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História

O refúgio das tristezas

História de: Maria de Castro Seiffert
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Maria de Castro relembra histórias de sua vida, começa contando como foi sua infância e juventude em Areias, cidade pequena do interior, recorda a mudança pra São Paulo, fala sobre seu apego com sua mãe. E, também, recorda os momentos que transformaram sua vida, segundo ela, que foram a morte repentina de seu marido e, anos depois, a morte de sua mãe, tristezas que a fizeram procurar cursos para terceira idade para se distrair.

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História completa

P/1 – Qual seu nome? Qual o nome dos seus pais? Onde a senhora nasceu?

 

R - Eu me chamo Maria de Castro Seiffert, sou filha de Anália Marques de Castro e João Pedro Gomes de Castro, nasci em Areias no dia 13 de fevereiro de 1918.

 

P/1 – Agora queria que a senhora falasse um pouco sobre a sua infância.

 

R – A minha infância em Areias foi ótima, só alegria, né? Porque a idade da infância é a idade mais bonita que tem, né? Eu fico emocionada (choro).

 

P/1 – Então lembra um pouco do que aconteceu na infância.

 

R – Ah, é tão bom lembrar, né? Relembrar é viver. Me lembro das brincadeiras, eu gostava muito de brincar de subir em árvore. Como gostava!  Brincar de casinha, né, porque na época era assim, as crianças brincavam de casinhas, as meninas. Hoje em dia não mais, mas antigamente era assim. No meu tempo, né? Areias é uma cidade pequena, muito pequena, quase não se vai achar ela no mapa. Vivi lá em Areias só até idade de 13 anos, depois vim aqui para São Paulo porque lá não tem meio de vida não, é uma cidade muito pequena. Viemos para cá, sou filha única. Minha mãe ficou viúva com 31 anos, só eu, mas ela criou nove sobrinhos e como não tinha meio de viver em Areias, viemos para São Paulo, isso em 1934. E aqui viemos e fomos morar no Guaiaúna, hoje tem outro nome que eu não me lembro agora, é perto da Penha. Ficamos morando ali muito tempo, depois eu me casei. Continuei morando na Penha, depois fui morar em Guarulhos, morei em Guarulhos até 1952, mais ou menos, depois que eu fui pro Bom Retiro e estou até hoje no Bom Retiro. Mas a vida no interior era bem melhor antigamente, né?

 

P/1 – A senhora pode falar sobre o que houve de mudança entre sair de Areias e vir morar em São Paulo? O que a vida era diferente? O que a senhora passou a fazer aqui em São Paulo?

 

R – Aqui em São Paulo a vida é muito difícil, no começo para a gente se adaptar ao meio de vida aqui era difícil, a gente estava acostumada com aquela vida pacata de Areias, sossegada. Não tinha movimento, quando era pequena nem luz elétrica não tinha, era lamparina de querosene. Depois que veio a luz elétrica, mas era uma vida boa, bem sossegada, pacata e quando viemos para cá estranhando muito, custamos... Antes de vir definitivo para São Paulo, em 1932, nós fomos para Santo Amaro em 1928, não acostumamos, voltamos para Areias e depois voltamos em 84 para São Paulo.

 

P/1 – E voltava para São Paulo e o que a senhora fazia?

 

R - Ficamos aqui, vivemos aqui, todos trabalhando, né? Só eu que não trabalhava, então ficava em casa para ajudar no serviço de casa e minhas primas trabalhavam, as que a mamãe acabou de criar, no Brás. Eu na hora do almoço eu vinha da Penha de bonde descia do Alto do Guaiaúna até Avenida... Como é que chama? Poxa, me esqueço o nome, a continuação da Avenida Rangel Pestana. Vinha até aquela avenida ali, tomava bonde, porque não tinha ônibus nessa ocasião, era só o bonde, né? Até tinha o Caradura [bonde]. Vocês não alcançaram o Caradura, né?

 

P/1 – Eu peguei o bonde. Não cheguei a pegar esse.

 

R – Mas tinha, o bonde pequenininho se chamava Caradura, vinha de Bonde era 200 réis a passagem até o Brás, eu vinha trazer almoço para minhas primas que trabalhava no Brás. Assim a gente levava a vida.

 

P/1 – E a senhora não tinha vontade de trabalhar?

 

R- Tinha vontade de trabalhar, mas precisava ficar em casa para ajudar a fazer almoço, porque para comer fora não dava, então trazia almoço de casa para elas que trabalhavam.

 

P/1 – E elas trabalhavam em quê?

 

R – Era em confecções de capas de borracha, naquela ocasião usava muito capa de borracha, hoje não existe mais, né? Mas trabalhavam nisso.

 

P/1 - Mas e o casamento da senhora, quando a senhora conheceu seu marido? Como namoraram e se casaram?

 

R - Quando eu estava em Areias, antes de vir para São Paulo o conheci, que ele foi trabalhar lá em Areias, né? Conheci assim vagamente. Depois aí continuou, ele frequentava lá em casa, vinha em casa, depois que eu vim aqui para São Paulo que nós começamos a namorar. E ele é de Campinas, era de Campinas, né?

 

P/1 – E aí como foi a vida de casada? Os filhos?

 

 R - Foi ótimo porque ele era um homem muito bom, muito amoroso, muito compreensivo, trabalhador. Tivemos três filhos, né? Meus filhos estudaram, trabalharam, hoje já tenho até uma filha aposentada, a outra tem uma indústria com marido, né? E meu filho que trabalha também.

 

P/1 – A senhora ficou viúva quando?

 

 R - Faz 13 anos.

 

P/1 – E não quis casar de novo?

 

R – Não.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque não existe substituto pra ele. Ele morreu assim de repente, nós tínhamos saído para passear em Mogi, dia 13 de junho, fomos passear em Mogi, estávamos lá assistimos A Festa do Divino e nisso ele fala assim: “Está na hora de irmos embora, pra não pegar estrada à noite, né?”. Fomos para o carro, entramos, ele acendeu um cigarro, estava fumando, saiu, ele andou 20 metros assim, aí ele olhou para mim, ele não me chamava pelo nome, ou me tratava de “lichen?” em alemão é meu bem, né? Ou então Mama, então ele olhou para mim e disse “Mama, que tontura” e caiu no volante do carro, o carro ficou desgovernado. Felizmente, não estava passando carro nenhum, ninguém na rua e eu fiquei desesperada. No começo, pensei que fosse brincadeira dele, né? Depois que eu percebi que o negócio era sério. Aí me deu desespero, aí eu consegui brecar o carro, ele subiu na calçada e eu brequei, não bateu em nada. Eu então fiquei desesperada, pedi socorro, mas o pessoal vendo eu pedir socorro dentro do carro, assim, aflita, né? Ninguém me socorria, me dava uma mãozinha ou vinha me perguntar. Aí chegou um rapaz, muito esfarrapado, barba comprida, cabelo comprido, esfarrapado mesmo, ele chegou colocou a mão na minha e disse “Filha, eu te ajudo”. E aí eu falei para ele: “Não sei”. Ele pegou meu marido, colocou no banco de trás do carro e ele tomou o volante e saiu, logo adiante numa travessa já era um hospital, estavam esperando na porta, não sei como, aí pegaram meu marido, fizeram tudo que foi possível, mas não teve jeito, voltou o coração bater umas duas vezes, mas parou. E esse rapaz eu não vi mais, não pude agradecer porque ninguém viu ele, eu não pude agradecer e ficou uma incógnita.

 

P/1 – A senhora falou que seu marido falava alemão, ele era alemão?

 

R – Não, ele era filho de alemão. Ele falava alemão, falava, escrevia, falava inglês, francês.

 

P/1 – E hoje como é?

 

R – Hoje a gente vive por viver, não é? Porque depois que perdi meu marido, há 13 anos, senti muito porque ele era um bom companheiro, bom esposo, bom pai. Mas tinha mamãe comigo, né? Porque eu nunca me separei de mamãe, desde que eu nasci sempre junto com ela. Quando me casei ela foi morar junto comigo, porque só tinha eu de filha. Meu marido foi, ela ficou, ela era um arrimo para mim, uma tábua de salvação que me animava muito e hoje faz dois anos que ela se foi, em abril fez dois anos, ela morreu com 103 anos. Mas lúcida, foi, assim, uma morte de repente, ela estava em casa, levantou da poltrona, caiu no chão na sala e foi para operar, depois da operação o coração parou, ela foi embora e me deixou.

 

P/1 – E as suas primas?

 

R - Quase já morreram todas, só tem uma, todas já foram já fizeram a última viagem, né?

 

R - E hoje? O que que a senhora faz? A senhora tá fazendo aula de tango...

 

P/1 – Já fiz aula de teatro aqui, agora estou fazendo aula de tango e vou fazer um outro curso que vai ter aqui de Música e Vida, uma coisa assim. Vou fazer porque para mim essa saída para fazer esses cursos é um refúgio porque eu me sentia muito angustiada depois que perdi mamãe. Porque para mim ela era tudo. Apesar que eu tenho meus três filhos que são ótimos, eu acho que existe filhos bons no mundo, mas iguais aos meus eu acho que não (risos).

 

P/1 – Qual seu sonho? Qual sua perspectiva de futuro, o que a senhora acha que pode fazer, quer fazer?

 

 R – Eu? Pra mim? Acho que não tem, para o futuro é me aprontar para minha viagem final. Só! Mas só que a única coisa que eu desejo é tudo de bom para meus filhos, meus netos, minhas duas bisnetas, eu tenho duas bisnetas.

 

P/1 – E qual é o maior sonho que a senhora quer realizar?

 

R – Eu acho que não tem... Ah, vou falar de política o meu maior sonho é ver nessa eleição agora, como prefeito de São Paulo o Maluf, já sei que vocês não são. Mas eu sou, sempre fui e ver esse Brasil querido subir e ser um país grande em tudo, como ele é grande em extensão, isso que eu queria ver.

 

P/1 – E que mensagem você deixaria para as gerações mais jovens? Para as crianças, adolescentes.

 

R – A mensagem que eu deixo para as crianças, adolescentes é que sejam mais compreensivos, em tudo e por tudo, né? Mais amor, mais compreensão, mais respeito, que hoje quase não há. E drogas nem pensar, que é a pior coisa que existe. A gente vê a rapaziada tão bonita e depois que a gente vê parece que não tem nada, e, no fim, a gente fica sabendo que tá com o negócio de drogas e é tão triste isso, para gente que não é nada e fica sabendo é, imagine para os pais? Quando descobre que um filho está metido nas drogas.

 

P/1 – Isso é diferente da sua época?

 

R – Ah, muito, eu acho muita diferença, muita diferença, porque eu acho que na minha época, na época da mamãe também nem se fala, né, morreu com 103 anos, eu acho que hoje em dia não tem tanto respeito. Principalmente para o idoso, né? Não existe.

 

P/1 – De que tipo?

 

R – Eu acho, por exemplo, a juventude, não todos, têm uma classe da juventude, por exemplo, vê um velho, assim, como nessa aula de tango, vê uma pessoa idosa nessa aula, eles brincam, caçoam, fazem caçoada. Eu acho que aí é uma falta de respeito porque não sabe o porquê que o idoso está ali naquela alegria ali, reunidos, aquela turma toda alegre, não sabe se é porque tem alguma mágoa que tem e vem se expandir, vem passar umas horas alegres para esquecer da tristeza em casa, né? Então eu acho que falta um pouco de respeito, um pouco de compreensão, coisa que hoje não há com a juventude.

 

P/1 – E alguém caçoa?

 

R – Eu acho...

 

P/1 - Sobre a vida da senhora, tem alguma coisa que a senhora lembra que transformou a vida da senhora desde a infância que a senhora poderia dizer?

 

R -  Não, não tem nada, minha vida sempre foi assim, mais pacata, mais normal. A única transformação foi a perda do meu esposo que eu senti muito e depois de mamãe que me deixou numa tristeza profunda, né?

 

 P/1 – A senhora lia almanaque quando era jovem?

 

R – Lia, lia sim, quando era pequena tinha o tico-tico, né?

 

P/1 – E assim, o que eles falavam? O que a senhora gostava mais?

 

R – As historinhas, uma historinha que ficou muito gravada para mim, quando era menina que eu lia muito, foi as do Monteiro Lobato. A historinha do Monteiro Lobato que gostei muito foi da Emília, do Marquês de Sabugosa, é uma história que prendia muito. Hoje as crianças não se prendem nessa história, não sei o porquê, não gostam. Eu acho que a gente não vê lendo esse tipo de história, gostam mais de outras coisas, se pegam mais nos desenhos, né?

 

P/1 – E outra coisa, a senhora lia Monteiro Lobato dentro do Almanaque?

 

R – Não, não, livro mesmo do Monteiro Lobato, por sinal, eu tenho o livro dele dentro de casa, Memória de Monteiro Lobato.

 

P/1 – E no almanaque o que a senhora gostava de ler?

 

R – Essas histórias que tem hoje.

 

P/1 – História em quadrinho?

 

R – Essas historinhas que existem hoje do Cebolinha, da Mônica, né? Quadrinhos de quadrinhos. Eram grandes, né? Livros grandes.

 

P/1 - Tá certo.

 

R- A senhora quer falar mais alguma coisa, Dona Maria?

 

P/1 – Não tem mais nada, a vida é pequena é mesmo.

 

P/1 – Então, muito obrigada. Foi muito legal.

 

R – Eu gosto muito de baile, mas pra apreciar, para dançar não, sempre gostei.

 

P/1 – A senhora gosta de dançar o quê?

 

R – Não gosto de dançar, só apreciar.

 

P/1 – Nem valsa?

 

R – Valsa sim (risos).

 

P/1 – Ta bom, então obrigada!

 

(pausa)

 

P/1 – Dona Maria, a senhora podia contar a história da medalha do seu avô, né?

 

R – Ah, do meu avô, né? A mamãe recebia uma pensão do meu avô, pai dela que foi combatente da Guerra do Paraguai. E ele foi condecorado com a medalha da Ordem da Rosa por Dom Pedro II, né? Tem o diploma assinado por ele em casa, tenho o diploma, já está todo manchado, está velho, falta um pedaço do selo, um selo grande, falta um pedaço. Na Revolução de 32, nós estávamos em Areias ainda, quando houve a Revolução, houve o aviso para as tropas daqui de São Paulo se afastarem de Areias para Silveiras, a recuarem, né? Porque as tropas do governo, do presidente, no caso, estavam avançando. Então eles recuaram. Areias foi tomado pelas tropas do governo que eram as pessoas que vieram de Alagoas, da Bahia, de Sergipe, dos outros lugares, vieram aquelas tropas. E eles saqueavam muitas casas, nós, o pessoal da cidade de Areias, de Barretos, São José do Barreiro, Silveiras, saímos da cidade porque eles saquearam muitas casas lá. A mamãe ficou sem roupa nenhuma que eles tiraram toda roupa de casa, a minha não tirou que nós fizemos uma mala e carregamos pra roça. Nós fomos nos refugiar em uma fazenda ali. Eles roubavam, lá em casa tinha uma carabina, que meu avô combateu na guerra do Paraguai, carabina e espada e eles roubaram, sumiu de casa. Mas esse diploma do meu avô estava na casa, a mamãe conseguiu voltar na cidade, eles estavam fazendo fogueira com as coisas de casa, a mamãe ainda salvou esse diploma e o diploma do meu bisavô, ele era português e ele foi naturalizado brasileiro. Ele tinha o pergaminho, era em linho. Você sabe que o pergaminho era em linho, né? Era muito lindo. Eu cheguei a conhecer, era todo transpassado com fitas verde-amarelo, encaixado. assim transpassada nos recortes, sabe, naturalizando-o brasileiro. Ele levou três filhos para combater na Guerra do Paraguai, eu sabia o nome dele, mas agora não me lembro.

 

P/1 – E a senhora lembra de sua vó ter contado algumas histórias sobre a Guerra?

 

R – Olha, tinha um jornalzinho que o Monteiro Lobato escreveu sobre essa passagem de Areias que ele entrevistou diversas pessoas lá, inclusive o meu avô, falava da Batalha de Tuiuti, mas eu não me lembro. Foi uma batalha muito falada, essa batalha do Tuiuti, da guerra do Paraguai, mas eu não me lembro. Isso mamãe lembrava muito.

 

P/1 – E o jornal a senhora tem ainda?

 

R – Não tenho. O que tenho da Guerra do Paraguai, chama-se banda, era uma coisa que meu avô usava amarrada assim na cintura... Meu bisavô, ele tinha a farda dele, tinha a fotografia dele fardado com essa banda, ainda tenho lá em casa, é uma faixa amarrada assim, tem dois pingentes e é bordô escuro, com coisa dourada e tem as medalhas que era uma medalha de ouro e a outra é feita da peça do canhão, foi fundida a peça do canhão e feita a medalha, eu tenho as medalhas, eu vou trazer para vocês verem, é muito bonita.

 

P/1 – Quer falar mais alguma coisa?

 

R – Não tem mais nada.

 

P/1 – Tá bom, Dona Maria, acabou.

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