Busca avançada



Criar

História

O refúgio na batida

História de: Clébio Ferreira de Souza (Dedê)
Autor: Comunidade Cultural Quilombaque
Publicado em: 26/07/2017

Sinopse

A mudança de casa do Bairro do Limão para Perus foi o pontapé inicial para a formação crítica de Dedê sobre a cidade de São Paulo. A distância de Perus com o centro da capital e a ausência de equipamentos culturais no bairro forçavam a ida de Dedê, Fofão (seu irmão gêmeo) e amigos ao Ibirapuera, assistir aos shows gratuitos. Numa dessas idas, chegaram tarde demais, mas acabaram participando de uma oficina de percussão que rolava no Parque. Nunca mais pararam. Mais tarde, com o término do grupo e a entrada no cursinho (crucial para a formação política dos gêmeos), decidem dar continuidade à percussão em Perus. Nascia, na garagem de casa, a Comunidade Cultural Quilombaque.

Tags

História completa

O meu nome é Clébio, mas sou conhecido por Dedê. Ganhei o apelido do meu irmão mais velho, o Clevinho: minha família sempre me chamou assim e eu aderi! Somos em quatro irmãos, sendo que o Cleiton (o Fofão), e eu somos gêmeos. Só quem é gêmeo sabe como é bom! A gente tem uma conexão de pensamento, de sintonia, é muito doido! Eu penso uma coisa e o Fofão fala logo em seguida, ou ele fica doente e eu também fico. Até hoje, a gente é uma só pessoa dividia em dois corpos.

 

Meu pai sempre foi um homem tranquilo, calmo e muito trabalhador. Ele é metalúrgico. Minha mãe é uma guerreira, foi costureira e também trabalhou junto com meu pai numa firma de zincagem que eles abriram. Nossa infância foi de muita brincadeira na rua! Era empinar pipa, jogar bolinha de gude, mãe na mula, elástico... Depois que a rua foi asfaltada, a gente brincava de carrinho de rolimã, futebol! Aí virou outro patamar a brincadeira!

 

De quando a gente nasceu até os seis anos, moramos no Bairro do Limão, só depois que nos mudamos para Perus. A gente ainda ficou uns meses indo pro Limão porque não tinha vaga na escola em Perus. Meu, era um dia bem longo! Tinha que pegar o ônibus pra Perus, que era muito longe... Essa transição foi muito louca pra gente porque, como a gente era pequeno, demorava muito pra chegar em casa. Depois a gente conseguiu vaga na escola do bairro e foi estudar perto de casa. Na sétima série, mandaram a gente pro noturno! É bem precária a educação em Perus. Na época, a minha mãe ficou louca com a escola e aí a gente foi estudar numa particular até o primeiro ano. A gente era muito novo pra estudar à noite, mas era a opção que tinha no bairro: ou você estudava à noite ou não estudava.

 

Com 12 anos, a gente ia na Alternativa Music House, a danceteria mais antiga do bairro, frequentar as matinês pra tomar banho de espuma! Era a diversão do bairro, até porque não tinha muita opção cultural. Já mais adolescente, a gente começou a ir pra outros lugares, meus irmãos curtiam rap e eu escutava música eletrônica, drum’n’bass. Comecei a frequentar lugares que tocavam música eletrônica. Com 15 anos, ia para raves, que eram bem massa! Eram umas festas com tendas de circo e se via de tudo! Aí comecei a ter outros pensamentos, inclusive na questão cultural, da linguagem de música eletrônica, de ver os DJs e as produções de festa.

 

Em Perus, a gente também se juntava pra andar de skate, quer dizer... Eu não, só ficava junto com os moleques que andavam de skate. A gente que construía os obstáculos, os corrimãos, porque aqui não tinha pista, era a época underground. Colava muita gente pra andar na rua e era muito louco porque, como a gente era em três irmãos homens, a nossa casa sempre foi a base, todos os amigos se reuniam lá, sempre foi o point. Em todo lugar que a gente morou, sempre a nossa casa era o lugar que os amigos se reuniam. A gente se reunia na garagem da casa da minha mãe, onde guardava a pista de skate e encontrava os amigos pra escutar música, escutar rap.

 

Um certo dia, a gente foi pra um show no Ibirapuera. Como em Perus não tinha muita coisa, a gente ia dar rolê pra fora, né? Aí a gente foi pra um show do Gilberto Gil lá no Ibirapuera, só que, meu, pra gente chegar de Perus até o Ibirapuera demorava muito! Quando nós chegamos lá, o show já tinha acabado. “Putz, mano, perdemos o show!” Foi quando vimos um grupo de percussão e a gente, muito curioso, chegou lá perto. A Bia, que é a que coordenava o grupo, falou: “Quem quiser chegar pode vir todo domingo!” A partir desse dia, começamos a fazer parte do grupo, que chamava Caranguejeira e que tocava em frente ao MAM [Museu de Arte Moderna de São Paulo]. Foi, então, quando a gente começou a vivenciar a música na percussão.

 

Em 2005, o Caranguejeira perdeu o espaço da marquise porque um secretário do Meio Ambiente falou que o som estava interferindo na questão sonora dos pássaros. Mudamos o encontro para o Parque da Luz. O secretário chegou de novo e falou que nós estávamos atrapalhando! Aí a gente foi entender o que era: a Bia, numa reunião, foi e tirou o cara, que ficou bravo com ela e queria cortar onde ela colava, queria limar ela. A gente ficou sem espaço pra ensaiar e o grupo foi se perdendo. A gente já estava numa pegada mais top, tocando bastante, aí a gente falou: “Ah, vamos montar um grupo aqui com a galera! A gente quer tocar, vamos tocar aqui!” Foi aí que a gente pegou uns instrumentos emprestados com os amigos, pegou meia dúzia de panela e começou a ensinar a galera, os nossos amigos que estavam dentro da garagem, os skatistas, a galera que estava lá. Montamos um grupinho pra tocar aqui em Perus.

 

Nessa época, o Fofão e eu entramos no Cursinho da Poli, que mudou nossa perspectiva de pensamento. Foi uma primeira formação mais política, que levou a um processo de criação da Quilombaque também. Só que a gente fez três anos de cursinho! A gente entrou no grêmio do cursinho e ia pras militância, ia pra Brasília questionar a questão de vagas, questão de pagamento de vestibular e aí foi se engajando politicamente. A gente tinha uma ligação com os estudantes da USP [Universidade de São Paulo] também, e foi se engajando em vários movimentos mais politizados, mas não partidário, e fomos tendo essa vivência.

 

Passei em duas universidades: Federal de Santa Catarina e Estadual de Londrina. Só que teve um problema no meio do caminho. A UEL foi a primeira universidade a aderir cotas pra negro e aí a gente passou, o Fofão e eu! Ia estudar na mesma sala, mas perdemos a vaga. A gente teve bolsa na escola, só que como era a primeira universidade a aderir cotas, era um processo meio maluco. Desencanei! A gente já estava em outro processo também, tocando percussão e, depois de três anos de cursinho, em 2005, a gente começou a desenvolver a Quilombaque.

 

Conseguimos mobilizar bastante gente pra tocar na garagem e foi louco! Tinha a questão de querer construir história em Perus. Até que gente de São Paulo inteira passou a frequentar Perus para participar do grupo de percussão. Uma amiga fazia teatro e falou: “Ah, meu, eu podia dar uma aula de teatro aqui”, outra amiga casada com um surdo e mudo falou: “Ô, Dedê, e se eu der aula de Libras aí?” A gente nem sabia que a gente estava montando um espaço. Começaram as demandas, a galera se propondo a fazer coisas! Na mesma época, a gente começou a fazer oficina de marchetaria também na garagem. Nossa vivência foi assim: a gente aprendia num dia, no outro estava ensinando, era muito rápido esse processo de buscar conhecimento fora do bairro e já trazer pra cá. Aprendia hoje, amanhã já estava ensinando a galera. Até hoje a formação da Quilombaque é isso: muita prática. Tem a questão teórica, mas às vezes a gente pratica pra depois teorizar.

 

A garagem era conhecida como Phone Raps, um coletivo dos skatistas. E aí gente falou: “Mano, mas o nome é em inglês e a gente tem um grupo de percussão, tem que por um nome brasileiro, né?” Surgiu a Quilombaque: “quilo” de quilombo e “baque” de batida, que é o refúgio da batida. Em 2007 já eram dois anos de vivência com essas oficinas meio capengas, do jeito que dava pra ir. Também criamos o Cine Quilombo. Toda quinta-feira a gente deixava minha mãe sem a novela, por que nós pegávamos a televisão dela pra poder passar filmes alternativos.

 

Aí o pessoal do Coruja, ligado à igreja católica, veio com uma proposta. Eles conseguiram três mil reais pra gente começar o pontapé inicial da Quilombaque. A Quilombaque já andava sozinha antes, aí veio esses três mil, nós: “Nossa, estamos ricos”, aí a gente começou a ampliar as oficinas e foi quando começou a colar mais gente! A verba ajudou também na divulgação das atividades, a gente xerocava a programação e colava em Perus inteiro! Nossos eventos começaram a fechar a rua: “Caramba!”. Foi quando, em 2007, ganhamos o primeiro VAI.

 

Perus sempre foi um bairro de luta, então a gente sempre teve, mesmo antes da Quilombaque, manifestações, como a do fechamento do lixão do Aterro Bandeirantes... Depois de um tempo, a gente fez uma mobilização que fechou a Rodovia Anhanguera com o MST, só que isso já era com os tambores. Foram vários atos de bater de frente, né? Até o começo da Quilombaque, a galera achava que a gente era um bando de baderneiro porque a gente batia de frente mesmo!

 

A gente pegou VAI em 2007 e 2008, em 2009 nós não pegamos nada. E como manter essa estrutura que a gente já tinha? Não tinha nenhum real no bolso, tinha um grupo de percussão com 30 pessoas, tinha um monte de oficinas acontecendo aqui e como manter o espaço? Foi um ano bem difícil.  Foi quando abriu o edital do Ponto de Cultura e o Soró escreveu o projeto. Era um edital do MinC [Ministério da Cultura] em parceria com o Governo do Estado, e o Ponto de Cultura era uma referência de política cultural, o Mais Cultura, que veio desde a gestão do Gil, que revolucionou e que foi uma criação do Célio Turino.

 

Aí no final do ano saiu um pré-resultado e a gente comemorou achando que a gente tinha ganhado! Falamos na praça: “Mano, a gente é um Ponto de Cultura” e não era nada! Depois que a gente foi ver que ainda não tinha sido contemplado. “Mano, ferrou e agora? Vamos ficar quietos, vamos esperar e rezar!” E aí a gente foi contemplado mesmo! Foi o primeiro Ponto de Cultura nessa região.

 

A gente desenvolvia a sustentabilidade dos coletivos aqui do bairro. Uma vez por mês tinha uma apresentação na Brasilândia, uma em Taipas, uma no Jaraguá, outra na Anhanguera. A gente fazia esses grupos circularem, e aí foi crescendo a rede. No primeiro ano, nossa, deu um boom na região e começou a bater vários outros grupos! Veio gente de Osasco, Vila Menk, Morato, parceiros, falando: “A gente quer entrar na rede!” e a gente: “Putz, mas, né, então vamos entrar”, mas não tinha recurso pra todo mundo: “Mas vamos ver o que dá pra fazer” e foi-se criando uma rede.

 

Eu acho que o que mantém os coletivos hoje é a rede, hoje a gente tem o MCP, o Movimento Cultural das Periferias, que é essa rede que se articulou. Toda a articulação cultural na periferia passa por todas as periferias e não pelo Centro. Tem essa articulação que não circula o Centro e por isso essa união, a gente sabe o que está acontecendo lá no Itaim Paulista, sabe o que está acontecendo lá no Jardim São Luís, no Grajaú porque tem essa rede. E foi a partir dessa rede que a gente se juntou e escreveu o Fomento à Periferia, que foi o edital que a gente conseguiu transformar em lei o ano passado.

 

A Quilombaque foi tomando uma proporção grande. Hoje, somos um espaço independente que agrega e desenvolve vários coletivos. Tem grupo de capoeira, de percussão, de palhaço, de dança, de jongo, tem um monte de coisa. E são grupos autônomos, porque a gente busca essa autonomia dos coletivos e dos grupos que se criam aqui. A Quilombaque faz essa gestão de como conseguir essa sustentabilidade para os coletivos se desenvolverem artisticamente e também como desenvolver o território a partir dessa questão da cultura de paz, de desenvolvimento do território na questão de geração de renda através da cultura, do turismo, né? Aí, nisso, a Quilombaque foi ficando gigante nas nossas mãos e a gente teve que cada pessoa pegar uma demanda.

 

A Quilombaque foi a universidade que eu não tive. A gente criou a universidade aqui, criou o espaço na prática, a nossa formação foi toda aqui, tanto teórica quando a prática, como outras conquistas, né? Hoje, a Quilombaque nos permitiu voar! A gente entrou em vários espaços que a gente não poderia entrar. Já fui pra vários lugares pra falar da Quilombaque: fui pra Colômbia, Inglaterra e pra Escócia, fiquei num castelo medieval fazendo imersão com artistas do Reino Unido. A Quilombaque proporcionou tanta coisa, tanta formação que está muito além de um espaço e acho que a perspectiva é ampliar cada vez mais e dar mais oportunidade a pessoas. Eu acho que a Quilombaque é um portal! A gente vê várias pessoas que passaram por aqui e que hoje vivem de arte e saíram desse mundinho que nos coloca tão pequeno e que fala: “Você é da periferia, você é um pobre coitado”, pobre coitado coisa nenhuma, a gente pode ir pra onde a gente quiser, é só a gente acreditar.

 

Tudo que é torto para aqui e a gente tenta transformar essas pessoas para que busquem os seus objetivos, seus ideais. Tem frustrações no meio do caminho, tem porrada? Tem, mas tudo é processo! E a gente também está construindo no dia a dia, não sabe o que é certo, o que é errado. A gente tenta acumular as experiências pra poder não sofrer mais. Sofrer, sim, de outras formas, mas tentar ampliar sempre pra frente, eu acho que é isso!

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+