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História

O que seria de mim sem meus professores?

História de: Lucilene de Araújo Braga
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/12/2005

Sinopse

Lucilene de Araújo Braga, nascida na Bahia, conta sobre sua vinda à São Paulo, com apenas três meses de idade.  Seu estudo sempre foi muito incentivado pelo pai. Relembra seus tempos de escola, e das dificuldades que teve para aprender a ler e a escrever, já que não frequentou o jardim de infância. No colégio, Lucilene desenvolveu gosto pela leitura e paixão pela História, inspirada por sua professora do ensino médio. Ela relata sua triste primeira experiência como professora e sua mudança da Teresa Martin para a PUC, quando já estava casada e já era mãe. Nessa entrevista, Lucilene contará sobre sua trajetória como professora da rede pública de ensino.

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História completa

Infância
Meu nome é Lucilene de Araújo Braga, eu nasci em 9/06/1964, em Botirama Bahia. Meu pai é Ivan dos Santos Braga, ele aposentou-se enquanto confeiteiro e minha mãe é Almira de Araújo Braga ela aposentou-se como recepcionista. O lugar onde nasci era muito espaçoso, tinha um quintal enorme, tinha um jardim na frente, jardim atrás, tinha árvore, tinha pé de manga, tinha pinheiro, muitas rosas, lembro de muitas, minha mãe gostava muito de planta. Então era gostoso, era um quintalzão, tinha até balanço na árvore. Isso aqui em São Paulo. Fui criada em São Paulo, na Freguesia do Ó, pra ser sincera nem conheço a Bahia. Vim pra cá com 3 meses, meu pai veio trouxe-nos e aqui estou. Enquanto criança, meus pais sempre trabalharam e eu ficava com minha irmã mais velha, sempre assim. Minha mãe nunca parou de trabalhar, ela trabalhava meio período e meio período ela ficava em casa, bordava e cuidava da casa. E falando de educação existia uma estante feita pelo meu pai, ele sempre valorizou o estudo, sempre. A gente tinha o livro comprado com muito esforço e a gente cuidava muito. Meu pai comprava daqueles livreiros que vendiam livros na porta de casa, lembro de um que era “Os Grandes Homens da História do Brasil”. Então tinha assim, Garrastazu Médici, João Figueiredo bem mais agora, mas eu lembro do Geisel, Médici, eram os heróis da história naquela época. Ele comprou e a gente ficava lendo os hinos nacionais, época da ditadura militar, a gente cantava muito o hino, então o estudo em casa sempre foi muito valorizado. Um fato que marcou muito o começo da minha vida escolar foi o meu nome, ninguém me chamava de Lucilene, todos me chamavam de Lúcia, Lúcia, Lucinha era Lúcia, Lucinha era pequenininha, se hoje eu sou pequena aquela época então... E ai as professoras no 1º dia de aula elas chamavam pelo nome, as crianças iam pegando a fila daquela professora e eu fiquei por último, fiquei sozinha. A professora perguntou: “È, mas por que você não subiu?” Falei assim: “Ah, não me chamaram”.“Como não te chamaram?” “Estou esperando”.“Mas como é o seu nome?” “Meu nome é Lúcia”.“Não, seu nome não é Lúcia, olha aqui no crachá, seu nome é Lucilene”. Isso me marcou profundamente. Até hoje eu sei quem é que me chama de Lúcia e Lucinha é da família, quem e os que chamam de Lucilene é uma coisa mais séria, e pros amigos é Lu, oi Lu, oi Lu. Então isso marcou o começo da minha vida escolar. Então todo mundo chamava lucilene eu ficava assim sabe com medo. Eu sempre gostei muito de desfilar, gostava muito na época da ditadura. Mas assim como um todo eu sempre gostei de escola, a gente passava férias na escola, lá tinha recreação, tinha merenda, aquela sopa gostosa da escola. E sempre estudando.

Formação
Eu era uma aluna danadinha, não ficava quieta, lembro disso, lembro que eu gostava muito de estudar, muito de ler. Tive dificuldade no começo, porque as crianças entravam todas com o EMEI, era o parquinho, todos entravam primeiro no parquinho, depois iam para a escola na 1ª série, eu pulei essa parte, eu não fui ao parquinho, fui direto pro 1º ano, isso atrapalhou um pouco, tive dificuldade no começo de aprender a ler e a escrever, mas assim depois eu peguei, peguei gosto. E uma coisa que eu me recordo muito bem no colegial é que meu professor de literatura obrigava a gente a ler, a gente era obrigado a ler livros. Então ele tinha uma lista de livros de literatura americana, estrangeira e do Brasil, a gente pegava na biblioteca emprestado e em quinze dias tinha que ler, quem não lia não passava de ano. Ali eu peguei gosto pela leitura. Isso era no Estado. O ensino fundamental que na época era 1º grau era Prefeitura e depois do Estado. Eu ainda fiz vestibulinho pelo colégio, segundo grau. Então foi difícil passar, eu consegui, normal. A Professora Ilda, professora de português, me deu aula no 1º ano e depois na oitava série, ela me chamou muito a atenção por causa da minha letra ilegível, ela pegou tanto no meu pé que hoje eu tenho a letra bonita.(emoção) O escritor que me influenciou foi o Leo Huberman, “A História da Riqueza do Homem”, no colegial o professor pediu para ler alguns capítulos, e Caio Prado Júnior, a gente teve que resumir alguns. E mais ainda o que me levou para a história foi meu professor do ensino médio, tinha uma professora chamada Maria Luiza, altona, magra, cabelo bem pretinho, ela falava da história, ela falava assim do Renascimento e a gente se sentia lá na Itália, sentia o gosto daquele café que ela falava, então isso ela me trouxe essa vontade de fazer história, pois era uma forma de viajar, a gente pegava os livros e viajava. Mas na aula dela ela tinha esse dom de trazer a gente pro lado dela e foi isso que me fez fazer, gostar e querer fazer história e querer ser professora. E assim eu sou uma pessoa muito calma, é importante ser. É a calma, pra entender, pra entender o aluno. É foi isso inclusive, é quando eu tava estudando fazendo graduação aqui eu a encontrei num ônibus Perdizes PUC, eu tava lá no fundo eu fui pra frente e eu falei “Professora, Maria Luiza”, ela tava velhinha, assim sabe, mas aquele olhinho, dei um abraço, nossa... Foi forte.(choro) Foi o que me marcou. Minha primeira experiência como professora, aí foi triste, foi diferente, assim, primeiro que a gente se prepara pra dar altas aulas, eu comecei a dar aula no interior, uma escola como se pode dizer rural, porque depois pegava o trem na Lapa chegava em Itapevi e ainda pegava um outro trenzinho, pra chegar até Amador Bueno e a escola se chamava Amador Bueno, eu passava assim na rua e via os alunos trabalhando em olaria, eles faziam tijolos, telhas eu via o trabalho duro deles, a aula começava 3 horas eles tomavam banho correndo, assim eles tinham que ir para a escola, era uma necessidade da vida deles era o único caminho que eles tinham pra melhorar de vida era a escola eu chegava ali , eu não sabia muito , naquela época eu estava estudando ainda, naquela época a gente começava a estudar e começava a dar aula antes de terminar a faculdade, 1º por causa do dinheiro, segundo você queria saber se era aquilo mesmo que você ia saber da vida, né? Faltava muito professor nestes lugares, como eu tinha uma insegurança muito grande eu fui para Amador Bueno, faz parte da grande São Paulo. Eu lembro que os alunos levavam couve-flor de presente pro professor, levava couve, rabanete que a mãe plantava. Então no começo foi difícil, eu não sabia fazer um diagnóstico da sala, chegava colocando um monte de matéria na lousa querendo explicar eles não queriam aprender, eram 55 alunos na sala, foi traumatizante. Mas eu percebi que eles gostavam da escola, eles queriam aprender na escola, por conta da vida deles ser muito dura, eles “Bom vou estudar pra melhorar minha vida”. Eu dava aula e ainda estava na graduação. Primeiro tem um dado importante. Eu não comecei fazendo graduação primeiro na PUC, eu comecei em uma escola perto da minha casa, uma faculdade Tereza Martan, fica na Freguesia do Ó, comecei a estudar lá eu fiz o primeiro ano e o segundo ano eu achava a escola muito fraca, lembro que uma professora deu um trabalho final pra analisar, pra estudar o Francisco de Assis e Silva que era um livro todo didático, eu achei aquilo muito pouco eu achava pouco sabe, eu queria mais. Dois professores foram dar palestra de sábado que me marcou muito, eu falei, eu vou sair dessa faculdade e vou pra PUC. Foi a Verinha, a Vera Lucia Vieira de Moderna e o professor Rago. Ele foi falar do Iluminismo da Filosofia, e a Vera foi dar uma aula de Revolução Francesa, eu fiquei assim, nossa pra mim foi um show, eu fiquei assim com vontade de aprender aquilo com um gosto, eu sentia o gosto daquilo. Terminei o segundo ano na Tereza Martan e peguei a licenciatura curta que tinha lá, não sei se ainda tem como naquela época, que é uma licenciatura que você têm dois anos de faculdade e pode pegar uma licenciatura de quinta a oitava, mais dois anos dá direito a ensinar no ensino médio, segundo grau. Eu falei, eu vou ficar aqui nessa faculdade, pra mim era pouca. Procurei saber onde eles davam aula, eu fui à PUC, prestei o vestibular, eu era casada com meu primeiro marido e ele não queria que eu viesse pra cá, então eu peguei dinheiro da minha mãe que naquela época eu não tinha, fiz o vestibular. Já tinha a Gabriela minha filha, deixava a Gabriela com uma vizinha uma amiga minha, e vim os três dias fazer o vestibular, e quando eu,... Foi isso, pode falar tudo, e quando eu peguei o jornal que eu vi meu nome, eu falei nossa olha, fiquei muito feliz. Mostrei pro meu marido, que agora é meu ex-marido, ele falou assim, “Nossa como o ensino ta fraco, né? Você passou” Aquilo pra mim foi um tapa na cara. Acho que por isso depois eu separei dele. Enfim foi isso. Na minha formação na PUC, teve a licenciatura a minha professora a Helenice pegava cada atividade, não ficava só na teoria, tinha a teoria, mas tinha a prática. Então aquilo que eu tentava adivinhar em sala de aula, como eu deveria trabalhar, ela trazia pra sala e a gente fazia, na própria sala fazia a atividade, depois eu adaptava pra minha realidade, porque não é tudo que ela trazia que eu conseguia aplicar por conta da dificuldade dos alunos de ler, de aprender, mas foi uma inovação, porque era diferente, diferente de ler texto de responder, de fazer questionário, era algo a mais, que dava subsídio e os alunos gostavam. Minha formação influenciou totalmente na minha prática. Vamos supor eu trabalho com livro didático que eles recebem do governo por quatro anos e depois tem que devolver e receber outros livros. Esse livro que eu estou neste ano melhor dizendo, eu estou com um livro que eu gosto muito “História Temática”, mesmo esses livros eu tenho que fazer uma adaptação porque eles não conseguem ler aquela atividade, então a gente tem que fracionar mais, antes desse livro os outros livros eu já trabalhava, pegava foto, não era só uma foto ilustrativa, tinha a descrição, trabalho de observação, levantamento de hipótese, inclusive fazia eles desenharem, eles gostam muito de desenhar. Eu procuro estimular se o aluno tem aptidão para desenho aquela parte, área, o momento da história, trabalhar com poesia, então agente leva poesia ou tem no livro, aí, eles gostam de ilustrar poesia, eu procuro sempre fazer tudo aquilo que ela me ensinou, mas também adaptar de acordo com aquilo que os alunos entendem. E assim a gente vai, devagar, não dá pra fazer tudo, mas eu faço o possível.

Prática Pedagógica
Existe uma liberdade muito grande no Estado e na Prefeitura, não é aquela camisa de força, aquela apostila que tem que esgotar e na prefeitura e no estado não. Você trabalha de acordo com a sua capacidade e com que o aluno necessita naquele momento. Então eu não sigo o livro didático assim capítulo por capítulo é de acordo com a dinâmica em sala que eu vou pegando os capítulos. Isso eu to falando no ensino médio é xerox, livro didático, xerox de reportagem, então eu procuro trabalhar vários temas. Eu estou trabalhando agora no ensino médio vários anos, década de 50, eles gostam muito de música, muito de roque, muitos tocam violão, tocam bateria, tem alunos na escola esse ano que tem banda, eles se apresentam no barzinho. Então nós vamos trabalhar agora os movimentos de juventude a partir da década de 50, ai é Tropicália, eles é que vão desenvolver isso, e dentro disso eu entro com Juscelino, golpe militar, mas o foco é a musica, a poesia, o conto, o teatro, o cinema, é o que eles escolherem pra trabalhar, dentro disso eu vou entrando com a matéria que vai dando o respaldo pra eles. Isso no 3º ano, no 2º ano, eu dei o começo do século 20, são as guerras, o período entre guerras, então assim, isso foi uma opção minha e deles, o que aconteceu, quando eles entraram no ensino médio eles vieram de vários lugares de várias escolas Municipais, poucos vieram da própria escola do Estado, então cada um aprendeu uma coisa sabe, uns sabiam muito de nazismo, outros sabiam de Brasil colônia, então faz uma aula diagnóstica vê como eles estão naquelas matérias e a partir daí, ver o que eles gostam daí eu entro com a matéria, porque não dá pra começar o ano falando de colônia no 1º ano se todos já tiveram colônia, não dá fica muito maçante. Então eu tenho esse critério, o que me dá possibilidade de trabalhar. Eu comecei a dar aula em 90, há quase 16 anos. O material que perdi no incêndio ele foi produzido ao longo do meu trabalho desde 92 até agora, estavam em pastas que eu colocava por temas. Então o capitalismo, o feudalismo, a Revolução Francesa, questão temática Terra, tinha todos separadinhos, o que aconteceu? Eu guardava no meu armário e na semana passada de sábado para domingo teve um fogo na escola e queimaram seis armários, filtro, microondas, geladeira, então teve um incêndio muito forte na escola, pegou fogo meu armário e nesse armário tinha assim: tinha fita VHS; tinha CD’S, eu uso muito a música principalmente a música popular brasileira; as letras das músicas já xerocadas para os alunos fazerem a interpretação da letra; fitas de vídeo que eu gravei ao longo desse tempo no canal 2, na cultura, eu usava muito em sala de aula; documentário sobre a 2ª Guerra Mundial; sobre Nazismo; sobre a questão agrária, hoje em dia se fala bastante a questão da reforma agrária; trabalhos em sala de aula. Então eu perdi fitas VHS, letra de hinos oficiais, inclusive de time de futebol, Palmeiras tudo, eu procuro agradar os alunos gostarem da aula, aí, a gente faz uma troca uma vez a gente canta o Hino do Corinthians da outra o Hino da Bandeira, a gente vai fazendo nossas trocas assim, a gente faz a aula mais gostosa, com algumas turmas. Eu perdi o que eu mais sinto são as figuras, as imagens, eu tinha bastantes transparências das pinturas de Debret, Jan Baptiste Debret, eu trabalhava as imagens com retroprojetor para eles fazerem descrição, atividade de observação, muita figura que eu cortei ao longo dos anos, as capas das revistas Veja, eu tenho muitas, significativas, por exemplo, o Tio Sam com o globo na mão, aquela questão do imperialismo, a águia vestida com a bandeira americana segurando o globo, todas as capas em que apareceram dirigentes do MST. É um material que a curto prazo eu não vou conseguir, nem eu imprimindo do computador não é igual, é a textura o aluno pega, eu guardo tudo em saquinhos plásticos, pegava a imagem colava numa cartolina, cortava do tamanho certinho da figura, colocava no saquinho plástico grampeava para eles não tirarem do saquinho plástico e mostrava a aluno por aluno, se não é assim eles colocam bigodinho, desenham um monte de coisa, pra não perder o material tem que ser feito assim ensacado bonitinho. Então eu perdi muito material, é um trabalho de muitos anos que eu tinha capricho de guardar pra trabalhar, Guerra Civil Espanhola eu tinha um Guernica, por exemplo, eu ia a uma editora pegar livro que eles dão para os professores de dois em dois meses os para didáticos e vem sempre um encarte fazendo propaganda de tais livros e tinha bastantes fotos da Guernica, aquele quadro do Picasso. Então eu peguei uns dez daquele, vou pegando tudo e cortava tinha todo um capricho, perdi tudo. Questão da Terra, Feudalismo, classes sociais, os operários, enfim, Debret então, a questão do negro, cada dia lembro de alguma coisa que eu perdi, enfim é isso. Tenho planejamento. Eu faço um planejamento. Tem aquele planejamento que você entrega pra escola que são só as matérias. Então pega a 5ª série Brasil colonial pega desde a invasão portuguesa no Brasil até terminando... Esse é o oficial, planejamento oficial, e tem aquele que a gente faz na sala de aula, que esse eu tenho no meu caderno, que eu não entrego lá, até porque não precisa, nem pedem é dentro desse planejamento que eu sei o que eu tenho que dar dentro daquela sala de aula. Eu disse que cada sala é uma sala diferenciada da outra, eu tenho duas 5ª séries não dá para trabalha igual nas salas, porque uma sala os alunos são mais centrados, eles têm um nível de abstração maior, eles têm um nível de concentração maior que a 5ª D, então é difícil. Este ano só terminando da 5ª série é muito difícil trabalhar porque eu recebi muitos alunos analfabetos eles não sabem ler e escrever e o que está escrito eles não entendem, qual é o meu trabalho é ensinar a ler e a escrever? Eu não posso explicar só a matéria, porque o que está no livro eles não entendem. Então eles não ficam quietos porque? Porque eles não sabem o que está escrito, então se eu não entendo porque eu vou ficar prestando atenção na professora. Então o que eu estou fazendo, o que eu estou conseguindo fazer. Ditado, eu pego o livro deles eu dito aquele texto e faço um resumo, porque é comprido o texto, depois eu faço a reescrita, eles me entregam eu vou corrigir texto por texto deles, aí, eu vejo a palavra que eles mais erraram, que nem eu estava comentando na outra hora suficiente, insuficiente, revolução, palavras assim que eles não costumam a ler e a escrever, eu escrevo tudo em uma cartolina com letra bastam e coloco na lousa eles vão ter que fazer a reescrita do texto, escrever novamente e as palavras que eles erraram eles vão corrigir. Depois a gente lê tudo de novo, aí, é que eu vou explicar a matéria, que eu vou trabalhar levantamento de hipótese, que eu vou trabalhar o próprio sentido da leitura é a interpretação de texto. Então é muito devagar, mas se eu não fizesse isso eu ia ficar até o final do ano brigando com eles, suspendendo aluno e eu não vou conseguir nada. Então tem que partir da onde ele consegue fazer pra poder avançar. Alunos matriculados são uns 40, 42, mas os que freqüentam uns 35, muitos já desistiram. Isso na 5ª no ensino médio são mais ou menos uns 50, 40. Sobre a Progressão Continuada, pra mim em sala de aula, a avaliação é pra mim, porque eu sei que todos vão passar. Então o trabalho que ele faz, o exercício que ele faz, raramente eu dou prova é estressante pro professor e pro aluno, sabe aquele dia de prova que todo mundo fica quietinho assim, não pode ter nada em cima da carteira, não pode abrir livro, não é pra conversar, fica assim que nem um robozinho, isso não existe, existe se é aquele professor que entra duro na sala de aula e sai mais duro ainda. É complicado, é muito estressante. Eu faço provas, mas minhas provas são geralmente com consultas, são provas dissertativas se o aluno não estudou ele não consegue copiar do livro, “Prova com consulta professora, prova com consulta”, eles percebem que têm que saber muito mais do que ler, eles têm que relacionar uma época com outra, uma personagem com outra, pra poder saber responder a prova. Então a progressão continuada, o professor perdeu um mecanismo que o aluno tinha medo que era a reprovação. Então a avaliação hoje em dia é pra eu saber se o que eu estou, falando, ou o que eu estou trabalhando eles aprenderam. Quando o aluno não sabe nada não entrega nada, ou ele passou muito tempo fora da sala de aula ou ele está drogado ou alguma coisa assim. Porque a partir do conhecimento prévio que ele tem eu vou tirando as questões. A Progressão Continuada ela significa o que não existe mais reprovação, só na 4ª série primária no ensino fundamental e na 8ª ensino fundamental, de 1º ao 3º colegial tem reprovação sim, todos os anos por falta de nota e por falta. De 1ª a 8ª série todos reprovam por falta de assiduidade. Então pra mim é isso, eu não vou me estressar ficar doente, gritando, puxando os cabelos, pro aluno fazer a prova, porque eu sei que a prova é mais pra mim. Se eu dou uma matéria, Renascimento, pra eu saber se ele está aprendendo com eu estou trabalhando, eu dou um trabalhinho e ele me devolve, eu corrijo vejo o que ficou faltando “Olha eles não aprenderam esse conceito então vamos trabalhar mais”, é assim e eles fazem mesmo sem aquela obrigatoriedade, eles fazem, porque eu tenho um tratamento com eles, uma boa relação, não fico gritando, xingando, mandando aluno pra fora, lugar de aluno é na escola dentro da sala de aula se eu começar a colocar pra fora eles vão adorar, fica lá fora, eles adoram ficar lá fora, pra conversar pra fazer tudo, entendeu? Então pra mim aluno tem que ficar na sala de aula, eu tenho que achar alguma maneira dele aprender, os que querem aprender, porque aqueles que não querem aprender eu não vou conseguir ensinar. Então esses alunos são deixados de lado. Tudo que eu faço com os outros ele também tem que fazer, mas ele não quer saber de fazer, eu já faço todo um esforço, durante a entrevista eu falei, que o aluno preste atenção na aula ou fazendo matéria de outra professora ou escutando CD, brincando com telefone celular eu chamo de diversas formas ele pra aula, se ele não quer porque ele está em outra, eles mesmo falam “Há professora aquele está em outra”, eu não vou mexer com ele está em outra, então esse ele vai levando na flauta no final do ano, ele passa ou se faz uma junta de professores e segura ele, por que ele não adquiriu a maturidade, os princípios, os conceitos, pra poder avançar na matéria, isso sim, 5ª, 6ª, 7ª e 8ª reprova, tomar esse cuidado. Agora no colegial ele sabe que todas as séries reprovam 1º, 2º e 3º reprovam. Então eles perdem ou não querem fazer hoje, eles vão atrás do professor, mas o que eu faço, eu trabalho muito com vídeo, inclusive eu gravei na semana passada Gaijin, vocês assistiram? Gaijin caminhos da liberdade, que eu procurava esse filme em todos os lugares e não achava, então é isso ter sempre uma fita pronta pra gravar, eu pego muitas fotos de jornais, eu trabalho muito com a questão da imagem, que é importante nosso mundo é todo visual, então a gente tem que trazer essa visibilidade também pro aluno, eu vou atrás de livros que tenham figuras pra eu usar nas transparências, agora vou ter que começar tudo de novo, que já foi consumido pelo fogo, eu pego revista tudo eu aproveito, difícil alguma coisa eu não aproveitar, até catalogo de revista, catalogo de tudo. Já peguei inclusive catalogo de vendas. Tudo que der a gente aproveita pra que o aluno aprenda a olhar, a ver, muitas vezes ele olha, mas não vê, a descrever a observar aquilo, joga uma imagem com outra, de qual é a relação dessa com aquela. Então não é só ler e responder questionário, na minha época, na minha época era assim, professor, dava um texto dava 30 perguntas 10 iam cair na prova, ai você tinha que responder aquelas questões e decorar pra prova só esse objetivo, a história ela é muito mais do que isso, não é pra ninguém decorar matéria, eu já falo logo, pra mim o que vai interessar é refletir sobre o momento, perceber no que aquele momento faz parte um pouco da sua vida, o que você pode aproveitar pra si, fazer reflexão aprender a escrever o seu ponto de vista sobre aquele momento. Então não é só texto e livro como era antigamente, então o ensino avançou bastante nesse sentido. Certo?

Livro Didático
Olha é muito complicado a escolha do livro, porque primeiro são os professores da área que vão escolher, isso tem uma certa dificuldade. Depois que a gente argumentou tudo, agente faz a opção primeira e segunda opção, e não é bem certeza que o governo vai mandar aquela opção, às vezes ele não manda. Desde a primeira vez que eu to dando aula, que existe essa Fundação Nacional do Livro Didático. Que veio o livro que nós pedimos e eles entregaram. E o critério que usei para argumentar com meus colegas professores, eu e Wanderlei professor de história ele concordou a outra professora a gente conversou com ela. O critério era ter bastantes imagens porque isso prende o aluno, é ter muitos exercícios porque eles não gostam muito de ler texto e esse livro ele tem muito texto, muita imagem e muitos exercícios. Mas os textos são gostosos, a leitura é gostosa, então dá para trabalhar sem problema. Esse é o nosso sonho, nosso sonho é poder ter outras matérias junto da gente, ou nós com eles, enfim, fazer o que eles chamam de interdisciplinaridade. Só que é muito difícil porque não tem espaço na escola um espaço onde todos possam estar conversando sobre a matéria. Até no começo do ano sobre o planejamento, eles ficam falando um monte de coisa, coordenadores, diretores, sem conversar aquilo que é necessário. Na ultima gestão da Marta a Prefeita, ela trouxe possibilidade dos professores fazerem vários cursos fora da sala de aula, inclusive tinha dias que não era curso, era show, eles levavam a gente para assistir show de música, teatro, tudo que era bonito, a Marta, uma das características dela enquanto prefeita é dar subsídios pro professor. É difícil a gente aceitar, essa gestão do PSDB, ele já disse curso dentro da escola, ninguém vai sair. Estamos esperando o governo, qual é, pra ser bem sincera não tem uma reunião de planejamento que a gente possa intercalar as outras matérias, ou melhor, não é nem intercalar é juntar. No Estado é diferente, eu trabalho com o ensino médio e eu procuro fazer um trabalho junto com literatura, então se eu estou trabalhando a questão da terra eu pego “Morte e Vida Severina”, a professora me ajuda ela vai trabalhando a questão da literatura e eu trabalho o histórico, a questão dos posseiros dos bóias frias. Enfim é isso.

Justificativa
O ponto de partida é o Brasil, Brasil é o foco, a partir do Brasil a gente, vai para as outras realidades, até porque influencia tudo, parte sempre do aluno ele presente, do dia, do nosso dia, a partir daí eu volto para Roma, eu vou para idade medieval, depende do que o aluno já tem. Sempre partindo do presente, não dá pra gente seguir pra história antiguidade, idade média, moderna, não dá, fica sem sentido pra eles, eles não olham nem pra cara da gente, sabe que dentro da sala de aula você tem que chamar o aluno, o aluno tem que estar ali com você, sentir, perceber no seu raciocínio, se eles estiverem prestando atenção em outra coisa você não consegue desenvolver o trabalho. Então eu parto da realidade deles, o que é agora é Iron Maden, é a Avril Lavine que vem para o Brasil, vamos ver o que é a música dela, perto da realidade que eles gostam. Teve uma banda que veio para o Brasil Night Wishe, várias bandas, é roque, resumindo é o roque dos anos 90, 2000. Eles adoram vão com os olhos pretos, camiseta da banda, jaqueta preta, aquelas munhequeiras, é o bicho. Então se eu ficar falando de outra coisa eles não vão gostar, entendeu? Então é por aí.

Cotidiano na Escola
A gente estava conversando inclusive sobre isso, é a ausência da família, ausência do pai, ausência da mãe, porque nós só ficamos com eles quatro horas, a família fica a vida toda, mas a mãe sai pra trabalhar deixa o filho dormindo a criança sai suja, já não tomou banho a noite, vem com aquela roupa suja com cheiro de xixi, sabe, já não leva o material pra não fazer a lição, isso na Prefeitura. Então é a ausência da família de olhar o caderno, ó você não fez a lição por que? Professora não dá lição, dá sim, cadê a lição? Então o aluno não tem o comprometimento, ele não se compromete com os deveres de casa, isso dificulta. Na 5ª série eu estou trabalhando leitura e escrita, eles ficam inquietos por que eles são ruins danados? Eles são danadinhos, mas porque eles não entendem nada do que está sendo escrito, então não presta atenção mesmo, não é a linguagem dele, tem que parar tem que começar a escrever passar na lousa levar texto vamos copiar, eles não sabem copiar dos livros não sabem essa é a dificuldade, se existe uma parceria uma cumplicidade pai com a mãe os dois a família e junto com o professor, a nossa, setenta por cento do problema seria resolvido. Você diz chamar o pai e a mãe? A Escola colabora, na Prefeitura colabora porque existem, existe a coordenadora, ela é um cargo, ela tem autonomia pra chamar o pai a hora que necessitar ela tem autonomia pra dispensar aluno, deixar o aluno sentado na biblioteca pra aprender a escrever ali com ela, ela tem autonomia pra trabalhar, a diretora também tem autonomia, diferente do Estado, no Estado a diretora já não tem tanta autonomia porque é uma função atividade não é um cargo, por exemplo, na prefeitura vem a verba para o coordenador aplicar onde necessita, ele mexe com verba com tudo, ele tem autonomia, até para dispensar aluno, o coordenador tem essa autonomia, no Estado já não tem. E se o diretor do Estado não gostar das atitudes da coordenadora ou do coordenador ele dispensa. Entendeu? Então fica muito atrelado a direção. Na verdade no Estado o coordenador faz o que a diretora quer e na Prefeitura não o coordenador faz aquilo que é necessário independência de agradar ou não a diretora, competência do coordenador. Temos também o auxiliar de período que é um professor que tem sala de aula, ele se afasta da sala de aula pra cuidar do período, aí, eles chamam outro professor pra ficar com as aulas dele, então ninguém fica sem aula, esse auxiliar de período vai cuidar junto com o professor de aluno, dos alunos que querem sair da sala tem algum problema, vai chamar o pai, pai, a coordenadora vem, tem toda uma acessória chama o professor. É diferente Estado da Prefeitura, pra ter uma idéia tem uma sala de aula que se chama Sala de Leitura, na prefeitura, tem que dizer na Prefeitura que é diferente chama-se Sala de Leitura, existe há 30 anos, o que é essa sala de leitura fica um professor responsável pela aula, então todos os alunos uma vez por semana entram naquela Sala de Leitura e a professora que é uma professora da casa, ela sai da sala de aula e o professor fica com seus alunos, ela fica responsável por período. Então por exemplo, minha colega Marli, ela é chamada de PSL Professor de Sala de Leitura, ela vai criar várias atividades com os alunos pra eles pegarem o gosto pela leitura, por isso chama Sala de Leitura, tem a Sala de Informática com mais de 30 computadores, professor da Sala de Informática Educativa vai orientar os alunos na informática, ela é uma professora só que ela sabe mexer em computador, então ela sai das aulas dela e fica durante todo o período ali e outro professor da a aula dela, existe a ameaça de tirar essas salas, acho que não, tomará, se tirar a gente tem que ir pra rua tem fazer manifestação não pode deixar, é muito importante os alunos terem essas duas salas. Bom, eu sou muito provinciana eu só atravesso a ponte quando venho pra cá, mas eu trabalho onde eu moro. Então trabalhar em Pirituba é uma responsabilidade com meus vizinhos. Pra mim dar aula é mais do que trabalhar, é mas do que passar matéria, é mas do que isso é uma responsabilidade política muito grande. Acho que da onde eu vim meus pais sempre foram muito pobres e a gente estudou com muita dificuldade eu estudei com credito educativo. E eu sei que quando um aluno se interessa pela história, quando ele quer mudar o rumo de sua história quer reescrever sua história, eu acho que é ali que a gente entra, eu acho que a gente pode fazer muita coisa dentro da sala de aula. Agora o que a gente não pode fazer é desestimular o aluno. Então pra mim é uma responsabilidade muito grande eu vou encontrar com eles, eu não vou “Há eu não moro aqui eu não quero saber”. Não, é a minha responsabilidade, eu encontro com eles na rua, na feira, no mercado, eu vou encontrar com eles a minha vida toda. Como eu já encontrei muitos em outras escolas, sabe? Como em fila de cinema, em fila de mercado, quer dizer é muito mais que dar aula, é uma responsabilidade muito grande e é gratificante. Você vê um aluno meu estudando fazendo uma faculdade, já encontrei ex-aluno enfermeiro cuidando de mim. Olha se eu não tivesse tratado ele muito bem, brincadeira(riso) Tem que ter essa parceria sabe, não é dar aula por dar aula, não é isso, é um envolvimento profissional e político muito forte, é isso que dá sentido a história eu penso assim. Meu sonho é dar aula em uma escola só, eu acho que eu nunca vou deixar de dar aula, eu já passei em concurso de direção já tive oportunidade de ser diretora tudo, mas é muito burocrático. Eu gosto do contato com o aluno o que me desestimula é ter dois diretores, dois coordenadores, duas festas juninas, duas festas da primavera, duas formaturas pra organizar, meu sonho é trabalhar numa escola só. Porque daí eu tenho certeza que eu ia me dedicar muito mais. A questão é salarial, é salarial, se eu ficar só na prefeitura eu tenho filha fazendo cursinho, não dá, entendeu, vai entrar na faculdade, não dá, infelizmente o financeiro não me permite, eu tenho que dar aula em dois lugares duas escolas. Cada aula é uma aula, a 5ª D é diferente da 5ª E, que é diferente a Prefeitura do Estado, eu dou uma aula de Nazismo na 8ª série e Nazismo no 2º ano é diferente, mas eu acredito que uns 60% 70% eles entendem, pelo retorno que eu tenho das atividades eles estão aprendendo, porque quando eles não compreendem, eles não ficam quietos, não fica quieto, sentado prestando atenção não, eles ficam vendo CD, brincando com o celular, lendo revistinha de amizade de amor, sabe, de signo, Folhateen essas coisas eles não ficam prestando atenção. Então quando a gente tem um aluno prestando atenção é que ele está sentindo, está querendo aprender aquilo, então aí dá pra desenvolver melhor. Quando não chama a atenção do aluno, 3º B eu não estou conseguindo atingir eles, entendeu, então eu tenho que mudar alguma coisa, então é uma preocupação do professor, eu não entro ali dou minha matéria, cumpri minha matéria, se estão prestando a atenção se não estão. Então eu mudo, eu vou mudando, eu nunca sei onde eu estou cada sala eu estou de um jeito, de uma forma em uma matéria, eu tenho que marcar tudo em agenda se não eu me perco. Não é igual não, o 3º A que não é igual ao 3º B, o 3º B pra dar um exemplo pra vocês, eles agora estão cabulando, todas as aulas eles vão embora na quinta aula, esse ano o governo deu uma sexta aula, o governo aumentou mais cinqüenta minutos de aula, então a sexta aula eles não querem, eles vão embora acabou a quinta aula eles vão embora, aí a inspetora de alunos que já quer se livrar deles deixa o portão aberto, ai vão embora, aí você tem cinco gato pingado, cinco alunos, dá a matéria você explica, trás eles pra matéria, porque é história, pegando sempre um pouquinho da vida deles, fala do pai, enfim, aí eles vão falando “Olha a professora deu isso, recolheu, ela está pondo nota, pondo presença, aí eles vão deixando de cabular, aí você vai resgatando eles, falar que vai chamar o pai é bobagem, o pai não está nem aí, a maioria, esse é o problema, quer dizer os pais jogam pra escola a obrigação deles esse é o problema, família desestruturada, bebida, separação. Enfim um monte de problema desse nosso século. Era diferente, acho que antigamente, eu entrei em 90, era diferente eu achava os alunos mais maduros, vou dar um exemplo, tem aquele filme que eu acho que você viu que eles assistiram em nome de Deus, assistiram? Eu passava pra sextas e pra oitavas séries, eles entendiam o que significava aquela cena não é o sexo pelo sexo, tinha um contexto da religião, da filosofia que era proibido e tal. Hoje eu vou passar esses filmes pra sétima e oitava eles não agüentam, eles ficam falando só em sexo, parecem que conheceram agora, sabe, eles são imaturos. Existe uma diferença de 90 pra 2005, antes os pais davam mais responsabilidade pros filhos, agora nem os pais dão responsabilidade a escola não consegue dar, eles são muito infantis, muito infantis, primeiro colegial assim é totalmente infantil, está tudo muito fácil, muito fácil, não tem reprovação, só repete na quarta série do primário e na oitava série então eles vão levando na flauta, aí quando vai repetir eles ficam quietinhos, eles querem aprender alguma coisa então vai dar mais tempo. Entendeu, então há uma diferença grande eu acho que é essa questão da maturidade. Não sei se respondi, se eu não respondi você me pergunta de novo. Isso começou em 96, Progressão Continuada com Mário Covas, ele fez muita coisa boa, mas isso não foi bom, na minha avaliação não foi bom. Antes existia um maior respeito em sala de aula, eu acho que poderia ter ciclos, que a gente trabalha por ciclos, ciclo 1 e ciclo 2, poderia ter o ciclo mas dar ao professor maior autonomia, inclusive de reprovar aquele aluno que não está indo bem se um aluno ele não consegue aprender, ele tem algum problema, se é com o professor vamos resolver o problema é a forma de aprender o professor não está ensinando como deveria, tudo tem um jeito, mas passar todo mundo isso não resolve o problema. Resolveu pra eles é economia pra eles, mas pra sociedade não. Ele não sente necessidade de estudar, você tem que fazer um malabarismo. Então antes era mais fácil lidar com o aluno, porque aqueles que são danadinhos te respeitavam mais, aquele aluno bom ele era bom naquela época e é bom hoje, porque ele quer estudar independente do professor aprovar ou reprovar, independente do sistema. Agora, aquele aluno que está meio perdido, que é imaturo, que não quer estudar, com a reprovação segurava um pouco mais, até pra ele sentir vontade de estudar, não que ele deveria ser reprovado, mas ele deveria se sentir intimidado em se esforçar para estudar, que vai ser reprovado ou não vai ser reprovado é que antes tinha um mecanismo com que o professor fazia com que ele se esforçasse mais na matéria. Então ele ia aprender mais e ia passar. Hoje em dia não ele não se esforça ele não estuda e não deixa ninguém estudar esse é o problema, ele sabe que vai passar então leva na flauta. Ele atrapalha todo mundo que quer então o professor em vez de dar aquela aula gostosa ele tem que ficar chamando a atenção de fulano cicrano. Eu inclusive no ensino médio, eu separo algumas atividades extras pra aquele aluno que não quer prestar atenção na aula, “Olha vai fazer esse exercício onde você quiser fazer, ou lá fora, depois você me entrega” se ele entregar bem se ele não entregar bem.

Interação com a Comunidade
O sonho, o ideal, o melhor é ter essa interação entre escola, família e comunidade, o ideal é isso, mas não é isso que acontece. Eles falam assim “Há se abrir a escola aos finais de semana a comunidade vai cuidar mais”, mas olha a quadra da minha escola do Imperatriz Leopoldina é aberta, eu sempre passo ali e sempre tem aluno jogando bola de sábado e domingo, têm as Igrejas evangélicas que pedem pra diretora ceder o espaço, pra eles fazerem vigília as orações pra eles terem um espaço grande a diretora cede e no entanto colocaram fogo na sala de aula, queimaram seis armários nesse estava o meu e queimou tudo e foi de sábado para domingo,. Então a comunidade poderia participar mais da escola, no entanto não participa. Olha todo o ano a professora chama os pais pra participar do conselho de escola, é muito difícil os pais participarem do conselho, é o conselho que decide tudo, a verba onde vamos gastar essa verba é 3, 4, 5, 8 mil, onde nó vamos gastar, a comunidade com os professores decidem, a comunidade ao pais, os alunos e professores. Vamos pintar. De que cor vamos pintar a sala de aula? Tudo é no conselho. O aluno não pode mais ficar na escola. Vocês concordam que devemos mandá-lo para outra escola? Expulsar não existe mais, você faz uma troca de aluno, você me dá dois alunos problemas e eu te mando dois é assim uma troca de boa vizinhança, pensando que vai melhorar o ambiente, enfim. Eles não participam do conselho de escola, eles não gostam de participar da escola, eu acho que deveria ser diferente a gente sempre pede pros pais irem assistir aula, na 5ª D que é uma 5ª problemática tem duas mães que vão assistir aula, um dia assim um dia não, o dela fica quieto, mas nem com a mãe eles ficam quietos, entendeu então não existe, eu não sinto a presença da comunidade na escola, não sinto. Pra não dizer que eles não participaram ano passado teve aquela mobilização dos professores 3 dias de greve então nós chamamos os pais pra falar de um assunto importante, mas eu mandei uma filhetinha, “Você lembra?” uma espécie de convocação pros pais, aí vieram quantos uns 50 de uma escola com 2 mil alunos, vieram 50 pais.

Rede de Ensino Pública e Particular
Eu já dava aula a bem mais tempo no Estado, teve um concurso na prefeitura e algumas colegas da PUC mesmo, ai vai ter o concurso pra adjunto na prefeitura, vamos, vamos, ai eu não , não tenho diploma, você não tem licenciatura curta, tenho, então você pode, eu prestei o concurso no oba oba, aí passei. Nunca esteve nos meus planos ser professora da prefeitura até porque eu estava estudando ainda, e foi duro o começo, e dava aula, e fazia faculdade, fazia estágio, já tinha duas filhas a Gabriela e a Mariana, são minhas companheiras, mas aí eu entrei e comecei a trabalhar no noturno da prefeitura e no estado eu comecei em 90 e na prefeitura comecei em 97 na gestão do Jânio Quadros, tinha até um cartão, na hora em que você entra você marca o cartão uma coisa meio estúpida, cartão pro professor, não tem mais ninguém na escola, aluno já foi embora e você está com o cartão, tem que esperar 11horas pra ir embora, Enfim, coisas de Maluf e Pitta. E no Estado eu sempre dei aula comecei no Estado, quando teve o concurso entrei como efetiva, nas duas escolas estou como efetiva, mas eu dava aula bem antes como eventual não OFA, eles chamam de OFA, ocupação função atividade. É diferente, como você diz? Em relação a minha matéria como eu a desenvolvo na sala? É o aluno da Prefeitura é diferente do aluno do Estado, a estrutura, eu acho diferente. A Prefeitura parece que é uma mãezona cuida de tomar banho, cuida dos dentes dentistas, cuida do oculista tem exame de vistas, se a criança subnutrida a diretora encaminha para assistente social, se não consegue enxergar encaminha pro oculista, então ela é mãezona, tem a comida tem arroz, feijão, é a carne, e não bolachinha pelo menos na Marta e no Serra, no Pitta e Maluf só aquela bolacha seca. Então eles almoçam na escola, sabe? É uma relação diferente o aluno mesmo que não vá pra estudar, mas ele vai para comer, ele vai para ganhar o leite, material, uniforme, uniforme de boa qualidade e dentro disso tem a matéria, então ele não vai para escola estudar, sabe? Como no ensino médio, no médio eles vão para estudar, no Estado não da nada disso, a Prefeitura é um assistencialismo assim muito forte, muito forte. Então assim os alunos na Prefeitura eles são mais danadinhos, eu estou comparando, no Estado eles também são bem danadinhos, é questão da idade. Na Prefeitura os alunos vão mais por conta, pelo menos é o que eles falam, por conta da alimentação. Por exemplo, começaram as aulas hoje, eles não vão as aulas hoje, entregam o leite, hoje entregam o leite, amanha tá todo mundo lá, porque um fala pro outro, o distribuiu o leite vai lá pegar, se não pegar eles devolvem. Então é pela questão socioeconômica pelos alunos, é o que ajuda, é o material a maioria dos que vão são alunos muito pobres, que não sabem se comportar, por exemplo, num cinema, não sabe se comportar num cinema, nos, por exemplo, levamos ele no passado, eles não sabem prestar atenção. No governo da Marta ela deu mais de 50 ônibus, não precisava pagar ônibus ela dava o ônibus, era da secretaria municipal de educação. Então acho que fugi um pouco da pergunta? Como eu vejo a educação. É complicado, por exemplo, o governo, vou citar nomes está, do governador? Tem algum problema? O governo Alkimim do PSDB que está aí há dez anos, ele fala uma coisa na televisão e pra nós ele faz outra. Então o que o pai vê na televisão os alunos não vêem na escola. Então é complicado, o ensino está ruim, todo mundo sabe que está ruim, está ruim porque todo mundo sabe que professor ele se prepara para dar aula, só que com a quantidade de aula que ele dá, ele não dá com a qualidade que ele poderia dá. Professor que começa a dar aula 7 horas da manhã quando chega às 7 horas da noite ele vai ter condição de fazer o que numa sala de aula? Fisicamente ele já não mais tem condição nenhuma, a cabeça dele já não pensa direito. Eu vivi muito isso, hoje graças a Deus eu não dou aula mais a noite, não que eu não goste do EJA, mas é que psicologicamente cansa muito. Eu tenho a JEI, aquele horário de estudo de projeto a noite, que já é puxado. Então eu acho o ensino público hoje muito defasado e ao mesmo tempo o governo agora está pagando cursos bons para os professores à noite, a oportunidade que eu tive de estudar na PUC, de aprender Prática com a professora Helenice, a Prática de ensino legal e diferente meus colegas estão aprendendo agora, nesse curso a Teia do Sabe, eles não tiveram isso, pelo menos os que eu conheço da mesma escola. A Prefeitura também está muito defasada difícil dar aula, está ruim, está ruim. No meu ponto de vista eu acho que o governo tinha que realmente, não falar que vai dar aumento, mas dar o ativo, por exemplo, agora ele falou que vai dar 15% de aumento, mas na verdade não é isso, é 0,6, a gente fez as contas lá, vai dar 0,6, o Serra falou que deu aumento deu 0,1%. Então na televisão eles mostram uma coisa, e o pai fala “Eles estão ganhando bem, olha lá”. Lá na Prefeitura é a mesma coisa no Estado é a mesma coisa, o pai vê na televisão, mas na verdade ele sabe manipular a reportagem, ele sabe manipular. Aí junta a mídia contra o professor. Eu acredito que os professores entram em sala de aula querendo dar o melhor de si, mas não conseguem, até por conta do aluno que não vai com vontade de estudar, entendeu, acho que eu respondi. É muito difícil essa pergunta. Eu sou totalmente contra é Progressão Continuada isso é uma falácia isso aí só prejudicou o professor, porque os alunos querem só ter canudo, ter diploma, mas não quer aprender, eles não sabem que eles vão ser cobrados não é só de ter o canudo, mas de ter de saber fazer, então a letra deles é horrível, digo “olha você não vai arrumar emprego com essa letra”, professora até lá eu dou um jeito, pro que eu faço é no computador não preciso saber escrever. Então a gente tem muitas dificuldades, quem escreve pra alguém ler, mas ele acha que não vai precisar escrever ninguém cobra, “Há professora, tudo bem, na boa, na boa”, assim que eles falam.

O professor de História Hoje
Ser professor de história é tudo de bom vamos dizer assim, porque você pode estar trabalhando, sobre a 1ª guerra e a 2ª guerra mundial e junto com isso você pode estar trabalhando, mexendo, tentando, que os alunos tenham valores humanos. Então essa nossa matéria ela possibilita o professor a trabalhar não só o conteúdo que a gente tem que trabalhar, mas também com a questão dos valores mesmo, sabe, solidariedade, valores humanos mesmo de amizade, isso que se perde na questão capitalista agente tem a possibilidade de estar trabalhando, a família, a mãe, o pai, a criança, vamos trabalhar hoje a amizade, amizade pela amizade não, vamos trabalhar na história a questão da solidariedade, daí a gente pega momentos que aconteceu, naquela matéria, você vai lá fusa acha, então isso é importante, entendeu. Porque eu acho que estudar a história pela história é muito maçante. Nem tudo mundo quer saber o que aconteceu na Revolução Francesa, mas eles querem saber como era o jovem daquela época, o que acontecia de bom naquela época. Aí tem a história oficial e a história, vai por trás assim, através das imagens, música da época, a Marselhesa, dá esse sentido naquele momento. No fundamental então deixa eu esquecer o médio é mais fácil falar do médio, porque eles são maiores entendem mais rápido, tem reprovação. É a crítica eu acho que desde pequeno o aluno 5ª série, pequenininho ali, ele não deve aceitar tudo na vida que é colocado, ele não deve se conformar com o que acontece com a vida dele, a gente tem mil realidades, pai largado mãe largada, pai bêbado, tem pai que fuma maconha na sala de casa, a mãe é mãe de programa, a família só leva o filho a noite e fica largado pela rua. Então essa realidade da escola pública, então eu vou falar da escola pública municipal que é onde eu dou aula de 5ª a 8ª. Essa realidade dura, essas crianças ficam perdidas no mundo, se deixar eles não lavam a camiseta semana inteira, ficam com a mesma camiseta que eles brincam que eles jogam bola que eles dormem, até o banho a gente tem que falar, até o cabelo tem que pedir pra lavar. Outro dia me peguei ensinando a menina a lavar a camiseta, menina de 7ª série, logicamente que eu não vou falar isso pra todo mundo. Então essa miséria de vida que eles têm então através da história mostra que existiram momentos assim, misérias de vida assim, pra que eles não abaixem a cabeça que eles conseguiram. Não quero que o aluno aprenda sobre decorar o que é a Guerra dos Farrapos, ou as Grandes Navegações Marítimas, ou qual é a importância de estudar Pedro Álvares Cabral? Mas é que naquele momento existiram pessoas que estavam com a vida também muito ruim, negros a questão do índio o massacre indígena e que eles lutaram, a gente pode trabalhar a questão do negro escravizados, explorados, mas que conseguiram sua independência com a sua mão, não foi a princesa Isabel bonitinha que assinou e foi por causa dela, do sistema da Inglaterra que fez com que o Brasil fosse libertando seus escravos, aí, teve a Lei do Ventre Livre, e assim já tinha conquistado a independência nos quilombos, o que tinha nos quilombos, eles plantavam, eles colhiam, ensinavam à seus filhos a própria cultura do negro. Através disso você fala também da vida dele, você não pode abaixar a cabeça você tem que levantar e conquistar seu espaço nessa sociedade. Então eu quando vou fazer um planejamento eu penso nisso, o que eu quero de melhor pra esses alunos, eles não podem abaixar a cabeça eles têm de estudar pra conseguir um espaço nessa sociedade, eles não podem ser excluídos.

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