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História

O quintal de meu pai

História de: Vera de Assis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/01/2020

Sinopse

Vera conta sobre as raízes festeiras de sua família por parte de pai e mãe, e como sua casa estava sempre cheia de pessoas a fazer serestas e rodas de cantoria. Conta sobre sua paixão desde a tenra idade para com a música e a dança. Em seguida, descreve o nascimento da quadrilha junina de sua família: os primeiros Arraiais, a montagem do figurino, da coreografia, das músicas, etc. Narra sua carreira acadêmica e profissional na Telefônica e as razões de sua aposentadoria. Por fim, fala de como conheceu seu marido Ademir, o nascimento de seus filhos e canta uma música em homenagem ao esposo.

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História completa

intal de meu pai” Papai conquistou mamãe, de uma certa forma, cantando. Tinha o coral Congrego Mariano, inclusive os Congregados Marianos cantaram no casamento dos dois, foi uma coisa linda, maravilhosa. E ele tocava violão e fazia seresta, ele fazia seresta para ela e tudo. Conquistou mamãe desse jeito, papai era seresteiro, minhas cantigas de ninar foram de seresta. Eu vivia no colo do papai e papai cantava aquelas músicas, eu aprendi essas músicas antigas todas, do Nélson Gonçalves, Vicente Celestino, essas músicas todas assim de que ele gostava... “Amo-te muito”, tudo. Ele cantava comigo no colo e eu cresci ouvindo essas músicas. Depois ele foi participar de um grupo de seresta, que ele solava divinamente, a coisa mais maravilhosa, mas ele não sabia acompanhar, resolveu aprender a acompanhar com a professora. Entrou na escola, conheceu um monte de gente, fez um grupo de seresta e todo aniversário dele, que era 14 de junho, ele fazia aqui e era feito com essa turma toda no quintal: bandolim, cavaquinho, violão, viola, pandeiro. Vinham os amigos dele da igreja, porque ele era Ministro da Eucaristia, não é? Vinha todo mundo para cá e fazia esse aniversário dele. Eu sinto que esse quintal tem uma energia muito grande. Toda vez que eu preciso, assim, sentir mesmo, me ver, voltar para mim, eu sento ali, às vezes, naquele quintal, e fico olhando lá. Somente à noite fico lá, caladinha, observando, observando, pensando: “Meu Deus, quantas histórias esse quintal tem”. De alegria e de tristeza, não é? Ali mamãe fazia, também, fogueirinha de São João, de Santo Antônio, o papai colocava batata-doce para assar debaixo da fogueirinha. Ainda podia colocar fogueirinha, assim, não é? Porque não tinha vizinho para reclamar, era mato ali, mato no Sul... Então, colocava a fogueirinha e colocava batata-doce. Era gostosa a batata-doce assada na fogueira, era gostosa. Ali a gente brincava de roda, brincava de tudo... Colocava palco, tudo era ali. Os ensaios do grupo começaram ali, ali é o princípio de tudo. No aniversário dele - um dos aniversários dele - padre Antônio Gonçalves, que era o nosso vigário aqui... Papai era Ministro, dirigia o grupo de jovens, todo mundo aqui, a rua inteira, a família inteira... Todo mundo na festa dele... Ele sempre gostou de fazer uma canjica e quentão. As coisas que ele tinha, oferecia para todo mundo. E cantava, dançava, brincava de quadrilha, e padre Antônio deu a ideia: “Por que vocês não montam uma quadrilha meio de verdade? A gente podia fazer uma competição de bairro”. Então nós fizemos, montamos. Nesse ano mesmo nós dançamos, montamos em junho e eu que fiz a coreografia todinha da quadrilha, com 21 passos. Nunca tinha feito coreografia de quadrilha. Nós montamos com todo mundo aqui e fomos competir. Montamos coreografia, ensaiamos todos os dias, para nós era uma festa. Mamãe fazia pipoca para todo mundo. Às vezes, rolava pipoca no intervalo, no final, antes... Era o tempo todo o ensaio. Aí, nós fomos nos apresentar na Feira Coberta do Padre Eustáquio. Hoje tem um movimento cultural lá. Lá teve um concurso de quadrilha, com quatro grupos. Aí, ganhamos em primeiro lugar. Isso foi em 1978. Em 1979 fizeram o primeiro Forró de Belô, lá na Praça da Estação, que é um lugar muito sagrado para nós, com relação ao movimento junino. De 45 quadrilhas, a nossa quadrilha foi a campeã. Nós nunca imaginávamos isso. Foi tão emocionante, porque nós fomos lá para participar, a Belo Horizonte inteira fez inscrição. Chegamos lá e era assim: três dias direto, no último dia sobraram três. Eram vinte minutos para cada grupo e eles colocaram as três para dançar dez minutos cada uma. Quando nós dançamos - a gente não tinha torcida - mas todo mundo começou a gritar: “Já ganhou, já ganhou, já ganhou”. E nós fomos crescendo, fomos crescendo e apresentamos. A hora em que fizemos o passo da minha coreografia, que eu tinha feito, do pessoal rodar, girar assim, gritaram: “Já ganhou, já ganhou”. E quando falaram o primeiro lugar, nós ganhamos. Nossa, você não imagina, aí foi a glória. Nós choramos, fizemos a volta olímpica lá na praça, carregamos o papai, jogamos ele para cima, jogamos como fazem com técnico de futebol... Jogamos para cima e ele quase caiu. Aí, ficamos lá, depois começou o show, começou todo mundo a dançar forró, chegamos em casa seis horas da manhã.

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