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História

O Rapha e eu

História de: Heliete Rodrigues Herrera
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/09/2013

Sinopse

Heliete Rodrigues Herrera, santista de coração, conta um pouco de sua vida e da trajetória profissional de seu marido, o fotógrafo esportivo Raphael Dias Herrera.

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História completa

P/1- Boa tarde dona Heliete. R- Boa tarde. P/1- Vamos começar só preenchendo alguns dados pessoais, rapidamente, antes da gente falar do seu Raphael, tudo bem? Nome da senhora completo, por favor. R- Heliete Rodrigues Herrera P/1- O nome do pai da senhora, dona Heliete? R- Olao, O-L-A-O, Olao do Carmo Rodrigues. Papai também era um santista roxo. P/1- É, ele era daqui de Santos mesmo? R- Daqui de Santos, era jornalista também. P/1- A data de nascimento dele a senhora se lembra? R- É 16 de julho de 1907. P/1- Certo, atividade jornalista. O nome da mãe da senhora? R- Maria Leonor Padrun (?) Rodrigues. P/1- E a data de nascimento dela? R- É 17 de setembro de 1910. P/1- Ela é daqui de Santos também? R- É de Santos. P/1- Atividade dela? R- Era dona de casa. P/1- A senhora tem mais irmãos dona Heliete? R- Tive um irmão, falecido (?). P/1- Formação escolar da senhora, dona Heliete? R- Primeiro grau. P/1- Religião? R- Católica. P/1- A senhora exerceu alguma profissão? R- Não. P/1- A senhora sempre morou aqui em Santos, dona Heliete? R- Sempre, a vida toda. P/1- A senhora participou de alguma atividade sindical, religiosa? R- Não, quando as crianças eram pequenas eu pertencia à Associação de pais e mestres, mas nada... P/1- E atividades de lazer da senhora, o que a senhora gosta de fazer? R- Ah, sei lá. Eu gosto de viajar. P/1- Viajar? R- Viajo pouco, mas gosto de viajar. P/1- Praia. R- Adoro a praia! Vou todo dia de manhã. P/1- Como santista não tem como evitar. R- Seis e meia da manhã eu já estou andando. P/1- Fazer caminhada? R- Faço caminhada até umas 7:30, assim. P/1- Bastante. R- Não, mais ou menos P/1- Mas é gostoso aproveitar o arzinho da manhã com esse visual maravilhoso. R- Nossa, é o que da alento. P/1- Então tá. Isso aqui está fechado mesmo porque as outras informações nós já temos. Então como eu disse para senhora o objetivo desta matéria é falar um pouco sobre a carreira do seu Raphael. Eu gostaria que a senhora começasse dizendo como foi o inicio da carreira dele, como ele começou no jornalismo, no foto jornalismo principalmente. R- Ele começou que o irmão dele já era fotógrafo do jornal O Diário de Santos. Então levou para ser ajudante. Aí ele ficou cinco anos no Diário e em 47 ele foi para o jornal A Tribuna. A vida dele foi viver para o jornal, para o trabalho dele. Isso foi em 47, em 97 ele completaria 50 anos de Tribuna só que ele teve um acidente vascular cerebral meses antes, então teve que parar. P/1- Ele começou em 42, então ficou cinco anos no Diário de Santos? R- Sim, sim. P/1- Esse inicio com o irmão a senhora diria que foi casual ou ele já tinha alguma outra afinidade com a fotografia, com o foto jornalismo? R- Não, não. Ele foi mesmo para trabalhar para ajudar na casa. Aí, lógico, ele gostou da profissão, gostou de ser fotógrafo e nunca pensou na vida em ser outra coisa se não ser fotógrafo. Inclusive, naquele tempo era repórter fotográfico como é até hoje, só que o fotógrafo às vezes ia sozinho. Então era ele que inclusive dava as notícias, que dizia na redação: “Olha, aconteceu isso, aquilo, tal. Aí tem foto disso, daquilo.” Então chega a ser também um pouco redator, pouca coisa, mas chega ser. Ele sempre foi assim dedicadíssimo. (PAUSA) Pode perguntar, eu acho mais fácil. (riso) P/1- Tá bom. Quando ele começa no Diário de Santos, ele começa como repórter fotográfico fazendo essas reportagens também e já começou cobrindo futebol ou não? Fazia outras... R- Já. O Diário era um pouco mais limitado aqui em Santos, era dos diários associados. Então futebol, essas coisas, já tinha os fotógrafos de lá, os jornalistas de lá de São Paulo. Até foi o meu pai que o levou para a Tribuna. O papai nesta época era secretário da A Tribuna, era o secretario da redação. Então ele que chamou o Rapha para ele trabalhar na A Tribuna. O Zézinho continuou no diário, mas anos bem... Anos depois foi para A Tribuna, porque o Diário fechou inclusive. Mas o Rapha, depois que ele foi para A Tribuna, sempre cobriu futebol, cobriu qualquer atividade em Santos. Mas, por exemplo, sábado, domingo, era sempre viajem pelo interior, não tinha televisão, não existia isso. Então tinha que ir pessoalmente lá registrar, inclusive voltar no segundo tempo para dar tempo de sair. A Tribuna sempre foi um jornal para frente nesse ponto. Ele viajou muito para a Europa várias vezes, cobriu copas do mundo, Sempre pela A Tribuna. Depois pela televisão é que já ficou mais limitado, apesar que até hoje a A Tribuna ainda manda fotógrafos em copa. Mas além disso ele cobriu várias outras áreas, todas outras áreas. Não é várias, ele cobria todas as áreas porque eram poucos fotógrafos que tinha. P/1- Não havia então equipe específica para cada editoria do jornal? R- Não, não. Absolutamente não tinha nem... Tanto o redator como o fotógrafo eram pau para toda a obra, vamos dizer assim. Então era diferente de hoje, eram dois fotógrafos só que tinham. P/1- Dois fotógrafos? R- Dois fotógrafos. Um trabalhava durante o dia e um durante à noite. Depois que foi aumentando tinha o laboratorista, mas mesmo assim eles entravam muito no laboratório. P/1- Faziam toda a atividade? R- Tudo, tudo. Desde de ir lá tirar, registrar, fazer, escolher aquilo que saiu, toda vida. Que dizer, que eu acompanhei mais, mesmo depois que eu casei, em 58. Apesar que eu sempre, a minha vida inteira, sempre conheci o Rapha. (riso) P/1- Então vamos aproveitar esse gancho: como é que vocês se conheceram? Um pouquinho da história pessoal de vocês. R- É exatamente isso. O papai era muito amigo do Rapha, então as famílias sempre foram amigas, de passar natal juntos, sempre foram. Eu era menina, mas aí a gente vai crescendo, tinha um caso. A mamãe, por exemplo, não me deixava ir em jogos, em algum teatro, se não fosse com o papai. Mas se eu dissesse: “Mas e se o Rapha me levar?”; “Ah, se o Rapha levar pode ir, não tem problema.” Aí então eu: “Rapha, será que...” E acontece que depois que nós começamos a namorar ela não deixou mais nós sairmos sozinhos. (riso) Mas então, às vezes era assim. O papai, por exemplo, me levava e depois eu voltava com o Rapha. E aí, assim, a gente foi crescendo, tal, e foi se formando ali um amor, alguma coisa, e acabamos casando. P/1- Bonito. R- Foi uma época muito bonita. P/1- E a senhora disse que foi o pai da senhora que o levou para A Tribuna? R- Foi papai. Nessa época era o secretário. Inclusive o Rapha ia comigo porque o papai não podia abandonar a redação à noite. Então, quando muito, ele me levava para jogar vôlei. Eu comecei a jogar um pouco de vôlei, mas tinha jogos que não dava para ir porque não tinha quem me acompanhasse e era difícil a gente sair sozinha. Aí eu apelava para o Rapha: “Ah, não dá para você ir? O jogo hoje vai ser tal.” E ele sempre se prontificou e assim foi indo. P/1- A senhora jogou vôlei em que clube? R- Não, não. Sempre vôlei de praia, pelo grêmio A Tribuna, pelo Cruzeiro Praia Clube, mas vôlei de praia sempre. Muito mais jogadoras em campo, nunca me sobressaí. Tinha uma equipe muito boa, mas eu não era lá essas coisas. E assim foi indo e casamos. E é como eu digo: nunca teve um domingo que ele não fosse viajar, que era jogo em Bauru, era jogo no Rio, era jogo em Campinas. Principalmente Campinas, São Paulo, e ele tinha que cobrir. P/1- Então vamos falar sobre isso também. E aí ele vai para A Tribuna e começa a sua carreira, 50 anos na A Tribuna. Ele vai para A Tribuna em 47 a senhora disse? R- Fevereiro de 47. P/1- E aí é quando o Santos esta para... Esta nas vésperas de formar um grande time. E nessa época ele já acompanhava a equipe por todos os lados? R- Acompanhava, acompanhava. Sempre participou de todas as equipes do Santos. P/1- E como era a relação do fotógrafo profissional com o torcedor? Ele disse que não torce para o Santos, é corintiano, mas ele comentava, ele trazia as impressões do campo para casa? R- A sempre torce, sempre torce. Não, apesar... Ele era corintiano desde menino, não tinha como negar, mas ele sempre teve um respeito muito grande pelo Santos. Em segundo lugar era o Santos, mas em primeiro sempre foi o Corinthians e conseguiu passar isso para os filhos. São quatro filhos, três são corintianos. Só a Roberta que saiu agora que é do Santos, que é santista. Eu sou santista, mas não prevaleci muito, e o papai também era santista roxo. É, essa história eu vi muito: papai torcer para o Corinthians em prol das crianças torcerem também. Porque papai tinha... Antigamente era uma revanche, acho que até hoje! Quando joga Santos e Corinthians tem sempre aquele... Não sei porque, mas a gente tende... É uma coisa da gente de ser contra o Corinthians. Não ser contra o Corinthians, mas ter uma rivalidade. É engraçado. Mas ele sempre foi muito simpático ao Santos, inclusive tinha que ser, porque ele trabalhava aqui, o Santos era daqui e difícil o dia que ele não fosse ao campo de futebol para ver treino, para entrevistar este ou aquele. Tanto é que ele chegou a pegar o Pelé quando chegou. P/1- Exatamente. Nós vamos falar sobre isso. R- Foi um dos primeiros, se não o primeiro mesmo, e quando o Pelé veio com o pai dele que... P/1- E como é que ele, o seu Raphael, estava lá neste dia? Ele tinha ido por algum motivo especial ou era justamente porque fazia parte da rotina dele? R- Fazia parte da rotina dele estar no campo quase todo dia de manhã, para saber das coisas. É como eu digo para você: antigamente tanto era pouco fotógrafo como era pouco redator, então tinha que correr todas as áreas para ver se havia alguma novidade, tal. Quando o Pelé veio, eu me lembro que naquela época falavam já que ia ser um grande jogador, já se falava isso. O (Devanei?) que era repórter esportivo... Inclusive, o pai do Pelé, eu me lembro qualquer coisa do pai do Pelé pedir para o (Devanei?) tomar conta do Pelé. Depois houve um revertério nessa história, o (Devanei?) _____________ Então o (Devanei?) sempre foi um amigo, assim, do Rapha, do meu pai. Era como um irmão para o meu pai, então eles comentavam muito em casa, familiarmente eles comentavam muito que o Pelé era um menino que chegou humilde, mas que ia ter um futuro muito grande, como teve mesmo. P/1- Aproveitando o que a senhora disse dos comentários em casa, como é que era o clima na casa, essa convivência com jornalistas, assim? Todas as noticias eram debatidas... R- Todas, todas. Inclusive, a gente acabava participando de muita coisa e às vezes sabendo de alguma coisa e ainda indicando: “Olha, eu soube disso, daquilo tal.” Ou mesmo os comentários que agente escutava, de qualquer assunto: “Olha, eu ouvi isso, isso, isso.” A família sempre se envolveu na profissão, a família sempre se envolveu. Eu fui filha de jornalista, casei com jornalista, então não tinha como fugir. Cada um... Eu acho que até meus filhos tem um pouquinho de jornalista nas veias, porque eles se interessam por tudo. Não todo mundo, mas acho que isso ai é uma coisa que a família... P/1- Tem uma curiosidade diferente? R- É, diferente. Uma curiosidade diferente. A gente não vê um fato como um fato, a gente já procura não mais “por quê” o que aconteceu, mas “como”. É isso ai. P/1- Certo. Bom, voltando ao Santos, ele já cobriu futebol, tal... R- Já, já cobriu. P/1- O Santos, em 55, quando o Santos é campeão paulista depois de 20 anos, ele certamente estava presente. R- Cobriu todos os jogos. (PAUSA). P/1- Então ele certamente estava presente. Como é que foi essa... A senhora se lembra dele comentar alguma coisa sobre a decisão? Dos momentos, do clima que envolveu essa fase? R- Não, essa fase foi uma época muito bonita, porque os jogadores ali não eram apenas o Pelé, todos eram uma coisa em que cada um completava o outro. Era uma equipe que eu acho que nenhum time de futebol aqui do Brasil teve, a equipe dessa época do Santos. O clima era clima de euforia. Não posso falar porque eu sou santista. (riso) Mas era uma coisa que... Mas o Rapha sempre foi muito fuçador, vamos dizer, uma palavra... Ele sempre foi lá atrás da noticia, atrás do... E outra coisa: tanto ele como o Zézinho, o irmão dele, eles têm, assim, como é que eu vou dizer? Eles têm um caráter que eles sempre tiveram portas abertas em qualquer lugar que eles foram, coisa que às vezes não acontece. Mas com ele nunca houve porta fechada, para o Rapha nunca houve portas fechadas. Podiam fechar, vamos dizer, até o vestiário: “Não, não. Ninguém vai entrar.” Mas ele entrava. Porque sabia o que ia falar, o que registrar e o que não, certo? Ele não estava ali para fazer sensacionalismo, ele estava ali para fazer o serviço dele e mostrar as coisas que eram, não... Era a sempre a honestidade dele em primeiro lugar. Isso não tenha dúvida! O Zézinho também foi... E ele sempre teve as portas abertas e participava sim. Era corintiano, mas vibrava como qualquer santista com vitórias. Era uma equipe daquela época que eu sinto bastante meus filhos não terem visto, porque era uma coisa maravilhosa. Não era o que se vê hoje, era um estilo, era um futebol bonito, muito bonito. Eu dificilmente fui em campo de futebol. Aliás, só vi o Santos jogar uma vez em Campinas e perdeu, por sinal. Perdeu em Campinas para o Guarani. Foi o único jogo que eu assisti do Santos. P/1- Quando foi isso, dona Heliete? R- Deve ter sido em 52, 53. P/1- A senhora estava com seu Raphael? Ou não? R- Não, não. Ele estava lá no campo. Eu tinha ido com papai e com outro redator esportivo. Mas ele estava sim ali e o Santos perdeu. Para mim foi uma decepção horrorosa, mas eu peguei esta época bonita do Santos. Nesta época já estava começando a televisão em preto e branco, já dava para a gente acompanhar pela televisão. O Santos é uma coisa que eu digo sempre, que é o pessoal antigo, é aquele amor pelo Santos. Mas tem muito jovem. Inclusive eu tenho parentes em São Paulo que torcem pelo Santos e nem moram aqui. P/1- É, eu torço pro Santos. R- Esta vendo! E jovem. Então é uma coisa... Simpatia mesmo né? E você não pegou a época do Pelé, né? P/1- Não, infelizmente. R- Porque muita gente diz assim: “Ah, é porque o Pelé era do Santos!” Absolutamente não, porque a gente já era do Santos há muito tempo e só se empolgou com o Pelé. Eu sou fã do Pelé, eu sou fã do Pelé pelo fato de que acho que a postura dele sempre foi uma postura de atleta. Um rapaz que sempre deu só bons exemplos, você não escuta falar. Como agora mesmo ele esta aí ensinando o pessoal naquela humildade, um homem que podia estar lá em cima sem se envolver em nada disso. P/1- Sempre teve um amor pelo Santos muito forte. R- Ah, um amor pelo Santos incrível! Tanto é que ele nem é santista, mas sempre a casa dele sempre foi no Santos, apesar que ele mora em Guarujá. Ele estando no Brasil ou mesmo quando ele estava fora, podia passar aqui que ele sempre estava aí na Vila Belmiro, sempre vinha cortar o cabelo no barbeiro. Acho que até hoje ele corta o cabelo aí. Então, quer dizer, isso... P/1- É uma identificação muito forte. R- Não é? É uma coisa... P/1- E por falar em identificação, da mesma maneira que o Pelé tem identificação com o Santos, seu Raphael tem identificação com o Pelé. Como se construiu esse relacionamento? R- Porque, veja bem, o Rapha cobria futebol. E com isso amigo de todos os jogadores, treinadores, dos diretores. E é o que eu digo para você: apesar do Pelé subir, subir, ele sempre se manteve ali como amigo, o Rapha teve muita educação, muita educação _________________ por ser quem é, o atleta que é. E ele também toda vida sempre tratou o Rapha com muita consideração, muita. É um envolvimento, assim, cada profissional um envolvido como o outro. P/1- A senhora também disse que o seu Raphael sempre foi fuçador, sempre foi muito dedicado. É isso que diferencia as fotografias dele? É isso que faz com que elas sejam tão particulares, capte ângulos tão diferenciados? R- Ele sempre procurou achar alguma coisa. Ele diz que não que aquilo estivesse na hora, mas logicamente ele procurava mesmo estar nos lugares certos. Ele sempre foi fuçador mesmo. P/1- E de alguma maneira ele se surpreendia com algumas fotos, quando revelava, por exemplo? Falava: “Essa foto ficou boa ou essa...”? R- Ah, sim! Ele mesmo se surpreendia muitas vezes. Surpreendia-se com o resultado do trabalho. Porque às vezes você bate e você não sabe o que vai sair ali, apesar que você quer que saia o que você viu, o que você... Lógico, sempre. Sempre ficou muito feliz com as fotos dele na primeira página. Isso foi uma coisa que ele ficava muito satisfeito, de ver as fotos dele na primeira página. Inclusive, a primeira A Tribuna a cores foi uma foto dele. Apesar de que era do porto, porque depois, de uns dez, quinze anos para cá, ele ficou mais no porto, fazia qualquer coisa, mas mais serviço do porto, mais no cais mesmo. Então ele ficava contente. Eles têm, de uns anos para cá, a imagem da semana, depois a imagem do mês, a imagem do ano, e ele ganhou em várias ocasiões. Ele ficava muito satisfeito, muito feliz de ter ganhado. P/1- A senhora se lembra dessa foto do porto, o que era? R- Era um armazém, era uma foto de... Uma foto bonita que aparecia um armazém. Não sei se eu tenho aqui, eu devo ter essa A Tribuna, eu devo ter até num álbum que eu tenho dele. Mas ele sempre fez as coisas com alegria, fez o que gostava, então eu acho que por isso ele sempre buscou o melhor. P/1- O relacionamento dele com o seu Zézinho a senhora já disse que era dos melhores. E sempre trabalhando juntos? R- Sempre trabalharam juntos, sempre no mesmo laboratório os dois fazendo serviço. Mesmo até hoje, alguma coisa que apareceu de fazer do Pelé, o Zézinho levava os negativos, leva os negativos e o que é de um é de outro. Não tem isso de: “Isso é meu, isso é teu.” Até hoje é uma amizade muito bonita entre irmãos e são três irmãos fotógrafos, mas sempre foi mais o Zézinho e o Rapha. P/1- Ah, são três fotógrafos? R- São três fotógrafos. Um já faleceu, mas os três eram fotógrafos. P/1- Como é o nome do terceiro? R- Francisco, o Paco. Chamam de Paco. P/1- E ele fotografava aqui em Santos também? R- Também, também. Inclusive, quando o Zézinho e o Rapha já estavam na A Tribuna, ele continuou no Diário, mas também excelente fotógrafo. Mas acho que o Zézinho e o Rapha eram mais fotógrafos, mais atrás da noticia. O Paco já era mais, vamos dizer, acomodado. O Rapha e o Zézinho onde tivesse que ir eles iam, não havia limites. P/1- E como era... A senhora já mencionou em vários momentos das viagens, que ele estava sempre fora, sempre acompanhando... Como é que... R- Fim de semana era um horror. P/1- Eu queria que a senhora contasse um pouco dessas viagens acompanhando o Santos. R- É mais o Santos mesmo ou a Copa do Mundo no Brasil. Ele cobriu acho que três Copas do Mundo, cobriu até 66. Viajou com Santos, com o voleibol, acho que duas vezes com o voleibol, 69... Duas vezes. E com o futebol mesmo, excursões, fora campeonatos sul americanos que ele ia também. P/1- Que ele sempre acompanhava. E ele chegou a passar muito tempo fora, então? R- Passava nas Copas do Mundo. Era o mês inteiro. Mais de um mês, porque ele ía bem no começo, antes, e era uns 40 dias que ele ficava fora. Não era fácil, não era fácil, mas a gente se comunicava praticamente todos os dias, porque vinha malote todo dia. Então vinha sempre algum bilhetinho, sempre algum recadinho, porque aí já tinha as crianças também. Ele viajou bastante sim, mas que ele ficasse mais tempo fora foram sempre nas Copas do Mundo. Porque aí as outras viagens eram viagens de dois dias, três dias, uma semana, não mais do que isso. P/1- Mesmo nas excursões do Santos, quando o Santos ia para o exterior? R- Um mês ou mais. Voleibol também, eles corriam a Europa toda. Acho que foi em 69, eles foram até a Checoslováquia, a parte comunista. P/1- Foi na época que o Santos tinha uma grande equipe de vôlei? R- Tinha, tinha mesmo. Fizeram muito bonito nessa excursão. Foram duas ou três excursões que o Santos fez. Então, na verdade... Apesar de que o Rapha sempre cobriu varias áreas, de fato ele está bem ligado ao Santos. P/1- E nessas viagens ele viajava pela A Tribuna, mas com a equipe ou não? R- Com a equipe. Ficava lá hospedado junto com a equipe, agora, patrocinado pela A Tribuna. O fotógrafo e o redator, A Tribuna sempre patrocinou e quando era Copa do Mundo também, mas eles ficavam sempre em lugares perto da seleção Brasileira. Apesar que o Rapha corria outras delegações e tudo. Inclusive, na Inglaterra foi a Alemanha, né? Que ganhou? P/1- Isso. R- Ele, como ele é loiro de olhos azuis, ele foi para o vestiário dos Alemães. Eu acho que um dos poucos, o único fotografo que conseguiu entrar no vestiário, mas por causa do tipo que é claro. É isso que eu digo: ele ia atrás do que interessava. P/1- E como é que foi essa historia? Ele foi, chegou na porta do vestiário, como é que aconteceu? R- Entrou, entrou simplesmente, com a máquina... Loiro, olhos azuis, todos os fotógrafos deles estavam lá dentro e ele entrou, fotografou. Só não abriu a boca. (riso) Mas inclusive nessa época teve um senhor alemão que ficou muito amigo dele, não me lembro o nome, que depois fez um livro sobre o Pelé. Se ele não fez ele patrocinou o livro. Eu lembro que o Rapha telefonava muito, se comunicava muito, ele veio muito a Santos. Esse livro tem fotos do Rapha, é um livro sobre o Pelé. O Rapha sabe o nome dele todo e ele sempre lá do lado do Santos nas viagens. P/1- E quando ele voltava ele devia trazer certamente muitas histórias dessas excursões, casos pitorescos? R- Trazia, mas eu não me lembro assim. Ele contava muita coisa que acontecia mesmo, mas não me lembro, assim, de nada agora. (PAUSA) P/1- Isso não tem problema. De tanto acompanhar o Santos, certamente teve alguns momentos marcantes na carreira dele. A senhora seria capaz de lembrar algum, que ele tomasse como marcante? R- Não, não. Ele falou muito, normalmente... (PAUSA). Ele sabia que sempre que, principalmente na época que o Pelé jogava, que ele tinha que ficar lá no gol porque ia pegar alguma coisa bonita. Fato marcante foi quando o Pelé se machucou na Copa do Mundo no Chile. Foi uma coisa que ele sentiu bastante, pelo telefone ainda contou, mas não lembro assim de outra coisa que pudesse... P/1- A senhora falou, então aproveitando o gancho que a senhora deu, que quando o Pelé jogava ele ficava atrás do gol. Como que era o posicionamento dele em campo? Ele ficava em vários lugares, ele tinha algum lugar especifico que preferisse ficar? R- Não, não. Ele ficava atrás do gol ou mais para lá ou mais para cá. Já tinha tirado fotografia nesse ângulo? Ia um pouco para lá. Eu sei que os fotógrafos, acho, só podiam ficar atrás do gol, só podiam ficar atrás do gol. Inclusive, quando ele viajava a nossa diversão era procurar ele atrás do gol. (riso) Ou quando acabava o jogo, podia olhar que ele estava sempre correndo lá. Acabou o jogo, ele estava lá, logo na frente. Mas ele se posicionava também, ia para as laterais bater uma foto ou outra. P/1- Durante o jogo ele ficava se movimentando? R- Ficava, porque não é que nem hoje que tem lentes isso e aquilo. Naquele tempo era ele e ele só. Era o que ele encaixasse ali na máquina, não tinha... P/1- Seria aquilo até o final do jogo, até o final do evento. R- Até o final do jogo. Hoje não, ele mesmo chegou a ter... Como é? P/1- É, eu sei. As lentes. R- Objetiva, tudo. Mas bem para cá, mas ele ia lá com a sua maquininha. P/1- Como é que seu Raphael vê essa evolução do equipamento? R- Ah, ele sempre foi mudando. A Tribuna sempre cedeu os equipamentos e ele sempre comprou o que havia de novidade, de melhor. Isso eles... O que fosse de melhor é o que estaria ali. Então aquele equipamento todo, o conjunto de equipamento era daquele fotógrafo, era daquele fotógrafo. Cada um tinha o seu equipamento, mas sempre foi o jornal que deu tudo. P/1- Então, ainda voltando a alguns momentos marcantes. A senhora disse que não se lembra, mas tentar... R- É porque foram muitos, foi uma época áurea. (riso) Tem momentos marcantes que não tem a ver com o Santos, como a ocasião que o avião de um milionário (Jafe?) sumiu, caiu aqui na Bertioga. Sumiu na Serra do Mar e o Rapha foi um dos poucos que foi no local, se perdeu. Por isso que eu digo que foi marcante, porque ele se perdeu e até hoje ele sofre com o corpo daquele... Que o que ele pegou de bichinho naquela época... Teve que fazer um tratamento incrível. Ele pegou um mateiro que o levou e atrás dele vieram outros fotógrafos, jornalistas inclusive. O Rapha se perdeu, mas chegou lá no avião, fotografou, voltou, veio em casa, tomou banho, foi para o jornal e revelou a foto que saiu dia seguinte. Ele já tinha voltado, já tinha ido para o jornal quando o Zézinho irmão dele chegou em casa para me avisar que eu não ficasse preocupada, que ele estava perdido, mas que já tinha gente procurando, que ele estava bem. Eu digo: “Mas como perdido?”; “Não, ele foi, entrou na mata...”; “Não, o Rapha já voltou! Ele foi fazer o serviço já.”; “Como voltou?”; “Ele voltou, ele veio, tomou banho, gastou um litro de álcool no corpo e foi e já deve estar chegando, porque ele foi só para o laboratório revelar, dizer e voltar.” Este foi um fato bem marcante, porque o próprio irmão ficou abismado porque ele vinha para me avisar que ele estava perdido, como ele estava, ele tinha se perdido, mas tudo num dia só. Porque outros jornalistas ficaram a noite toda, mas ele não. Ele conseguiu pegar um mateiro bom. Esse foi um fato bem marcante. P/1- Isso aconteceu onde, dona Heliete? Aqui... R- Aqui em Bertioga, na Serra do Mar mesmo. O avião caiu, ele estava morto porque já estava sumido há dias. O avião e deu uma bela reportagem ________________________________ P/1- Com relação ao Santos, os títulos mundiais, por exemplo de 62, 63, jogos no Rio? R- Ele sempre acompanhou, sempre. Ele tem um arquivo do Santos, de fotos, fora de série, de anos Santos 1961, Santos 1972, 58, 57. Ele tem um arquivo. P/1- As fotos que não eram aproveitadas na A Tribuna ele guardava? R- Ele guardava. Inclusive, A Tribuna não aproveitava os negativos. Aproveitava o que saia e depois eles se desfaziam, porque também não tinha como guardar muita coisa. Sempre ficou com ele, porque o laboratório dele inclusive era dentro do jornal. Então eles é que revelavam, eles é que escolhiam tudo que ia sair e o que não ia e depois a A Tribuna... Até hoje acontece isso, mas mesmo fotografias... Hoje já não existe isso, aí já não é o Rapha, seria o meu pai. Eu tenho uma mala de fotografias do meu pai, porque antigamente o redator aparecia nas fotos, de costas, mas aparecia, aparecia entrevistando. Hoje não existe isso, há muitos anos não existe. O arquivo pegava: “Leva essas fotos.” Eu tenho fotografia do meu pai de 1935, 36 que também não posso me desfazer porque é uma coisa que... P/1- Documentos históricos. R- Documentos, porque inclusive são personalidades que estão ali sendo entrevistados. Também tem muitas dessas fotos que são do Rapha. A maioria, principalmente de 50 para cá. Mas é isso. (riso) Eu queria ter uma memória melhor. P/1- Imagina, dona Heliete. Está muito bom. Sou eu que acho que estou castigando um pouco. R- Não, não. P/1- Dando sequência ao meu castigo, um outro momento então, eu estou citando momento só para ver como que... Né? Se a senhora se lembra. R- Dá para desligar um pouco? Eu vou chamá-lo. Raphael- Eu tenho tanta coisa, Heliete. R- Mas alguma coisa que tenha marcado você, em alguma viagem? Raphael- Foram tantas coisas em seguida, assim, sabe? Que... P/1- São tantas histórias, né, seu Raphael? R- Tantas histórias que é difícil mesmo marcar uma coisa assim, é difícil. Eu acho que é assim, a coisa mais marcante, o que marcou mais foi acompanhar a carreira do Pelé... Raphael- A carreira do Pelé. R- Que se tornou o atleta do século, então. É por tudo aquilo que eu falei para você, pela humildade, por tudo. Alguma coisa assim em viagem com o Pelé que tenha acontecido com o Pelé, algum outro jogador. Eles faziam muitas brincadeiras. Raphael- E muitas coisas que aconteciam em viagem mesmo. O caso do Pelé, por exemplo, quando na Europa... (PAUSA) Eu tive que deixar de fazer um treino do Santos lá na Europa, treino do Santos na Europa. Estava marcado o treino e tal, para ir fazer um preparo físico, mas ele não estava bem de saúde para ir fazer um preparo físico com o técnico. O técnico do Santos era o Lula nessa época. Lula né? É Lula né? P/1- Lula. R- Lula Raphael- Então fiquei, deixei de ir fazer o treino do Santos para ir acompanhar o treino do Pelé, que tinha se machucado e estava muito mal. R- Tinha se machucado no jogo? Raphael- Não, machucado em jogo. R- Não foi numa Copa do Mundo? Foi da Seleção do Brasil? Raphael- Estava na seleção do Brasil, tanto assim parece que ele não jogou. R- Foi o que eu falei para você. P/1- Sessenta e dois? Raphael- Sessenta e dois. R- Isso eu tinha comentado. Raphael- Tive que ficar acompanhando, ao invés de fazer o trivial como a turma toda. Ficou lá de outros canais de televisão, jornal, enfim, ficaram, foram fazer o treino e tal. Eu, malandro velho, digo: “Não vou fazer o treino, o treino do Santos, e deixar de fazer o Pelé machucado.” Que ficou com... Não me lembro quem que preparou o treino para ele, que arremessava as bolas, isso e aquilo, de tudo quanto era jeito, para forçar mesmo. R- Mesmo assim ele não jogou. Raphael- Não jogou. Não tinha condições. P/1- Isso realmente foi algo marcante. Raphael- Marcante. P/1- O senhor chegou a fazer alguma foto desse treino físico do Pelé? R- Fiz, fiz. Mas para te achar isso aí... P/1- Ah, quanto a isso não tem problema. Raphael- Isso você marca... R- Na A Tribuna da época deve ter saído. P/1- Como o senhor mesmo disse, o senhor deve ter sido o único a fazer essa cobertura? Raphael- Fui, fui o único. Eu, ao invés de ficar lá no treino, quando soube do negócio eu digo: “Não, vou fazer o crioulo. E o resto é tranquilo, o Pelé...” Então, aquele negócio de jogarem a bola para o Pelé num canto, no outro, no outro fora do campo, fora do campo num “campozinho” de treino. O resto é cotidiano viu. P/1- Mas eu estava para perguntar para a senhora dona Heliete e agora aproveito os dois, do momento da despedida do Pelé. O senhor que acompanhou a carreira dele desde o primeiro treino, que a dona Heliete me disse que o senhor estava presente na vila quando ele chegou. Raphael- Quando ele chegou na Vila eu estava presente, quando ele chegou de São Paulo, do interior. Veio do interior e embarcou ali ao lado do ginásio do Santos, para treinar ele, trazido pelo Valdemar de Brito. O resto é o resto, viu! R- Inclusive eu contei para o Fábio que o pai do Pelé, “seu” Dondinho, tinha pedido para o De Vaney tomar conta do filho. Raphael- “De Vaney, deixo meu filho em suas mãos.” Não precisava nem pedir aquilo, porque o De Vaney era muito esforçado também e sabia da responsabilidade. Porque dizer aquilo foi dar uma ordem pro De Vaney. R- O De Vaney era um repórter esportivo que vocês devem ter entrevistado a família dele, mas ele tinha uma maneira toda peculiar de escrever. P/1- Escrevia para A Tribuna também? R- Escrevia para a A Tribuna, escrevia para outros jornais também, mas era da A Tribuna, trabalhava na A Tribuna. Aliás, o De Vaney não trabalhava nem na A Tribuna, ele trabalhava na casa dele, né Rapha? Ele tinha problemas, mas era para a A Tribuna que ele trabalhava. Raphael- É, ele fazia muita coisa na casa dele. R- A maior parte, porque o De Vaney era uma pessoa que dormia de dia e estava acordado à noite, mas ele tinha... Você pode pegar artigos que ele escrevia... Peculiar, era fora de série, dava gosto de ler aquilo lá. P/1- É um dos grandes jornalistas esportivos dessa fase. R- Aliás, prêmios. Nossa, os prêmios que o De Vaney ganhou... Ainda um dia desses peguei na mão um livrinho do Berlioz, músico. O livrinho já tem mais de cem anos que o De Vaney está autografando para o meu pai. Aliás, eu tenho muitas cartas do De Vaney para o meu pai. E ele sempre assinava “meu irmão”. Ele tem uma _______ que ele deu num aniversário para o meu pai, um livro que era da mãe dele e ele estava dando para o meu pai. ___________________ era fora de serie o De Vaney. Devem ter entrevistado ele porque ele tem um museuzinho De Vaney. Raphael- Ele tinha, ainda tem? Não sei se tem ainda? P/1- Tem. R- Tem. Raphael- Na (Nilton Prado?) parece. R- Não, ali na praça Washington, mas eu não sei se ainda é ali ainda. P/1- É na Washington Luís. Isso nós chegamos a consultar para fazer o levantamento. R- Não praça Washington eu acho que não é mais. Eu acho que passou para alguma coisa da prefeitura, está em outro lugar, não tenho certeza... Raphael- Vai tudo para o velho museu, velho museu eu digo do De Vaney. É velho, vai tudo ficar lá no futuro museu do Santos. P/1- A gente espera que sim, organizar um acervo mais amplo possível. Raphael- ___________________ ter conversado sobre esse material na mão com o filho do De Vaney. P/1- Não, ainda não conversamos com ninguém da família, mas claro que está nos planos, não tem como fugir. Raphael- É uma história muito grande, muito grande. O De Vaney é fogo. P/1- Vocês eram uma dupla boa, seu Raphael? O senhor e ele? Raphael- Nós formávamos uma boa dupla, modéstia a parte, sem excesso de carnaval. Carnaval só o restrito. P/1- Só os quatro dias de fevereiro. Raphael- É verdade. P/1- Ainda com relação ao Pelé, eu queria falar da despedida dele. O senhor se lembra como foi, o senhor se lembra como foi o momento da despedida dele? Raphael- Foi um jogo noturno. Justamente nesse jogo eu não fui. P/1- O senhor não foi? Raphael- Nesse jogo não, porque eu tinha tudo do crioulo. Nesse jogo... R- Foi no Rio não foi? P/1- O jogo da despedida? Não, foi aqui em Santos. Raphael- Foi em Santos. R- Foi contra o Vasco, isso eu me lembro. ___________________ nós estávamos em casa vendo o jogo pela televisão. P/1- Vendo pela TV. R- Todo mundo esperava o milésimo gol, estava difícil de sair aquele milésimo gol. P/1- É isso... E como é que foi? O milésimo gol o senhor estava lá? R- Não. P/1- Também não? Raphael- Milésimo gol é esse que ela está falando. R- É esse do Vasco. P/1- Certo, é que eu perguntei da despedida. R- Ele perguntou da despedida. P/1- O milésimo gol foi no Rio, isso eu sei. Contra o Vasco, exatamente. R- É, eu fiquei meio assim porque eu achava que tinha sido o milésimo. P/1- Não, o milésimo gol realmente foi no Rio. R- A memória às vezes me engana. É a despedida do Pelé. Também você não foi, quando ele se despediu do futebol, o último jogo dele. Raphael- Era dar muito cartaz para o Pelé. P/1- Era dar muito cartaz para o Pelé. Raphael- Fazer o milésimo gol que foi de pênalti se não me engano. P/1- Isso, exatamente. R- Não, não no milésimo. Ele está falando do último jogo do Pelé. Raphael- Do último jogo? R- É, quando ele disse que abandonaria a carreira:(PAUSA) que ele correu em volta do campo. Raphael- Muito cartaz pro crioulo. R- Mas você não foi nesse jogo. Raphael- Não fui, estava cheio já de Pelé. A ponto de não ir nesse jogo. R- Aliás, digo assim de passagem, o Rapha só foi em campo de futebol a trabalho. Raphael- Só R- Ele nunca foi num campo de futebol para assistir um jogo. Raphael- Para assistir não. R- Assistiu milhares, mas sempre a trabalho. P/1- Mas mesmo a trabalho o senhor viu coisas inacreditáveis. Raphael- Vi tudo, tudo. Inclusive um gol que eu não vi, perdeu a graça, todo mundo já esperava aquele gol. R- Mas o interessante era registrar o gol. Raphael- Esse jogo não lembro quanto foi. P/1- O jogo do milésimo gol? Raphael- É. P/1- Acho que foi dois a um para o Santos, se não me engano. Raphael- Na Vila mesmo né? P/1- O do milésimo? Raphael- É. P/1- O do milésimo foi no Rio, no Maracanã. R- A despedida dele foi aqui. Raphael- É isso aí. Quer dizer que você está trabalhando lá no Santos? P/1- É, fazendo o museu. Estamos tentando organizar uma coisa a altura do time. Raphael- Deve ficar uma coisa muito boa, viu. P/1- É. Como eu estava dizendo para a dona Heliete, além de precisar preservar essa memória, ainda mais se tratando do Santos, que foi um clube que ganhou tudo, tudo o que se podia disputar no futebol mundial o Santos conseguiu, então essa historia precisa ficar bem preservada. O senhor faz parte dessa história, com uma contribuição, assim, inenarrável. Raphael- Inenarrável. P/1- Já que a gente falou disso, então eu queria aproveitar para fazer uma pergunta que nós fazemos sempre para todos os nossos entrevistados que é: Como, tanto o Senhor, seu Raphael, como a dona Heliete, se sentem dando um depoimento para a história do Santos, para a preservação da memória do Santos? Como o senhores vêem isso, essa iniciativa? R- Eu me sinto privilegiada por isso, porque sou santista, nasci em Santos, vivi o Santos a vida inteira. Muito antes do Pelé e depois do Pelé mais ainda. A gente fica contentíssima de saber exatamente o trabalho que estão fazendo, que a gente vai embora e esse trabalho vai ficar aí. De mostrar o que o Santos significou para o Brasil e para o exterior. Raphael- Eu vejo o gol e essa despedida com a maior simplicidade do mundo. R- Não. A pergunta, Rapha, é como é que você se sente em relação... Raphael- Eu lembro de uma formação: José, Jau e Jarbas. Era a defesa, o goleiro e os dois beques. José, Jau e Jarbas. Mas era do Corinthians. R- Do Corinthians. Mas esse Jaú jogou no Santos também. Raphael- Jogou? Não lembro. R- Do tempo do Athiê? Raphael- No tempo do Athiê. É possível. R- Me lembro do papai falar uma formação, era tudo apelido um mais engraçado que o outro... Raphael- José, Jau e Jarbas. José, Jau e Jarbas. R- Ele lembra do Corinthians... Depois de tudo que ele passou no Santos, continuou corintiano. P/1- Corintiano, né seu Raphael? Raphael- Sou corintiano: (PAUSA) nunca neguei. Pelo contrário, eu peguei a fundo de mais até. Lembro desse jogo que eu fui no treino do Santos lá na Europa, o Santos ia se preparar para o treino e eu acabei ficando lá sozinho. R- Mas aí não era o Santos, era a seleção do Brasil. Raphael- Seleção do Brasil. R- Não era o Santos. Raphael- E só eu fiz, tenho as fotografias inclusive do técnico. Do técnico não, um auxiliar lá do Santos que foi preparar o crioulo lá, jogar bola para ele, defender de qualquer maneira, porque a situação do crioulo não estava boa não, estava muito mal. Mas se saiu bem. Eu acho que não tenho mais nada. P/1- Não tem mais nada seu Raphael? Raphael- Se eu for começar a contar, pelo amor de Deus! P/1- Leva três dias. Raphael- Três dias e três noitadas. P/1- Então, só para gente encerrar, vou fazer aquela pergunta que ficou faltando, que o senhor ia começar a responder e a fita acabou. Como é que o senhor se sente dando depoimento para o museu do Santos? Como o senhor vê a importância desse projeto? Eu queria que o senhor falasse um pouquinho sobre isso. O senhor que faz parte da história do Santos também. Raphael- O Santos eu lembro quando o Pelé chegou... Não sei se veio direto do interior para o Santos ou se chegou a treinar em São Paulo. Não, não treinou não. Ele veio direto para o Santos. Eu estava lá no Santos futebol Clube. R- Mas como é que você vê esse trabalho, Rapha? Raphael- Espera aí, Heliete. Deixa eu chegar lá. E em cima do Santos eu estava esperando, já sabia que vinha um crioulo aí famoso, não tão famoso como ficou depois. Vinha um crioulo aí, então eu estava nas sociais do Santos, na arquibancada do Santos. Eu vi a chegada do crioulo e fiz as fotografias até. Ele saindo do carro:(PAUSA) e depois no treino. Mas eu acho que foi um troço bacana, viu. Foi uma época bacana. P/1- E hoje, 50 anos depois... Raphael- Cinquenta anos depois estamos aqui conversando, estamos vivos, com saúde. P/1- Que é o que importa, né “seu” Raphael. Raphael- Eu não estou com muita saúde não, viu. R- Mas Rapha, a pergunta você ainda não respondeu. Raphael- O quê? P/1- Da importância que o senhor vê do museu. O senhor acha importante ter um museu para o Santos? Raphael- Ninguém é melhor do que o Pelé. R- Não, não é o Pelé, é o Santos. É um museu que vai ser feito sobre o Santos em geral. Raphael- Então, sobre a importância... R- Inclusive com esses que eu não me lembro o nome (risos), não me lembro o nome. Raphael- Eu também não lembro:(PAUSA) José, Jau... Bom foi um troço importantíssimo com tudo isso aí por alto que foi dito. Foi importantíssimo. P/1- Está ótimo. Então eu agradeço de mais a dona Heliete, ao seu Raphael principalmente. Raphael- Estamos às ordens, viu. P/1- Muito obrigado, senhor Raphael. Não só eu pessoalmente, mas tanto o Museu da Pessoa como o museu do Santos. Depoimentos importantíssimos para fazer parte desse nosso acervo aí, que sem duvida vai ficar muito mais rico agora. Obrigado, obrigado. Raphael- Você tem conversado, é lógico que deve ter conversado e muito com o filho do Pelé. P/1- Ainda não, com o Edinho? Raphael- Não. Não com o Edinho. Com o Edinho é lógico, você vai ter que conversar também. Com o filho do De Vaney. P/1- Também vamos conversar. Ainda não conversamos, mas vamos conversar. Ainda não chegamos a procurar. Raphael- E o Álvaro tinha boa memória, não sei como é que está agora. Ele está lá dentro do Santos. P/1- Está no Santos? Raphael- Na prefeitura, mas é junto com o Santos ali. Está na prefeitura como diretor da receita. P/1- Isso é bom saber. Raphael- Um menino também de muito valor, mora a umas três ou quatro casas, menos do que isso. E o pai do Pelé, é lógico. Tudo isso aí eles vão conversar. P/1- Ah, vamos. Certamente. A ideia é justamente essa, de procurar o maior número possível de pessoas que estão ligadas de alguma maneira a história do Santos para poder reconstituir tudo isso. Raphael- Se eu lembrar de alguma coisa, assim, muito importante que não tenha me lembrado aqui na hora, eu te ligo. P/1- Por favor. É de extrema importância para a gente. Eu agradeço uma vez mais então. Raphael- Porque é fogo assim na hora. P/1- Não claro, mas só o papo já vale.

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