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História

O querer é mais forte que o poder

História de: Rita Maria de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2009

Sinopse

Rita cresceu no interior do Ceará, fazendo artesanato a partir da carnaúba para auxiliar na renda familiar e poder manter os estudos. Ao crescer, Rita trilhou o caminho do magistério e, ao mudar-se de Santana do Acaraú para Tururu, envolveu-se com a comunidade e esteve presente na formação de uma associação para beneficiamento do caju.

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História completa

P/1 – Dona Rita, boa tarde. Obrigada pela entrevista.

R – Boa tarde.

P/1 – Pra começar eu gostaria que a senhora dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – É Rita Maria de Oliveira, eu nasci na cidade de Santana do Acaraú no dia 3 de dezembro de 1954.

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

R – Geraldo Henrique Araújo e Terezinha de Jesus Araújo.

P/1 – E qual era a atividade do seu pai, da sua mãe?

R – Agricultura.

P/1 – Todos os dois?

R – Todos os dois.

P/1 – E a senhora lembra o nome dos seus avós?

R – É, os avós paternos eram Pedro Henrique de Araújo e Maria José Cavalcante, e os avós maternos eram João Pedro de Araújo e Rita Maria de Araújo.

P/1 – E a senhora lembra, assim, qual a origem deles?

R – Não.

P/1 – A senhora sabe se eles já estavam por aqui?

R – É, já estavam, eles moravam todos em Santana do Acaraú, mas todos eles são cearenses, tenho certeza.

P/1 – E o que eles faziam?

R – Todos eles eram agricultores.

P/1 – E irmãos, a senhora tem irmãos?

R – Tenho, tenho, é, sete irmãos.

P/1 – E lembra o nome deles, assim?

R – É, tem o João Batista, Albanir, José Albanir, tem  o Francisco Sidnei, eu tenho a Ana Albanisa, Maria Aurineide, Maria do Livramento, Maria Eliane, Maria da Conceição.

P/1 – A senhora falou que tanto seus pais quanto os avós eram agricultores, né, e o que plantavam?

R – Eles plantavam milho, feijão, lá no sertão eles costumavam plantar o milho, o feijão e o algodão na época, aí como aconteceu aquelas pragas do bicudo que apareceram no algodão aí foram deixando de plantar o algodão e foram cultivando mais o milho e o feijão porque lá é o sertão, a gente viveu mais do milho e do feijão. Aí no final do ano, setembro e outubro, eles plantavam nas vazantes do rio e sobreviviam dessas vazantes onde eles vendiam o feijão pra ganhar mais dinheiro, né, porque milho e feijão só dava pro consumo da família no inverno, aí então, também tirava palha de carnaúba que era também uma cultura muito, que dava muito rendimento pra manter a família nas outras coisas além da subsistência.

P/1 – O que faziam com a palha da carnaúba?

R – Da palha da carnaúba eles tiravam o pó que eles vendiam, faziam cera da cera da carnaúba e vendiam e também faziam da palha o chapéu, a bolsa, aquele surrão que colocava rapadura, farinha.

P/1 – Isso era mais ou menos que época? Que idade a senhora tinha quando...

R – Isso aí era na época de 1960, por aí.

P/1 – A senhora era pequenininha.

R – Era pequenininha.

P/1 – E lembra disso tudo?

R – Lembro. Eu fiz muito chapéu da palha de carnaúba, inclusive eu sei fazer tudo da palha de carnaúba, eu aprendi lá.

P/1 – Pequenininha?

R – Pequenininha, vendia, todo dia a gente fazia chapéu de dia, ia pro colégio de manhã e quando chegava era pra fazer aquele chapéu já pra ajudar. Quando não ia plantar, ia colher, porque geralmente o pai só levava nós pra plantar e pra colher quando o serviço era mais maneiro, né, não deixava que a gente capinasse com a enxada porque se tornaria muito pesado. 

P/1 – Então, assim, criança a senhora não lembra da senhora trabalhando? Tenta falar um pouco mais de como é que foi a infância da senhora.

R – É, minha infância foi, não teve, assim, infância, a minha infância era trabalhando, ajudando pra, porque foi assim, sempre eu pensei muito em estudar, eu tinha muita vontade de estudar e meu pai não tinha condição de estudar porque lá depois do primeiro, segundo, terceiro e quarto ano a gente ficava na escola da Cnec [Campanha Nacional de Escolas da Comunidade] que a gente tinha que contribuir, era tipo particular, não era particular, porque não era tão caro, a gente tinha que contribuir, aquela contribuição pra pagar todo mês, então como a gente não tinha, a gente tinha que fazer qualquer atividade que rendesse alguma coisa pra poder ter aquele dinheiro pra pagar, e aí a gente se juntava à família pra trabalhar e ajudar o papai a pagar nossas escolas.

P/2 -  Dos sete filhos a senhora era qual? A mais nova, a mais velha?

R – Sou a mais velha de todas.

P/1 – Então a senhora praticamente era, ajudou muito em casa, né?

R – É, ajudei muito em casa. 

P/1 – Deixa eu só, antes de entrar na escola mesmo, a senhora lembra como era sua casa, assim, pra descrever pra gente?

R – Meu pai tomava conta de um terreno que não era dele, ele tomava conta de um terreno de um cidadão lá, era uma casa grande de alpendre, muito cheio, era muito participada, meu pai sempre teve as portas abertas pra todo mundo, a casa vivia sempre cheia, a gente teve, era muito assim, muitos amigos, a gente teve, era uma família, todo mundo ali ao redor se tornava uma família ali naquele aconchego, sempre tinha, dividia tudo que a gente pegava dividia com os outros, era aquela amizade perfeita.

P/1 – Era grande, tinha quintal?

R – É, bem grande, tinha quintal, tinha um açude em frente.

P/1 – Como que era o açude?

R – Era, a gente saía, assim, e logo logo chegava o açude, a gente pescava, era aquela, era muito divertido, é, foi uma infância, assim, trabalhando, mas uma infância que a gente tinha esse aconchego, sabe, teve essa palha, essa união, não era aquela infância que, eu não brinquei de bonecas como as outras meninas, sacou, né? Mas eu tive esse aconchego, esse carinho de todo mundo.

P/1 – E tinha planta, como que é isso?

R – É, as plantas geralmente eram, assim, essas de frutas, né, tropicais. Era, tinha bananeiras perto do açude, goiabeiras, graviola, de cada uma a gente tinha duas ou três plantas que iam só pra manter a família.

P/1 – Quando a gente fala em sertão, assim, né, a gente pensa numa vegetação diferente, mas... como era isso?

R – A vegetação era o marmeleiro e quando chegava no verão, na época da, no inverno tudo folhado, ficava tudo verde, a coisa mais linda, aí no verão era tudo tão seco que a gente olhava e não tinha uma folha, só aqueles garranchinhos em pé. Tudo seco, o sol chega “tremia” por pé.

P/1 – Quando secava como é que vocês faziam, assim, com a água, como que era isso?

R – A água era mesmo desse açude que a gente tinha, né, tirava, era sempre, bebia desse açude, tinha o maior cuidado em deixar todo mundo pescar, não deixava lavar roupa, era pra não ter água suja, né?

P/1 – Vocês nunca chegaram a ver ele secar?

R – Não, nunca vi ele secar, sempre tinha água, até nos 1958 papai falava, eu não lembro porque eu era muito pequena, mas meu pai dizia que foi o único ano que viu ele secar, que até ficava tudo apavorado, os peixes morrendo naquele pouquinho de água, aquela lama, eu nunca vi, eu não presenciei, porque eu era muito nova e não lembro, né, talvez eu tenha visto mas não lembro.

 

P/1 – E, assim, se a senhora fosse contar aqui pra gente, aliás, a senhora vai contar pra gente, como que começava o seu dia? Que horas a senhora acordava, o que a senhora fazia, como era um dia da senhora nessa época?

R – É, eu acordava muito cedo porque nós éramos duas irmãs, eu, as duas mais velhas, eu e a Conceição, que fazia o trabalho de casa né, ajudava mamãe, e nós tínhamos que sair pra colher sete horas então nós tínhamos que acordar muito cedo pra ajudar a mamãe no trabalho de casa, porque papai sempre trabalhou com trabalhador, né, na palha de carnaúba, ou mesmo que fosse no roçado, ele sempre tinha trabalhador, né? Aí a gente acordava cedo pra ajudar mamãe pra poder sair pro colégio sete horas, sete horas  a gente tinha que estar na escola já, então tinha que acordar cedo.

P/1 – E aí, durante o dia o que vocês faziam?

R – Aí durante o dia quando a gente chegava da escola a gente ajudava a mamãe e depois a gente fazia chapéu pra vender pra ter o dinheiro pra no fim do mês ter como pagar a escola.

P/1 – Agora deixa eu entender essa escola. Como era o nome mesmo?

R – Era uma escola, era o Cnec, era o Colégio Santanense, hoje é Centro Educacional Santanense, acho que ainda existe lá em Santana do Acaraú, o colégio da Cnec, centro de escola da comunidade, e era um colégio muito, que a gente tinha muito respeito, era um colégio que eu quero muito bem aliás foi onde tudo que eu sei eu aprendi lá, porque o resto que a gente aprende em universidade a gente só reforça o que a gente já aprendeu nas escolas, nas primeiras.

P/1 – E como era sua escola? Que imagem vem na sua lembrança da escola?

R – Era uma escola muito rica de pessoa humana, de...

P/1 – Era grande?

R – Bem grande, era um pessoal tão bom, tão amigo que eu lembro que eu estudei lá os primeiros anos aí eu me casei, parei de estudar porque daí fui (dandar?) minha casa e quando eu já tinha três meninos aí eu decidi.

P/1 –Peraí, a senhora já vai voltar nisso, mas a senhora vai voltar na escola antes. Aí quando a senhora ainda tava estudando, assim, a senhora lembra o que a senhora mais gostava de estudar, se tinha alguma professora, que sempre a senhora lembra com carinho?

R – Um professor, professor Galvino Arcanjo e a Maria José, que era professora de matemática, Maria José Cavalcante, ah, eu amava essas duas cadeiras.

P/2 - A senhora era boa aluna?

R – Fui, sempre fui boa aluna, graças a Deus [risos].

P/1 – E porque a senhora lembra desses professores?

R – Porque eles marcaram na minha vida, né, o Galvino sempre sabia da minha dificuldade de estudar, da falta de recurso, e ele sempre me deu apoio, sempre me ajudou.

P/1 – E amiguinhos, a senhora tinha muitos amiguinhos? Brincava na escola?

R - Tinha, a minha sala era completa, nós somos, eu comecei lá a estudar, a gente começou com 56 alunos e terminamos a oitava série com 24, mas perdemos, dois alunos a gente perdeu na caminhada, morreram, na caminhada dos oito anos, a gente sofreu muito por isso, mas eu fui lá, a gente foi, eu vivi um momento muito feliz nesses oito anos, a gente era em 24, terminamos 24 irmãos, nós começamos 56 irmãos e ao longo do caminho nós fomos perdendo colegas, mas a gente terminou 24 irmãos e nunca esquecemos os que a gente perdeu na caminhada.

P/1 – Essa perda tem alguma relação com o trabalho, com a escola?

R – Não, não teve tanta relação com o trabalho, é porque, assim, você sabe que tem muita gente que quando a dificuldade começa a bater aí eles desistem né, não tem essa, aí a gente, todos nós éramos filhos de pais pobres que tinham dificuldade pra trabalhar, que tinham dificuldade pra colocar os filhos, ter aquele dinheiro pra pagar todo mês, até a alimentação às vezes faltava por conta da, o Ceará é cheio de secas, aí quando não tava seco, sertão seco é uma calamidade, né, “cê” sabe, aqui onde eu moro hoje tem sempre, chove, tá seco, foi seco, lá no sertão foi seco total, aqui dá sempre aquele pouquinho que a gente se mantém mas lá não, lá era seco, era seco mesmo. E a gente passava muita necessidade e ao longo, por conta dessas secas, dessa falta de alimentos, dessa falta de dinheiro eles iam se perdendo no caminho, deixando de estudar e aí ficavam só aqueles que eram persistentes mesmo, como eu, eu fui muito persistente pra estudar, graças a Deus hoje eu tô contando vitória, mas eu fui muito persistente.

P/1 – Deixa a gente entender um pouco assim, porque pra gente é um aprendizado isso. Quando a senhora fala seca, seca mesmo de passar fome, assim, tem alguma cena que a senhora lembra pra poder                                             exemplificar?

R – Tem, eu lembro, foi no ano de 1966, não, foi 1966, é, eu lembro, foi tão seco que não dava uma chuva assim, as chuvinhas não molhavam nem o chão, era assim tudo demais mesmo, eu não sinto, não foi uma cena muito, eu não passei fome, eu graças a Deus nessa história aí, nessa caminhada eu nunca passei fome, porque o meu pai ele trabalhava com a carnaúba e ele tinha um senhor que trabalhava pra ele lá em Santana, esse homem, Seu Zé Olavo Fonteles, pai do Dr. Ari Fonteles, pai do Dr. Francisco, da Arleide, do Armando Fonteles, que ele dava todo apoio ao meu pai, ele guardava o pó da carnaúba aí quando era, assim, um ano de seca ele dizia assim “Você vai trabalhar fazendo cera pra vender. Você vai trabalhar pra mim agora, fazendo cera da carnaúba pra vender.” Então o meu pai nunca teve dificuldades, porque ganhava, né, na época do inverno, mas teve pai de família, o meu pai mesmo antes de trabalhar pra esse homem ia passar a época do inverno no Maranhão, no Piauí, porque não tinha lá como sobreviver, era difícil, muito difícil, hoje a gente já tá com outros governos, assim, muito mais compreensíveis, né, então não tem mais tanta dificuldade como era antes.

P/1 – Agora, assim, a senhora jovem com toda essa situação com a escola, a senhora chegava a ter algum momento de lazer, de divertimento que a senhora se lembre?

R – Tinha, na escola também, as colegas, a gente se reunia, fazia piquenique, quando chegava o caju a gente se reunia embaixo de uns cajueiros, na frente da nossa escola tinha uns cajueiros lindos, a gente fazia lá as brincadeiras, os piqueniques, era muito divertido, muito mesmo. A gente, quando os nossos colegas estavam fracos, eu tinha uma colega que chamava Dedé, ela hoje é a esposa do Secretário de Saúde do Estado, e aí quando a gente...

P/1 – É, aí, a senhora quer tomar uma água? Vamos parar um pouquinho.

P/1 – Então a senhora estava falando da Dedé.

R – Sim, a gente, quando a gente percebia que a turma tava fraca em matemática, em inglês, a gente dividia a turma, fazia duas salas de aula, a gente ia brincar de dar aula até que recuperava todo mundo.

P/1 – Que bonito, coisa bonita.

R – Foi assim que a gente viveu, a vida toda lá a gente estudou assim, éramos muito amigas.

P/1 – A senhora lembra de alguma festa tradicional aqui da escola, da região onde a senhora morava, tem alguma festa, assim?

R – Lá onde eu morava tem a Festa de Nossa Senhora de Santana, em julho, a festa tradicional, a festa que traz muito turista, é uma festa muito participada, e aqui a gente tem, em maio a gente tem as festas. O mês de maio todinho é comemorado, aí quando chegam as festas do final do mês, eles fazem uma festa dançante, aquela coisa, e também tem a festa da Nossa Senhora da Natividade que é em setembro, dia oito de setembro.

P/1 – E o que acontece nessas festas aqui, que atividade que tem?

R – É festa religiosa, aí tem aquelas novenas, aquele novenário, leilão, é, aquelas promoções da igreja e isso envolve todo mundo, participam, agora aqui na nossa Associação todo ano a gente comemora no dia nove de julho o aniversário, inclusive eu tenho até o DVD desse ano, foram os 25 anos, a gente fez uma festa muito grande, muito bonita.

P/1 – O aniversário da Associação?

R – Da Associação.

P/1 – É, a gente vai querer saber dela já, já. Deixa eu voltar aqui, quando a senhora falou que vocês brincavam de escola, né, pra ajudar, é daí que vem a ideia da senhora ter estudo, assim, porque a senhora se formou, né? Como é que foi isso?

R – É, eu sou professora. Não, eu sempre sonhei em ser professora, eu sempre pensei que era a minha vocação ser ou professora ou médica, eu acho assim, pra mim ser professor ou ser médico é construir vida, é criar vidas, é alimentar vidas, é salvar vidas, eu acho que eu sendo professora eu estou salvando vidas quando eu tô  dando aula, que eu estou tentando corrigir o meu aluno e não deixar que ele, é, formar pra profissão, não deixar que ele caia na marginalidade eu tô, é, salvando vida da mesma maneira que um médico salva vida lá nos hospitais, por isso que eu gosto muito, são duas profissões que eu admiro muito e que eu queria uma das duas, como médica era muito difícil, eu já estava suportando, aí eu fui e apelei pra professora.

P/1 – E como é que foi isso pra senhora?

R – Ah, foi muito gratificante, hoje eu digo assim, eu tô com 25 anos que eu trabalho numa escola, tô fazendo agora e eu estou pensando assim, sair da escola o que eu vou fazer? Mas eu me apeguei muito aqui, eu acredito que aqui eu tô  fazendo a mesma coisa que na escola, eu trabalho com jovem, e a juventude pra mim é tudo, eu acho que é um passo mágico ali, tudo eu consigo com a juventude, é demais, você vê o trabalho aqui,  só jovens são 25, é muito bom, gratificante demais, a gente tá aprendendo, tá aconselhando, eles obedecem a gente, quando eles se apegam à gente eles dividem aqueles segredos, aquelas coisas que eles não dividem com os pais, eles chegam pra gente e vai dividir, pede um conselho, e isso é muito gratificante, sou muito feliz com a minha profissão.

P/1 – Teve uma época na vida da senhora que a senhora teve que mudar de uma cidade pra outra, não foi?

R – Foi, eu vim de Santana pra cá.

P/1 – Porque foi essa mudança?

R – É porque na minha cidade, quando eu terminei o segundo grau, eu não tinha, eu me sacrifiquei muito pra terminar o segundo grau, aí o meu esposo foi sempre uma pessoa, eu me casei com uma pessoa que não correspondia, assim, ao que eu fazia pela família ele também não correspondia, entendeu, era uma pessoa, assim, desligado, não tinha nenhuma responsabilidade pela família, aí saiu pra trabalhar pra cá em Carnaubal, sabe, aí quando foi 1980 ele veio pra cá e eu fiquei terminando meu segundo grau, foi em 1981, no dia 22 de janeiro eu tive que mudar pra cá, porque lá não tinha trabalho pra ele e aqui ele conseguiu um trabalho e a gente tinha que vir, e também pensando na possibilidade de eu trabalhar aqui, porque aqui era uma cidade de interior, mais pequeno e as vagas na escola tinham mais chances, né, eram maiores, aí então eu vim, como de fato, eu cheguei aqui em 1981, em 1983 comecei a trabalhar na escola. Foi feito um concurso público e eu fiz o concurso, passei, e hoje ainda estou na escola.

P/1 – Ah, a senhora lembra como foi o primeiro dia que a senhora entrou na sala pra dar aula?

R – Ah, foi muito gratificante, eu achei tão, o maior sonho da minha vida, né, era estar numa sala de aula, cheguei, eu fui ensinar uma turma pré-escolar ainda, a coisa mais linda do mundo, eu entrei, a sala era tão numerosa, 56 crianças, tudo esperando por mim, aí eu cheguei, tinha criança que saía de casa sem, aí eu comecei, né, as crianças eram difíceis, tinha criança que, é, não recebia a gente, não como mais outros, assim, mais rebeldes, mais caladas, então eu comecei a me aproximar dos pais, porque eu acho que educar é se familiarizar com cada família da criança, porque como é que eu educo uma criança que eu não sei de onde ela veio, como é que ela, como é que eu posso trabalhar com ela, que quando eu sei de onde ela saiu, como foi, como é que tá sendo a vida dela, como é a relação com os pais e com as famílias eu vou ter muito mais chances de eu educar aquela criança, então eu comecei a conversar com a mãe desses alunos, fazer reuniões e consegui, no final do ano tava todo mundo lendo, graças a Deus. Tinha criança que saía de casa obrigado, chegava em casa e não dava nem uma palavra, nem uma palavra na escola, fazia todas as atividades e ele não queria, fazia círculo no chão, dava o giz, riscava o chão, riscava, riscava, riscava, aí dava evasão, aquele sentimento todinho, aquele risco que começava a participar da atividade, e é muito gratificante.

P/2 – Quantos anos a senhora tinha quando deu a primeira aula?

R – Foi em 1983, eu sou de 1954, né, “ixi”, 29 anos.

P/1 – Vinte e nove? Ok. É, agora conta pra mim, quando a senhora saiu lá de Santana do  Acaraú e chegou pra cá, qual foi a primeira, o que te chamou mais atenção quando a senhora chegou aqui, qual a dificuldade, como é que foi?

R – Dificuldades foram muitas, como eu já disse a vocês meu esposo não era uma pessoa com muita responsabilidade, aí ele bebia, e como, na realidade hoje eu vivo separada dele, faz quase 15 anos que a gente vive separado, aí ele bebia e eu cheguei aqui com os meninos todos pequenos, né, eu vim de lá eu tinha quatro filhos já, o mais novo com sete meses de nascido, e aí passei muita dificuldade na minha vida, sem trabalho, dois anos sem trabalhar e quando eu comecei a trabalhar na escola da prefeitura também ninguém ganha muito bem, mas eu nunca abandonei a agricultura, comecei a trabalhar, meus filhos todos pequenos trabalharam também junto comigo, meus meninos não tiveram infância, assim, pra brincar, são hoje dinâmicos, trabalhadores, mais nunca tiveram infância também, isso eu reconheço, meus filhos trabalharam o tempo todo pra ajudar em casa, mas foi muito difícil. Quando eu cheguei aqui eu passei muita necessidade, não passei fome o dia todo, mas quando eu me via sem nada eu chegava na casa das senhoras que tinham mais condições “Ei, me dê uma roupa pra eu lavar pra dar de comer ao meu filho que eu não tenho hoje como comprar pão”, aí eles me davam roupa, eu ia pro rio lavar roupa, muitas vezes eu pegava com eles o dinheiro adiantado pra deixar comida em casa pra eles não passar fome, foi difícil, mas hoje eu graças a Deus sou vitoriosa, porque meus filhos são muito bons pra mim.

P/1 – E como que a senhora se envolveu com essa coisa, dando aula, professora, se envolveu com esse negócio do caju?

R – Ah, aí quando eu estudei, como eu disse a vocês, eu estudei em Santana do Acaraú no colégio da Cnec, colégio da comunidade, colégio comunitário, aí aquele espírito parece que ele nasceu dentro de mim, eu acho que isso é nato, mas eu acho que isso aprofundou, né, aquilo, quando eu estou junto no grupo é a coisa mais feliz da minha vida, eu não gosto de estar só, eu disse que se for pra eu morrer, eu não quero morrer só, quero morrer junto de muita gente. Aí eu cheguei aqui, né, começou, a gente começou a conversar com as pessoas, eu cheguei em 1981 e fiz logo muitas amizades, porque eu graças a Deus sou muito boa pra fazer amizades, aí a gente começou “Vamos fazer uma Associação?”, aí tinha uma pessoa da Ematerce [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará], a Ivonilde, a Maria Ivonilde Abreu, ela é da Ematerce, e ela era (esticionista?) aqui.

P/1 – Era o que?

R  - Esticionista da Ematerce aqui, né, ela faz um trabalho com agricultura, é, incentivando a agricultura, era um trabalho do Estado, ela era pelo Estado, o pessoal dizia até que eles eram soldados do governo, né, na nossa comunidade. Aí a gente começou, ela começou a visitar a gente, fazer amizade com a gente, e “Vamos criar uma Associação, porque pra vocês é muito mais fácil pra gente trabalhar”, aí a gente começou, nós nos unimos, começamos a nos reunir na Igreja da Matriz aqui da _____________, nós não tínhamos onde nos reunir, aí começamos a conversar, fomos trazendo um daqui, um dali e formamos uma Associação lá na Igreja da Matriz, criou –se a Associação no dia nove de julho de 1983, dois anos depois que eu tinha chegado aqui. Aí era tudo muito bom, aí essa menina era muito dinâmica, corajosa, no dicionário dela não tinha “não posso”, “é impossível”, tudo pra ela era possível, o que eu mais admirava nela, que eu admirei muito nela é porque tudo era possível, tinha um obstáculo bem grande ali na frente e ela dizia “Não, nós vamos passar”, não tinha nada que a impedisse. Aí a gente se uniu e passamos por todos os obstáculos, logo logo a gente começou, fez a eleição, foi feita a primeira diretoria, e tudo na igreja as reuniões. Aí foi que um cidadão, Seu Francisco Moreira Barbosa, ele era vereador, que ele foi vereador daqui por 26 anos, aí esse terreno aqui era dele, aí ele doou um hectare de terra pra fazer o patrimônio da Associação, passou papel, documentou e doou pra gente, aí a gente começou, né, aí foi que apareceu o Banco do Brasil com o programa Fundec, Fundo de Desenvolvimento Comunitário, aí “Vamos investir nessa Associação”, eles viram que a gente tinha nascido, assim, espontâneo, com uma vontade de estar junto, então o banco veio lá e veio investir na gente. Aí trouxe um projeto, a gente fez um empréstimo lá no banco, construímos esses prédios todinhos que tem aqui, foram todos construídos com o dinheiro do Banco do Brasil, aí a gente ficou trabalhando. Na Fundação Banco do Brasil foi criado um programa também pra ajudar nas comunidades e a Fundação Banco do Brasil também se fez presente, aí pronto, a gente começou a trabalhar junto, essa mini fábrica era pra fazer cajuína e doce, nós pensamos porque o nosso maior sonho é ter um aproveitamento pra esse __________, você tá vendo que num país onde a gente passa fome a gente vê um monte de caju desse estragado, isso, é, sei lá, chama a atenção da gente, dói na minha consciência ver isso aqui estragado, e desde que a gente começou essa Associação a gente começou pensando em aproveitar esse ______________. Aí a gente foi pra lá e fizemos uma fábrica de caju e doce, só que naquela época a gente fazia, existiam os movimentos sociais mas não existia essa história de capacitar as pessoas, né, eles não pensavam, esse pessoal vinha jogar dinheiro lá na mão do produtor, eu tô  trabalhando, ajudando, mas não tinha capacitação, né, aí a gente ficou, ficou assim, um elefante branco sem uma capacitação, e nessa Associação quando foi criada a primeira diretoria eu não participei mas da segunda diretoria eu já fui a secretária da Associação, nunca perdi uma reunião. Ontem tinha uma reunião lá em Fortaleza, lá onde fosse a reunião que precisasse a Associação ir, eu ia, o dia que fosse, eu ia, aí eu sei que a gente ficou nessa história todinha, pagamos o empréstimo, porque teve aquela história da queda do dinheiro, né, de cruzeiro pra cruzado, caiu muitos zeros, nós pagamos com 12 cruzados, aí pronto, muito material, compramos muita telha, fizemos os prédios todos, foram todos feitos em mutirão, só foi comprado o material, todo esse prédio aqui foram feitos pela comunidade unida trabalhando, era uma festa, muita gente fazendo uns panelões de comida, aí todo mundo trabalhando, na hora do almoço era uma festa mesmo, era bom, participativo, era ótimo o trabalho aqui, aí a gente ficou também, nessa época esse mesmo cidadão, o Seu Francisco Barbosa era amigo do governador Adauto Bezerra, era muito amigo dele, aí ele foi lá com pena de ver todo mundo trabalhando sem ganhar nada aí foi lá, ele, o Adauto Bezerra deu dez mil quilos de alimentos pra poder repartir pro povo que tava trabalhando, né, receber alimento. Aí a gente recebeu, três carros de alimentos chegaram aqui e a gente repartiu entre todo mundo que tava trabalhando. E a gente ficou sem saber o que fazer, foi, aconteceu a mini fábrica e nós não sabíamos nem movimentar as máquinas, aí foi que meus meninos já tudo crescido eu disse pros meus filhos “Vamos fazer aquilo ali funcionar”, aí nós fomos lá no Nutec [Núcleo de Tecnologia e Qualidade Industrial do Ceará] em Fortaleza, a Nutec me forneceu umas apostilas de como é que se fazia cajuína, chamei meus meninos e fomos pra fazer cajuína, aí fizemos muita cajuína nesse ano, mais de cinco mil garrafas, aí o nosso trator quebrou e nós não sabíamos como consertar, o presidente não tinha, não sabia administrar o recurso do trator, investiu no __________ lá e aí deixou o trator quebrar, como é que faz? Aí fizemos cajuína, da cajuína tiramos uma parte do dinheiro e ajeitamos o nosso trator, e aí fomos caminhando, caminhando, aí entrou um presidente, o Dinho do seu Francisco que doou o terreno, que tinha boa vontade, a gente colocou ele, elegeu pensando que ia dar tudo certo, resultado, ele era político, deixou, não cobrou mais mensalidade do pessoal, que era político aí achou que podia, né, não cobrou mensalidade, não fazia reunião, e assim “O que eu vou falar na reunião?”, aí a Associação morreu, praticamente ficou morta, não tinha, assim, ele tinha muita boa vontade mas ele não sabia lidar com a comunidade, porque comunidade eu acho que, assim, é como ser professor, é ter vocação, ter vontade pra aquilo ali, ter amor, acho que a palavra certa é amor, se você não tiver amor por aquilo ali você não funciona não, porque você tem que se doar mesmo, a gente não ganha nada, vem pra cá por amor, agora é gratificante é quando você tá aqui, você tá recebendo um projeto, como _____________ fala “Pra mim foi uma dádiva de Deus”, eu agradeço a Deus porque todo dia, toda hora eu estou pedindo pra cá, pra comunidade. 

P/1 – Deixa só eu entender um pouquinho como que começou. Primeiro, assim, eu não entendo muito de caju, eu só sei ver o caju ali, eu vi a frutinha ali, como que é, assim, tem vários tipos de caju, existe isso?

R – É, nós temos vários tipos de caju porque a gente já tem o caju não precoce e temos o caju gigante, né, e o caju não precoce ele tem várias variações, ele tem o 76, porque tem um que tem só a castanha, aquele que nós vimos lá tirando as fotos é o 76, ele é mais pra caju de mesa, porque ele é bem bonitão, bem grandão, sabe, e aí a gente tem vários tipos por esta razão.

P/1 - E o caju de castanha é outro tipo?

R – Não, a castanha a gente colhe a castanha do caju, porque esse caju é o mesmo caju, todos são iguais, só que nós colhemos a castanha dele, o problema é que nós queríamos aproveitar não só a castanha, queríamos aproveitar o fruto porque nele tem vitamina C, tem ferro, tem vários tipos de vitaminas que a gente sabe que ele é nutritivo e saboroso, e não é aproveitado, porque você vê, se a gente aproveita mil quilos de castanha, se a gente tira mil quilos de castanha nove mil quilos de caju estão perdidos, que alimenta, o nosso país passa fome, a gente tem que ver isso, né, como aproveitar, hoje a gente já está bem, assim, num patamar mais avançado que a gente já teve do Senar [Sistema Nacional de Aprendizagem Rural] vários cursos, o Senar orientou já como a gente aproveita o nosso __________, só que é demais, tem que ter uma fábrica, uma coisa que atenda, que a gente aproveite e não  aproveitar só 10%.

P/1 – Quando vocês começaram aqui então foi só pra pegar a castanha?

R – Não, nós só começamos pra pegar o caju, porque a castanha já vendia pras fábricas de Fortaleza, a Cione já vendia pra Iracema, é, Cascaju, o pessoal de lá vinha comprar aqui, eram atravessadores, compravam mais barato, tinham menor preço, aquela coisa toda.

P/1 – Compravam de vocês?

R – Sim, da gente. Mas a gente queria pelo menos beneficiar o caju que ele tava, é, como é que se diz, tava sendo perdido, estragado.

P/1 – Aí teve a história da mini fábrica, né?

R – A mini fábrica era justamente pra aproveitar o caju, mas não tivemos nenhum treinamento, aí a gente fez, pegamos a apostila e fizemos cajuína, ficamos fazendo cajuína todo ano. Aí foi que apareceu o DRS [Estratégia Negocial de Desenvolvimento Regional Sustentável] do banco que também nos ajudou muito, esse DRS foi demais, porque assim, é, apareceu a Fundação Banco do Brasil em 2003, em 2003 chegaram aqui e viram que nossa fábrica só trabalhava na época do caju, e só produzia cajuína porque as outras máquinas de doce a gente nem sabia mexer ainda, elas estão todas ali guardadas, nós não sabemos nem mexer ainda, aí o rapaz veio da Fundação e disse “Vamos transformar essa mini fábrica numa mini fábrica de castanha e amêndoas de castanha de caju?”, aí falou do projeto, o nosso projeto é muito bonito, são dez mini fábricas no Estado do Ceará pelo Banco do Brasil, tem a parceria do Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], da Telemar, da Universidade Federal do Estado do Ceará, e de vários outros parceiros, a Fundação, o próprio banco, a superintendência do banco, todo mundo é parceiro, e com essa parceria todinha a gente acreditou muito, né, e os cursos que iam aparecer, né, a gente viu que ia ter sucesso porque nós não íamos pegar agora e jogar uma mini fábrica aí, jogar essas máquinas aqui sem nenhum curso, como aconteceu da outra vez, né, então a gente aproveitou e “Então vamos transformar aqui numa mini fábrica”, aí eu disse “E as nossas máquinas, o que vocês vão fazer?” aí o ___________ da Fundação Banco do Brasil disse “Não, nós vamos fazer um galpão pra colocar as máquinas da senhora”, tudo bem, aí  a gente começou a pegar as castanhas, antes de acontecer eles transformando isso aqui, fazendo o prédio, ajeitando e organizando, eles já começaram a dar cursos, o Sebrae passou mais de um ano capacitando os jovens que iam trabalhar aqui, com associativismo, de gerenciamento da atividade, quer dizer, todo mundo aqui foi preparado, quem está aqui sabe trabalhar, tem o diploma na mão, o certificado na mão de como trabalhar com tudo aqui, então é por isso que tá dando certo. Aí são dez mini fábricas no estado do Ceará, com uma central de comercialização que fica lá em Pacajus, que é a cooperativa, é, a central de cooperativas. Hoje cada uma dessas mini fábricas tem uma cooperativa, porque a gente precisa vender, e vender em associação é muito difícil, a gente vai, aí a gente começou a sentir a necessidade, né, porque você sabe, você tá aqui parado e não tem nenhuma necessidade, aí quando você começa a trabalhar você vai vendo todas as necessidades que vão acontecendo, aí a gente vai com essas necessidades resolvendo o problema de cada uma, então hoje nós já somos cooperativa, fazemos parte, somos sócios lá da central de cooperativa, a gente produz a amêndoa da castanha de caju, coloca pra lavar e eles fazem a venda. Nós começamos em 2006, eu comecei a trabalhar em maio de 2006, nós fomos inaugurados em 2005, aí no dia da inauguração eu quase morro de feliz, porque é assim, você saber que você tá aqui e você saber que você tá trabalhando pra empregar 25 pessoas, são 32 pessoas, mas 25 pessoas jovens, são 32 pessoas, mas tem as pessoas adultas, né, tem 7 pessoas adultas só, o resto é tudo dessa juventude, desse menino, do gerente pra baixo, nós não trabalhamos com menor, não trabalhamos com o trabalho escravo, nós respeitamos o ambiente demais, não agride com agrotóxicos, nós temos tudo, tudo a gente organiza, porque esse menino que é o gerente ele é muito amante do meio ambiente, sabe?

P/2 - Vamos parar um pouquinho porque acabou a fita?

P/1 - Então a senhora estava contando das pessoas que trabalham aqui e que tinha esse gerente. Dá para a senhora contar de novo?

R – Eu me senti feliz no dia da inauguração, porque eu vejo esse horizonte, sabe? Como eu falei pra vocês que eu sou professora e amo porque trabalho com crianças, com jovens, com pessoas que estão fluindo, né, estão abrindo horizontes, estão todos cheios de entusiasmo, você pega a juventude que está saindo do terceiro ano científico, que está sem perspectiva de vida e que aqui não tem uma universidade ainda, “Eu vou parar?”, “O que eu fazer?”, “Eu vou embora?”, vai pra cidade grande, chega lá não tem trabalho aí fica vagabundeando, aí muitas vezes ele fica lá ocioso, aí vai se marginalizar, né, na droga, exposto à violência e aqui não, ele está em casa com a família e está ganhando um dinheirinho todo mês, trabalhando e isso é muito gratificante, me sinto muito feliz por isso, muito feliz em saber que eu faço parte desse grupo e que esse grupo todinho participa, que é um grupo participativo, é um grupo que, eu sou amante de toda essa comunidade, que a comunidade é uma comunidade boa pra se trabalhar, muito boa. Nós temos o grupo de associados, tudo que a gente precisa a gente tem com eles, pra você ver, pra funcionar isso aqui nós começamos, foi muito difícil, nós não tínhamos comercialização, nós não tínhamos nada de comercialização, você passar de ser vendedor de castanha de caju, produtor, você vendia ao atravessador, e você hoje ser, como se diz, um empresário, porque eles são os empresários dessa mini fábrica, é uma transformação muito brusca, né? Eles não tinham nada disso, eu também não tinha nada disso, nós sofremos muito, no primeiro ano nós, perdemos 700 quilos de amêndoas, a amêndoa também se estraga, não tinha como vender, aí nós perdemos 700 quilos de amêndoas, mas nem com isso eles desanimaram, chegamos, conversamos, só que é muito transparente, a nossa relação é muito transparente, a gente conversa muito, na dificuldade nós estamos juntos, na alegria nós estamos juntos, no sucesso também estamos juntos, não é assim, eu estou hoje aqui, mas amanhã não estou mais, não, a gente está, sempre juntos. E esse jovem a gente levanta, que cada hora que ele está desanimando a gente está levantando e graças a Deus o negócio está funcionando e está bem, hoje nós estamos vendendo, a gente já, nós somos procurados, não é mais como antes, a gente batia na porta “Você quer comprar a minha amêndoa?”, “Não, não quero não”, “Eu tenho amêndoa demais não sei o quê?”, hoje não, hoje eles vêm buscar, ficam atrás da gente, a gente só não vende se não quiser, se quiser está ele agora, nós temos esse pouquinho de amêndoa guardada, porque nós guardamos, porque o meu menino vai pra Itália, né, e ele queria levar amêndoa, vai participar de um evento lá, Terra Madre, aí ele vai por o caju pra ver se coloca o caju no sucesso, né, da comercialização, pra ver se a coisa muda e aí por esta razão a gente, estamos vendendo, tem um restinho desse pouquinho de amêndoa aí, senão não tínhamos não, o pessoal aí em cima procurando e a gente está muito feliz por isso.

P/2 – Quem são os compradores?

R – Eles são de São Paulo, nós não conhecemos, nós mandamos lá pra cooperativa e a cooperativa faz essa venda, né, tem uma pessoa lá que está sempre vendendo, está sempre fazendo essa venda.

P/2 – Um pouco antes, assim, como era a cadeia produtiva aqui, o que faz, quais são os produtos?

R – Do caju, né? Do caju pode fazer cajuína, o doce do caju, a ameixa que a gente faz, que a gente aprendeu, nós estamos fazendo hoje no nosso fundo de quintal ainda, porque a gente está pleiteando aí uma mini fábrica de beneficiamento do caju, a gente está pedindo pelo Territórios da Cidadania, que eu também faço parte do Territórios da Cidadania, que é um programa do Presidente Lula para o interior do Ceará. Nós temos vários grupos do Territórios da Cidadania, eu faço parte do grupo que são 18 municípios juntos, e agora mesmo a gente está fazendo um projeto para beneficiar o nosso caju por esse projeto da cidadania. Um projeto de 60 mil reais pra fazer a mini fábrica, colocar as máquinas e um capital de giro que possa começar, né, só que essa coisa é lenta, nós estamos também, nosso prefeito não tinha muito, nunca foi muito assim, acessível a tudo isso, podemos dizer e pra essa mini fábrica funcionar a gente precisava de um alvará de funcionamento do prefeito e ele se negou a assinar, precisou vir o pessoal da Fundação do Banco do Brasil e pedir pra ele assinar, fazer uma reunião com ele e ele ainda não queria assinar, assinou na última hora, no último caso, alegando que eu tinha votado contra ele na eleição, acredita?

P/1 – Ai meu Deus! Ainda bem que a mini fábrica está funcionando. Agora, como que funciona a mini fábrica, como é o processo ali dentro, a linha, como que é? Entra a castanha lá, acontece o que com ela?

R – A castanha entra, a gente recebe ali, está ali o depósito, a castanha, aí ela vem pra cá, ela é classificada lá, separada por tamanho, o maior, mais pequeno, menor, até tirar a cajui todinha, a cajui não fica, porque não passa nas máquinas.

P/2 – Cajui é o quê?

R – É aquela bem pequeninha, aí ele leva, ali está a ______, ali ele coloca à vapor, não tem água, eles colocam só a castanha e ligam lá na caldeira, aí cozinha em dois minutos, aí coloca aqui e espalha, deixa esfriar, aí são 12 pessoas cortando nessas máquinas, aí depois que corta aqui, eles cortam por produção, um real um quilo de amêndoa, aí eles cortam 40 quilos, 50 quilos. Aí a gente leva pra lá, tem duas estufas lá, que vocês podem ver depois, tem uma estufa e o outro é um umidificador, depois da estufa, passa seis horas na estufa, aquecendo, tirando aquele azeite, aquela coisa, né, aí passa pra umidificar, aí molha aquela película, depois volta pra estufa, molhou, ela inchou, aí quando ela volta pra estufa, que a castanha fecha e a película solta, aí ________, classificam e a gente manda pra cooperativa.

P/1 – Legal. E assim, como que é o dia-a-dia? Porque a associação funciona todo dia da semana?

R – Aqui na mini fábrica? Associação não, associação a gente trabalha todo mundo, um ajudando o outro, se um vai fazer uma coisa, não pode, chama um colega lá, vai fazer junto com ele, o colega vai fazer junto lá, é um grupo sempre junto. Agora, todo segundo domingo nós temos reunião, amanhã, por exemplo, é o dia da reunião. Nove horas da manhã você chega aqui e aqui está cheio de gente, todos os associados aqui, discutindo os problemas e o que foi resolvido, se a gente tem um projeto pra fazer nós vamos fazer isso, isso e isso nesse mês, no segundo domingo você vai ver se fez, o que deu pra fazer, o que não deu então vamos botar pro outro mês, e assim vai.

P/1 – E quantos associados têm? Com quantos começou? E agora?

R – Quando começou? Eu sei que a minha ficha é a noventa, mas chegou a ter 600 associados, mas quando aconteceu essa crise desse presidente que eu falei aí quase parou, aí eu, a gente pra salvar a pátria não tinha quem quisesse ser presidente na época, aí me chamaram, eu era secretária, eu chorei tanto antes de assumir com medo de não dar conta, mas eu fiquei, aí eu fui pra uma reunião, estava lá um rapaz do Banco do Nordeste e um rapaz do Ematerce, que a Ematerce sempre esteve presente na nossa vida, se existe uma entidade governamental que sempre caminhou lado a lado com a gente foi a Ematerce, desde a primeira hora que nasceu ainda hoje a gente conta com apoio total da Ematerce.

P/1 – O que é Ematerce?

R – Ematerce é um órgão do governo que é pra auxiliar os produtores, os agricultores. Ela está sempre presente na agricultura e aqui nós tivemos uma parceria, assim, impressionante, fantástico, o pessoal amigo, hoje eu tenho três agentes rurais da Ematerce trabalhando com a gente, aí a gente, eu encontrei esse rapaz e ele disse “Não, nós vamos salvar a pátria”, “Eu sei meu amigo, tá tão difícil”, eu não reunia a diretoria, aí eles começaram, a gente começou, eles ofereceram logo a história do cajueiro não precoce, dia de campo, você sabe que o pessoal gosta disso, né, de atividade, vamos pra dia de campo lá em ___________, aí eu sei que rejuvenesceu a coisa e hoje a gente já conta com esse grupo de associados, e muito participativo graças a Deus.

P/2 – Dona Rita, como é durante o ano, a safra do caju é mais ou menos destaque em outubro, os cajueiros estão cheios, como que é esse processo ao longo do ano, da safra? Imagino que aqui na Associação muda muito, né, em função da planta?

R – É. Aqui é assim, na época da safra todo mundo vai colher sua castanha.

P/2 – A época da safra é quando?

R – Agora, outubro a dezembro, é com essa safra que eles fazem a rentabilidade para o próximo ano, até essa data novamente, quando dá é um Deus nos acuda, né. Nós estamos saindo de quatro anos sem safra, quatro anos só um pinguinho mesmo de safra que não dá pra abastecer nossos,  estávamos parados sem castanha porque a safra não deu do ano passado, aí a gente agora está começando e está começando assim, com gosto de gás mesmo, as ________ que vocês estão vendo aí, esse ano.

P/1 – Aí depois da safra, como que é?

R – Aí eles vendem e compram tudo que eles necessitam, acho que armazenam o dinheiro, eu não sei, eles se mantém com esse recurso o ano todo. A safra em outubro, novembro e dezembro é que garante o próximo ano, é porque o feijão, a mandioca e o milho é só pra sobrevivência, pra alimentação deles próprios.

P/1 – E assim, a Associação tem algum papel de estar ajudando, assim, nesses momentos?

R – É. A gente com esse projeto da gente, a gente ________ muito, não está ajudando, de ter podido ajudar antes. Mas com esse projeto da mini fábrica a gente está ajudando bastante, com o apoio do Banco do Brasil, mais uma vez, pra você ver, antes eles vendiam a castanha na folha, como eles diziam, o atravessador chegava aqui, sabendo que eles estavam necessitando, né, setembro e outubro, eles chegavam aqui em junho e já estava oferecendo dinheiro pra eles limparem o cajueiro, porque limpar? Chove, aí nasce o mato debaixo do cajueiro, aí eles roçam todinho, tira esse folha que cai pra ficar limpinho assim, pra poder colher, que com mato debaixo e com a folha, isso é difícil, então eles faziam o que? Eles ofereciam o dinheiro ao produtor em junho, aí eles compravam a castanha a 50 centavos, aí se desse um real na safra eles recebiam 50 centavos a castanha do produtor, prejuízo de 50 centavos, né, hoje não, com o Banco do Brasil é bem diferente, nós pegamos, eles vão lá e custeiam, e principalmente depois que o DRS aconteceu, eles vão lá e fazem um custeio no Banco do Brasil, o que é um custeio? O Banco do Brasil empresta o dinheiro a eles pra cuidarem dos cajueiros deles, pra quando chegar a safra, eles vendem pra cá e a gente beneficia e vai pagar o banco, quer dizer, o custeio é um ano, tem espaço pra ele colher e trazer pra cá e a gente beneficiar e vender as amêndoas, né, então hoje eles estão muito, foi muito gratificante essa ideia do Banco do Brasil e a gente está conseguindo sucesso com isso.

P/2 – Bom, a senhora colocou a questão do Banco do Brasil. Como é que o Banco do Brasil apareceu por aqui?

R – Foi desde que a gente se organizou, que eu falei pra vocês, do Fundec, quando a gente se organizou, ele viu a nossa organização espontânea de muita boa vontade, aí eles começaram a ter as notícias, né, e até a própria Ematerce fez lá o comentário com o banco, “Olha, tem uma associação crescendo e precisando de ajuda, o pessoal está organizado”, e aí o banco começou a investir na gente e investir, graças a Deus ainda estamos juntos, mas nós estamos juntos porque está dando certo.

P/2 – Essa relação do banco, assim, mudou antes, como que as pessoas viam antes do banco e começou a ver depois?

R – Antes do Banco do Brasil, a gente entrava lá e o pessoal nem olhava pra gente, hoje não, hoje a parte social do banco é muito grande, a gente chega lá no Banco do Brasil, agora mesmo, agora no mês de setembro eu chegava lá com os produtores, pra tirar o custeio, o banco tinha um funcionário só pra atender a gente, um funcionário do banco, e você sabe que é muito difícil, é produtor, né, as pessoas que antes eles não eram nem vistos, o pessoal do banco passava e se eles estivessem na fila, eles nem olhavam, hoje não, hoje eles dão toda atenção, um atendente só pra aquele grupo, aí é muito gratificante, porque eu acho que é uma entidade muito séria, muito honesta o Banco do Brasil. E no mundo que a gente vive, onde o eu ainda impera, onde o egoísmo é tão grande, onde ainda existem as discriminações, as injustiças sociais, a gente poder contar com uma entidade como essa é muito gratificante, a gente fica muito feliz.

P/2 – Se a gente pudesse falar assim, da ajuda do banco, o que a gente pode ver aqui na Associação que a gente poder dizer “Ah, isso aqui tem a ajuda do banco”, o que poderia?

R – Desde que a gente, os cajus, os próprios cajueiros, não _______ plantados, né, inúmeros cajueiros precoces, que hoje andam precoce _________________, se esse aqui não der, o ano precoce tem a safra dele garantida, se tiver chuva o ano precoce dá dez meses, ele começa a dar em março e vai a dezembro, todo ano se tiver chuva, quer dizer, colocando uma floração e antes de terminar aquele caju, já está com outra floração feita, além do mais, além desse ano precoce, a mini fábrica _______ castanha, a mini fábrica de caju que a gente está com as máquinas aí guardadas, essas máquinas são de inox, só estamos esperando fazer um galpão pra trabalhar  e tudo isso é apoio do banco.

P/1 – E capacitação?

R – Capacitação também foi muito, teve muita capacitação nessa mini fábrica que __________, também teve muita capacitação do banco, implantar porque foi um trabalho difícil, teve a participação do banco, teve a _______ do banco, do Senar, da Ematerce, que também sempre está presente e uma série de outras coisas.

P/2 – Eu sei que a senhora já tinha até falado, mas é só pra ficar uma coisa mais clara pra gente, a castanha do caju aqui, qual que é a importância dela aqui pra região?

R – Ela é, como se diz, é a renda que a região tem, é a castanha de caju. Agora mesmo nós chegamos no mês de julho, agosto, nós tivemos em Brasília numa reunião com o pessoal da Fundação Banco do Brasil e já vendo isso, como a gente vai fazer, porque nós temos uma cultura, né, a castanha de caju, e quando não dá vai ficar as contas inadimplentes nos bancos ____________________ e prorrogar as contas sem ter sido muito compreensivos,  eles tem sido muito compreensivos nesses quatro anos que não teve safra, eles foram muito compreensivos, prorrogaram nossas contas todas, todo ano aquela prorrogação pra depois, agora mesmo nós estamos tendo safra e eles estão prorrogando essas contas pra 2010, porque é pra _______, essa safra ter condições de pagar a conta mais tarde, então eles são muito compreensivos, então a gente está vendo que foi muita boa vontade deles.

P/2 – O que a senhora diria, assim, olhando essa trajetória da Associação, da conformação da Associação, o que a senhora destacaria como os momentos mais importantes?

R – Eu acho que é a instalação desta mini fábrica que é um momento muito importante na nossa vida, na vida do distrito, porque é a geração de emprego e renda, né, hoje você sabe a dificuldade que tem do emprego e renda, e a gente está nessa trajetória, mesmo com todas as dificuldades, essa implantação aí foi um ponto muito marcante.

P/2 – E essa história toda, tem algum caso, uma situação, assim, que a senhora tenha passado? Curiosa, engraçada ou não, que a senhora sempre se lembra, cada vez que a senhora olha pra trás? 

R – Não, assim, são muitas coisas curiosas, muitas coisas engraçadas, interessantes. A gente já viu muitas, né, assim, nessas caminhadas nessa vida toda, a gente tem, mas eu acho que o que mais me preocupou, que eu fiquei muito preocupada nessa caminhada todinha, foi quando me disseram que eu ia representar a mulher do Ceará lá em Brasília, eu nunca tinha ido sozinha, né, e aí de avião, eu disse assim “Não, eu vou sozinha”, eu já tinha ido de avião, mas era todo mundo, né, o grupo, pra Bahia o ano passado, mas quando foi pra ir sozinha, eu fiquei, confesso que fiquei bem [risos], aí quando eu cheguei ainda tinha mais a história que eu ia falar 15 minutos, eu tinha que falar 15 minutos, aí eu “Será que eu vou ter esses 15 minutos, o que dizer nesses 15 minutos?” [risos], foi muito difícil, mas lá graças a Deus tive um pessoal muito amigo, e me deixaram desinibida mesmo, muito a vontade.

P/1 – O que era que aconteceu em Brasília?

R – Era o Dia Internacional da Mulher. Aí eu tinha que falar da minha vida, com o DRS do banco, falando do banco, é o que eu estou falando hoje aqui, só que hoje aqui está mais aprofundado porque lá eu só tinha 15 minutos [risos].

P/1 – Quando que foi isso?

R – Foi dia seis de março desse ano. E o pior que quando a gente foi tinha uma colega da Bahia, que ela era catadora de lixo, ela ia também representar as mulheres catadoras de lixo, aí ela falou da vida dela, muito sofrida, e todo mundo chorando e eu era a última que ia falar, eu falei “Meu Deus, será que eu vou falar?”. Eu ouvindo tudo isso, fica aquela tensão, mas graças a Deus que deu certo.

P/2 – E como foi pra você falar, porque não é fácil falar no microfone, não é?

R - E além do mais pra uma multidão, só o pessoal do banco era uma multidão, que você visse, ah, eu fiquei tensa mesmo, mais deu certo, a gente foi muito, fiquei nervosa, sem ter assim, sabe, se eu ia ter palavras, mas graças a Deus que saiu. Sempre Deus está na minha frente, graças a Deus.

P/1 – Rita, uma curiosidade, assim, a gente vê que a Associação tem muito o espírito comunitário, né, essa questão do espírito comunitário, inclusive que a senhora falou, logo desde a infância, a escola. Isso tem alguma coisa a ver também com o próprio lugar, esse ambiente que faz com que as pessoas tenham que resistir, tenham que ______ . Como que é isso?

R – Eu acho que o ambiente influencia muito. Agora tem uma coisa assim, é na _________ a pessoa ter aquele espírito já em desenvolver, tudo bem que as pessoas caminham lado a lado, mas que tem uma chefia, na chefia uma pessoa que tenha aquele espírito, que saiba levantar, pra você ver, teve presidentes que passaram por aqui que deixaram morrer o espírito, a mesma pessoa que vive comigo hoje, já existia, mas que faltou aquela pessoa que levantasse, que desse aquele incentivo, porque é aquela coisa, eu acho que isso precisa muito, aquela pessoa que eles confiem, que eu aqui “ó”, eles confiam no meu trabalho, eu estou com dez anos, doze anos presidente e não querem que eu saia. E lá em casa são sete filhos, só tem um que é assim, o mesmo espírito que eu, que é o que se ______ a essa mini fábrica aqui, os outros nenhuns se envolve muito, sabe, participa mas não tem esse envolvimento, não quer bem, não quer aquela coisa, a gente vê que ele tem aquele espírito, ele quer bem e tudo, isso é o que influencia, eu acho.

P/1 – O que significa, na verdade, essa relação, sabe, como que ela aparece no dia a dia entre as pessoas, entre a comunidade? Dá um exemplo pra gente?

R - Eu acho, assim, sei lá, esse aconchego, aquela corrente da... quando a gente está aqui é aquele amor, sei lá, aquela gratidão, aquela coisa, é muito importante.

P/1 – Deixa eu só voltar uma coisa do Banco da Brasil. A gente conversou com a senhora que trabalha com castanha, a gente também esteve conversando com gente da piscicultura, então são atividades produtivas. Na opinião da senhora, como que a senhora vê a importância do banco, assim, pra essas atividades como a atividade que vocês tem aqui?

R – Eu acho muito, acho que é o pontapé fundamental, porque é assim, tudo que você vai fazer, que vai trabalhar, eu digo muito isso, quando a gente não tem dinheiro aí que não ganha dinheiro. E o banco é a porta aberta pra ter aquele dinheiro, tudo bem que é emprestado, mas o juro muito baixo, né, eu agradeço muito ao nosso presidente Lula, sempre que eu vou fazer uma entrevista eu ressalto muito isso, porque toda essa coisa do banco aumentou, multiplicou milhares de vezes, depois com a presença desse presidente no poder, eu acho, eu digo muito assim, esse presidente vai passar 30 anos ao invés de oito, porque ele é excelente. Esse Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento a Agricultura Familiar], o dinheiro do Pronaf que o Banco do Brasil gerencia é o dinheiro que veio lá do presidente Lula, com esse apoio total, dando todo apoio ao agricultor, eu acho que tudo isso é uma fortaleza pra todos nós, e o Banco do Brasil é uma fortaleza sim, porque se não tivesse o dinheiro, ninguém pode fazer nada sem dinheiro, começar um empreendimento desses sem ter recurso, quando era que a gente ia começar? Tinha a vontade, existia aquele espírito, o desejo, mas como? Cadê o recurso? Então o banco está emprestando à gente com juros bem baixo, com forma de pagamento muito boa, parcelado e tudo, e a gente vai, esse aqui foi a fundo perdido isso aqui, até eu nem gosto de dizer a fundo perdido, como diz o presidente Lula “Nada que vai pro Ceará vem a fundo perdido, porque vai gerar emprego e renda, não é fundo perdido”, o dinheiro não é reembolsado, né, mas eu acho que é um dinheiro muito bem empregado, que não é perdido porque está gerando emprego e renda e será o sucesso dessa comunidade, se você vê, quando esse menino recebe o dinheiro no fim do mês e vai pra cidade, você vê como o dinheiro está circulando, a gente vê o comércio todo participando, quer dizer, o dinheiro está sendo, eles estão trabalhando e o dinheiro está sendo investido na própria comunidade, o desenvolvimento da própria comunidade, o comércio, a gente está vendo tudo isso.

P/1 – Está mudando aqui então?

R- É. O Banco do Brasil é a pessoa, é o carro-chefe de tudo isso aqui, que ele que está investindo o dinheiro, ele é quem está salvando a pátria.

P/1 – A gente vai mudar um pouquinho o assunto aqui. Queria voltar um pouco na história da senhora, a senhora falou inclusive que é separada, né?

R – Sou.

P/1 – Mas, assim, a senhora quando conheceu o marido da senhora, a senhora tinha conhecido na escola, alguma coisa assim?

R- Não. Eu conheci ele trabalhando na roça com o meu pai, a gente se conheceu e a gente em muito pouco tempo se casou e pronto, parei de estudar e fiquei criando o menino, criando filho, de dois em dois anos eu tinha um filho, e aí eu vim pra cá, quando eu cheguei aqui, depois que eu cheguei aqui ainda foram oito filhos, então eu criei sete e morreu uma menina, a minha mais nova morreu. Então a gente começou a trabalhar, foi no trabalho da roça mesmo que a gente se conheceu, não foi na escola.

P/1 – Quantos anos a senhora tinha?

R – Quando eu me casei eu tinha 18 anos.

P/1 – Era roça de quê?

R – Na roça, na agricultura, na roça cultivando, plantando, colhendo, a gente junto, ele começou a trabalhar pro meu pai, papai trabalhava sempre com ________ e a gente se conheceu, começamos a namorar e aí terminamos casando.

P/2 – E os filhos, a senhora tem quantos mesmo?

R – Eu tive oito filhos, morreu uma, eu tenho sete filhos, são cinco filhos homens e eu tenho duas meninas.

P/2 – E o nome deles, a senhora consegue falar assim, na hora?

R – Consigo. O mais velho é o Reginaldo, Francisco Reginaldo, depois tem a Regina, a Ana Regina, depois o Francisco Régio, depois Francisco Reginei, depois tem a Ana Regiane, depois o Francisco Regilandio que é o gerente daqui, depois Francisco Renato, e a que morreu Ana Regilene.

P/1 – E porque essa coisa com Francisco, tem alguma coisa de família?

R – Não, isso aí são as loucuras que hoje eles dizem assim “Mãe, pra quê a mãe fez isso?”, eu fiz uma promessa e coloquei tudo Francisco [risos].

P/1 – Bom, eles estão todos aqui, envolvidos com o trabalho aqui?

R – Não, só o mais velho que se envolveu e as duas meninas moram em Fortaleza, uma trabalha na _______ na praia de Iracema e a outra é casada com policial e mora lá.

P/1 - Você quer falar alguma coisa sobre isso? Não? A gente já está quase que fechando, a senhora olhando a sua vida, sua história de vida, o que a senhora diria que foram, assim, os maiores aprendizados da sua vida?

R – Foi muito aprendizado, eu hoje digo assim “Se eu fosse hoje, eu não teria casado com o marido que eu casei”, né, tinha que ter procurado um marido que fosse, que visse a família da maneira que eu vejo, que a família precisa da gente toda hora, todo instante, não é porque os filhos só precisam de mim quando ele são pequeninhos não, eles precisam até morrer, até eu morrer os filhos estão sempre precisando de mim, né, de um conselho, de uma ajuda, e aí o meu marido viu, sei lá, que não tinha responsabilidade naquela família, então eu acho que se eu tivesse conversado com ele, tivesse analisado as propostas dele, ___________ , eu não me casaria com ele.

P/1 – E da sua atividade, que lições que a senhora tira?

R – Na minha atividade, eu acho que eu persisti mesmo na coisa, porque quando a gente persiste a gente consegue tudo, acho que a vontade, o querer é mais forte que o poder, quando a gente quer a gente consegue mesmo.

P/1 – E sonhos que a senhora teve?

R – Sonhos, ah, meus sonhos foram quase todos realizados, tenho sete filhos bons demais, muito compreensivos, eu sei o que eu fiz, eu trabalhei muito junto com eles, eles não tiveram infância porque trabalharam muito junto comigo, mas eu admiro muito porque cada um hoje sabe resolver sua vida sozinho, se eu dissesse assim “Pronto, hoje acabou a minha vida”, cada um sabe resolver sua vida sozinho, são muito dinâmicos, trabalhadores, responsáveis até demais, e eu acho que tudo isso é gratificante, pra mim eu acho que tudo que eu sonhei pra eles, eu consegui.

P/1 – E quando a senhora pensa em futuro, assim, principalmente pra Associação, como que a senhora vê o futuro?

R – Ah, eu vejo isso aqui como minifábrica de castanha, que já temos, nós temos hoje, estamos construindo uma de farinha de mandioca, que nós ganhamos do governador do estado, que é uma pessoa que tem muito ajudado a gente através do pessoal da Ematerce, também, a Secretaria da Agricultura. Nós temos no secretariado da Agricultura pessoas maravilhosas, como o Doutor Roberto _________, como Cláudio Matoso, como Doutor Gilberto, é, Estênio, e uma série de outras pessoas lá que são, Bia, que são muito dinâmicos e que têm ajudado a gente bastante. Consegui nossa casa de farinha, nós temos um trator também em fase de liberação e eu vejo também aqui a nossa mini fábrica beneficiando esse caju, eu vou ver esse caju que hoje tá se estragando, então eu vejo beneficiando.

P/1 – A senhora já pensou, uma coisa que eu já devia ter falado antes, só pra eu não esquecer, é, sobre exportação, existe alguma ideia, assim, sobre isso?

R – É, a gente tá trabalhando já na história da exportação e pra isso nós estamos pensando na certificação orgânica, nós estamos trabalhando já pra certificação orgânica, agora começou a certificação, o estudo da certificação foi assinado, a gente conseguiu o recurso pelo Sebrae, pelo Ministério da Agricultura, pra certificar o nosso produto como orgânico. Certificando como orgânico a gente já tem contato com o mercado lá fora, e que tem pra receber o nosso produto, né, na França que tá pedindo, Europa...

P/2 -  Como que era a viagem pra Itália?

R – A viagem pra Itália, ele vai é no evento chamado Terra Madre, né, eu misturo Terra Nostra da novela [risos], é um evento chamado Terra Madre que ele vai colocar o caju na comercialização.

P/2 -  Mas é com mais alguém, ele não vai sozinho?

R – Não, daqui ele vai pela juventude do estado do Ceará, mas vai da nossa Cooperativa o nosso presidente, ele vai levando produtos do caju, vai colocar em um dos vários restaurantes, como colocaram o ano passado o açaí que hoje é um dos pratos que tá saindo muito, né, então pra isso a gente vai lá colocar o caju pra ver se melhora a situação e a gente tá aqui só pensando em coisas boas. Também a gente queria, eu também sonho muito em não ter só a atividade do caju, porque muitas vezes por questões climáticas o caju não dá, né, então a gente vai ficar endividado e sem solução. Agora eu tive nesse ano lá em Brasília e a gente viu realidades de pessoas que também tinha só uma atividade, que sofriam, e que multiplicaram pra outras atividades, por exemplo, criar tilápia, criar abelha, que a nossa situação com o caju ele é muito favorável pra abelha, e ter outros produtos que salvem a nossa pátria quando o caju não der.

P/1 – Só deixa eu voltar lá, a senhora tinha falado da França, mais alguns outros países?

R – É, a Itália, a França, é a Europa em si.

P/1 – Mas como começou esse contato?

R – Eles mesmo ligaram pra gente e queriam saber se nós tínhamos certificação, porque o ano passado não teve safra, né, 2007, aí por não ter safra as grandes indústrias que mantinham esse mercado lá não puderam manter, então ficou aquela falta grande, é por isso que nós, até isso Deus nos ajudou, deixou esse ano sem safra pra abrir as portas pra gente, aí a gente colocou a nossa marca no comércio, por esta razão a gente hoje está com nossa marca no comércio. A nossa castanha foi aprovada, é melhor do que a das grandes indústrias, e estamos hoje capacitados, então por isso eles ligaram pra gente e queriam produtos certificados, aí abriu a porta pra gente ir buscar a certificação, quer dizer, é isso que eu disse no início, né, quando a gente começa a trabalhar é que a gente vai vendo as aberturas de porta e a gente vai trabalhando elas.

P/1 – Quando a senhora fala: “melhor castanha dos outros”, assim, como que a gente poderia saber? Qual a diferença?

R – É o sabor, é a qualidade, é uma série de outras coisas, a nossa castanha também já é sem agrotóxico, é uma castanha de primeira.

P/2 -  O que aconteceu esse ano, Dona Rita, que deu essa safra tão boa?

R – É, eu acho que são questões climáticas mesmo, choveu, o inverno muito bom, aí eu acho que por isso, que o caju tem raiz muito profunda e eu acho que por essa razão a safra tá aí, também o agricultor, os nossos agricultores eles adubaram o cajueiro com calcário, né, a Secretaria de Agricultura conseguiu pra gente várias toneladas de calcário, aí o agricultor adubou o cajueiro e pode ter sido por isso, no início do ano também a Secretaria de Agricultura mais uma vez, a Ematerce conseguiu pra gente mais óleo de trator, 79 óleos de trator, a gente passou nos cajueiros dos produtores e jogava o calcário e eu acho que por esta razão também essa safra é tão boa.

P/2 -  Foi um conjunto.

R – Foi, tudo contribuiu.

P/1 – É, o que a senhora acha, assim, do Banco do Brasil, porque ele tá comemorando seus 200 anos, né, e pra essa comemoração ele tá colhendo essas histórias, que têm alguma relação com o Banco do Brasil, então o que a senhora acha de ele estar resgatando a memória dele através dessas histórias?  [Troca de Fita]

P/1 – Queria voltar numa pergunta, quando a senhora tinha falado da exportação, assim, em que o Banco do Brasil ele está envolvido nessa questão da exportação?

R – Eu acho que ele se envolve de uma maneira geral mas até que a gente tá vendo que por conta dessa queda do dólar, né, a gente não tava nem querendo exportar porque ficava muito barato a castanha em relação com aqui, mas eu não sei nem de que maneira vai ficar agora, né, com essa crise aí.

P/1 – Mas tem alguma ajuda, assim?

R – Tem, ajuda, é, o banco mesmo, a Fundação tá se interessando, o banco, mas a Sebrae é quem está ajudando muito agora pra isso, mas é um todo, sabe, nós somos um todo, é o Sebrae, Embrapa, sabe?

P/1 – E a exportação também é desse jeito?

R – É, nesse sentido, tudo junto.

P/1 – Agora assim, voltando naquela questão. Então o Banco do Brasil ele está resgatando, né, a história dos 200 anos e nessa história através das histórias das pessoas nessas atividades produtivas. O que a senhora acha disso?

R – Eu acho que é muito, tem toda uma relação, porque eu acho que a minha história, pra fazer a minha história eu tenho que ter muita gente que faz parte da minha história, da mesma maneira é o banco, é fazer a história dele sem ele, sem outros que ele ajudou não existia essa história, né, então a história do banco é a minha história, é a história de cada um, então é por isso que muitas vezes eu digo “Não, eu faço parte da história do Banco do Brasil. O Banco do Brasil faz parte da minha história, é uma relação.” 

P/1 – E o que a senhora acha de estar dando esse depoimento?

R – Eu acho que, assim, que eu acredito muito que meu depoimento poderá até abrir portas pra outras comunidades verem com o meu depoimento no que o Banco do Brasil pode ajudar também em outras comunidades, porque muitas vezes tem outras comunidades que não são ajudadas porque não se interessam em se reunir, porque até na hora que Jesus Cristo quando partiu os cinco pães e os dois peixes ele mandou que todo mundo se reunissem, se sentassem pra receber, né, reunisse ali, então acho que tudo que vem se você não estiver reunido não vai absorver, então a comunidade tem que se organizar para que o Banco do Brasil possa investir alguma coisa na comunidade, comunidade dispersa não adianta. Então acho que com essa minha história, com a história de muitos outros que estão organizados em comunidades. Acho que o Brasil pode ganhar muito se o povo se organizar e procurar o Banco do Brasil porque eles são mesmo fantásticos.

P/1 – Assim, tem alguma coisa que a gente não tenha perguntado que a senhora gostaria de ter falado?

R – Não, eu queria apenas dizer que, fazer uma alerta, né, às comunidades que não estão organizadas em Associações que procurassem se organizar porque sem organização nada funciona. E agradecer ao Banco do Brasil e a todos aqueles que são parceiros dessa mini fábrica porque no país como o nosso, cheio de dificuldades, a gente tá aqui de portas abertas e feliz, graças a Deus.

P/1 – Muito obrigada pelo seu depoimento.

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