Busca avançada



Criar

História

O Rei das Batidas

História de: Osmar Afrísio dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/05/2007

Sinopse

Osmar conta sobre sua vida ainda no interior, as brincadeiras que eles e seus irmãos faziam, a relação com o pai, sua viagem de londrina pra São Paulo, a diferença do estilo de vida do interior de São Paulo para a capital, desde o estilo musical, vestimenta, comportamento das pessoas até o transporte. Conta sobre o seu trabalho de garçom e suas vivências no Bar “Rei das Batidas”, sobre sua participação em um filme, seus vários convites para outros trabalhos, sobre o seu primeiro livro, além de ler alguns de seus versinhos.

Tags

História completa

P1- Osmar eu queria que você repetisse para mim o seu nome completo, por favor.

 

R- Meu nome é Osmar Afrísio dos Santos.

 

P1- E o local e data de nascimento?

 

R- Eu nasci em Iepê, interior de São Paulo, em 14 de novembro de 1960.

 

P1- O nome dos seus pais?

 

R- Meu pai, Afrísio do Santos e minha mãe era Laurisa Maria da Conceição.

 

P1- E qual era a atividade profissional de seus pais?

 

R- Bom, nós morávamos no interior nessa época, então eles eram agricultores. O meu pai tomava conta de uma chácara numa fazenda que tinha lá em Londrina. O dono da fazenda reservou uma casa. Então nós morávamos nessa casa e meu pai trabalhava para esse fazendeiro. Era um local e a gente e eles vivíamos de agricultura.

 

P1- Vocês plantavam também?

 

R- Isso. Assim, o meu pai trabalhava na plantação de café, cana-de-açúcar, algodão, trigo. E aos finais de semana tinha o próprio cultivo ao redor de casa. E as galinhas, os porcos, milho, feijão, batata, manga. As coisas lá do interior.

 

P1- E você ajudava a plantar ali?

 

R- Na verdade eu era ainda muito pequeno. Tinha entre... Porque eu comecei… Eu vim para São Paulo com dez anos, mas já com quatro, cinco anos de idade eu ia junto para a roça, brincar de pular nos algodoais lá, nos sacos de feijão. Então eu ficava brincando na roça.

 

P1- Hum hum.

 

R- Aos domingos íamos pescar no rio Tibagi. Rio Tibagi é a alguns quilômetros de Londrina. Era uma vidinha do campo mesmo.

 

P1-  Você falou que nasceu em Iepê.

 

R- Iepê.

 

P1- Mas você conheceu Iepê, ou só nasceu lá?

 

R- Não, eu só nasci em Iepê e meus avós moravam em Londrina. Na verdade é Ibiporã, mas como é bem próximo é a referência maior, né? Então as condições de vida eram melhores. O meu avô, pai do meu pai, convidou-nos para morar nessa região. Foi onde o meu pai teve esse emprego com o fazendeiro.

 

P1- Sei, sei.

 

R- Noroeste do Paraná.

 

P1- E Iepê, como é que chegava em Iepê, você sabe?

 

R- Ah, não sei. Não. Desconheço o início da história. É assim, as coisas que sei são que meus pais nasceram em Alagoas, Palmeira dos Índios, e assim é a única referência e inclusive em outras reportagens já me perguntaram do que morreram meus pais. E eu não, até hoje eu não tenho certeza. Porque éramos muito pequenos e eram muito precários nossos saberes das coisas. Não íamos à escola ainda, então realmente não temos noção desses detalhes culturais. Mas teve um início lá no fundão do estado e...

 

P1- E os dois nasceram na mesma cidade, lá em Alagoas?

 

R- Ah, não.

 

P1- Você não sabe?

 

R- Não tenho certeza, não tenho.

 

P1- E eles morreram e...?

 

R- É eles morreram assim. Quando a minha mãe morreu eu tinha sete anos de idade. E um ano depois, um ano e meio depois morreu meu pai. Porque tínhamos… Abaixo de mim ainda tem três irmãos. Éramos oito pessoas e o meu pai só. Ele não teve condições físicas e psicológicas de sustentar oito crianças. Porque mesmo nessa época o meu irmão mais velho, o César, ele também não tinha ainda. Ah, ele tinha quinze anos. Então foi bastante precário o início. Daí o meu pai inclusive tinha pretensões de se casar novamente com uma moça dessa região. Uma outra. E cada um de nós rejeitamos a idéia. Sabe, a gente não tinha noção de que o amor deve ser universal. Então a gente falou: “não, a gente não quer que você arrume outra mulher”. E na verdade eu fui muito punido pelo meu pai mesmo, por ser tão pequeno e já ter essas idéias de encurtar as relações entre as pessoas. Eu cheguei a pagar caro por isso, tal. Mas enfim, e ele não, que dizer,  a minha idéia, apesar de tão moleque, ele levou a sério. Ficou chateado, me bateu bastante porque eu tinha essas idéias. Mas ele não seguiu adiante com essa relação. Acabou tendo uma vida bastante privada e aí até trabalhar. Bom, aí desistimos lá de Londrina. Viemos morar com um tio aqui em São Paulo, em Francisco Morato. E esse tio trabalhava no Rei das Batidas já. E aí o meu pai foi trabalhar na prefeitura de, é com essa parte de encanamentos, esgoto, tal. Mas não suportou, começou a beber, ficou angustiado com a vida e acabou tendo um coma alcoólico ou alguma coisa assim, não resistiu e também um ano depois.

 

P1- Então de Londrina vocês vieram para São Paulo?

 

R- De Londrina...

 

P1- Vieram com seu pai?

 

R- Isso, é. Viemos de trem.

 

P1- De trem?

 

R- De Londrina até Curitiba. E de Curitiba à Estação da Luz.

 

P1- Você lembra dessa viagem aí?

 

R- Ah, eu lembro. Foi uma viagem bastante grande. Acho que de mais de… Saímos oito horas da noite de Jataízinho, é do lado de Londrina e chegamos onze e meia do outro dia, aqui em São Paulo. Porque teve um acidente na viagem. O trem chacoalhava muito e acho que teve um acidente, uma pessoa foi atropelada. Eu creio que sim. Então era... Sei que em 1971 estávamos chegando a São Paulo. Estação da Luz.

 

P1- Os oito irmãos?

 

R- O outro irmão, o César - era o mais velho - ele tinha vindo um ano antes para tentar a vida com um primo nosso que morava aqui em Mauá. Ele acabou se alojando em um bar e dormia no fundo desse bar. Durante o dia trabalhava no bar. Inclusive, uma das clientes desse bar, na época, era a Marisa, a atual esposa dele. E lá no Rei também, há pouco tempo conheci uma moça e já morei um ano com ela. Mas aí não deu certo. Mas tem essas histórias assim também.

 

P1- Você se lembra de alguma notícia que o seu irmão mandava de São Paulo para vocês lá?

 

R- O meu irmão ficou encantado, ficou deslumbrado com a grandeza do estado, as coisas grandes. É porque nós não tínhamos referência assim de... Sabe, de você morar no interior, andar a pé, descalço e aqui tinha ônibus, trem. Eu sei que ele falou que o que ele achava bonito é que todo mundo andava bem vestido, com roupas de soldado. E eu sei, a coisa mais bacana que ele achava [eram] os carteiros, que tinha roupa bonita com um bonezinho. E isso dava verdadeiro orgulho, ele chegou a trabalhar algum tempo com esse primo nosso que tinha vindo buscá-lo antes, mas assim, eu não tenho mais referências, porque eram coisas muito... Foi uma mudança muito radical de estilo de vida, para São Paulo.

 

P1- Você tinha alguma expectativa? Que expectativa você tinha quando você veio para cá? Você lembra dessa época?

 

R- Então a única coisa que eu me lembro mesmo é que assim: eu fiz uma aposta com a minha prima, a Cidinha. Eu falei para ela: “Para viver você precisava sonhar como São Paulo”. De outra maneira esse mundo aqui não daria certo para quem vem de fora. Então em vários casos, relatos de pessoas que vieram só para ganhar dinheiro acabaram quebrando a cara, porque São Paulo, além de você sonhar com essa grandeza, querer ganhar dinheiro, você tinha a necessidade de se identificar. Com o povo, a pressa, a agitação, a cultura, os acontecimentos, as ações diárias. Se você viesse só com essa idéia fixa de querer ficar rico e voltar, normalmente as pessoas quebram a cara. Você tinha que gostar mesmo daqui, aceitar essa transformação, e as coisas do interior você tinha que guardar na lembrança, porque não tinha como você ficar vivendo dois mundos. São Paulo para mim foi completo, porque quando eu cheguei na estação eu vi aquele monte de carro. Eu falei: “Caramba, a gente vai ter que ficar morando aqui?” Isso daí já me deixou assustado com movimentação e o acúmulo de informações para você tomar um ônibus. É assim, para você se adequar às leis da grande sociedade. Para mim foi uma experiência radical mesmo. E eu demorei provavelmente quatro anos para acordar e falar: “Ah, agora eu sei onde eu moro, sei onde estão as coisas.” Porque as mudanças eram muito rápidas e a cabeça da gente era ainda vagarosa como do interior, você olhava e via árvores, aqui você via prédios. Lá você via rio, peixes, aqui você poluição, você sabia que não podia nadar. Então isso secou um pouco a expectativa de vida. Para viver [em] São Paulo você teve que por uma máscara diferente, se atualizar para você não ficar imaginando aquela vida de lá. Aquela vida solta, desregrada. Entre aspas, né, porque a natureza é perfeita. A gente vivia lá de comer mamão, de pegar as coisas no pé. E aqui não, aqui você tinha que comprar as coisas e isso daí foi um choque muito grande. Quando você tinha fome, você tinha que ter o dinheiro para comprar alguma coisa, e lá não, se tivesse fome você ia no mato e pegava alguma coisa e comia. Esse choque foi muito violento e me deixou assustado. Talvez até a minha própria gagueira, esse medo de falar as coisas, isso daí acho que vem dessa época.

 

P1- Teve alguma imagem, alguma história desses quatro primeiros anos que resumem bem esse impacto que São Paulo causou em você, Osmar? Você se lembra de alguma história assim?

 

R- História? Ah, história assim por exemplo, minha professora, dona Marli, ela me dava aula de português e ela morava aqui em São Paulo. E esse tio meu, nós morávamos em Francisco Morato, perto de Jundiaí. E numa dessas conversas eu perguntei quantos filhotes ela tinha, dizendo como se fossem filhos. Ela falou: “não Osmar, aqui em São Paulo a gente chama de filhos”. Aí eu falei: “poxa vida, então as pessoas precisam acostumar a respeitar a nossa bagagem do interior, né?” Então isso daí marcou mesmo. Por exemplo, nessa época ela pediu cinco nomes de empresas americanas. Eu coloquei uma nelas, life boy, não eu coloquei lite boy, porque eu não... Aí ela falou: “não Osmar, é life boy”. Isso daí me desanimou um pouco. Esse negócio de você ter que perder um pouco a sua identidade para você reforçar novos valores de cultura. E aí, mais ou menos nessa época inconscientemente eu gravei essas coisas e eu falei que tudo isso um dia, quando eu fosse conversar com alguém, eu usaria esses termos. Mesmo sabendo que isso era minha cultura, mas para eu viver a cultura de São Paulo eu teria que ser uma outra pessoa. Então foi o que eu fiz. Mas eu fiquei muito triste por ter dificuldade em assimilar a cultura da capital com a cultura do interior. Foi um choque muito violento e aí, graças a Deus, eu pude recuperar muito isso nesse meu trabalho do livro. Só agora, em 94, porque quando eu escrevi esse livro eu tinha 34 anos e só agora eu pude resgatar. E tanto nesse trabalho quanto no próximo, eu procuro trazer um pouco as palavras do interior, a cultura da gente, porque é a cultura verdadeira, a cultura do homem. E aqui em São Paulo é uma cultura pronta, que fala: ou você se adapta a isso ou você está fora, então.

 

P1- Hum hum. Você tem bastante saudades lá do interior?

 

R- Então assim, eu tenho saudades, mas isso fica apenas no imaginário, porque faz quinze anos eu assumi a identidade de um paulistano da capital. Então hoje em dia, graças a Deus, eu tenho a possibilidade de viver São Paulo como todos querem, alegre, contente. Porque é corrido, né? Mas na minha casa o que eu escrevo nos meus sonhos tem ainda essa imagem do interior, essas coisas, tal. E tanto é que era quando eu tinha dezessete anos. Quando eu vim para São Paulo eu tinha dez e aos dezessete anos eu tive a oportunidade de voltar a Londrina. Lá na fazenda onde morávamos e aí já não, as coisas já... Eu tentei andar a pé, pegar a espingarda de calça curta e a ir no rio, mas aí eu já estava transformado num cidadão de São Paulo, então não, quer dizer, hoje em dia eu estou uma pessoa preparada para viver as grandes multidões, as grandes diferenças de cultura. Isso é legal.

 

P1- É...

 

R- Ah! Só queria registrar mais uma coisa. E de tudo isso o que eu acho mais legal é que essa minha identidade do interior ela reside ainda. Então vira e mexe ou no que eu escrevo ou no que falo, tem alguma referência ao interior, aos erres, aos tardes, as coisas de lá.

 

P1- As pessoas notam quando você fala e falam para você, você fica contente?

 

R- Notam. Ah, eu fico lisonjeado, eu fico, poxa, né, assim. Saber que a gente deve  acompanhar, a gente deve viver como os homens do nosso tempo. A gente não pode ficar vivendo aqui e achando que isso daqui poderia ser lá, aquela vida. O legal da vida é que poucas pessoas fazem isso. Mas eu tive a graça de Deus de discernir essa diferença que eu estando aqui preciso viver como as pessoas daqui, como as leis daqui. Desse momento para cá minha mente tem ficado mais aberta, mais alegre. Então hoje em dia eu faço isso assim com prazer. Eu sinto orgulho de ter contatos com pessoas do interior de São Paulo, pessoas muito cultas ou pessoas menos cultas. Tenho uma facilidade de conversar, de ilustrar a vida. E isso me deixa muito contente. Inclusive de eu ser um exemplo para outras pessoas. Eu acho tudo isso uma coisa legal de ser resgatada, né?

 

P1- Hum hum. Osmar, você falou aí da infância, tal. E como é que era sua casa lá na...

 

R- Certo.

 

P1- Que imagem você tem da sua casa?

 

R- A imagem eu guardo bem. Era uma casa de madeira. Dormíamos em rádio, em rede. Em redes, porque não tínhamos cama. Tinha só um cama, mas era do meu pai e da minha mãe. Os demais ou dormiam em bancos ou redes. Eu mesmo tinha uma rede, e tinha um rádio, acho que era rádio Marconi, sei lá. E a programação era ouvir notícias de São Paulo. “Em São Paulo isso aconteceu. Tun tun tun.” E todos nós ficávamos muito assustados. Mas isso era apenas durante uma hora ou duas, porque depois vinha a programação de músicas sertanejas. E a grande diferença é que a nossa casa não tinha luz. Então quase todas as noites íamos para o terreiro, fazíamos uma fogueirinha, ficávamos todos reunidos. E ao invés de ficar vendo novela ou dispersando as idéias com essas bobagens que atentam tanto contra a nossa moral, nós discutíamos as coisas do interior, da vida. Então tinha já uma própria terapia grupal todas as noites. E quer dizer, então era o cigarrinho de palha até. Meu pai até falava: “Pô, para que um dia vocês não se tornem drogados, tal”. Todo sábado ele dava para a gente um cigarrinho de palha. Deu para todos, para cada [um dos] nossos irmãos, inclusive para mim. Mas aí como tem o livre arbítrio, né? Eu falei: “ó, eu não”. Eu experimentei mas eu não gostei. E os meus outros irmãos experimentaram, tiveram a opção de parar, mas não pararam. Quer dizer,o meu pai mostrava as coisas, ele tinha uma noção mais espiritual das coisas, tinha uma ligação meio mística com as coisas, inclusive ele era tido como um dos curadores locais. Era o que a gente faz hoje no centro espírita, às vezes a cura que uma pessoa precisa é simplesmente um copinho de chá e algumas palavras, né? E as pessoas pagam dinheiro para ouvir isso, de uma pessoa que é formada, entre aspas. E não é, cada um de nós somos os próprios psicólogos, os curadores, os professores. E a grande vantagem que tenho hoje em dia é que eu trabalho em um universo de cultura muito abrangente. E aí cabe a frase que tem lá no relógio da USP,  no universo da cultura o centro está em toda a parte. E lá no Rei, desde que eu comecei, aos doze para treze anos, eu tive contatos diretos com psicólogos, jornalistas, médicos, advogados, engenheiros, jornalistas e sociólogos, então todos os dias e até hoje, todos os dias eu tenho o contato com essa diferença de cultura. A gente vai aprendendo coisas assim… Sabe, eu comecei lá, estava ainda no primário, não sabia nada. Aí chegava alguém da USP, “Osmar, não é para mim fazer. É para eu fazer. Ficha você não escreve com x, escreve com ch”. Todo dia, toda a hora as pessoas vinham reforçando esses valores, e aí eu não resisti e acabei sendo uma pessoa que tive, que tenho o privilégio de todos os dias estar aprendendo um pouco de medicina, história, física, química. Todos os dias. E como a gente tem essa diferença muito grande, a gente consegue amenizar os conflitos de quem bebe três doses e fala que tomou duas. Então a gente tem algumas... A gente pela experiência, fala ou guarda os copos, ou marca, ou cria-se um símbolo de que prove para aquela pessoa que ela tomou três doses. A gente usa recursos da medicina, da memória, tal. Aí o cara fala assim: “lembra de quando você pediu a primeira dose, você estava olhando para aquela moça de amarelo que estava ali?” “Lembra que quando você pediu a quarta dose, eu fiz assim para você? Você lembra disso?” Quer dizer então, a gente faz um... Cria comparações, símbolos, analogias e vai vivendo, vai. Isso é legal, isso é truque muito legal de se viver. Se chega uma pessoa fala assim: “É Osmar, eu não tomei quatro doses, né?” Falo: “está bom”. “E tem jeito de tomar a saideira?” Eu falo: “tem, mas é que normalmente a gente dá a saideira para quem pega e paga o que consumiu”. Aí o cara fala: “pô, então ele tem razão, então realmente são quatro doses”. Aí o cara paga, sabe? Então, isso daí hoje em dia a gente tira meio de letra, essa.

 

P1- _____________.

 

R- E cada dia mais, né?

 

P1- Osmar, só retomando um pouquinho, você falou que tinha rádio na casa lá.

 

R- Isso um rádio, um rádio.

 

P1- E tocava música sertaneja. Que músicas que tocavam?

 

R- As músicas que mais me lembro hoje em dia e eu gosto, eram: Léo Canhoto e Robertinho, Tonico e Tinôco, João Pacífico. Puta esses caras assim... O Xavantinho e Pena Branca. Mas o mais mesmo era Tonico e Tinôco e Léo Canhoto e Robertinho, com aquelas músicas tipo o: “lá longe bem distante, aonde a bala fazia a lei, morava um bandido bastante afamado, seu nome era conhecido como Jack o matador”. As próprias músicas deles retratavam a vida de cá, São Paulo, as coisas daqui. A gente com as próprias músicas, a gente ficava imaginando o mundo daqui. E ao mesmo tempo eles falavam assim: “ó que linda igrejinha tu tens lá fora junto à ribeirinha, tem olhos meigos, os pés descalços”. Então isso aqui era música do lar, interior. E aí depois tinha outras músicas assim: “Fizemos a última viagem, foi lá pro sertão de Goiás”. Quer dizer então: “o rio de Piracicaba vai jogar águas para fora, e tal”. Esses elementos, essas comparações da vida de lá e a vida daqui deixavam a gente meio assustado. Tipo assim essas músicas de ciúmes como a cabocla Teresa, que o cara fala assim: “Há muito tempo atrás fizemos um ranchinho para nós dois morar, né?” E aí o cara se confunde com uma visita de uma pessoa e acaba matando a moça e depois quando ele mata é que ele vai ver que a moça era inocente. Aí ele passa a vida inteira bebendo, tal, ou tipo: “briguei com ela só para ver ela chorando, porque sabia que ela gostava de mim, queria só ver apenas o seu pranto derramando” Isso é do… Essas músicas trazem na memória assim, traz. E aí quando viemos aqui para São Paulo, a gente ligava a rádio e não tinha essas músicas. Isso fez uma diferença brutal no comportamento da gente. Você ligava aqui uma rádio e só tinha tipo música de balada, essas high tech, essas coisas. E isso foi difícil de acostumar. Eu mesmo, apesar de estar morando aqui em São Paulo há 32 anos, até hoje eu ainda não, eu dificilmente deixo na FM. Eu sempre ponho AM, porque ainda tem essas músicas de raízes. Eu não compro muito cd’s de gente tipo Slash do Gun’s in Roses, tanto é que quando eles foram lá no Rei eu falei: “quem são esses aqui. Falaram: “eles são muito famosos Osmar, conversa com eles, eles...” Falei: “não conheço”. Quer dizer, então essa memória interiorana ela ainda, ela limita um pouco o avanço da gente. Eu optei por inclusive não ter telefone, não uso telefone, não uso carro. Antigamente tinha moto, mas que eu vendi. Então eu tento simplificar muito a minha vida para não perder essas identidades, mas quando é necessário, claro eu ouço alguma música, eu leio um pouco do jornal, a ilustrada. Tenho algumas referências do que está acontecendo no mundo. Porque a gente pode ficar alheio a essa movimentação, senão a gente perde a própria identidade. Então, ando de ônibus, visito gente simples como a gente. Fora do Rei eu tento evitar bebidas alcoólicas, cigarros, essas coisas, então a vida vai aos poucos tendo a graça de ser vivida,  saboreada. Porque a vida é magnífica. É preciso saber que a cada manhã que você levanta, você tem duas opções, de entrar nesse mundo todo ou de ficar guardado no seu mundinho. Então o que a gente faz é isso. A gente põe a figura do dia e fala: “ó, hoje o dia vai ser assim.” E aí o dia é assim. A gente tenta levantar um pouco o astral e a gente que não pode ficar sendo muito orgulhoso não, porque é isso mesmo, né? Se você acorda de manhã e vê uma pessoa que você não gosta ali do seu lado, algum vizinho, alguma coisa, aquilo no fundo é exatamente essa pessoa que vai dizer como vai ser o dia seu. Você chega e fala um bom dia mesmo, tal. Um bom dia mais sereno, um bom dia e aí passa o próximo, porque vai indo. E se você achar que só lá no serviço é que você vai ter essa bagagem toda, não é. Porque desde o começo você tem que trabalhar e cumprimentar e se, como falam os sociólogos. Como que é? É sociabilizar desde do simples e humilde até os mais.

 

P1- Osmar, você se lembra de algumas brincadeiras, ainda voltando à infância. Das brincadeiras que vocês tinham entre os irmãos? Que tipo de brincadeira que era?

 

R- Certo. Brincadeiras, né? Bom, era jogar malha, malha são aquelas, acho que você sabe o que é. Ao lado de casa tinha um terreno, você punha um sabugo de milho em pé e outro sabugo de milho lá atrás, aí você ficava jogando as malhas e quem derrubasse o sabugo ou alguma coisa ganhava o jogo. Isso daí hoje em dia é o que eles chamam mais ou menos de bocha, uma coisa assim. Aquilo era uma diversão muito legal. Uma outra era pegar um estilingue e caçar passarinhos. Aos domingos de manhã ir pescar, e brincadeiras, subir em árvores para pegar manga. Pegar manga era muito legal. Tinha perto de casa uns barrancos e lá embaixo tinha um riozinho. Hoje em dia acho que aqui, eu não sei. Aí você quebrava uns sacos de estopa, ia lá em cima desse barranco. Você ficava ali e descia aquilo com tudo e caia com saco e tudo. Isso aí era uma brincadeira que, nossa, mexia com a alma da gente. Essas coisas eu me lembro. Uma outra que o meu pai não gostava muito, mas era muito divertida, era você ficar mirando faca e jogar nas árvores. Isso era legal para caramba. Essas brincadeiras assim e correr, não, não, não corria. Era brincadeira. É basicamente isso daí.

 

P1- Tem alguma história engraçada?

 

R- Dessa época aí?

 

P1- É.

 

R- Está. Dessa época tem histórias. Há, teve uma não muito engraçada, mas eu tinha o hábito de ficar entre o meu pai e o meu irmão, entre as pessoas que apanhavam algodão. Eles pegavam o saco de estopa, ia apanhando os algodões e iam pondo atrás os sacos. E eu ia à frente abrindo caminho - assim entre aspas, porque era brincadeira - eu ia e aí eu me jogava em cima dos sacos, dos pés de algodão. E numa dessas eu me joguei e eu caí em cima de uma caixa de abelhas. Mas fui totalmente picado. Todo mundo inchado. Todo mundo correu lá, aquela gritaria e aquelas coisas. Isso daí era uma brincadeira minha, mas era isso, isso daí. Há uma outra brincadeira, a gente se esconder entre as árvores que era o balança caixão. Não sei como que era hoje em dia aqui. Você pegava um... Se escondia atrás das árvores e ninguém achava você, e de repente você estava ali atrás de uma árvore ou ficar subindo em árvores. Como eu não gosto muito de altura, até hoje não, aí. Uma outra coisa legal que também fazia muito, mas que não deu certo. Era pegar guarda-chuva e subir em lugares altos e tentar voar. Ixe! Isso daí me deu muitas pernas quebradas, braços, mas era muito divertido. A gente subia em umas árvores e pegava o guarda-chuva que pulava e o guarda-chuva abria, mas também fechava com o peso da gente. A gente se esborrachava no chão. Mas isso era tão sadio que a dor se transformava em prazer, era uma coisa prazerosa. Essa é um tipo de brincadeira muito legal. E brincar de Tarzan, você amarrava a corda e pulava de um barranco no outro, mas como a gente não [tinha] muita estrutura para aguentar, a gente normalmente caia no rio, pulava as coisas. Esse tipo de brincadeira é uma coisa que hoje em dia você vive privado disso, a gente sente um pouco assim.

 

P1- E quando você veio para São Paulo Osmar, você veio com dez anos, né?

 

R- É, com dez anos.

 

P1- E que brincadeiras você se lembra daqui? Que você teve aqui em São Paulo?

 

R- É isso que estou te falando, né? Eu não tive mais o prazer de brincar como lá. É assim, apesar de que tinha o espaço físico, tinha os barrancos, mas aqui já tinha triste realidade de que o meu tio, os meus pais ou o meu pai, ou alguém que falou: “ó, você não pode ir brincar ali em cima, porque ali mora um cara muito perigoso”. E tinha mesmo em Francisco Morato um bandido lá. Mas assim, muito perigoso, mas só que as pessoas não entendiam que o cara é perigoso é para quem mexe com ele, porque é nele. Um bandido não vai mexer com uma criança que esteja brincando ou alguma coisa. Isso daí, hoje em dia eu trago isso também como um modo de vida. Então você via lá perto de casa, lá em Francisco Morato, os barrancos, e a turma falava: “não vai ali, porque ali tem bandido”, então essas coisas começaram amargurar a nossa mente, as nossas coisas. E uma delas talvez que eu pude manter ainda foi amarrar um cachorro, correr com ele, só que o cachorro era sempre mais rápido e sempre me derrubava. Eu brincava um pouco disso, isso matava um pouco a saudade daquela época. Mas é uma coisa que sabe, as brincadeiras foram trocadas não mais pela parte física, mas pela parte imaginária. Nessa época é que eu comecei a ser um cara meio divertido, de brincar muito com as palavras, apesar de que eu comecei a escrever só em 94. Mas esse negócio de brincar, de pegar saquinho de batata, estourar, passar mercúrio no rosto, me jogar em cima das mesas. Tudo isso daí são brincadeiras sadias, coisas legais. E as pessoas não entendiam muito, e falavam: “esse cara é louco, né? Aí a gente teve que dar uma segurada. Às vezes tem coisas muito bacanas que a gente pode brincar, se entreter com as pessoas e as pessoas ficam totalmente comportadas, sabe? Isso daí quando eu vejo essas coisas eu fico bastante angustiado, por isso que o meu trabalho, hoje em dia, eu posso dizer que torna-se uma coisa divertida. E tanto é que teve gente que foi lá no Rei que é para ser atendida por mim. Aí eu falei assim: “mas é que hoje eu não posso. Eu estou com a garganta inflamada.” Ele falou: “Osmar, da outra vez você disse umas coisas legais, fala de novo?” Olhe só as pessoas me cobrando um comportamento para alegrá-las. Eu falei: “está bom, mas ó, isso que eu estou te falando você pode também fazer”, aí os caras falaram: “Poxa vida, não é igual”, eu falei: “não, cada um de nós somos assim, somos únicos e a gente pode cada um de nós brincar, falar coisas legais, se divertir”. Aí os caras falaram: “Pô cara, mas é diferente. Faz alguma coisa aí.” Eu falei: “Está bom.” Aí eu pego uma garrafa de cerveja, ponho na mesa e ao invés de abrir normalmente, eu bato assim, pá, estoura assim. Aí os cara fala: “aí”. Aí eu falo: “desculpe a violência, mas é que eu fui criado num meio muito hostil”. A gente usa alguns recursos assim, ou senão chega alguém, um sociólogo, aí eu falo: “e aí o que tomas? Thomas Edson, Thomas Malthus, Thomas Mórus, né?” O cara: “ó, o cara sabe, né? Ele é intelectual, né?” Eu falei: “não, todo intelectual deve morrer como um pensador e renascer como um revolucionário, né?” Essa daí não é minha. Essa é do Peter Weiss. Aí fala: “não é sua?” “Não, a minha é ‘todos nós temos um caminho de sorte, cria sorte d’além do amor, por ela ninguém escapa da morte, e nem existe vida sem dor’”. Os caras: “olha, ele é poeta”, eu falei: “isto”. Aí eu abro outra e falo: “desculpe a violência, é que eu ando muito tela quente”. Então você pode brincar com isso, mas de maneira agradável, de maneira educativa. Eu faço muito isso, sempre pego alguma cena de que a gente gosta, ou quando é uma crítica, aí eu... Porque por exemplo quando é uma crítica o cara fala assim: “Osmar, você não fez a barba”, eu falei: “Mas o nosso presidente usa barba, então como eu sou brasileiro”. É isso que eu... A gente se sai assim, a gente aprende a lidar com as críticas também, com os elogios. Isso é um diferencial muito legal. E as pessoas não entendem isso, né? Isso para mim está tornando um prazer viver essas experiências. Mesmo agora aos 42, né? E a turma fala: “e os cabelos brancos e a imagem de 42?” Eu falei: “a imagem. A primeira impressão não é a que fica, né? Eu escolhi ser assim e assim vai ser”.

 

P1- Osmar, deixa eu ver. Você está com, você quer mais água?

 

R- Não está ótimo. That’s not. É que agora eu estou estudando inglês, né?  

 

P1- Osmar, só para encerrar esse capítulo aí da infância. Você falou que se reunia em rodas as noites ali ao pé da fogueira, tal.

 

R- Isso, está.

 

P1- Vocês tinham algumas cantigas, além das músicas que você ouvia em rádio. Tinha alguma cantiga que vocês cantavam? Como uma cantiga de roda?

 

R- Então, na verdade, eu não trago isso registrado, mas o que meu pai e as pessoas falavam muito era de superstições, né? Então eles falavam assim que... Não, a gente não cantava muito não, era uma coisa meio mágica até. Era o sol, a luz da lua, todo mundo ali. A gente falava mais histórias de vidas, de relações com a própria natureza. Tipo assim, que não se deve dormir sem camiseta porque o anjo da guarda não protege a gente, não pode passar depois da meia-noite numas curvas, porque lá teria o lobisomem. Eram mais estratégias que os nossos pais, os mais antigos propunham essas idéias, mas no sentido de preservar os valores de que você não saia muito à noite, de que você não durma sem camisa, porque na verdade você pega um resfriado. Claro que o anjo da guarda depende da alma, não do físico, tal. Então jogavam muito esses valores meio religiosos que é para deixar você com uma mente mais... Agora sobre músicas eu não tenho uma noção muito exata, mas uma delas que até eu coloquei no livro era uma tipo assim: “automóvel como é bom. Automóvel como é bom. Vira na esquina e faz fon fon.” Sabe umas coisinhas assim. Mas isso daí já é mais a nível de escola, mas não daquela época das cantigas. Eu me lembro que acho que uma vez por semana, acho que aos sábados de manhã, ou a minha irmã mais velha e a minha mãe, ou alguém assim iam com umas bacias cheias de roupa, lavar perto de um rio lá. Num rio. E eles cantavam alguma coisa, mas eu não tenho registro. Porque eu naquela época realmente eu curtia a vida. Não tinha esse negócio de ficar imaginando. Enquanto eles estavam ali lavando, eu jogava barro, eles tinham que lavar de novo. É, tinha, tinha. Eles diziam que se você matasse gato teria sete  anos de azar. Ah, então eu falei: “então deixa eu matar meus azares, né?” Aí eu pegava gatinhos que apareciam lá, eu jogava no rio e começava a bater neles com bambu, e falava: “ah, está bom. Então já mata e ai já tinha os azares”, umas brincadeiras assim, mas as músicas mesmo eu não trago, eu não tenho registro disso.

 

P1- Osmar, você falou que começou trabalhar cedo aqui em São Paulo?

 

R- Isso é.

 

P1- Com quantos anos?

 

R- Ótimo. Na verdade quando o meu tio deixou a gente lá em Francisco Morato os sete irmãos, o meu pai e a situação bastante precária. Eu não queria ficar apenas um menininho de escola e casa e ficar sem fazer nada, eu queria ter um trabalho. Eu acho que eu tinha uns onze anos, mais ou menos, eu vinha com o meu tio aqui na Miguel Isasa, ao lado de um restaurante que chamava Líder das Batidas, tinha umas pessoas que ensacavam esses bonequinhos de palha, então eu vinha ajudá-los, isso eu ainda tinha doze para treze anos. Depois tinha lá em Francisco Morato uma pessoa que fabricava vassouras, a gente ia cortar os capins e aí a gente ganhava por dia. Um amigo meu que também era pequenininho disse que eu poderia ser feirante, então uma vez até eu vim aqui na Barra Funda ser carregador de carrinho, sabe com as senhoras. Eu falava: “senhora, posso ajudá-la?” Ela: “está, está bom.” Ai ela dava um real ou dois. Essas coisinhas e eu comecei a ter um ensaio como engraxate, e eu não tinha jeito para isso, as pessoas me pagavam mais por me ver trabalhando, com essa disposição de querer fazer alguma coisa. Então eu começava a limpar, o cara falava: “está ótimo, quanto é?” “Um real” “dois está bom. Come um lanche aí”. Desde moleque eu tenho uma disposição meio voluntária de trabalhar, e claro que isso tornou meio perigoso no Rei, porque eu não tive mais limite de trabalhar e isso daí teve alguns males, como uma pequena surdez, labirintite, um pouco de pressão por não ter um tempo regular de trabalho, então foi assim, no começo foi uma coisa muito divertida lá, eu brincava demais, era bastante sadio e aí como eles viram em mim a minha vontade de querer trabalhar muito, eu acabei cometendo alguns deslizes, acabei cometendo ou obrigado a cometer alguns. O cara fala: “Pô, você está brincando muito. Você precisa trabalhar mais”. O Karl Marx, hoje em dia, acho que ele não iria gostar disso. Mas acabou virando uma coisa meio difícil de ter que trabalhar tantas horas, e aí inclusive várias vezes eu tinha proposto aos meus patrões ou a alguém, trabalhar pelo menos oito horas, pedia e eu daria garantias de um serviço legal, mas o dinheiro prevaleceu muito as cabeças. Isso também foi uma coisa que me decepcionou muito durante a vida.

 

P1- Você trabalhava quantas horas, Osmar?

 

R- Eram, ah... Eu chegava a trabalhar, tipo assim duas semanas sem folga. Eu sentia um prazer, mas não era um prazer de estar trabalhando, por achar divertido ter ali o que comer, o que beber quando quisesse. Ganhava as caixinhas. Era tudo divertido, e assim a minha mente não tinha regras. Falava: “tem que trabalhar, vamos trabalhar, trabalhar”. Hoje em dia, claro que as coisas estão se modificando, e preciso ter um preparo maior ainda para você ter a possibilidade de trabalhar, vender o livro, de brincar de conversar, atender aos interesses dos patrões? Que é necessário. É com as invejas que isso traz no ambiente. A turma fala: “cara, esse cara ganha, esse cara deve ser milionário porque está sempre dando risada, está sempre brincando, está sempre com um astral elevado”. E no fundo, no fundo isso daí é um preparo bastante grande até. Em casa... Porque a gente tem que equilibrar bem as coisas para ter energia suficiente que é para o outro dia, e as pessoas, os clientes, todo mundo começou a gostar dessa idéia. Falou: “toma Osmar, mais trabalho, mais isso, mais aquilo”, e mais valia, então nada. Mas assim na...

 

P1- Isso foi muito no começo Osmar? Ou até quando foi isso?

 

R- Isso daí foi basicamente até os anos noventa, porquê dos anos noventa para cá, quando eu terminei o curso de pedagogia, eu tive uns insights de ir embora do país, de viver um outro mundo, umas coisas diferentes, e aí eu fui até o Chile. Só que fui inconscientemente com a vontade de fazer uma aventura e desaparecer do Chile para lá. Eu tive essa intenção, mas pessoas... O dia que eu saí de casa, minha mãe me disse: “meu filho, cuidado, não vai lá”. Então eu fui, mas eu tinha a ideia de lá pegar outros rumos e dar uma virada na vida, mas não. As raízes, o meu trabalho, às minhas considerações pelo trabalho, as pessoas me fizeram mudar de forma bastante radical. E quando, em noventa, eu voltei do Chile, eu voltei brasileiro, tipo aquele livro do Lima Barreto, lá o Oh (Neves?) [Triste Fim do Policarpo Quaresma], você lembra o livro do Lima Barreto? Bom, é um livro que tem uma história de um cara que era brasileiro, radical, tal.. só que claro, junto com essa vontade de ser brasileiro eu encontrei a doutrina espírita que deu uma aliviada nessas tensões emocionais da gente? E aí eu faço assim de noventa para cá eu trabalho como profissional. Eu chego, e para mim cada pessoa independente de classe, de criança, adulto é o mesmo respeito, o mesmo carinho. Eu não trabalho mais pensando em ganhar uma gorjeta, porque quando você menos espera uma pessoa simples te dá dez reais de gorjeta, e às vezes tem cara rico que poderia e não, paga só a conta e fala: “está. Obrigado. É tua obrigação me servir bem”. Falo: “Está ótimo.” Então essa parte foi resolvida. O meu trabalho hoje em dia tem um fundo de psicologia, um fundo de sociologia nisso daí. Eu vou, eu faço uma coisa, eu represento um modo de cultura, própria mesmo de um brasileiro, claro com as falhas, mas a gente tem a chance de mudar disso a cada, inclusive tem uma quadrinha minha que fala assim: “nos vai e vens costumeiros, na atitude impensada, está o princípio de tudo ou a sorte abandonada”. Então a gente tem aquele senso de equilíbrio, de moderação. A vida está trazendo bons retornos para a gente, está dando gosto para você ser um exemplo de você. E agora como eu vendi mais de 3.500 exemplares desse livro, eu me sinto, não deveria, mas sei lá, que as pessoas falam que... Compraram esse livro, aí tal o compromisso meu, mas não. Eu sinto que cada vez que alguém vai ler alguma coisa minha, da minha história, dos meus desafios, eu tenho um compromisso cada vez maior com as pessoas. E inclusive eu fui convidado já para ser político. Político! Eu falei: “não, não, não. Disso daí eu não abro mão, não”. Eu não quero entrar nessa área não. Esse tipo de cargos muito populares. Porque ali no meu ambiente eu posso ser um político nas pessoas, posso conduzir as coisas, mas não assumir isso como trabalho. Isso é uma coisa que foge dos princípios da gente. Eu por exemplo, não tenho pai, não tenho mãe, mas eu tenho a mãe natureza, os pais patrões que eles falam, né? Inclusive o meu patrão sempre fala: “é, o Osmar é como se fosse um filho nosso”. Eu falo: “é verdade, né?” Inclusive no final do mês a gente muda um pouco, aí eu sou o patrão e ele é o empregado. A gente brinca um pouco disso também. Mas isso já foi superado, né? E...

 

P1- Você se dá bem lá com eles?

 

R- Hoje em dia eu tive algumas dificuldades porque já não são os donos antigos. Agora são os filhos e o gerente, então tivemos umas desavenças, um certo modo diferente de trabalho, e isso está sendo superado de forma brilhante. Graças a Deus, mas mesmo assim a gente ainda toma um pouco de cuidado, porque às vezes a mente da gente viaja mais e meu patrão fala: “ó, aqui você é apenas um garçom, você não é isso tudo.” Então às vezes que a gente empolga com as idéias, com as coisas. A facilidade que a gente tem de compreender o ser humano, de saber lidar. Então, algumas pessoas tem isso com mais desenvoltura, outras com menos. Umas visam o lucro imediato, quer o dinheiro, o bom atendimento. E eu no caso me sinto realizado, assim não, eu não tenho dinheiro suficiente para ter uma vida muito confortável, mas esse papel que estou desenvolvendo, me traz muita segurança, muito prazer em fazer. Isso daí é uma coisa que faz a diferença.

 

P1- Osmar, você se lembra qual foi o seu primeiro dia de trabalho lá no Rei das Batidas?

 

R- Lembro. Na verdade o primeiro dia de trabalho não foi um trabalho, foi um convite. Foi numa segunda-feira, o meu tio estava de folga em Francisco Morato,  ele morava lá.

 

P1- E esse seu tio era o quê?

 

R- Hã?

 

P1- E seu tio trabalhava em quê?

 

R- Ele fazia batidas lá no Rei. Isso. E aí ele precisou de um vale, então ele mandou eu vir buscar, e quando eu cheguei no Rei, era mais ou menos umas dez e pouco e tinha umas pessoas ali, lá fora. Só que ainda não tinha garçom, não tinha nada. Aí o meu patrão falou assim: “ah, você veio buscar o vale do seu tio?” Eu falei: “vim”. Ele falou: “então antes de você ir embora, toma café aí, limpa aquelas mesas ali para mim e vai à feira e aí depois você pega o dinheiro e vai embora. E eu fiz isso e aí depois de uma hora ou duas eu fui embora. Uma outra vez, eu falei: “ah, eu quero ir lá no bar de novo” porque eu achei legal, ele me deu, acho que cinco reais a mais para mim. Eu falei: “está bom”. Fui lá de novo no Rei, aí o meu patrão falou assim: “ó, está ficando meio tarde, vai dormir lá em casa”. Eu falei: “ah, está bom.” Mas aí eu falei: “ah, eu preciso avisar o tio, né?” Ele falou: “não, não. Pode dormir lá em casa que não tem problema” porque tem as duas filhas dele e o filho, o Carlos. Aí eu fui, tal hora da noite está todo mundo lá, as filhas dele, o filho, aí e o avô falou: “E esse daí quem que é? Ah é o sobrinho do Salomão” a gente chama ele de Salomão, mas ele chama Abdias, tem haver com Salomão, Abdias tudo nomes proféticos. Aí ele pegou e falou: “ah, eu gostei”. Aí eu fui embora. Aí era novembro de 73, eu falei: “ah, eu quero trabalhar naquele bar lá” ele falou: “não, você não pode, você é muito pequeno.” Falei: “não. Eu quero”. Aí eu fui lá e eu falei com o Seu Manoel, ele falou: “mas aqui não tem coisa para você fazer. Olha, está vendo? É tudo... Você é muito pequeno”, ele falou assim: “está bom, então vem aí. Vai à escola de manhã e à tarde vem e fica algumas horas, você limpa banheiro, limpa o chão, as coisas”. E aí isso daí ficou assim durante uns dois meses, no comecinho de 74. Aí ele falou: “está bom. Então já que você quer ficar mesmo aqui, então toma”. Aí me deu um avental e falou: “só que você não pode ficar aqui no balcão, você vai ter que ficar lá fora”. Aí eu falei: “mas eu não gosto desse tumulto, dessas pessoas”. Ele falou: “ah não”. Aí eu ia lá fora e começava a encher, eu corria para dentro, e tinha um outro garçom lá, mas eu não acostumava. Aí foi, foi e foi, até que um dia ele falou: “ó Osmar, aqui dentro não precisa de você. Você tem que ficar lá fora”. E eu odiava aquilo lá. E as pessoas: “ô molequinho, vem cá. Ô gordinho, vem cá.” Aí não teve jeito. Assim no comecinho de 74 já era para valer mesmo. Aí já ganhava uns troquinhos. E as pessoas... Todo dia era livro, bicicleta, bola, relógio, carrinho, todo dia, assim durante uns dois anos, ganhei presentes de coisas. Nossa senhora! Aí foi indo, foi indo e...

 

P1- Você tinha um apelido nessa época ali?

 

R- Ah tinha, era... (pausa)

 

P1- Só retomando Osmar. Você pode falar um pouco desses convites aí...

 

R- Certo.

 

P1- Que surgiram nessa época?

 

R- Então em 74 eu comecei oficialmente a trabalhar já com um aventalzinho diário, todos os dias,  every (blas?) today. Quase todos os dias, porque agora eu estou estudando inglês, lembra? Aí nessa época eu estava na quarta série. Aí começou a fazer as diferenças na escola. A turma falou: “Mas que fato, que curioso, o Osmar é um cara que estuda, trabalha e o único aluno que todos os dias traz as lições feitas. Vamos descobrir.” Aí pá. Aí  era assim, eu chegava lá no Rei, eu falava assim: “a professora me pediu dez nomes de árvores da região do Amazonas”. No mínimo eu levava cinquenta nomes. As professoras me pediam para fazer exercícios de matemática, eu reservava todos resolvidos. É assim, então em 74 e 75 eu era o melhor aluno da classe, porque assim, as professoras propunham... De Geografia, qualquer pergunta. Eu copiava, trazia a resposta. História, não tinha Física, era Ciências, Português, Matemática, qualquer área de estudo, qualquer disciplina eu sempre levava todas as lições e com exemplos. Nossa senhora! Ah, antes disso, você me fez uma pergunta, né? Se eu tinha alguns apelidos. Então eu tinha o Sirene, porque eu tinha uma facilidade muito grande de imitar sirene.

 

P1- Você não consegue hoje?

 

R- Não, não. Não dá, olha, não dá. Não, não dá.

 

P1- Vê se dá.

 

R- Não.

 

P1- Se conseguir.

 

R- Eu estou rouco e tal, mas não, não sei. Não.

 

P1- Vai Osmar, se conseguir (é festa?).

 

R- Eu vou tentar depois. Hoje não dá, quer dizer, agora o ambiente é diferente. Mas eu vou tentar, depois eu falo. Eu imitava sirene tão bem que muitas vezes... Não sei se, bom acho que você. Aqui em 74 a gente ainda vivia sob aquele regime ditatorial. E aí é a época dos saquinhos. Eu pegava os saquinhos de batata e batia assim, estourava, passava mercúrio, caía sobre as mesas e depois disso eu vinha imitando sirene. Mas era um teatrinho. Era muito legal. Aí as pessoas tomavam susto mesmo, falavam: “caramba, ele é polícia” Só isso. Então eu tinha, um dos apelidos era Sirene. O outro era Borrachinha, o Borrachinha era porque eu era bem gordinho e as pessoas me pegavam assim: “olha, olha, olha.” Então era Borrachinha. É, tem um outro que é Pistolinha, mas eu não pus no livro não. Eu só coloquei Borrachinha e Sirene. Isso daí vingou vários anos. Hoje em dia a turma ainda fala: “aí Osmar, ainda imita sirene?” Ai falo: “ah, not at, ainda não. Não mais, ainda não”. É assim, e tinham esses dois apelidos que eram básicos, Sirene, Borrachinha, Padre. Tinha uns caras que me chamavam de Padre, porque eu tinha um discurso, parecia meio de igreja, parecia meio assim. Quando eu estava conversando com as pessoas saiam umas palavras de ordem tipo, é assim que eu recebia intuições para dar conselhos matrimoniais ou algumas assim. Tinha uns que: “ô Padre, está bom?” Eu dizia: “aí meu Deus, que Padre” Está, Padre. Os marxistas também, porque nessa época tinha um movimento na USP que chamava Libelu. Aí qualquer coisinha lá, os cara: “ah, me atende logo senão te bato”. Eu falava: “ah, então está bom. Então me bate, me chuta, me chama de liberdade e luta. Me bate, me insista, me chame de Os marxista”. Eu brincava um pouco com essas coisas, esses apelidos eram aí basicamente. E nessa época os convites, que você me perguntou. Eu fui convidado para trabalhar em teatro, em cinema, fui convidado para ser animador oficial, fui convidado para ser corredor,  para ser ciclista, para trabalhar, para ir para outro país, Espanha, Estados Unidos. Vários convites, né? Para ir para o Paraná. Mas não para lá, para onde eu morava, para a capital. A turma falou: “cara você tem um jeito de que você vai ser alguma coisa, a turma falava. Naquela época eu gostava muito de ser elogiado, ser bem visto. E eu trabalhava muito também. Eu dava duro e todo mundo gostava. Eu falei: “não. Está ótimo aqui.” Então tanto é que entre essas coisas aí, a que eu fui um pouco mais longe, foi no remo. No remo. Eu cheguei a ser convidado pela Federação Paulista de Remo a representar o estado de São Paulo contra outros estados. Mas nessa época já fez a diferença porque eu tinha que treinar três horas de manhã e três horas a tarde. E aí o Rei já não permitia. Então houve os cortes. O cinema também, fiz aquele filme, depois eu fui convidado para fazer outras pontinhas. Também eu não tive tempo, eles cortaram. Eu cheguei a fazer um documentário para a USP, chamava “Osmar encena Osmar”. E aí isso teve, e isso daí tirou vários dias e a turma do Rei já ficou assim meio: “Caramba você não tem, tem que trabalhar direto. Você não pode ficar indo, né?” Então eu fui desistindo desses projetos que eu estava dando prioridade ao meu trabalho como garçom. E...

 

P1- Como é que foi essa participação sua no Noites Cariocas, assim?

 

R- É  não, é Noites Paraguaias.

 

P1- Ah, Noites Paraguaias, então ______.

 

R- Isso. É assim o, hã, está.

 

P1- Como é que surgiu o convite? E você...

 

R- Certo. O Aloysio Raulino, hoje em dia ele voltou. Ele é cineasta formado pela USP. A saber, era um dos clientes do Rei das Batidas. Então foi direto. A moça da Olivetti também. Ah, o curso de francês também que era em frente ao Rei. Os professores, os alunos, o diretor da escola ia lá no Rei, falou: “se você quiser a gente te arruma uma vaga”. Então assim, no filme basicamente eu trabalho com Aurora Duarte e o Sérgio Mamberti, e o meu papel, exatamente esse de sacanear os nossos hóspedes da pensão. Então eu chegava na porta, quando estavam dormindo e eu: “acorda seus paraguaios. A la luta, né?” Aí o cara começava me bater, né: “ô seu moleque atrevido”. Ai eu falava: “me bate, me chuta, me chama de liberdade e luta” ou senão assim, tipo é: “el marechal es cigarrilha. A la luta. Arriba, avante la guerra está vencida.”  Sabe, eu falava umas coisas e umas graças, porque um dos personagens, o cara mesmo, ele era, não, ele é paraguaio, então a gente brincava um pouco nisso no filme.

 

P1- E qual era o seu nome?

 

R- Ah não, não. Era Osmar mesmo.

 

P1- Osmar, né?

 

R- Osmar, Osmar. Inclusive eu achei legal porque aparece nos créditos é Osmar Afrísio mesmo, o nome. Nossa que honra isso. Então esses convites assim, tiveram muitos outros. Só que eles deixaram de ser, frequentes, porque eu comecei a separar, eu falava: “olha, não dá. Eu não vou embora daqui, tal.” E nessa época eu comecei a ter uns amigos que iam lá no Rei, uns psicólogos e que eles me davam conselhos de como seguir na vida. Então eu tinha aulas em off de psicólogos, de médicos, fonoaudiólogos. Os caras ficavam dando dicas, falavam: “ó, faz isso para você melhorar a tua voz. Fala mais devagar, com pausa. Respira, controla sua respiração”. Os caras davam toques ao invés de você ficar agitado para fazer as coisas. Atende um de cada vez. Então todo mundo, toda hora ficavam dando dicas das coisas. E aí falava: “ah, está. É assim.” Eu fui pegando um pouco de cada. Nessa época, em 74, eu estava desistindo da escola. Os cara: “que nada, você vai estudar, a gente ajuda você”. E realmente fui, fiz esse curso, do ginásio, mais três anos de cursinho. Inclusive tive aula com o José Genoíno, do PT, dava aula lá do Araguaia. Eu tive aula com ele aqui no Equipe, na rua Capri. Ele, o Sebastião Vitor, tinha uns caras da época.

 

P1- Você estudou no Equipe?

 

R- Estudei no Equipe, no cursinho em 82. Eu tive aula com o Plínio Marcos. Ele ia lá fala sobre Navalha na Carne, sobre dois sujos lá, numa noite ___ lá. Essas peças dele. E o meu patrão também, eles começaram a ver que estavam começando a me perder, porque é: “Pô, caramba. Alguém vai levar esse cara embora daqui”. E eu trabalhando, trabalhando, estudando, remando, tal. Então eu optei em ficar lá no Rei. Bom, aí depois veio a época da crise. Conforme eu fui me adiantando nos estudos, eu tive intenções reais de ir embora do Rei, mas é que eu não tinha a compreensão da minha tarefa que é social ali, eu não tinha. E aí quando eu vi isso daí, eu falei: “meu Deus! Eu é que agradeço a Deus por ter me mantido nesse lugar”. E hoje eu saber que eu sou uma simples pessoa, uma espécie de observador local, uma certa pessoa para fazer, para ser um apresentador de culturas, de pessoas, fazer umas relações. E aí a vida decolou.

 

P1- Osmar, falar um pouquinho do Rei. Que batidas ali são sucesso?

 

R- Ah, fácil. Bom, lá existem 28 tipos diferentes de batidas. A melhor batida de todos os tempos é morango com vinho. Essa daí, para cada dez de morango com vinho sai uma das outras. Assim morango, pêssego, abacaxi, limão, caju, carambola, framboesa, tamarindo, carambola, figo, quincan, nêspera, agora tem também kiwi, assim de frutas. Sendo que a melhor delas é morango, vinho.

 

P1- Assim batido?

 

R- Isso é. E batido. Aí tem a pêssego com champanhe. A pêssego, champanhe. Abacaxi, vinho. Coco, vodka ou maracujá, pinga. De frutas são as melhores. E daquelas batidas especiais Escada de Macaco, Meia de Seda, Amendoim, Suor de Virgem, Mata Sete, Tropica Mas Não Cai, Banho de Lua. A melhor é Escada de Macaco. É feita com ovinho de codorna, licor de cacau. E acabou a água. É Ovinho de codorna, fogo paulista, licor de cacau e soda. Essa daí, das batidas especiais é a que mais sai. Antes era a Amendoim, mas hoje em dia essa daí, claro que ela não sai quanto as de frutas, mas quem quer chegar e tomar uma coisa meio diferente, Escada de Macaco, isso daí. É, de porções é a calabresa no álcool e bolinho de bacalhau. Isso daí é típico da casa e o queijo à milanesa. Hoje também tem feijoada de sábado, tem sábado e quarta, mas de sábado é muito melhor. E todos os dias agora estamos servindo almocinho. É um prato com arroz, feijão, batata, salada e você escolhe alguma mistura, contra-filé, filé de frango ou calabresa. Só que hoje em dia, pelo preço, as pessoas não tomam mais batida como antes. Houve uma igualdade de cerveja. É assim de cerveja e antigamente as pessoas tomavam uma batida, duas ou três. Hoje em dia toma uma e toma duas cervejas. O maior recorde de cervejas foi agora batido nesse, eu falo até no outro livro, aí eu faço só uma referência. Foram 79 engradados para... E treze unidades. Aí dá 1408 garrafas de cerveja abertas só num dia.

 

P1- Mas em que ocasião foi isso?

 

R- No primeiro dia de aula da USP, da FEA. A FEA é uma escola que começou em 94 a bater recordes. Eles começaram com dezessete e aí através desse livro eles vêm e cada ano eles batem novo recorde. Então, e ah! Teve até um rapaz que fez uma estimativa de quantas tampinhas de garrafas eu teria aberto durante esses anos. Levando em consideração as horas de trabalho e os dias deu uma média de 1.750.000 tampinhas.

 

P1- Nesses trinta anos de?

 

R- Isso, é uma média de 1.750.000 tampinhas. E de noventa para cá eu comecei a juntar bonezinhos. E eu juntava, jogava fora, mas a turma via eu usando e começou me dar. Aí eu parei agora nos 340, bonezinhos. A turma chega lá, vê eu usando: “Tó, tó Osmar.” Livros também, teve uma época em que as pessoas me traziam sacos de livros, sacos, sacos, saco de coco. Eu tenho em casa aproximadamente 1.200 exemplares de livros. Quer dizer que apesar de eu ler pouco hoje em dia. Mas antes eu tinha um hábito bastante bom de ler um livro por mês. E cinema quase todas as terças, que é o meu dia de folga. E aí as pessoas começaram a me dar esses materiais de estudos, cursos de inglês, de francês, espanhol, esperanto. A turma pegava quatro livros: “Tó Osmar, tó. Eu sei que você vai usar”. Roupas, camisetas, sapato essas coisas eu quase não compro, as pessoas dão. É que eu não uso relógio, mas relógios, anéis, essas coisas, ingressos para peças de teatro, essas coisas até chove, quer dizer, hoje em dia, com menos freqüência, porque o tempo tem sido muito reduzido, mas vira e mexe eu recebo uma proposta de...

 

P1- Osmar, você chegou a inventar alguma batida ali? Você faz a batida também ou você...?

 

R- Então, você lembra que no... É que você fez uma pergunta aí antes. Quando eu comecei a trabalhar, no primeiro dia, eu estava com uma tendência a ser o barman, dentro do balcão. Mas eles não deixaram porque eles viram que o meu papel mesmo era o público. Era chamar o público, então algumas vezes eu tive oportunidade de fazer algumas batidas, mas tem gente específica para isso lá. Eles não deixaram eu me desenvolver. Inclusive esse papel de fazer as batidas, era feita pelo meu tio. Então ele me trouxe para trabalhar e eu não podia tirar o papel dele. E na verdade assim, é claro se por acaso você me pedir para fazer uma batida daquelas, eu faço, mas não tem... Eu faria normalmente. Mas não, agora drinks mais sofisticados, essas coisas, o próprio Rei das Batidas não trabalha com isso. Essas bebidas mais elaboradas tipo Capeta, essas coisas, não. A turma pede mas, lima, lima, eles não têm lima. Várias coisas que as pessoas pedem não tem lá no Rei. Nós trabalhamos basicamente com o basicão mesmo, cerveja, pingas, que são lá de São Francisco, 51, Velho Barreiro, batidas e as coisas  simples Meia de Seda, Espanhola, as coisas simples.

 

P1- Tem um, como é que chamam os nomes dos antigos donos? Fala para gente...

 

R- Então, são dois irmãos. Um chama Manoel Abrantes e o outro chama Abílio Abrantes.  Hoje em dia quem toma conta é um filho do seu Manoel, chama Carlos Alberto Pires Abrantes, um filho do seu Abílio, chama José Luís Abrantes e um gerente que chama Carlos Eduardo Lemos, é genro do seu Manoel. Esses três tomam conta lá.

 

P1- Entendi. Tem um slogan, o Rei das Batidas?  

 

R- Como?

 

P1- Um slogan assim, tipo Rei das Batidas, ou sei lá.

 

R- Está. Já me fizeram essa pergunta e inclusive o Carlos Eduardo, o repórter perguntou para ele, por que Rei das Batidas? E ele não soube responder, mas mesmo no livro eu falo assim: “Nosso lema é antigo, veio lá.” Não. Isso é um versinho. Eu falo assim: “A fama eu não sei como e nem de onde apareceu, puseram o nome de Rei e como Rei permaneceu”. Porque o meu patrão, um dia eu fiz para ele essa pergunta e ele divergiu. Eu senti que não teve uma resposta específica. A mais plausível foi quando ele nas entrelinhas disse assim: “é que na época não tinha o nome Rei das Batidas. Tinha Mestre das Batidas, Líder das Batidas, não tinha um rei, então eles colocaram o nome de Rei. E esses nomes dessas batidas, Escada de Macaco, Meia de Seda, Amendoim, Xixi de Anjo, Suor de Virgem, é provavelmente tenha sido nomes trazidos de uma placa vista em um dos bares da Bahia.

 

P1- Entendi.

 

R- Hum.

 

P1- E Osmar, fechar esse assunto do bar. Só para a gente cair no livro ali. Quem que você já atendeu ali de figuras ilustres, que você gostaria de destacar?

 

R- Isso. Então, quando eu comecei, eu sei que a gente poderia até ser assim, o Fernando Henrique, o Delfim, mas não, eu não sei porque eu não conhecia a figura deles. Alguns anos depois, quando eu comecei a saber quem era quem, aí sim eu sei com certeza. Então aí tem uma lista dessas pessoas, tem o Paulo Maluf, o Slash do Gun’s and Roses, Raul Seixas, o Paulo Ricardo, Luís Schiavon, o Carlos Sara, Eva Vilma, o Mussum dos Trapalhões, a Moacir Franco, Antônio Carlos e Jocafi, o Muller, o Careca, Oscar, o Silas, o Catê, o Mário Sérgio Pontes de Paiva, o César Maluco, o Romeu Cambalhota, o Casagrande, um dos vice-reitores da USP, é o, é...

 

P1-________

 

R- É Valdir Muniz Olivar, pronto, isso. Só que ele é bem mais antigo, né?

 

P1- Hum hum.

 

R- E a Marta, o Genoíno, o Luis, o Luis Eduardo Greenhalgh, o Vicente Cândido. Esses políticos assim.

 

P1- O Lula já foi lá?

 

R- Não, não foi lá, mas é eu vi o Lula em Pinheiros. Eu conversei com ele, mas não no Rei, fora do Rei. Aquele Pitta, sabe o Pitta? O Pitta, o Antenor Braido que era assessor de comunicação do Pitta, o Plínio Asmam, era o secretário de negócios, a Laura Regina Maria (Peti?) lá da Cetesb, é bom. A Marta, o Oscar do basquete e esse outro Oscar que eu tinha dito era o Oscar Bernades, o jogador, o Cafu. Esses caras que eu falei: “oi, tudo bem?” O Nasi que é do Lira, esse passa aqui.

 

P1- Ira.

 

R- Do Ira, Ira. Isso, esse.

 

P1- E o que o Mussum bebeu lá? Você lembra?

 

R- É, Solar, batida de maracujá e cerveja. Mas isso foi bem nos anos de ouro ainda, nos anos setenta. Estava ele e uma loira. Ele tomou...

 

P1- Ele estava nos Trapalhões ou no Originais do Samba?

 

R- Não. Trapalhões, Trapalhões. O Originais do Samba acho que veio pouco tempo depois. Eu não tenho esse dado assim.

 

P1- Está. E como é que surgiu o livro?

 

R- Isso. Ótimo. Esse tipo de pergunta que você está me fazendo, só que isso era uma constante lá no Rei das Batidas. todo mundo, toda hora: “Osmar, quem já veio aqui no Rei das Batidas? O que ele tomou? É, quem é a escola que mais bebe? Osmar, quantos anos você trabalha aqui? Osmar, onde você estuda? Osmar, onde você mora? Osmar, com quantos anos você começou?” Quando eu comecei a passar de dez anos lá no Rei essas perguntas começaram a ficar assim muito...

 

P1- Frequentes?

 

R- Muito frequentes e chegava a atrapalhar um pouco o meu trabalho, aí o meu patrão falou: “Osmar, let’s go to work”, que dizer, vamos trabalhar. Aí os meus colegas estavam trabalhando de repente eu parava lá, começava conversar com um, com outro. Os cara falaram: “esse cara só conversa, Osmar olha o serviço”. É né, tudo bem! E aí mais ou menos nessa época as pessoas começaram a me dar, não assim... Fazer: “Osmar, porque você não escreve estas histórias e começa a contar essas histórias?” E aí eu... Nessa época eu não tinha noção de escrever, mas eu não sei as experiências, elas estão guardadas aqui, mas assim, eu não tinha esse dom de escrever, como graças a Deus, eu tenho hoje. E aí essas coisas foram indo, indo, indo assim e cada vez com mais frequência. Até que em 1994, depois de eu ter entrado na doutrina espírita, em uma noite eu recebi um aviso, um sei lá, recebi uma intuição de que eu deveria escrever um livro. Mas ai eu falei com todo mundo, eu falei: “mas pessoal, eu não sei escrever” aí e as pessoas me diziam: “antes de você escrever, vai lendo Machado de Assis, Ítalo Calvino, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector que é por aí que você vai. Lê e lê isso daí. Esses clássicos Romeu e Julieta, Emerson. Lê isso daí, que você vai ter necessidade”. Mas eu falava: “pessoal, eu não sei ler clássico, eu não sei ler essas coisas. Eu não sei escrever um livro, eu sei brincar de falar coisas”, falaram: “então, faz isso.” E eu não sabia por onde começar. E aí numa dessas intuições, dia oito de agosto de 94, nove e quinze da noite. Após o termino aqui da reunião. Aí eu parei e falei: “nossa! Já sei o que vou fazer. Eu vou começar escrever sobre o dia de hoje.” E aí nossa senhora! Aí começaram a vir idéias, idéias, e o formato das idéias, as intuições ou inspirações do que eu deveria escrever. E aí hoje em dia, por exemplo, o Ariano Suassuna recentemente estava dando um depoimento sobre a vida dele, na Rede Cultura. E aí em determinado momento ele disse uma frase, ele falou assim, é: “olha o barco que vem lá”, não sei alguma coisa assim. Aí eu, aí eu estava olhando e na hora me veio uma idéia. E aí, olha como ficou. Aí eu falo assim, aí eu pego o nome de uma pessoa, tipo assim, diz o nome de uma pessoa, você.

 

P1- Marcelo.

 

R- Não, não, não,não. É, mulher.

 

P1- Ah, de uma mulher? Ana.

 

R- Ana? Ana. Aí eu falei assim: “Ana, vem de cima linda mulher, apeia desse orgulho baio que te deseja. Aqui no chão é mais seguro. Junto do Ricardo que te ama sério, ainda te beija.” Sabe? Quer dizer então que essa facilidade, essas técnicas de criar coisas assim. Então isso daí agora é o que está escrito. Não tanto nesse livro, porque esse livro é um despejo de todas essas experiências de forma aleatória. O segundo já é um pouco mais pensado, um pouco mais refletido e com uma dica para o revisor de como ele deveria corrigir o livro, para não ser um livro maçante, ser um livro engraçado e ao mesmo tempo não ser repetitivo. Então aí é a proposta do livro dois.

 

P1- Entendi. Essas histórias do primeiro livro você ia anotando? É, você...

 

R- Então.

 

P1- Você juntou tudo de uma vez?

 

R- Não. A partir dessa noite de oito de agosto, todos os dias eu pegava papel, a caneta de manhã, à noite, no ônibus, ia eu me lembrando e ia escrevendo, escrevendo. Ao término de dois anos ficou pronto. E o outro livro em seis meses já estava feito.

 

P1- O outro livro qual? Esse segundo?

 

R- O segundo livro que ainda não foi publicado.

 

P1- Seis meses, você terminou quando?

 

R- Não. Então a...

 

P1- Você...  

 

R- Na sequência desse.

 

P1- Ah, na sequência desse já?

 

R- É porque vieram muitas coisas. Aconteceu uma coisa que eu não previa e que eu sequer conheço. As coisas tem um tempo para serem feitas, tem a técnica, tem o tempo, tem os caminhos, as condições para ser editado um livro. E eu acabei me perdendo um pouco, porque as idéias continuam vindo e eu comecei a ficar meio preocupado que algumas coisas que eu pusesse nesse livro dois, eu poderia estar repetindo no livro três. Então aí eu me perdi um pouco pelo atraso, mas não por falta de material, tanto é que se você me der um tema agora, um lápis, um papel, sei lá, dependendo do caso em meia hora sai ou um versinho, um texto.

 

P1- E que quadrinhas... Você falou em quadrinhas, em versinhos que tem nesse livro aí, nesse primeiro e segundo livros? Qual você pode falar para a gente?

 

R- Está. É a pergunta básica: onde você mora? É, where do you live? Não. Aí eu falava assim: “ó, eu morava na rua Lira, lá na vila Beatriz. Meu nome é Osmar, lá que eu vivia feliz. Mas agora o destino não quis. Eu fui morar no Caxingui.” Aí aconteceu a nova morada, que é: “Eu moro no Semiramis, na rua Jerusalém. Se você quiser ser feliz, venha morar você também. Na Granja Viana, ao lado da Raposo. Meu nome é Osmar, lá vivo tão gostoso. Um dia comprei o terreno tão moleque, não sabia. Lugar melhor não há que o município de Cotia.” Quer dizer então, ao invés de responder formalmente, a gente responde em versinhos. Esse foi o primeiro versinho, aí depois tem um outro lá. Tinha uma moça que chegou para mim: “ó, e o meu versinho?” Eu falei, “ó, o meu.” Tipo assim, isso aconteceu algum tempo atrás, falava: “ó Osmar, quero que você fale isso para mim com versinho. Não vale repetir.” Eu falei: “então você me dá um dia ou dois.” Aí ela deu. Aí ela chegou lá no Rei, eu falei assim para ela: “é, Diana, Diana.” Eu falei assim: “o meu coração se perdeu em algum tempo que eu não vi passar, é como se eu fosse um eterno noivo esperando alguém como você para casar.” Aí ela ficou assim, eu falei: “ó, e não venha com drama no fato, nem conversa de botequim. Responde agora no ato, é namoro ou amizade, ou você gosta de mim? Ó, você acabou comigo me deixando no vale da lua. Agora você vai me pagar um castigo, deixando eu beijar essa linda boca sua. E o beijo de garçom é aquele dado na boca em medo e emoção. Na porta do banheiro, bem longe do meu patrão”. Aí o meu patrão estava ouvindo isso, aí já ganhei a confiança dele e da menina, e assim já ajeitei tudo e aí por acaso nesse dia deu certo. Ela foi lá no banheiro, eu dei um beijo nela assim. A maioria desses versinhos, as pessoas pedem. Aí eu chego em casa e faço um rascunho, um formato. E aí dependendo da situação eu falo os versinhos. Claro que ninguém faz esse versinho na hora, mesmo aqueles caras do repente, eles tem um código, tem uma linha traçada, mas já aconteceu dias que, era um dia eu estava de folga, eu acordei, eu juro para você, em menos de meia hora eu me lembrei dos sonhos, no sonho era o... Não é o Carlos Eduardo Dolabella, é o outro lá, o branquinho, como que chama lá o que apresenta o show?

 

P1- Uma peça?

 

R- Não, não. O branquinho lá da Rede Globo. Tinha ele e tinha mais uma equipe de pessoas no sonho, me ensinando a escrever. Aí, quando eu levantei eu tinha o formato do versinho, que dizia mais ou menos assim: “Juliana, o meu coração.” Não, assim: “Nesse corpo sol que me abraça, nessa terna graça, luz e viva cor. Assim eu quero morrer queimado com seu amor”. Isso daí. Aí outros tipo assim: “que linda morena, que doce olhar, que linda boquinha para eu te beijar”. Agora isso ficou bem prático. Uma moça falou assim: “faz um versinho para mim agora.” Eu falei: “aqui?” Ela falou: “é, agora.” Eu falei: “Está bom. Cá entre copos, cerveja gelada, saudade atrasada, fulana de tal, me dá um beijo, não quero mais nada. Beleza, então são eles, então”. Mas o meu revisor detesta isso. Ele falou que o jeito mesmo é contar historinhas como essa da velhinha que tem aí.

 

P1- Que história é essa da velhinha?

 

R- É um. Ai, nossa eu caí! Uma história que é um... Bom é que esse livro ele não tem...

 

P1- Índice.

 

R- Índice. É assim meio… A história da velhinha, ele falou que é um tipo de coisa que eu deveria aprimorar, mas como as pessoas têm necessidade de coisas mais rápidas. Então eu criei essa maneira dos versinhos. Olha, esse daqui que é um deles.

 

P1- Esse do livro novo?

 

R- Esse daí provavelmente saia no livro novo. Aqui olha. Essa história é muito engraçada e é verídica.

 

P1- Você pode ler para... É curta? Só para gente entender.

 

R- Não, é rapidinho. E assim: “onde sai essa rua, estava eu bebendo poeira. Sentado à mesa, lendo o resumo da crise de direção histórica da humanidade que se reduz à crise de direção revolucionária do proletariado. Quando meu patrão falou: ‘Osmar, ponha esses pedintes para fora. Não tem garçom aqui não?’ Feita a minha operação tapa sol com a peneira. Chega uma velhinha e pergunta: ‘moço essa rua sai lá?’ Eu perguntei:’ lá onde minha senhora?’ E ela sem pestanejar respondeu indicando o final da rua: ‘lá na frente’. Eu falei que sim. Mas até hoje não sei onde ela pretendia ir. ‘Talvez ela devesse perguntar para Bárbara Responde’, falei. Então aqui olha é típica assim. Então olha quer dizer isso daqui olha, eu aprendi no cursinho. Esse negócio da crise de direção histórica da humanidade, isso é coisa real, eu aprendi. Então o meu patrão sempre fala: ‘Osmar, ponha esses pedintes para fora.’ Isso também é real. A velhinha é de verdade, ela perguntou assim, onde ficava o final da rua. Eu falei: “é lá na frente.” Ela falou: “obrigado moço.” Eu falei: “nada.” Lá aonde, né? Quer dizer, e aí tem a coluna da Bárbara, que é Bárbara Responde, o cara faz esse tipo de pergunta meio idiota, sabe? E aí, quer dizer então aqui prova que houve um certo estudo. O meu patrão age de um modo meio duro. E as pessoas falam coisas sem pensar. E aqui embaixo prova de que eu tenho alguma noção de leitura de jornal ou alguma coisa”. Isso.

 

P1- Legal Osmar. Osmar tem alguma dessa aqui, para a gente encerrar, que você gostaria de ler?

 

R- Qual?

 

P1- Alguma dessas aqui que pode sair no segundo livro, que você estava me dizendo.

 

R- Está bom. Bom, tem os comentários disso daqui, mas essa daqui é minha. E essa outra é do meu revisor. Essa daqui olha, cada um é cada um. Então olha: “brilhante definição do meu colega de trabalho, o G Paraíba. O G janelinha do livro um, porque ele não tinha dente. Então eu chamava ele de janelinha. Então ele está de ponte nova. Cada um faz a sua parte. Eu fazia a minha, que é servir. E para falar a verdade, observar também. Observar coisas, como aquele senhor de aproximadamente duas vezes a minha idade, talvez um pouco menos por aí. Sua atitude compenetrativa de ler aquele jornal me chamou a atenção. Logo pensei com meu abridor de garrafas. Realmente esse bar só frequenta intelectuais, que honra a minha só ser garçom daqui. Mas olha, eu me enganando aí, fui surpreendê-lo, uma vez que ele fechava o jornal, uma vez que alguém se aproximava. Quando vi aquelas cenas quase caí de costas. O danadinho estava folheando, cuidadosamente uma revista erótica. Se não me engano era Eva no paraíso, sem barba e sem bigode, tudo raspado, provavelmente a marca da gilete era boa. Diante da inusitada surpresa, uma resposta mais arriscada ainda. Osmar, ele falou: Osmar, o jornaleiro me mandou a revista por engano. Quer ficar com ela? Está bom, eu quero. Respondi. Garçom também serve para essas coisas.” Está. Quer dizer que...

 

P1- Entendi.

 

R- Então esse fato aconteceu mesmo. Tinha um cara lá no Rei que ele sempre ficava lendo as coisas, mas assim, falei: “caramba!” Aí um dia eu fui lá, pé ante pé e vi. Tinha então dentro dele uma revista. Aí eu fiz isso daí.

 

P1- Muito bom. Osmar, você entrou na faculdade quando? Em que ano?

 

R- Assim, após onze tentativas na Fuvest, e sem nenhum êxito. Eu resolvi então, em meados de 95, não, não, de 85, em meados de 95 desisti da Fuvest e prestar uma escola particular, um curso mais fácil. Aí então eu prestei letras e pedagogia nas Faculdades Integradas Hebraico-brasileira Renascença, no Bom Retiro. Só que como eu não tinha inglês e era uma exigência do curso, eu optei por fazer pedagogia. Então no final de 89 eu...

 

P1- Se formou.

 

R- Concluí o curso lá, à noite.

 

P1- E a última aqui, você trabalha lá no bar, uma pergunta também corriqueira, você bebe também?

 

R- Ah, está. É...

 

P1- Ou já bebeu e não bebe mais?

 

R- Ótimo. Eu já bebi quando eu fui apresentado... Os cursos, os, como se fala? Quando as pessoas começaram a me oferecer os cursos, o teatro, o cinema, também começaram me oferecer drogas. Então teve um princípio de experimentação por bebidas. Mas drogas mesmo assim, não. Inclusive na época eu trabalhava com uma procuração do juizado de menores, e o dono do Rei... Nessa época eu morava na casa deles. Eu morei dezoito anos, então eles me vigiavam todo o tempo. Hoje em dia que eu estou morando só. Não, não, eu praticamente vivo sem bebida alcoólica e não faço uso de drogas. Bebidas de vez em quando, uma latinha de cerveja, um pouquinho de batida, mas muito de vez em vez assim.

 

P1- E a sua batida predileta qual que é?

 

R- É morango com vinho. (riso)

 

P1- Beleza Osmar. Obrigado. O seu tio Salomão está vivo?

 

R- Está. Como aconteceu comigo e o meu patrão, ele também teve um...

 

P1- Derrame.

 

R- Um derrame. E então ele está vivo, mas não está trabalhando no Rei. Ele está morando em uma cidade próxima aqui de São Paulo e ele recebe um salário básico. E ele está vivendo assim.

 

P1- Ele trabalhou até quando lá no Rei?

 

R- Ele trabalhou, nossa!

 

P1- Faz tempo que ele saiu?

 

R- Bom então, com o acidente e tudo que ele teve. Já tem uns cinco anos que ele não, não, tem mais, uns oito anos isso.

 

P1- Beleza Osmar. Obrigado pela entrevista aí.

 

R- Imagina Ricardo!

 

P1- Por esse tempo aí, está bom?

 

R- Falou.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+