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"O que sou hoje é a soma de tudo que fui vivendo"

História de: Tony Marlon Teixeira Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/10/2014

Sinopse

Tony é um jovem empreendedor social de 29 anos. Finalista do Prêmio Empreendedor em 2013, Tony conta seu depoimento sua trajetória de vida, desde o seu nascimento num pequeno lugarejo da cidade de Salinas em Minas Gerais, as mudanças da família para Vespasiano, Belo Horizonte, Campinas e finalmente para a cidade de São Paulo. Fala sobre como conheceu o projeto Arrastão na região de Campo Limpo e como acabou se envolvendo com a área de comunicação, formando-se em Jornalismo pela Unisa. Recorda como o projeto Criança Esperança foi fundamental para os trabalhos desenvolvidos no projeto Arrastão. E, por fim, fala sobre seu envolvimento com o Maré Alta, equipe de vídeo do projeto Arrastão e como criou junto com amigos a ONG Escola de Notícia, no bairro do Campo Limpo, em São Paulo. 

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História completa

O meu nome completo é Tony Marlon Teixeira Santos. A data de nascimento é 4 de outubro de 1984 e a cidade que fui registrado se chama Salinas, no norte de Minas Gerais. Minha mãe é Marileide Teixeira da Silva e o meu pai é José Barbosa dos Santos.  A minha mãe começou a trabalhar nos últimos dez anos. Ela sempre cuidou dos filhos, ela trabalhava como auxiliar de serviços gerais nos prédios e o meu pai, ele já fez de tudo na vida, absolutamente tudo. Construiu a nossa própria casa inclusive, mas nos últimos anos, ele era porteiro de prédio e depois ele se tornou zelador e ele começou a trabalhar só com zeladoria de prédios. Eu tenho duas irmãs. Tem a Leda que tem 24 anos e tem a Helen que tem 15, que estão junto com eles também lá em Minas.  Eu saí de Salina com cinco anos de idade e a gente foi para o sul de Minas Gerais, pra trabalhar em plantações de café, de cana. Depois fomos pra Belo Horizonte. Nós ficamos no sul de Minas, acho que uns seis meses, um ano assim, eu era muito criança, lembro-me de uma ou outra coisa, e depois fomos pra Belo Horizonte, mas eu saí com cinco. Lembro-me da casa de Salinas. Ela é a mesma coisa até hoje, o mesmo formato, o fogão é de lenha mesmo, tem um forno de adobe também feito que depois eu falei: “Pai, como você fez esse forno?”. Porque o negócio é circular assim e ele fica, sabe? Tem um clássico pé de laranja lima no fundo da casa, lembro-me disso também.

Eu me recordo que eu estava na rodoviária e eu estava meio de saco cheio: “Esse ônibus que não chega”. Aí meu pai comprou um doce que era um doce verde e eu lembro que esse doce estava maior gostoso. E aí eu peguei esse doce e aí o ônibus chegou, aí eu falei: “Ah, deve ser esse doce que fez o ônibus chegar”. Então hoje em dia onde eu vejo um doce verde, sei lá, qualquer coisa que tenha essa cor esverdeada eu me lembro desse momento específico assim. A minha cabeça funciona muito criando memória, eu sou muito visual, então o tempo todo tudo que tem imagem. Ah, foi um momento de transição importante, eu transfiro isso pro doce. Então o tempo todo eu estou criando essas memórias na minha cabeça. Lembro que os meus tios nos receberam em Belo Horizonte. Eu gostei da cidade. Bom, era bem melhor do que onde a gente tava porque lá era um lugar meio isolado, eu sentia-me meio preso lá dentro. E quando a gente chegou a Belo Horizonte já tinha tios, primos, era uma coisa muito mais acolhedora. Mudamos pra São Paulo acho que em 98. Os meus pais falaram: “Bom, agora vamos procurar outra coisa, já deu aqui também”. A gente foi pra casa do meu tio que fica em Campinas, eu me lembro desse caminho, lembro-me da gente indo pra rodoviária, de tudo. Eu me lembro da gente passando pela Fernão Dias, se eu não me engano, que tava toda esburacada, de como aquilo era uma coisa muito nova pra mim: “Mano, eu vou pra São Paulo”. Na verdade nem era pra São Paulo, era pra Campinas. E a gente foi pra Campinas morar na casa do meu tio Manoel até a gente conseguir se acertar. Foi uma experiência ruim também. Naquela época e naquele momento, não que a galera de lá seja assim, mas eu fui pra uma escola onde eu tive umas experiências muito ruins de não ser acolhido nessa escola, de brincarem muito com o meu sotaque, por exemplo. Eu perdi o meu sotaque muito rápido, um mês assim, que era uma forma de eu me defender um pouco disso. Eu tinha 11 anos, 12 anos. Mas a gente veio pra periferia de São Paulo, não era isso que eu imaginava, não era esse o meu sonho. Eu olhei tudo aquilo e falei: “Nossa, não é como eu imaginava”! Mas ao mesmo tempo por outro lado o meu pai me deixou brincar, foi numa época que a gente podia brincar na rua até as duas, três da manhã de pique esconde.  Em termos de amizade, por exemplo, a coisa mais considerável foi de que eu descobri que eu podia expandir o meu ciclo de amizade, que não era só a minha família. Fui conviver com pessoas completamente diferentes, completamente diferentes.

O Projeto Arrastão é uma organização que pra todo o sempre vai ser o quintal da minha casa. O Projeto Arrastão me ensinou muito. O que eu sou hoje é a soma de tudo que eu fui vivendo, mas tem muito a contribuição do Projeto Arrastão. Sempre passei em frente pra levar a minha irmã a escola e eu sempre via aquele símbolo do peixinho. Eu falava: “Gente, o que é isso? Que lugar é esse assim?”. Durante três anos eu nunca me interessei. E a Andréia que era uma pessoa que morava na rua onde eu morava, ela fazia um curso de jardinagem lá. E ela falava: “Tony, tem um curso de jardinagem.” “Nossa, eu quero muito entrar nesse lugar, gente. Muito, muito”. Ela falou: “No ano que vem vai ter um curso de gastronomia estão me falando. Eu acho que você deveria ficar atento, você quer?” “Quero.” “E o melhor de tudo, tem uma bolsa auxílio.” “Sério que tem uma ajuda de custo.” “Tem”. Na época era, sei lá, 50 reais que, nossa, cinco mil reais pra gente. E eu falei: “Jura que eu vou aprender e ainda vou ganhar? Nossa, incrível”. Eu fui jogar bola, ela passou: “Não esquece. É hoje que tem a inscrição”. Fiz a inscrição, tinha um monte de gente, falei: “Preciso muito passar. Muito, muito, muito”. E pronto. Eu conheci o Projeto Arrastão, entrei pra fazer o curso de gastronomia, no mesmo dia falaram que tinha um monte de coisa. Começou a minha vivência dentro do Projeto Arrastão de me encantar assim profundamente. Tenho um registro muito legal, tem muita coisa, mas tem um registro muito legal que assim, primeira vez que eu acessei internet na minha vida foi no Projeto Arrastão. Eu me lembro desse dia, eu me lembro do dia, aula de informática, eu me lembro do Fabinho dando aula de informática... Então esse é o primeiro ponto de virada na minha vida, eu tenho dois, três, esse é o primeiro assim. O primeiro ano pra mim foi surreal. Surreal. Vem a outra questão da escola, eu sempre achei que tirar dez, nove e meio na escola era incrível e era aquilo que me construía como pessoa. Quando eu entrei no Projeto Arrastão eu descobri que ser turma do fundão era o que me construía como pessoa, porque a turma do fundão sempre foi demonizada em todos os cantos e lá todo mundo era turma do fundão.  E eu ia direto pra escola. Chegava atrasado na escola porque eu não queria ir pra escola. Eu não queria ficar em casa mais. Então o que era suficiente no momento que o ambiente da rua ia ensinando coisas já não era mais, agora era o Projeto Arrastão. E foi muito legal porque tudo que aparecia lá: “Tem que fazer tal coisa. Tony, Cláudio, Wilton, Rubens, vocês podem ajudar a gente?”. E nessa a gente foi conhecendo muita gente. Teve um momento que a tia Selma virou: “O que nós vamos fazer com vocês? Vocês não saem daqui”. Eles criaram um programa de monitor, que colocaram a gente pra ficar cuidando de algumas áreas e eu e o Rubens fomos cuidar da área de vídeo. Pronto. Eu falei: “Agora eu estou realizado”. E eu saí pra trabalhar em duas lojinhas, uma de fazer brinquedos educativos e a outra de fazer mosaico. E foi a minha primeira experiência de trabalho. Era criação. Era fazer coisa, trabalho manual. O Leo me chamou pra trabalhar, eu fui trabalhar feliz e depois eu saí porque o Projeto Arrastão me encantou muito mais, eu falei: “Eu quero voltar pra lá porque tem um monte de projeto legal”. Voltei e depois continuei várias atividades, eu participei de um movimento bem legal dentro do Projeto Arrastão de reorganização do Programa Juventude que foi muito louco, foi intenso durante todo o ano de 2006. E quando foi 2004, 2003 o Projeto Arrastão me indicou pro programa Virada de Futuro da Fundação Abrinq, que era um programa que custeava bolsas de estudo pra dez jovens no Estado de São Paulo. Eles iam selecionar dez jovens que durante quatro, cinco anos eles iriam custear toda essa bolsa de estudo, o Projeto Arrastão me indicou. Fiquei quase um ano fazendo o processo seletivo, foi muito difícil. Meu pai e eu já estávamos pensando como é que nós vamos custear essa faculdade que você tanto quer, né, meu filho? Nós pegamos um financiamento lá na Caixa Econômica e eu passei no Virada de Futuro, eu fui um dos dez selecionados, eu passei em segundo lugar, então eu podia escolher qualquer faculdade, esse tipo de coisa, tinha um valor, um recurso muito bom disponível. No dia que eu passei, nossa, foi incrível, incrível. Eu contei pro Nelson, meu professor de Física, ele achou incrível, ele falou: “Agora fica na maciota na escola. Se concentra nos vestibulares, porque agora você vai ter que fazer vestibular”. Você passava na bolsa e depois você tinha que fazer vestibular, inscrevi-me num monte de faculdade, ele me deu dicas, o Cassanha também me deu dicas, a Neide me deu dicas. Então eu fui fazer o curso de Jornalismo, eu passei, tinha um monte de faculdade, escolhi a Universidade de Santo Amaro, Unisa, porque tinha uma pessoa da Rádio Jovem Pan, que era o Flávio Prado, que era diretor lá e era rádio que eu queria, não me interessava estudar em outra faculdade top que pagava dois mil reais, interessava-me chegar onde eu gostaria de estar e eu fui fazer curso de jornalismo lá na Unisa que foi incrível, um ambiente incrível. Eu falei: “Pai, está ao lado da minha casa, tem um conceito bom no MEC, tem professores muito bom, por que eu vou ficar três horas dentro de um ônibus?”. Primeiro um ano e meio na faculdade foi roots e depois eu voltei um pouco pro Projeto Arrastão só aos fins de semana, uma vez durante a semana e fui fazer uns trabalhos assim muito pontuais na Jovem Pan no Jovem Pan no Mundo da Bola e no Plantão do Comentarista com o Flávio Prado que era o diretor da faculdade de onde eu fui.

Eu acho que durante muito tempo eu fiquei pensando muito sobre como é que a gente tornava os projetos sociais um modelo mais sustentável financeiramente, essa é minha inquietação. O nosso modelo mental que criava dependência, não era o recurso, não era o apoio. Então nesse sentido, por exemplo, eu olho pro Criança Esperança e eu falo assim, talvez o Tony, Rubens, Cláudio, Wilton, só tiveram essa jornada construída porque esse recurso chegou. Como é que o Projeto Arrastão iria bancar a formação de 30 jovens durante 12 meses gastando um absurdo nesse projeto? Não existe essa condição financeira. As organizações sociais não conseguem bancar isso sozinhas. Então pra mim hoje a importância especificamente com o Projeto Arrastão é uma questão de um impulso. Ele é o impulso. Então tem uma provocação de não pode ser a única fonte, o nosso modelo mental não pode ficar nisso, mas, cara, ele é um impulso importantíssimo, importantíssimo que quem faz a doação... Por isso que eu acho incrível essa nova forma de comunicar como é que há transformação, porque ela não é uma transformação numérica, ela é uma transformação de histórias de vida. Depois que eu fui fazer rádio eu fiquei apaixonado por rádio, conheci os meus ídolos do futebol que eu gostaria, porque era um programa esportivo. Muito bem, ok, é isso, próximo passo voltei pro Projeto Arrastão, o Thiago Vinícius de Paula, que é uma pessoa incrível, moleque incrível, falou: “Tony, tem um negócio chamado empreendedorismo social que eu estou estudando que, cara, isso é maior legal.” “Ah é?” “É. Vem aqui pro Projeto Arrastão que eu vou te contar”. E ele me puxou de novo pro Projeto Arrastão pra me explicar o que era empreendedorismo social, que ele tava aprendendo esse termo novo. O Escola de Notícias nasceu, a gente ainda não tinha grana pra poder fazer esse piloto dessa escola de comunicação comunitária, a gente só fez a primeira turma ano passado, a gente formou 20 jovens, esses 20 jovens hoje são do conselho de gestão da Escola de Notícias, todos eles foram convidados para serem do conselho e esses jovens tiveram uma formação muito intensa, muito intensa. Tanto é que no mês de janeiro, por exemplo, não tinha ninguém, eles tinham a chave e eles continuaram se encontrando no espaço, exatamente como no sonho, pra jogar vídeo game, pra fazer piquenique, pra comer pizza, pra olhar a lua. O espaço é deles, o espaço não é do Escola de Notícias. Eles têm 16 e 17 anos, eles são de escolas particulares e públicas, porque se a gente quer transformação social a gente precisa colocar todo mundo pra sentar junto. Esse processo dura dez meses, a metodologia desenhada em quatro passos que provoca as pessoas a perguntarem quem elas são e de onde elas vieram. A gente vende serviço. Todos os serviços na área de comunicação e formação de público a gente vende, paga-se e reinveste esse recurso no pagamento dos educadores, na compra dos equipamentos e tudo isso. Ano passado nós formamos esses 20 jovens de 17 escolas, 380 horas de formação, a galera pirou nessa formação, a galera não sai do espaço, eles têm a chave do espaço, eles são o nosso conselho de gestão. A médio e a longo prazo eles que vão mandar no Escola de Notícias, porque eles vão ser o conselho consultivo de fato, que delibera. Esse ano dia 3 de abril de 2014 é a data de fundação do Escola de Notícias juridicamente. Então nós somos uma associação.

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