tinha por que pegar dois quartos, né? Então a gente dormia no mesmo quarto. E ela comentava que eu sonhava em inglês. Porque eu tenho mania de falar dormindo e eu falava em inglês. Então eu estava totalmente condicionado já. E eu tive muito pouco contato com brasileiro. Ali o único brasileiro que morava perto de mim, assim mesmo era quase 200 milhas de distância. Era uma viagem para poder encontrar com ele era o Silvinho Camparelli, né? Que hoje...

P/1 – Que é daqui.

R – Que é daqui também. Hoje é médico. Um gastro conceituado aqui em Uberlândia. Mas na época a gente era moleque. A gente é da mesma idade. Nós estávamos com dezesseis anos. Mas sempre o Rotary proporcionava assim passeios. Então pegava um ônibus, reunia o pessoal ali da vizinhança, né, os brasileiros que moravam ali no entorno e a gente fazia um tour em algum lugar. Então nessas oportunidades a gente sempre encontrava e trocava experiências. Como é que estava na casa dele, a família dele como é que era. E as dificuldades que ele estava tendo. E eu também passava as minhas para ele. Então a gente fazia uma espécie de terapia. Um com o outro, né? E chorava as mágoas, as saudades e tudo. (riso) 

P/1 – (riso) Lembrar da rua.

R – Lembrar da rua, das brincadeiras porque a gente já era amigo daqui, né? então foi uma pessoa, foi um dos únicos brasileiros que eu tive contato quando eu morei lá.

P/1 – Certo.

R – E não era um contato muito frequente. Coisa de três em três meses a gente fazia um pequeno tour no fim de semana. E eu tive contato com outros estudantes que estavam fazendo intercâmbio. Tinha austríaco, tinha sueco, tinha australiano. Tinha um neozelandês, um dinamarquês, e tinha outras pessoas. Esse foram o que mais me marcaram que foi a, que era a nossa turma, do nosso grupo, né? 

P/1 – Certo. E a volta ao Brasil? Quer dizer, aí voltou à realidade, voltou a um país que estava vivendo um processo de milagre, né? Primeiro choque de petróleo.

R – É, aí quando eu voltei foi que realmente eu vim a sentir falta do meu pai. Porque o meu pai morreu em setembro e no comecinho de janeiro eu viajei. De 1975, né? E  então no, esses últimos meses de 1974 eu passei um pouco fora da realidade. Eu não tinha me dado conta bem do que é que tinha acontecido. Então quando eu voltei faltava uma figura dentro da minha casa. E aí eu tive momentos de revolta como todo adolescente que está passando da adolescência para a mocidade. Eu tive os meus conflitos, a minha rebeldia. Andei dando uns probleminhas, mas graças a Deus nada que não fosse passageiro. Mas devagarzinho eu me adaptei ao contexto e morei um tempo em Belo Horizonte com a tia Eleusa. E lá eu pude ter um contato com outras pessoas e tinha os meninos: o Reinaldinho com a Eliane e a Eleusinha, sabe? A gente saía bastante porque eu era o mais velho então os meninos saíam comigo. Não tinha shopping, na época eram essas lojas de departamento. Lojas Americana, Mesbla. Então a gente ia passear nas lojas, né?

P/1 – Sempre tinha uma lanchonete.

R – Tinha sempre uma lanchonete, uma sorveteria e a gente estava sempre fazendo uma farra. Então eu passei um ano em Belo Horizonte que foi onde eu me adaptei mais ao contexto, né?

P/1 – Foi aonde a tua ficha da dor caiu quando você voltou, né?

R – É, eu realmente fui sentir o que é que tinha acontecido quando eu voltei.

P/1 – E esse tempo em Belo Horizonte você continuou estudando?

R – Não, eu fui para Belo Horizonte mas no intuito de fazer terapia para poder ver se eu encaixava a minha cabeça.

P/1 – Certo. E aí no retorno que se dá essa proximidade com o doutor e que você vai para trabalhar com ele?

R – Isso. Que eu começo a trabalhar com ele.

P/1 – Voltamos ao ponto onde estávamos, né?

R – É.

P/1 – (risos) Quer dizer, e como é que era essa convivência? Era um assessor digamos pensando alto, era um assessor que era meio que um colchão ali para, o colchão de cristais, né?

R – É, ali eu era a barreira que para chegar nele tinha que chegar em mim. E antes de chegar em mim tinha a Noêmia, né? Que a Noêmia sempre foi presente. Então a Noêmia fazia a primeira filtragem de quem queria falar com ele. Aí depois eu via se eu conseguia resolver o problema. Se eu conseguia dar andamento no problema. Aí seu eu não dava conta eu passava para ele ou encaminhava para quem de direito. Que não era uma assunto para ser tratado com ele. Era com um outro diretor, um técnico, um responsável por um determinado setor. Então eu já encaminhava essa pessoa. E procurando sempre aliviar a carga. Porque com a morte do papai ele teve que entrar de cabeça mesmo nos negócios. E com a formação do grupo ainda ele teve que se desdobrar. Porque o vovô era muito dedicado à CTBC. Então as outras empresas do grupo o tio Luiz é que teve que pegar a frente mesmo. E o vovô era mais uma retaguarda. 

P/1 – Alex, nós estamos falando de um momento que a empresa, especialmente a CTBC, porque eu conheço o grupo, está vivendo uma expansão alucinada, né?

R – É.

P/1 – Quer dizer, crescimento brutal. E o doutor Luiz nesse contexto deveria ter uma vida meio complicada do ponto de vista da agilidade, da rapidez, do corre-corre. Do vai para lá. E como é que era esse cotidiano, quer dizer? Como é que era?

R – Olha, a gente não passava vinte e quatro horas no mesmo local. Nós estávamos aqui em Uberlândia. De Uberlândia a gente ia visitar a fazenda. Aí depois veio o processo de compra da fazenda do Pará. Um pouco antes da compra da fazenda no Pará veio a compra da pousada. E então direto a gente estava indo para Goiânia, ou para a própria pousada fazendo reunião. E eu sempre com a minha função ali de, como você diz, de colchão entre cristais. Eu sempre cuidando para não chegar nada que não fosse um problema realmente que fosse da competência dele. E sempre procurando direcionar e procurando dar uma solução para alguma coisa. E foi onde eu fui começando a entender de mais coisas. Eu fui tendo um, já nesse processo eu tive foi meu primeiro contato com a administração. Foi onde eu comecei a ter meus princípios de administração próprios. Tendo ele como exemplo. Outros empresários que vinham fazer reunião com ele e tudo. Locais que a gente ia visitar. Outra empresa que a gente estava prospectando para comprar e tudo. Então aquelas conversas de cúpula mesmo, sabe? A troca de figurinha entre presidentes e, ou vice-presidentes ali. E eu ali um garotão participando daquela conversa. E nos horários assim que davam uma pausa eu sempre emitia a minha opinião. O que é que eu achava. Que eu achava que aquela conversa não estava indo em um rumo muito certo. Ou que determinado comentário eu não tinha entendido, se ele poderia me explicar como é que era. Por que é que o processo tinha que ser feito daquele jeito. E tudo isso eu fui adquirindo bagagem. Fui crescendo profissionalmente.

P/1 – Uma tremenda escola.

R – Pôxa, sem dúvida.

P/1 – Como é que se davam esses deslocamentos? Pegavam avião?

R – De avião.

P/1 – Seu Luiz era piloto também, né?

R – É. 

P/1 – Gostava de pilotar, assumir o manche normalmente ou...

R – É, ele gostava de principalmente… Quando a gente comprava um avião novo ele gostava de experimentar o avião. Ter aquele gostinho de sentir uma máquina nova, uma máquina mais possante, um avião maior. Porque começou com meu pai. O meu pai ele tinha a atividade dele aqui. A atividade consumia muito do tempo. E ele queria ter uma fazenda. Na verdade ele não queria ter uma fazenda. Ele queria ter uma beira de rio para ele pescar.

P/1 – (risos) Claro.

R – Só que a beira de rio que ele achou para pescar tinha 250 alqueires atrás. Então ele, a beira de rio dele acompanhavam 250 alqueires. Então para ele ter a beira de rio ele teve que comprar a fazenda.

P/1 – Aonde era isso?

R – Nas margens do rio Tijuco. Entre o trevão de Monte Alegre e o Prata.

P/1 – Ah sim, lá.

R – É, fica a 110 quilômetros aqui de Uberlândia. Tanto que hoje é a minha fazenda. Eu tomei de volta a fazenda, que a fazenda estava com a Ipê, né? Eu consegui resgatar a fazenda de volta. E já tem praticamente dez anos que a fazenda é minha, particular. Eu consegui resgatar. E eu venho na atividade. É, o tanto que ele gostava de pescar ele não podia deixar o restante das terras improdutivas. Então ele tinha que fazer alguma coisa. Uma pecuária, uma lavoura de subsistência e tal. Eu como não sou muito chegado em pescaria eu procuro tocar esse lado mais da fazenda. Eu tenho, eu faço cria, recria e engorda. A minha esposa toma conta do gado de leite. Eu fico mais com o gado macho e ela com o curral. E a gente junto desenvolve a atividade agrícola, né?

P/1 – Hum, hum.

R – Que é um milho, um sorgo para fazer uma silagem. Um milho em grão para dar para porco, para dar para galinha. Então tem aquela rusticidade da fazenda. Que você tem que trabalhar ali para, você tem que trabalhar em prol da fazenda. Você tem que fazer a máquina girar. E você não pode ficar buscando fora. Você tem que procurar produzir. Porque fazenda já te dá um lucro pequeno. Você ainda fica comprando as coisas fora? 

P/1 – Claro.

R – Você acaba pagando para trabalhar.  E a idéia não é bem essa. É você tirar alguma coisa de lá para poder acrescentar no, para você ter um modo de vida melhor, né? Mais confortável.

P/1 – Isso estava lá no princípio daquelas aulas práticas que você andou tendo lá com seu tio, (risos) com seu avô.

R –Pois é. A gente começou ali, vendo lavoura de soja na compra da Inco. Já começando por aí.

P/1 – Como é que foi essa negociação lá no Pará?

R – Bom, lá no Pará foi um...

P/1 – Era Inco também, não é?

R – Não, lá era Brasil Norte.

P/1 – Brasil Norte.

R – É. Lá foi, é uma fazenda de, são noventa mil alqueires. Alqueirão, alqueire mineiro. E hoje tem construído uma vila com mais ou menos 150 casas. E tem uma escola de primeiro grau. Que tem o nome, tem a honra, eu me sinto honrado disso: tem o nome do meu pai. Que é Escola Valter Garcia, né? E ali eu tive também uma aprendizado de aprender a mexer com serraria, conhecer madeira. E eu tinha uma turma sob a minha responsabilidade de quase 80 peões. Porque era eu, seu Chico e o Fernando. Nós éramos três administradores da fazenda. Então a gente era o serviço todo dividido. E foi onde eu passei a ter contato com máquina agrícola. Porque até então eu tinha contato com mecânica leve. Então eu passei a ter contato com mecânica pesada. Eu tive a oportunidade de ir a Presidente Prudente na, em um concessionário da Komatsu fazer um curso sobre o Komatsu Florestal. É um big de um trator. E tudo sempre contribuindo para a minha formação. 

P/1 – Sei. Mas na verdade você acabou se dedicando mais para essa área, digamos agro-industrial?

R – Agro-industrial. Eu me sinto mais à vontade no campo. Você quer me ver estafado e mal-humorado você me coloca atrás de uma mesa.

P/1 – (riso) Tá certo.

R – (riso) Você me estraga com o humor, estraga com o meu dia. Agora, me chama para dar uma volta em uma fazenda para ver um gado, ver cavalo. E mesmo ver uma beirada de rio bonita. Um lugar gostoso de passar um fim-de-semana. Sabe, é o que eu gosto. 

P/1 – Essa operação no Pará você ficou envolvido lá até quando?

R – Eu morei lá no primeiro ano quando nós compramos. Tanto que nós dormimos a primeira noite praticamente ao relento. Porque não tinha cabana, não tinha barraca, não tinha nada. E aí que nós começamos a preparar tudo. Isso foi finalzinho de 1979. Foi até o final de 1980. Foi um ano mais ou menos que eu fiquei lá. E depois eu tive oportunidade de voltar lá em princípios de 1989 e foi onde eu tive o contato com a vila, a serraria mais moderna montada. Mais a serrariazinha que nós tínhamos montado ainda estava lá funcionando. Então deu para matar saudade. Muita gente que trabalhava com a gente lá no começo ainda continuavam lá, então eu tive a oportunidade de rever companheiros que ajudaram no começo. E eu tive um problema que eu peguei hepatite lá.

P/1 – Lá.

R – É, eu peguei uma hepatite tropical. Hepatite B. E isso resultou na minha mudança para São Paulo. Foi onde eu fui para São Paulo me tratar porque junto com a hepatite eu tive um princípio de cirrose. Dizem que cirrose não tem princípio. Que ela já vem. Mas no meu caso eu consegui sarar. Eu consegui recuperar as funções do meu fígado e tudo. Então, quer dizer, eu considero que foi um princípio. Não era nada que estava instalado. E eu fiquei me tratando quatro anos em São Paulo. E nesse tempo que eu fiquei em São Paulo eu fiz alguns cursos. Dentre eles um curso de Administração Rural na Getúlio Vargas. Que foi onde me deu toda a base de administração rural que eu emprego hoje na minha atividade.

P/1 – Perfeito. Quer dizer, aquele homem do mato deve ter sentido uma barra pesada quando, para ter que viver em uma cidade como aquela?

R – É, tem até uma passagem que a gente não tinha comunicação. Não tinha telefone, não tinha nada. No muito nós conseguimos levantar uma árvore, né, um tronco mais fino com seis, sete metros de altura. E colocamos uma antena de rádio lá em cima. E conseguimos um rádio que falava na portaria da CTBC aqui.

P/1 – (risos) 

R – Então nós tínhamos os horários todos certinhos para poder conversar e tal. E teve uma vez que eu estava conversando com a minha mãe e ela estava me perguntando como é que estava. E eu contando as dificuldades e que, e dentro das dificuldades em hábitos alimentares, porque eu não estava conseguindo comer charque, né? A famosa carne-de-sol. Eu já não dava conta mais de comer aquilo, né? Que quando a gente queria comer uma carne melhor a gente tinha que sair para o mato e caçar alguma coisa. E graças a Deus ali a Amazônia paraense é muito rica em caça. Então eu nunca passei vontade de comer uma carne fresca. Sempre que a gente estava com vontade de comer carne era só você sair ali duzentos metros do acampamento você já conseguia uma paca, uma capivara. Um porção ou um veado. Sempre achava. Quando você não achava nada você achava macaco. Tatu, cotia. E nessas eu aprendi a comer de tudo, né?

P/1 - _______ finíssimo. (riso) 

R – Apuradíssimo, né? (riso) Até macaco. A pior carne que eu já comi além do charque é a carne do macaco. Uma carne musculosa, fibrosa, dura, sabe? Muito esquisito você comer aquela carne. Mas aí eu estava comentando com a minha mãe desses negócios, né, aí o tio Luiz entrou na frequência. Pegou o microfone falou: “Pôxa Alex, você está reclamando de barriga cheia.” Eu falei: “Então vem para cá ficar comendo charque todo dia para você ver se não é de barriga cheia ou não.” Porque eu sempre tive liberdade com ele. Pelo contato que a gente tem, que a gente teve, né, mais próximo. Então não tem aquele negócio dele falar e eu ficar quieto. Eu sempre tenho uma resposta, tenho um argumento para contra-argumentar com ele, né? A não ser quando eu estou errado. Porque você está errado você tem mais é que ficar calado, né? Mas se eu tinha um pouquinho de razão no que eu estava falando? Ah, mas eu contra-argumentava mesmo. E a resposta ali afiada. Na ponta da língua, né?

P/1 – Claro, a convivência também fez essa relação ficar mais azeitada, né?

R – É, a gente tinha uma cumplicidade. Tanto que na época que eu trabalhava junto com ele e mesmo antes, logo quando eu voltei dos Estados Unidos, antes de começar a trabalhar com ele sempre que ele saía de férias eu ia com ele. Era como se eu fosse membro a família dele. Então a gente ia para o Guarujá quase todo ano a gente descia para o Guarujá. Isso foi uns quatro, cinco anos seguidos. Inclusive tem uma passagem pitoresca que foi quando comprou o 310. O Cessna 310. Ele veio voando dos Estados Unidos para cá. Parece que foi o Vanderlei e o tio Luiz que foram lá buscar o 310. E como eles iam voar por cima ali do Caribe eles precisavam ter um kit de sobrevivência no mar. Então trouxeram o kit com bote inflável e tal. E toda aquela parafernália de socorro. Aí chegou aqui não ia precisar daquilo aí o tio Luiz falou: “Alex, vamos levar esse barco inflável para o Guarujá?” Eu falei: “Olha, vamos. A gente dá umas banda lá nesse barquinho, né?” Aí compramos dois remos lá em Guarujá  e fomos para a praia, né? Com dois pacotinho pequenininho assim que eram os coletes, né, que estava tudo dobradinho ainda. E um pacote um pouco maior que era o barco. Aí foi a sensação. Porque nós chegamos, pusemos o pacotinho no chão e puxamos a cordinha. 

P/1 – (riso) 

R – Que aquela cordinha puxou e aquele pacotinho começou a se desdobrar e virou um puta de um barco inflável ali para quatro pessoas. Aí eu: “Vamos passear?” “Vamos.” “Onde nós vamos?” Isso devia ser em torno de nove horas da manhã. Aí nós olhamos assim ali da Praia Grande, né? Da praia principal da cidade. Aí nós olhamos a Ilha do Farol. “Ah, vamos ali na Ilha do Farol?” Falei: “Vamos.” E pegamos o barquinho e vai remando. E rema, e rema. Eu sei que nós gastamos, nós chegamos na Ilha do Farol nós começamos remar devia mais menos nove horas da manhã. Chegamos na Ilha do Farol devia ser uma hora da tarde. Não tinha ninguém. E a gente morrendo de fome. Aí tinha um pé de goiaba que tinha quatro goiaba nesse pé. Ele pegou duas, eu peguei duas. Tinha uma minazinha de água. Nós tomamos um copo d’água cada um. Pegamos o barco para trás, pegamos e vamos remando. Vamos remando. E tal. E já era quase seis horas da tarde. Já estava começando quase querer escurecer a hora que a gente ficou um pouco mais próximo da praia. E no final da praia sempre tem aqueles rochedos, né? Aí o tio Luiz falou: “Alex, o que é que você acha da gente chegar ali nos rochedos que a gente vai economizar aí nada, nada uma meia hora de remada para chegar até na praia. Então o que é que você acha da gente chegar aqui nos rochedos?” Eu falei; “Uai, tio, vamos embora, né?” Porque eu sempre topei as paradas com ele, né? “Vamos?” “Vamos.” É agora mesmo, que o companheiro já está aqui, né? E eu sei que nós fomos já mudamos o rumo e  fomos remando para o lado dos rochedos. E nós, mineiros vai lá saber como é que é o mar, né? Você conhece ali que é salgada, ali na praia. Mas os macete de chegar em pedra. E aquilo estava cheio de marisco.

P/1 – Hum.

R – E a gente desceu. E cortamos os pé tudo.

P/1 – O barco.

R – E o barco rasgou todo e tal. (riso) E nós demos sorte de, tinha um rapaz com um buggy lá e viu a situação que a gente estava. Que a gente ainda ia ter que ir a pé até no hotel que a gente estava e era longe. Aí o rapaz ofereceu uma carona e nós pegamos a carona. E nisso a tia Ofélia com os meninos já estavam assim...

P/1 - _____

R – Querendo acionar a Guarda Marítima, a Costeira para poder ir atrás da gente. Porque saímos nove horas da manhã já era praticamente seis horas da tarde e a gente não tinha dado notícia nem nada. 

P/1 – E o barco, esqueceu-se do barco, né? (riso) 

R – Não, o barco nós trouxemos retalho dele, né? Para ver se dava para fazer alguma coisa, para aproveitar por aqui mas só deu lixo mesmo. Rasgou todo o barco. E ficou igual aos nossos pés, né? (risos) 

P/1 – (risos) 

R – Todo cortado, todo arrebentado.

P/1 – Vocês devem pelo menos ter tido um belo jantar essa noite, né? (risos) 

R – Ah, tivemos, viu? A gente sempre foi meio aventureiro, sabe? A gente tem o espírito mais ou menos parecido. 

P/1 – Sei.

R – Então nunca tivemos tempo ruim. “Alex, vamos para uma fazenda?” “Vamos.” “Alex, vamos ver uma fábrica?” “Vamos.” “Vamos descer aqui para ver como é que é lá embaixo?” “Vamos.” E ali na Inco, principalmente, quando nós fomos conhecer, quando ele foi conhecer como é que era o processo todo da Inco. A Inco é cheia de labirinto subterrâneo ali, onde passa as correias. O que é que, as correias de transporte, tudo. E nós andamos naquele underground todo ali da Inco. E descia dez, vinte metros, sabe? E andava lá por baixo e batia a cabeça em encanamento de vapor. Sempre foi uma aventura trabalhar com o tio Luiz. Eu sempre gostei de...

P/1 – Certo. Bom, rotina não existia?

R - ...estar junto com ele. Não, rotina é uma coisa que você tira do vocabulário. Não está no nosso dicionário. Rotina.

P/1 – Certo. Ele tinha muita, quer dizer, o que é que movia – pela tua convivência com ele – o que é que movia o doutor Luiz essa, você usou a palavra aventura. Eu não diria aventura mas essa compulsão pelo negócio novo? Quer dizer uma ______ de soja é uma coisa que provavelmente ele nunca devesse ou nunca deveria ter ouvido falar até aquele momento, né?

R – Não, era pós graduado em Telecomunicação. Não...

( Fim do CD 01)

R - ...tinha nada a ver com mercado.

P/1 – Então, o que é que movia isso? Que motor era esse?

R – Eu acredito que era uma sede de saber. Que era o mesmo motivo que eu o acompanhava. Porque eu também queria conhecer. Eu também queria saber como é que era o processo. Eu não ficava satisfeito em ver a soja em grão e depois ver a lata com óleo dentro. Eu queria saber o que é que tinha acontecido com aquele grão para ele virar óleo. E como é que ele conseguia ficar tanto tempo armazenado e não estragava. Então foi onde a gente foi ver as correias. Que tirava a soja que ficava por baixo e jogava ela para cima. Para poder aerar e a soja não arder. E todo aprendizado. Quando fomos montar a oficina do táxi aéreo aqui. Nós fomos conhecer como é que é a Embraer. Como é o processo de mexer com avião. Mecânica de avião e tudo.

P/1 – Ele acabou tendo, quer dizer, o grupo acabou tendo um negócio de aviônica, né, de ______?

R – Foi o que eu comecei a te falar. Que o papai comprou uma beira de rio. Só que ficava difícil para ele ir. Então ele comprou um avião. Ele comprou um Cessninha 172.

P/1 – Daquele monomotor?

R – Um monomotor. Que era, ele era azul e o prefixo dele era ANJ. Então era o anjo. E todo pintadinho de azul. Então o papai pegava o anjo e ia para a fazenda. E fez uma pista de pouso e tudo lá na fazenda. E de segunda a sexta esse avião ficava ocioso aqui em Uberlândia, né? Ficava ocioso lá no pátio. Então vamos começar os executivos do grupo reunião em Brasília, reunião no Rio, reunião em São Paulo. E reunião para todo lado. Então vamos começar a aproveitar o avião já que o avião está parado. E vamos começar a fazer o transporte dos executivos. E era um avião pequeno. Um avião para quatro lugares. Que com o piloto ficavam três lugares. E foi daí que veio a idéia do táxi aéreo. De começar a fretar esse avião. Só que esse avião ficou pequeno e veio a compra do 210. Que era um monomotor de seis lugares. Até que esse avião ficou pequeno e lento. Que depois que você anda de avião, que você começa a fazer alguma coisa de avião o avião fica lento, né? Você quer um que anda mais rápido. Então foi depois do 210, que aí o papai já tinha morrido. Isso foi coisa do já, o papai não viu o táxi aéreo ser montado. Ele viu o esboço do táxi aéreo, mas a empresa mesmo montada ele não chegou a ver. Mas logo depois que ele morreu veio o 210. Pouco tempo depois teve a compra do 310 que teve esse episódio do barco, né? E então o táxi aéreo acabou vindo em função de uma paixão do meu pai. Porque meu pai sempre gostou de máquina. E dentro dessas máquinas ele chegou ao avião.

P/1 – Certo. 

R –E ele se formou piloto. Tirou o brevê. O tio Luiz por necessidade, porque aí já tinham dois aviões. E nem sempre você tinha dinheiro na época para pagar dois pilotos para ficar à disponibilidade ali. Ficar disponível. Então o tio Luiz tirou a carteira, tirou o brevê dele também e eu depois em consequência tirei o meu também. Eu também sou piloto.

P/1 – E aí a Companhia, quer dizer, a empresa de táxi aéreo já estava estruturada? 

R – Aí a empresa já estava estruturada. Eu trabalhei um tempo lá como gerente de operações. Eu que fazia os fretamentos e agendava revisão de avião e tudo.

P/1 – E aí a frota foi crescendo?

R – Aí a frota foi crescendo. Nós viramos representantes da Embraer. Começamos a vender os aviões nacionais. Durante oito anos mais ou menos se não me engano nós fomos primeiro lugar em venda de avião dentro do Brasil. 

P/1 – Hum, hum. E esse negócio, essa empresa de aviônica é uma empresa de componentes de navegação, não era isso?

R – É, tinha o táxi aéreo e é aquele tal negócio, né? Eu preciso levar meu avião para São Paulo para fazer revisão. Mas Uberlândia hoje já tem uma frota de aviões que compensa ter uma oficina de avião. Então nós conseguimos um pessoal e começamos com uma pequena oficina. E aí fomos conseguindo clientes e pegamos a representação da Embraer. E o pessoal nosso começou a dar assistência e revisões nos aviões que a gente vendia e nos aviões nossos também. E com o negócio de avião é praticamente igual negócio de carro. Se você tem um avião você põe ele em um negócio para pegar um novo. E nessas o táxi aéreo como vendia bem ele tinha uma frota de aeronave usada grande. De bimotor, de monomotor, de turbohélice. Ainda não se falava em jato naquela época, né? Era o must da época era o turboélice, né? Então nós fomos a primeira oficina do interior do país a ser homologada para mexer com turbohélice. Tiramos muito serviço de São Paulo. Pessoal de Goiânia, Brasília. Os aviões dos governadores dos estados vinham para cá para fazer revisão. E a gente estava sempre trocando os aviões, sempre negociando. Então em função de um aviãozinho que era para ir ver a fazenda...

P/1 – O Anjo.

R – É. Então o Anjo virou uma empresa que por vários anos foi líder do mercado.

P/1 – E o hangar leva o nome do seu pai?

R – O hangar leva o nome do meu pai.

P/1 – E o primeiro jato? Do primeiro jato a gente nunca esquece. (risos) 

R – É. O primeiro jato já não é da minha época, né? Eu já estava virado para a fazenda. Eu já estava com o pé na lama como se diz, né?

P/1 – Certo.

R – Já estava sujando o pé na roça quando compraram o jato. Foi uma aquisição boa, uma coisa que a empresa já estava de um tamanho que necessitava de um avião mais rápido. E então foi uma compra acertada. Uma coisa feita em uma hora certa. 

P/1 – Ok. Como é que você vê esse seu abandono da tecnologia para enfiar o pé na lama lá no charco na beira do seu rio?

R – Mas foi com a vinda do Mário Gross para trabalhar no grupo. O Mário ele queria profissionalizar. Ele queria não, ele profissionalizou a empresa. Então quem não era formado, quem não tinha um diploma, quem não tinha um canudo debaixo do braço para ele não era é, vamos dizer, um competente, entre aspas. Não é bem essa a palavra. Mas não servia para trabalhar no grupo. Existia gente melhor, com mais competência, mais sabedoria, né? Com mais bagagem, mais know how para poder cumprir aquela função. Então daí eu fui e me desliguei do grupo. E desse desligamento do grupo logo depois eu fui para a fazenda lá no Pacajá. Fui em 1989, né, finalzinho de 1988 para 1989 e comecei a pôr o pé na lama lá. E eu já sabia que eu gostava porque dez anos antes eu já tinha estado lá. Então eu tinha como um projeto de vida de morar lá.

P/1 – Mas já tinha família e tudo?

R – Já. Eu já estava casado, já tinha meus filhos. Então eu queria ir para lá e fazer aquilo ir para a frente. Mas aí eu fiquei doente, eu precisei vir embora. Porque em Belém eu estava, eu estava morrendo em Belém. Eles não estavam dando conta de, embora seja uma doença tropical eles não estavam sabendo me tratar. E aqui em Uberlândia também o pessoal não teve muito know how para...

P/1 – Para isso.

R - ...mexer com doença tropical. Então eu fui obrigado a ir para São Paulo. E fui para São Paulo com aquele gostinho de terra na boca, né?

P/1 – Certo.

R – Porque eu saí da fazenda para ir para São Paulo. Saí de lá do Pacajá para ir para São Paulo. E quando o médico falou em alta ele queria que eu ficasse em São Paulo. Eu falei: “Não, eu vou embora para Uberlândia.” Ele falou: “Mas você tem que tomar cuidado com a sua alimentação. Você não pode comer qualquer coisa. Você está com o fígado delicado, tal, né? Está fragilizado.” Eu falei: “E se eu for morar na fazenda? Se eu for produzir o meu legume, a minha verdura. Se eu for produzir a minha carne, o meu ovo. Ali tudo o que eu puder produzir. Eu estiver sabendo o que é que eu estou comendo está sem agrotóxico. Que eu sei como foi cultivado. Eu sei que aquele animal não tomou hormônio, não tomou remédio nem nada.” Ele falou: “Não, se for para você ir para a fazenda dentro desse panorama que você está me descrevendo aqui agora eu te libero para ir.” Aí eu fiz um contato com o pessoal da Ipê. Mostrei interesse em pegar a fazenda de volta.

P/1 – Que é essa do seu pai?

R – Que é essa do meu pai. Que estava na responsabilidade da Ipê. 

P/1 – Cujo nome é?

R – Bela Vista.

P/1 – Bela Vista.

R – Isso. Aí eu mostrei interesse em pegar a Bela Vista de volta. Aí nós fizemos uma negociação. Eu consegui pegar não os 250 alqueires para trás mas consegui pegar grande parte. E já vim de São Paulo direto para a fazenda. E fiquei na fazenda de 1994 até o ano 2000. Eu fiquei morando praticamente na fazenda. Aí de 2000 para cá meus filhos já chegado em uma certa idade que já precisava mais da minha presença, então eu já comecei a dividir meu tempo. Já ficava dois dias aqui e cinco dias na fazenda. Aí dois dias só não eram suficientes. Eu já comecei a ficar três aqui e quatro lá. Até que hoje eu passo cinco aqui e dois lá. 

P/1 – Sei.

R – Inverteu o processo.

P/1 – Mas de todo modo o que o médico te disse foi música para os teus ouvidos, né?

R – Foi. Foi uma coisa assim deliciosa, porque ele deu mel para mosquinha, né? 

P/1 – (riso) Tá certo.

R – Ele falou: “Eu só deixo você ir embora se você for para a roça.” “Eu vou, não quero outra coisa. Eu quero ir para a roça mesmo.” 

P/1 – E hoje como é que a Bela Vista está estruturada? Como é que ela, o que ela produz além do gado? Tem o gado de leite e de corte, né?

R – O gado de leite e de corte, eu tenho uma agricultura de subsistência ali. Milho, sorgo, cana que eu utilizo mais para alimentação animal. Eu dei uma melhorada nas pastagens. Introduzi alguns capins que eu tive contato no Canadá e nos Estados Unidos. Tive oportunidade de trazer alguma coisa. E eu consegui achar dentro do Estado de São Paulo com os contatos que eu fiz na Getúlio Vargas eu consegui semente, muda desses capins. E consegui reformar as pastagens todas. E graças a Deus eu tive sucesso na minha empreitada, estou tendo até hoje.

P/1 – Que bom. Está uma fazenda na ponta dos cascos então?

R – Tá. Como se diz: pianinho. Está bonita.

P/1 – Está pianinha.

R – É.

P/1 – E o seu cotidiano hoje vai se dividindo entre a cidade e o campo? Embora você não precise de avião para ir para lá, né? (risos)

R – Não, hoje eu preciso mais é de caminhonete. (risos) 

P/1 – E o seu cotidiano fica dividido em Uberlândia por que? Por conta da família , do trabalho? 

R – Eu fico mais em Uberlândia por conta de família e negócios que eu estou, que com a necessidade de eu ficar aqui na cidade, eu acabei arrumando o que fazer aqui na cidade também, então eu tenho um estacionamento que é para não ficar à toa de tudo. Eu arrumei um estacionamento. Nós tínhamos um imóvel que é onde era a oficina da Intermáquinas. Então estava alugado e o rapaz não quis continuar com o aluguel. Achou que não estava dando conta e eu peguei e montei uma garagem lá junto com um amigo meu. Então já tem uns seis meses que a gente está tocando a garagem e eu estou mexendo com um negócio, estou começando com um negócio de sucata. Um negócio de reciclagens.

P/1 – Certo. E a tua negociação com o gado? Por exemplo, você vende na Bela Vista? Ou vai ao comprador? Frequenta feiras? Como é que é esse esquema?

R – Eu procuro comprar sempre, porque eu não sou bom de venda, eu sou bom de compra. Então eu vou em fazendas ali de vizinhos e faço uma seleção do que eu quero. Às vezes eu vou em leilões e compro alguma coisa em leilão. E na hora de fazer negociação de venda eu deixo por conta da minha esposa. 

P/1 – (risos) 

R – É, porque ela é melhor para negociar a venda do que eu. Porque o sujeito começa chorar de lá porque ele não pode pagar mais...

P/1 – Você fica com pena. (risos)

R - ...eu fico com pena do cara e acabo vendendo baratinho. (risos) E  ela não, ela é mais dura, ela é mais firme, né? Então ela negocia, ela briga, ela liga para outro comprador e tal. Então...

P/1 – Ah, então faz um belo par.

R – A gente faz um par até bem encaixado, cada um na sua função.

P/1 – Porque o mais das vezes, quer dizer, boa parte das circunstâncias é melhor você comprar do que vender, né? O mal negócio está para quem vende. (risos) 

R – É. Agora a venda do gado, a venda você não tem muito o que fazer. Porque você tem que ir ao frigorífico. Porque eu sou um produtor final. Eu faço toda a cadeia. Eu pego desde o bezerro desmamado, ali que a vaquinha está dando leite com seu bezerrinho. Aí a minha esposa cuida do bezerro até na hora do desmame. Quando desmama aí passa para o meu plantel. Aí a gente tem o gadinho de casa. aí eu vou no mercado para complementar o lote, né? Porque por enquanto a gente não tem um volume de parição de machos que dê para a gente ficar só dentro de casa, né? Então eu tenho que ir ao mercado buscar uns garotinhos e tudo. E ali eu faço toda a cria, recria e engorda. E eu tenho dois tipos. Eu tenho o gado de seca e o gado de água, né? O gado das águas é aquele que você termina ele a pasto. E o gado de seca é o gado que você termina ele no cocho.

P/1 - _______________

R – É o gado confinado. Então eu trabalho com os dois tipos, né? Tanto o gado de seca como o gado de água.

P/1 – E raças diversificadas?

R – Não, eu procuro sempre o gado, a matriz cruzada de gir-holanda. Que é o que mais se adaptou aqui na nossa região. E na produção de leite. É um gado rústico. É um gado que aguenta mais um carrapato, uma seca mais prolongada. Ou um período mais chuvoso, não sente tanto. Então é um gado mais rústico. É um gado mais adaptado para o nosso clima. 

P/1 – Certo.

R – E em cima dessas matrizes eu uso o sêmen de boi holandês.

P/1 – Tá.

R – Agora, quando chega na hora de voltar, porque você vai usando o sêmen holandês em cima da cria de um sêmen holandês. Então você começa a apurar a raça de novo. Então chega em um determinado ponto que você precisa voltar para o gir. Só que aí em vez de eu voltar para o gir eu procuro aí um red angus, um simental, que vai me dar um produto de mais caixa. 

P/1 – Um reprodutor.

R – É, eu procuro um reprodutor simental, red angus. Eu estou vendo duas raças que é o brave e o guelve. São raças canadenses que é um derivado do pardo suíço. E é um gado muito grande. Um gado resistente. Então eu estou querendo implementar o meu plantel. Eu estou querendo trazer essa raça para começar a criar essa raça pura.

P/1 – Certo.

R – Mas enquanto eu não, a minha estrutura não me deixa criar um gado puro, eu vou fazendo esse cruzamento do red angus com a matriz já chegada no holandês, ¾, 7/8 que ela já está quase pura. Então invés de eu colocar um boi gir para ela voltar a ser gir-holanda eu começo a explorar o ventre dela com experiências, tá? Então eu pego o red angus, pego o simental. Você pega o hindu-brasil. O guzerá. E eu venho já há uns três anos eu venho experimentando várias raças nessas matrizes mais apuradas para ver se eu fujo um pouco desse cruzamento de gir-holanda.

P/1 – Certo. 

R – Tá. Porque isso é um cruzamento que deu certo. E é uma coisa que já vem aí há cinquenta anos, sei lá quantos anos. Que o gado do cerrado é o gir-holanda. Tanto para carne como para leite o gir-holanda é o ideal.

P/1 – E com esse tipo de experimentação você tem apoio? Você tem centro de tecnologia, extensão, pesquisa? Tem aonde se calcar?

R – Eu tenho assessoria do pessoal da universidade aqui de Uberlândia. Eu tenho dois professores que me dão assessoria. E eles têm uma equipe de agrônomos, veterinários. Eles também são veterinários. Só que hoje eles estão mais para a área administrativa do que para pôr a mão na massa mesmo. Então eles tem os meninos lá da universidade que quando a gente precisa de um veterinário, é uma coisa mais simples, então vai esse, vai a meninada para lá. Às vezes é um caso complicado e que coincide que ele está dando aula sobre aquele caso então ele leva os alunos para a fazenda e dá aula em cima daquele animal. Fazendo o tratamento que ele tem que fazer. Uma cirurgia, uma coisa qualquer. Que ele tem que fazer para curar aquele animal, ele usa aquele animal para dar uma aula. E em troca dessa abertura, dessa receptividade que eu tive com eles, eles me dão uma atenção um pouco mais diferenciada do que as outras assessorias que eles fazem.

P/1 – Então você conseguiu uma receita interessante.

R – É, uma mão lava a outra e nisso a gente vai conseguindo caminhar e progredir junto, né?

P/1 – Certo. Muito bem. Quer dizer, então na verdade quem sabe daqui há muito pouco tempo você está criando uma linhagem aí diferenciada e adaptada ao...

R – Ao cerrado.

P/1 - ...ao cerrado.

R – É a minha pretensão. Conseguir fazer a minha raça.

P/1 – Certo. é um projeto meritório.

R – É um projeto de vida. Todo mundo tem que ter uma cenourinha na frente para poder seguir caminhando, né? Então a minha cenourinha é esse sonho de criar a minha raça. Que seja adaptada ao cerrado e que venha competir em termos de igualdade ou senão melhor do que o gado cruzado, né? O gir-holanda que já está estabelecido há vários anos.

P/1 – Nesse aspecto certamente você e a sua esposa batem uma boa bola. E os filhos?

R – O meu filho ele tem um perfil executivo. Ele já prefere ficar atrás de uma mesa do que usar botina suja. Agora a minha filha já é mais voltada para o meio termo. Ela gosta de fazenda, ela mostra um interesse pelos acontecimentos. Ela tem um carinho pelos animais. Então a gente vê que se algum dia a gente vier a faltar quem vai tomar a frente desse lado rural vai ser ela. 

P/1 – Mais ela do que ele.

R – É. E o meu menino vai cuidar mais dos interesses aqui do, no caso, do grupo ou coisa que o valha.

P/1 – O Bráulio é advogado, né?

R – Ele é, ele está no terceiro, acho que no terceiro período.

P/1 – E a sua filha, como é o nome dela?

R – É Mariela.

P/1 – Mariela.

R – A Mariela está fazendo Psicologia e hoje ela tem o negocinho dela que ela é dona de academia.

P/1 – Ah, que bom. Esse negócio do empreendedorismo está no sangue, né?

R – É. O Bráulio começou cedo porque logo que ele passou no vestibular ele conseguiu, o tio Luiz arrumou para ele ser estagiário da, lá no jurídico da CTBC e em uma certa altura lá, que ele já estava há alguns meses trabalhando, um rapaz saiu. Um efetivado saiu. Aí eles fizeram uma reunião dentro do departamento quem que eles deveriam, discutindo em cima de currículos, né? Quem que eles deveriam contratar para assumir o lugar daquele assessor que tinha saído. E para a minha surpresa, né, e lustrando o meu ego o Bráulio foi escolhido por unanimidade. Por todos os colegas como uma pessoa agradável de relacionamento, uma figura competente. E cumpridor dos seus deveres e tudo, tal. Isso é gratificante para a gente, né?

P/1 – Claro.

R – Então ele conseguiu ser efetivado, passar de estagiário a funcionário por mérito dele. E aí abriu espaço para um novo estagiário.

P/1 – Não há pai que não goste disso.

R – E o gostoso foi que ele abriu, além dele se colocar, ele abriu oportunidade para um outro estudante que estava precisando fazer um estágio. E que uma cabeça nova entrou para, quem sabe mais um talento aí.

P/1 – Claro. E esses seus encontros agora extemporâneos com o doutor Luiz depois de toda essa convivência? Toda essa proximidade? Como é que vocês se vêem hoje?

R – Hoje em dia a gente encontra muito pouco. A gente se encontra mais nas reuniões do Conselho. Que eu faço parte do Conselho de Administração da Algar. Então quando tem as reuniões do Conselho, lógico ele é o presidente da mesa, a gente está sempre encontrando. Quando tem algum evento, um evento de família igual nós tivemos uma reunião da família para discutir sobre o estatuto e código de ética e tudo da família. Nós fomos para o Barreiro, né, em Araxá. Passamos um final de semana a família toda. Então nós tivemos condição de estar mais próximos e tal. Mas no dia-a-dia hoje ele é mais para o lado dele e eu para o meu lado. A gente se distanciou um pouco.

P/1 – De todo modo com toda essa tua vivência, essa tua experiência na empresa o grupo enfim, como um todo, o que é que você diria para uma pessoa que fosse começar a trabalhar amanhã no grupo? Na CTBC ou no grupo. O que você diria? O que é que ele vai encontrar?

R – Olha, eu daria a maior força para essa pessoa. Porque ela estaria entrando em uma empresa que dá oportunidade para as pessoas, reconhece quem realmente tem vontade de crescer. Tanto que nós não temos funcionários. Nós temos associados e talentos. Que a gente procura sempre fortalecer o ego da pessoa, né? Se a pessoa é boa você fala para ela isso: “Você é uma pessoa boa. Você tem que ficar aqui” e isso é um incentivo para a pessoa participar dos cursos que o departamento, o Recursos Humanos, né, está sempre promovendo. Os cursos para atualização, para crescimento. Novas políticas possibilitando o crescimento profissional da pessoa mesmo. Mesmo que ela não fique no grupo, que ela saia e vá trabalhar em outro lugar, eu tenho certeza que a bagagem que ela vai conseguir adquirir ali estando dentro do grupo, ela vai levar esse conhecimento e essa bagagem e vai ter sucesso em qualquer outro lugar que ela for trabalhar. Porque o grupo realmente, hoje em dia, nesses últimos anos tem feito um trabalho muito voltado para, está me fugindo a palavra mas para, é, para fazer despontar o talento da pessoa. Do que é que ela gosta de fazer, aonde ela vai se dar melhor e dar uma certa flexibilidade para a pessoa: “Poxa, aqui eu não estou me dando bem. Se eu estivesse em tal área talvez eu me desse melhor e tal.” E se você vê que aquela pessoa realmente tem uma queda para aquilo é um futuro talento naquela área que ela está pedindo para ir você dá oportunidade. 

P/1 – É, e garantir esse estímulo.

R – E sempre estimulando. 

P/2 -  Essa escola seria uma continuação, uma profissionalização daquela escola que começou com o seu avô?

R – Isso. Seria uma continuação ali do seu Alexandrino e do Tião, né? Sempre incentivando, sempre ensinando e dando oportunidade. E mostrando que assim não é bem por aí. Você tem que fazer mais é por, pelo lado de cá para você conseguir seu objetivo. Então eu acho que de uma certa maneira é o que você disse: nós voltamos lá no começo da conversa no estímulo e na valorização da pessoa. Que todo mundo merece uma segunda chance. Todo mundo se, toda pessoa se você der um pouco de atenção e com carinho explicar para ela o por que é que não pode e o por que é que deve, sabe? Você passa a não ter um funcionário, você passa a ter um parceiro. Você passa a ter um amigo dentro da empresa e você acaba tendo ali um ambiente familiar. Pelo menos é esse tipo de administração é o que eu tenho no meu negócio. Eu não tenho empregados. Eu tenho amigos e parceiros. E eu vejo dentro da empresa hoje que a gente não tem funcionário, a gente não tem o associado, né? A gente tem amigos e parceiros dentro da empresa. Que sofrem se a empresa tem um resultado ruim. Você vê que a pessoa sofre porque o resultado foi ruim. Se teve um resultado bom você vê que a pessoa fica alegre porque o resultado foi bom. Então tem aquele caráter de amizade mesmo envolvendo. 

P/1 – Tá certo. Mas, quer dizer, na verdade tudo isso só é possível por conta disso que a Cleide levanta: é uma cultura que já vem...

R – Vem desde o começo. Vem do berço da...

P/1 – Anda-se, anda-se, anda-se e volta-se lá para trás. (risos) 

R – É. Porque todo o início se ele começou bem não tem por que em uma hora que você está um pouco desgarrado você não voltar lá atrás e relembrar dos ensinamentos, de como você foi tratado. Do carinho que você teve e tal. E procurar passar aquilo para a frente e procurar achar o eixo de novo. Quando você dá aquela desencaixada você volta às origens, se encaixa de novo e continua tocando o barco, né?

P/1 – Isso aí é que a marca é forte.

R – (risos) 

P/1 – Muito bem, muito bem. Tem alguma coisa que você gostaria de ter dito e que a gente não te estimulou a dizer, ou não? 

R – Não, eu acho que a gente falou bastante sobre tudo, aí. Uma coisa que não é bem um depoimento nem nada, mas é um feeling meu é que se o meu pai e o vovô ainda estivessem aí junto com o tio Luiz na ativa que nós estaríamos, que hoje o grupo é grande nós estaríamos bem maiores. Porque nós perdemos dois, duas pessoas de grande visão. E que nós estamos pagando caro para conseguir ter essa mesma visão que eles tinham de natureza. Já nasceram com ela. E a gente está tendo que fazer curso, está tendo que aprender. Está tendo que se virar para poder adquirir uma coisa que essas duas pessoas já nasceram com ela. 

P/1 – Mas deixaram lições, né?

R – Deixaram lições.

P/1 - _______

R – Sem dúvida. Deixaram grandes lições de vida. 

P/1 – Eu adoraria entrevistá-los. 

R – (risos) 

P/1 – Perfeito. Como é que você se sentiu dando esse depoimento? Agora um depoimento pessoal seu? O que isso significou para você? Como é que você se sentiu?

R – Olha, eu consegui resgatar um pouco da história, da minha história pessoal e podendo falar dos ensinamentos do meu pai, do meu avô, sabe? E das experiências que eu tive com o Luizão. Que afinal de contas ele é mais que tio. Ele é o, para mim ele é o Luizão, sabe? Aquele cara ponta firme ali, ó. Parada firme que você pode contar com ele toda hora. Mas esse, essa oportunidade de poder estar falando a respeito dessas três pessoas que praticamente foram a base da minha cultura, a base da minha vida, né? Que foram as pessoas que me incentivaram, me ensinaram, estavam sempre tentando passar coisas boas para mim. Eu poder falar sobre isso é uma coisa muito gostosa. É uma coisa gratificante. Porque é uma coisa tão pessoal. Uma coisa que você tem pouco oportunidade de estar comentando isso com outras pessoas. E nem sempre é interessante você estar comentando esse tipo de coisa com outras pessoas. Mas sabendo que isso é uma coisa que vai ficar marcada. Vai ficar gravada. Está aí. E que amanhã os meus filhos, os meus netos, e filhos e netos de primos meus vão ter oportunidade de ver esse trabalho que vocês estão fazendo com todos os depoimentos, inclusive o meu. Vão poder sentir um pouquinho quem foram os ancestrais, das lições de vida que eles tinham para passar. O que é que eles passaram. Que o começo foi duro mas valeu a pena o investimento, sabe? É, eu acho que em síntese é isso aí que eu tenho para te falar. Que eu fico gratificado de poder estar deixando aqui a minha experiência de vida para as futuras gerações.

P/1 – Nós acabamos de gerar um documento disso, com certeza.

R – Pois é.

P/1 – Um documento. Perfeito. Muito obrigado. Foi muito bom te ouvir.

R – Obrigado a vocês. Foi muito bom ter oportunidade de falar.

P/1 – É isso aí. 

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